segunda-feira, 13 de junho de 2016

Combater fobias



Leland Bobbé

O grande trabalho é combater os medos, as fobias, em especial as que se dirigem a pessoas. Deixemo-nos de hipocrisia, a maldade pode estar no coração de qualquer um(a), em qualquer grupo social, religioso, político. Por isso, o trabalho é de educar para humanizar… e não são “os outros”, começa por mim. Não interessa atiçar mais ódios, permitindo que uns se tornem mais justificados que outros. Interessa humanizar, pensando que as pessoas são pessoas, para além de características ou crenças. Tendo em conta os recentes acontecimentos em Orlando, lembrei-me deste encontro e conversa que tive há três anos, em Madrid. 

Quando desço a Rua Fuencarral ou a Preciados (centro de Madrid), encontro quase sempre pessoas a pedir sócios ( = €) para ACNUR, Oxfam Internacional, Aldeas Infantiles SOS, Cruz Vermelha, Fundación Josep Carreras, etc. Normalmente, por uma questão de respeito, paro, pois grande parte das vezes aquelas pessoas são votadas ao desprezo de tanta gente. Infelizmente não posso ajudar, o qual explico, depois de dizer que, de alguma forma, também contribuo com a minha própria vida (directa ou indirectamente) em muitas situações que estas instituições também ajudam. Ontem voltei a parar. Desta vez a história é um pouco curiosa. Estavam 4 travestis a pedir para uma Associação de ajuda a pessoas com osteogénese imperfeita (também conhecida como doença de ossos de vidro). Com elas estavam duas raparigas que sofriam da doença. Enquanto descia, uma travesti abordou-me:
- Olá “guapo”! Tens um minuto?
- Sim.
Explicou o propósito da recolha de fundos, se queria ser sócio etc. e tal. Respondi-lhe que não poderia ajudar, pois não me iria fazer sócio da associação.
- És italiano?
- Não, sou português.
- Estás cá a trabalhar?
- Não, estudo.
- Posso saber o quê?
- Sim, claro. Estudo Teologia.
E com ar de muito espanto: 
- Não me digas que vais ser padre?
-Sim, vou e já sou diácono.
A sua reacção facial mudou, como se tivesse saído uma máscara, mesmo por detrás de toda a maquilhagem. E já sem voz de festa:
- Não estás a gozar comigo, pois não?
- Porque haveria de o fazer?
- Hmmm, não é suposto uma pessoa como tu parar e falar, por exemplo, comigo. Não estava à espera. 
Soltei uma gargalhada. 
- Oh, mas... porque não? Porque és travesti? Oh... És uma pessoa, que neste momento está a trabalhar por uma causa e já está. 
E desenvolveu-se ali uma conversa de meia dúzia de minutos. Percebi que era uma pessoa em busca da fé. E no final disse-me, ainda com a sua voz natural e de forma sentida:
- Obrigado por teres parado e me escutares. 
- Espero que consigam uma boa recolha. Já costumo rezar pelas pessoas que sofrem, mas esta noite, de forma especial, rezarei pelas que sofrem desta doença de ossos de vidro. 
- Posso pedir-te que rezes também por mim?
- Claro, com gosto. “¡Suerte!” Adeus.
E abana a cabeça, ajeitando os cabelos e voltando a “máscara”:
- Adeus “guapetón”... ai, desculpa a minha falta de respeito! 
Deu uma gargalhada artística. Eu dei outra e segui caminho. 

De facto, o possível título deste acontecimento é mesmo: “Actos dos Apóstolos 10, 34”, ou seja: “Pedro tomou a palavra: ‘Verdadeiramente compreendo que Deus não faz acepção de pessoas’”

Contra a violência




Eric Smith


[Secção desabafos] Já é tarde, mas estou mesmo com os pensamentos em grande velocidade após leituras sobre o atentado em Orlando. Além do choque de mais mortes, fica a dor de se acrescentar a dose de homofobia que provocou o próprio atentado. O Deus no qual acredito chora estas mortes, tal como chora todas as outras em ataques vis à dignidade humana, envergonhando-se de toda a atitude que descrimina seja quem for, independentemente da raça, religião, género ou orientação sexual. Nos últimos tempos, sempre que há um ataque terrorista, faço um pequeno exame de consciência para ver onde possa habitar algo de ódio em mim, de modo a eliminá-lo. Afinal, como pessoa e, em especial, como padre, não quero partilhar os mesmos sentimentos com terroristas, violadores e homofóbicos.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Corpo




Jean-Louis Fernandez

A propósito do Bgreen // Ecological Film Festival (com a grande Grande Gala bgreen // ecological film festival 2016 esta noite), temos a visita de alunos e professores de escolas europeias. Ontem orientei um pequeno workshop de corpo para um grupo destes alunos. E mais uma vez surge a surpresa das potencialidades nesse conhecermo-nos como corpo que somos. Os bloqueios mentais, que também levam ao moralismo excessivo, diminuem a consciência da dignidade pessoal. Surge o medo do corpo próprio, dos olhares de comparação, dos julgamentos diante do (aparente) ridículo. Surge a vergonha de quem se é. E depois, as pequenas ferramentas para libertar-me, aos poucos, de tudo isso, dando força à dignidade de ser. Tomar consciência e viver as potencialidades do ser corpo em relação é fascinante… e libertador.   

