quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Escrita




(Versión en español en los comentarios)


Escrevi uma carta. Traduzia a nostalgia das imagens, meio desfocadas, daqueles dias que anteciparam o nascer... de novo. Cada frase, qual peça de puzzle, fazia-me recordar as conversas, os silêncios, os espantos com novas descobertas. 
(...)
Escrevo uma carta: a letra mudou... de novo. 


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

[Oração]




(Versión en español en los comentarios)

Senhor: ajuda-me a não perder o sentido de caridade e a visão da dignidade, mesmo no diferente; a não esquecer os rostos das pessoas e que também sou pecador; a ser mais justo e respeitador; a aprofundar a minha escuta; a usar os dons no teu serviço com os outros; a ter sempre esperança e fé, para dá-las aos que, directa ou indirectamente, as peçam. Senhor, peço-te, afasta de mim o orgulho que se possa infiltrar num ser isto ou aquilo, ou em saber mais disto ou daquilo. Senhor, que eu seja cada vez mais Humano.


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Desespero, raiva... também vontade de ir mais longe



Alexey Titarenko

primeira pergunta que me sai é: será que os nossos ministros, de modo especial alguns, entre os quais o Primeiro, dormem descansados todas as noites? E os anteriores? 

Sem querer entrar em “populismos”, pois a tentação é grande, não posso deixar de manifestar a tristeza ao ler as novas medidas de austeridade. Depois de um manifesto de que não é justo, altera-se num primeiro momento. Mas dias depois vem uma nova medida ainda mais grave, intensa e dura para corrigir o que foi dito que não era justo. Assim foi ontem... e, mais uma vez, quem sofre é quem não tem mais para dar.  

Volto a um tema que para mim se torna cada vez mais crucial: a responsabilidade aliada à liberdade. Quem governa, perante a deliberação dessa comunidade, assume a responsabilidade pela mesma. Acresce quando essa comunidade mais pequena está integrada noutra ainda maior: por exemplo, Portugal integrado na Comunidade Europeia. Será fácil falar no abstracto, no entanto, há situações em que se deveria falar no particular. No caso de quem é governado falamos de massas, do povo, não podendo entrar na história individual da D. Francelina ou do Sr. Justino. Já quem governa, sim: podemos falar de responsabilidade de pessoas que passaram pelo Governo, que tomaram decisões, levando a estados extremamente negativos de uma nação. Nas leis básicas da justiça, se eu tomo para mim o que é de todos, sou claramente penalizado. Contudo, pelo que vou confirmando, na situação portuguesa não me parece que seja assim.

Chegámos a um ponto de desespero: a oposição, que há meia dúzia de dias esteve no governo, acusa este último de estar a afundar o país, esquecendo o que foi feito quando lá estiveram. O governo refugia-se no passado recente, onde o anterior começou a afundar o país, e em nome disso e de um pedido de resgate suga, de uma forma a roçar o desumano, quem já mais não pode dar. A minha pergunta é: se o governo anterior foi irresponsável, porque não se move uma acção judicial contra pessoas concretas que tomaram decisões a favor de interesses próprios? Haverá por detrás alguma conivência? 

A raiva que brota e leva a tomar decisões desesperadas, em greves ou manifestações, mais ou menos pacíficas, revela que já não se sabe por onde se anda ou deixa de andar. Há uma perda de confiança generalizada. O povo composto por rostos concretos, a quem se pede compreensão e que pague, já não sabe em quem acreditar. Escuto: “Que caia o governo!”. Pergunto: “Mas quem virá de seguida? E se mudamos, que vai fazer?” Se houvesse justiça, onde se assumisse de facto a responsabilidade das acções cometidas, talvez ressurgisse o sentido de valor pela pátria e ajuda no levantar do país. Vontade em ir mais longe há (sem que seja em emigração forçada). No entanto, cresceria se houvesse a sensação de que o respeito, a dignidade e o sentido de responsabilidade por uma nação fossem valores realmente presentes em quem governa. 



terça-feira, 2 de outubro de 2012

Diálogos ocultos VI



(Versión en español en los comentarios)


- Às vezes refugio-me nas palavras ou na beleza de um rosto, como se aí encontrasse o suporte da alma, ou de histórias antigas.
- Mas, que esperavas da visão renovada?
- O solidificar de caminho feito...
- ...e assim vivias o orgulho do “já está”.
- É o mais fácil!
- Não te iludas. Já o gozaste, teve o seu tempo. Novas vistas aguardam-te. Tira “roupagens” que já não interessam. Torna-te cada vez mais simples como o voo da cotovia...
- ...confiando, simplesmente confiando.
- Vês como sabes?

