terça-feira, 22 de março de 2016

Terça-feira da Semana Santa




Bates Littlehales

[Secção outros tons – especial Semana Santa] Nas entranhas forma-se a boca que não cala o grito surdo dos justos. Poucos escutam a afirmação do que sou. E não sou poder ou morte, mas em caminho de mesa posta em telheiro de repouso. Os olhares confundidos tentam acompanhar-me os passos, sem se aperceberem do silêncio triste do galo. Anoitece, com barcos a afundar e explosões no amanhecer. Até quando?

segunda-feira, 21 de março de 2016

Segunda-feira da Semana Santa




Hideyuki Katagiri

[Secção outros tons – especial Semana Santa] Com aroma de flores novas reveste-se cada pé. Traços de poesia, onde as palavras se calam e os gestos encarnam na outra face, virada, preparada, aberta à liberdade. Soltam-se os cabelos. As amarras atarão em breve o corpo incompreendido.

domingo, 20 de março de 2016

Vida




Toni Guetta

[Secção outros tons] “Aprendi com a Primavera a deixar-me cortar para voltar a nascer inteira." Cecilia Meireles | Em oração apercebo-me da força presente na coincidência do Domingo de Ramos com o início da Primavera. Nesta semana que entra, o Silêncio ganha espaço, deixando falar a escuta do passo de entrega. A vida de Deus mais uma vez converte-se em novos tempos e convida à renovação de cada ser.

sábado, 19 de março de 2016

padre | pater | pai




Kátia Viola


“E porque padre vem de pater e pater é pai, feliz dia do pai! Abraço apertado!” Recebo esta mensagem pela primeira vez neste dia. Daria para escrever muito. Fica para depois, tendo em conta o bom cansaço que sinto depois de uma peregrinação com muita animação, com educadores e alunos. Agora, que é bonita, é, e fico com um grande sorriso ao lê-la… além de recordar, entre outros, este abraço de filho padre novo ao pai José e à mãe Maria. :)

sexta-feira, 18 de março de 2016

Parar e reparar




Olga Gamburg

[Secção desabafos] Perdão, amor, discernimento, paz, afecto, escuta, respeito, silêncio, dignidade, Primavera, fé, mistério, deveria ser menos dito e mais vivido. E o mundo, pelo que andamos a ler, a ouvir, a ver, precisa tanto de parar e reparar. Sabendo que o mundo… é cada um de nós.

quarta-feira, 16 de março de 2016

3 anos




Esta foto foi tirada há precisamente 3 anos, no dia da minha ordenação de diácono. Foi dos dias mais emocionantes da minha vida. Por muito! Nas semanas anteriores, tendo em conta que estava em Madrid e muitos amigos não poderiam ir, comecei a partilhar pelo facebook e por aqui no blogue o que ia sentindo com a preparação deste dia especial. Também comecei a receber mensagens e comentários de pessoas que não conhecia pessoalmente, a dizer que rezavam por mim agradecidas pelo que ia partilhando. Volto a ela, pois, além de agradecer a Deus os 3 anos de serviço consagrado, e com tanto de bom que aconteceu, esta rede social tem fomentado boas partilhas, encontros, conversas… onde continuo com o mesmo sentimento de “I LIKE you”. E como padre, aqui continuo a servir. 


