quarta-feira, 24 de março de 2021

Tempo de pausa



[Secção tempo de pausa] Na véspera do dia bonito da Anunciação, a entrar na Semana Santa, partilho que farei uma pausa de publicações e presença pelas redes sociais. Sou mais um a que o excesso de ecrãs tem causado aumento de cansaço. Este breve descanso ajudará a que volte a acompanhar o melhor possível, também por estes lados. Levo, como costume, o abecedário para a oração. Até breve.


terça-feira, 23 de março de 2021

A contemplar infinito


[Notas soltas enquanto contemplo o infinito] Todas as palavras são vãs na tradução do inefável que neste momento sinto. Por tanto que me habita, em especial nomes e histórias de vida, na sociedade e na Igreja. O horizonte e a vastidão são lugar de Deus. No cansaço actual do mundo, Ele é caminho de descanso. E nós, enquanto Igreja, temos responsabilidade de sermos porta aberta, passagem, ponte, escuta e abraço. A viver em oração despojada, jejum livre e entrega com amor.


domingo, 21 de março de 2021

sexta-feira, 19 de março de 2021

Dia de S. José e do Pai



[Secção pensamentos soltos, repescados, em dia de S. José e do Pai] José vive durante a noite a sua Anunciação. Aquele sonho transmitiu luz na grande confusão da vida de quem não se conhece a voz. As palavras omitidas no texto bíblico são repletas de gestos, em atitude de confiança e acolhimento do mistério da criança que será portadora de mudança na humanidade. 


Ser pai tem esse lado de mistério. Tudo muda. Mais do que ter um filho ou uma filha, transforma-se a essência: torna-se pai. Em mudez de palavras, sem viver o lado interno da gestação de alguém, simbolicamente é a força da protecção. A noite ganha laivos de dia no acompanhar do crescimento do novo ser. Também na maternidade. Isto de não haver na humanidade blocos ou de cor ou de branco ou preto, faz-me pensar nas milhares de mulheres que tiveram também de ser pai. Ou nos pais que tiveram também de ser mãe. Cada um de nós é fruto da relação, seja qual for. No entanto, felizmente, não é imutável em caso de tristeza ou de desilusão sobre a figura paterna. Aprende-se muito com a presença e há que agradecer, e muito, os “melhores pais do mundo”. Igualmente se aprende, mesmo que com inevitável dureza, com a ausência, sobretudo quando esses pais são o invés da segurança depositada ou esperada. Seja como for, se cada um de nós aqui está e é, tal deve-se aos progenitores que, com mais ou menos amor, nos deram existência. Para quem este dia é de alegria e reconhecimento pelo pai que tem, é de agradecer. Para quem este dia possa trazer recordações mais tristes, também é de agradecer, por exemplo, a possibilidade de não dar continuidade à tristeza, à dor, mas à certeza de que o amor de Deus Pai (e dos padrinhos, igualmente reveladores de paternidade) nunca abandona. 


A Anunciação a José deu-se à noite, recebendo luz que lhe permitiu, apesar de toda a confusão de sentimentos, ir-se abrindo ao mistério de amar em paternidade. Nas noites da existência, podemo-nos apoiar em S. José. O meu Pai José, neste seu tempo de vida, também vai tendo o apoio da técnica de reabilitação e da fé. Há pouco dizia-me: “tu que também és pai, reza na Missa por mim.” É também uma forma de continuar a apontar caminho.


quinta-feira, 18 de março de 2021

Beleza leve



[Secção coisas de nada] Vi-a pousar. Ali ficou a abrir e a fechar as asas expondo os seus olhos de imenso. A beleza tem mesmo algo de leve. É impressionante como as coisas simples, ou irmos simplificando as coisas, traduzem caminho de liberdade. Tenho aprendido em conversas, silêncios, leituras, movimentos de dança e observações que quanto mais límpidos são as palavras e os gestos mais leves se tornam. Mesmo os que possam transmitir coisas difíceis. A mística da vida passa por deixarmos a nudez da existência acontecer. Difícil, mas profundamente necessário. É: a beleza salvará o mundo, como disse Dostoyevsky, por isso há que dançar para não nos perdermos, como disse Pina Bausch. E, claro, sempre em experiência de amor, como nos desafia Jesus. A leveza acontece. Quando me aproximei para tirar a foto abriu as asas, aguardou um segundo e dançou livre pelo ares.


terça-feira, 16 de março de 2021

Breve oração em celebração




Carla Ventura


[Breve oração em celebração] 


Agradeço-Te

ser diácono por Ti consagrado,

nestes oito anos no caminho

de húmus com luz e sombra

a permitir aprendizagem


Peço-Te

recordar sempre o dom 

vindo de Ti e em Teu Nome

continue a coroar a vida 

de quem me confias a amar e servir


domingo, 14 de março de 2021

Ramos a apontar o céu



[Secção coisas de nada] Enquanto dava um pequeno passeio, entre conversas e reuniões, olhei o céu. Convoca tanta serenidade olhar o céu. Desta vez tinha o pormenor dos ramos de ameixeira. Floridos, pontilhados de abelhas, no belo zumbir, fizeram-me ver os caminhos de encontro que florescem quando estou, estamos, dispostos a dar. O evangelho de hoje recorda que Deus quer salvar o mundo. Esta salvação, ligando céu e terra, não é algo etéreo mas concreto nas ramificações de relações de cuidado, atenção, vida uns com e pelos outros. Os conflitos atenuam-se na salvação. Ou outro modo de saúde alimentada de mel vindo de flores nos ramos que apontam o céu a convocar serenidade.


quarta-feira, 10 de março de 2021

Quem somos...



