quarta-feira, 21 de julho de 2021

A Palavra transformadora



Rita Rocha


[Secção pensamentos soltos] Nesta foto preparava-me para proclamar o Evangelho. Estou no ambão a fazer o sinal da cruz. É, como noutras partes da Missa, um momento solene. Desde há muito que tenho por hábito fazer uma inspiração e expiração profundas, marcando o registo da presença, sentindo fortemente os pés assentes em terra. Aqui e agora. Aquela Palavra não é minha. E, depois, quando me preparo para a consagração, faço o mesmo. Aqui e agora. Aquelas Palavras não são minhas, mas de Cristo.


A responsabilidade é grande ante aquelas Palavras. Tal como tem sido ao longo dos tempos, a orientar retiros, a rezar, a permitir que a Palavra seja corpo para mim e para os outros. Se tirarmos as capas de beatice e moralismo com que se carregou o Evangelho, vemos e sentimos como é exigente no caminho da liberdade. Todo ele nos encaminha para livrarmo-nos do mal e conseguirmos ter um olhar límpido e de bem para o que nos rodeia. Em resumo, nas palavras do poeta italiano Arnoldo Mosca Mondadori, “sentir-se olhado nas suas feridas. É o que provoca Jesus nas pessoas que olha. Elas convertem-se porque Ele, com o seu olhar, penetra nas suas feridas, penetra nas suas maiores fragilidades, onde o olhar habitualmente julga sempre. Mas Jesus fixa esse ponto como o ponto mais amado, e provoca a comoção. Ser olhado na sua fragilidade por um olhar de amor puro e incondicional… quando uma pessoa se dá conta deste olhar, desarma-se. Mas Jesus continua a fixar esse ponto, e com o fogo dos seus olhos de amor abate como uma chama oxídrica todo o muro, e entra nele em profundidade: Ele quer habitar a nossa dor, a nossa escuridão, o nosso inferno; é daí que quer salvar-nos.”


A salvação de Cristo é libertação de vida. A presença habitada da limpidez  do olhar divino tudo transforma. Tudo. A solenidade dos momentos da celebração passa para a dos que nos desarmam de todos os adereços que impedem a autenticidade de nós mesmos. E na verdade só encontramos um caminho: o de anunciar o bem maior, em amor que não julga nem condena, mas abraça e liberta.


terça-feira, 20 de julho de 2021

Gira-para-o-sol


[Secção coisas de nada a meio do dia] Ali estava, frondoso e farfalhudo ao longe. Gosto muito de girassóis. Dizem que é uma flor a oferecer a amigos especiais. Todas serão, mas esta guarda particular luz a transmitir quando oferecida. O acto da dádiva é um reconhecimento de vida. E quando se dá o melhor que se tem, em valores para lá do valor, em passos de liberdade, então a luz abre a leveza da humanidade. A criação dá-se. A única troca que permite é a da contemplação. A amizade bem vivida é espaço e tempo de luz na dádiva, também com possibilidade de acolher a queda, a sombra, a tristeza. A dádiva pode revestir-se de perdão. Quando nos damos todos saímos a ganhar. Como se nos fossemos girando à volta da Luz. Descentrados, transcendemos e colocamos o foco na beleza da Vida.


quarta-feira, 14 de julho de 2021

Breve oração




[Breve oração ao anoitecer]


Agradeço-Te

os véus que se rasgam com a luz

deixando o ser despojado

para receber a respiração solta do amor


Entrego-Te

quem vive a dificuldade de parar


Peço-Te

o tempo suspenso do pôr-de-sol


domingo, 11 de julho de 2021

Os homens também choram


[Secção boas leituras] Terminei de ler “Os homens também choram” de Nelson Marques. Que interessante síntese sobre o sentir masculino ou apresentação das “novas masculinidades”. A educação emocional em geral, dos homens em particular, anda muito deficitária. Aliás, faz tanta falta a educação de corpo, poderia dizer, que integra o todo que somos enquanto pessoas. Com investigação e histórias concretas, Nelson Marques abre perguntas, caminhos, perspectivas para se entender como é fundamental esta educação para nos respeitarmos enquanto pessoas, independentemente do sexo. Ainda assim, as muitas lágrimas acumuladas e não choradas quando atendidas e soltas libertarão muitas couraças, dando vida nova a muitos homens. E tanto eles como elas à sua volta ganharão em humanidade.


sexta-feira, 9 de julho de 2021

Breve oração




[Breve oração ao entardecer]


Agradeço-Te

o silêncio que trava a palavra sem corpo 

e desperta o texto com sentido 


Peço-Te

sabedoria e astúcia 

nas travagens e nos despertares


quinta-feira, 8 de julho de 2021

Breves notas



[Breves notas nocturnas com toque de letras verdes] A vida tem-me permitido compreender a fé. Nunca fui de pietismo, não me arrastando diante de um deus que nos sufoca. Talvez tenha ajudado ter fugido da catequese quando era pequeno. Também nunca passei por um “não creio”. Tenho vindo a conhecer Deus que nos quer adultos. Reconheço os desafios: sou obrigado a libertar-me de medos.  E ainda são uns quantos. Ainda assim, nesse caminho de liberdade, atravesso os meus pecados; converso com tantas pessoas diferentes; permito-me apaixonar; leio as Escrituras sem preconceitos; dou lugar às perguntas; escuto as sombras; respiro luz; emociono-me quando celebro Missa e quando assisto ao crescimento de quem acompanho. E, em semente de mostarda, a fé sinto-a natural e viva: abre-me à vastidão da humanidade.


