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domingo, 7 de agosto de 2022

Crianças e Campo(s)


[Secção pensamentos soltos depois de celebrar Missas em Campos de Férias] A primeira coisa que me apetece dizer: tirem as crianças de dentro das casas, levem-nas para a terra, a escavá-la e assim descobrir a beleza das raízes; a subir árvores e assim descobrir o imenso do céu; a banhar-se no rio e envolverem-se de água a atravessar a alma; a encontrar amigos e amigas que, em conjunto, constroem respeito mútuo, compreensão e serviço.


Já foram alguns anos a animar Campos de Férias. Eu era (sou?) conhecido como aquele que “odeia crianças” (dito a revirar olhos), fazendo com que não me largassem. A táctica das cócegas é sempre maravilhosa. De tal maneira vem esse ódio, que estes dias celebrei o casamento de uma animada de há 18 anos, tinha ela 11 anos. Há grande riqueza nesses dias sem telemóvel, videojogos, comida ultra-nem-sei-o-quê, mas cheios de actividades, momentos de reflexão, pó, lama, banhos, noites de encanto. Sim, onde as crianças não têm de ser adultos em miniatura. E vi isto nestes Campos em que fui celebrar Missa: crianças felizes. Cheias de terra e pó e de alegria. Percebi numa das dinâmicas, que, a partir do tema geral, foram vendo novas todas as coisas.


As crianças ensinam-nos, a nós adultos, que não temos de estar em constante produtividade, a provar a existência, a comparar constantemente tudo para sermos os melhores. É possível brincar e aprender a respeitar. É possível parar e aprender a servir. É possível mergulhar e aprender a escutar. Levemos as crianças para a terra, deixando que Deus as modele para a alegria. Obrigado a todos os animadores que tornam tudo isto possível. Também vocês são o rosto de Deus para todos estes participantes. E a vida acontece.


quarta-feira, 20 de julho de 2022

Polémicas


[Secção pensamentos soltos sobre polémicas] A minha travessia de vida e a escuta de muitas travessias de vidas de tantas pessoas tem-me feito constatar algo que nada tendo de extraordinário tem-me ajudado a encontrar caminhos de sensatez: todos somos luz atravessada de sombra e todos somos sombra atravessada de luz. Ambas as realidades despertam uma complexidade de outras internas, onde no meio de muitos dons, alegrias, esperanças, há também imensas dores, angústias, tristezas. Em cada pessoa, há o legítimo desejo de respeito por ser quem é. Mesmo que esse ser quem é tenha características diferentes da normalidade (tanto a dizer sobre este termo). Tal nunca deveria ser motivo de ataque, ao ponto de provocar violência desmedida.


Chora-se (e bem, atenção!) a destruição que as guerras, em particular na Ucrânia, provocam. Mas, em nome de medos, muitos deles provavelmente inconscientes, alimentam-se fogueiras de tensões, provocando ódios, em acusações mútuas, que mais não fazem é dar espaço à anulação do outro. Seja a questão climática, a da sexualidade, a da economia, a da política, estão-se constantemente a criar polarizações que apenas contribuem para a desumanização. Há dias lia um post de Esther Perel em que colocava mesmo a questão da relação entre a segurança e a liberdade. Todos procuramos ambas. Diz ela que “presos nas nossas polaridades, estamos incapazes de reconciliar as nossas semelhanças (muito menos as diferenças)”. Em constantes monólogos de surdos, acaba-se por gritar, desfocando realidades, presos em crenças que tornam o ou os outros inimigos a abater.


E aqui não se trata de tolerar ou não. Antes disso, insisto muito, trata-se no caminho de escuta e trabalho pessoais, nas travessias de luz e sombra. “Quando era novo, era esperto e queria mudar o mundo. Hoje, sinto-me sábio, quero mudar-me a mim.”, afirmou Rumi. Estamos a precisar de silêncio para escutar o que nos ajude a reconciliar. Há quem ganhe com conflitos. Mas é mesmo uma pequena parcela de pessoas. A grande parte da humanidade, contribuindo para atenuar conflitos, ganhamos em respeito e vida.

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Laços familiares



[Secção pensamentos soltos sobre laços familiares] A família é lugar base da sociedade. Aí, do melhor ao pior, aprendem-se os modos de estar. A educação, desde o pegar ou não ao colo, o tipo de comida, a presença ou ausência de pai, mãe, irmãos, avós, tios, primos, acontece desde essa grande complexidade. A família não é uma abstracção, mas uma realidade concreta, a que cada elemento tem algo a dizer para o crescimento de todos.


É maravilhoso podermos dizer que tudo corre bem, que temos a melhor família do mundo, tirar fotografias de grupo alargado, com toda a felicidade. Que bom quando assim é. No entanto, todo o lado sombrio da família também precisa ser trabalhado. Não tem de ser uma fatalidade. Será duro certamente, sobretudo nos casos que se tem de manter o “bom nome da família”, muitas vezes à custa de mentiras e de violência. Mas, assumir o caminho de cura familiar, passa por um trabalho individual e de grupo. Cada pessoa reconhecer o seu lugar de dom e de limite. Também perceber que os cordões umbilicais têm de ser cortados, já que ninguém é extensão de ninguém. 