[Pequena divagação ao anoitecer] Nesta grande noite da existência que atravessamos, tenho pensado muito de que precisamos de nos questionar com seriedade quem somos. Não é uma mera questão filosófica. Apenas ir a fundamentos da existência, com implicações e efeitos para muitas outras questões que se gritam pelas redes fora. Se ainda não se consegue responder a isso, com autenticidade e respeito por si mesmo e pelos outros, todas as aparentes certezas que saiam em opiniões sobre tudo e mais alguma coisa serão apenas manifestações de falta de atenção. Qual criança ou adolescente interiores a pedir para crescer. Em vez de direccionar disparos para outros, que se faça esse caminho de crescimento. Todos ganhamos quando fazemos boas reflexões pessoais e nos respeitamos. E precisamos de tanto respeito uns pelos outros, como estrelas a guiar a humanidade.


sábado, 6 de março de 2021

Sonho de Deus



[Secção coisas de nada] Olhei a suavidade destas pétalas de magnólia iluminadas e ladeadas de céu azul. Detive-me e  agradeci a serenidade. Têm sido dias intensos. A escuta, o silêncio, a oração, a busca de luz em tantas situações, a acompanhar histórias e rostos neste tempo de tanto. O Papa Francisco no livro “Sonhemos Juntos” termina a sua reflexão sobre este último ano de pandemia com o poema Esperança de Alexis Valdès, actor cubano. O poema termina assim:


Quando a tormenta passar

peço-te, Deus apiedado,

que nos restituas melhores,

como nos tinhas sonhado!


Voltarei à magnólia. As pétalas caiem. As folhas verdes anunciam esperança. A mesma de podermos contemplar um mundo melhor. É o que desejo. Sejamos luz. 


quinta-feira, 4 de março de 2021

Breve oração



[Breve oração ao anoitecer]


Agradeço-Te 

habitares nas perguntas 

que têm como resposta 

o elevar e baixar de peito

acompanhados pelo batimento cardíaco

quando a escuta e o olhar são compassivos

e o gesto misericordioso


Peço-Te

ajuda-me a saber perguntar


terça-feira, 2 de março de 2021

Sombra. Arrependimento. Luz


Carmo Sousa Lara


[Secção pensamentos soltos sobre vida] Atravessar as sombras, os meandros pouco simpáticos da vida, do que se fez ou faz que nos desajusta do lugar a que somos chamados é difícil, exigente, por vezes vergonhoso, sendo mais fácil arranjar justificações que impeçam a limpidez do ser. O caminho humano, que acarreta o racional, relacional, psicológico e espiritual, é de evoluirmos até ao divino.


O divino não é estar acima de nada, nem ninguém. É ser pleno. Com a consciência, como o Papa Francisco tantas vezes diz, de passar da miséria à misericórdia. Embater de frente com a miséria humana, na baixeza dos valores, ou pelo menos a possibilidade de a ela aceder, na perspectiva de enfrentar Satanás no deserto, é passo necessário de arrependimento. Os actos feitos não se apagam. Não se muda o mal feito. A beleza, sim, beleza, está na evolução, na escuta do Espírito que nos acompanha na travessia das sombras, a olhar com objectividade, clareza, lucidez para os actos cometidos. Há um contexto. Entre emaranhados de sentires, desejos, dores, feridas, articulam-se apedrejamentos dados e recebidos. Sem perdão, todos perdem. Todos perdemos. O arrependimento não apaga o acto. E talvez se se voltasse atrás repetir-se-ia o que foi. Não se tratam de saltos quânticos no “se soubesse o que sei hoje não faria”. O tempo não é cronológico, mas existencial. Cada pessoa tem os seus passos de vida e libertação. O arrependimento ao longo desse tempo existencial reformula a frase: “com o que sei hoje não posso voltar a fazer”. 


É tão forte quando damos espaço à luz. A sombra passa a ser uma aprendizagem de aprofundar a misericórdia. O perdão, como cura da memória, leva-nos ao divino e todos ganham. Todos ganhamos. É o sentido da Quaresma: encaminhar-nos até à Luz Pascal. Por outras palavras: à Vida.


segunda-feira, 1 de março de 2021

Renascer


[Secção renascer] O meu pai liga-me com voz brilhante.

- Estou tão feliz. Aguentei pela primeira vez 15 segundos de pé, em equilíbrio, sozinho. Já contei à tua mãe. Ai, ainda vou à Foia de bicicleta. Ai vou, vou. 


