quarta-feira, 21 de julho de 2021

A Palavra transformadora



Rita Rocha


[Secção pensamentos soltos] Nesta foto preparava-me para proclamar o Evangelho. Estou no ambão a fazer o sinal da cruz. É, como noutras partes da Missa, um momento solene. Desde há muito que tenho por hábito fazer uma inspiração e expiração profundas, marcando o registo da presença, sentindo fortemente os pés assentes em terra. Aqui e agora. Aquela Palavra não é minha. E, depois, quando me preparo para a consagração, faço o mesmo. Aqui e agora. Aquelas Palavras não são minhas, mas de Cristo.


A responsabilidade é grande ante aquelas Palavras. Tal como tem sido ao longo dos tempos, a orientar retiros, a rezar, a permitir que a Palavra seja corpo para mim e para os outros. Se tirarmos as capas de beatice e moralismo com que se carregou o Evangelho, vemos e sentimos como é exigente no caminho da liberdade. Todo ele nos encaminha para livrarmo-nos do mal e conseguirmos ter um olhar límpido e de bem para o que nos rodeia. Em resumo, nas palavras do poeta italiano Arnoldo Mosca Mondadori, “sentir-se olhado nas suas feridas. É o que provoca Jesus nas pessoas que olha. Elas convertem-se porque Ele, com o seu olhar, penetra nas suas feridas, penetra nas suas maiores fragilidades, onde o olhar habitualmente julga sempre. Mas Jesus fixa esse ponto como o ponto mais amado, e provoca a comoção. Ser olhado na sua fragilidade por um olhar de amor puro e incondicional… quando uma pessoa se dá conta deste olhar, desarma-se. Mas Jesus continua a fixar esse ponto, e com o fogo dos seus olhos de amor abate como uma chama oxídrica todo o muro, e entra nele em profundidade: Ele quer habitar a nossa dor, a nossa escuridão, o nosso inferno; é daí que quer salvar-nos.”


A salvação de Cristo é libertação de vida. A presença habitada da limpidez  do olhar divino tudo transforma. Tudo. A solenidade dos momentos da celebração passa para a dos que nos desarmam de todos os adereços que impedem a autenticidade de nós mesmos. E na verdade só encontramos um caminho: o de anunciar o bem maior, em amor que não julga nem condena, mas abraça e liberta.


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