Tenho acompanhado famílias que se permitem curar. Para tal, arriscam a reconhecer as suas luzes e sombras. Mas, é fundamental perceber que o outro, seja pai, mãe, filho ou filha, avô ou avó, irmã ou irmão, tio ou tia, primo ou prima, não são posse de um estatuto existencial, mas relação que devem encaminhar para a liberdade e amor. Quando isso acontece, libertando-se os compadrios e nepotismos, os rancores e mágoas, toda a sociedade ganha com a maturidade familiar.

domingo, 1 de maio de 2022

Dia da Mãe


Nossa Senhora do Leite, na Gruta do Leite, em Belém - Palestina


[Secção pensamentos soltos em Dia da Mãe] Das relações mais complexas, senão mesmo a mais, é a mãe-filho, em particular, filha. Complexa não significa má nem boa, significa cheia de pormenores bio-psi-socio-espirituais. 


A palavra amém, vinda do hebraico ‘aman, usada como confirmação, reconhecimento de verdade do que foi dito, tem como primeira acepção o vínculo de confiança materna-filial. O útero e o cordão umbilical começam por ser lugar e troca de presença e tanta informação que permite a vida. Junta-se o desejo e com o nascimento bastante oxitocina, também conhecida como hormona do amor, para esse vínculo ser fortalecido com o cuidar, ajudando o novo ser a crescer, também em liberdade. Aqui toca-se o ponto: ajudar a crescer em liberdade. Não se forma apenas um cordão umbilical, mas muitos cordões como resultado dos vínculos, dos modelos de educação, de projecções, de idealizações, que têm necessariamente de ser cortados. Todos. É fácil perceber que se o cordão umbilical não é cortado, ambos morrem. Então, o mesmo acontece com os outros cordões. Tal não significa desprezar, ignorar, anular a relação, apenas transformá-la de modo a que ambos cresçam em maturidade, levando à responsável liberdade. Afinal, o amor não prende, liberta. E o amor materno-filial deve tornar-se o lugar de reconhecimento, agradecimento, cuidado e conforto sem qualquer cobrança. 


Quando se ama livremente deseja-se a vida da outra pessoa para lá de ser uma extensão da nossa. Faz todo o sentido dizer que as nossas mães são únicas, no melhor e no pior, porque únicos somos todos, no melhor e no pior. E fazendo crescimento na maturidade, tal abre-nos portas para uma maior compreensão e respeito, não só nas relações materno-filiais, como em todas as outras. Feliz dia da Mãe.


terça-feira, 29 de março de 2022

Sobre perguntas


[Secção pensamentos soltos com letras verdes] Estive a assistir ao Consultório do Amor da sexóloga Tânia Graça. Gosto de a ouvir, nas suas explicações mais direccionadas para a sexualidade. Para as minhas reflexões, sinto necessidade de sair das bolhas de conhecimento e ouvir outras perspectivas. Daí saem sínteses de aprendizagem, que humanizam. 


Às tantas, Tânia diz que é uma mulher que gosta de questionar, sendo para ela algo importante o de pôr as coisas em questão. Como comentário, deixei a frase das letras verdes. Um dos fundamentos da Filosofia é a pergunta. É preciso perder medo à pergunta. A meu ver é mesmo de grande densidade espiritual. Se não pergunto o que está para lá do lugar, fico estanque, não me ponho a caminho. Atenção, até pode ser uma opção ficar. E há que respeitar. O que quero dizer é que a pergunta alavanca movimento, dinamismo, intelectual, espiritual e existencial. 


No evangelho de hoje, Jesus pergunta: Queres ser curado? Mostra claramente que, mesmo desejando fazer o bem, não se quer impor. A pergunta é caminho de liberdade, para mim, para o outro, para a vida. Depois, no caminho, ir percepcionando as respostas. De forma adulta, com humildade de não sermos absolutos, integrá-las no crescimento. Isto de sermos inacabados é maravilhoso. Estamos em descoberta. Que seja para nos humanizarmos, mais e mais. Como? Respondendo cada pessoa, por exemplo, a duas simples perguntas: Quem sou? Como estou?


sexta-feira, 25 de março de 2022

Consagração



[Secção pensamentos soltos sobre este 25 de Março de 2022] Tirei esta fotografia há mais de um ano. Já noite dentro, onde fiquei pela força do silêncio que dali saía. A noite atravessada de luz pela Capelinha e colunata, com a cruz apontada ao alto. Trago-a hoje, em que, daqui a pouco, se dará a Consagração da Ucrânia e Rússia ao Coração de Maria, pelo Papa Francisco e Bispos por todo o mundo. 