E rimos os dois. 

Este é o meu pai com toda a sua vontade de superação a celebrar as pequenas grandes vitórias.


domingo, 28 de fevereiro de 2021

Breve oração



[Breve oração antes de adormecer]


Agradeço-Te

estares por nós na montanha 

a orientar o exigente caminho 

da liberdade, do encontro e da entrega,

permitindo o amor se espalhar como

estrelas no céu e areia das praias no mar


Peço-Te

limpidez na escuta da Tua voz 

e assim descer até Ti nos outros


sábado, 27 de fevereiro de 2021

Tudo e todos


[Secção letras verdes] Na transição da primeira para a segunda semana da Quaresma.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Chuva. Sol.



[Secção coisas de nada] Há pouco choveu. Gosto da chuva. Até mesmo de tempestade. Mas no seu tempo. Isto de ser português levou a que pudesse conhecer e saborear o equilíbrio das estações. O demasiado em cada tempo desajusta. Precisamos da ponderação que reconhece um pouco de tudo na quantidade certa para estabelecer o respeito pelo equilíbrio. Reconheço que por vezes há coisas que não dão jeito. No entanto, numa visão global, há a necessidade do equilíbrio dos tempos, dos seres, da Terra, para além de mim. Depois brotarão as flores, os frutos, as sementes. E o sol iluminará nova compreensão de vida e da chuva.




quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Corpo: densidade de Deus


[Secção conversas soltas em coisas de corpo]

- P. Paulo, porque é que no mundo religioso se fala tão pouco sobre corpo? 

- Como assim?

- Quando se toca em temas sobre a sexualidade na adolescência ou no casal é tudo tão, ora pudico, ora moralizado, ora abafado, ora amedrontado, ou, nem sei se pior, espiritualizado. Depois, os risos infantis, mesmo entre adultos, ou os silêncios que falam mais de desconforto que outra coisa. 

- Ainda há muito medo. A corporeidade é tão densa de Deus, que há medo de ir mais fundo nesta relação. 

- Densa de Deus? Nunca tinha ouvido a expressão.

- O mais fácil é espiritualizar a realidade, num etéreo bonito e quase cândido. No entanto, Deus habita a matéria. Além de a ter criado, assume a existência em carne, em corpo, onde todo o sentir fala d’Ele. O medo de se falar de corpo é por implicar enfrentar a verdade pessoal, do prazer ao trauma, do deleite ao sofrimento, nas muitas dimensões das diferentes relações. Isso é de tal maneira duro, intenso e exigente que as muitas defesas internas impedem o caminho de liberdade. O medo também surge em preconceitos a desmontar se se quer crescer também na fé. Falar de corpo é muito mais que falar de sexo. No entanto, falar de sexo num contexto de uma relação de casal pode ajudar a compreender luzes e sombra da relação. E, sim, a vida espiritual séria e transformadora é profundamente corporal. Vamos voltar à respiração?

- Sim. Sentir-me totalmente ser, para me entregar plenamente.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

"El daño que se hereda"


[Secção boas leituras] Que valente abanão na compreensão de muitos traumas. É um tema delicado, mas tão sério, isto da transmissão de traumas entre gerações. Cada vez mais confirmo que não há crianças mal-comportadas, mas mal amadas. E, claro, mal amadas por adultos a quem lhes falta aprofundar o amor por si mesmos. “Na tua idade já fazia mais do que tu agora”, “também levei umas valentes e só me fizeram bem, cresci com elas”, “na família sempre fomos assim, não vais ser tu diferente”, e outros mimos que tais, anulam e abrem portas a danos e traumas. Os cordões umbilicais que não se cortam, infectam e matam. Acompanhar o crescimento é mesmo muito sério.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Dia de todas as cores




[Secção outros tons em Quaresma]


Anoitece: 

arrasta-se o mesmo ritual

na pressão do igual

sempre igual para agradar a sociedade 

e os modos de ver Deus


as preces de ontem ofuscam o silêncio 

do grito cansado de repetir 

o sacrifício de anos


quando entenderemos que Deus

traz o amanhecer?


no dia de todas as cores

sem sapatos nos pés


domingo, 21 de fevereiro de 2021

Silêncio e escuta


[Secção pensamentos soltos] Há uns anos fui a um congresso a Barcelona. Passei pela belíssima Igreja de Santa Maria Del Mar, onde Sto. Inácio de Loiola ia pedir esmolas. Nessa zona, na pequena capela lateral, foi colocada uma estátua de Inácio nesse gesto para (sobre)viver. Aí fiquei um pouco em silêncio. 


A Quaresma é tempo de silêncio. Tantos santos, conhecidos e desconhecidos, canonizados ou não, encontraram-se a si mesmos e a Deus pela exigente experiência do silêncio. Naquele tempo não havia ruído tecnológico e informativo. Ainda assim, os movimentos interiores, pelos sentimentos, emoções, desejos, sonhos, estavam presentes na vida. O silêncio torna-se o tempo e espaço de escuta de tudo isso. Limpar os ruídos, escutar o sentir, entre memórias e imagens, abre oportunidade de perceber quem se é e o seu contributo na dádiva de si ao mundo. Sim, para os crentes, é caminho de escuta da vontade de Deus para nós desde a nossa vida concreta.   


O silêncio, bem vivido e orientado, é fundamental para a consciência da importância de quem somos e a que somos chamados. Por outras palavras, o respeito por nós próprios através do espaço e tempo que nos dedicamos, de modo a ir percebendo a vocação a colaborar por um mundo melhor. 


sábado, 20 de fevereiro de 2021

o coração abre-se


[Secção letras verdes] Depois de ter estado em dois fóruns com autênticas, fortes, sentidas e humoradas partilhas.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Quarta-feira de Cinzas


[Secção outros tons em Quarta-feira de Cinzas] Gosto de recordar-me pó. Esse pó da terra primordial que somos chamados a regressar, o qual Deus modela e insufla o Seu alento. No presente, no hoje, no agora. Nos tempos que vivemos penso na fragilidade como cinzas sopradas. Somos chamados à Vida, sem esquecer sermos matéria que quebra e se desfaz em erros, falhas, pecados, possibilitando a porta à fértil compaixão. Hoje é dia de reconhecimento de que o futuro está aberto a algo novo se assim o permitirmos. É o modo de preparamos o húmus, ou a humildade. Desde a oração que se faz de silêncio e infinito.


terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Memórias em Carnaval



[Secção memórias em coisas de nada ainda na noite de Terça-feira de Carnaval] Tenho estas fotos do carnaval de há uns anos. Bastantes anos. A minha sala do infantário foi toda mascarada de índios. Excepto eu. Quando era pequeno tinha um fascínio pelo Super-homem: queria voar e ter poderes para ajudar os outros, tal como ele. A vontade era tanta que tinha de me mascarar de Super-homem. Não o sou, e que bom. Mas voei e tenho poderes a partir de Deus, que espero usar sempre para ajudar os outros. É tão importante incentivar as crianças a explorarem os sonhos e a criatividade. Nestes tempos de pandemia somos ainda mais chamados a essa criatividade. Sou dos que acredita que os sonhos podem realizar-se. Em modos diferentes, mas podem. É preciso trabalho, persistência, vontade, força e colaboração uns com os outros a animar. Bons poderes e bons sonhos de vida!




domingo, 14 de fevereiro de 2021

S. Valentim



[Breve oração em dia de S. Valentim]


Agradeço-Te

o amor feito carne da mesma carne,

ossos dos mesmos ossos,

em trocas de olhar cúmplices,

mãos entrelaçadas,

abraços demorados,

vozes escutadas,

sem tempo, gratuito e paciente


Entrego-Te

os casais de terra e de céu


Peço-Te

ajuda-os a ser sempre autênticos 

e cultivar a curiosidade 

do amor de carne e osso


sábado, 13 de fevereiro de 2021

Gosto da noite.


[Secção coisas de nada] Gosto da noite. O silêncio abre ainda mais as palavras do livro, a escuta na oração, o voo dos pensamentos. Até gostar da noite, receava essa chegada, onde os ruídos se acalmavam e os monstros do medo apareciam. Era o desconhecido. Até que das trevas se faz luz. Libertam-se os véus da alma e agradeço a verdade enquanto respiro o Espírito. O silêncio dá espaço à vida no inconsciente. Deus é no silêncio. Gosto da noite. E aí rezo nomes e vida.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Riso em oração



[Secção conversas soltas em tempo de pandemia] - P. Paulo, sou uma pessoa que gosta tanto de rir, mas no meio de tanta desgraça é falta de respeito. 

- Há vários tipos de riso. 

- Sim, sei, mas seja qual for, sinto-me estranha. Os mortos, os hospitalizados, os profissionais a dar no duro e nós a rir por qualquer motivo.

- Lá vem o moralismo entranhado, com o “muito riso, pouco siso”. Uma coisa é gozar, em atitude de desrespeito, outra é permitirmos que o humor nos ajude a suavizar a vida. O humor também é sinal de amor. E é natural nos momentos mais tensos sentirmos a vontade de rir. Há a sabedoria de corpo: libertam-se hormonas que ajudam a suavizar a tensão e assim a pensar melhor. Quando lhe der vontade de rir, torne oração o riso e a gargalhada. Ao fazê-lo está a libertar hormonas espirituais para o corpo social. Todos ganhamos. Há tanto a agradecer aos bons humoristas que nos ajudam a viver com mais suavidade os dramas da vida. 

- Ai, P. Paulo, tanto muda com uma boa gargalhada. Isso, vamos dar amor, saúde, vida ao mundo pela boa-disposição e alegria.


[A todos os humoristas que trazem humanidade a estes tempos pela gargalhada, obrigado! Que recebam de volta a dobrar a luz, a vida e amor que transmitem.]


