quarta-feira, 29 de setembro de 2021

A beleza de ser pessoa


[Secção pensamentos soltos com letras verdes sobre a beleza de ser pessoa] Terminei há pouco de orientar mais um grupo de Exercícios Espirituais de 8 dias. É sempre gratificante sentir, observar, confirmar como o Espírito vai trabalhando no coração de cada pessoa. O caminho da verdade connosco próprios é tão libertador. É igualmente exigente, duro, a ser feito com muito respeito, sem voluntarismos, mas profundamente libertador. 


Somos bombardeados de muita informação de como se é suposto ser. Já desde o ventre materno, com os mais menos descansos e alimentações, desejos, emoções, recebemos sentir que já influencia a existência. Depois, nas inúmeras relações  ao longo da vida, muito mais recebemos. Obviamente, muita informação intelectual, emocional e espiritual é boa, necessária, construtiva, de sentido de si e de outro. Informação de Amor, poderia chamar. Mas, em paralelo, também há tanta porcaria, castrações, imposições, directas, indirectas, que ofuscam a beleza do ser. E, a que mais me dá que pensar, é aquela que surge com aparência de bem. E totalmente perversa ainda, quando é em nome de deus (sim, neste caso, em minúsculo). Informação de desamor, poderia chamar. É por isso que um retiro, bem acompanhado e orientado, torna-se lugar de liberdade. Repito, é exigente, duro, a ser feito com muito respeito. Tal como subir uma montanha ou correr uma maratona exige preparação, também ir desbravando a alma implica tempo, equilíbrio, noção dos limites. As informações de desamor não se arrancam, precisam da delicadeza da integração, pois muitas emoções afloram, em novidades de comportamentos que não se esperam. Por isso, não pode ser um caminho de heroísmo, mas acompanhado por quem sabe orientar. 


Pela tarde, passei pela Centésima Página. Enquanto olhava para todos aqueles livros, que, desde a literatura, à poesia, aos mais técnicos nas diversas áreas, retratam do melhor ao pior da humanidade, escrevi uma pequena oração em letras verde, a pensar na beleza de ser pessoa. Sexta-feira começo outro turno de Exercícios, com a maravilha de colaborar com Espírito a dar Vida. 


segunda-feira, 27 de setembro de 2021

481 | 18


[Secção vida em celebração] 481 | 18: anos da Companhia de Jesus no Mundo, os que tenho de vida como jesuíta. 


Quando acordei, depois de agradecer o dia, foi o primeiro pensamento: 18 anos de jesuíta. Brinca-se com o número, pelo significado de maioridade. Enquanto rezava, pedindo a Deus pela Companhia, as suas missões e todos os meus Companheiros de cá e de lá, e em jeito de viagem ao longo deste anos como jesuíta, voltei a pensar no que escrevi há dias, no crescer até ser semente. Têm sido anos de muita aprendizagem, na travessia de sombras pelas luzes, sobretudo de Deus. É exigente crescer, mais ainda permitir-me ser semente. Santo Inácio termina a segunda semana dos Exercícios Espirituais a recordar que mais avançamos em todas as coisas espirituais, quanto saímos do próprio amor, querer e interesse. Depois de 18 anos, percebo o tanto que há de liberdade nesta saída. E só se compreende de entranhas essa liberdade desde o altar. Aí, quando celebro, respiro em profundidade e entrego o amor e o desamor, a vontade e o desdém, o interesse e o desinteresse. Não vai apenas de força pessoal, mas sobretudo de abandono confiante a Deus que me e nos desinstala constantemente a não ficarmos na infância e adolescência espirituais. Chegar a adulto na fé implica entregar-se total e plenamente. Bem, são apenas 18 anos. O caminho continua, a aprender desde o respiro divino até ser semente.