quarta-feira, 7 de julho de 2021

Amarmo-nos é um desafio


[Secção pensamentos soltos] Amarmo-nos é um grande desafio. Uma das dimensões desse caminho é conhecermo-nos. E tal, apesar de libertador, é cansativo: exige, sobretudo, vontade, em conjunto com o confronto com a realidade nossa, do melhor ao pior, tal qual é. Aumenta a dificuldade quando somos bombardeados de distracções: ora de idealizações, ora de quantidade de informação a que supostamente há que dar atenção. Leva a que se tenha de ter opinião sobre tudo e sobre todos. Dito de outro modo, estar no lugar de Deus omnisciente, omnipotente e omnipresente. E vivem-se as paradoxais subtis ditaduras da sociedade dita livre: sempre contactável, sempre disponível, sempre opinativo. Não se aguenta. O amor definha. 


A acompanhar centenas de pessoas nos últimos tempos, sobretudo em contexto de retiro, apercebo-me do quanto se pode estar preso a idealismos que impedem a tomada de consciência do lugar próprio, sem rodeios nem comparações. Sim, enquanto humanos somos complexos. E que maravilha. Mas, complicamos muito quando nos deixamos levar pelo emotivismo sem nos darmos tempo para respirar e pensar. Quando isso acontece saem tantas novidades surpreendentes. Do que mais me dá que pensar são as vezes que ouço: “é a primeira vez que estou a contar isto!” Estar disponível para acolher a sombra, o lado lunar, o que não se gosta de si mesmo, é duro, mas fundamental para a liberdade. E o isto que sai pela primeira vez, do mais variado, mas sobretudo de pesos acumulado em anos, décadas, não trabalhado, integrado, aceite faz com que hajam lutas internas e fugas de amor, onde o mais fácil é diluir-se no emotivismo social, político e religioso. E em nome de acabar com a violência, para ser livre, torno-me violento, julgando e anulando, não o comportamento do outro, mas o outro enquanto ser. Mais uma ditadura subtil, que alimenta ditaduras sociais. 


Pois, amarmo-nos é um desafio. Em geral, conseguimos responder mais ou menos bem ao como estou. Mas, no final do dia, poder responder ao quem sou, de forma livre, é fundamental para esse desafio de amarmo-nos. Insisto muito no Amor, mas, quer queiramos ou não, é esse que nos salva enquanto pessoas. O resto são apenas adereços. 


domingo, 4 de julho de 2021

Sobre fraqueza e força


[Secção pensamentos soltos sobre fraqueza e força] A humildade é das virtudes humanas mais exigentes. Tomar consciência da beleza de quem somos, do quanto o amor próprio nos desafia a viver o nosso lugar sem roubar o de ninguém, permitindo que a vulnerabilidade seja sítio de compaixão, compreensão e misericórdia pelo outro, revela humanidade em caminho de divindade.


Tenho aprendido este caminho no quotidiano. De vez em quando a soberba e o orgulho atravessam-me o ser. Por isso, sinto cada vez mais a necessidade de recolher-me em silêncio a dar nome às subtilezas do que me afasta da humildade. Tento não cair na tentação do perfeccionismo, como se me exigisse o acabamento já. Aí, além de Jesus que dá o exemplo de profundo amor, recordo S. Paulo: após o insistente pedido de que lhe seja removido o “aguilhão na carne”, ouve desde as entranhas que lhe basta a graça de Deus. Esta passagem é de grande força, convidando ao silêncio que liberta toda a presunção e acolhe todas as graças a pôr ao serviço por uma humanidade mais luminosa. Cada pessoa, sem comparações, percebe que terá a sua fragilidade e que desde aí também poderá encontrar a força: seja a pedir ajuda, seja a dá-la desde o amor que tudo compreende. Todos ganharíamos. 


Ser humilde é abraçar a verdade. Quando tal acontece, dão-se passos de luz no perdão que abre vida nova. Sem automatismos, é a peregrinação da existência. Vamos crescendo desde o amor e, se possível, com humor. Termino a agradecer a ordenação de dois padres, o Luís e o Marcelo, e três diáconos, o Daniel, o João Paulo e o Miguel, na diocese de Vila Real. Recebi a graça de os acompanhar no retiro de preparação para a ordenação. Foi uma bonita celebração. A diocese e a Igreja ganham cinco padres e diáconos humildes, na fraqueza e na força em Deus.


sábado, 3 de julho de 2021

Toca-se porque se crê


[Secção pensamentos soltos sobre fé e corpo, na Festa de S.Tomé] Quanto mais leio sobre corpo, mais fico com a certeza de ser, como dizia Tertuliano, passagem para a salvação. O toque de pele com a realidade abre novo conhecimento. Desde cedo que o abraço, o afago, o afecto, dão sentido de ser e confiança à pessoa que recebe. Por outras palavras, dão fé.


A fé não é uma idealização da realidade. É a concretização da confiança sem ingenuidades em nós mesmos, nos outros e no transcendente, em Deus. Tomé, que celebramos hoje, quando lhe disseram que Jesus tinha ressuscitado, disse: “preciso ver e tocar para crer”. Ficou apenas o “ver para crer”. No entanto, o tocar e em particular nas chagas, ou marcas da fragilidade, da vulnerabilidade, também é confirmação de crença. A devoção popular tem muito de corpo. Não é intelectualizada, mas física, nesse palpável que fala de Deus. Há uns anos, enquanto rezava na Igreja de S. Domingos, em Lisboa, assisti a este momento. Apesar do pudor, senti também a força da simplicidade da fé, por isso tirei a foto. O gesto de tocar na imagem foi de grande beleza. Não se trata de tocar para crer, mas porque se crê toca-se em agradecimento ou petição. Não é só cabeça e/ou coração a rezar, mas todo o ser. E falta tanto, é mesmo fundamental, trazer corpo à oração. 