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Abraço em aceno de mão



[Secção pensamentos soltos em dia de N.ª Sr.ª de Lourdes e dia mundial do doente] As janelas abrem a possibilidade de luz. Pode ser do sol, como de encontros. Com as visitas condicionadas, a janela encurta a distância em segurança. Podemos ter todas as videochamadas, e que maravilhosas são, mas o aceno de mão, ainda que longe, transforma-se em emotivo abraço. Assim foi, hoje, a nossa visita ao meu pai. Mantendo o humor, a alegria de viver, as motivações em alta, e a muita gratidão por todas as pessoas que perguntam por ele, hoje à janela esteve de pé pela primeira vez desde há mais de dois meses para nos ver e acenar ao longe. 


Estar doente é um grande abanão de alma. Conforme a intensidade, tanto muda. Recolocam-se as questões da existência, dando espaço e tempo ao lugar da fragilidade. Acentua-se a consciência da beleza das pequenas coisas. Reconhece-se o fundamental da relação, em especial no gesto do cuidar. Somos criados para a saúde, mas na condição biológica, sem que se deseje, a doença pode surgir. Se bem aproveitada, contribui para a cura da sofreguidão do ter, de modo a dar mais lugar ao ser. 


Ao longo destes dois meses, a acompanhar as pequenas vitórias do meu pai, com coisas tão aparentemente simples como voltar a mastigar e permitir saborear a comida, tenho pensado na importância da vida, onde é que faz sentido ganhar tempo, o que somos chamados a fazer enquanto humanos. É tão simples e de grande complexidade: a amar. Na minha oração de hoje recordo todos os que amam, em família, em dedicação profissional no cuidar, nos que passam mais dificuldade, pelos doentes esquecidos na falta de amor. Assim, não havendo outras possibilidades, que hajam janelas a permitir luminosos encontros que encurtam o abraço com acenos de mãos. [A fotografia não sendo a melhor, ficou como registo do abraço ao longe.]


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Breve oração



[Breve oração ao anoitecer]


Agradeço-Te

as mãos a criar humanidade

no barro dócil, insuflando desejo

de liberdade em dons e perguntas 


Peço-Te

manter viva a memória 

donde humildemente vimos

e, convertendo o coração a Ti,

buscar a resposta do regresso

à árvore da Vida


terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Pensar, respeitar, cuidar


[Secção pensamentos soltos em tempo de pandemia] É fácil perceber que aumenta o cansaço global ante isto tudo. As saudades, as falta das relações agora distantes e a intensidade das muito próximas, por vezes, demasiado, o efeito da ignorância emocional, os medos, tornam-se uma mistura perfeita para se estar muito mais reactivo, diminuindo a paciência e levantando-se defesas abrindo portas à agressividade. É preciso tomar consciência destes mecanismos. Em especial, aqui nas redes. A sensatez vai perdendo espaço e a opinião carregada de ofensa, dourada pela “liberdade de expressão”, dá voz à anulação do outro.


Conhecermo-nos é fundamental para perceber como podemos sair do emotivismo em racionalidade. A capacidade de pensar é uma importante característica do ser pessoa. No entanto, pensamos através do sentir. Se ficamos apenas pelo sentir, sem reflexão, estamos a deixar que a reacção tome lugar. O outro será visto como inimigo a eliminar. Atacamos a pessoa e não a sua atitude ou comportamento. Moralmente, se queremos estar no parâmetro humano e não animalesco, não se pode fazer ou dizer tudo. E descarregar as frustrações de forma errada, em ataque mesmo a quem possa ter feito mal, é caminho para gerar ainda mais cansaço e, inclusive, ódio. 


O que vivemos é IMENSO. Acredito que se pode diminuir o impacto dos efeitos em cada pessoa. Um dos caminhos é seguir na grande oportunidade de descoberta ou continuação de aprofundar a interioridade. Desde o silêncio (nem que seja por 5 minutos), escutando as emoções, ganhando distância da realidade e assim vê-la de outra perspectiva, acalma as reacções, abrindo luz no que faz sentido no agir. Isto implica o respeito muito profundo consigo mesmo e com os outros. Pois, isso, respeito. Em conjunto com o pensar e o cuidar, o respeito é uma importante característica do ser humano. Pensemos a realidade que nos envolve, respeitemo-nos, dando espaço ao acto de cuidar.


domingo, 7 de fevereiro de 2021

Breve oração



[Breve oração antes de adormecer]


Agradeço-Te

o exemplo do silêncio de oração 

para manteres o centro, 

sem deslumbres de idealismos


Peço-Te

consciência da vulnerabilidade

e assim, tal como Tu, viver coerência, 

nas palavras e nos gestos


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Perguntas e respostas [de hoje]


[Secção pensamentos soltos] “Fico espantado por se poder dar respostas de ontem às perguntas de hoje.” Este pensamento do P. Pedro Arrupe,sj é tão actual. O P. Arrupe partiu faz hoje 30 anos. O seu amor a Cristo fazia com que se actualizasse desde o mistério da encarnação. Reconhecendo as perguntas intemporais que pedem respostas situadas no tempo existencial, o P. Arrupe observava a realidade concreta, buscando os meios para que a vida e a dignidade humana tivessem sempre lugar no aqui e no agora. No meio de uma pandemia, alguém que estava em Hiroxima quando caiu a bomba deixa-nos um legado humano e espiritual a avivar-nos a esperança de que não são idealizações ou ideologias que cuidam, mas braços, mãos, corações, olhares e escuta de quem quer cuidar o outro. 