domingo, 13 de março de 2016

3 anos de Papa Francisco




Alessandra Tarantino/AP


3 anos de Papa Francisco. Naquele final de tarde de 13 de Março de 2013, estávamos os cinco que íamos ser ordenados diáconos, junto com o Provincial de Espanha, a falar com D. Fidel, o bispo auxiliar de Madrid, quando os sinos da Catedral da Almudena, pelas 19 e algo, começam a tocar a repique. Olhámo-nos e “temos Papa”. Assume o nome de Francisco, aparecendo com a maior naturalidade diante da multidão. A naturalidade de quem gosta de pessoas, com desejo de as servir, à semelhança de Cristo, a quem se dispôs a seguir pela consagração religiosa. Começou um papado, nem melhor, nem pior que outros, diferente, ao seu estilo de proximidade e de acolhimento. Também na percepção sobre o que é chamado a fazer para que a Igreja continue a viver o profundo do Concílio Vaticano II. Uma preocupação com o mundo, em especial com os mais fracos, pobres e desprotegidos, construindo pontes nas suas relações religiosas, sociais e políticas. Percebe-se por muitas das suas intervenções que deseja as mudanças necessárias. No mundo, sim, e em especial na Igreja na qual tem a responsabilidade de servir. A forma como apela à misericórdia, ao ponto de convocar o Jubileu, é incessante. Misericórdia com tantos os que nos buscam, pelo profundo sentido de acolhimento que temos de promover, mesmo que implique riscos. Afinal, a Igreja deve ser “hospital de campanha”, sem problemas de ter “cheiro a ovelha”. Por isso, também, ou a começar por, Misericórdia dentro da própria Igreja, que, sem problemas em reconhecer, tem ainda, infelizmente, muito de maledicência, inveja, desejo de poder, esquecendo, nessas situações, o verdadeiro interesse das pessoas. Afinal, de que servem grandes pregações se há incoerência de corpo e de alma? Depois, o muito de bom que a Igreja faz no cuidado de tantos por esse mundo fora é abafado, além das polémicas, por questões de inadaptação às mudanças que também o próprio mundo vive. Seria ridículo aceitar tudo e nisso também se percebe o quanto Francisco tem de sentido crítico nas reflexões que faz, sem afirmar palavra absoluta, por ter claro que absoluto somente Deus. Muitos afirmam jogadas de marketing, outros que é só uma maquilhagem e que, no fundo, tudo se mantém. Para quem tomar um pouco do seu tempo, perceberá que o Papa Francisco tenta avançar no que é urgente, necessário e universal. São 3 anos de Papa Francisco, com a sensação de que foram mais. Tal como sempre pede, tenho-o na minha oração, de forma agradecida por me continuar a mostrar que o serviço, o respeito, o diálogo, a misericórdia são caminhos privilegiados de encontro com o próximo e com Deus.

sábado, 12 de março de 2016

Feedbacks




Nelson Fonseca

Tenho recebido bastantes feedbacks sobre a minha entrevista n’A Praça. Excluído um, de bastante longe e um tanto ou quanto surreal, em que por várias vezes o senhor afirmou que se não me retractasse tinha o inferno garantido (enfim, lá lhe dei um pouco de escuta, sem o julgar), todos têm sido muito cheios de amizade. Hoje recebi um de um amigo de longa data que me provocou um grande sorriso e emoção, até. Fez-me recordar muitos momentos da adolescência e partilhou sobre a beleza da vida e o caminho de humanidade. As partilhas dele por aqui têm-me mostrado a importância dos pormenores e do pequeno na Natureza. Na mensagem de hoje, revelou um pouco mais da sua grandeza. E é isto. 

"Perdoa. Junta-te à festa"



A 12 de Março de 1622, Inácio de Loiola, fundador da Companhia de Jesus, foi canonizado pelo Papa Gregório XV. Nos Colégios dos jesuítas, em Portugal (CAIC, Caldinhas e S. João de Brito) vivemos por esta altura a Semana Inaciana. Acompanhando o Jubileu da Misericórdia e inspirado na parábola do Filho Pródigo, o tema deste ano convida-nos a celebrar a alegria do Perdão, a perdoar e/ou a ser perdoado. É isso: “Perdoa. Junta-te à festa.” Fez-se um vídeo onde alunos e educadores falam do Perdão. Aqui está o teaser. Já estamos em preparativos.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Confessar até é fácil




Malgorzata Walkolwska

“Stôr, ou padre, obrigado. Afinal isto de confessar até é fácil.” Nestes dias temos vivido tempo especial de reconciliação para alunos. Quando chegou ao gabinete estava numa pilha de nervos. Sentou-se. Esfregava as mãos nas pernas, com aquele olhar de… “ai e agora!” Sorri e:
- Então, o que é que gostaria de agradecer? 
- Como? Mas, não é para dizer os pecados? 
- Está com pressa?
- Não. Mas é estranho. 
- Se começarmos por agradecer, percebemos muito mais da riqueza da vida. Depois vemos a partir do agradecer onde andamos a falhar para não aproveitar melhor essa riqueza. Deus não é um juiz e a confissão não é um tribunal, mas o espaço e tempo de encontro com a vida que Ele nos quer dar. 


Entre lágrimas, sorrisos, gargalhadas, surpresas e boas conversas, tem sido muito bom vê-los sair com ar de respiro e alívio. “Afinal, isto de confessar até é fácil.” ;)

terça-feira, 8 de março de 2016

Agir ao que leva à dignidade...




