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quinta-feira, 5 de outubro de 2017

"Precisamos de forças para reconstruir"




Teresa Lamas Serra


[Secção outras perspectivas, a partir da minha escuta de quem passou por terras queimadas e não quer que tal caia em esquecimento] Nota-se pequenos despontares de verde. Verde eucalipto que tem demasiada força. “Será que nós humanos a temos?” Na rapidez dos tempos, já passaram meses, em plural que aumenta a distância e diminui a importância do tema. Já se gritou, chorou, chocou com a desgraça, contudo “menina, nas televisões já se está noutra.” Ainda assim, as ondas continuam em efeito de saudade e mágoa. Já não é tema político, social, nacional. As terras e os corações queimados estão longe dos écrans e de agendas. No entanto, o luto pelas mais de 60 pessoas está muito vivo em gente que não se conforma com a injustiça. Mas, “vai-se perdendo forças de lutar. Precisamos delas para reconstruir.”

quarta-feira, 19 de julho de 2017

"Não nos esqueçam"




Teresa Lamas Serra

[Secção outras perspectivas, a partir da minha escuta de quem passou por terras queimadas e não quer que tal caia em esquecimento] “Há pouco voltei a pegar na enxada e cavei a terra ainda escurecida. Indecisa se semear ou plantar. Os pensamentos estavam na filha, genro e netos que voltei a ter em casa. Perderam tudo. O que se pode semear, menina, depois da desgraça? Até aos cães custa ladrar e aos gatos miar, por terem as gargantas sufocadas do seu modo de gritar. Coitaditos. Não saem do pensamento aquelas horas de agonia. 64 mortos. Eu conhecia, menina. Eu conhecia. Há que refazer a vida. Mas a terra ainda está escurecida.” Em lágrimas, “não nos esqueçam, menina. Não nos esqueçam”.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Ver os rebentos depois da desgraça




Teresa Lamas Serra - Castanheira de Pêra


[Secção outras perspectivas, a partir da minha escuta de quem passou por terras queimadas e não quer que tal caia em esquecimento] Chegaram as informações por imagens e palavras, em sons de gritos de desespero e dor, com a aflição das labaredas que desfocam qualquer olhar. Não interessou a política ou os eucaliptos no momento, já que a tensão entre a fuga e o ficar-se para proteger o impossível é a sensação que abafa qualquer reflexão. Choveu, água e solidariedade, acudindo gente perdida de corpo e de alma, de sonhos e certezas. Morreu gente, muita gente. As estradas revelam o negro desolador, dando espaço ao silêncio da impotência e às perguntas de quem chega para ajudar. "Foi preciso muita morte para chegarem os médicos. Quanto tempo ficarão até voltarmos a ser novamente esquecidos?" O tom revelava o misto de agradecimento e o medo da solidão. "Dinheiro? Roupa? Enterrei as minhas galinhas e cabras." Enterrou, dizia com o olhar, a companhia e o sustento. "Agora, tenho de esperar que os senhores importantes decidam o que nunca viram. Gostava tanto que viessem aqui dormir uns dias. Sem palavras. Só dormir, deixar passar as horas e ver os rebentos depois da desgraça."