Os tempos que vivemos são de grande violência em muitos sentidos. Não quero comparar com uma bomba atómica, mas os efeitos psicológicos do inesperado, do incógnito, da imensa consciência da fragilidade, abalam-nos o ser. Por isso, é preciso ganhar distância para saber o que cada um, cada uma é chamado a viver. A realidade está em transformação e o cansaço começa a imperar. Então, é a altura de perceber qual a pergunta que encaminha à autenticidade. Na gestão emocional, relacional, profissional, familiar, o que é realmente importante e fundamental?


O P. Arrupe vivia em profunda relação de criatura com o Criador, que Sto. Inácio impele nos Exercícios. Diante de Deus tinha consciência da situação concreta, sem comparações, rodeios ou auto-enganos, de modo a chegar à resposta do que havia a fazer. Mais do que nunca, as paragens para respirar, tomar consciência do sentir e do viver, rezar, amar, são meios para serenar competições de super-seja-o-que-for-humano, e, acolhendo a fragilidade, buscar caminhos de encontro, ajuda, cuidando da saúde mental, espiritual, relacional, vital. O hoje não é nova normalidade, mas uma passagem para aprofundar o amor, por ser, nas palavras do P. Arrupe, “a dimensão definitiva e global do ser humano, dando sentido a todas as outras dimensões. Só quem ama é que se realiza plenamente como pessoa.”


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Dia do Consagrado


[Secção boas surpresas em dia do consagrado] O consagrado é aquele que se deixa surpreender pela vida de Deus. Mesmo sem perceber muitas coisas, ainda assim não se deixa abalar por não ter certezas, abraça a vulnerabilidade e desde aí entrega-se. E é a surpresa de S. Tomé que me chega hoje. Aliás, chegou há dias, mas como estive fora não tinha recebido e, hoje, em dia do consagrado recebo este maravilhoso presente assinado por Ruben Ferreira - Fine Arts. Tanta luz neste olhar ante Cristo Ressuscitado. Sim, Ele que é a Luz das nações, abre-nos novas perspectivas perante a dureza da vida. Por isso, enquanto consagrados somos chamados a ser esperança e amor, na fé Àquele que nos ama primeiro.


domingo, 31 de janeiro de 2021

sábado, 30 de janeiro de 2021

Somos infinito no Infinito


[Secção coisas de nada] Fui às compras. No entretanto, do altifalante surgia a informação “Estimados clientes, em Estado de Emergência, com a legislação em vigor, recordamos os nossos horários…”. Fechei os olhos e em breves milésimos de segundo imaginei Portugal, o mundo, as pessoas. Aquele anúncio significava tanto. Emocionei-me. Parou o tempo e senti-me tremendamente pequeno, arrebatado pelo infinito de pessoas. Cada um de nós é infinito, trazendo consigo o Infinito. O silêncio, tornando-se linguagem de Deus, convidou-me a despertar a simplicidade da oração naqueles breves segundos em que o tempo parou. Sem poder fazer mais, tornei o respirar fundo vida em alento de Deus para todos os que sofrem. Em cada um de nós trazemos Infinito de humanidade. Abri os olhos, a vida continuou. Avivada pela esperança.


sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Complexidade da Vida



[Secção pensamentos soltos sobre o simbólico e ser pessoa] O simbólico caracteriza o ser humano. Na sua força, em carácter positivo ou negativo, desvelamos o encontro do sentido de ser pessoa. Tenho a sensação que andamos a anestesiar o impacto que tem a representação simbólica dos actos, atitudes, decisões, em particular de quem lidera. A mesma acção, ajustada ou desajustada, terá maior eco conforme a pessoa que a pratica. Ser líder, político, social, religioso, implica responsabilidade. Daí a exigência necessária para o ser em plenitude. 


Tudo o que toca a questão da vida é realmente complexo. Quando se trata da vida humana adensa-se a complexidade, pela imensidão que nos atravessa o ser. Leia-se, investigue-se, literatura, história, sociologia, antropologia, filosofia viaje-se pela alma ou pelas terras para perceber como é complexo falar da vida humana. Por isso, decidir sobre o que fazer com ela, ainda mais quando implica terceiros, é algo que necessita discussão com seriedade o suficiente que se liberte de ideologias, da esquerda à direita, tomando as decisões com impacto global o mais justas e éticas possíveis. Mas hoje houve pressa. Pressa de ser-se aparentemente livre, melhor, liberto de prisões que impedem a suposta humanidade da escolha. Se queremos combater, e bem, as fobias sociais que atacam o ser humano, então que se inclua nesse combate a bio ou melhor a zoefobia: sim, o medo da Vida. 