sábado, 25 de setembro de 2021

Potencial de amar


[Notas nocturnas enquanto vagueio na oração] Todos temos potencial de amar. Sinto-o esta noite desde a profundidade das entranhas. Como se fosse atravessado de todas os rostos que vi e que amei, escarneci, motivei, odiei, abracei, gozei, temi até aos ossos, desejei ser, desdenhei, ajudei, ignorei, suportei. Rostos que desconhecia e vi a sorrir, a gritar de horror, com olhar de ternura, dureza de violência, marcas de tempo, maquilhados de futuro. O mundo está em mudança. Os corações estão em mudança. O meu coração está em conversão constante, nessa busca de ser dador de vida, a aprender a ser semente. Todos temos potencial de amar. Apesar de todas as dores que nos magoam a alma, apesar de ainda lutarmos em lugares de infância dorida e adolescência oprimida, apesar de nos julgarmos constantemente a nós próprios e aos outros pelas suas características mais ou menos coloridas, apesar de impormos normais físicos e humanos, apesar de temermos o caminho da liberdade e da fé, todos temos potencial de amar. Chegará o dia em que celebraremos o sol a nascer para todos e a chuva irrigar cada terra sagrada a libertar os frutos de vida. Bem-aventurados seremos nesse dia. Até lá, que caminhemos a deixar a luz dissipar todas as trevas, permitindo o amor ser tudo em todos.


sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Uma folha


[Secção coisas de nada] Ofereceram-me esta folha, com tanta delicadeza e carinho “se colocares a meio de um livro mais pesado mantém as cores”, que deixou de ser mais uma folha para passar a ter a densidade de pensamento, partilha, presente e presença, amizade e muito mais características novas. Nós, seres humanos, temos esta capacidade de tornar o banal em algo profundamente especial; a simplicidade em algo cheio de significado. Por outras palavras, a riqueza do simbólico que transforma o gesto e o objecto em parcela de plenitude. Quando penso na passagem em que Jesus nos convida a ser como crianças, também me vem ao coração a plenitude que lhes acontece no pequeno. Do nada, caída no chão, uma folha torna-se pedaço de eternidade e lugar de contemplação da amizade e do sentido da vida com significado nas relações desde as pequenas coisas.


quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Luz de Outono


[Secção coisas de nada] Gosto da luz de Outono. Gosto da luz em geral, mas a de Outono aquece o caminho do recolhimento, desponta lágrima de saudade, por ter o seu quê de nostalgia, e, por isso, aguça o mistério do silêncio. Para escutar a profundidade e beleza do ser, convidando a libertar tudo o que já não nos pertence e impede crescer. Gosto da luz de Outono.


terça-feira, 21 de setembro de 2021

Fnac Talks




[Coisas na vida de um padre] Estive na Fnac Portugal à conversa com Bárbara Ramos Dias, psicóloga com enfoque em adolescentes, sobre a importância da paz interior, tanto de pequenos como graúdos, na vida, na educação, no ser. Agradeço à Bárbara o convite para esta boa partilha de tema tão pertinente na actualidade. Esta conversa integra um conjunto de Fnac Talks. Fica o link: https://youtu.be/zjS2LTQxxQ0


segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Breve oração



[Breve oração ao anoitecer]


Agradeço-Te

as memórias simples, desde os sentidos,

dos abraços dados e dos beijos recebidos,

das horas a deixar a luz entrecruzar-se

nas sombras, enquanto se libertam

culpas, vergonhas, angústias e medos,

dando mais tempo e espaço ao amor


Peço-Te

mãos soltas ao serviço,

pés cada vez mais firmes

em terra e horizontes que escrevam 

memórias simples, tornando-nos

fragilmente humanos e fortemente divinos

como uma criança a ser sinal de Ti

domingo, 19 de setembro de 2021

Paulo de Paz



[Secção pensamentos soltos sobre redes sociais] Já ando pelas redes há uns anos. Nesta ou naquela plataforma, tenho vindo a publicar em modo partilha, com reflexões e humor, seja nos pensamentos soltos, com letras verdes, coisas de nada ou na vida de um padre, por vezes também de corpo e pelas breves orações. Muitos dos textos acabaram por ser compilados em dois livros. Tudo já levou a muitas conversas, com pessoas a interrogar, a abrirem-se à fé, a serenar o coração, a descobrir novas faces de Deus. Vão-se juntando e tanto no Facebook como no Instagram passam os 11 mil seguidores em cada uma.


Tenho trabalhado a liberdade em relação às redes. Várias vezes pensei sair. Há muita tensão, onde o conflito, o desdém e o ataque são facilmente postos como possíveis e adquiridos. Por mais que não se queira, as redes influenciam a vida. Têm impacto social e político, também religioso. Tenho cada vez mais consciência do quanto as pessoas tomam o “vi na net, logo é verdade”. Pois. Daí a noção da responsabilidade também como caminho de paz. Aquando da polémica da Carta aos Efésios, do que mais percebi foi a responsabilidade que há a ter quando somos seguidos por milhares de pessoas. O meu vídeo foi visto por mais de 20 mil pessoas. Isto deu-me e dá-me que pensar: para sermos homens e mulheres de paz, a liberdade tem de estar sempre aliada à responsabilidade. Tal implica observação, silêncio, reflexão, liberdade interior. No caso das redes, mais ainda. Se quero ser “Paulo de Paz” (ou, convido a cada qual pôr o seu nome), tenho de estar atento às profundas motivações que me movem. Afinal, uma publicação pode fazer muito mal ou muito bem.