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

27 de Setembro de 1540 [e de 2003]




“My Balloon” de Kiet Vo

(Versión en español en los comentarios)


472 anos! A 27 de Setembro de 1540, o Papa Paulo III assinava a bula que constituía a Companhia de Jesus como Ordem Religiosa. Ao lado de todo este tempo sinto-me como uma criança que vai descobrindo a riqueza da presença dos jesuítas no mundo, pois também neste dia celebro (apenas) 9 anos de entrada na Companhia. Em memória agradecida, recordo as pessoas, as conversas, as peregrinações, as aprendizagens, as dores, as quedas, as confirmações, a fé, os Exercícios Espirituais, o silêncio, o “ser em caminho”... que me têm aproximado a Deus. 

Um Abraço a todos os jesuítas, junto com a minha oração ao “Senhor de todas as coisas” por nós, pelas nossas missões e por todas as pessoas que nos ajudam a ser quem somos.




quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Profetas... precisamos de




(Versión en español en los comentarios)


Precisamos de profetas... com anúncios de justiça perante a irracionalidade dos acontecimentos. Profetas livres de jogos políticos. Profetas com capacidade de escutar a realidade dos tempos e, com verdade, que possam promover o sentido de comunidade, no respeito pelos que menos têm. Profetas que sejam voz daqueles e daquelas que a têm abafada pela tristeza do abandono e da solidão. Profetas que sejam capazes de amar a realidade e, sobretudo, as pessoas... dando-lhes o sentido da fé e da esperança.



quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Inacabado...






(Versión en español en los comentarios)

Ontem, enquanto escutava alguém, mais uma vez dei-me conta de que as histórias são inacabadas. Um relato puxa outro, abrindo as portas de pormenores renovados no sentido. Sentimentos de vergonha e medo dão lugar, num primeiro momento, à surpresa de quem compreende e não julga, de seguida, ao arrumar do mesmo acontecimento noutro espaço que não o sótão ou a cave do esquecimento que atormenta. Por fim, a liberdade e a confiança surgem. Liberdade em ser, sem euforias ou ansiedades, rosto. Confiança na companhia de quem vive para além do ritmo orgânico e sabe que as histórias são inacabadas.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Liberdade e Razão



"Truth" de Nicole Dextras

(Versión en español en los comentarios)

Já lá vão uns anos escrevi isto num trabalho para Filosofia, volto a resgatar: 

O ser humano inevitavelmente necessita de alguém responsável que o oriente. Daí a existência de um Estado de Direito, diante do qual existem direitos e deveres, precisamente pela convivência em comum. Uma pessoa que é responsável por outras não tem o direito de as submeter a um regime ditatorial, de modo a alcançar poder político, económico e até mesmo social, precisamente porque os outros não são meios, mas fins em si mesmo. Este é um perigo real, e infelizmente actual, em que a liberdade exterior prevalece à interior. 

A razão mal tratada e a liberdade que só atende ao aspecto individual levam a que a autonomia se torne não num valor de apoio à construção da humanidade, mas a uma heteronomia quase absoluta, em que seres humanos têm de estar submetidos, senão mesmo escravizados, a leis que atendem apenas aos interesses pessoais de quem as criou.



domingo, 9 de setembro de 2012

Diálogos Ocultos (V) - [Chegado dos Exercícios]




(Versión en español en los comentarios)


- Chego ao momento de querer ter os olhos bem abertos.
- Cansaste-te de sonhar?
- Não tem nada que ver com isso. Depois do sonho vês que se concreta a acção, o avançar em direcção ao que há a fazer.
- Ganhas outro alento, vitalidade...
- ... e o peso da história passa dos ombros para a visibilidade. Deixando de carregar a Vida, dá-se o rosto-a-rosto...
- ... mas não um “enfrentamento”...
- ... é o outro modo de querer as coisas. O corpo distende-se e as defesas em relação à vida perdem o sentido. Usas a força da palavra, também do silêncio e dos gestos como numa contradança.
- Sim, apenas possível com uma visão renovada.




quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Em silêncio habitado...