Dasha Horita


Há coisas que não são de escrever ou dizer, mas de simplesmente fazer. Neste caso, agir em tudo o que leve à dignidade humana, seja em género feminino ou masculino. Parece-me que tem de haver a complementaridade que dá sentido à evolução humana. No entanto, infelizmente, há que marcar em datas o recordar de que a Mulher não é, nem escrava, nem adorno, nem, como ainda em tanto sítio passa, um ser de segunda ou de terceira. O ponto fundamental: a educação. Educar cada menina, rapariga, mulher a viver o respeito por si própria. Educar cada menino, rapaz, homem a viver o respeito por si próprio. Educar ambos para respeitarem o outro, com igual dignidade, fazendo os possíveis para que todos, em especial as mulheres por serem as que mais sofrem, possam ter educação e os seus direitos respeitados.

domingo, 6 de março de 2016

"nossas" e "vossas"




Olivier Galibert


Uma das conversas que me marcou, daquelas que são dignas de registo de diário, teve como dito “é mesmo estranho, vocês convidam-nos para as vossas coisas, mas nunca aparecem nas nossas”. Esta conversa aconteceu já lá vão uns anos, enquanto estudava filosofia. Convidava uma colega para uma actividade “nossa”, talvez fosse a peregrinação dos centros universitários, não me recordo bem. Seja como for, era algo nosso, no sentido mais religioso. E o que dizia tinha sentido, nós, pelas razões mais variadas e mais ou menos justificadas, raramente íamos, por exemplo, ou a um jantar académico ou a um simples encontro de copos de 5.ª à noite. Alargando este “nossas” e “vossas” coisas, nós, religiosos, corremos o risco de continuar a separar as actividades ou “festas”. A questão não é de serem umas melhores que as outras, mas de acto de presença. Esse estar que dá abertura a conversas inesperadas, noutros contextos. Tanto é importante falar da vida em registo de confessionário, como no de “copo na mão”. Pode-se abordar o mesmo em modos diferentes. Para mim, parece-me, o importante é mostrar que se está, sem que haja necessariamente algo a fazer ou a dizer. Da minha experiência, a tão simples presença marca muito, e a pessoa ou a comunidade que convida e acolhe sente-se, curiosamente, também acolhida como é.

sábado, 5 de março de 2016

Pontes




Stephane Couture


Tenho amigos não crentes em Deus que ajudam-me muito no caminho de fé, como que a limpá-la. Muitos, ou talvez todos, podem não se dar conta disso, mas o modo como colocam algumas questões ou apresentam o seu ponto de vista, em posts ou conversas, fazem-me reparar noutra perspectiva da realidade. Não que aceite tudo de imediato, numa pseudo-tolerância, mas, por ir conhecendo o modo de escuta de Jesus, tenho baixado defesas tontas que impedem o diálogo. Aos poucos, vou sentindo as estruturas fundamentais cada vez mais fortes para continuar a construir, mais que fortalezas, pontes.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Coisas... de oração




Miguel Quental

- P. Paulo, diz que rezar é das coisas mais fáceis, mas não consigo. Sempre que o faço, tudo me distrai, não me apetece. Acabo por parar, com desconsolo e sentindo culpa por não conseguir dar tempo a Deus. 
- Pois, rezar é mais simples do que parece, sim. Mas antes vamos lá acalmar a culpa. Sabe que Sto. Inácio fala-nos de que quando não há desejo de Deus, pode haver o desejo de desejar e isso não é de menosprezar. Pelo que me apercebo, já há a vontade e o desejo, logo já se começa o caminho. Ok, só pela vontade não vamos lá. Agora há o “como”. Como costuma fazer?
- Oh, o normal. Sento-me e digo as fórmulas que conheço, mas acabo por pensar noutras coisas.
- Hmmm, e será que essas coisas não têm mesmo de ser pensadas com calma?
- Está-me a dizer que tenho de pensar com calma, por exemplo, as coisas que tenho de fazer?
- Porque não? Se der espaço mental a essas coisas e disser para si que lhe vai dar atenção assim que possa, está a respeitar o seu pensamento. Depois, tome o seu tempo de forma adequada. Comece com 5 minutos, a agradecer, por exemplo, o tão simples e tão vital acto de respirar. Sim, acalme o coração, no tempo que tem. A oração é simples, pois, seja em 5 minutos ou numa hora ou até duas, o importante é a deixar-me entregar tal como sou. Claro, se há toda a azáfama da casa, depois de um dia de trabalho, com filhos e etc. e tal, não se pode querer rezar como um monge contemplativo. Se nesse quotidiano for entregando a Deus a vida e conseguir os 5 minutos de “café” com Ele, vai dando o espaço e o tempo possíveis. Deus sabe bem que super-homem ou super-mulher só mesmo nas bandas desenhadas e filmes. Por isso, comece com pouco, prático e possível. ;) 

quarta-feira, 2 de março de 2016

Entrevistado n'A Praça




Desde já agradeço a simpatia de toda a produção, Beatriz em especial, e, obviamente, dos apresentadores, Jorge Gabriel e Sónia Araújo. Aqui temos um momento de humor, no final da entrevista. Agradeço também todas as mensagens e telefonemas que estou a receber com manifestações de carinho. E, de forma especial, agradeço a formação na Companhia de Jesus e os dons que Deus me concede... entre eles o de saber comunicar. 