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Surpresas



[Coisas que aparecem de surpresa] A propósito do post anterior, a Isabel Bastos comentou que ouviu o Professor Júlio Machado Vaz, em conversa com Inês Meneses, a referir-se à minha pessoa no “Amor é…”, programa da Antena 1. Estive a ouvir. Comentam um poema de Chico Buarque. Por volta dos 22 min e 30 seg surge o tema da religião e eis que menciona o nosso encontro na sala de maquilhagem da RTP, antes de entrarmos em directo n’A Praça. O encontro e o programa já foram há uns meses. É muito agradável ser referido como um exemplo de mudança, ainda mais num programa com Amor no título e a falar de Chico Buarque. ;) Muito obrigado, Isabel! :)


terça-feira, 7 de junho de 2016

Ser conhecido e pipocas




[Coisas do quotidiano da vida de um padre numa escola com grande diversidade de pessoas] Elogio desta tarde, vindo de um aluno do 8.º ano: “O padre Paulo é mais conhecido que as pipocas!” Gargalhada. “Porque diz isso?” “Fala a toda a gente e toda a gente lhe fala.” E é isto. ;)

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Mulheres | Violência | Respeito




Tatiana Sharapova


Talvez já tenha caído em esquecimento, por ter sido “lá longe”, mas continua a revolver-me entranhas saber da violação de uma mulher por tantos homens e ainda terem publicado imagens de toda a cena. Fez-me lembrar os tempos de criança/adolescente, em que para se ser “macho”, provando virilidade, havia que apalpar as raparigas, levantar-lhes as saias, etc. e tal. Fazia-me confusão isso tudo. Não tenho irmãs de sangue, mas já imaginava o sofrimento que poderia causar à Suzanne e à Letinha, minhas irmãs de coração. Tantas vezes fui apelidado de maricas, por recusar-me a esses gestos de “macheza”. Afinal, quantas mais são violadas em cada dia, por esse mundo fora, por questões dessa estúpida demonstração de virilidade, de guerra, de raça, de pobreza, “porque sim”, por estranhos ou pelo próprio namorado, marido, companheiro, onde o problema é quase sempre visto a partir delas? Li muita indignação com o acto, junto com o comentário igualmente presente “também ela devia estar a pedi-las”. As leituras deste domingo falaram de viúvas que perderam os filhos. Além da dor da perda, indescritível, estas mulheres retratadas tanto no Livro dos Reis, como no Evangelho, são símbolo de todas as que são socialmente rejeitadas e renegadas. As tais mulheres desgraçadas e apontadas como inúteis ou passíveis de serem violadas. Jesus travou esse abuso. Tanto os homens (pelo que se tem visto, talvez sobretudo os homens), como as mulheres, deveriam crescer e formar-se no fundamento: a educação para a dignidade e o respeito, próprio e de outrem.

domingo, 5 de junho de 2016

Pensamentos soltos, depois de dias de muito.




Mel Kevin Jumangit


[Secção pensamentos soltos: questões de fé, ódio, perdão e vida] Estes últimos dias foram muito cheios. 5.ª e 6.ª, visita de estudo com o 5.º ano a Lisboa (todos ao rubro e eléctricos, parecendo milhares, muitos milhares). ;) Ontem, casamento luso-belga em Óbidos, onde voltei a dar asas ao “franciú”. ;) Depois, Baile de Finalistas, com muito glamour e emoção e recordações. Hoje, celebrei uma Missa de manhã e celebrarei mais duas durante a tarde. Assim, nestes dias, durante as viagens, estando com tantas pessoas diferentes, com mais ou menos fé em Deus, e enquanto preparava as homilias, pensei no bem e no mal que nós, gente de Igreja, em especial padres, podemos fazer. De onde é que este pensamento vem? Por um lado, muitas pessoas vieram agradecer-me as celebrações, algumas comentando que estavam afastadas da Igreja e o porquê, por outro, entre leituras de artigos de opinião, posts, conversas, apercebo-me de muita gente ferida na relação com Deus. O ódio, o rancor, o ressabiamento, mais ou menos disfarçados, impressionam-me sempre e levam-me a pedir perdão, de coração, a Deus pelo mal que nós possamos ter feito em todas estas pessoas. Fazemos muito, mas muito bem, no entanto, parece que uma má palavra, um gesto de recriminação, condenação, exclusão, eventualmente num dia menos simpático, além de ter um eco mais forte, pode abrir feridas imensas no coração de tantas pessoas, acabando por deixar crescer ódio visceral à Igreja, aos padres, até a Deus. Rezo muitas vezes a Missa da reconciliação, também por viver a vocação de construir pontes, sendo alguém a ajudar a que a Paz seja cada vez mais possível neste mundo. Afinal, é impressionante a quantidade de mal-entendidos que impedem o bom diálogo e a compreensão das diferentes partes. Peço muitas vezes a Deus que me ajude a estar atento ao meu sentir, aos meus gestos e palavras, de modo a que a minha acção, ainda mais como padre, possa ser como Jesus, também nessa referência ao profeta Elias, que se compadece, faz parar os caixões e liberta a escuridão desses ódios, deixando que a Vida tenha a palavra mais forte.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Criança(s)




Pai José, com a Mãe Maria por perto.

Foi engraçado encontrar esta fotografia em que estou vestido de príncipe, com o mar ao fundo. Em criança queria ser Super-Homem, para defender quem estaria desprotegido. No entanto, este ser príncipe, mais do que estar ligado a aristocracia, era pensar que poderia ter outros poderes para ajudar e salvar. Se há coisa que as crianças têm é sonhos, junto com grande capacidade para compreender quando são amadas. Andei pelas salas a agradecer a força de ser criança. Houve uma do 5.º que comentou, com a espontaneidade própria: “Padre Paulo, hoje vamos ter gelado e pizza para o almoço [foi o almoço surpresa, que rapidamente segredavam uns aos outros o que era, como se fosse a grande descoberta do mundo ;) ]. Pena é que aqueles meninos refugiados que chegam de longe não possam comer connosco. Eu partilhava com um o meu gelado.” Dei-lhe um sorriso e agradeci o coração que vai ganhando honra e sentido de justiça pelos que mais sofrem… também ao jeito dos príncipes dos contos de fadas.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Anunciações




Foi tirada em Faro, há uns anos… vou buscá-la, por também ter estado com a Suzanne na apresentação do “Anunciações”

O dia foi intenso, entre conversas, partilhas e abraços. Muito gostam os meus alunos de abraços. ;) [Eles já conhecem a minha teologia… eheheh] Depois, o workshop. Terminou há pouco… com pedido de “parte II”. Para mim é fascinante ver, nem que seja no espaço de uma hora, as subtis mudanças nas pessoas na descoberta de corpo. Chego a casa e venho ver os mails. Há um que me fez emocionar, pela amizade tão bonita e forte, ainda mais no cuidado das palavras, nesse sentir de poeta… que fala e escreve de Anunciações. O livro é imenso e, apesar de impresso e selado, não terminou no coração de Maria Teresa Horta. Foi um privilégio e uma honra acompanhar o desenrolar de poema atrás de poema no encontro entre Maria e Gabriel. É um livro, à boa maneira de Maria Teresa, heterodoxo, abrindo à liberdade, com profundo respeito e sentir na interpretação desse acontecimento único, dando pluralidade ao anúncio que mudou a história da humanidade. A poesia de Maria Teresa Horta é de Corpo, é de Eros… e agora, nas Anunciações, com imensa força mística, daquela que Tolentino Mendonça, na apresentação, designou de “excesso para entender o excesso”. “Anunciações - um romance” é para saborear e voar, em voos de anjos que ganham corpo… também em

DANÇA

É como se nós os dois
dançássemos 
o perdimento

Tu de rojo a meus pés
e eu erguida num ímpeto
a tentar turbar o tempo

As minhas mãos
a suster
e as tuas a empurrar

num mesmo gesto sedento

A entrega e a recusa
o corpo e o pensamento

Maria Teresa Horta
in, ”Anunciações”



Voos




A exposição de fotografia tem por título Dois Caminhos. Da minha parte, impossível não ficar a contemplar esta foto de André Viana, aluno da Oficina - Escola Profissional do INA, com um avião que voei muitas vezes. Publico, em especial, no dia de hoje. Gosto deste dia: celebra-se a visitação de Maria à sua prima Isabel e o Tripulante de Cabine. Hoje rezo de forma especial por todos os meus amigos voadores. Têm à responsabilidade a segurança e o cuidado dos passageiros que, de algum modo, vão visitar alguém. De vez em quando surge a saudade de vestir a farda e ir voar, nesse atravessar de céus que encurta distâncias. Além da oração, o abraço com saudades.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Vídeos


Entre muitos, estão a circular dois vídeos nas redes sociais que me chamam a atenção. Ambos são virais. Um mais à escala internacional, outro nacional. Gosto muito do primeiro. Do segundo não gosto. O primeiro mostra, por exemplo, como o silêncio na troca de olhares fala, para além de preconceitos que se possa ter e para além de diferentes idiomas, raças ou nacionalidades, neste tempo em que vivemos a crise humanitária de milhares de refugiados. Desmonta, provoca empatia, apela à humanidade, ao respeito, ao encontro e “co-move”. O segundo, do Manifesto 34, feito a partir de “apanhados” na manifestação de ontem, convida ao gozo, à humilhação, à crispação e ao ridículo. É por isto, e não apenas porque estou do lado dos amarelos, que não gosto deste vídeo. Como seria se houvesse o silêncio na troca de olhares entre estas pessoas? Estou cansado de incitações à tensão, de provocação barata de ódios, de promoção de divisões. Seja de que lado, opinião, pontos de vista for, tudo faria mais sentido se houvesse mais escuta nesse silêncio que promove diálogo. Opto por partilhar o que engrandece a humanidade. 



Conhecer(-me) em Corpo - Workshop






Uma aluna da Oficina - Escola Profissional do INA convidou-me, integrado no seu estágio, para orientar um workshop: Conhecer(-me) em Corpo. O que é isto de “ser corpo”, nas suas muitas dimensões que dialogam? Será, segundo os organizadores, um workshop solidário: o “pagamento” é feito em géneros alimentares. Amanhã, em Famalicão.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Homilia Corpo de Deus



Carlo Allegri/Reuters


[A minha homilia nesta solenidade, que me é tão querida, do Corpo de Deus.]


Dos mais novos aos mais velhos, penso que todos já sentimos a força do corpo num abraço. Os mais novos com a beleza da vigorosidade, os mais velhos com a beleza da maturidade, encontraram-se em corpo neste gesto. Não vivemos sem corpo… nem Deus.

Imaginemos três momentos relacionados em três pontes: Natal, Páscoa e o dia de hoje, construindo um abraço entre eles. Não nos podíamos dizer cristãos se não houvesse Natal e Páscoa: o corpo de Deus que nasce e o corpo de Deus que vive a experiência da fragilidade, da morte e da ressureição. E, hoje, de modo especial, o Corpo de Deus que transcende na Eucaristia, onde, de modo celebrativo, somos convidados a participar da sua vida divina. Para muitos de nós já se tornou uma rotina, no entanto, para recordar a grandeza da celebração, volto à imagem inicial: a força do abraço.

O abraço é aquele momento em que se funde o que dá e o que recebe. Como no apertar de mãos, no entanto, no abraço tocam-se os corações. Não se dão abraços a qualquer pessoa, apenas a quem gostamos de partilhar algo, mesmo sendo um pouco da vida. Assim, o abraço densifica-se de uma beleza que transcende os sentidos, deixando que seja o coração quem fale naqueles breves segundos ou minutos em que não existe quem dá e quem recebe, mas a presença da gratuidade. Ambos, com esse gesto dizem “tive saudades tuas”, ou seja, “gosto muito de ti” em amizade, filiação ou amor. 

Victor Poucel, um jesuíta teólogo, nos finais dos anos 40 do século passado, na obra Apologia do Corpo, escreveu: “Chegámos à convicção de que, entre todas as coisas da terra, o primeiro que haveria de expôr era a Mística do Corpo, já que é a mais desconhecida e mais próxima a nós. Vivemos com o nosso corpo e através do nosso corpo”.

O sentido da Mística aponta à relação com Aquele que encarnou e viveu plenamente a corporeidade humana. O ser humano, como corpo que é, abre-se também de modo corporal à transcendência. No entanto, apesar desta mística ser “próxima”, continua ainda a ser “desconhecida”. Reduzimos a relação com Deus a uma espiritualidade afastada do Corpo. Não me parece que seja o caminho a seguir. Vejamos, a partir das leituras.

Todas nos falam de comida. O pão, como o alimento mais simples. O vinho, como a bebida que nos ajuda a festejar e a alegrar [já sabemos o resultado quando há um copinho a mais… ;) ]. Aí temos, por um lado, Deus que, fazendo-se corpo em Jesus, participa da vida humana, por outro, que nos deixa a possibilidade de entrar na sua vida divina, de modo simples e festivo. No evangelho, depois de escutar o Senhor, de acompanhá-lo, as pessoas estavam cansadas. Os discípulos queriam mandá-las embora. No entanto, a subtileza de Jesus, o seu olhar atento pela humanidade, falou mais forte. “Que se sentem. Haverá comida.” Assim foi. Estamos a falar de uma multidão de 5 mil homens. Naquele tempo era assim que contavam. Eram muitos mais, pois há que juntar mulheres e crianças. Muita gente?!? Sem problema. Não há inquietação. As pessoas sabem partilhar. Óbvio que é um partilhar depois da benção, tornando a dádiva plenamente gratuita e alegre. Partilha-se com simplicidade o que se tem. E isso pode ser de algo material, em comida: fome é fome. 

Mas, alargando a ideia de fome, quantas vezes não a há de afecto e de carinho? Separar em grupos de 50 ajudava a pôr as pessoas a partilhar, para além da comida, as vidas, os sonhos, os projectos, fazendo-se, assim, outro modo de ser corpo: comunidade. Uma comunidade que vive afectivamente. É outro modo de dar um abraço: partilhar a vida. Não tem que ver com “cusquice”… nada disso. Tem que ver com partilhar dores e alegrias, sonhos ou desafios, lágrimas ou gargalhadas, enquanto se come. Isto também é viver em comunidade.

Os que estamos aqui a celebrar, sejamos mais ou menos conhecidos, formamos este corpo que partilha a oração silenciosa e o alimento que é o próprio Deus. E isso deveria fazer-nos sair diferentes. Pode não ser com a vida mudada do avesso, mas com a certeza de que levamos vida divina dentro, para que cada um de nós seja também alimento para quem esteja à nossa volta, quem sabe com um simples e alegre abraço. Deixo o desafio: dar um abraço a uma pessoa de quem gostamos e fazer o milagre da multiplicação da simplicidade e da alegria. Deus chama-nos a isso, a dar a vida, a ser alimento com Ele e como Ele.

Antes de terminar, recordo um poema que me é muito querido, de Sophia de Mello Breyner:

Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento.


Que a mística do corpo não continue desconhecida. Que a beleza do Corpo de Cristo possa ser continuamente redescoberta também na profundidade e beleza de um abraço, fazendo desse momento oração e encontro. E sobrará, tal como os pães e os peixes, muito mais vida, assim em abundância, para partilhar. Amén.

Estudos e reflexões




Aashit Desai


Se se quer continuar, reformular, até mesmo acabar com os contratos de associação, então que haja honestidade intelectual, moral e política em reflexões sérias sobre os impactos disso mesmo. Neste mês e meio, a partir do famoso despacho que claramente diz que “foi dispensado da audiência dos interessados”, tomaram-se decisões de gabinete sustentadas por um estudo a partir do google maps, no qual também há dúvidas em relação à capacidade das escolas estatais, tendo em conta o “parece que” algumas vezes referenciado. No entretanto, continua-se com muita (des)informação, alguma também em jeito de propaganda e manipulação de dados, mesmo sabendo que o próximo Setembro poderá ser, se isto for avante, o caos para muita gente. A todos nos toca os impostos, a todos nos toca a liberdade, a todos nos toca a (in)justiça, mas, igualmente nos toca a todos quando há decisões tomadas que esquecem o fundamental: as pessoas concretas, para além de gabinetes.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Abençoar casamentos




Gosto de abençoar casamentos. Ainda mais quando começo a acompanhar a vida de cada um, na partilha das suas histórias, e a preparar o futuro desse caminho em complementaridade. É bom acolhê-los à porta da Igreja, dizendo “esta casa é vossa” e, ao longo da celebração, ver os brilhos de olhar que confirmam o que tanto insisto: “este é o vosso dia. Não é dos pais, dos amigos, é vosso!” Depois, a responsabilidade, como padre, de acompanhar o casal, ajudando-os, na medida do possível, a viver na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Essa recordação é feita em selfie, para ir rezando por quem vou abençoando. Hoje, a Sara e o Mário enviaram-me a foto da selfie, na sacristia, já mulher e marido. Gosto muito de abençoar casamentos. 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Incómodo




Donato DiCamillo


Faz-me confusão quando leio posições em que rapidamente se trata as outras pessoas de “tótós”. E, infelizmente, há muitas formas de o fazer. Não é por acreditar em Deus que sou “tótó”, muito menos por manifestar o meu desagrado em relação a políticas educativas. Já escrevi várias vezes o incómodo que sinto com a agressividade que facilmente cresce atrás de um ecrã. Talvez por ter grande capacidade imaginativa, começo a ver diálogos, posts, comentários como se fosse ao vivo e a cores e é algo um tanto ou quanto desagradável. Assusta-me a forma como se destrata com tanta leviandade, seja quem for. Posso não estar de acordo com posições, isso não deve levar ao desejo da morte da outra pessoa. Em tempos de evolução tecnológica, parece que decresce a capacidade empática. É difícil e exigente pôr-me no lugar do outro, mas ao fazê-lo, não significa que tenha de ser a outra pessoa ou adquirir a sua posição, simplesmente faço caminho de compreensão que me permite aliar a emoção à razão. Isso também é adquirir liberdade.