A fé não é coisa pouca. Já li comentário a ridicularizar o acontecimento, “como se a fé resolvesse guerras”. Pois, é isso: a fé resolve guerras e muito mais. Um dos grandes problemas é se ter relegado a fé para lugares de infantilsmo moralista religioso, de um deus pronto a ser aplacado da ira com mezinhas e rituais. A fé é a base para que se crie laços de confiança, suporte, cooperação, colaboração, onde todos, sem excepção, partilhamos a mesma dignidade. Não é acaso ser ao Coração de Maria no dia em que celebramos a Anunciação. Deus não abdica da humanidade para se manifestar, melhor, para manifestar a vontade de que todos sejamos divinos. Conta com uma Mulher que dá o Sim. E sabendo que a fé tem muito de ventre materno, no laço que se estabelece com o cordão umbilical, então hoje é dia de recordar essa fé que, sim, pode acabar com guerras de formas humana e divina.


O texto que Francisco apresenta é, mais uma vez, de grande densidade: convida a que todos façamos um exame de consciência, de modo a que pela fé nos libertemos dos conflitos e encontremos a paz. O mistério da Encarnação dá-se pelo sim de Maria, esta Mulher que arriscou a vida pela e com fé. E dela nasceu o Príncipe da Paz, a Luz do Mundo, que desafiou a Humanidade a crescer na mesma Fé centrada no Amor. Hoje, para milhões de pessoas, é um dia com muito significado de fé e de esperança.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Pressão, pressões.


[Secção pensamentos soltos sobre critérios para candidatos a emprego] Parece que cada vez mais aparece “capacidade de trabalhar sob pressão” nas ofertas de emprego mais generalizadas. Não se tratam de ofertas para “gabinetes de crise”, “gabinetes de apoio em situação de catástrofe”, mas para “designer”, “marketing”, “áreas administrativas”, etc.. Dá que pensar.


Quando se fala, tanto de temas fracturantes e polémicos, como de aparentes banalidades, há que ter em conta o ser humano na sua existência total, para lá da sua funcionalidade. Mas, tal não acontece. A pessoa na sociedade actual corre o risco de ser mais uma peça de engrenagem, desculpem a expressão, mas “carne para canhão” numa empresa ou gabinete. Trabalhar em pressão até pode ser motivador, estimulando a criatividade, em determinados contextos. Mas, em situação prolongada, a pessoa vai-se deteriorando rapidamente nas muitas dimensões do ser. Por isso, normalizar-se o “trabalho sob pressão” é, a meu ver, perigoso a vários níveis. Para empresas sem cuidado e atenção pela pessoa, quem sofre esgotamentos pela pressão, sai e é substituída. A empresa segue. Pois, somos pessoas e não máquinas. 


Os últimos tempos têm sido totalmente atípicos, provocando alterações sociais sérias. Fala-se mais e bem de saúde mental. Mas, e sobre a saúde laboral? Normalizar “trabalho sob pressão” é contribuir para reduzir a pessoa a máquina ao serviço do sistema. E, repito, não somos peças, nem máquinas, mas pessoas, tanto quem busca emprego, como quem é emprega. A única pressão plenamente boa é a de um abraço ou aperto de mão a a afirmar que se está junto na colaboração para o trabalho ser mais humano e mais digno, dando tempo e espaço para contemplar e agradecer a vida.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Dia dos consagrados



Nuno Gonçalves


[Secção pensamentos soltos em dia dos consagrados] Tracei este dia na agenda para ser de descanso. Mais uns minutos na cama pela manhã, oração prolongada, leituras, afazeres de ministro (sim, sou, mas sem assento parlamentar. É um serviço comunitário), passeio pelo bosque, sesta longa, Missa, telefonemas e mensagens, daqui a pouco breve oração e dormir. Ah, comi. Ainda não vivo do ar. Se bem que quando vivia no ar, ouvi: “ah, vocês também comem?” Voltando a hoje, deu para pensar nisto de ser consagrado. E de tantas perguntas que surgem sobre a vocação religiosa. Fará sentido nos dias actuais?


A minha resposta é claramente óbvia. Sim. Entregar a vida totalmente, em comunidade, é um desafio tal como outras vocações. Se bem que, em particular como jesuíta, implica a disponibilidade de coração e de acção. E isso acarreta muito de vida, onde o tempo tem outra dimensão, impensável e impraticável caso tivesse família. Ainda assim, o alicerce profundo é o da espiritualidade. A relação com Deus que nos desafia à liberdade nesse serviço maior a quem mais precisa. Também atravessamos contradições, lutas interiores, silêncios e buscas de maior autenticidade, para podermos testemunhar Deus que nos quer a todos adultos na fé, com alegria. Em tempos, falava-se da vida religiosa como a perfeita caridade. Tenho dificuldade com o termo. A imperfeição também me, atrevo-me ao plural, nos corre nas veias. E ainda bem. Além de ver muita perfeição noutras vocações, a imperfeição torna-me mais próximo e empático com as vidas que acompanho. Pois, é bom deixarmos a comparação de a-minha-vida-é-melhor-que-a-tua. 