“Where gravity got lost” de Brice Portolano

(Versión en español en los comentarios)



Para fazer Exercícios Espirituais há que perder um pouco a gravidade e ser capaz da loucura em dar o salto à interioridade e encontro especial com Deus. O silêncio habitado, portanto. Começo hoje este salto. 8 dias em silêncio a rezar (também por todos/as vocês leitores/as). Rezem e/ou pensem também em nós nestes dias. Obrigado!



sábado, 25 de agosto de 2012

Despedidas






(Versión en español en los comentarios)

As despedidas têm sempre um amargo de boca e de coração. Há o sem jeito do “até já”, “até logo”, “até um dia”. As despedidas não deviam existir, mas é esse amargo que também revela o quanto se gosta, junto ao não-desejo da partida. “Partir”: sim, ir mais longe, noutros desafios que a Vida quer revelar... com a quebra inerente nesse momento do abraço ou do beijo que prometem o novo encontro.


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

[Sem título]




"Island Dance" de  Hengki Koentjoro

(Versión en español en los comentarios)

São muitas as vezes que me sinto um privilegiado. Os (re)encontros que, ora retomam o fio dos contos que nunca nos cansamos de recordar e voltar a sorrir, ora abrem as portas de novos relatos, surpreendentes, mágicos até, cheios da vitalidade só permitida em quem sabe escutar o que está para lá do imediato, são a oportunidade para celebrar este meu sentimento. Ainda levo comigo um sonho de infância: conhecer todas as pessoas do mundo. Ingenuidade em idade adulta? Talvez não. Há impossibilidades que se tornam possíveis quando damos espaço à amizade, mesmo aquela inesperada e sem tempo. Agradeço muito a vocês todas e todos. É também nisto que a minha vocação faz sentido. 




sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Casas... outras que não de pedra!




(Versión en español en los comentarios)

Tenho para mim que o desafio é saber desenhar, para além do traço de um lápis, a casa onde se sente que, ao abrir os braços, se pode voar na troca de olhares, no gesto que reconhece a segurança de um aconchego, numa bebida preparada com aquele carinho que só pode dar quem conhece “a” casa. E essa, sem tijolos, senão de histórias, não pára de ser construída... e assim, de grande, alberga, recebe e despede agradecida no momento da partida. 


quinta-feira, 12 de julho de 2012

[instântaneos]



O silêncio do abraço, aquele forte de reencontro ou, então, de um até já demorado, inicia o desenrolar da(s) História(s). 

terça-feira, 26 de junho de 2012

[Entre jogos ou poema estúpido] *




(Versión en español en los comentarios)


Não sei.
Digo eu.
Seria interessante ver
se os vencedores se situassem na pele da derrota
e os derrotados nas enciclopédias da vitória.
O jogo decide a vida se se estiver disposto a ganhar
tristezas.
Alma lusa palpita em mim,
vencedor sou desde que nasci,
para além de resultados em quatro linhas.
O mundo é redondo.




Poema escrito a pensar (e a sentir) o facto de estar a viver em Madrid e que, ouvi dizer, amanhã há um jogo "qualquer". ;)


domingo, 24 de junho de 2012

São João Baptista




São João Baptista - Caravaggio

(Versión en español en los comentarios)

Olho pela janela, vejo o horizonte rodeado dos tons de terra outrora marcada com os nossos passos. Os mesmos que espelhavam as conversas, os silêncios, as idas de povoação em povoação. Contigo. Sempre. Presente na descoberta ou já plenamente connosco em pão multiplicado e em vinho, do melhor, servido em cada boda. Era muito novo quando conheci o teu primo. Dizem-no rude, quase bruto, talvez pela força das palavras. Sem medo de as pronunciar, dizia a verdade que só pode exprimir quem rejubila sem te ver, apenas sentindo a tua presença. Bastou a escuta da voz da tua mãe e ele agitou-se nas águas internas que o amparavam. Tornou-se o último profeta do passado e o primeiro do presente. Sem problemas de identidade, passou-te pelo Jordão e apontou-te como o Cordeiro, que anularia todos os sacrifícios que fossem para além da misericórdia e serviço. A doçura do mel silvestre completava-se com a força ganha do seu silêncio calcorreando o deserto, confirmando que foi enviado a desenhar a certeza da salvação que não tardou a chegar... em ti. As suas palavras, ao jeito de espada afiada, cortavam o que não interessava. E se não cortavam, feriam os que não buscavam o melhor para si e para os outros. Lembro-me da dor que sentiste quando soubeste da sua prisão. Também recordo o que lhe mandaste dizer, confirmando-lhe o teu ser: quem não vê, abre a visão, quem não ouvia, passa a escutar... e os cativos recebem a Liberdade. Outras correntes, não de ferro, passarão a definir a comunidade... mais ampla que a morte. E João, o baptista, não ficou esquecido. Está sempre ligado a ti. Nós o testemunhamos, e o nosso testemunho é verdadeiro. 