A todas as pessoas que têm chegado, deixo o meu abraço. Por todas rezo em cada dia. Por aqui, tentarei seguir o caminho de paz e promoção de humanidade. O Deus no qual acredito convida-nos a amar como Ele amou. E isso talvez seja do mais maduro que há, onde liberdade e responsabilidade juntas são lugares de adultez e de amor. Por aqui seguimos em partilhas. Obrigado pela confiança.


sábado, 18 de setembro de 2021

Boas conversas


[Secção letras verdes] Em profundo agradecimento, para que mais aconteçam, ajudando o mundo e as relações a serem mais humanos e, daí, divinos.


sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Atraso do padre




[Foto: Paulo - Lovelymoments_pt]


[Coisas na vida de um padre] Estes tempos têm sido muito animados com casamentos e baptizados. Isto de 2020 ter sido escasso em celebrações, passou para 2021. Tenta-se facilitar o mais possível a vida. Para não haver enganos, confirmo e reconfirmo datas e horas. Mas… pois, há um mas e um dia que o padre provoca taquicardias aos noivos. Ia todo tranquilo a caminho do Sameiro, quando começo a receber chamadas da noiva, do padrinho, de amigos. Parei o carro a devolver a chamada. “P. Paulo, está tudo bem? O casamento era às 13h.” Já passava meia hora. Solta-se-me um palavrão. “Ai, já estou quase a chegar!” Estaciono. Encontro a noiva. “Não te dê agora um ataque cardíaco!” Gargalhadas. Entro na basílica. Paramento-me. Vou pelo corredor central: “o padre chegou. Desculpem atrasar as moelas… ou o tofu, que isto temos de ser inclusivos.” Mais gargalhadas. Vou para a porta a esbracejar: “Noivo, já cá estou! Vamos começar!” E ficou registado o momento. A celebração continuou na normalidade: com muita animação, emoção e amor entre eles e Deus. Haja alegria!


terça-feira, 14 de setembro de 2021

Breve oração



Luís e Marta - Lounge Fotografia


[Breve oração ao anoitecer] 


Agradeço-Te

as conversas rosto a rosto

em liberdade e confiança

a anunciar vida e a acolher

o coração pronto a amar 


Peço-Te

consciência para abraçar

cada história com respeito,

apontando à alegria


segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Pés em terra [sagrada]


Julia Duro


[Secção coisas de corpo e na vida de um padre] Quando oriento retiros, na escuta em acompanhamentos, a celebrar Missa, quando falo de temas sagrados, gosto de me descalçar e sentir os pés firmes no chão, em terra sagrada de vidas, histórias ou temas aos quais sou chamado a fazer silêncio e reverência. A dança ajudou-me muito a descobrir essa ligação entre céu e terra, onde a pele faz ligação com o todo. Resolvemos tapar os pés. Impedimos essa possibilidade de consciência de presença com o aqui e o agora. A vergonha, o nojo, a estranheza e o esquisito são formas de julgamento. Somos chamados à liberdade desses julgamentos. “Descalça-te”, diz Deus a Moisés. Hoje, a dar um testemunho sobre oração, mais uma vez toquei terra, húmus, para falar desde a humildade de como vivo a relação com Deus através da oração. Quando saímos de uma oração centrada na cabeça e deixamos todo o ser rezar, de pés bem assentes na terra, vivemos plenitude. E, aos poucos, no caminho da vida, em terra sagrada que somos, algo novo surge, em maior compreensão, liberdade, encontro e respeito. Fica a sugestão de descalçar, respirar e agradecer, abrindo o coração para servir. 

sábado, 11 de setembro de 2021

11 de Stemebro [20 anos]



[Secção memórias com pensamentos soltos] Estava a fardar-me, numa tarde normal antes se ir trabalhar. O meu pai telefona-me: “tens a televisão ligada?” Liguei. “Que filme é este?” Do outro lado: “Não é filme. É em directo de Nova Iorque.” E dá-se o embate do segundo avião contra a outra torre. Fiquei em silêncio. Desliguei, sem antes ouvir com voz preocupada “que tenhas um bom voo.” Cheguei ao aeroporto. Grande agitação. Íamos fazer o Turim-Madrid. Havia silêncio, comoção, estranheza. Os passageiros embarcaram e o ambiente no avião era estranho. Estávamos todos incrédulos. Mas era real. 