A entrevista começa aos 7 minutos da 4.ª parte. :)

terça-feira, 1 de março de 2016

Amanhã n'A Praça




Diz que amanhã vou ser entrevistado por esta senhora e por este senhor... ou por um deles. Será pelas 12h20/12h30. Espera-se uma boa conversa, sobre vocação, ensino, vida, Deus. :)


segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Tempo e espaço para o luto




Aurora Simionescu


Este fim-de-semana uma aluna nossa perdeu o pai. Pela doença, já esperava o que, apesar de tudo, não se espera. Nisto de preparar o seu regresso à escola, fui à turma falar do luto e de como ajudar a vivê-lo. O básico: pode haver as fases do luto, mas não se o vive de igual forma. O mais importante é respeitar os tempos de quem por ele passa, dando também o necessário espaço. Estar presente, na delicadeza de mostrar a atenção de forma mais ou menos subtil e não fazer qualquer julgamento. Não, não se tem de chorar. Pode até parecer que a pessoa esteja insensível a tudo. Os tempos e as formas não são iguais. Sim, estar atento, ajudar a fazer caminho da mudança de relação. No fundo, o luto é tempo, espaço, vivência, em que a relação muda. E fizeram o silêncio de quem mais queria saber para melhor amparar.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Ainda Tillman




Samuel Silva

[Secção outros tons] Ainda Tillman, em acrescento de asa: alonga-se o horizonte que faz transportar fronteiras daqui-ali. Transportar ou dissolver? É preciso aterrar as horas, as perguntas, o medo do outro e perceber que no amor ao próximo, que vê pessoas, somente pessoas e não categorias, é possível o perdão. Para isso há a dar tempo às cinzas… nesse gradiente de cor e passagem… para fertilizar com terra sagrada.

Pausas de beleza




Momento em que víamos duas fotos de Tillman que se complementavam, por Maria Pereira


Descansos de beleza ou pausas de contemplação: na 6.ª com Dimitris Papaioannou, ontem à noite com Satie, pelas mãos da Joana Gama ao piano, e hoje com Wolfgang Tillmans e Liam Gillick. Mexe, mexe muito viver boas obras ou estes descansos ou pausas. Passou-me imenso pelo pensamento (em linha dos pensamentos soltos do post anterior), junto com as boas conversas que proporcionaram todos estes momentos. A arte não é um capricho, é força de humanidade e de transcendência. Abre portas a caminhos, a interrogações. Isto é tão óbvio, sim, mas quando se (re)vive o novo estremecer, (re)pára-se e percebe-se ainda mais a importância da beleza e da contemplação. E daqui a pouco, na Missa, falarei do descalçar-se para deixar-se tocar pela terra sagrada.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Em resumo do complexo que vai cá dentro.



Jing Wei


[Secção pensamentos soltos] Talvez pudesse escrever em duas frases ou três versos ou palavras, nessa ânsia de resumir o complexo, o que vai cá dentro. Talvez por ter parado ontem com Sísifo diante e hoje silenciado mais por aqui, no quarto, em leituras on-line e papel, sobre a “filosofia, como arte de pensar”. Junta-se a teoria com o acontecimento histórico e volto à pergunta: “quem é o ser humano?” Reconheço a faceta de certa ingenuidade por aqui, mas também esta escuta de belezas; de incoerências; de hipocrisias; de motivações de vidas; de “este aqui não é para trabalhar, é para cuidar”, dizendo um pai, humilde de vida, de trabalho e de história, com carinho, sobre um filho com deficiência; de brilhos de olhar de alunos com sede de conhecimento e de ternura, alguns na sua agressividade nada mais fazem que chamar a atenção. “Pergunto-me: não podia aperceber-me sozinho de que existo? Parece que não. Parece que é preciso que seja outra pessoa a avisar.”, como escreveu Erri de Luca, no romance “Montedidio”. É isso, precisamos de muita agitação de alma, coordenada com movimentos que se entregam à força da terra. No silêncio da minha oração, entrego tudo a Deus. Entre[ ]tanto, sigo em caminho de encontro… e assim escrevo numa frase em resumo do complexo do que vai cá dentro.

Still Life de Dimitris Papaionnou




Miltos Athanasiou


Fui ver o “Still Life” de Dimitris Papaioannou. A grande base de inspiração é o mito de Sísifo, junto com a obra de Albert Camus. Absurda, essa eterna subida e descida de montanha, de pensamento, de teorias, carregando pedras, perspectivas, posições, que voltam a rolar. Entre o humor e o silêncio rompido por sons de realidade aumentados, em mim ficou a pergunta: como mudar padrões de fechamento para padrões em que o amanhecer leva à cor e à vida? Neste dias, em que naturalmente ainda se responde à violência com mais violência, onde é que a marca de carregar muros se pode tornar asas de anjo? Libertando-se as pedras, os blocos de pedra, carrega-se finalmente, em comunidade, a mesa da partilha.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Cartaz(es)




Encontro de He Qi

[Secção desabafos] Há histórias à volta do belo, tal como do feio. Umberto Eco escreveu sobre isso. A Religião sempre foi inspiração para o melhor e para o pior. Felizmente, temos muito de melhor. Basta dar um bom passeio demorado pelos grandes museus, seja de arte mais antiga, moderna ou contemporânea, desse mundo fora. Claro está, a arte não se fica pelo simplesmente bonito. A boa arte acaba por transmitir uma mensagem, desde o simples “limita-te a contemplar” ao grito de injustiça de tanto. A política nunca se descartou desse factor de arte como provocação. Há uma óptima ala no Rainha Sofia em Madrid com esse tema. Mas, imiscuir política e religião, mesmo que seja para “pôr a sociedade a falar sobre isso” nunca deu muito bom resultado. Vá, em tempos de direitos, parece que tudo é possível, até mesmo chocar por chocar, ainda que seja em nome de “pôr a sociedade a falar sobre isso”. Mas, é assim que funciona? A partir do choque pelo choque? Sinceramente, como padre, vejo o famoso cartaz e deu-me vontade de rir, pelo poucochinho. Não, não vou rasgar vestiduras, que isto do voto de pobreza não dá para andar ai a rasgá-las a torto e a direito. O que me parece é que a sociedade que vive o “falar disso” a partir de choque e escândalos não é de todo uma sociedade adulta. Falta-lhe perceber os limites, os critérios, a orientação do sentido de diálogo entre partes que até nem têm de acreditar no mesmo. Quem fez o cartaz é capaz de neste momento estar a regozijar de alegria “yes!! Conseguimos pô-los a falar disto!!” No entanto, é um falar fora das regras de bom senso, onde faz brotar os fundamentalismos mais sub-reptícios, ora de “intolerantes estes os religiosos”, ora de “lá está a esquerdalhada sem filtros”. Pois, o poucochinho activa o poucochinho de ambas as partes. Quem se interessa minimamente pela vida de Jesus, seja crente ou ateu, mas respeitável, perceberá que injurias, gozos, escárnio, etc., já Ele o sofreu com a dignidade própria de quem mostrou o caminho da Humanidade. Mas para isso de caminho de Humanidade é preciso ser coerente e estudar, ou basta ler, um pouco mais as coisas até mesmo de Arte e de Religião, sem se limitar ao “pôr a sociedade a falar sobre isso” com um cartaz em jeito de Pop art. Acredito no Deus com humor, daquele que sorri com o ridículo e que meneia a cabeça com a falta de maturidade nas atitudes, tanto dos que provocam, como dos que são provocados. Queremos ser uma sociedade de futuro, vanguardista, “fixe”, mas, para isso, parece-me que ainda há crescimento para acontecer. Isto do respeito tem muito que se lhe diga.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Conversas e leituras






Elliot Ross


Há conversas que ajudam a compreender leituras feitas. Não só leituras de textos, como de acontecimentos. Estava a comentar sobre uma situação que me incomodou. A meio da conversa, apercebo-me de que fazia um julgamento da pessoa presente na situação. Foi muito subtil, mas estava lá. Afinal, o que se passava é que queria, sem o manifestar, que a pessoa num determinado aspecto fosse como eu. Aprofundando ainda mais, foi claro que estava a tocar uma pequena ferida emocional minha. Ora, para também não entrar em culpabilizações, nada como dar nome a tudo com verdade e sem estar com juízos de valor comigo mesmo. Foi o passo seguinte. Dá vergonha, sim, mas foi libertador e possibilitou-me mais um ensinamento vivido. Esta conversa ajudou-me a dar ainda mais corpo a leituras feitas, tais como, o encontro de Jesus com a Samaritana, com a mulher apanhada em adultério, com Zaqueu, com Pedro... que depois de tudo o que Ele fez, ainda o negou 3 vezes. É isso, vivo Quaresma... em caminho de conversão para a autenticidade, respeito e serviço. 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Vocação e programa A Praça




Teresa Lamas Serra

Isto de seguir Deus, de forma especial em consagração religiosa, há de sempre causar dúvidas e curiosidade. No domingo passado na TVI passou uma reportagem com as histórias de algumas vocações religiosas, entre as quais a do Luis Palha, um companheiro jesuíta. Daqui a uns dias, serei eu que irei ao programa A Praça falar da minha vocação. A minha primeira ida lá há umas semanas com os alunos que fizeram o vídeo sobre o Sr. Agostinho e família (que estão entre os finalistas do concurso “Ciência em Cena” sobre doenças neurológicas, nesta caso a ELA) teve conversa de bastidores e terminou num “e se o padre Paulo viesse cá falar do imenso da sua história?” Falando com quem de devido, pareceu que seria de ir, sim. O Hélder Reis esteve por cá hoje, no Colégio, a fazer uma pequena reportagem para o dia do directo (que direi em breve quando será). A ideia é mostrar um pouco do meu quotidiano aqui no Colégio. Alguns momentos, se os puserem, vão ter bastante piada. Outros, bem, calma lá, acho que tenho de contar algumas sombras em directo, pois as perguntas sobre o professor Paulo tiveram só louvores como resposta, mesmo quando lhes disse que não subia a nota… ;) Enfim, para os meus alunos do 5.º ano do INA e do 1.º de Comunicação da Oficina, o dia de hoje foi uma verdadeira animação. Veremos em breve o resultado da reportagem, com o directo lá n’A Praça, a falar da minha relação e vida com Deus.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Bom senso




Chuan Teik Heng


Quando aprendi a conduzir, uma das coisas que me chamava a atenção e que não tinha propriamente objectividade era a “moderação”. Até me chegou a sair no exame de código algo relacionado com “velocidade moderada”. De vez em quando, nos painéis da auto-estrada lá aparece “Com chuva conduza com moderação”. Ora, isto da moderação apela ao bom senso. Não há um dado objectivo do tipo “87 gramas de bom senso” ou “113 km/h de moderação”. Percebe-se que a moderação ou o bom senso surge com a experiência, que vai dando consistência à sabedoria. Em muito radicalismo com que nos deparamos, no âmbito social, político, religioso e/ou cultural, pode haver falta de bom senso, ou, noutras palavras, de educação, pela observação atenta, pela leitura diversificada, pela escuta do outro, pelo uso articulado de razão e de emoção. Ter bom senso e saber aplicá-lo é sinal de maturidade.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Quaresma. Silêncio. Encontro.




Olinda Morgado


Em cada ano vou compreendendo um pouco mais da densidade da Quaresma. É tempo de silêncio. De dar ainda mais tempo ao silêncio, para que se possa perceber a importância do muito que nos acontece em cada dia. Pode haver quem possa gostar do peso da dor, mas, mais do que carregar no sofrimento, deve ser caminho de alívio... até chegar à leveza da Passagem. Deus não nos pede “estupidezes”, mas a autenticidade, junto com a libertação de correntes que impedem a disponibilidade de serviço ao outro. E aí dá-se encontro, para além de qualquer julgamento.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Párocos e missas em série aos domingos




Dulce Antunes - momento em que, na minha ordenação, dou o abraço sacerdotal ao P. Mário Sousa, grande amigo e pároco da Igreja Matriz de Portimão

Este fim-de-semana foi vivido de forma diferente. No sábado, de manhã até ao início da tarde, estive no Click it Scout (um encontro para escuteiros, com palestras em formato TED). Boas conversas surgiram, a partir de bons projectos partilhados por ali. Os organizadores estão de parabéns. Tenho a sensação que muitos viveram verdadeiros “Click’s” de coisas a pensar e a viver, com o tanto que foi ali partilhado. Depois fui celebrar Missas em Eiriz, Carvalhosa e Senfins, no Concelho de Paços de Ferreira. O P. Tiago, pároco daquelas comunidades, foi fazer uma formação e pediu-me para lá ir. Uma nova experiência. Não o de celebrar Missas, evidentemente, mas o de celebrar muitas Missas em pouco tempo. Foram 4 e não foram mais, pois acabou por pedir a outros padres para celebrar noutras comunidades. Como não sou pároco, apenas tenho ouvido as partilhas dos meus colegas que têm à sua responsabilidade muitas comunidades. Não faz sentido comparar cansaços, apenas fiquei a pensar o quanto pode desgastar isto de celebrar Missas em série aos domingos. Eu vivi bem, além de as comunidades serem muito vivas, organizadas, participativas, o que ajuda bastante, foi uma vez. No caminho, de regresso a casa, vinha em pensamentos soltos: “e se isto fosse assim todas as semanas, terias o mesmo fulgor?” Tem de haver grande força, de oração, de entrega, de companheirismo, para poder viver a densidade do que significa celebrar cada Missa com ânimo e disponibilidade. Compreende-se quando surge o cansaço, com os riscos de tornar a celebração mais ritualista, que verdadeiro e sentido ritual. Eu vivo muito a Missa como um grande momento coreográfico, onde cada gesto é habitado, dando silêncios e deixando-me embrenhar pelo mistério da força do ritual. Como padre sou intermediário da graça de Deus… e não quero ser um funcionalista do ritual. Mas estes dias ajudaram-me a perceber que pode haver esse risco… e também a compreender ainda mais os meus colegas párocos, em especial os que têm a missão de levar pela frente muitas comunidades. Um Abraço especial, com a minha oração, a todos os meus colegas párocos.



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Contraste entre o melhor e o pior




Fotograma do vídeo com as muitas flores do casal Kuroki

[Secção desabafos] Podia dar muitos exemplos dos contrastes entre o melhor e o pior do ser humano, mas fico-me por dois: por um lado, as selfies com a cria de golfinho que acabou por morrer; por outro, o Sr. Kuroki, japonês, que plantou milhares de flores para que a mulher, que cegou, pudesse sentir o cheiro das flores e assim voltar a sorrir. A selfie, como qualquer foto, pretende registar momentos únicos. Mas de que serve registar esses momentos únicos se não são vividos por se estar preocupado com a selfie? Ou, pior ainda, que leve a voltar a ver a foto com o golfinho e pensar que morreu à força dessa ganância de ter sido tirada? Este é mais um exemplo em como se pode chegar a tal consumismo, tanto material, como imaterial, que se esquece o saborear as coisas, com o respeito pela realidade que nos circunda. Não, não se está só no mundo. As criaturas, do plancton às árvores, passando pelos corais e musgos, são essenciais para o equilíbrio planetário. De facto, se se descarta com facilidade pessoas, o resto torna-se algo a uso, pior, a abuso, sem problemas de consciência. Com isto, percebe-se que há grandes riscos de perder o sentido de humanidade. No entanto, há laivos de esperança, de quem reconhece o bem que se faz na entrega ao outro a partir da mesma beleza da natureza… despertando sentidos e emoções. Deus convida-nos a ser, não destruidores, mas co-criadores, de vida, de arte, de sonhos, de respeito, de natureza e de humanidade, com Ele.




quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

"post-de-nada" ;)




Ana Gonçalves Pereira

[Secção “posts-de-nada-que-às-vezes-também-acontece”] Sou daqueles que têm fortes momentos de criatividade quando está quase a adormecer. Ontem foi mais uma noite onde passaram pelo pensamento, com muita emoção, entre outras coisas, textos que gostaria muito de escrever. Pensei também em ir buscar algo para apontar… pelo menos as ideias principais. Veio a preguiça. Ela vem muitas vezes. “Ah, eu lembro-me amanhã.” Tantas vezes repito isto. Tantas vezes esqueço aquilo. E afundo-me no sono… e nos sonhos (que são muitos).


sábado, 13 de fevereiro de 2016

Igualdade e igualitarismo




Louisa Marie Summer


"Oh stôr, está a ser injusto. A ela deixou e a mim não." Sorri e aproveitei para explicar a diferença entre igualdade e igualitarismo. "Todos têm direito à educação, mas nem toda a educação tem de ser igual. Tenho a obrigação de vos respeitar na vossa dignidade, algo que é igual a todo o ser humano. No entanto, enquanto educador, percebo que para um pode ajudar mais isto que aquilo. Se nalgumas coisas fizesse exactamente do mesmo modo para todos, estaria a desrespeitar a diferença. O fundamental é ajudar a crescer, também a partilhar convosco as ferramentas que vos ajude a tomar as melhores opções no caminho da evolução humana e espiritual. Neste caso, parecia-me que deveria deixá-la ir e a si não. Pense lá, que de tótó tem pouco, estou mesmo a ser injusto? Se estou, não tenho problemas em pedir desculpa." Deu um sorriso e acenou com anuência. [P.S. - E não, não sou dos que acha que o professor tem sempre razão. :) ]

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

[...]



Arthur Matsuo

[Secção outros tons] São pássaros a voar, fugidios de chuva e de vento. Imbatíveis, quebram gravidade. A janela embacia-se com o vapor de chá de violeta imperial. De nada, aparentemente, por contar, escreve-se o quotidiano. Dando espaço ao silêncio, mais uma página é folheada, quase encerrando o capítulo.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Bom tempo




Guy Anderson


O dia convida ao recolhimento. O que tanto se designa por “mau tempo”, pode ser bom tempo, belo até, para dar início à viagem de nova passagem. O gradiente do cinzento não ofusca a cor… pode relembrar a serenidade de memórias, clarificadoras do mistério do próprio presente. Há pouco, enquanto rezava, perguntei a Deus: que queres que de mim reduza a cinzas? Só Deus consegue amar-me ao ponto de me ajudar a ser como Ele. Num primeiro momento assusta pensar nisto: ser como Deus. No entanto, toda a revelação aponta a esse saber perder capas, máscaras, camadas que impedem a força da luz interna brotar como ramos que nos fazem encontrar em comunidade, de respeito e misericórdia, uns com os outros. Este caminho de cinzas é caminho de liberdade. Não renegando o passado, aceita-se sem que massacre, para queimar o que impede de viver… e veremos como a própria cinza torna a terra, banhada com a água de inverno, ainda mais fértil.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Ainda em Carnaval... ou em flexibilidade.




Cristina Lima


Há pouco, no post anterior, escrevi sobre flexibilidade… e agora acabo de receber esta foto do fim-de-semana passado com alunos. Antes que o dia de Carnaval acabe, recordo que a credibilidade de um padre (pelo menos este que escreve), também é medida pelo humor com que vive. ;) 

Flexibilidade




Pai José


Achei piada quando descobri esta fotografia. Comecei a praticar ginástica acrobática com 13 anos. Recordo bem o esforço de treinar a espargata para ir a competição. Ainda não estava no ponto, mas, como se nota, já ia avançado. Ganhar flexibilidade exige trabalho. Não só flexibilidade de corpo físico, mas também de espiritual, psicológico e social. Uma das técnicas é começar pelo amor-próprio. Gostar-se realmente de quem se é, é mais difícil do que parece. Implica conhecer, tanto do que é bonito e agradável, como do lado sombrio que incomoda. Depois, começar a estar atento ao outro, na sua diferença, sem fazer o julgamento imediato, rotulando-o seja do que for. Algo igualmente fundamental, perceber onde é que os estereótipos vão entrando e obrigam a que “tenha de ser assim porque sempre foi” ou “há que mudar porque sim”. Ganhar flexibilidade, poderá significar sair da rigidez para a compreensão. No fundo, deixar que o coração de pedra se transforme em carne. 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Trabalho de corpo




Naing Thu Soe


Cheguei há pouco de uns dias com os alunos do 12.º ano da ARTAVE (a escola profissional de música do complexo escolar onde trabalho). Esta manhã propus-lhes exercícios de corpo e de dança, onde se incluiria muito de trabalho de confiança e autenticidade, com eles próprios e com toda a turma. Mais uma vez, houve verdade. No princípio, surgiram os risos e os olhares que revelam a sensação de ridículo. No entanto, das muitas vezes que propus este tipo de trabalho de corpo, foi aquela em que senti a imensa entrega, de cada um e do conjunto, de forma mais rápida. Alguém, na partilha final de todo o exercício, usou mesmo a expressão de ter percepcionado momentos de limpidez. Houve momentos de gestos limpos, que levaram a olhares de agradecimento e de perdão entre eles. Isto de explorarmos o trabalho de corpo, em territórios desconhecidos, abre muito de nós. Apercebo-me do muito medo que há com o que o corpo pode potencializar e dar a conhecer de quem se é. São séculos de centralizar o conhecimento na cabeça, na “fria” razão, onde se encaminha para a formatação do próprio humano. Quando se habita o movimento, há muita novidade… junto com o despertar do que está abafado por tantos medos, inseguranças, vergonhas.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Agradecer ser padre




Hideki Mizuta


Há dias que marcam de forma especial simplesmente por ser padre. Hoje foi mais um. Só que não é “mais um” em sentido de desvalorizar ou relativizar, mas de agradecer a vocação de forma especial. Apenas fiz o esperado. No entanto, é sempre bom ver, no meio de tanto sofrimento, o brilho de olhar e ajudar a devolver cor à vida.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Dons, capacidades, talentos, virtudes




Prasad Perakam


Tenho-me apercebido da grande dificuldade que muitas pessoas têm para aceitar os seus dons, capacidades, talentos, virtudes. Talvez por surgir o medo ou a vergonha do julgamento com frases do tipo “convencido(a)!”, “quem acha que se julga?”, “olha, este(a) a se armar”, “olha a imensa modéstia que por aqui anda” dito com ironia, acaba por dar-se a dificuldade no reconhecimento dos dons. Ninguém é bom em tudo. Mas também não há ninguém que não tenha dons. Gasta-se tanta energia tanto quando se rebaixa alguém, como quando não se é devidamente valorizado. Por isso, parece-me que devia usar-se bem essa energia, por um lado, a (re)conhecer e a agradecer os dons que se têm, por outro, a (re)conhecer e a agradecer os dons que os outros têm, pondo-os todos a render, sobretudo no caminho da humanização.