domingo, 22 de maio de 2016

Alunos | Educação




Siddhartha Banerjee

[Secção desabafos] Já se percebeu que o bom trabalho (educativo e de gestão) que se faz no INA e no CAIC, escolas públicas com contrato de associação, de nada interessa. Para muitos, como são “privadas”, não podem ser de serviço público. Além do mais, aparentemente já “se resolveram os problemas de falta de escolas naquele tempo em que não havia”. Também não é importante nos preocuparmos com despedimentos, afinal, “não nos preocupámos com a situação dos professores que não tiveram entrada nas escolas do Estado”. Depois, lá vem a história do mal-empregue dinheiro dos contribuintes, etc. e tal, sem se perceber o mais importante: a formação humana e académica presente nestes projectos educativos. Sabendo que a escola onde trabalho corre o sério risco de fechar, tal como o CAIC, pois são das contempladas com a redução total de turmas de 5.º, 7.º e 9.ºs anos, coloco as seguintes questões pensando nos alunos: 

- Que vai acontecer aos alunos já integrados que foram, ou expulsos de outras escolas, ou pedido que os aceitássemos a meio do ano, por se saber que acolhemos sem discriminação e ensinamos a partir do serem pessoas e não números ou “gente-sem-interesse-por-serem-problemáticos”? Vão voltar para essas escolas das quais foram expulsos?

- Garantirá o Estado, a partir dos respectivos directores de agrupamento, de que estes alunos, independentemente das suas notas, terão igual acesso às escolas com melhor nível de ensino? Sim, sejamos honestos, há discrepância a este nível nas escolas estatais.

- Garantirá o Estado de que possam ir, de facto, para escolas com boas condições físicas? [Pensando, por exemplo, em Santo Tirso, tenho dúvidas.]


Infelizmente, com muita tristeza minha, também a perceber uma série de manipulações, mesmo pela comunicação social, entrou-se em tensões que nada ajudam o que realmente importa: a educação de pessoas.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Luto(s)




Wilhelm Tobien


Estive à conversa com alguém com dificuldades no estudo. No desenvolvimento da conversa, apercebi-me que as dificuldades nada tinham que ver com o cognitivo, mas com o emotivo. Disse-lhe que muitas vezes há exigências que são desenquadradas da realidade que cada um de nós vive. Tendo em conta que atravessa claramente um luto tardio, de nada adianta forçar caminhos para o 5. Pelo esforço que está a viver, o 53,5% equivale ao 100%. A conversa vai continuar, pois, como sabemos, os lutos são únicos e necessitam de tempo.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Estranha democracia




Estranha democracia quando são tomadas decisões políticas de forma unilateral. Ainda mais em algo tão central e fundamental como a Educação, implicando com a vida de tanta gente. Aliás, já há muitos anos (40?) que em Portugal se brinca às reformas e decisões nesta área. Educar para servir… e pensar implica muito. Nós, jesuítas, temos mais de 400 anos de “ratio studiorum” e investigação pedagógica. Mas isso, pelos vistos, são pormenores. Estranha democracia quando são tomadas decisões políticas de forma unilateral.

sábado, 14 de maio de 2016

Sopro(s)




Martin Roemers


[Secção outros tons… especial Pentecostes] No princípio é a inspiração. Insufla o corpo no primeiro grito que abrasa e confirma a vida. Aos poucos, o diálogo torna-se presença a quem impele o crescimento, anulando o medo de andar, fazer caminho e encontrar(-se). As divisões cessam com o gesto de paz, em que as palavras são desnecessárias: basta que ames. Forma-se outro Corpo, onde todos os membros são matéria divina. No perdão forma-se o fogo que transforma todas as coisas a dar de si, renovadas pelo sopro do Espírito. E nasce-se de novo, deixando que no princípio seja a inspiração.

Nem força, nem fraqueza.




Demonstração de “força bruta” ;)  no Slide & Splash  


“Paulo, muita gente não estava à espera que um padre falasse bem da peça.” Referia-se às minhas intervenções nos encontros de 3.ª e de 5.ª no Rivoli, a partir de “Sobre o Conceito do Rosto do Filho de Deus”. Sim, tentei ir para lá da superfície e perceber a riqueza da forma como as coisas são exploradas. Não adianta ir com forças ridículas, em defesa da fé. Já o disse várias vezes, Deus não quer ser defendido, mas testemunhado. Olhando para os rostos dos muitos que foram assistir às conversas, apercebi-me da inquietação espiritual que habita os tempos de hoje. Talvez essa inquietação surja por caminhos alternativos, que não pedem nem demonstração de força ou de fraqueza, mas escuta atenta, com a possibilidade de pontes ou da provocação em perguntas. Hoje anseia-se por respostas muito rápidas, não dando tempo para as boas questões a colocar. São caminhos de crescimento e de humanização a serem percorridos, entre forças e fraquezas, pessoais… e comunitárias.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Ainda as Escolas com Contrato de Associação




Sherry Zhao

[Secção desabafos - Ainda as Escolas com Contrato de Associação] Tenho cada vez mais dificuldade em ler sobre este tema. Como muitos outros, no nosso país aproxima-se de diálogo de surdos, onde se generaliza de forma assustadora, ficando quase anulados o pensamento e a capacidade de reconhecimento do bem que é feito. O mais fácil é o “bitaite” em jeito de “achologia” que não conhece a realidade para além de números em notícias, relatórios ou estudos. O fundamental não é o dinheiro, apesar de importante, evidentemente, mas o ensino, a pedagogia, que ajude a formar mulheres e homens em letras e virtudes. Toda a minha escolaridade foi feita em escolas do Estado, com excelentes professores, que são exemplo no meu modo de ensinar. Pela minha decisão de vida, das missões que me foram confiadas, conheço bem duas escolas com contrato de associação, com serviço público que vai muito para além do académico. Por isso, não se trata de melhor ou pior. Infelizmente, na actualidade, tudo gira cada vez mais à volta do dinheiro, esquecendo o essencial, as pessoas, com histórias concretas. Se há interesses, independentemente das Escolas, que não sejam os pedagógicos, então que haja auditorias e justiça, recordando-as, mesmo as do Estado, que não são, de todo, uma empresa. Talvez fosse interessante se o Ministério da Educação (ou do Ensino, que seria como se deveria chamar, já que a educação é algo bastante sério para estar confinado à dimensão política) investigasse e aprendesse o que se vive em países que já passaram esta discussão há muito. Ensinar é demasiado importante para ser reduzido a discussões de aproveitamento político e ideológico. Mas, claro, isto são utopias e “faits divers”, de quem vai conhecendo as vidas de muitos dos alunos e respectivas famílias. E dói ler ou ouvir algumas palavras, enquanto penso em rostos concretos que contrariam o que é escrito ou dito. Seja como for, continuo com muita animação pelos corredores e salas a “Educar para Servir”. Desejo e quero muito que os meus alunos cresçam e vivam em humanidade… isso é fundamental. 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Conversa




José Caldeira

“Sobre o Conceito do Rosto do Filho de Deus”, peça de Romeo Castellucci a ser apresentada amanhã, foi a base do encontro “Ver para a Crer” no Rivoli. Cada vez sou mais adepto, não tanto de debates, mas de conversas. Foi o que aconteceu ontem. Houve uma boa partilha sobre a presença de Deus e da Religião na Arte. De si, a arte tem muito de provocação e parece-me que deve levar a bons questionamentos. Sem ter de haver imediatas explicações, quase como que em racionalismo científico, o “ver para crer” artístico pode abrir novas perspectivas. Esta peça interpela, é incomodativa e dura. Mas, pelo que partilhávamos, não por uma aparente blasfémia ao Rosto do Filho de Deus, mas pelas perguntas que levanta sobre como vivemos, p. ex., a humanidade ou a relação com Deus. Quando se estuda os textos bíblicos, como o fez Romeo Castellucci, percebe-se que a ruptura das imagens relaciona-se com a desinstalação. Afinal, os gritos diante de Deus, podendo roçar a blasfémia, acabam por ser sinal de fé, que não é “kitsch”, envolta em pietismo, mas que arrisca às perguntas e ao movimento dinâmico da busca. Agradeço muito ao Tiago Guedes e à Dina Lopes, pelo convite, à Helena Teixeira da Silva, pela moderação, e ao Pedro Sobrado e Silvano Voltotina pela partilha de ideias. Amanhã há mais conversa, depois do espectáculo, com a presença dos artistas, no Teatro Municipal do Porto - Rivoli.




segunda-feira, 9 de maio de 2016

F.




Eduardo Pires


[Post escrito com a devida autorização] Das bonitas experiências que tenho vivido como director de turma, uma tem sido a relação com o F. Logo no primeiro encontro, quando fui à sala anunciar-lhes que era o novo DT, apercebi-me da sua reacção de distância. Quando os cumprimentei, não queria tocar-me. Fiz um pequeno teste, para confirmar se seria impressão minha, e aproximei-me em jeito de dar-lhe um abraço. Saiu a correr. Respeitei. Na primeira aula, fui dizer a cada um o quão espectacular é. O F. diz-me: “mas eu sou perfeito!” Ao que me dirijo para toda a turma: “alguém tem dúvidas que o F. é perfeito?” Fui juntando pequenos momentos de dar-lhe atenção e espaço, para poder manifestar as suas opiniões. Ele é MUITO inteligente, com a impressionante capacidade de reter MUITA informação. Aos poucos, era ele que já vinha dar-me a mão para e cumprimentar-me em pequenos “murrinhos” amigáveis. Na última aula, desenhou um grande coração no quadro com um “EU” dentro. “Stôr, vai apagar a minha obra prima?” “Óbvio que não!”, respondi, “não é todos os dias que posso ver beleza à minha frente!” Ele riu-se de satisfação. Já tive de levá-lo ao meu gabinete, para ter uma conversa mais em particular e também dar-lhe pequenos raspanetes. Não se importa, pois “o stôr gosta mesmo de toda a gente e de mim também.” Hoje tocou-me no ombro: “DT, não passou pela nossa sala. Tem de lá ir todos os dias!” Assim o farei. O F. tem-me ensinado muito, também no respeito da diferença, em particular de quem vive o síndrome de Asperger.