A decisão da vida religiosa tem mesmo de ser atravessada de confiança no chamamento por Deus. Dá-se sensação profunda de realização interior, que se manifesta, apesar de todos os cansaços, com a paz que nos descansa. O importante: tomar consciência de que somos colaboradores de humanidade e divindade, a sermos luz e alegria para o caminho de quem de nós se aproxima, apontando na direcção daquEle que vive a amar. Afinal, há que nos choc…, perdão, animar com amor e humor a vida uns dos outros.


quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Sobre sexualidade


[Secção pensamentos soltos sobre sexualidade] Os ecos do live com a Xia continuam a chegar. Entre mensagens de agradecimento e desabafos, é notório o impacto que aquele momento teve em tantas pessoas. Consciente das muitas fronteiras, sabendo que o humor seria o registo, houve oportunidade de, tal como gosto, boa conversa. Surgem muitos comentários positivos pela minha abertura para falar de temas como sexo, sexualidade e corpo. Pois, parece-me cada vez mais importante falar-se disto de forma madura, clara e adulta. A carência da educação sexual (que nada tem que ver com promoção de sexo) é gritante, levando a profundos desajustes no que realmente importa: o respeito pela dignidade da pessoa. 


Infelizmente, a formação demasiado moralista que castra a criança, impondo-lhe “nojos”, “vergonhas” e outras coisas que tais na sua fase genital, que é de descoberta sensível e física (repito, sensível e física), faz com que muitas pessoas estejam estagnadas aí, tornando a realidade sexual algo desde o conspurcado ao idolatrado. Pois, os extremos são perigosos. Depois, dado a piadas que, num momento têm graça, haja humor, sim, mas depois se se insiste… isso, é a confirmação de que ainda se está na fase sensível e física. É que do físico, há que passar ao relacional, ao encontro. E tal pode ser, em acto sexual. Ou não. A sexualidade implica afecto de entrega ao outro sem que necessariamente haja sexo. Esta consciência não acontece de um dia ao outro. É trabalho interior, desde a vocação particular, para a vida toda, em todas as condições de vida. 


Se queremos de sair de: violência de género; mulheres ou homens como objectos sexuais; tensões entre casais; infidelidades várias; abusos vários; rejeição da realidade própria de corpo; então, há que abordar a sexualidade de forma adaptada às diferentes capacidades de entendimento conforme as idades, ou seja de forma madura, desde as dimensões física, psico-afectiva, racional, social e espiritual. A dignidade, o respeito, o sentido de alteridade é caminhada humana. E, sim, como em tudo no humano, podemos levar com humor, desde que atravessemos as fases em maturidade. O bom da boa sexualidade é que verdadeiramente humaniza.

sábado, 25 de dezembro de 2021

Nós não somos deste mundo


[Secção pensamentos soltos no dia de Natal] Ruy Cinatti no poema Anunciação repete por três vezes o verso “Nós não somos deste mundo”. Essas três vezes, cada vez que o leio, ecoam fundo em mim. Nós não somos deste mundo. E não somos mesmo. O Natal marca essa certeza. E sinto-me tão convicto dela, graças a outra certeza: Deus fez-se fragilidade e nasceu longe de todos, menos dos excluídos, representados pelos pastores. O Seu nascimento abre-nos as portas ao mundo a que pertencemos: ao divino. Mas apenas conseguiremos perceber isso se nos fizermos simples, desde Ele e com Ele. 


A simplicidade a que o Natal desafia faz-nos tirar adornos de vida: do poder, das coisas miseráveis que desgastam a humanidade, das cobranças de amizade e  do que desvia o sentido do amor. Precisamos de Natal. Precisamos de contemplar o Menino Deus em palhas: que sinal imenso a desmontar todas as imagens desviadas de poder desumanizador. Somos chamados à alegria, com o convite a libertar os adornos e descobrir o divino na simplicidade.


Quando acendi uma destas velas em Bethlehem, junto ao sítio onde Jesus nasceu, pedi pela simplicidade e pela paz. Ontem à noite, a rezar com a Luz do Menino Deus, agradeci por Ele nos abrir as portas do Seu mundo, aquele a que verdadeiramente pertencemos. Sejamos, assim, Natal uns para os outros e uns com os outros. E o mundo de que somos amplia-se em Luz e Amor. Santo e Luminoso Natal!

domingo, 28 de novembro de 2021

Precisamos de luz


[Secção pensamentos soltos sobre Esperança] Hoje começa o Advento. A espera em esperança da vinda de Deus. Se tivéssemos tempo, melhor, se nos detivéssemos a saborear o tempo, na beleza de cada momento, ficaríamos a contemplar a luz da coroa que se acende ao começar a Missa ao longo do Advento. Gosto tanto da imagem da luz que se espalha, como preparação e anúncio da Luz maior que vem. 