A devoção tem e precisa de corpo. Somos relação com Deus em corpo. Por isso, a força da aparente falta de fé de Tomé mostra-nos que, sim, podemos duvidar, mas, mais que isso, podemo-nos permitir viver a fé de forma encarnada, sendo o toque, o afecto, todo o corpo, desde o respeito por si mesmo e pelo outro, lugares de Deus.


segunda-feira, 28 de junho de 2021

Breve oração


[Breve oração ao adormecer]


Agradeço-Te

sermos corpo e a força de o ser

com e para além de cores


Peço-Te

que se vejam pessoas

simplesmente pessoas


domingo, 27 de junho de 2021

Sobre acolhimento



José Novais


[Secção pensamentos soltos sobre acolher] “Passageiros à porta”, dizia a ou o Chefe de Cabine para nos prepararmos para o acolhimento. Conforme a posição no avião, lá nos colocávamos a acolher os passageiros. “Boa tarde, bem-vindo a bordo”; “Welcome a board”. Isto, entre outras tantas coisas, ficou-me dos tempos aéreos. Nos casamentos gosto muito de acolher os noivos à porta da Igreja. Mas, antes, também os convidados. Ali estou a recebê-los, a grande parte das vezes sem saber nada das suas histórias de vida. Vejo olhares felizes, pessoas que não me respondem, outras que se assustam. Ali, a todas acolho. Aquelas portas de Igreja são simbolicamente de passagem a algo diferente. 


Acolher algo ou alguém significa dar-lhe lugar. Pode não ser o da concordância, mas, enquanto pessoa, para além de qualquer rótulo, são-lhe dados o espaço e o tempo para se renovar. Jesus acolhe o toque daquela mulher com fluxo de sangue e renova-lhe o lugar da existência, depois de ela ter-lhe contado toda a verdade. É exigente acolher a verdade. Antes de mais, a verdade de nós próprios, sem véus, do que é, do que sentimos na limpidez da objectividade. Pode ser muito doloroso e é preciso respeitar os tempos, sem heroísmos para desbravar a verdade. No entanto, fundamental, se queremos evoluir humana e espiritualmente. Aos poucos, a liberdade vai surgindo, tanto do nosso ser e sentir, como diante do outro. Dá-se passagem. 


Encontro muitas pessoas marcadas por faltas de acolhimento. Eu próprio, tristemente, já contribuí para essas faltas. Nas não-respostas, como que a ignorar, percebo que podem vir ao sentir as memórias disso mesmo. Estar à porta, a dar as boas-vindas à casa de Deus, à celebração, à vida, é, como padre, dizer-lhes que Ele acolhe. Isso é que interessa. Deus quer que vivamos o nosso lugar de forma plena. Depois, com a liberdade que nos é dada, cada pessoa fará o seu caminho de aprofundar o acolhimento, a si mesma e ao próximo, atravessando e chegando à vida nova.


sábado, 26 de junho de 2021

A verdade revela-se


[Secção letras verdes] Ao terminar um dia de retiro. Agradecido pela Luz que atravessa as sombras.


sexta-feira, 25 de junho de 2021

O amor é um lugar de espera


[Secção coisas de nada] Os ventos de final de tarde coreografam as folhas secas de tília pelo chão. E ele ali estava, quase perfeito. Pensei: o amor é um lugar de espera. Acomoda-se a observar os movimentos de toque e a escutar conversas de alma, mais subtis ou profundos. Diverte-se em sorriso sorrateiro com os fogos de artifício das paixões que interrompem os passos quotidianos, aflorando pelo corpo as hormonas que revitalizam a vida. Ainda assim, nessa espera, sabe que pode perder. Todas as perguntas fazem sentido, sobretudo quando já passou por muito. Sendo lugar de espera, sabe que os ventos agitam as árvores. As que têm raízes fortes fortalecem a amizade entre a terra e o céu. E as pequenas folhas vão formando desenhos no caminho.


quarta-feira, 23 de junho de 2021

Breve oração


Miguel Pires


[Breve oração ao entardecer] 


Agradeço-Te

as sombras inesperadas

envoltas de perguntas a abrir

raízes clarividentes de corpo


Peço-Te

a beleza do foco

e fogo em Ti


segunda-feira, 21 de junho de 2021

domingo, 20 de junho de 2021

O imenso da existência



“Expansão da luz (centrípeta e centrífuga)” de Gino Severini, no Museu Thyssen-Bornemisza - Madrid


[Secção pensamentos soltos sobre a existência] Têm-me assolado perguntas sobre isto de existir. Do significado da nossa presença no mundo, nas relações, de como os rostos dos outros nos atravessam a alma, de como os nossos gestos podem ser de vida ou de morte, por vezes propositados, conscientes desse bem ou mal feito, outras tantas, talvez a maioria, inconscientes, resultados de aprendizagens de tanto, mas tanto que vivemos nos inumeráveis segundos da existência desde o primeiro grito a afirmar a nossa presença. E se há dias escrevia como me sinto pequeno, hoje, faço-o a dar conta do imenso que nos atravessa quotidianamente a vida. 


