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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Caminho de vida


[Secção memórias e vida] Encontrei esta fotografia na casa dos meus pais. Tinha 18 anos. Pedi a uma fotógrafa profissional que me tirasse algumas fotografias com o intuito de concorrer a um concurso de moda. Intuito, porque não cheguei a concorrer. Recordo a sensação: vergonha. Afinal, pensava eu: “sou feio! Vão gozar ainda mais comigo.” Apesar de nesse tempo já ser bastante social, na organização de muitas actividades, por dentro ainda reinava a desconsideração provocada pelo ridicularizar, entre outras coisas, do meu nariz, das minhas orelhas, do meu vestir fora de moda, da minha timidez, pelo mau jogador de futebol, pela falta de macheza.


Mais de 20 anos depois, a olhar a foto, sorrio. É tanto o que passamos na vida. Tanto, mesmo. E as feridas, as sombras, as dores, podem ser atravessadas de nova luz. A direcção espiritual em conjunto com a psicoterapia, continuando ainda o trabalho pessoal desde corpo em movimento autêntico, ajudaram a libertar-me das angústias do passado e a caminhar cada vez mais com pés firmes de presente. Ainda assim, há ecos que subtilmente surgem. Há dias, partilhava com um bom amigo as vergonhas que ainda surgem desse tempo. 


A aprendizagem: nos dias seguintes, fiz desse surgir os pontos de oração, sem julgar nada do aparecesse de memórias, sentimentos ou desejos: de que ou quem tens vergonha? E medo? E zanga? A quem gostarias de ter dito que amavas, mas não te sentias nem digno, nem capaz? As respostas afloraram luminosas. Fui entregando a Deus, permitindo o perdão. Vi o adolescente a sorrir. Aquietando-o, amei mais um pouco como adulto. Depois, senti o silêncio do novo nascer: “segue-Me! Continua a ajudar a quem te confio a fazer caminho até à beleza da Luz.”


sábado, 11 de setembro de 2021

11 de Stemebro [20 anos]



[Secção memórias com pensamentos soltos] Estava a fardar-me, numa tarde normal antes se ir trabalhar. O meu pai telefona-me: “tens a televisão ligada?” Liguei. “Que filme é este?” Do outro lado: “Não é filme. É em directo de Nova Iorque.” E dá-se o embate do segundo avião contra a outra torre. Fiquei em silêncio. Desliguei, sem antes ouvir com voz preocupada “que tenhas um bom voo.” Cheguei ao aeroporto. Grande agitação. Íamos fazer o Turim-Madrid. Havia silêncio, comoção, estranheza. Os passageiros embarcaram e o ambiente no avião era estranho. Estávamos todos incrédulos. Mas era real. 


Continua a ser real, 20 anos depois, o medo, a dor, as perguntas, a mudança no mundo. E em tantos corações. O lá longe torna-se perto. Os conflitos continuam e somos chamados a trazer paz às vidas, ao mundo. É também um trabalho pessoal, em que cada um(a) de nós tem de atravessar as suas zonas de sombra, ódio, cansaço, para não permitir que a vingança tenha a última palavra.


Penso em todos os que perderam e perdem a vida por vingança pessoal, comunitária, política ou religiosa. Que haja consciência do poder que cada um de nós tem para o mal ou para o bem. Está nas nossas mãos contribuir para a Vida.


domingo, 30 de maio de 2021

Memórias desde músicas


Marta José - dreamaker


[Secção memórias em dia da Trindade] Moby editou o álbum “Reprise” com músicas suas agora orquestradas. Ontem descobri este álbum, já noite dentro. Como tinha agendado ter o dia hoje mais de descanso, fiquei a ouvi-lo até tarde. Porcelain, Why Does My Heart Feel So bad, Natural Blues, We Are All Made Of Stars, entre outras músicas, reconhecidas mais mais maduras, em sons crescidos, fizeram com que fosse bombardeado de memórias de há 20 anos e as lágrimas aparecessem. Foi uma emoção estranha, sem tristeza. Como em 20 anos tanto aconteceu. 