O mundo precisa de luz. Sinto o soturno a crescer. Os cansaços a vários níveis entrecruzados com falta de empatia fazem com que cada pessoa se sinta mais presa: ao medo, à desconfiança, à dor, ao sofrimento, ao desespero. Parece que estamos sozinhos no mundo. A força do aparente super-poder humano leva a isso. Mas, não. Somos de relação. E tal deveria ser marca de esperança. A relação que nos convida a crescer como pessoas, a saber ajudar e a pedir ajuda; a saber calar e falar; a saber libertar da ganância e do que impede que o outro seja; a saber dar tempo a contemplar sem necessariamente possuir e simplesmente deleitar. Sei que isso não traz comida para a mesa. Mas também sei que tal humaniza, deixando que a clarividência do sentimento e do pensamento nos afaste das trevas da posse e nos encaminhe para o cuidado e o respeito, por nós próprios e pelo próximo. 


Precisamos de luz. De mãos dadas com o silêncio que nos permita escutar o tresmalhar das folhas caídas do que já não nos pertence pelos passos novos da existência que se transforma, converte, modifica no caminho novo. O Advento é oportunidade para recomeçar, nessa Esperança que atravessa a dor, o cansaço, o sofrimento, abrindo-nos à fé que, depois da travessia feita, revela o nascer do divino em nós. E sozinhos não estamos. Deus é connosco. Mas quer sê-lo em liberdade. Por isso, mantém a esperança de nos ver crescer a atravessar as sombras com a Sua Luz.

domingo, 31 de outubro de 2021

Halloween e Todos os Santos


[Secção pensamentos soltos sobre Halloween e Todos os Santos] Desde pequeno que o mundo da fantasia e do fantástico me fascinou. Tenho a dizer que em parte até me salvou. Explico: na sessão de psicoterapia em que pela primeira vez me dei conta das dores contidas do bullying de há anos, voltando a sentir as dores dos pontapés e os gritos, solucei em lágrimas. Às tantas, a Asu pergunta: “o que te salvou?” Sem hesitar, recordando o livro e filme A História Interminável, respondi: “a fantasia!”. 


O mundo simbólico, de que também muito podemos encontrar nos textos bíblicos, abre muitas perspectivas. Quem diz o mundo simbólico, diz também o fantástico, inclusive o tenebroso. Os monstros, fantasmas, vampiros, bruxas, demónios, seres das trevas, mostram o lado desconhecido da alma e da vida a que é necessário dar nome e amar. Libertar as crianças, os adolescentes e os adultos do medo só acontece quando enfrentamos precisamente os medos e males escondidos no mundo interior. Por vezes tem de ser com humor. Sem grandes rasgares de vestiduras por vir de outras tradições. Não me parece que se invoque o mal. (Também em nome de Deus, infelizmente, se fez e faz muito mal com aparência de bem em imposições moralistas de culpa e pecado.) Os fantasmas devem aparecer para ter nome e assim dissiparem. Os vampiros para serem amados. Os monstros para serem curados de traumas vários. 


Os santos foram os primeiros a atravessar as suas noites tenebrosas, enfrentando os demónios que os dividiam. Com a ajuda de Deus fizeram dos seus combates espirituais caminhos a chegar à compaixão e anúncio de vida. Quando enfrentamos os monstros pessoais, com a ajuda de Deus, ganhamos liberdade diante de tradições que podem não ser nossas. Atravessando-as, ganharemos o Pão por Deus de alma e vida, com nova luz. Hoje compreendo que não foi a fantasia que me salvou, mas a criatividade de Deus que permite, desde o simbólico, ir a outros mundos buscar forças para sermos mais livres neste, combatendo as trevas desde o amor e o humor. Sem sustos e com muita alegria.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Sentir de corpo


Pedro Villa


[Secção pensamentos soltos sobre corpo] Há dias estive à conversa numa formação de acompanhamento espiritual a decorrer na Argentina. Pediram-me para falar da importância de corpo no acompanhamento. Este tema é fascinante. Cada vez mais se percebe como O Corpo Não Esquece,(uso o título na tradução portuguesa do imenso e importante livro de Bessel Van der Kolk, psiquiatra que dedicou a vida a estudar questões de trauma). Nós somos mais que intelecto e o sentir, mais ou menos consciente, manifesta-se por todo o ser.


Apesar de ser algo transversal a todas as pessoas, desta vez penso particularmente na vida religiosa. O dualismo espiritualista que anula o corpo está infelizmente ainda tão, mas tão presente, que incapacita viver bem a vocação. Cansaços, frustrações, que levam desde a infantilidades à rudeza no trato, mesquinhez, inclusive com violência a vários níveis estão presentes e precisam ser vistos com atenção, para o bem de todos. Acompanhar desde corpo é permitir conhecer desde o todo e permitir que o Espírito habite no concreto, para profundamente libertar e reconciliar. As idealizações e auto-enganos moralistas impedem a presença de Deus. Às vezes é preciso recordar que Deus encarnou, não se idealizou. Assumiu corpo, carne, entranhas, vida em movimento pleno e total. 