Jesus desafia os discípulos a atravessar para a outra margem. Detive-me neste versículo. A existência é uma travessia de margem para outra, onde a meio podem surgir tempestades, emocionais, de acontecimentos, que nos levam a sentir perdidos. Ainda mais quando somos bombardeados de exigências para ser perfeitamente adequados à sociedade que impele a nunca falhar, errar, cair, fraquejar. E como é impossível a todos e tudo agradar, há que fazer escolhas nessa travessia. Jesus aponta o caminho da liberdade: as tempestades perdem o poder quando somos cada vez mais consciente da força do imenso que somos, sem necessidade de comparar. 


Na nossa pequenez, a força no imenso que somos deve revelar os dons particulares, como na beleza de um arco-íris a atravessar a escuridão. Não somos conceitos, não somos categorias, não somos rótulos, somos pessoas chamadas a viver o amor. Como? Na travessia do perdão, de impedir que o nosso coração seja invadido de rancor, de pedir ajuda, se assim for necessário, para libertar de tudo o que impeça de ser e dar vida, recordando que temos nas mãos poder e todas as cores para criarmos uma existência plena de significado, para nós mesmos e para o mundo que nos rodeia. Há a perder o medo de fazer a travessia da existência. E o amor acontece.


sábado, 19 de junho de 2021

Ser luz



Poema de Matsuo Bashô, em “O ermita viajante - haykus - obra completa”, ed. Assírio e Alvim


[Secção outros tons] Em cada dia de escuta, confirmo: o desejo incessante de habitar-me de luz. Aí agita-me o amor. E no silêncio, atravessando as sombras, respeito os tempos que não são meus, observando e agradecendo os voos iluminados de liberdade.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Jesus, o Juiz Final


[Apontamento breve depois de ler alguns comentários que pululam pelas redes sobre esta ou aquela mãe, este ou aquele pai, esta ou aquela pessoa refugiada ou em busca de melhores condições de vida, vítima de assédio, de orientação homossexual,  esta ou aquela acção menos feliz de alguém] Descansa-me muito saber que é Jesus quem julga no juízo final. E ainda mais ter o Espírito Santo como advogado bate tudo. É que se fossem algumas pessoas que, sem distância crítica e reflectida, nem sentido do outro, julgam, acusam, atacam, denigrem e matam pela palavra, apenas porque sim, por estarem frustradas, por terem perdido a noção de empatia, tudo se tornaria demasiado assustador. Mas, vale-me saber que quem julgará lá no final dos tempos é Jesus, que não veio para condenar, mas salvar.  


quarta-feira, 16 de junho de 2021

Sair de julgamentos pelo amor



[Secção conversas soltas]

- P. Paulo, porque é que as pessoas se julgam e julgam os outros tanto?

- Por falta de amor.

- Só por isso?

- Não é pouco. A falta de amor abre-se em dores antigas mal resolvidas, em projecções de realidades ideais, dificuldade em perceber que elas mesmas podem decidir pelo mal e pelo bem, grandes desajustes no sentido, compreensão e vivência do amor, conforme o que aprenderam ao longo da infância e adolescência. Ao julgar, põem o centro na outra pessoa, seja por comparação, seja por idealização, desfocam-se do essencial.

- Então é difícil sair desse julgamento.

- Prefiro dizer que é exigente. Depende se a pessoa realmente quer ou não sair desse lugar de julgadora. Aliás, se quer sair dos lugares desajustados da existência: julgadora, vítima, agressora, ferida, etc. É exigente, porque, infelizmente, esses tornaram-se lugares de referência, conhecidos e aparentemente seguros. Sair daí é muito duro. Mas, se tal não é feito, não encontra a liberdade do amor. 

- Há que mesmo viver a profundidade do amor. Agora compreendo quando diz que saímos dos julgamentos pelo amor. 


terça-feira, 15 de junho de 2021

Conversas com Asas - 2.ª parte


[Coisas na vida de um padre tripulante na Jesuit Airlines em code-share com a Air Vaticano] A conversa de galley, no podcast “Conversas com Asas” da APTCA - Associação Portuguesa de Tripulantes de Cabine, estava prevista ser de médio curso, mas o voo continuou e acabou por ser de longo. 


Desta vez, andámos a volta de temas como: O que é a fé e de que forma nos equilibra em momentos de crise? O que distingue a fé espiritual e a fé religiosa? Que adaptações e aproximação têm existido entre a Igreja Católica e as comunidades? A resiliência emocional. Que papel tem a autoestima no caminho do amor próprio? A humanização do amor e a empatia. 


É possível ouvir em:


Site Aptca: https://aptca.pt/podcast-conversa-com-asas/ 


Spotify: https://open.spotify.com/episode/3EPjNjUbTJ63FFzzquIuBD?si=cbded542fe46490f


segunda-feira, 14 de junho de 2021

Breve oração



[Breve oração ao anoitecer]


Agradeço-Te

apesar da vontade de pressa,

a transição na suavidade do tempo 

a abrir o silêncio na aprendizagem da espera


Peço-Te

raízes a suster a leveza da passagem


domingo, 13 de junho de 2021

Ser pequeno



[Secção pensamentos soltos sobre a vida] Há dias em que me sinto verdadeiramente pequeno. Mesmo minúsculo. E não tem mal. É por isso que a parábola do grão de mostarda me diz tanto. Desde há pouco mais de um ano que tem feito em brisa suave muito eco em mim, como se concentrasse o que sinto e vivo da fé. O pequeno da fé. O pequeno da esperança. O pequeno do amor. Ou outros modos de irmos tirando capas, véus, cargas de imposições sobre a relação com os outros, connosco mesmos, com Deus. É um desafio de vida sermos grão de mostarda. 