Continua a ser real, 20 anos depois, o medo, a dor, as perguntas, a mudança no mundo. E em tantos corações. O lá longe torna-se perto. Os conflitos continuam e somos chamados a trazer paz às vidas, ao mundo. É também um trabalho pessoal, em que cada um(a) de nós tem de atravessar as suas zonas de sombra, ódio, cansaço, para não permitir que a vingança tenha a última palavra.


Penso em todos os que perderam e perdem a vida por vingança pessoal, comunitária, política ou religiosa. Que haja consciência do poder que cada um de nós tem para o mal ou para o bem. Está nas nossas mãos contribuir para a Vida.


sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Boas recordações


Luísa e Paulo - Lovely Moments


[Coisas na vida de um padre] Chegam boas recordações de dias bonitos. Abençoar um casamento é fazer a ponte entre o amor dos casal e o amor de Deus também por eles. E se há coisa bonita, é vê-los a viver essa confiança n’Ele. Claro que é trabalho para a vida. O padre está lá para ajudar. A fé tem muito de comunidade e de abraço.


quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Somos silêncio


[Secção letras verdes] Depois de, numa conversa, ter-se soltado o grito de anos que impedia a fé e o amor, sobretudo em si mesma.


quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Em celebração



[Secção Vida] Acordei a pensar nesta foto. De tantas, esta surgiu com muita naturalidade. Fui buscá-la. Já a tinha partilhado por estes lados. Na amizade não se esgota a novidade, mas é estimulada pela força das recordações a permitir algo novo. Volto à foto, com toque antigo, a avivar a beleza da celebração de hoje. Recordo: as gargalhadas que demos nessa viagem, qual subida das escadarias da Sagrada Família; os momentos de tensão, qual jovens adultos ainda com tanto laivo de adolescentes; as conversas soltas com gente importante (“sabem com quem estavam à conversa?”, diz-nos o senhor do restaurante, e nós “com uma pessoa simpática”, vai-se a saber era alguém de alta responsabilidade na comunicação social espanhola) e com outros turistas que se divertiam connosco; também as partilhas sempre presentes que adensam a melhor amizade do mundo, universo e arredores. É, mesmo à distância, maravilhoso celebrar a tua Vida, Suzanne. Sou muito agradecido por te ter como irmã de alma. Que Deus e Maria, já que nasceste no dia em que também celebramos o Seu aniversário, te envolvam de Luz e continuem a avivar-te as graças da autenticidade e humanidade. GMdT!


segunda-feira, 6 de setembro de 2021

A Vida é




Madalena Meneses


[Secção conversas soltas condensadas, com a devida licença para publicar, nestes dias de julgamentos em praça pública sobre temas tão complexos da vida humana]

- P. Paulo, das coisas mais terríveis é ter de chegar a casa e pôr a máscara. Quem diz casa, diz também igreja ao Domingo com família, para manter as aparências da família feliz. Fica bem. Estou farto do “fica bem” e não me consigo libertar disso. Fala-se muito em sociedade de emancipação, de saída do armário, de tanto, mas não se conhecem os meandros psicológicos e espirituais provocados pelo que se ouve desde quase o ventre materno. É mais fácil uma vida dupla e, mesmo sendo terrível, chegar a casa e pôr a máscara. Ir à Missa e pôr a máscara. Quem sou eu? [Com a pergunta as densas lágrimas surgiram.]

Levantei-me e diante coloquei a minha mão no ombro, mantive o silêncio, deixando falar o gesto firme de acolhimento. Quando serenou, regressei à cadeira. Seguiu: sou o filho que vê a mãe a chorar depois do pai gritar. Sou o irmão que vê os mais novos começarem a seguir caminhos extremos ao nível político e religioso. Sou o amigo que se isola cada vez mais. Vale a pena viver?

- Que resposta tem para essa pergunta? 

Fixou-me o olhar.

- Como assim?

