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domingo, 31 de julho de 2022

Dia de Sto. Inácio de Loiola


Duarte Melo - diante do impactante altar em talha na belíssima Igreja dos Jesuítas em Ponta Delgada


[Notas soltas a terminar o Dia de Santo Inácio de Loiola] Ao longo do dia foi-me ecoando como as nossas decisões podem marcar parte da humanidade. A maioria das vezes a pequena escala, mas algumas, como aconteceu com Santo Inácio, a grande escala. Quer eu queira quer não, desde há uns anos até esta altura da minha vida, os meus dias pautam-se imbuídos pela espiritualidade que emanou deste homem, a partir da sua existência e relação com Deus. Isto é forte: somos marcados pelas existências e decisões uns dos outros.


Sinto-me muito agradecido por Santo Inácio. Sinto-me muito agradecido por ter fundado a Companhia de Jesus. Sinto-me muito agradecido pelos Exercícios Espirituais. Sinto-me muito agradecido pelos meus Companheiros. Sinto-me muito agradecido por todas as pessoas que conheci como jesuíta.


Conta-se que Inácio, já mais no final da vida, quando passeava, dizia que até das flores ouvia Deus, fazendo juz a uma das suas máximas: encontrar Deus em todas as coisas. Se se abre o coração à liberdade interior, começa-se a ver a realidade de forma renovada. E as nossas decisões, desde aí, poderão ser transformadoras de mundo. E a ser, que sejam para o amor.


sexta-feira, 15 de julho de 2022

Ser pequeno


[Notas soltas ao lusco-fusco] Há momentos em que me sinto imensamente pequeno. E não é nada angustiante. Pelo contrário, há grande paz, como se fosse encontrando o lugar onde pousar o ser. É terra. Recordo há uns anos sentir-me volátil, quase etéreo. Desejar isso. Querer a todo o custo evadir-me. Hoje percebo como formas de fugas a dores, perguntas, travessias de feridas da existência. Hoje, com pés em terra, aprofundando raízes, atrevo-me à densidade do presente, permitindo cada vez mais dar nome a cada sensação. Além de libertador, abre mais um pouco a compreensão da complexidade de quem somos. Poeiras de Universo, diria Carl Sagan. Templos de Deus, diria S. Paulo. Meus Irmãos, disse Jesus. Isso tem-me aumentado a consciência da intensidade de cada gesto, do mais banal ao mais intenso, do mais sombrio ao mais luminoso. Apercebo-me mais fortemente, e dói que se farta, quando faço mal a alguém. Só o Bem é lugar de Vida. E percebo como só se pode crescer até ao tamanho de semente. Deixo que a noite me atravesse de novo amanhecer.


quarta-feira, 6 de julho de 2022

Redes sociais



Eugénia Saraiva



[Notas soltas sobre a minha presença nas redes sociais] Há dias, a propósito do Dias Mundial das Redes Sociais, publiquei um vídeo a partilhar a importância e os desafios destes meios de comunicação. Falava do impacto das publicações e do que isso significa no meu pensar e rezar. Volto ao tema, já que entretanto passei a marca dos 20 mil seguidores no Instagram e uma publicação minha passou a marca de alcance de mais de 147 mil contas.


Desde já, agradeço a confiança a quem aqui vem e fica. Se quando passei a marca de 10 mil seguidores, senti, confesso, vaidade e ego inchado, que, de algum modo, acalmei não dizendo nada sobre isso, agora sinto respeito e aumento de responsabilidade, com a reverência de estar diante de muitas pessoas, ainda que virtualmente. Não sei o que é estar num sítio a falar para 147 mil pessoas. Tal é possível nestes meios. Também, e isso custa-me tenho a dizer, vou tendo mais dificuldade em responder sobretudo às mensagens com pedidos vários, em particular de ajuda. Certo é que levo todas as pessoas e as suas vidas à oração.


