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segunda-feira, 18 de julho de 2022

Cada vida atravessada de imenso


João Almeida


[Breve apontamento a começar mais um grupo de Exercícios] Se há agradecimento que sinto é o de viver a escuta como caminho de encontro com Deus. Cada vida é atravessada de imenso. Tal leva-me a abrir novas perspectivas, reflexões, considerações sobre o que atravessa em comum cada coração humano. É preciso permitir os olhares se cruzarem com a história que mostra que não se cai de pára-quedas na existência, junto com a novidade que desmonta esquemas antigos, impeditivos de perceber o presente. O Padre Pedro Arrupe dizia que não se pode dar respostas do passado às perguntas do presente. É o desafio de quando se faz silêncio: perceber as reais perguntas, escutar as respostas possíveis e ver qual a que faz mais sentido no crescimento da humildade, do amor, da ternura, da humanidade.


segunda-feira, 4 de julho de 2022

Bereshit e o tear





[Breve apontamento ao adormecer] Estava a rever fotografias e vejo estas do Bereshit no tear que fiz em Têxteis, tinha eu 13 anos. Segundo a minha mãe, que tem uma relação próxima com o pássaro, sempre que apanha o quarto aberto onde o tear está pendurado, vai lá dar o seu toque. Ou seja, cortar as linhas de suporte. Não recordo o tempo que me levou a fazer, mas vejo-o rápido a cortar as linhas. O presente, com as suas acções, desenrola-se no tempo que é. Mas, rapidamente pode começar a desaparecer, como com um bico de um pássaro. Claro que não quero que a recordação se desfaça ou perca, mas ainda assim deixou-me a pensar: e se se perdesse? Por vezes temos de libertar pesos de coisas feitas. Não permitir que o pó do antigo se acumule, mas procurar integrar em caminho novo. Seja como for, ainda quero olhar o tear e recordar a sensação de felicidade quando o terminei. As cores de céu podiam ser de amanhecer ou entardecer. Sempre achei interessante as passagens para algo novo. E curioso ser o Bereshit (a primeira palavra bíblica, traduzida por “No princípio”) a soltar o tear do suporte.


domingo, 3 de julho de 2022

Agradecer


[Breves apontamento e oração ao adormecer]


O dia foi cheio de Deus. O Samuel Afonso, companheiro jesuíta, já é padre. Aprendi muito com ele, na sua perspicácia e entrega, sentindo-lhe forte amizade. A celebração da ordenação foi de grande beleza, a recordar a vocação de darmos vida na sociedade e na Igreja, “para a maior glória de Deus”, como terminou D. Virgilio a homilia usando a expressão inaciana. 


Agradeço-Te

os caminhos de horizontes

que se abrem com o sim à vocação 

de sermos chamados ao Bem

em luz e vida


quarta-feira, 22 de junho de 2022

Partilhas


[Nicola Hanna - em Bethlehem, a saborear uma bela narguilé]


[Breve apontamento sobre estes últimos tempos] As redes sociais têm este lado curioso de fomentar relações, quase ao jeito de uma comunidade. Mesmo que não nos conheçamos pessoalmente muitas das pessoas, vamo-nos encontrando por esta ou aquela partilha. Se bem que as redes não sejam a vida (a minha não é), cria-se proximidade com as publicações. Por não estar a ser tão assíduo, como costume, tenho recebido mensagens e telefonemas a perguntar se está tudo bem comigo, em jeito de preocupação. Acho bonito. E fico muito agradecido. Sim, estou bem. Tenho estado com mais trabalho: entre casamentos, baptizados, pastoral familiar, oriento 4 turnos de Exercícios de 8 dias relativamente próximos, estando a viver o segundo destes 4. E no final do ano, é exigente. Então, há que reduzir onde se pode para estar bem onde há que estar: na escuta atenta da vida de cada pessoa a fazer retiro. 