- Do imenso que me conta, é como se encontrasse um muro intransponível e, de algum modo, se começasse a identificar com esse muro. Pode fechar os olhos? Respire fundo. Volte a abrir. Diga-me: vale a pena viver a sua vida ou a de outros? Sei que a sociedade, a família, até mesmo a religião, obriga, paradoxalmente nalguns campos no aparente em nome da liberdade, a viver a vida que outros querem, seja em massa amorfa de características, seja em individualismo fechado da sociedade. Descobrimos a nossa vida, na relação tu-a-tu connosco e com Deus, é extremamente exigente, mas é também aí que se começa a desvelar a resposta à tão séria pergunta de “quem sou”. O caminho é longo, mas não impossível de percorrer. E vai precisar de ajuda espiritual, sim, mas igualmente psicológica, de modo a dialogar com as máscaras sem as julgar. 

- Aconselha-me alguma leitura?

- “O caminho menos percorrido” de Scott Peck. A primeira frase: “A Vida é difícil”. Depois, é abrir-se à riqueza e sentido da sua vida.

domingo, 5 de setembro de 2021

Sobre a noite


[Secção coisas de nada] Gosto da noite. Atrevo-me a dizer que tenho mesmo um suave fascínio. Há bastante tempo, era pela noite no seu sentido louco, de danças em pistas ou em cima de colunas, entre conversas divertidas, com gin tónico apenas gin, água tónica, gelo e uma rodela de limão. Sorrio ao recordar. Agora, sou mais da noite no mistério do silêncio, que permite outras conversas, a maioria interiores, algumas intimistas, como aconteceu com bons amigos na noite em que tirei esta foto. A beleza era imensa. A noite é espiritual. Jacob lutou com o anjo até à aurora. Nicodemos encontra-se com Jesus durante a noite. S. João da Cruz abriu-nos à noite escura da alma. É preciso saber atravessar as noites, fazer silêncio, observar e escutar os meandros de nós, na existência, no fulgor de nós para nos permitirmos receber algo novo. Crescer. Ser adulto na fé, nas relações, na vida. Gosto da noite, com suave fascínio. No dia seguinte à foto voltei à praia sozinho. Não lutei, dancei e mais uma vez deu-se um luminoso e novo suave nascimento.


sábado, 4 de setembro de 2021

Boas recordações



Moisés Soares


[Coisas na vida de um padre] Chegam boas recordações da dias bonitos e felizes. Têm sido muitas as celebrações, já que acumulam de dois anos. No entanto, cada uma é única, no casal a trazer os corações a latejar futuro, no desafio de amar. A brincar com um amigo padre, que também tem celebrado muitos casamentos, dizia-lhe: somos padres casamenteiros. O importante é que, à semelhança do amor divino, continuem a crescer na entrega, entre-ajuda, amizade, colaboração, partilha, sendo suporte de vida um do outro. Haja alegria!


sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Breve oração




[Breve oração ao anoitecer]


Agradeço-Te

o tempo suspenso, 

deixando acalmar os ruídos,

dispondo o coração a acolher

o que vem de nomes ou sentires


Peço-Te

manter o amor em luz

pela humanidade


quarta-feira, 1 de setembro de 2021

De regresso


[Secção letras verdes] De regresso, muito agradecido depois de dias intensos.


quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Tempo de pausa. Até breve.


[Secção tempo de pausa] Há uns anos, em conversa com um amigo nascido em montanha, dizia-me que o oceano era o limite. Isto depois de lhe ter dito que para mim, nascido de mar, era o infinito. Bonito, isto das perspectivas mediante a existência pessoal. A montanha é lugar de Deus, tal como o mar. Ambos abrem Infinito. Basta ter o coração desperto. Ainda assim, a minha vida pede dias fortes de mar. Está-me no ser. Nos próximos tempos afasto-me daqui das redes para aproximar-me de Deus em descanso e contemplação de tanto vivido. Continuarei a levar cada pessoa na oração. Até breve!


segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Encontros


Helder Couto





[Coisas na vida de um padre, com pensamentos soltos] Faz hoje uma semana baptizei a Sarah.  Também hoje pela manhã recebi uma tão bonita mensagem de uma antiga aluna e pela tarde a visita de dois alunos do tempo em que estive em Paris, que, de passagem pelo Porto, vieram até cá para agradecer o tanto que os ajudei numa fase intensa de estudos.


Tudo muito providencial. 