A sermos bombardeados de números assustadores, em que os profissionais de saúdes são postos em limites indescritíveis, onde tantos nossos perderam e estão na iminência de perder a vida, a aprovação que hoje se deu no parlamento, simbolicamente falando neste hoje em que tanto se vive no nosso país, é de grande insensibilidade perante a actualidade. Legitimar a morte em tempos em que ela se afigura como já há muito não acontecia em Portugal é banalizar o luto de tantos. O simbólico caracteriza o ser humano. Se anestesiamos o impacto que tem, a pessoa torna-se cada vez mais uma coisa. Infelizmente, é mais simples do que parece. A pressa nunca foi, é ou será boa conselheira ante a complexidade e imensidão da Vida. 


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Breve oração


Carmo Sousa Lara


[Breve oração ao anoitecer]


Agradeço-Te

o olhar de silêncio, 

reconhecendo o inimigo que há em mim, 

abrindo-Te a porta à minha conversão


Peço-Te

a busca da humildade, 

no reconhecer do Pão entregue por todos, 

iluminando a dignidade e a liberdade


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Fazer e viver Memória


[Secção pensamentos soltos em dia da Memória das Vítimas do Holocausto] Nos meus tempos de estudo em Paris tive oportunidade, a convite de Teresa Salado, de participar numa conferência na UNESCO sobre o Holocausto. Foi a primeira vez que estive diante e numa breve conversa com dois sobreviventes desses campos de concentração. Não era a leitura de testemunhos escritos, mas estar olhos nos olhos com rostos que atravessaram o horror. Algo da vida muda. 


Muitas vezes reduz-se a educação ao conhecimento intelectual. É importante, mas não tudo. Conhecer alguém que relata a experiência em primeira mão, transforma qualquer idealização da realidade em algo novo. Pode não haver uma transformação radical, mas dá-se luz ao caminho de humanidade. Há pessoas intelectualmente brilhantes, mas que pela sua acção nota-se que falta conhecer e deixar-se interpelar desde as entranhas por histórias concretas. O outro deixa de ser uma idealização,  um conceito, uma abstracção ou até mesmo uma generalização para passar a ser alguém. E as pessoas não se conhecem por ideias, mas em partilha de vida. Para isso tem de haver disponibilidade de coração na escuta. Por interesses políticos, em diplomacia, faz-se o papel de atenção, instrumentalizando-se pessoas. A Memória, por exemplo deste dia, mostra-nos que aconteceu, não de de um dia para outro, mas na sucessão de vários factores, onde se incluía a crise social, o descontentamento, a divisão entre bons e maus, aproveitando isso para jogos de poder, terminando em abominável segregação e morte de milhões de pessoas desconsideradas como impuras e indignas. O adubo da ideologia foram, literalmente, cinzas de rostos concretos.


É natural que possam surgir a dor e a zanga. Mas, o ódio não se combate com ódio. A inteligência intelectual e emocional bem vividas e trabalhadas humanizam, anulando esse ódio desde o amor. Amar ante o horror é difícil, mas são muitos os sobreviventes, como os dois que escutei, que atravessaram o inacreditável a partir da luz desse amor que não se apagou. Que este dia da Memória nos recorde o que não queremos repetir e que inteligente e humanamente se ponham os meios para o Amor.


terça-feira, 26 de janeiro de 2021

A Nossa Tarde

 


[Coisas na vida de um padre] Partilho a conversa com Tânia Ribas de Oliveira, no programa A Nossa Tarde. Agradeço à produção e todas as mensagens e comentários que me têm chegado. É tempo de deixarmos que a luz de Deus, em cada um dos nossos gestos de amor e cuidado pelo outro, seja vida em tantos que precisam. Que o silêncio, a oração, o acolhimento, a autenticidade sejam, em conjunto com a solidariedade e serviço, caminhos de encontro com Ele e uns com os outros, na ajuda, na colaboração.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Conversão à união



Nasa


[Secção pensamentos soltos em dia da conversão de S. Paulo e seguinte de eleições] Dancei esta conversão como trabalho para a cadeira de Cartas e Epístolas de S. Paulo, na licenciatura em Teologia. Tenho, por isso, bem presente em corpo, em movimento de alma do que é ser “fariseu, perseguidor e irrepreensível” e que por causa de Cristo considera tudo o que foi como “perda, esterco” (Cf. Fil 3). Quem se deixa encontrar por Cristo revê toda a sua vida e as suas acções passam a promover união, cuidado pelo outro, respeito, não se entendendo como novo messias. Esse já veio e morreu na cruz por todos, sem excepção.


A união entre adultos não é simplesmente um dar de mãos e dizer “está tudo bem”. A união entre adultos implica saber dialogar desde a razão e a emoção de modo a que a dignidade seja vivida sem ataques mútuos, mas de compreensão onde residem as verdadeiras dores, falhas, problemas, com objectividade, para além de ideologias. Para compreender é preciso conhecer, em concreto, sem se ficar em generalizações de meia dúzia de caracteres de rede social. Não são os deste ou daquele concelho, mas cada pessoa que deixa que o medo, a indignação, a incoerência ganhe peso na sua existência e devolva com a mesma moeda de ódio, ainda que muito envolta de progressismo colorido.