É óbvio, sei, isto de num espaço de tempo tanto ter acontecido na vida. O lugar do esquecimento é fundamental. Não guardamos todas as memórias. Ou sim. Como uma música, um cheiro, toque, sabor, imagem podem despertar recordações de emoções, pessoas, histórias pequenas ou grandes. Imagino isso a acontecer no seio da Trindade. Eles, as três Pessoas unidas em Amor, a partilharem as nossas histórias e como desejam nos ver crescer. Somos histórias. Somos memória. Somos sonhos. As emoções atravessam esse sentir e algo novo surge. Emocionei-me porque me recordaram paixões, risos, sensações de fragilidade e mendigar amor. Imaginei-me a dançar os originais dessas músicas, abstraindo-me da realidade para entrar num mundo muito próprio. Ai, o poder da dança. E agora, estes anos todos depois, ver-me crescido. Continuar inacabado, em caminho, mas crescido. Afinal, não julguei nada nessas memórias. Não julguei nada do que senti, fiz ou vivi lá, naqueles lugares, com tantas pessoas e permiti-me recordar com novo olhar.


Gosto de sentir como o tanto da vida nos convida ao crescimento de existência. É dos grandes desafios: ir fazendo o caminho de não julgar a memória e desde aí aprender com ela, no que há a repetir, no que foi feito como falta de algo, como reacção, que já não faz sentido repetir como padrão desgastante. Foi e é uma emoção estranha. Deu-se crescimento. As músicas poderão ser as mesmas, mas a vida ganha outras cores quando se cresce no existir. E, mesmo sendo muitas vezes duro, há tanto que nos recorda a beleza da existência. Em oração, acolho as memórias com delicadeza, agradeço e danço-as com Eles.


terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Memórias em Carnaval



[Secção memórias em coisas de nada ainda na noite de Terça-feira de Carnaval] Tenho estas fotos do carnaval de há uns anos. Bastantes anos. A minha sala do infantário foi toda mascarada de índios. Excepto eu. Quando era pequeno tinha um fascínio pelo Super-homem: queria voar e ter poderes para ajudar os outros, tal como ele. A vontade era tanta que tinha de me mascarar de Super-homem. Não o sou, e que bom. Mas voei e tenho poderes a partir de Deus, que espero usar sempre para ajudar os outros. É tão importante incentivar as crianças a explorarem os sonhos e a criatividade. Nestes tempos de pandemia somos ainda mais chamados a essa criatividade. Sou dos que acredita que os sonhos podem realizar-se. Em modos diferentes, mas podem. É preciso trabalho, persistência, vontade, força e colaboração uns com os outros a animar. Bons poderes e bons sonhos de vida!




terça-feira, 24 de novembro de 2020

Lágrimas e sorriso



Pedro Sadio


[Secção memórias sobre lágrimas até ao sorriso em tempo de Estado de Emergência] Quando comecei a primeira sessão de psicoterapia, já lá vão uns anos, entrei no gabinete e das primeiras coisas que me chamou a atenção foi a caixa de lenços de papel em cima da pequena mesa. Recordo perfeitamente o pensamento: não serão necessários para mim. Não se tratava de achar que não podia chorar. Isso estava atravessado. Mas que seria algo simples o que ali ia partilhar, de tal maneira que nem necessitaria de lágrimas. Até ao dia. Aquele dia em que as palavras da emoção já não têm outra linguagem senão o libertar de lágrimas. Nem sequer foi uma ou outra furtiva. Abriu-se a porta das emoções de dor, cansaço, tristeza, fraqueza, vulnerabilidade, acumuladas. Saí da sessão muito agitado. Começou um novo tempo. A leveza estava a chegar. 