Estes últimos meses têm sido exigentes, na escuta de muitas pessoas, de mim próprio no tanto que me vou apercebendo nos acompanhamentos e no mundo, com muitas perguntas. Como vejo as perguntas como lugares de Deus, não me agita. No entanto, o imenso que vivemos, no crescendo de emotivismo, polarizações, acusações, fazem com que questione o meu lugar na ajuda ao outro, de modo a manter o caminho de equilíbrio e sentido da realidade. Estes tempos são desafiantes, onde na nova linha da frente estão os escutadores, tanto de saúde mental, como de espiritual.


As crianças trazem-nos esperança, como há uma semana vivi no baptismo da Sarah. A dádiva de coração traz agradecimento, outro lado da fé, como nas mensagens ou visitas que se tornam anjos. Também com boas conversas, percebemos como Deus é irresistível no modo como apresenta o amor. E, nesta linha, como é dia de Sta Teresa Benedita da Cruz, Edith Stein, mulher e santa tão interessante, partilho em eco deste meus últimos tempos algo dos seus “Escritos essenciais”, tão actual: “Para os cristãos não existem 'humanos estranhos'. O nosso 'próximo' é todo aquele que temos diante e que tem necessidade de nós, e é indiferente que seja nosso parente ou não, que nos caia bem ou nos desgoste, ou que seja 'moralmente digno' de ajuda ou não. O amor de Cristo não conhece limites”. 


domingo, 8 de agosto de 2021

Tempo suspenso


[Secção coisas de nada pela tarde] Tempo suspenso. O que também acontece com algumas fotografias: suspendem o tempo e o acontecimento. A nuvem assim quieta no imenso céu azul levou-me a outros momentos da vida, ainda por integrar. Ajudado por algumas conversas, leituras, escutas, situações que igualmente suspendem o tempo. E encaminham até ao que não foi visto com olhos de respeito, amor, cuidado, sem julgamento, aceitando, em particular a dor, as dores, retomando-nos no único lugar que cada pessoa é: essa densidade da existência, que nada nem ninguém pode substituir ou tirar. Surge a emoção de vida nova. Depois de tirar a fotografia à nuvem, ela continuou o seu caminho. E eu, o meu. O de continuar a amar.


sábado, 7 de agosto de 2021

4 é Dose



[Coisas na vida de um padre] O Filipe Jeremias escreveu-me a pedir algo. Ouviu-me nos últimos 15 minutos, há quase um ano, na entrevista com o Júlio Magalhães, no Porto Canal. Disse-me que tinha um podcast em família sobre família, o “4éDOSE”. Desta vez iriam fazer episódios especiais a dedicar à sobrinha, recém diagnosticada com um tumor cerebral. Lembrou-se logo de mim para dar esperança e vida. Não podia recusar este convite e a conversa foi muito boa. Talvez vá continuar. Se puder ajudar outros, aqui fica o link:

 https://open.spotify.com/episode/27ksdXJK47k8G10tNvL4AC?si=0bKfj7r9R9uyQ-VWKzuUPw&dl_branch=1



sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Amar em liberdade


[Breves notas nocturnas, em dia da Transfiguração] Ainda é preciso encontrar tempo e espaço para se compreender, de cabeça e coração, que cada pessoa é muito mais que categorias. Como temos visto e ouvido pela comunicação social e pelas redes, a violência com que se aponta o dedo, segregando, desdenhando, diminuindo por características físicas ou sociais, é sinal do quanto ainda precisamos crescer em humanidade. Os medos, sobretudo os medos, em especial inconscientes, levam a rotular para aparentemente libertar a possibilidade de se identificar com essas pessoas apontadas como degradantes. Como cristão, vale-me escutar aqu’Ele que vê, está e ama pessoas, para além de qualquer categoria ou característica. Dá que pensar: mais de 2000 anos depois, ainda é tão difícil perceber isso. Talvez porque ainda há muita gente que (se) ama pouco. Quem muito ama, muito vive a liberdade de ver o outro como pessoa. Simplesmente.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Breve oração


Rita Rocha


[Breve oração em dia de S. João Maria Vianney, protector dos padres]


Agradeço-Te

na pequenez do ser, elevar-Te 

em alimento de vida, de trigo 

cultivado em terra que somos 

lavrada, mondada, por Ti amada


Entrego-Te

nomes, histórias, vidas,

em peregrinação até à Luz


terça-feira, 3 de agosto de 2021

Amizade: lugar de casa



[Secção pensamentos soltos sobre amizade] Já muito foi escrito sobre amizade. Não trago nada de novo. Apenas realço a emoção de escutar felicidade quando vidas, em caminho, tornam-se mais livres quando se abre o coração no que é, sem adereços. É difícil, exigente, e não ter acontecido antes não é sinal de falta de confiança, mas de espera em esperança. 


A amizade é lugar de casa. Lar, mesmo. Onde se chega e, para lá de arranjos ou aparências, já se conhecem os tons de voz, a temperatura da pele atravessada pelas muitas emoções, podendo estar-se em conversas demoradas e em silêncios longos sem qualquer estranheza. Os risos e as lágrimas são vividos com a limpidez de quem é livre. Não se julga, nem o material, nem o íntimo, somente surgem as perguntas para ajudar a crescer e confirmar se é caminho certo. E mesmo que não seja, o abraço está sempre garantido.


Sim, a amizade é lugar de casa, de lar, de caminho. Mas, sobretudo, é lugar de Deus. Por isso, nos corações de amigos, quando as trevas são atravessadas de luz do que é, dá-se nascimento. É dia novo. É vida nova. É amor novo.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Luz e liberdade


[Secção letras verdes] A pensar em passos a serem dados para a luz e a liberdade.


sábado, 31 de julho de 2021

Santo Inácio de Loiola



[Breve oração em dia de Santo Inácio de Loiola]


Agradeço-Te

atravessares todas as feridas, quando Te abrimos o caminho, e de cada uma tirares Vida, permitindo ver tudo com nova luz.


Peço-Te

conhecimento íntimo do Teu amor, para que, tal como fizeste em Inácio, possa amar e servir com toda liberdade, memória e entendimento, neste mundo concreto, pondo-Te sempre no centro.


sexta-feira, 30 de julho de 2021

The Chosen


Tenho estado a ver a série The Chosen (Os escolhidos) sobre a vida de Jesus e dos seus discípulos. A série está a ser realizada apenas com os contributos de milhares de pessoas, em crowdfunding. Já tem duas temporadas. Estou a meio da segunda e os episódios têm muita qualidade, dando muito de vida e compreensão aos Evangelhos. Aconselho vivamente. Pode ser descarregada em app The Chosen ou vista desde o site: https://watch.angelstudios.com/thechosen


quarta-feira, 28 de julho de 2021

Baptismo da Gabriela



Lívia Castro


[Coisas na vida de um padre] Chegam boas recordações de dias bonitos. Este momento do baptismo da Gabriela, em que me agacho e digo-lhe:

- Gabriela, vou ler algumas coisas para os pais e os padrinhos.

- Está bem.

- Queres ajudar-me?

- Eu não sei ler. Não vês que ainda sou pequenina? 

Gargalhada geral e seguimos na celebração. 


domingo, 25 de julho de 2021

Breve oração



[Breve oração ao anoitecer]


Agradeço-Te

os caminhos de terra e céu,

de coração e cabeça,

de ontem e hoje,

a envolver o eu, o eu e o nós.


Peço-Te

liberdade para peregrinar

os passos de paz e vida

até Ti


quinta-feira, 22 de julho de 2021

quarta-feira, 21 de julho de 2021

A Palavra transformadora



Rita Rocha


[Secção pensamentos soltos] Nesta foto preparava-me para proclamar o Evangelho. Estou no ambão a fazer o sinal da cruz. É, como noutras partes da Missa, um momento solene. Desde há muito que tenho por hábito fazer uma inspiração e expiração profundas, marcando o registo da presença, sentindo fortemente os pés assentes em terra. Aqui e agora. Aquela Palavra não é minha. E, depois, quando me preparo para a consagração, faço o mesmo. Aqui e agora. Aquelas Palavras não são minhas, mas de Cristo.


A responsabilidade é grande ante aquelas Palavras. Tal como tem sido ao longo dos tempos, a orientar retiros, a rezar, a permitir que a Palavra seja corpo para mim e para os outros. Se tirarmos as capas de beatice e moralismo com que se carregou o Evangelho, vemos e sentimos como é exigente no caminho da liberdade. Todo ele nos encaminha para livrarmo-nos do mal e conseguirmos ter um olhar límpido e de bem para o que nos rodeia. Em resumo, nas palavras do poeta italiano Arnoldo Mosca Mondadori, “sentir-se olhado nas suas feridas. É o que provoca Jesus nas pessoas que olha. Elas convertem-se porque Ele, com o seu olhar, penetra nas suas feridas, penetra nas suas maiores fragilidades, onde o olhar habitualmente julga sempre. Mas Jesus fixa esse ponto como o ponto mais amado, e provoca a comoção. Ser olhado na sua fragilidade por um olhar de amor puro e incondicional… quando uma pessoa se dá conta deste olhar, desarma-se. Mas Jesus continua a fixar esse ponto, e com o fogo dos seus olhos de amor abate como uma chama oxídrica todo o muro, e entra nele em profundidade: Ele quer habitar a nossa dor, a nossa escuridão, o nosso inferno; é daí que quer salvar-nos.”


A salvação de Cristo é libertação de vida. A presença habitada da limpidez  do olhar divino tudo transforma. Tudo. A solenidade dos momentos da celebração passa para a dos que nos desarmam de todos os adereços que impedem a autenticidade de nós mesmos. E na verdade só encontramos um caminho: o de anunciar o bem maior, em amor que não julga nem condena, mas abraça e liberta.


terça-feira, 20 de julho de 2021

Gira-para-o-sol


[Secção coisas de nada a meio do dia] Ali estava, frondoso e farfalhudo ao longe. Gosto muito de girassóis. Dizem que é uma flor a oferecer a amigos especiais. Todas serão, mas esta guarda particular luz a transmitir quando oferecida. O acto da dádiva é um reconhecimento de vida. E quando se dá o melhor que se tem, em valores para lá do valor, em passos de liberdade, então a luz abre a leveza da humanidade. A criação dá-se. A única troca que permite é a da contemplação. A amizade bem vivida é espaço e tempo de luz na dádiva, também com possibilidade de acolher a queda, a sombra, a tristeza. A dádiva pode revestir-se de perdão. Quando nos damos todos saímos a ganhar. Como se nos fossemos girando à volta da Luz. Descentrados, transcendemos e colocamos o foco na beleza da Vida.


quarta-feira, 14 de julho de 2021

Breve oração




[Breve oração ao anoitecer]


Agradeço-Te

os véus que se rasgam com a luz

deixando o ser despojado

para receber a respiração solta do amor


Entrego-Te

quem vive a dificuldade de parar


Peço-Te

o tempo suspenso do pôr-de-sol


domingo, 11 de julho de 2021

Os homens também choram


[Secção boas leituras] Terminei de ler “Os homens também choram” de Nelson Marques. Que interessante síntese sobre o sentir masculino ou apresentação das “novas masculinidades”. A educação emocional em geral, dos homens em particular, anda muito deficitária. Aliás, faz tanta falta a educação de corpo, poderia dizer, que integra o todo que somos enquanto pessoas. Com investigação e histórias concretas, Nelson Marques abre perguntas, caminhos, perspectivas para se entender como é fundamental esta educação para nos respeitarmos enquanto pessoas, independentemente do sexo. Ainda assim, as muitas lágrimas acumuladas e não choradas quando atendidas e soltas libertarão muitas couraças, dando vida nova a muitos homens. E tanto eles como elas à sua volta ganharão em humanidade.


sexta-feira, 9 de julho de 2021

Breve oração




[Breve oração ao entardecer]


Agradeço-Te

o silêncio que trava a palavra sem corpo 

e desperta o texto com sentido 


Peço-Te

sabedoria e astúcia 

nas travagens e nos despertares


quinta-feira, 8 de julho de 2021

Breves notas



[Breves notas nocturnas com toque de letras verdes] A vida tem-me permitido compreender a fé. Nunca fui de pietismo, não me arrastando diante de um deus que nos sufoca. Talvez tenha ajudado ter fugido da catequese quando era pequeno. Também nunca passei por um “não creio”. Tenho vindo a conhecer Deus que nos quer adultos. Reconheço os desafios: sou obrigado a libertar-me de medos.  E ainda são uns quantos. Ainda assim, nesse caminho de liberdade, atravesso os meus pecados; converso com tantas pessoas diferentes; permito-me apaixonar; leio as Escrituras sem preconceitos; dou lugar às perguntas; escuto as sombras; respiro luz; emociono-me quando celebro Missa e quando assisto ao crescimento de quem acompanho. E, em semente de mostarda, a fé sinto-a natural e viva: abre-me à vastidão da humanidade.