domingo, 8 de maio de 2016

Corpo | "Atomos"




Travis Clausen Knight, da coreografia "Atomos"


O dia de ontem falou-me muito de Corpo. De manhã, o Corpo frágil e vulnerável. Estive no workshop organizado pela Soc. Port. de Neonatologia sobre acompanhamento em cuidados paliativos pediátricos. De momento, apenas digo que foi intenso. Falarei mais tarde, quando tiver o vídeo. À tarde, o Corpo Divino. Foram as Primeiras Comunhões de 24 pequenotes e o baptismo da Maria Luísa. Foi muito bonito e animado. Também escreverei com mais detalhe, acompanhado de vídeo ou foto. À noite, Corpo forte, ágil, em relação, através de “Atomos”, coreografia de Wayne McGregor. Detenho-me aqui. Sentia-me muito agitado quando cheguei. Afinal, é tanta coisa a acontecer, entre alegrias e tristezas, injustiças e atropelos à liberdade, que ando com o pensamento a mil. Sinto-o logo em momentos de paragem. Ainda mais quando diante de mim há movimento denso, em contrastes coreográficos que falam de humanidade. A folha de sala falava de corpo. De corpo que se quer em relação. A dado momento emocionei-me, quando em gesto firme, como em todos ao longo da coreografia, os bailarinos elevaram os braços com as mãos em jeito de oração ou então “nada tenho a temer, sinto-me livre”. Qual a relação entre o indivíduo e a comunidade? Qual a minha relação entre o meu ser corpo e o ser Corpo de mundo? E a minha relação diante do corpo vulnerável, que apenas quer se amado? No regresso a casa, hoje, na minha oração, pensava o quanto o mundo está em transformação…. e pede Corpo com mais humanidade.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Ainda a liberdade...




Estes últimos dias foram cheios de acontecimentos. Desde as conversas que marcam, passando pela festa dos pequenotes por se irem confessar pela primeira vez na preparação para a Primeira Comunhão (alguns, quando cheguei, saltavam de alegria... ao que lhes disse: "é essa a atitude... e a manter!") e, claro, a grande mobilização que aconteceu ontem, para continuarmos a manifestar a favor da cada vez maior liberdade de escolha na educação, que o recente despacho 1H/2016 da Secretaria de Estado da Educação pretende cortar, a partir da delimitação geográfica. Tudo aconteceu muito rapidamente, com a ideia por parte dos alunos de montarmos tendas à entrada da escola, passando lá a noite, e assim manifestar o apreço e carinho por esta pedagogia e modo de educar. Chamaram colegas e educadores (enc. de educação, docentes e não-docentes), no fundo a comunidade que cresce à volta da escola, fez-se arroz e omeletes e foi a animação. Fomos entrevistados pela SIC, pelo Porto Canal e pela RTP. Uma das jornalistas comentou surpreendida: "mas, estão felizes enquanto protestam". Pois, é isso, ninguém é "arruaceiro". Estas escolas formam pessoas também para o sentido cívico da manifestação, mostrando, precisamente pela animação e felicidade, os laços que se criam. Como se notou, a força da vida, com respeito e civismo, mostra aos governantes que a escola não se baseia em números, mas em pessoas que exercem o direito da liberdade de escolher a pedagogia que querem seguir.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Bolo(s)




[Coisas da vida de um padre numa escola maravilhosa] Os alunos do 11.º C fizeram-me um bolo… e eu [que pontaria!!] não estava na escola àquela hora. Mas isto tem história. No último dia de aulas do 1.º período, passei pelas salas todas a desejar um Santo Natal. Esta turma convidou-me a lá ir comer bolo. Quando cheguei… não estava ninguém. Sala completamente vazia. O drama! A tristeza! A dor! Obviamente, no primeiro dia de aulas do 2.º período passei pela sala e: “meus amigos, eis que cá cheguei no Natal para comer tão famoso bolo e já todos tinham ido embora. Quero bolo!” Como se vê, o tempo foi passando (com os devidos recordar de “Quero bolo!”) até meio do 3.º período. E o bolo chegou… com muito carinho… no dia em que não estou na escola àquela hora. ;) Mas, eles, muitos queridos, deixaram-me uma fatia no gabinete. Estava tão bom! Para compensar tão terrível falta minha, sou eu que tenho de pôr mãos à obra nos dotes culinários “boleiros”. ;) [Ah, sim, há uma personagem da turma que se lembrou de me chamar “Papá”… eu já lhe disse que me chame à vontade, desde que não me peça dinheiro!] ;)