Para quem cá chegou recentemente, sou muito livre, no conteúdo e no timming, no que publico. É fácil ir para o que dá “likes”, mas não quero e já não necessito desse caminho. Quero, sim, ser ponte e que se possa encontrar conforto e possibilidade de reflexão, libertando de polarizações rápidas e desumanas.


Seja como for, e agora um toque de humor, acho que já me consideram influencer. Já recebo mails de empresas a pedir publicidade em troca de algo. Empresas de cosméticos, Tupperware, roupas femininas. Já me imagino a fazer um giveaway:


Vai a caminho de Fátima? Leve o tupperware mini, para comer a fruta desidratada a cada 3 kms. Entretanto, ponha este creme e, claro, vista-se com frescura. Use o código PAULO-SJ-PEREGRINO-50.


É isso: agradeço a confiança e a compreensão se surgir falta de resposta.


Haja humildade, vida e alegria!


quarta-feira, 8 de junho de 2022

Céu sem véus


[Notas soltas ao anoitecer] Há dias dei por mim a pensar no céu sem véus. Esse pensamento tem-me acompanhado. O cru da realidade: do sentir, dos desejos, dos impulsos, das acções, dos motivos e razões, do inconsciente ao verdadeiramente consciente. 


Ajudar as pessoas que escuto a descobrir, desbravar, desvelar a sua verdade exige sabedoria. Para isso, tenho de ir percebendo esse significado para saber como promover essa ajuda com a delicadeza que merece o terreno sagrado da vida de cada pessoa. Também, e será mesmo sobretudo, para saber o meu limite na ajuda. 


No meu tempo de silêncio tenho-me dedicado mais à leitura. De alma, como é natural. E de textos de outros. Terminei há dias “As velas ardem até ao fim” de Sándor Márai. Várias passagens deixaram-me em silêncio, a pensar. A boa literatura tem mesmo o condão de nos pôr a relativizar dramas existenciais. Ou então, a pô-los no modo certo, que nos ajudem a crescer como pessoas mais profundamente humanas. Todas as histórias que escuto e as que leio fazem-me rezar o céu e os véus. Melhor, os não véus no céu. 


O véu rasga-se com a morte de Jesus. Não é um véu qualquer. É o do templo. O que impedia ver o Santo dos Santos. A morte abre caminho para a verdade. Na escuta, faço por cumprir um propósito: que a pessoa seja um pouco mais livre de véus.


Pergunto-me se não será isto que nos faz ser mais humanos uns com os outros: ajudarmo-nos a ser mais céu.


quarta-feira, 25 de maio de 2022

A espiritualidade humaniza





[Notas soltas em ecos de celebrações e viagens interiores pela ilha de São Miguel]


A espiritualidade humaniza-nos. Se bem que encontro muito medo dela. Na confusão de se querer racionalizar tudo, como justificações rápidas para o desconhecido, a dimensão espiritual fica posta num canto dos simples, dos pobres, até mesmo dos miseráveis. Destrata-se o espiritual, diante da soberba do intelectual. Mas tal é sinal de medo. Há sempre medo do desconhecido. E dão-se fugas e bloqueios.


Mas, a espiritualidade humaniza-nos.


Na Missa de Domingo, estando de lado para o andor do Senhor Santo Cristo dos Milagres, apenas tinha diante as flores e o tecido. Tentava imaginar o rosto. No dia anterior, na Procissão das Promessas, estando no meio da multidão, e como é bom como padre estar por vezes no meio da multidão, vi os olhares carregados de silêncios e de histórias que clamaram promessas. O mistério dos pequenos que sabem clamar. Porque nas entranhas do mesmo mistério sabem que Deus ouve o clamor do Povo. Na Missa olhei o tecido e as flores e começaram a emergir os milhares de olhares que teceram o padrão a ladear o Cristo. Olhares carregados de fé. Senti-me a diminuir. Não há estudo que explique esta fé. Simples. Despojada.


Dá-me desta fé, saiu-me em oração.