sábado, 23 de junho de 2012

[Identidade]



Hugo Correia - Reuters

(Versión en español en los comentarios)


Identidade:
     
Terra, gestos, 
sons, letras,
mar, rostos,
[lágrima
de emoção]
relógio de sol,
em cruz delineado,
espigas descobertas
sobre o silêncio
da via campestre,
[sorriso
de memória]
bilhete trespassado
nos movimentos
da cidade,
pessoa feita homem,

[diluído na (ir)realidade
de muitos,
que dão passos,
trocando mãos,
alimentando beijos,
fortalecidos de pão]
de respiro
e saudade.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

"Uma noite com Kylián"




(Versión en español, todavía sin haber sido corregida, en los comentarios)

A noite guarda sempre mistério. Silenciosa ou espaço de festa, ruídos ou surpresas, traz a possibilidade de encontros. Uma noite com Kylián abre a porta da transcendência, não etérea, mas bastante terrena e humana. Para dar corpo a esta Noite foram escolhidas, por parte da Companía Nacional de Danza - Espanha, três coreografias de Jiri Kylián que, a meu ver, formam um ciclo. Três peças distintas, uma unidade.
Uma pessoa iluminada projecta a sua sombra sobre a tela: assim inicia Sleepless. Assiste? Vê? Estende os braços, rasgando o véu para a entrada na História que já começou. O mistério do outro lado, ao jeito de uma série de partos de novos acontecimentos, moldados pela relação de corpos: ora fogem, ora surgem, em parte e no todo que se completam ou complementam. O ritmo é frenético, quase gritante, agitando as rupturas interiores que a vida traça. Em contínuos nascimentos, a individualidade abre-se à relação e, assim, tal como nos primórdios da Criação, do caos ao cosmos, do ruído à harmonia. Poderíamos falar de transfiguração, no entanto, seria mais o peregrinar: “não há caminho, o caminho faz-se a andar”. Foi uma boa surpresa ouvir já quase no final a repetição deste verso de António Machado. A peça, a meu ver, de grande profundidade espiritual, faz pensar na identidade: própria ou de quem a busca. A saída e o retorno diário à casa, ao lar, onde no entretanto tudo acontece. O véu do templo rasga-se, sobe, desaparece, para revelar o tal outro lado. Mas há que descer do monte, continuando a fazer caminho, o caminho. No final, a porta estreita abre-se e, incansavelmente, entro de forma renovada na História...
...que, entre muitas experiência, se toca uma e outra vez a Petite Mort: segunda peça. A linearidade dos corpos, em floretes prolongada, agita o respeito ao som dos golpes. Uma mistura de subtileza, sensualidade e força na atitude de quem busca a honra, ou a liberdade ante modos de vestir carregados de Corte e festas palacianas, exclusivas para alguns. Aparecem as ondas, as modas, que mudam os cenários. O mundo é um palco, onde a exposição de quem o pisa é inevitável: daí a honra a defender. Em Petite Mort não encontro espírito, sim, a humanidade plena, quase visceral, suavemente retratada no erotismo do florete e nos negros decotes reveladores de outros desejos. Na tentativa de esconder a morte, de a evitar, no caminho que se faz ela acaba por surgir. Não será uma “pequena morte” a passagem da noite para o dia seguinte? Toda a semente tem de morrer para dar fruto novo... e a semente do amor, em êxtase vivida, não foge à bonita realidade. E na intensidade desse momento, os vestidos são abandonados, dando outro passo no percurso a fazer.
Por mais que se queira fugir, as perguntas existenciais tocam-nos à porta. Responder, ou pelo menos buscar a resposta, faz parte da essência de quem se diz pessoa. Da relação sai o encontro com Deus. Stravinsky dá o mote... ou serão os salmos? Também estes são um caminho do 1 ao 150. E é este último o mais presente no fim da Noite: Sinfonia dos salmos. Acaso? Não me parece. Da unidade conseguida nesta “trilogia”, este culminar é majestoso. Num cenário preenchido por objectos evocativos de oração, os corpos traduzem a linguagem dos repetidos louvores apresentados pelo salmo, pelo coro e instrumentos. O laudate de fundo não invalida a experiência da queda. Só pode haver verdadeiro(s) alelluia(s) depois de se passar pela(s) experiência(s) do sepulcro, nas suas muitas distintas formas: recordamos o dilúvio, o êxodo, o livro Job, o salmo 22, o salmo 50 [miserere], entre outras possíveis passagens e outros relatos. A oração ganha um outro sentido. Deixando de ser repetição mecânica de palavras, passa ao pulsar de movimentos do corpo, transforma-se em vida de quem a vive. Em meditação, reflexão ou contemplação percebe-se o abandono ao existir. Nesta História sou mais um que escreve outro sentir. Pois nesta História cada um compõe uma narrativa. O ser pode desaparecer, mas fica o registo do espaço e da memória que não deixa apagar os pilares do mundo.
Fiquei positivamente impressionado com esta Noite. Em tempos onde parece que há medo de tocar no Espírito ou no que é d’Ele, José Carlos Martínez, como director artístico da CND, evocando a grandeza de Jiri Kylián, propõe, no meu entender, uma entrada no Humano e no Divino. Como? Louvando o Senhor... com a dança, enquanto o caminho é feito a andar.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Coisas da vida...