Anos depois, sou eu que tenho uma caixa de lenços no gabinete. Ainda são muitas as pessoas a pedir desculpa quando afloram as lágrimas, como se fosse descabido. Continuamos muito marcados pela educação que amordaçou a nossa dimensão emocional. “Deixe-as sair”, digo tantas vezes. Há que deixá-las sair livremente. As palavras dão lugar à linguagem de corpo. E nestes tempos em que as emoções andam baralhadas, que não haja problema em procurar quem possa acolher as lágrimas, a vida, as histórias, o sentir, sem julgamento. Não somos chamados a ser super-heróis, nem a sofrer sozinhos. Somos chamados ao amor, num sorriso, por nós e pelo próximo. E a humanização acontece ao longo do caminho de esperança!


quarta-feira, 1 de julho de 2020

20 anos do primeiro voo como CB




[Secção memórias] Tinha recebido a primeira escala. A4 (assistência das 12 às 18h) para o primeiro dia: 1 de Julho de 2000. Toca o telefone com uma chamada das escalas: 

- Paulo, boa tarde. Para avisar que a assistência de amanhã passa para apresentação às 15h com estadia no Porto. 


A emoção de vestir a farda, entrar no aeroporto, ir para a sala de tripulantes, fazer o check-in e ida para o stand onde estava o Fokker 100. Voo Lisboa-Porto, a reforçar, e no dia seguinte Porto-Genebra-Porto para cuidar de UMs: crianças sem acompanhamento de adultos - 11 para lá, 14 para cá.

Quando me aproximo do avião, vejo o olhar de desespero da Chefe de Cabine e da E2. “Quem é este? Oh, é dos novos!!” Foi um voo, diria, emocionante. O mais rápido que fiz, com cabine cheia. Praxes pelo meio. Toda uma animação. O que sorrio ao recordar. O dia seguinte, qual babysitter aéreo, a cortar a carne às crianças, a acalmá-las, a brincar, a abrir os olhos para não esganar uma delas, todos uns amores... not! Ah, e mais praxes! O tempo passa e são 20 anos desde esse dia com muitos mais voos e vida. Neste tempo de tanto também para a aviação, agradeço o tanto que aprendi e recordo com especial carinho o curso PGA1600 e todos os amigos e amigas tripulantes do ar e de terra, rezando por vocês na Jesuit Airlines em code-share com a Air Vaticano.




terça-feira, 19 de maio de 2020

Semana Laudato Si'



Diogo Costa

[Secção memórias com olhar de futuro] E eis que me chegam algumas fotos do “Entre Aspas”, um campo de férias, de já lá vai mais de uma década. GOD! Partilho esta, pelo verde de trás e as cebolas na mão. Estamos na Semana Laudato Si’, após cinco anos da publicação desta encíclica tão transversal de humanidade. É sempre tempo, mas mais agora, com tanto a mudar, para recordar o equilíbrio entre a natureza e a humanidade, no sentido de ecologia integral. Mais do que um simples cuidado com a natureza, é necessário perceber o cuidado e respeito uns com os outros. Isso inevitavelmente faz perceber que ninguém tem a posse do planeta e que todos somos responsáveis pela Casa Comum. Com toda a certeza ia ajudar a preparar o refogado para mais de 50 pessoas. Sejamos uns para os outros.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Lugar na fotografia da humanidade