Fé que derruba poderes, abre perguntas, amplia silêncios, desmonta soberbas, faz-nos profundamente iguais. Como a luz das velas, em Fátima, que cada pessoa é. Todas as luzes, sem competir, em colaboração, ampliam a Luz-Comunidade que permite a paz. Não há necessidade de conflito, porque nos sabemos profundamente iguais na dignidade. 


Os pés descalços no mar de gente tocavam terra sagrada. Precisamos desse caminho de verdade connosco e com Deus para amar de forma adulta.


A espiritualidade bem vivida humaniza(-nos).

domingo, 8 de maio de 2022

Dia do Bom Pastor


Paulo - Lovely Moments


[Notas soltas ao anoitecer do dia do Bom Pastor] Encontro ternura na palavra pastor. Ternura, silêncio e pele marcada pelo tempo. Cada pessoa tem em si algo de pastor, de pastora. Essa ternura de quem cria vínculos com nomes a serem cuidados. A ternura de quem sente a intimidade que confia o segredo da vida, que quer que o outro seja vigoroso na luz a dar. Imagino Jesus com olhar de ternura por cada pessoa, até por aquelas que o rejeitam, sobretudo em nome de Deus.


Daí o silêncio na palavra pastor. São horas de contemplação, de deixar-se conhecer no mais profundo do ser. Os pastores guardam o infinito no olhar, de alegrias e dores. Os pastores foram os primeiros a ver o Menino nascido. Porque estavam fora. Estando fora, a perspectiva da vida é distinta, simplificando para ser prático. Entre vales, montes e valetas não há rodeios. O caminho tem de ser feito. Mas antes visto, sentido, atravessado dia após dia, numa fusão de pés assentes na terra e olhar ao alto. O silêncio de quem se permite escutar a voz única de cada ovelha, de cada ser, de cada estrela.


Torna-se sabedoria marcada em pele. De mãos que acariciam o cordeiro recém-nascido ou saram a ferida da ovelha que já entregou lã e vida, permitindo-se ir em paz. De rosto esculpido pelo sol que atravessa as horas e tantos dizeres, em jeito de cantares de raízes, caminhos, nuvens e noites.


Sou pastor. Sou ovelha. Somos ovelhas. Somos pastores. Sejamos ternura, silêncio e homens e mulheres de pele marcada de infinito. É o que Ele nos pede: na simplicidade, seremos um com Ele, a acolher. E libertando competições, perceberemos que temos todos os montes e vales para contemplar. E amar.


terça-feira, 3 de maio de 2022

Rezar pelas vocações


Storytellers


[Notas soltas sobre vocação à vida religiosa] Se há coisa que me custa é responder que não a uma celebração ou acompanhamento em direcção espiritual. É isto: não consigo mesmo. Brinco a dizer que chumbei a Milagres III, onde se aprende a bilocação. Mas peço algo: que se reze pelas vocações. 


Parece-me que há muitas pessoas que têm imagens tais sobre a vida religiosa que as impede de se questionar sobre esta vocação. Então, seria bom que perdessem o medo de perguntar e desmontar essas imagens. Até podem encontrar algo que confirme partes menos simpáticas. Isso não é sinal de falta de vocação. Quem sabe é Deus a chamar para promover mudanças que levem a vida religiosa ser mais d’Ele. Tenho escutado pessoas que se arrependem de não terem feito um discernimento sério sobre a sua vocação de vida. É que a vontade de Deus, seja ela qual for, é sempre para o melhor para cada um de nós. 


Deus quer-nos felizes. Ponto. 


E é bom ser feliz na vocação a que se é chamado(a). 


Se alguém está com questões vocacionais, apesar do medo, procure quem ajude a fazer o caminho de discernimento. As outras pessoas podem rezar, ainda mais nesta semana de oração pelas vocações. 


sexta-feira, 15 de abril de 2022

Sexta-feira Santa


[Notas soltas muito pessoais em noite de Sexta-feira Santa] Há dias partilhava o quanto me marca o silêncio nesta Semana. Hoje, torna-se quase sufocante, depois do último expiro de Jesus. Enquanto escutava o relato da Paixão, o imaginário já não vagueava apenas em imagens de filmes ou livros, mas, apesar de todas as diferenças, surgiam-me as ruas, vielas, espaços de Jerusalém. Voltei a sentir o impacto daquele lugar, em particular do Santo Sepulcro. Ali, o silêncio da entrega carregada de nomes.


Os últimos tempos têm sido cheios de escuta. Apesar das muitas técnicas e sabedoria para não permitir que as histórias me abalroem a alma, hoje, no momento da adoração da Cruz, vieram-me ao coração quase cada uma delas, em particular as de grande sofrimento, físico, psicológico e existencial. Nós padres, com todos os defeitos que possamos ter, somos transportados para este momento, onde, com a Sua ajuda, também carregamos as dores de tanta gente, juntando às nossas próprias. Ter estado no Túmulo de Jesus ajudou-me a aprofundar a consciência do quanto Ele confia em nós para sermos dadores de vida. É preciso a morte para não nos perdermos no nosso poder. É preciso a morte para perceber que de nada adianta estarmos com mesquinhez de coisinhas de aparente fé e defesa de Deus, levando a segregar. 


Apesar disso ainda se continua a gritar crucifica-o nos abusos de todo o tipo. Estamos em tempos que nos rasgam a alma em questões de existência e não estamos a parar para pensar seriamente nisto. Sinto a cruz presente em tanto no mundo. E Ele não desiste de a carregar. Muitas vezes quer-se que Deus arrase com o mal. E Ele fê-lo: tomando-o sobre si e morrendo. Rápido é ripostar. Lento e exigente é amar. E Ele amou.


Nesta noite, em Vigília, volto àquela outra junto ao Túmulo: envolvido de escuridão da morte, na esperança da Vida, peço para sermos Luz, sermos Paz.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Intenso silêncio


[Notas soltas muito pessoais, em Quarta-feira da Semana Santa] Apesar das azáfamas características destes dias, sinto-me sempre envolvido por um estranho e intenso silêncio. Nas ruas e casas fazem-se as limpezas de Páscoa. Fico a pensar nas limpezas de alma. Há momentos que tenho tudo para uma boa dose de maledicência. Recordo os momentos que falei mal para ganhar cumplicidade. É tão fácil. Ainda mais quando se sabe que a outra pessoa também não gosta de quem se vai falar mal. Mas tudo isto desumaniza.


A rezar a figura de Judas, que rapidamente é posto como o traidor, penso no mecanismo de defesa de matar o outro na sua dignidade. Curioso como ouço tantas vezes justificar não ter pecados com o “não mato, nem roubo”. Sorrio. Tantas vezes matei com o olhar, com a palavra. Tantas vezes roubei o tempo, a verdade e a beleza. Pequei, peco, ao desajustar-me no amor. 


Nestes dias envolve-me o silêncio. Como que um casulo a limpar-me a alma e a recordar a transformação necessária ao amor. A falar mal só gasto oportunidades de vida. Quero doses de bem. Para mim. Para os outros. Para o mundo. Com Judas, aprendo a humildade de reconhecer a sombra e a possibilidade de entregar alguém injustamente. Com Jesus, aprendo o difícil e exigente gesto de dar a outra face.


Continuo em caminho de liberdade e de limpeza de alma, tentando ser Luz, tentando ser Paz.


domingo, 10 de abril de 2022

Domingo de Ramos


[Notas soltas em Domingo de Ramos] Quando olho uma nuvem a tapar o sol, sinto silêncio e suspensão de tempo. Ainda mais a iniciar esta Semana. Antes, em tempos idos, o Santo dos Santos estava coberto por um véu. Ainda é um pouco assim com o Mistério. Não se pode olhar directamente, como ao Sol. Não se pode olhar directamente para Deus. Ou não se podia. O rosto da Sarça Ardente ganhou carne em Jesus. Todos os Seus gestos e palavras estava direccionados para o amor. Até aos inimigos. Isso afrontou os poderes religiosos e políticos. Gostam de ter véus, como forma de reforçar o poder. Para si mesmos, entenda-se. Os outros que se subjuguem. E Deus dá-nos liberdade. No amor! Será sempre esse o lugar de verdadeira humanidade. E Jesus rasga todos os véus que nos impedem de ser divinos com Ele, sobretudo o maior de todos: a morte. O tempo suspende-se. No silêncio rezo: que bom seria se fôssemos capazes de rasgar mais um pouco o que nos impede de amar o próximo como a nós mesmos. A nuvem dissipar-se-ia e todos ficaríamos iluminados.

terça-feira, 5 de abril de 2022

Raridades


Nuno Gonçalves


[Notas soltas com coisas na vida de um padre] Somos rodeados de preconceitos e estereótipos. Sejam de nós para os outros, sejam sobres nós. A idealização de padrões relacionais, profissões, vocações, está muito presente na construção do que se espera do outro. Por vezes, faz sentido: espera-se que o professor ensine, a médica ajude a curar, o padre celebre e acolha. Outras vezes, não: ser super-algo-para-agradar. Depois, vêm as surpresas: ah, o padre dança, ah o padre fala com naturalidade sobre temas tabu, ah o padre é normal. Mais do que julgamentos da realidade, somos chamados à humildade do descobrir e perceber o que faz sentido no que ajuda a humanizar. E podemos ganhar tanto. É no respeito, desmontando estereótipos, que vemos a outra pessoa como pessoa que é. O que me ri quando vi esta fotografia. Imagino o pensamento do senhor enquanto me filmava a dançar: “tenho de guardar este cromo na colecção de personagens raras”. Que bom seria se todos nos descobríssemos raros e felizes, ajudando-nos uns aos outros na alegria. Haja vida!

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Lugar(es)


[Notas soltas muito pessoais] Durante muito tempo senti-me fora do lugar. Como se perdido e a não pertencer a este mundo. Hoje sei ser um sentir de fuga, para não enfrentar as dores mais profundas. Ainda assim, a sensação cresce quando sou confrontado com histórias dilacerantes de dores, violência, abusos. Que quero? Que posso fazer? Que posso realmente fazer? Latejam as perguntas. 


Há pouco, num pequeno passeio pela quinta, vi os ramos das árvores a oscilar ao vento. Detenho-me nestas coisas. Uma pincelada de beleza. Uma pausa de eternidade. Entrecortada pelos ecos das imagens de destruição, de maldade sobre pessoas, na violência atroz. As árvores continuavam a oscilar ao vento. Encostei-me no muro se pedra. Pensei: que aconteceria se todos tivéssemos oportunidade de ver tudo sem filtros? Toda a nossa vida sem ponta de julgamento? Os medos, as vergonhas, os risos, os alívios, as irritações, os desejos, as pulsões, as prisões de alma, os gestos com ambiguidades, duplas intenções, as ânsias de poder e controlo do outro, tudo, diante das chaves da libertação pela verdade. Sim, a vida em nudez. Poderia haver grande probabilidade de não se aguentar. Por vezes, apesar de impedir crescimento, os auto-enganos são garantes de alguma estabilidade emocional. Nos tempos actuais, o medo de parar e reconhecer o que é sem rodeios é muito doloroso. Mas fundamental para a liberdade interior.


Precisamente por estarmos carregados de filtros de alma e de história(s), não podemos fazer essa jornada da busca de nós, de nos encontramo-nos em atitude de heroísmo. Como se sozinhos conquistássemos o mundo, nosso-interior, ou todo o outro exterior que não nos pertence. Precisamos do outro e do Outro. Precisamos de nos abrir ao sentido de comunidade, de que somos sendo com os outros. 


Parafraseando Daniel Faria, o lugar de que sou é feito de outros. Tenho-me encontrado nessa verdade crua de mim, do meu sentir mais profundo. E precisamos cada vez mais da claridade da verdade, da liberdade, do encontro, do perdão, do sentido do outro e do Outro. Sejamos Luz. Sejamos Paz.


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Um ramo de amendoeira entre luz e sombra


[Notas soltas sobre paternidade espiritual] Voltei a esta fotografia. Tirei-a nos meus dias de silêncio, em Exercícios. Fiquei parado a ver a flor de amendoeira. Reluzia com a subtileza do seu diálogo com os raios de sol. Pequena. Como um floco de neve. Recordei a lenda algarvia. Enquanto isso, no coração latejava esta passagem proposta para a oração, do profeta Jeremias: “Em seguida, o Senhor estendeu a sua mão, tocou-me nos lábios e disse-me: ‘Eis que ponho as minhas palavras na tua boca; a partir de hoje, dou-te poder sobre os povos e sobre os reinos, para arrancares e demolires, para arruinares e destruíres, para edificares e plantares.’ Depois foi-me dirigida a palavra do Senhor nestes termos: ‘Que vês, Jeremias?’ E eu respondi: ‘Vejo um ramo de amendoeira.’ ‘Viste bem - disse-me o Senhor - porque Eu vigiarei sobre a minha palavra para a fazer cumprir.’”


Recordo a sensação em mim enquanto rezava. Pequeno. Como a flor. Em luz e sombra. São tantas as vezes que peço a humildade a Deus, sabendo que Ele cumpre a Sua palavra. Como padre tenho imenso poder nas mãos. No olhar. No escutar. No falar. No agir. Atravessa-me mesmo a pequenez e a delicadeza da flor, com toda a responsabilidade que simbolicamente traz. Estes dias tenho-me emocionado, quando confirmo que só podemos viver a vocação com e por Deus. 


Quando escutamos a fragilidade de alguém, temos a sua vida nas mãos. É grande a responsabilidade. Cuidar bem dessa vida só é possível se estivermos centrados no respeito e constantemente conscientes, com toda a humildade diante de Deus, do poder de arrancar e demolir, arruinar e destruir, edificar e plantar. 


Por isso, é tão importante o silêncio. De pés no chão, a aprofundar raízes. A re-centrar o coração naquele que toca os lábios e o coração, sabendo que o poder é para O ajudar a que a Sua luz atravesse todas as sombras, em Primavera anunciada, naqueles e naquelas que confia a quem cuida espiritualmente. Na minha, nossa, pequenez, Ele engrandece nas suas vidas. Assim o creio. E as pétalas cairão dando lugar ao fruto.

domingo, 30 de janeiro de 2022

Escola de Famílias - (In)Fidelidade





[Notas soltas sobre a Escola de Famílias à volta da (in)fidelidade] Quando tenho de falar de temas humanos mais polémicos ou considerados tabu, deparo-me sempre com a necessidade de voltar ao básico. Volta que resulta muito da escuta e observação da realidade. Vou usar absolutos com o perigo de generalização, mas aqui vão: Todos queremos ser bons, especiais, únicos. Todos queremos ter famílias maravilhosas, perfeitas, dignas de publicação, com imensos filtros a dar leveza. Todos queremos não ter qualquer tipo de problemas. Todos queremos que não haja sofrimento no mundo e se for na vida pessoal mais ainda. Surgem as idealizações e as expectativas, junto com as comparações que impedem a constatação da realidade atravessada de luz e sombra. 


Voltar ao básico é recordar que somos seres de relação, manifestando-se em relações, elas mesmas atravessadas de: emoções, sentimentos, provocados pelo instinto de sobrevivência; educação e cultura; racionalidade; e espiritualidade. A fé, antes de irmos para a transcendência, estabelece-se desde o afecto de pele a pele quando nascemos, abrindo-se a realidade de confiança e/ou desconfiança conforme a realidade de vida que vivemos. Ser fiel, antes de ser algo moral, tem de ser trabalhado ao nível existencial. 


A traição e a infidelidade, na sua complexidade, muitas vezes estão ligadas a idealizações de realidade e, mais ainda, ao desconhecimento emocional diante do que se vive na imperfeição, nos desajustes, no sofrimento. O reencontro, a reparação, a reconciliação são possíveis, mas exigem muito trabalho individual e a dois. 


Ontem, falei um pouco mais de tudo isto. Antes, foi partilhado um forte, sentido e bonito testemunho de desencontro e de reconciliação e de seguida estivemos em conversa a Juliana, o Gonçalo e eu sobre como é trabalhar a fidelidade desde o discernimento, apoiados também em Deus. É de extrema importância falar de temas complexos com maturidade e respeito, como ajuda à humanização também da relação-família, ela mesma estruturante da sociedade. Deixo o link para quem quiser ver toda a sessão: https://youtu.be/3x2LycDL9Dg



terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Deus é simples


[Notas soltas sobre Advento] Tenho tido dias muito intensos a vários níveis. É bom. É a vida a acontecer (também e sobretudo para lá das redes sociais). Este advento tem sido muito preenchido de dádivas de esperança, também com muitos ecos dos efeitos em mim da viagem a Israel. E hoje avivou-se a memória, com este presente cheio de beleza, criado pela i.lust.tra.me, daquele momento único no Túmulo, de noite a rezar pelo mundo. Sai-me o sorriso, o silêncio e a gratidão a repassar no coração aqueles dias lá. E confirmo a missão: tenho pensado e rezado muito por tantas pessoas, ainda mais nestes tempos cheios de agitação. Brota da oração: Deus é simples e faz-se ainda mais simples em Menino. E nós complicamos. Precisamos mesmo de paragens de amor, de escuta, de renovar o sentido de caminho. Pois, precisamos de Natal: nascer, dar vida uns aos outros. Esta vida também de Deus que nasceu e a entregou. Pensar que está nas mãos de cada pessoa provocar nascer de vida nova. Ele desafia-nos a isso. Amanhã voltarei a falar de Natal em boa conversa com Tânia Ribas de Oliveira no “A Nossa Tarde” na RTP1. Sigo em caminho, na beleza de Deus a chegar.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Faz-se Luz em Corpo


[Notas soltas ao terminar o dia da Imaculada Conceição] Maria cumpre o faça-se a luz do início da criação. Com o Seu sim, nenhuma noite, sombra, escuridão, trevas se tornam algo fechado, mas passagens para a humildade de vida nova. E Deus não perde oportunidade de manifestar o Seu amor. Faz-se Luz em Corpo no ventre de Mulher. Ainda precisamos de muitos mais anos para compreender a igualdade na dignidade da Mulher? Deus já o vive, de forma particular, desde há coisa de 2000 e tal anos. Muitos (e muitas) ainda preferem o lugar de comodismo antigo. Vale-nos que outros tantos e tantas que conseguem perceber a força da humildade de Deus e de Maria: ambos vivem a Luz atravessada de Amor. E tudo, desde aí, muda.


domingo, 21 de novembro de 2021

Até breve Jerusalém, Shalom Adonai





[Notas soltas com um “até breve” Jerusalém] A intensidade dos dias traduz-se pela sensação de muito vivido. A diversidade cultural e religiosa, junto com a semelhança: todos, apesar de tudo, somos pessoas. Marcadas por uma educação: por vezes de segregação, mas, espero que mais vezes, de relação, comunhão, proximidade, compreensão. Este último caminho é mais exigente. Implica, sobretudo, desmontar preconceitos, atravessar sombras, para abrir horizontes de luz e de amor. Antes de sair, passei novamente pelo Muro das Lamentações. Há a tradição de deixar um papel com intenções. Pensei escrever uma oração ou umas “palavras bonitas”. No entanto, por tantas pessoas e orações que levava no coração, tantas pedidas, tanto vivido, fazia sentido deixar literalmente todas as letras verdes. As mesmas que coloquei no altar do Túmulo onde celebrei Missa. Sinto muita gratidão, em especial ao grupo que acompanhei, que também me ajudaram muito a ser padre e a viver estes dias. Voltarei a eles, em ecos com pensamentos soltos do muito vivido. Já em Portugal, digo: até breve, Jerusalém. Shalom Adonai.


sábado, 20 de novembro de 2021

Bethlehem







[Notas soltas com breve oração em Bethlehem] 


Por vezes sinto-me como Moisés no Monte Sinai: dias que são anos. Aqui o tempo tem tal densidade que é difícil compreender o que se passa. Talvez não seja para agora. Não é mesmo. Continuei a observar e os ecos virão nos próximos dias. Hoje, em Bethlehem, na gruta da Natividade, depois de acender velas e abençoar com o óleo da lamparina que ilumina o sítio do nascimento, abri o coração numa breve oração.


Agradeço-Te 

os abraços que se tornam pontes

a recordar como o Teu nascer 

em corpo, em carne, continua.


Entrego-Te

as esperanças de tanta gente.


Peço-Te

o fim de muros, barreiras, fronteiras,

sociais, religiosos, políticos, culturais,

a fim de que possamos ser mais Corpo

uns com os outros e no mistério da Vida.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Vigília no Santo Sepulcro






[Notas soltas de Jerusalém] Estive 9 horas sozinho, sem contar com os monges e frades residentes, no Santuário do Santo Sepulcro. A porta fecha solenemente às 19h, trancada por dentro e por fora, vigiada pelos guardiães das três tradições cristãs que têm a custódia do lugar: Ortodoxos gregos, Arménios e Latinos (Católicos, representados pelos Franciscanos). Alimentam-se as lamparinas de azeite. Acendi a que ilumina a entrada do Túmulo, ficando hoje todo o dia a receber os peregrinos. Entrei no Túmulo e permaneci 3 horas a rezar. 


O silêncio era preenchido por paz e por nomes que me vinham com toda a naturalidade ao coração. Pedi perdão pelo que contribui de mal ao mundo e a pessoas concretas. Em vários momentos, senti-me profundamente em casa. Não tanto ali, espaço físico, mas de sentir a fé neste Cristo que morreu e ressuscitou por cada pessoa. Essa casa que é o Seu Corpo, morto e ressuscitado. 


Muitas letras verdes foram surgindo, a repassar a história dos últimos tempos. Agradeci muito: das grandes coisas ao detalhe. Pedi para que cada pessoa fosse capaz de acolher, aceitar e integrar as suas luzes e sombras. Pedi por este Ano Inaciano, rezando por cada companheiro jesuíta, indo de Comunidade a Comunidade. Pedi por toda a Igreja, em particular pelas feridas que infligimos e pelo sínodo que atravessamos. Entreguei, pausadamente, nomes de A a Z. 


Pelas 23h30 começaram as diferentes liturgias diante do Calvário e do Túmulo. Eu fui para um canto, em frente à pequena capela dos Coptas. Aí fiquei. O silêncio habitado de profunda paz acompanhou-me. Senti o tempo a passar, sem lentidão ou rapidez, mas suspenso no presente. Era ali que tinha de estar. Não para ficar, mas para ir e anunciar a Luz e Paz do Ressuscitado. Às 4 da manhã abriram as portas. E saí, leve com o coração cheio de Vida. [A primeira fotografia foi de quando lá entrei há dias, para ilustrar onde fiquei a rezar com tempo.]


quarta-feira, 17 de novembro de 2021

O tempo suspende-se





[Notas soltas ao adormecer em Jerusalém] Não sei que escrever. Parece-me pouco. Até mesmo quase miserável ante todo o sentir, sobre ruas e ruelas carregadas de mistério e de banalidade. Repito-me no contraste. Mas é isso que me mexe e faz sentir o sagrado em cada coração, para lá de cores. O silêncio das seis da manhã, enquanto celebrava Missa na Capela da Crucificação, que alternava com os cânticos de lamentação dos coptas ante o túmulo. As pedras com milhares de anos que rodearam o Santo dos Santos que, como escrevia ontem, gritam por encontro. As conversas de partilha de vida com laivos de conversão. O tempo suspende-se. Em cada canto especial, repito a oração “entrego-Te quem me confias, quem dirigi um simples olhar e quem, para lá de credos, se dispõe a acolher o amor”.