É mais que certo que Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente reeleito, leu as Cartas e Epístolas de S. Paulo. O seu discurso de reeleição revela a sensibilidade humanista de modo a “continuar a ser um Presidente de todos e de cada um dos portugueses, um Presidente próximo, um Presidente que estabilize, um Presidente que una, que não seja de uns, os bons, contra os outros, os maus, que não seja um Presidente de facção, um Presidente que respeite o pluralismo e a diferença, um Presidente que nunca desista da justiça social.” Atravessamos tempos de muita exigência, que obriga a grande e séria reflexão, de modo a diminuir ataques a pessoas e a desenvolver argumentos e acções que, dando voz à sensatez e ao sentido da democracia, da liberdade e da responsabilidade, dignifiquem cada pessoa.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Dador de vida



[Secção pensamentos soltos em tempos de tanto] Ser padre é ser dador de vida. Assim acontece quando acompanhamos na escuta, nas celebrações, no permitir que o amor se torne mais intenso e dê frutos. Chegou-me esta imagem com rosto a formar-se em vida profunda. Celebrei o casamento dos pais, ambos médicos em que ele está na linha da frente. Fico sempre maravilhado por esta continuidade na relação. E, nestes tempos de tanto, partilharam beleza de vida a dizer: aqui estou. Também um amigo poeta partilhou comigo este belo trecho de Rabindranath Tagore: "Cada criança que nasce é uma prova de que Deus não perdeu a esperança em relação à Humanidade”.


Estes dias estão a ser muito duros. Somos bombardeados com informações de tensão, desconfiança, desunião, cansaço, medo. Parte, infelizmente, teve de ser. Gritos para que se perceba a dimensão da tragédia, de modo a agir política e socialmente em conformidade. Outra parte, para os que, em consciência, naturalmente se resguardam em respeito, pode ser aflitivo. Andar nas redes pode ser fonte de agitação. Em muitos rostos estão a surgir véus de cansaço, de sensação de perda de sentido, de se achar que não se aguenta mais, de desespero. 


Então, hoje, trago um rosto como sinal de esperança. Não temos tudo o que gostaríamos, atravessando o grande desafio de muito perder. Mas, tal como uma criança naturalmente acolhe a sua dependência para o caminho da vida, atenuemos as tensões e façamos caminho de sermos uns para os outros os suportes, materiais, afectivos, espirituais, possíveis. Ah, e para os lhes salte “é-muito-bonito-o-que-escreves-porque-não-estás-em-tele-trabalho-sem-paciência-e-a-aturar-os-miúdos, AHHHHHHHH”, ser dador de vida também é acolher as dores sem julgar. Apesar da vontade de os atirarem pela janela fora, continuarão a ser sinal de esperança a partir do amor que recebem. Já agora: se os atirarem, vão buscá-los rápido. É para ficar em casa.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Sejamos luz




[Secção pensamentos soltos em tempos de tanto] Atravessa-se por aqui um temporal que agita árvores e almas. Sair de casa é como ser fustigado com perguntas sobre a sensatez. Faz sentido sair nestas condições? É urgente? É necessário? O silêncio surge e o recolhimento torna-se evidente. Apenas o orgulho torna-se bastião diante do querer afirmar a negação como “loucura de todos”, “apenas são os mesmos números de anos anteriores agora destacados”, “querem é tirar-nos a liberdade”. E o vendaval agita almas e os números cada vez mais são rostos. Talvez não sejam os seus. Mas são rostos aos quais não se fazem despedidas, ficando o “gosto muito de ti” por dizer, sem tempo para pensar na liberdade, mas no amor.


Mais um a exagerar? Pois, como padre escuto as dores concretas e não imaginadas. Chegam-me cada vez mais pedidos de oração por nomes: nos cuidados intensivos; no ventilador; no cansaço e esgotamento da entrega pelos doentes; que partiram sem despedidas; no desespero do pão a rarear; a serem julgados e menosprezados, especialmente crianças, por estarem infectados; com a saúde mental a vacilar. Escuto as dores concretas e não imaginadas. Acolho os pedidos. E no silêncio das horas, diante de Deus que conta connosco para cuidar seja de quem for, abro-me à luz e ao infinito da oração, entrego cada nome, peço e envio serenidade às dores concretas e não imaginadas.


“Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.” Cada um de nós pode fazer a sua parte. Aos políticos, que esqueçam ideologias e ponham os recursos em favor das pessoas. Aos que podem ficar em casa, que façam o esforço de realmente ficar, por respeito a todos os que não podem ficar, em especial os que estão a cuidar até ao limite do impossível. Se alguém passa dificuldades, materiais ou emocionais, liberte-se da vergonha de pedir ajuda. Quem possa ajudar, material ou emocionalmente, faça-o na consciência dos seus limites. A vida de todos começa no gesto de cada pessoa que vive a regra de ouro desde o amor: faz aos outros o que gostarias que te fizessem. Neste temporal, sejamos luz.