[Secção memórias levando a pensamentos soltos] Hoje de manhã dei uma pequena entrevista como contributo a um trabalho de mestrado sobre fotografia. Daqui a uns tempos poderei revelar mais, mas, durante a conversa, a propósito das emoções que as fotografias podem evocar, lembrei-me desta. É a fotografia da turma do 8.º E, 1992/93. Desperta muitas recordações. Detenho-me na que veio no seguimento da conversa: eu estou na fotografia, mas escondido. Propositadamente escondido. Recordo perfeitamente a sensação e o pensamento de não querer aparecer por medo a ser gozado. “Se não me vêem, não me chateiam, nem gozam.” E assim ficou registado outro tipo de silêncio: o da vergonha. Hoje não me dói ao recordar esses tempos. Usando a expressão de Enzo Bianchi, sinto a memória curada. No entanto, dói-me pensar que ainda há tantas crianças e tantos adolescentes e adultos que se escondem por vergonha, por medo, por não quererem ser gozados, por não serem aceites nas suas diferenças, físicas, culturais, sociais, religiosas, económicas, sexuais, emocionais. O problema não é da vítima, mas de quem agride, de quem anula o outro. Quem agride tem muita falta de amor-próprio, pois quem está bem consigo mesmo não necessita de afirmação, muito menos de anular o outro. A vítima necessita de muito apoio e acolhimento, em tempo e espaço onde possa falar, expressar, libertar-se de tanto sufoco. Afinal, muitas das vezes é a vítima que tem de mudar todo o seu estilo de vida, já que o agressor, cheio de aparente valor, lábia e capacidade refinada de fazer mal, consegue “sair por cima”. Em geral, por provocar ainda mais medo a quem o rodeia. Atenção, agressor pode ser uma pessoa ou uma entidade institucional. Lamento que nalgumas situações haja disparidade de critérios também em relação às vítimas, conforme a ideologia ou crença. Fazer mal ou bem a outro não tem nem credo, nem cor política, apenas depende do caminho de liberdade, de cura e de amor-próprio que cada pessoa vive. A coerência de valores residirá sempre no respeito pelo outro, enquanto pessoa que é, mesmo não se concordando com o modo de pensar ou ser. A coerência de valores humanos impedirá qualquer agressão à dignidade do outro. Reconheço tanto a complexidade de tudo isto, como a possibilidade que cada um de nós tem de promover a vida e a compaixão, implicando-nos e contribuindo com a nossa parte para que todos sintamos que temos lugar na fotografia da humanidade. 

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Dia Mundial do Tripulante de Cabine




Mário Raposo: fotograma da reportagem RTP sobre a entrega das minhas divisas e meia-asa da farda à Nossa Senhora do Loreto em 2003

[Secção memórias] Em dia da Visitação de Nossa Senhora à sua prima Isabel, celebra-se o dia mundial do Tripulante de Cabine. Gosto muito de ser padre. É sabido. Mas, isso não significa o anular de outros gostos. E, sim, tenho saudades de voar como tripulante. Vestir uma farda e, entre demonstrações de segurança, voz colocada de discursos de bordo, ir com o trolley por ali fora em “chá, café, laranjada”. Também das 300 milhões de vezes a dizer: “bom dia, bem-vindo a bordo” e “adeus, boa tarde e obrigado”. Mas, sobretudo, da boa disposição que leva a serenar passageiros e a ajudá-los em caminhos de boas visitas em segurança. Quem sabe um dia celebro uma Missa a bordo. Hoje agradeço as vidas de todos os tripulantes, rezando de forma especial pelos amigos de voos. 

terça-feira, 22 de maio de 2018

Expo'98




[Secção memórias] Tinha 18 anos. Comprei um bilhete “três dias”. Recordo a emoção da viagem de Portimão a Lisboa, em ansiedade por ir a algo fantástico cheio de vida. Atravessei a Porta do Sul e tinha diante de mim o Pavilhão da Utopia. Milhares de pessoas, tão diferentes, as exposições, os simuladores, os espectáculos, a abertura de horizontes na beleza de tanto a descobrir. Vinte anos passaram. Não me sinto velho. Sinto-me agradecido pela importância dada aos Oceanos e por nós, portugueses, sermos capazes de continuar a ir longe, nesse encontro e respeito pela diversidade. Basta querermos. O Mar não é limite, mas potencialidade de vida. Recordar a Expo'98 é a avivar a certeza de que, se quisermos, não somos medíocres.

Aqui fica “Pangea”, o imponente hino da Expo'98, de Nuno Rebelo, digno da diversidade e dos Oceanos: