domingo, 28 de novembro de 2021

Precisamos de luz


[Secção pensamentos soltos sobre Esperança] Hoje começa o Advento. A espera em esperança da vinda de Deus. Se tivéssemos tempo, melhor, se nos detivéssemos a saborear o tempo, na beleza de cada momento, ficaríamos a contemplar a luz da coroa que se acende ao começar a Missa ao longo do Advento. Gosto tanto da imagem da luz que se espalha, como preparação e anúncio da Luz maior que vem. 


O mundo precisa de luz. Sinto o soturno a crescer. Os cansaços a vários níveis entrecruzados com falta de empatia fazem com que cada pessoa se sinta mais presa: ao medo, à desconfiança, à dor, ao sofrimento, ao desespero. Parece que estamos sozinhos no mundo. A força do aparente super-poder humano leva a isso. Mas, não. Somos de relação. E tal deveria ser marca de esperança. A relação que nos convida a crescer como pessoas, a saber ajudar e a pedir ajuda; a saber calar e falar; a saber libertar da ganância e do que impede que o outro seja; a saber dar tempo a contemplar sem necessariamente possuir e simplesmente deleitar. Sei que isso não traz comida para a mesa. Mas também sei que tal humaniza, deixando que a clarividência do sentimento e do pensamento nos afaste das trevas da posse e nos encaminhe para o cuidado e o respeito, por nós próprios e pelo próximo. 


Precisamos de luz. De mãos dadas com o silêncio que nos permita escutar o tresmalhar das folhas caídas do que já não nos pertence pelos passos novos da existência que se transforma, converte, modifica no caminho novo. O Advento é oportunidade para recomeçar, nessa Esperança que atravessa a dor, o cansaço, o sofrimento, abrindo-nos à fé que, depois da travessia feita, revela o nascer do divino em nós. E sozinhos não estamos. Deus é connosco. Mas quer sê-lo em liberdade. Por isso, mantém a esperança de nos ver crescer a atravessar as sombras com a Sua Luz.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Dizer e fazer bem


José Novais


[Coisas na vida de um padre] Chegam boas recordações de dia bonito. Abençoei o casamento da Joana e do José. O seu amor já estava a dar frutos. Recordo o momento em que perguntava se acolhiam os filhos como dom de Deus. Olhámo-nos e sorrimos, nessa certeza já a caminho. Já tenho abençoado casamentos de noivos grávidos. A vida a acontecer. Neste casamento, a Joana mostrava o orgulho do amor na sua barriga e o José deleitava-se a ver a sua amada a acolher o filho de ambos. Pedi licença e também dei a benção à vida ali a rejubilar no dia feliz. Fico a pensar na importância das bênçãos desde sempre, em particular na actualidade: a palavra de origem latina também traduz o dizer bem. Acrescento: o dizer e o fazer bem. Todos ganhamos quando abençoamos.


terça-feira, 23 de novembro de 2021

Breve oração


[Breve oração ao adormecer]


Agradeço-Te

o ouro que ilumina a terra

com histórias a libertar o passado

até ser riqueza de experiência 

e sábia humildade de vida


Peço-Te

desprendimento 

para fazer caminho

leve de mim, pleno de Ti


segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Ecos de peregrinação


[Secção letras verdes] Ecos de peregrinação, onde o corpo ainda sente os sons, os cheiros, as vistas, os sabores e os toques.


domingo, 21 de novembro de 2021

Até breve Jerusalém, Shalom Adonai





[Notas soltas com um “até breve” Jerusalém] A intensidade dos dias traduz-se pela sensação de muito vivido. A diversidade cultural e religiosa, junto com a semelhança: todos, apesar de tudo, somos pessoas. Marcadas por uma educação: por vezes de segregação, mas, espero que mais vezes, de relação, comunhão, proximidade, compreensão. Este último caminho é mais exigente. Implica, sobretudo, desmontar preconceitos, atravessar sombras, para abrir horizontes de luz e de amor. Antes de sair, passei novamente pelo Muro das Lamentações. Há a tradição de deixar um papel com intenções. Pensei escrever uma oração ou umas “palavras bonitas”. No entanto, por tantas pessoas e orações que levava no coração, tantas pedidas, tanto vivido, fazia sentido deixar literalmente todas as letras verdes. As mesmas que coloquei no altar do Túmulo onde celebrei Missa. Sinto muita gratidão, em especial ao grupo que acompanhei, que também me ajudaram muito a ser padre e a viver estes dias. Voltarei a eles, em ecos com pensamentos soltos do muito vivido. Já em Portugal, digo: até breve, Jerusalém. Shalom Adonai.


sábado, 20 de novembro de 2021

Bethlehem







[Notas soltas com breve oração em Bethlehem] 


Por vezes sinto-me como Moisés no Monte Sinai: dias que são anos. Aqui o tempo tem tal densidade que é difícil compreender o que se passa. Talvez não seja para agora. Não é mesmo. Continuei a observar e os ecos virão nos próximos dias. Hoje, em Bethlehem, na gruta da Natividade, depois de acender velas e abençoar com o óleo da lamparina que ilumina o sítio do nascimento, abri o coração numa breve oração.


Agradeço-Te 

os abraços que se tornam pontes

a recordar como o Teu nascer 

em corpo, em carne, continua.


Entrego-Te

as esperanças de tanta gente.


Peço-Te

o fim de muros, barreiras, fronteiras,

sociais, religiosos, políticos, culturais,

a fim de que possamos ser mais Corpo

uns com os outros e no mistério da Vida.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Vigília no Santo Sepulcro






[Notas soltas de Jerusalém] Estive 9 horas sozinho, sem contar com os monges e frades residentes, no Santuário do Santo Sepulcro. A porta fecha solenemente às 19h, trancada por dentro e por fora, vigiada pelos guardiães das três tradições cristãs que têm a custódia do lugar: Ortodoxos gregos, Arménios e Latinos (Católicos, representados pelos Franciscanos). Alimentam-se as lamparinas de azeite. Acendi a que ilumina a entrada do Túmulo, ficando hoje todo o dia a receber os peregrinos. Entrei no Túmulo e permaneci 3 horas a rezar. 


O silêncio era preenchido por paz e por nomes que me vinham com toda a naturalidade ao coração. Pedi perdão pelo que contribui de mal ao mundo e a pessoas concretas. Em vários momentos, senti-me profundamente em casa. Não tanto ali, espaço físico, mas de sentir a fé neste Cristo que morreu e ressuscitou por cada pessoa. Essa casa que é o Seu Corpo, morto e ressuscitado. 


Muitas letras verdes foram surgindo, a repassar a história dos últimos tempos. Agradeci muito: das grandes coisas ao detalhe. Pedi para que cada pessoa fosse capaz de acolher, aceitar e integrar as suas luzes e sombras. Pedi por este Ano Inaciano, rezando por cada companheiro jesuíta, indo de Comunidade a Comunidade. Pedi por toda a Igreja, em particular pelas feridas que infligimos e pelo sínodo que atravessamos. Entreguei, pausadamente, nomes de A a Z. 


Pelas 23h30 começaram as diferentes liturgias diante do Calvário e do Túmulo. Eu fui para um canto, em frente à pequena capela dos Coptas. Aí fiquei. O silêncio habitado de profunda paz acompanhou-me. Senti o tempo a passar, sem lentidão ou rapidez, mas suspenso no presente. Era ali que tinha de estar. Não para ficar, mas para ir e anunciar a Luz e Paz do Ressuscitado. Às 4 da manhã abriram as portas. E saí, leve com o coração cheio de Vida. [A primeira fotografia foi de quando lá entrei há dias, para ilustrar onde fiquei a rezar com tempo.]


quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Dia intenso (mais um)









[Pequeno apontamento sem muito mais, em Jerusalém] Vou passar a noite em Vigília no Santo Sepulcro, qual Quinta-feira Santa. Depois de um dia intenso, a rezar na Via Dolorosa e com a visita ao museu Yad Vashem, de memória do holocausto, rezarei pela paz. E também por cada pessoa, pelo caminho de perdão e reconciliação. Logo escreverei com calma. Terei tempo. De momento, apenas a certeza de que vir aqui é profundamente transformador.


quarta-feira, 17 de novembro de 2021

O tempo suspende-se





[Notas soltas ao adormecer em Jerusalém] Não sei que escrever. Parece-me pouco. Até mesmo quase miserável ante todo o sentir, sobre ruas e ruelas carregadas de mistério e de banalidade. Repito-me no contraste. Mas é isso que me mexe e faz sentir o sagrado em cada coração, para lá de cores. O silêncio das seis da manhã, enquanto celebrava Missa na Capela da Crucificação, que alternava com os cânticos de lamentação dos coptas ante o túmulo. As pedras com milhares de anos que rodearam o Santo dos Santos que, como escrevia ontem, gritam por encontro. As conversas de partilha de vida com laivos de conversão. O tempo suspende-se. Em cada canto especial, repito a oração “entrego-Te quem me confias, quem dirigi um simples olhar e quem, para lá de credos, se dispõe a acolher o amor”.


terça-feira, 16 de novembro de 2021

Breve oração







[Breve oração ao anoitecer em Jerusalém] 


Agradeço-Te

os tempos para lá do tempo

em pedras que gritam vida

nas orações ondulantes a Ti


Entrego-Te

nomes, de A a Z


Peço-Te

coração aberto a acolher

silêncio, sons e palavras

de contrastes e de unidade

ao Teu amor entregue por nós


Clarear horizontes









[Secção coisas de nada em Tel Aviv] Fazer uma viagem é sempre oportunidade para abrir e clarear horizontes, perguntas, tempos. Ainda mais quando há grande contraste a acontecer. Gosto de deter-me nos pormenores, detalhes, coisas de nada, de onde podem sair histórias dentro da história da viagem. Faço silêncio. Emociono-me. E parece-me que vou fazer muitos momentos de silêncio, convidado pelos rostos, contrastes e a força dos lugares com tanto significado. A vida acontece. E muito se relativiza, sobre humanidade. Daqui a pouco, Jerusalém.


segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Terras cheias de significado





[Coisas na vida de um padre] Chegaria o momento em que tocaria mar e terra plenos de significado. Serão dias de peregrinação, em escuta de passado, presente e futuro. A acompanhar vidas, desde aqu’Ele que entregou a Sua por estas terras. E para começar, nada como celebrar Missa onde S. Pedro teve a visão da universalidade, em Jaffa, Tel Aviv. Irei partilhando estes dias, com a certeza da oração pelo abecedário.


quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Conversas soltas


Pedro Villa


[Secção conversas soltas, com a devida licença para partilhar]

- P. Paulo, não sei como falar disto. Se bem que tenho a agradecer o comentário com um abraço que deixou no texto em jeito de desabafo da actriz Inês Herédia. Daí o à-vontade que sinto em poder falar consigo. É toda uma novidade e como mãe e como católica estou a ter dificuldade em lidar com isto, sobretudo na questão da Igreja. A minha filha revelou-nos a sua homossexualidade. Ela está bem. Sempre senti algo diferente. Ela está mesmo bem. Eu é que tenho dificuldade em compreender tudo isto.

- O quê mais específicamente? O que lhe custa?

- Nem sei. Porque acolho-a profundamente. Nem poderia ser de outro modo. Já tinha ouvido falar de pais que rejeitam os filhos pela questão da sexualidade. Da minha parte, nem pensar. Saiu de mim. Mas não sei o que me custa.

- Serão a expectativas que tinha de futuro? Poderá haver alguma sensação de culpa por achar que falhou nalguma coisa? Digo isto, pois é o que vou escutando aqui e ali de pais com filhos ou filhas de orientação homossexual.

- Não. Sabe o que é mesmo? Estou zangada com a Igreja. [As lágrimas surgiram!] Isso, estou zangada com a Igreja. Sinto agora na pele imaginar que a minha filha não pode viver o amor. Sim, já li o catecismo e toda essa linguagem descartada da realidade. Desculpe falar assim, mas tenho a sensação que a doutrina não conhece as pessoas. 

- Como a compreendo. Idealizam-se perfeições e castidades, esquecendo o corpo real mais vasto que as ideias. E no tema da homossexualidade e da fé, bem como em muitos outros, há tanta falta de escuta, atenta, cuidadosa, das pessoas concretas, dos seus sentires mais profundos, impondo o impossível. Há tanto desejo de Deus que acaba por ser ofuscado pela zanga, tantas vezes com razão, por visões alheadas do concreto, das pessoas reais e não idealizadas.  

- Sim, sim. Mas, que podemos fazer?

- Estamos em tempos de reflexão sobre a Igreja. Porque não se junta a tantos outros pais preocupados com a mesma questão e escrevem a partilhar o sentir? Dessa zanga pode surgir conversão, vida, em maior respeito. E o amor fica sempre a ganhar.


quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Breve oração


[Breve oração]


Agradeço-Te

os rasgos de luz no horizonte,

recordando que não somos peças,

nem máquinas, nem pedaços de realidade,

mas caminho em corpo a contemplar 

a firmeza e a cura da existência 


Peço-Te

a sabedoria e o fogo do Espírito,

para saber regressar-Te e agradecer

o assombro de beleza em cada anoitecer


domingo, 7 de novembro de 2021

Sobre paternidade espiritual


Paulo - Lovely Moments


[Notas soltas sobre paternidade espiritual] Acompanhar pessoas é dar-lhes vida. Não somos, nem é esse o lugar nem o propósito, salvadores. Mas, como padres, temos a grande responsabilidade de ajudar a que as outras pessoas tenham vida e a tenham em abundância. Escuto muitas histórias de vida. Grande parte das vezes, com partilhas de sofrimento, muito e de diferente género. Na ânsia da busca de alguma serenidade, resposta, orientação. Perguntam-me como aguento. Não há segredos: 


- a oração. Entrego a Deus cada pessoa. Em recta intenção antes de cada conversa, peço-Lhe ajuda para saber o que dizer ou fazer. No final, coloco-a nas Sua mãos.


- a liberdade. A vida de cada pessoa não é a minha vida. Vivo a empatia da escuta: rir com os que riem, chorar com os que choram, como diz S. Paulo. Mas, são as vidas de cada pessoa, não a minha. 


- a humildade. Quando não consigo, direcciono para quem possa orientar melhor. Quando sinto cansaço de alma, peço ajuda. 


- o cuidar(-me). Preciso do meu tempo para rezar, descansar, ler, formar-me, fazer nada, estar com companheiros, família e amigos, dançar. 


- a confiança. Quando sentimos e vivemos a nossa vocação, abandonamo-nos à confiança em Deus que chama. Há a força do Espírito que nos habita, a fortalecer o dom. No meu caso, ou de quem acompanha, da escuta, da compaixão, da assertividade, do silêncio orante. 


- a alegria. Para acompanhar as sombras e dar luz é preciso deixar-se inebriar pelo desejo do Bom, Belo e Ajustado, como no final de cada dia da criação. 


E se há coisa que me realiza na paternidade espiritual: ver a pessoa descobrir mais vida e alegria em Deus. 


sábado, 6 de novembro de 2021

Ser padre


[Secção letras verdes] Enquanto me recolho na oração, a entregar a Deus quem oriento em Exercícios Espirituais.


quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Silêncio e encontro


[Secção coisas de nada] Entrei no gabinete e olhei o horizonte. Mesmo repetido, cada dia é diferente. O silêncio interior, no deserto que liberta, abre-nos perspectivas. Em “O Amigo do Deserto”, de Pablo D’Ors, a personagem principal desenha em cada dia o deserto que vê da sua janela. Todos os desenhos são diferentes. O mesmo se passa connosco quando nos escutamos no silêncio: sendo nós os mesmos, as mesmas, há diferenças no sentir, no viver, no conhecer, no amar. Com o passar do tempo nesta aprendizagem de vida a compreender que somos inacabados em caminho, ganhamos serenidade ante o que é. E liberdade, sem julgamentos precipitados. Estamos muito marcados por supostos disto e daquilo, bombardeados de expectativas nossas e de outros. O silêncio ajuda a tranquilizar tudo isso, de modo a chegar ao concreto, do hoje, do presente, que abre possibilidades de horizonte, em amor e serviço, que se renovam em cada dia.


quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Deus espera. Sempre.


Luís e Marta - Lounge Fotografia


[Secção conversas soltas, com a devida licença para publicar]

- P. Paulo, fui educado em certezas religiosas tão absolutas que cada vez que olhava para a cruz sentia o peso dela em cima. Se não me confessava de todos os males, “Jesus leva com mais uma martelada no cravo, fazendo-o sangrar”. Eu com 10 anos não sabia o que eram todos os males. Mas sentia-me terrivelmente. Cheguei a mentir no confessionário e depois confessava-me de que mentia. Além dos meus pais, o confessor fazia-me sentir ainda pior. Era terrível! Cheguei a um ponto em que já não conseguia acreditar mais em Deus. Foi o choque familiar. Formei-me. Corri mundo em busca de mim, a fazer do melhor ao pior, sobretudo com pessoas, enganando-as, usando-as para prazer, no corpo, na vida. É um desespero tão grande. Passaram mais de 30 anos e sinto que Deus me chama. É possível? É isto a fé? Não sou um degenerado? 

Levantei-me, baixei-me para ficar com o olhar próximo, coloquei a mão no ombro e pedi para fechar os olhos e regular a respiração.

- Pode voltar à criança que se foi confessar?

[O rosto contristou-se em dor e encolheu-se.]

- O que lhe quer dizer? Agora, depois de toda esta experiência de vida? Sem filtros. 

Passado uns momentos de silêncio, com aumento de tom até ao grito.

- Não tens culpa! Não tens culpa! Desculpa, não tens culpa! Jesus não sangra mais. Jesus, não sangra. [O choro contido de anos soltava-se!] Jesus não é como eles dizem. 

- Respire fundo. 

- Perdoa-me! Perdoa-te! Eu quero amar!

- Respire fundo.

- Eu fiz tanto mal. Repeti o mal. 

- E agora está na altura de encontrar o bem, a luz, a vida. 

- E Deus?

- Deus está a tirar o anel do dedo e a preparar o vitelo gordo. 

- Como?

- É o que faz cada vez que um dos seus filhos regressa.

- Mas, depois de todo o mal que fiz?

- Ele espera. Sempre. Tem o nosso nome tatuado na Sua mão.

- Posso confessar-me? 

[…]

- Eu o absolvo de todos os seus pecados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.



segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Breve oração



[Breve oração ao anoitecer de Todos os Santos]


Agradeço-Te

a frescura do olhar 

de quem abraçou o Teu amor

sabendo-se pó de terra 

com raízes no escuro profundo

e mãos na luz de serviço 


Peço-Te

atravessa-me com a mesma pequenez

de quem se deixou levar pelo Teu vento


domingo, 31 de outubro de 2021

Halloween e Todos os Santos


[Secção pensamentos soltos sobre Halloween e Todos os Santos] Desde pequeno que o mundo da fantasia e do fantástico me fascinou. Tenho a dizer que em parte até me salvou. Explico: na sessão de psicoterapia em que pela primeira vez me dei conta das dores contidas do bullying de há anos, voltando a sentir as dores dos pontapés e os gritos, solucei em lágrimas. Às tantas, a Asu pergunta: “o que te salvou?” Sem hesitar, recordando o livro e filme A História Interminável, respondi: “a fantasia!”. 


O mundo simbólico, de que também muito podemos encontrar nos textos bíblicos, abre muitas perspectivas. Quem diz o mundo simbólico, diz também o fantástico, inclusive o tenebroso. Os monstros, fantasmas, vampiros, bruxas, demónios, seres das trevas, mostram o lado desconhecido da alma e da vida a que é necessário dar nome e amar. Libertar as crianças, os adolescentes e os adultos do medo só acontece quando enfrentamos precisamente os medos e males escondidos no mundo interior. Por vezes tem de ser com humor. Sem grandes rasgares de vestiduras por vir de outras tradições. Não me parece que se invoque o mal. (Também em nome de Deus, infelizmente, se fez e faz muito mal com aparência de bem em imposições moralistas de culpa e pecado.) Os fantasmas devem aparecer para ter nome e assim dissiparem. Os vampiros para serem amados. Os monstros para serem curados de traumas vários. 


Os santos foram os primeiros a atravessar as suas noites tenebrosas, enfrentando os demónios que os dividiam. Com a ajuda de Deus fizeram dos seus combates espirituais caminhos a chegar à compaixão e anúncio de vida. Quando enfrentamos os monstros pessoais, com a ajuda de Deus, ganhamos liberdade diante de tradições que podem não ser nossas. Atravessando-as, ganharemos o Pão por Deus de alma e vida, com nova luz. Hoje compreendo que não foi a fantasia que me salvou, mas a criatividade de Deus que permite, desde o simbólico, ir a outros mundos buscar forças para sermos mais livres neste, combatendo as trevas desde o amor e o humor. Sem sustos e com muita alegria.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

42



[Secção vida]

42 anos

a guardar nomes e rostos, histórias e orações, poemas e voos, danças e movimentos, silêncios e palavras, emoções e pensamentos, sombras e luzes, a contribuirem para o meu caminho de crescimento até ser semente. E agradeço a Deus. Tudo.


segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Mão de asa


[Secção coisas de nada] A rever fotografias passo por esta tirada diante de outra de Wolfgang Tillmans, em Serralves. Recordo-me em imaginações de momento: de braço esticado ao céu, ganhava asa. Agora ao vê-la novamente penso no pequeno que é imenso na continuidade do ser para lá da pele. Somos nós, quando percebemos a profundidade de mistério que nos habita. Tomar ainda mais consciência de ser criado à imagem e semelhança de Deus dá-me sentido de reverência, nessa extensão do todo que nos entranha a existência. É-nos concedido o poder de criar, de agir, de amar nas ténues fronteiras de bem e mal, morte e vida, ter e ser, unir e separar. No seguimento de nós, para lá da pele, seremos capazes de voar à medida que nos formos libertando da arrogância de pureza julgadora e enraizando na limpidez do gesto de amor ao próximo.


domingo, 24 de outubro de 2021

Sementes depositadas


[Secção letras verdes] Depois de uma semana imensa e intensa na escuta, a abrir outra plena de vida.


quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Sentir de corpo


Pedro Villa


[Secção pensamentos soltos sobre corpo] Há dias estive à conversa numa formação de acompanhamento espiritual a decorrer na Argentina. Pediram-me para falar da importância de corpo no acompanhamento. Este tema é fascinante. Cada vez mais se percebe como O Corpo Não Esquece,(uso o título na tradução portuguesa do imenso e importante livro de Bessel Van der Kolk, psiquiatra que dedicou a vida a estudar questões de trauma). Nós somos mais que intelecto e o sentir, mais ou menos consciente, manifesta-se por todo o ser.


Apesar de ser algo transversal a todas as pessoas, desta vez penso particularmente na vida religiosa. O dualismo espiritualista que anula o corpo está infelizmente ainda tão, mas tão presente, que incapacita viver bem a vocação. Cansaços, frustrações, que levam desde a infantilidades à rudeza no trato, mesquinhez, inclusive com violência a vários níveis estão presentes e precisam ser vistos com atenção, para o bem de todos. Acompanhar desde corpo é permitir conhecer desde o todo e permitir que o Espírito habite no concreto, para profundamente libertar e reconciliar. As idealizações e auto-enganos moralistas impedem a presença de Deus. Às vezes é preciso recordar que Deus encarnou, não se idealizou. Assumiu corpo, carne, entranhas, vida em movimento pleno e total. 


Na conversa, dizia com humor que precisamos dançar mais. Bem, ou pelo menos saber como habitar o mais plenamente possível a existência no movimento, no sentir de corpo, que permite atravessar todas as sombras, de modo a crescer, a sermos adultos, também na fé, e levar-nos à liberdade do serviço ao outro, tanto na oração e escuta em acompanhamento ou sinais dos tempos, como no cuidar de quem mais sofre. E o reino de Deus ficará mais próximo, onde haverá festa e alegria entre todos e todas os que se atrevem a ser livres e autênticos no amor e no serviço.