Cartoon: Carlos Ruas

Ontem, num autocarro, em pleno centro de Madrid, tive a previsão do meu futuro. 
Uma rapariga, de língua portuguesa, comentava que estava a receber pedidos no facebook de pessoas que não conhecia e dizia (com ar muito sério):
- Olha, e estuda teologia. Todos os que estudam teologia são gente louca! 
Depois de toda a conversa (meio surreal), quando ouço isto não aguentei e depois de rir disse:
- Peço desculpa por intrometer-me na conversa, mas... parece-me que nem toda a gente que estuda teologia é maluca.
Ficam os três a olhar para mim, com ar de “fomos apanhados, ele fala português”. Ela responde:
- Bem, todas as pessoas que eu conheço e que estudam teologia são loucas.
- Hmmm, então já sei o meu futuro... Eu estudo teologia!

domingo, 10 de junho de 2012

Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas





Estando fora, a sensação de pertença a Portugal é ainda mais forte. Há um encanto em ser português. Mesmo na crise, mesmo no sentimento de tristeza perante muita injustiça que acontece, quando olhamos para a riqueza de alma do nosso "à beira mar plantado", há o positivo orgulho que nos faz abrir os horizontes e deixar que os "mares" e "Adamastores" de hoje não sejam uma ameaça, mas sim a possibilidade de descoberta de outras "terras" (mais interiores), transformando o "cabo das tormentas" em verdadeira esperança!


segunda-feira, 21 de maio de 2012

E mais uma época de exames...




"Tudo tem um começo" de Carlos Ruas

(Versión en español en los comentarios)



Época de exames oficialmente aberta. 
O tempo voa e o segundo ano de Teologia está quase a acabar. Toca mais um esforço. Haja estudo!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Dos verbos "agradecer" e "gostar"




(Versión en español en los comentarios)

Não se devia esperar o inesperado para agradecer. Nem mesmo o fim para dizer, apesar das fraquezas, pecados até, que a pessoa que está ao lado tem o seu quê de especial... mesmo que não faça nada de extraordinário. Continuarão a existir pessoas de quem não se coincide no gostar ou na existência de empatia. Não se trata de heroísmos. Trata-se, simplesmente, de não deixar que a oportunidade de cada momento se esfume. E em igual simplicidade dizer, cada qual ao seu modo, és e eu quero que sejas, gosto muito de ti! 

sábado, 5 de maio de 2012

Entre "fontes" e conhecimento de Deus




"Travelling Light" de Magali Nougarede

(Versión en español en los comentarios)