Na conversa, dizia com humor que precisamos dançar mais. Bem, ou pelo menos saber como habitar o mais plenamente possível a existência no movimento, no sentir de corpo, que permite atravessar todas as sombras, de modo a crescer, a sermos adultos, também na fé, e levar-nos à liberdade do serviço ao outro, tanto na oração e escuta em acompanhamento ou sinais dos tempos, como no cuidar de quem mais sofre. E o reino de Deus ficará mais próximo, onde haverá festa e alegria entre todos e todas os que se atrevem a ser livres e autênticos no amor e no serviço.


domingo, 10 de outubro de 2021

Saúde mental


[Secção pensamentos soltos sobre saúde mental] Quanto mais leio, investigo, escuto, rezo sobre corpo, mais me dou conta do imenso que somos, enquanto indivíduos em e na relação, e do tanto nesse imenso que está desconhecido. A pandemia veio abrir muitas portas desse desconhecimento. Causou e causa medo. Rapidamente queremos voltar à normalidade, chamando-lhe até de “nova”. No entanto, desde a fragilidade que também caracteriza o imenso de corpo, somos afogados de perguntas e emoções, desde a informação excessiva de como devemos ser e estar. Esgotam-se ansiolíticos e anti-depressivos, como desejo de voltar rapidamente à normalidade sem ter de enfrentar a exigente peregrinação de sabermos quem somos, em luzes e sombras. O problema: depois do alívio, as sombras tendem a aumentar e abafar o ser. 


A saúde mental ainda é a a face diminuta da saúde global. No entanto, a falta dela, em maior ou menor grau, atinge grande parte da população. Ainda assim, descarta-se com leviandade, não se percebendo depois como “uma pessoa tão boa” tomou decisões marcantes contra si e contra outros. Pois, é fundamental dar-lhe atenção e pedir ajuda. Mas também é primordial que quem toma decisões políticas e profissionais conheça o mundo da interioridade para lá de dinheiro. Cuidar da saúde mental exige tempo, e não é de mês a mês, ou mais. E feito em particular, infelizmente com as condições sociais que temos, é impraticável para milhares de pessoas. 


Apesar da normalidade exterior que se começa a viver, há tremenda anormalidade, desfoque, inquietação interiores. Por isso, tenho para mim que a linha da frente actual terá de ser composta por escutadores. A sombra tem de ser atravessada de luz, no respeito pelo sentir. E muitas vezes a luz não surge de auto-ajuda, mas através de pessoas que se capacitaram para a transmitir, tais como psicanalistas, psicoterapeutas e psiquiatras. Pedir ajuda não é uma limitação, mas o gesto que pode separar a vida da morte da alma. A experiência diz-me que as sombras atravessadas de luz tornam-nos mais humanos. Se respeitarmos a saúde mental, todo ganhamos em corpo imenso e pleno de humanidade.


quarta-feira, 29 de setembro de 2021

A beleza de ser pessoa


[Secção pensamentos soltos com letras verdes sobre a beleza de ser pessoa] Terminei há pouco de orientar mais um grupo de Exercícios Espirituais de 8 dias. É sempre gratificante sentir, observar, confirmar como o Espírito vai trabalhando no coração de cada pessoa. O caminho da verdade connosco próprios é tão libertador. É igualmente exigente, duro, a ser feito com muito respeito, sem voluntarismos, mas profundamente libertador. 


Somos bombardeados de muita informação de como se é suposto ser. Já desde o ventre materno, com os mais menos descansos e alimentações, desejos, emoções, recebemos sentir que já influencia a existência. Depois, nas inúmeras relações  ao longo da vida, muito mais recebemos. Obviamente, muita informação intelectual, emocional e espiritual é boa, necessária, construtiva, de sentido de si e de outro. Informação de Amor, poderia chamar. Mas, em paralelo, também há tanta porcaria, castrações, imposições, directas, indirectas, que ofuscam a beleza do ser. E, a que mais me dá que pensar, é aquela que surge com aparência de bem. E totalmente perversa ainda, quando é em nome de deus (sim, neste caso, em minúsculo). Informação de desamor, poderia chamar. É por isso que um retiro, bem acompanhado e orientado, torna-se lugar de liberdade. Repito, é exigente, duro, a ser feito com muito respeito. Tal como subir uma montanha ou correr uma maratona exige preparação, também ir desbravando a alma implica tempo, equilíbrio, noção dos limites. As informações de desamor não se arrancam, precisam da delicadeza da integração, pois muitas emoções afloram, em novidades de comportamentos que não se esperam. Por isso, não pode ser um caminho de heroísmo, mas acompanhado por quem sabe orientar. 


Pela tarde, passei pela Centésima Página. Enquanto olhava para todos aqueles livros, que, desde a literatura, à poesia, aos mais técnicos nas diversas áreas, retratam do melhor ao pior da humanidade, escrevi uma pequena oração em letras verde, a pensar na beleza de ser pessoa. Sexta-feira começo outro turno de Exercícios, com a maravilha de colaborar com Espírito a dar Vida. 


domingo, 19 de setembro de 2021

Paulo de Paz



[Secção pensamentos soltos sobre redes sociais] Já ando pelas redes há uns anos. Nesta ou naquela plataforma, tenho vindo a publicar em modo partilha, com reflexões e humor, seja nos pensamentos soltos, com letras verdes, coisas de nada ou na vida de um padre, por vezes também de corpo e pelas breves orações. Muitos dos textos acabaram por ser compilados em dois livros. Tudo já levou a muitas conversas, com pessoas a interrogar, a abrirem-se à fé, a serenar o coração, a descobrir novas faces de Deus. Vão-se juntando e tanto no Facebook como no Instagram passam os 11 mil seguidores em cada uma.


Tenho trabalhado a liberdade em relação às redes. Várias vezes pensei sair. Há muita tensão, onde o conflito, o desdém e o ataque são facilmente postos como possíveis e adquiridos. Por mais que não se queira, as redes influenciam a vida. Têm impacto social e político, também religioso. Tenho cada vez mais consciência do quanto as pessoas tomam o “vi na net, logo é verdade”. Pois. Daí a noção da responsabilidade também como caminho de paz. Aquando da polémica da Carta aos Efésios, do que mais percebi foi a responsabilidade que há a ter quando somos seguidos por milhares de pessoas. O meu vídeo foi visto por mais de 20 mil pessoas. Isto deu-me e dá-me que pensar: para sermos homens e mulheres de paz, a liberdade tem de estar sempre aliada à responsabilidade. Tal implica observação, silêncio, reflexão, liberdade interior. No caso das redes, mais ainda. Se quero ser “Paulo de Paz” (ou, convido a cada qual pôr o seu nome), tenho de estar atento às profundas motivações que me movem. Afinal, uma publicação pode fazer muito mal ou muito bem.


A todas as pessoas que têm chegado, deixo o meu abraço. Por todas rezo em cada dia. Por aqui, tentarei seguir o caminho de paz e promoção de humanidade. O Deus no qual acredito convida-nos a amar como Ele amou. E isso talvez seja do mais maduro que há, onde liberdade e responsabilidade juntas são lugares de adultez e de amor. Por aqui seguimos em partilhas. Obrigado pela confiança.


sábado, 11 de setembro de 2021

11 de Stemebro [20 anos]



[Secção memórias com pensamentos soltos] Estava a fardar-me, numa tarde normal antes se ir trabalhar. O meu pai telefona-me: “tens a televisão ligada?” Liguei. “Que filme é este?” Do outro lado: “Não é filme. É em directo de Nova Iorque.” E dá-se o embate do segundo avião contra a outra torre. Fiquei em silêncio. Desliguei, sem antes ouvir com voz preocupada “que tenhas um bom voo.” Cheguei ao aeroporto. Grande agitação. Íamos fazer o Turim-Madrid. Havia silêncio, comoção, estranheza. Os passageiros embarcaram e o ambiente no avião era estranho. Estávamos todos incrédulos. Mas era real. 


Continua a ser real, 20 anos depois, o medo, a dor, as perguntas, a mudança no mundo. E em tantos corações. O lá longe torna-se perto. Os conflitos continuam e somos chamados a trazer paz às vidas, ao mundo. É também um trabalho pessoal, em que cada um(a) de nós tem de atravessar as suas zonas de sombra, ódio, cansaço, para não permitir que a vingança tenha a última palavra.


Penso em todos os que perderam e perdem a vida por vingança pessoal, comunitária, política ou religiosa. Que haja consciência do poder que cada um de nós tem para o mal ou para o bem. Está nas nossas mãos contribuir para a Vida.


terça-feira, 3 de agosto de 2021

Amizade: lugar de casa



[Secção pensamentos soltos sobre amizade] Já muito foi escrito sobre amizade. Não trago nada de novo. Apenas realço a emoção de escutar felicidade quando vidas, em caminho, tornam-se mais livres quando se abre o coração no que é, sem adereços. É difícil, exigente, e não ter acontecido antes não é sinal de falta de confiança, mas de espera em esperança. 


A amizade é lugar de casa. Lar, mesmo. Onde se chega e, para lá de arranjos ou aparências, já se conhecem os tons de voz, a temperatura da pele atravessada pelas muitas emoções, podendo estar-se em conversas demoradas e em silêncios longos sem qualquer estranheza. Os risos e as lágrimas são vividos com a limpidez de quem é livre. Não se julga, nem o material, nem o íntimo, somente surgem as perguntas para ajudar a crescer e confirmar se é caminho certo. E mesmo que não seja, o abraço está sempre garantido.


Sim, a amizade é lugar de casa, de lar, de caminho. Mas, sobretudo, é lugar de Deus. Por isso, nos corações de amigos, quando as trevas são atravessadas de luz do que é, dá-se nascimento. É dia novo. É vida nova. É amor novo.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

A Palavra transformadora



Rita Rocha


[Secção pensamentos soltos] Nesta foto preparava-me para proclamar o Evangelho. Estou no ambão a fazer o sinal da cruz. É, como noutras partes da Missa, um momento solene. Desde há muito que tenho por hábito fazer uma inspiração e expiração profundas, marcando o registo da presença, sentindo fortemente os pés assentes em terra. Aqui e agora. Aquela Palavra não é minha. E, depois, quando me preparo para a consagração, faço o mesmo. Aqui e agora. Aquelas Palavras não são minhas, mas de Cristo.


A responsabilidade é grande ante aquelas Palavras. Tal como tem sido ao longo dos tempos, a orientar retiros, a rezar, a permitir que a Palavra seja corpo para mim e para os outros. Se tirarmos as capas de beatice e moralismo com que se carregou o Evangelho, vemos e sentimos como é exigente no caminho da liberdade. Todo ele nos encaminha para livrarmo-nos do mal e conseguirmos ter um olhar límpido e de bem para o que nos rodeia. Em resumo, nas palavras do poeta italiano Arnoldo Mosca Mondadori, “sentir-se olhado nas suas feridas. É o que provoca Jesus nas pessoas que olha. Elas convertem-se porque Ele, com o seu olhar, penetra nas suas feridas, penetra nas suas maiores fragilidades, onde o olhar habitualmente julga sempre. Mas Jesus fixa esse ponto como o ponto mais amado, e provoca a comoção. Ser olhado na sua fragilidade por um olhar de amor puro e incondicional… quando uma pessoa se dá conta deste olhar, desarma-se. Mas Jesus continua a fixar esse ponto, e com o fogo dos seus olhos de amor abate como uma chama oxídrica todo o muro, e entra nele em profundidade: Ele quer habitar a nossa dor, a nossa escuridão, o nosso inferno; é daí que quer salvar-nos.”


A salvação de Cristo é libertação de vida. A presença habitada da limpidez  do olhar divino tudo transforma. Tudo. A solenidade dos momentos da celebração passa para a dos que nos desarmam de todos os adereços que impedem a autenticidade de nós mesmos. E na verdade só encontramos um caminho: o de anunciar o bem maior, em amor que não julga nem condena, mas abraça e liberta.


quarta-feira, 7 de julho de 2021

Amarmo-nos é um desafio


[Secção pensamentos soltos] Amarmo-nos é um grande desafio. Uma das dimensões desse caminho é conhecermo-nos. E tal, apesar de libertador, é cansativo: exige, sobretudo, vontade, em conjunto com o confronto com a realidade nossa, do melhor ao pior, tal qual é. Aumenta a dificuldade quando somos bombardeados de distracções: ora de idealizações, ora de quantidade de informação a que supostamente há que dar atenção. Leva a que se tenha de ter opinião sobre tudo e sobre todos. Dito de outro modo, estar no lugar de Deus omnisciente, omnipotente e omnipresente. E vivem-se as paradoxais subtis ditaduras da sociedade dita livre: sempre contactável, sempre disponível, sempre opinativo. Não se aguenta. O amor definha. 


A acompanhar centenas de pessoas nos últimos tempos, sobretudo em contexto de retiro, apercebo-me do quanto se pode estar preso a idealismos que impedem a tomada de consciência do lugar próprio, sem rodeios nem comparações. Sim, enquanto humanos somos complexos. E que maravilha. Mas, complicamos muito quando nos deixamos levar pelo emotivismo sem nos darmos tempo para respirar e pensar. Quando isso acontece saem tantas novidades surpreendentes. Do que mais me dá que pensar são as vezes que ouço: “é a primeira vez que estou a contar isto!” Estar disponível para acolher a sombra, o lado lunar, o que não se gosta de si mesmo, é duro, mas fundamental para a liberdade. E o isto que sai pela primeira vez, do mais variado, mas sobretudo de pesos acumulado em anos, décadas, não trabalhado, integrado, aceite faz com que hajam lutas internas e fugas de amor, onde o mais fácil é diluir-se no emotivismo social, político e religioso. E em nome de acabar com a violência, para ser livre, torno-me violento, julgando e anulando, não o comportamento do outro, mas o outro enquanto ser. Mais uma ditadura subtil, que alimenta ditaduras sociais. 


Pois, amarmo-nos é um desafio. Em geral, conseguimos responder mais ou menos bem ao como estou. Mas, no final do dia, poder responder ao quem sou, de forma livre, é fundamental para esse desafio de amarmo-nos. Insisto muito no Amor, mas, quer queiramos ou não, é esse que nos salva enquanto pessoas. O resto são apenas adereços.