Desde há alguns anos, no último em particular, que tenho escutado muitas pessoas. Algumas de forma mais regular, muitas tantas de forma pontual. Já companheiros mais velhos me tinham falado do impacto que a escuta de pessoas causa na alma. E causa mesmo. Cada história um terreno sagrado, onde, sem julgamentos, se identificam dores, culpas, tomada de consciência de luzes e sombras que permitem torná-lo fértil de fé. Recolho-me e na minha oração amplia-se a vastidão da humanidade, como espectro do imenso que não pode ser categorizado com rótulos rápidos, simples, banais e tantas vezes mortíferos da dignidade. A obrigação da grandeza e da opulência tem levado a que tantas pessoas se sintam, consciente e inconscientemente, esmagadas de comparação ou de idealização de realidades sociais e religiosas. E quando nos apercebemos com seriedade das coisas, vemos e  sentimos nas entranhas como o mais pequeno é o mais universal. 


Há dias em que o silêncio nos envolve dessa recordação de pequenez. Onde estivermos, somos convidados a parar, fechar os olhos, respirar fundo, percorrer o corpo com as mãos, tomarmos consciência da presença de quem somos, sem mais nem menos, apenas o que é. E, dando graças, permitirmo-nos amar. Daí sairão os ramos que abrigarão as aves do céu e darão abrigo, em sombra fresca de dia de Verão, a quem de nós se aproximar. E soltar-se-ão as gargalhadas calorosas de quem vive a liberdade em Deus. O fruto da vida será, já é, abundante. 


sexta-feira, 11 de junho de 2021

Regresso a casa



[Secção boas notícias em dia do Sagrado Coração de Jesus] “Saí num banco, em emergência. Entro em casa pelo meu pé de mão dada com o amor da minha vida.” Foi a expressão do meu pai no regresso a casa, seis meses depois do grande susto. Fomos buscá-lo ao Centro de Reabilitação, onde demos o grande abraço acumulado. Tivemos os ensinos: ajudar a levantar, a fazer as transferências da cadeira de rodas para algum lado, entrar no carro e, em especial, o reforçar dos terapeutas: ele tem estratégias para se cuidar sozinho. Está autónomo no vestir, no comer, na higiene. Claro que é uma nova etapa, onde continuará a reabilitação fisioterapeuta. Agora, desde casa é um exigente processo de adaptação à nova realidade. Têm sido meses de pensar muito. O AVC aconteceu em Advento. Atravessámos todos os tempos litúrgicos fora e dentro nas vidas pessoais. E tem alta no dia do Sagrado Coração de Jesus. Comentava-me um terapeuta: “é tão bonita o amor que eles têm um pelo outro. Quando o seu pai me falava da sua mãe, notava-se a paixão desde os inícios.” Como filho, sinto-me agradecido por este amor dos dois. É uma nova etapa, sim. Estamos muito agradecidos, em especial o meu pai, por todas as mensagens, pensamentos e orações de amizade e carinho. Que os seus corações continuem envolvidos pelo Coração que dá Vida em abundância. E que Ele também a cada pessoa encha de Luz e Vida. 


segunda-feira, 7 de junho de 2021

Do fragmento à ponte


[Secção coisas de nada] Na busca de fotografias, encontrei esta. Já tem uns anos. Chamei-lhe, em piada, “auto-retrato-fragmentado”. Com o passar do tempo, também através da experiência da pequenez do conhecimento do meu, nosso, lugar mais concreto, dou-me conta de que também somos muitas fragmentações do sentir e pensar. O exigente caminho da humildade é mesmo ir ajustando a coerência da aprendizagem dos direitos e deveres. Há a tentação de nos acharmos isolados na existência. Mas, não, precisaremos sempre dos outros, no respeito e cuidado, que nos desafiam a esse lugar concreto. Os fragmentos ligam-se, em pontes, quando nos libertamos da necessidade de nos completar e nos abraçarmos à responsabilidade de nos complementar. Aí, também encontraremos humanidade. 


domingo, 6 de junho de 2021

Livre de mim



[Secção letras verdes] Sobre a liberdade da existência. Ou dos caminhos a percorrer até lá. 


sábado, 5 de junho de 2021

Coisas de tanto



[Secção coisas de tanto, enquanto oriento Exercícios Espirituais] Quanto mais escuto em contexto de Exercícios Espirituais o caminho que cada pessoa faz consigo e com Deus, mais fascinado fico com a complexidade do ser humano e a beleza que Ele é. Também me dá muito que pensar o desajustado e até mesmo o mal que se fez e faz em nome de Deus. Compreendo zangas, tristezas, renúncias de fé. Ainda assim, a paciência na espera, cuidado e respeito que Ele tem connosco é lugar do Seu Amor por cada pessoa. 


quarta-feira, 2 de junho de 2021

Breve oração




[Breve oração ao anoitecer]


Agradeço-Te

o toque de veludo a amaciar o silêncio

do necessário descanso reparador


Entrego-Te

quem me convidaste a amar

na escuta, na partilha, na vida


terça-feira, 1 de junho de 2021

Dia Mundial da Criança


AA


[Secção pensamentos soltos em dia da Criança] Os anos que passei mais próximo de crianças ajudara-me a conhecer melhor o ser criança. Observava as brincadeiras, o estar de cada idade, também as suas conversas, o seu lado emocional e capacidade imaginativa. Está muito arraigada a ideia de que as crianças não se apercebem da realidade que as circunda, sobretudo as conversas de adultos. Não só se apercebem, como guardam o sentir da luminosidade total à sombra mais profunda. 