Venho de retiro. Um dia.
Tive o silêncio como “ponto de orientação”. A partir daí fui guiado para rostos, situações, textos bíblicos que me têm chamado a atenção e para momentos de “alta contemplação mística” onde alcancei o sétimo céu... do meu descanso. Sem esperar - coisas do ipod -, terminei o retiro com o poema As fontes de Sophia de Mello Breyner, recitado por João Delicado.
Chego a casa e lá venho eu à outra realidade do mundo. Antes de abrir o mail e facebook, vou ao A Ronda dos Dias, um dos meus blogues de visita diária, e a meio do post “A um Deus conhecido”, leio:
“- Ok, mas explica-me lá esta necessidade de rezar em latim.
- Para já, eu ouvi e acho giro. Stôra, é altamente, aquilo soa tão bem. Depois, tenho andado a pensar numa coisa: Deus durante muito tempo ouviu rezar em latim e depois deixou de ouvir. Se eu rezar em latim, pode ser que Ele reconheça assim um som que já não ouve há muito tempo e diga:"Oh, olha para esta! Deixa-me lá ouvir o que ela quer." Escreva lá!”
Para além de descobrir uma possível nova categoria teológica, o altamente, imagino Deus aborrecido com a linguagem e penso na beleza da simplicidade de alguém a acreditar que O surpreende com algo inesperado. 
Sim, um dia em cheio, entre fontes e conhecimentos sobre Deus!

terça-feira, 1 de maio de 2012

Sentido de ser (VIII) - Especial 1 de Maio



James Wasserman

(Versión en español en los comentarios)


“Mulheres que esperam à porta da uma fábrica... chove. As mulheres estão do lado de fora, à chuva, diante daquela porta aberta. O que seria mais natural que resguardar-se quando chove e quando uma porta está aberta? Mas este movimento tão natural é impensável, diante desta fábrica, porque está proibido. Nenhuma casa é tão estranha como esta fábrica onde se consomem as nossas forças, diariamente, durante oito horas”.
Simone Weil, in “Ensayos sobre la condición obrera”

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Sentido de ser (VII)



Amy Hildebrand

(Versión en español en los comentarios)

“Honro o outro não só como corpo, mas como corpo vivo, somo ser vivo: para além do corpo, venero o sujeito que o habita, honro o outro como pessoa espiritual e descubro que os seus gestos e as suas palavras são motivados pela sua estrutura pessoal. É o espírito do outro o que habita no meu espírito. O esforço de entrar no seu mundo de valores leva-me a aprofundar no conhecimento do meu eu, a confrontar o meu mundo de valores com o seu, às vezes faz despertar o quanto em nós está adormecido e descobrir o que somos e o que não somos.”
Edith Stein, in “O problema da empatia”

terça-feira, 24 de abril de 2012

Sentido de ser (VI)




"Drop" de Stuart Jesse

(Versión en español en los comentarios)

“O silêncio é necessário em muitas ocasiões, mas há que ser sempre sincero; podem-se conter alguns pensamentos, mas sem disfarçar nenhum. Há formas de calar sem fechar o coração; de ser discreto, sem ser sombrio y taciturno; de ocultar algumas verdades, sem as envolver de mentiras”.
Abade Dinouart, in “A Arte de Calar”

domingo, 22 de abril de 2012

Epifania (III)





(Versión en español en los comentarios)

Sento-me e recordo o ardor de coração, quando o passado começou a fazer sentido. Escrevo e as memórias afloram de maneira distinta. As notas que surgem embalam primeiro, depois confirmam que não se pode guardar a poesia, nem impedi-la de viver no meio do caos. A crise torna-se uma encruzilhada, pondo em prática a liberdade. Fico em casa mais um tempo. O presente é o início. 

sábado, 21 de abril de 2012

[Ceia]



"A festa de Babette" (1987)


(Versión en español en los comentarios)


Abro os dias
com a novidade.
Uma mesa posta
ao estilo antigo, 
com novos sabores
de frutos da época.
Preparo-me,
como as palavras,
nos seus muitos sentidos.
Dirijo-te o rosto,
baixando-o para ser elevado.
Reconheço o silêncio a guardar.
A gestação não é ruidosa,
o ser tem várias facetas.
As dores de parto serão passageiras.
O que fica:
a certeza da nova criação.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A arte e o público e a arte





(Versión en español en los comentarios)