No último ano e meio já escutei cerca de 900 pessoas, entre retiros, formações e acompanhamentos individuais. É uma graça imensa, que me permite conhecer o que atravessa de igual e de diferente no ser humano. Mas é exigente. Por isso, de vez em quando, há que dedicar mais tempo ao silêncio a preparar a escuta. Agradeço mais uma vez a preocupação, mas estou mesmo bem. Dedico-me a ter tempo para mim, intercalado com o serviço da escuta. Sempre que me for possível, passo por aqui. Seja como for, rezo o abecedário todos os dias. Logo, todas as pessoas estão incluídas.


terça-feira, 17 de maio de 2022

Ganhar tempo a amar


[Breve apontamento neste dia contra a homo, trans e bifobia] As pessoas que atacam outras pela sua condição sexual, em geral, para não dizer sempre, têm sérios problemas com a sua própria sexualidade. Então, é mais fácil projectar a frustração, o ressabiamento, a incompreensão no denegrir do outro. Quem se encontra nessa realidade de denegrir, gozar, atacar, procure urgentemente ajuda espiritual, psicológica ou psiquiátrica. São vocês que estão em falta de amor e não a pessoa a quem estão a denegrir, gozar e a atacar. Quando se descobre o amor, ganha-se tempo a amar. E nos tempos actuais, é disso que precisamos: amarmo-nos. Pois quanto mais nos amarmos, mais amamos o próximo, em luz, cor e vida.


sexta-feira, 13 de maio de 2022

13 de Maio


Enviada por Carla Barbosa


[Breves apontamentos a fechar este dia de 13 de Maio]


A luz de cada vela a ser a luz de cada pessoa;


A beleza de ver gente a sair leve do confessionário, depois de anos sem se confessar por medo;


A beleza de ver gente a sair leve do confessionário, depois de se sentir acolhida na sua dor;


A beleza de ver gente a sair leve do confessionário, depois de perceber que a confissão não é um lugar de tortura, mas de amor, de misericórdia;


Da homilia de ontem, de D. Edgar Peña: toda a noite pode ser e é atravessada pela luz da vida; 


Os rostos, os olhares. Sim, os rostos, os olhares, a transbordar gratidão, fé, reconhecimento, também dor e sofrimento. E que rostos! E que olhares! E que mãos marcadas de vida!;


O silêncio na adoração;


Fátima é e será sempre um mistério a revelar luz. E paz!


domingo, 17 de abril de 2022

Santa Páscoa


[Breve apontamento em Domingo de Páscoa] “Viu e acreditou!”, diz S. João, quando o discípulo predilecto abeira-se do sepulcro. Viu a pedra despojada do Corpo. Viu-a preenchida de fé em algo novo. Cristo resgatou toda Vida. Sem que seja um espectáculo, a certeza da ressurreição manifesta-se suavemente, como na delicadeza da “Manhã de Páscoa” de Caspar David Friedrich. Recordo deter-me a contemplar esta obra e em pequena oração pedir a suavidade desse amanhecer na vida. Que a Sua Luz seja Páscoa em nós e possamos ver e ser vida nova com Ele. Santa Páscoa!


sábado, 16 de abril de 2022

Sábado Santo





[Breve apontamento em Sábado Santo] Desde há muitos anos que sinto grande respeito por este dia. Depois da brutalidade da morte, atravessa-se a vivência do luto. Sabemos que virá o Domingo de Ressurreição, mas não apressemos o que não pode ser apressado. Por estes lados, amanheceu com nevoeiro. Leva a abrandar o passo e a contemplar cada sentir sem julgar. Os lutos são sempre complexos, pela densidade de emoções que transportam a perguntas, por vezes a desalentos, quase a roçar a perda de sentido. Daí o respeito pela dor, que não pode ser apaziguada de forma leviana, de palavras ocas e superficiais. A sua travessia precisa de tempo. Quando se abranda o passo, dá-se oportunidade a nos determos nos pormenores da vida aparentemente insignificantes. Na beleza, iluminam a espera com Esperança de novos tempos.


segunda-feira, 28 de março de 2022

Conflitos e Paz


[Breve apontamento sobre conflitos e paz]  Quando observamos a sombra dos outros em acção, percebemos o poder que ela tem. Ficamos em choque. Lançam-se sentenças. Torna-se claro, evidente e necessário o trabalho pessoal, que implica muito silêncio, escuta e observação do lado escuro, do que não se gosta em nós mesmos, de modo a ser iluminado, apaziguado e pacificado. Em cada momento de violência, seja de que tipo for, exteriorizada fora de lugares de sanação, todos perdemos. Quando cada pessoa encontra paz, contribui para o ganho de todos. Sejamos Luz. Sejamos Paz.


quarta-feira, 16 de março de 2022

9 anos de diácono


SL Casamentos


[Pequeno apontamento em dia de celebração] Há 9 anos vivi dos momentos mais importantes da minha vida: a ordenação de diácono. Recordo o momento em que senti o já está durante a oração de consagração. Tudo mudou. Momentos antes, prostrado, a emoção era demasiado forte, ecoando em mim: “que eu seja terra fecunda ao teu serviço”. D. Fidel, o bispo que nos ordenou, com o impacto da eleição do Papa Francisco três dias antes, insistiu “vocês são diáconos da Igreja e da Sociedade. São chamados a servir a Igreja e a Sociedade”. Na minha oração, hoje, avivava a consciência da profundidade deste serviço nos tempos actuais tão densos. 9 anos passaram. Continuo em caminho de, como padre, ser o melhor servidor possível, na travessia das sombras pela luz. Nem de propósito, o Evangelho para hoje recorda que Jesus não veio para ser servido, mas para servir. Pois, é Ele o centro e o exemplo do Amor, que não se cansa de nos abraçar.


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Lugar de luz




[Breve apontamento a meio deste dia] A subtileza da flor de magnólia fez-me parar. Estava com ecos da dura notícia do dia e da memória que o Facebook fez da publicação de há quatro anos. Fui aos meus escritos buscar este dia. Li todo o texto que levou a esta conclusão. Emocionei-me. Reconheço a aparente ingenuidade e o aparente simplismo do que escrevo, mas tendo em conta a minha experiência com os meus combates de alma e todos os outros que acompanho, cada vez mais percebo que cada pessoa pode dar o seu contributo ao fim das guerras quando se permite, com mais ou menos ajuda, atravessar o mal que a habita, curando a alma de todo o desamor, tornando-a lugar de Luz. Que haja Paz!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

O silêncio de Deus


[Breves apontamentos depois de rezar] O silêncio de Deus é desafiante. Em tempos idos, sentia aperto no ego ferido: esqueceu-se de mim. Cada vez compreendo mais a importância desse silêncio, ajudando-nos a ganhar fé adulta. Deus apenas esquece, depois de o chorar, o desamor. Enquanto isso, todo Ele é recordação da humanidade. Do silêncio abre-se em Verbo e encarna uma e outra vez: faz-se Menino para nos revelar nesse rosto simples a Sua presença. Desafia-nos no silêncio, para O escutarmos no balbuciar de criança. E, com Ele, fico em silêncio a ver o que libertei. Agradeço. Comovo-me. Torno-me húmus.


quinta-feira, 17 de junho de 2021

Jesus, o Juiz Final


[Apontamento breve depois de ler alguns comentários que pululam pelas redes sobre esta ou aquela mãe, este ou aquele pai, esta ou aquela pessoa refugiada ou em busca de melhores condições de vida, vítima de assédio, de orientação homossexual,  esta ou aquela acção menos feliz de alguém] Descansa-me muito saber que é Jesus quem julga no juízo final. E ainda mais ter o Espírito Santo como advogado bate tudo. É que se fossem algumas pessoas que, sem distância crítica e reflectida, nem sentido do outro, julgam, acusam, atacam, denigrem e matam pela palavra, apenas porque sim, por estarem frustradas, por terem perdido a noção de empatia, tudo se tornaria demasiado assustador. Mas, vale-me saber que quem julgará lá no final dos tempos é Jesus, que não veio para condenar, mas salvar.  


segunda-feira, 17 de maio de 2021

Gestão de emoções


[Apontamento breve sobre gestão de emoções] É muito fácil num clique partilhar nas “stories” do Facebook ou Instagram imagens e vídeos vários. De quinze em quinze segundos passa a outra. Hoje são muitas as publicações sobre a homofobia, neste dia internacional contra esse flagelo, a juntar a outras tantas do conflito Israel-Palestina. Depois, de uma destas forte, a seguir surge algo fashion ou humorístico e dou por mim a flutuar rapidamente nas variadas emoções. Já acontecia isso nos feeds, agora é mais rápido nas “stories”. Ora vem a tristeza, depois o sorriso, a seguir o choque, passa o deslumbre de beleza, e logo a dor. É o que é. Apercebi-me que tinha de me silenciar o dobro dos segundos para respeitar não só o conteúdo que implica o sofrimento humano, como as minhas próprias emoções. E houve mesmo imagens e vídeos, tanto da importância de se falar da homofobia, como do pedido do fim do conflito, que me fizeram parar mais tempo, sem me ficar em consumismo mediático e perceber como posso contribuir para o respeito e paz na minha proximidade.