Agora que acompanho sobretudo adultos, vejo o ganho dos últimos anos a observar as crianças e adolescentes. São tantos os adultos que em criança ouviram conversas duras, assistiram a gestos bruscos e viveram incómodos que muitos crescidos na altura acharam que não se apercebiam. E agora, com delicadeza, permitir voltar ao sentir de criança para poder acolhê-lo na sua dor, tristeza, desconforto, sem menosprezar, ridicularizar e, mais uma vez, apressar ou desprezar. As crianças têm grande capacidade de resiliência e no desajustado aprendem a sobreviver. Muitas crianças são forçadas a crescer e etapas ficam por respeitar. Depois, à medida que crescem, no desajuste ou conflito repetem os padrões de defesa, normalmente de forma inconsciente. Que bonito podermos publicar as nossas fotos de crianças. Todos o fomos e de algum modo somos. Mas, mais que tudo, ao nos permitirmos crescer, atravessando dores mal respeitadas, sermos capazes de ajudar as crianças serem crianças, os adolescentes serem adolescentes e nunca impor que sejam adultos em miniatura à medida das projecções dos crescidos, em particular mal-amados, frustrados, cansados, desejosos de sentirem amadas as muitas dimensões em si que ainda não o foram. 


É como adultos que percebemos como as crianças têm de ser profundamente respeitadas na sua idade, no seu sentir, sem apressar maturidades, dando-lhe, sim, a possibilidade de voar na alegria até ao infinito. Essa mesma alegria vai ajudá-las a ser plenamente crescidas, a respeitar o tempo das emoções e do intelecto, ganhando liberdade de vida e de sonhos. Feliz dia da Criança.


domingo, 30 de maio de 2021

Memórias desde músicas


Marta José - dreamaker


[Secção memórias em dia da Trindade] Moby editou o álbum “Reprise” com músicas suas agora orquestradas. Ontem descobri este álbum, já noite dentro. Como tinha agendado ter o dia hoje mais de descanso, fiquei a ouvi-lo até tarde. Porcelain, Why Does My Heart Feel So bad, Natural Blues, We Are All Made Of Stars, entre outras músicas, reconhecidas mais mais maduras, em sons crescidos, fizeram com que fosse bombardeado de memórias de há 20 anos e as lágrimas aparecessem. Foi uma emoção estranha, sem tristeza. Como em 20 anos tanto aconteceu. 


É óbvio, sei, isto de num espaço de tempo tanto ter acontecido na vida. O lugar do esquecimento é fundamental. Não guardamos todas as memórias. Ou sim. Como uma música, um cheiro, toque, sabor, imagem podem despertar recordações de emoções, pessoas, histórias pequenas ou grandes. Imagino isso a acontecer no seio da Trindade. Eles, as três Pessoas unidas em Amor, a partilharem as nossas histórias e como desejam nos ver crescer. Somos histórias. Somos memória. Somos sonhos. As emoções atravessam esse sentir e algo novo surge. Emocionei-me porque me recordaram paixões, risos, sensações de fragilidade e mendigar amor. Imaginei-me a dançar os originais dessas músicas, abstraindo-me da realidade para entrar num mundo muito próprio. Ai, o poder da dança. E agora, estes anos todos depois, ver-me crescido. Continuar inacabado, em caminho, mas crescido. Afinal, não julguei nada nessas memórias. Não julguei nada do que senti, fiz ou vivi lá, naqueles lugares, com tantas pessoas e permiti-me recordar com novo olhar.


Gosto de sentir como o tanto da vida nos convida ao crescimento de existência. É dos grandes desafios: ir fazendo o caminho de não julgar a memória e desde aí aprender com ela, no que há a repetir, no que foi feito como falta de algo, como reacção, que já não faz sentido repetir como padrão desgastante. Foi e é uma emoção estranha. Deu-se crescimento. As músicas poderão ser as mesmas, mas a vida ganha outras cores quando se cresce no existir. E, mesmo sendo muitas vezes duro, há tanto que nos recorda a beleza da existência. Em oração, acolho as memórias com delicadeza, agradeço e danço-as com Eles.


sábado, 29 de maio de 2021

Breve oração



[Breve oração ao anoitecer]


Agradeço-Te

cada sentir, como sol a espreitar,

dando luz ao caminho de partilha

dos gestos que humanizam e curam


Peço-Te

ensina-me a dançar, 

para lá de toda a saudade, 

o Amor da Tua existência


quarta-feira, 26 de maio de 2021

Baptismo da Margarida


Miguel Pires


[Coisas na vida de um padre] A Margarida gosta da liberdade. No dia do baptismo queria passear, ir por aqui e por ali a descobrir a Igreja. Quando a pegavam ao colo, dava sinal bastante audível de querer fazer caminho de luz por ela. Chegado o momento de baptizar: “e agora?” Pois, se não formos como crianças, não perceberemos o reino dos céus. Há que sentar, colocando-nos ao nível, e, com tranquilidade, convidar a estar. Viva a água, que há que tocar, deixar que se torne parte, para de seguida, com boas gargalhadas, torná-la participante da força do Espírito na profundidade do seu ser. A Vida acontece! E a Margarida sorriu e continua a sorrir em Deus.


terça-feira, 25 de maio de 2021

Deus não faz acepção de pessoas


[Secção pensamentos soltos] “Deus não faz acepção de pessoas.” São várias as passagens bíblicas que o afirmam e outras tantas que o confirmam. Nós, as pessoas a quem Deus não faz acepção, somos quem distingue, separa, menospreza, ataca, categoriza, rejeita, desnivela, restringe, apresentando várias medidas conforme os nossos interesses mais ou menos conscientes. No fundo, também para ofuscar as vergonhas próprias, as castrações vividas, explorando ao máximo a chamada de atenção à existência. Quando se faz acepção de alguém, há uma subtil ou descarada forma de se colocar no lugar de um deus que se quer reconhecido e adorado e, por isso, capaz de definir quem faz parte ou não do seu legado de pessoas. 


O caminho da liberdade é exigente. Chegar a ser como Deus mais exigente é. Implica articular liberdade e responsabilidade, onde o espaço e o tempo do amor ganham maturidade tal que o outro pode ser amado na sua diferença, sem lhe querer impor as minhas categorias. Há gente assassinada moral e plenamente por quem ainda está fechado na sua pequenez de horizontes, seja em questões sociais, religiosas, afectivas ou políticas. E eu não fujo ao juízo da minha pequenez. Cada pessoa é chamada a fazer o seu exame de consciência para perceber onde está o eco da acepção de pessoas na sua vida. Não adiantam auto-enganos, de pedestais de moral. Apenas aquele lugar onde com humildade se diz: “Senhor, tem piedade de mim que sou pecador”. Por outras palavras, tem piedade de mim que estou em caminho de liberdade, de querer aproximar-me mais de Ti, nesse profundo amor que apenas propõe precisamente amar. 


Quem se quer endeusar, inclusive no campo religioso, vai segregar. Quem quer fazer caminho de divinização, reconhece-se pequeno e, por isso, vai com o seu tempo sendo capaz de ver no outro, independentemente de gostar ou não, uma irmã, um irmão. O caminho da liberdade é exigente, mais o é ser como Deus que não faz acepção de pessoas. 


segunda-feira, 24 de maio de 2021

Pele de vida


[Secção coisas de nada ainda em ecos de Pentecostes] Detenho-me muitas vezes a contemplar os troncos em geral. As rugosidades do tempo têm formas únicas e específicas e impressionam como pilares de sustentação das árvores. Apoiados pelas raízes, erguem-se ao alto deixando abrir os ramos onde, aludindo ao evangelho, as aves vêm abrigar os ninhos. Hoje olhava um de plátano. As manchas de cores assinalam o libertar da pele que já não interessa para ser revestido de algo novo. Vamos fazendo esse caminho de liberdade. A pele, lugar de tanta memória, é renovada a cada tempo. Ela mesma é fronteira da interioridade de tudo o que somos com a exterioridade de tudo com que nos podemos relacionar. O Espírito aos nos atravessar a pele com o fogo do amor, liberta-nos do caminho do medo, do que fomos acumulando em sensações de encontro, de dores, de elasticidade, de paixões, de brisas suaves que nos retornam à origem: o lugar do paraíso. É outra forma de dizer que através do Espírito podemos crescer na densidade que nos revela a árvore do cumprido e do não cumprido. Aquela da famosa proibição de comer do fruto. Porque precisamos de tanta aprendizagem da vida para termos esse conhecimento. Só o amor abre portas a isso. O amor do Espírito que habita a matéria. O amor uns pelos outros dando vida. Em peles renovadas e troncos revestidos de novidade: a luz própria de cada pessoa que fala livremente a linguagem do amor.


quinta-feira, 20 de maio de 2021

Breve oração



[Breve oração em início do Ano Inaciano]


Agradeço-Te

a Tua delicadeza ante as feridas

e o Teu cuidado: sem julgares ou perderes tempo,

debruças-Te sobre os caídos,

dolorosos, de corpo, de alma, de relação, 

e mostras, ainda que exigente, caminho novo

para renascermos em Ti


Peço-Te

aproxima-me desse amor

que sana e ilumina 

novas perspectivas de ser

contigo e com os outros em Ti


[Mais informações sobre o Ano Inaciano que nós, jesuítas, começamos hoje a celebrar aqui: https://pontosj.pt/ano-inaciano/]


terça-feira, 18 de maio de 2021

Sobre o amor


[Secção letras verdes] Ainda, que nunca é demais nos tempos actuais, sobre o amor.


segunda-feira, 17 de maio de 2021

Fobias sociais


[Secção pensamentos soltos sobre fobias sociais] Escrevi há pouco um breve texto sobre gestão de emoções, em que falei de forma rápida, como breve texto que queria que fosse, sobre homofobia e o conflito Israel-Palestina. Escreveram-me, simpaticamente, a dizer que também como padre eu deveria ser mais explícito no combate à homofobia, já que acompanho tantas pessoas que sofrem desse flagelo. Ainda mais sendo este dia contra essa fobia em particular. 


Fobia significa medo. Medo do estranho, do desconhecido, do diferente, do que pode pôr em causa o que me é estrutural no pensamento. Os medos tem o seu quê de instintivo, como forma de sobrevivência. Há medos bons. Mas, há medos tremendamente negativos: todos os que provocam rejeição humana. A homofobia é um deles. E faz tanto mal, ao ponto de matar, na dignidade e literalmente. Grande parte das fobias sociais, em particular a  homofobia, são reacções de defesa. A quem tem essas reacções deveria perguntar-se: tem medo de quê, afinal? Sim, de quê? De uma orientação mal resolvida na sua própria pessoa? De não querer aceitar alguém próximo a ser quem é? De perder a sua noção de mundo a preto e branco? 


O trabalho pessoal de libertação de fobias é exigente. Reconheço. Mas, o primeiro passo, que em humanidade nem deve ser considerado, não é anular o outro. É o de buscar ajuda para perceber a raíz da fobia e abrir horizontes de pensamento. A complexidade do ser humano é tal que qualquer pensamento é curto para a abarcar. Ainda assim, essa pequenez pode ser lugar de humildade e permitir, em caso de dúvida, caminho de conhecer a pessoa no seu todo. Aos poucos, o medo dissolve-se dando lugar ao respeito, ao cuidado e à defesa dos direitos humanos. E todos ganhamos e crescemos em humanidade. 


Gestão de emoções


[Apontamento breve sobre gestão de emoções] É muito fácil num clique partilhar nas “stories” do Facebook ou Instagram imagens e vídeos vários. De quinze em quinze segundos passa a outra. Hoje são muitas as publicações sobre a homofobia, neste dia internacional contra esse flagelo, a juntar a outras tantas do conflito Israel-Palestina. Depois, de uma destas forte, a seguir surge algo fashion ou humorístico e dou por mim a flutuar rapidamente nas variadas emoções. Já acontecia isso nos feeds, agora é mais rápido nas “stories”. Ora vem a tristeza, depois o sorriso, a seguir o choque, passa o deslumbre de beleza, e logo a dor. É o que é. Apercebi-me que tinha de me silenciar o dobro dos segundos para respeitar não só o conteúdo que implica o sofrimento humano, como as minhas próprias emoções. E houve mesmo imagens e vídeos, tanto da importância de se falar da homofobia, como do pedido do fim do conflito, que me fizeram parar mais tempo, sem me ficar em consumismo mediático e perceber como posso contribuir para o respeito e paz na minha proximidade.


domingo, 16 de maio de 2021

Corpo e respeito




[Secção coisas de corpo no dia da Ascensão] Sempre me incomodou quando alguém insiste fazer algo que a outra pessoa não gosta. Por exemplo, tenho muita dificuldade, dor mesmo, quando alguém me bate nas costas. Uma vez fizeram isso e avisei que não gostava: “oh, não gostas de cumprimento à macho?” Prefiro cumprimentos humanos. Mas recordei outras vezes que assisti não a cumprimentos, mas a gestos aparentemente de macho: as “arróbadelas” às raparigas. A brincadeira de as apalpar como demonstração de virilidade. Uma vez, já com medo presente, manifestei-me contra apenas com a reacção facial. Ouvi: “que cara é essa? Não gostas? Não és homem? Ah, a menina apoia as meninas. Maricas de merda!” Mais medo tive, ainda veio o empurrão em conjunto.


Sei hoje, por muita formação, leitura, estudo, silêncio, ajuda espiritual e psicológica que o trauma não é fácil de desbravar. Leva tempo a falar. Anos, décadas. Mas é possível! Ainda há muitas pessoas com dificuldade em verbalizar as dores sentidas pelas violações da dignidade com as apalpadelas e mais que isso. É preciso muito respeito e compreensão na escuta, até mesmo para acolher a possível distorção de memória que é natural surgir. Para que se comece a dar espaço à libertação do trauma, é preciso que se fale de forma pública, sim. Sobretudo para ajudar a mostrar que não se está sozinho(a) no sofrimento e assim possa procurar a ajuda necessária. Mas é importante que se fale de forma sensata, clara, sem apelar ao emotivismo, pois muito ruído também pode provocar mais fechamento. 


Na Ascensão, Cristo leva a nossa humanidade para o céu. Aí está o corpo, a carne, com a sua força e fragilidade. Deus conhece o ser humano plenamente. Mas porque nos quer adultos, nas muitas dimensões, desafia-nos a fazer caminho de maior respeito por cada pessoa para que também nós possamos ascender com Ele. Quando alguém insiste em fazer mal a outra pessoa de forma verbal, psicológica ou física contribui para dificultar a vida plena. Ainda assim, vale-nos a certeza de que Ele inspira pessoas que se vão libertando do medo e são capazes de impedir que mais sejam maltratadas na sua dignidade, também enquanto corpo.


sexta-feira, 14 de maio de 2021

Longa oração




[Longa oração ao final de uma semana muito intensa de acompanhamento(s)]


Agradeço-Te 

o caminho, cada passo, a luz e a sombra sobre eles.

A lista é grande. De tudo, sim. Mas desta vez, continuo pela pequenez de mim. É um desafio constante isto de enfrentar a morte, seja de que tipo for, e ter de perguntar uma e outra vez sobre o lugar certo da existência. É o constante ajuste desse caminho que leve de lugar a lugar até encontrar o pleno, onde não necessitarei mais de me justificar, buscar compreensão, perceber a raíz das coisas e ir, assim, libertando-me de julgamentos rápidos de acções ou omissões. É ânsia de alcançar perdão, tanto para pedir como para conceder. 


Detenho-me no de pedir. 

Quando de um dia ao outro a morte escancara o que realmente importa, dou de frente com tantos pedacinhos incompletos, desgastados, por não ter sido pleno e estar ofuscado por tanto, como o medo. Por isso


Peço-Te

perdão pela falta de escuta, entre rasgos de incoerência ou de desvios, distorcendo a essência do amor que não Te cansas de enviar, dar, ser


força para não permitir a indiferença ante as mortes e assim


abrir portas à esperança, de que desde a imperfeição consegues resgatar algo novo, mostrando-nos o lugar que cada pessoa é na nossa vida e que somos na vida de cada pessoa