A Compañía Nacional de Danza (CND) daqui de Espanha iniciou uma campanha de sensibilização para a dança. Uma fotografia de cada pessoa, acompanhada da frase “le gusta la danza. ¿Y a ti?” (“Gosta da dança. E tu?”). Sabia que iam fazer esta campanha. Foi em Janeiro, aquando da primeira apresentação da CND com a nova direcção artística de José Carlos Martínez. No intervalo estavam a fotografar pessoas do público em geral. Também me fotografaram. Sei que o meu gosto por esta campanha também tem o seu lado subjectivo. No entanto, como não sei se me seleccionarão para aparecer na campanha, devo dizer que gosto mesmo desta ideia de relacionar o público com a arte, neste caso a dança.
Qualquer forma de arte sem público não tem sentido. O acto criativo, mesmo não tendo que estar focado no público, tem de o considerar. A questão não se prende em “vão gostar ou não”, mas como forma de dar algo, de promover uma relação. A criação é exteriorizada numa entrega, numa partilha. Pintar, esculpir, coreografar, dançar, compor, escrever, para ficar fechado é apenas uma idealização do processo criativo e não uma realidade artística. O acto de publicar confere a saída do tempo e do espaço do criador, dando-lhe uma nova abertura.
Quando vi as coreografias apresentadas pela CND em Janeiro, sabia que havia uma tensão no ar. Nacho Duato esteve anos à frente da CND e agora entra um novo director artístico. O que irá acontecer? Nova linha? Mudanças? O pouco que estava dentro do assunto restringia-se ao que havia lido sobre o tema, antes de ver as peças. Percebe-se então que há uma espera da reacção do público. O que dirá quem vai assistir? Com esta campanha há um convite claro da participação do público a ver, a saborear, a entrar na dança, reagindo a tudo isso. Também eu recordo o que senti.
Entrei no Teatro Zarzuela e caiam penas no palco. Para mi, a clara sensação de, mesmo estando a entrar, já estar a acontecer algo. A preparação já é acção. E a primeira coreografia já estava, de alguma forma, em marcha. Não temos a presença dos bailarinos, mas temos o cenário que já nos informa, do que entendi depois, da leveza de Extremely close, de Alejandro Cerrudo. Segue-se El espectro de la rosa, de Angelin Preljocj, Artifact II, de William Forsythe, terminando com Walking Mad, de Johan Inger.
Como alguém do público, fora do que senti e vivi em cada coreografia, a grande sensação foi: a CND quer apresentar algo novo, sem ter uma linha para além do: “Desde que seja bom, apresentamos”. Todas as coreografias eram bastante diferentes entre si e num dos intervalos houve o recordar da História da CND. Passado, presente e futuro.
O que mantém em comum tudo isto? A realidade do público. O público não é uma abstracção. São pessoas que sentem, vivem, aplaudem, criticam, soltam gargalhadas, choram e que de alguma forma afirmam que a arte é vida e não pode morrer. Em tempos de crise é fácil eliminar a arte, como se de um luxo tratasse. É verdade que as entradas são caras e não se pode ir a tudo. Mas não podemos esquecer que os artistas não vivem do ar e que entrar no mundo da arte é também entrar no mundo do humano. A arte permite uma relação com a humanidade, um vínculo que dá outra dimensão da vida. O que seria um mundo sem música? Sem pintura? Sem dança? No fundo, sem cultura? Sem dúvida que seria um mundo mais desumanizado.
A arte precisa do público e o público precisa da arte. A arte é um dos cumes do humano: a capacidade de abstracção e de acolhimento dos sentimentos que surgem nesse momento. Fazer o “desenho” da vida, em movimentos, pinturas, música. A arte, em si, não é um capricho, é uma necessidade humana, porque nos afecta. Podemos ter com que comer e beber, junto com um tecto, mas só com isso não somos felizes. Há necessidade de mais. O afecto, o vínculo, a capacidade de desenvolver uma relação abre as portas: da imaginação, da Vida que quer dar vida e respeito pelo outro, do artístico e, sim, da Fé. E isso é Ser Humano.
Parafraseando a campanha da CND: Sim, Gosto da Arte.
Afinal, a arte também é o público e o público também é a arte.
P.S. - Este sábado, 21 de Abril, quem possa, não perca o II Fé e Arte, em Braga. Mais informações em www.fe-e-arte2012.com