quarta-feira, 18 de abril de 2012

A arte e o público e a arte





(Versión en español en los comentarios)


A Compañía Nacional de Danza (CND) daqui de Espanha iniciou uma campanha de sensibilização para a dança. Uma fotografia de cada pessoa, acompanhada da frase “le gusta la danza. ¿Y a ti?” (“Gosta da dança. E tu?”). Sabia que iam fazer esta campanha. Foi em Janeiro, aquando da primeira apresentação da CND com a nova direcção artística de José Carlos Martínez. No intervalo estavam a fotografar pessoas do público em geral. Também me fotografaram. Sei que o meu gosto por esta campanha também tem o seu lado subjectivo. No entanto, como não sei se me seleccionarão para aparecer na campanha, devo dizer que gosto mesmo desta ideia de relacionar o público com a arte, neste caso a dança.
Qualquer forma de arte sem público não tem sentido. O acto criativo, mesmo não tendo que estar focado no público, tem de o considerar. A questão não se prende em “vão gostar ou não”, mas como forma de dar algo, de promover uma relação. A criação é exteriorizada numa entrega, numa partilha. Pintar, esculpir, coreografar, dançar, compor, escrever, para ficar fechado é apenas uma idealização do processo criativo e não uma realidade artística. O acto de publicar confere a saída do tempo e do espaço do criador, dando-lhe uma nova abertura.
Quando vi as coreografias apresentadas pela CND em Janeiro, sabia que havia uma tensão no ar. Nacho Duato esteve anos à frente da CND e agora entra um novo director artístico. O que irá acontecer? Nova linha? Mudanças? O pouco que estava dentro do assunto restringia-se ao que havia lido sobre o tema, antes de ver as peças. Percebe-se então que há uma espera da reacção do público. O que dirá quem vai assistir? Com esta campanha há um convite claro da participação do público a ver, a saborear, a entrar na dança, reagindo a tudo isso. Também eu recordo o que senti.
Entrei no Teatro Zarzuela e caiam penas no palco. Para mi, a clara sensação de, mesmo estando a entrar, já estar a acontecer algo. A preparação já é acção. E a primeira coreografia já estava, de alguma forma, em marcha. Não temos a presença dos bailarinos, mas temos o cenário que já nos informa, do que entendi depois, da leveza de Extremely close, de Alejandro Cerrudo. Segue-se El espectro de la rosa, de Angelin Preljocj, Artifact II, de William Forsythe, terminando com Walking Mad, de Johan Inger.
Como alguém do público, fora do que senti e vivi em cada coreografia, a grande sensação foi: a CND quer apresentar algo novo, sem ter uma linha para além do: “Desde que seja bom, apresentamos”. Todas as coreografias eram bastante diferentes entre si e num dos intervalos houve o recordar da História da CND. Passado, presente e futuro.
O que mantém em comum tudo isto? A realidade do público. O público não é uma abstracção. São pessoas que sentem, vivem, aplaudem, criticam, soltam gargalhadas, choram e que de alguma forma afirmam que a arte é vida e não pode morrer. Em tempos de crise é fácil eliminar a arte, como se de um luxo tratasse. É verdade que as entradas são caras e não se pode ir a tudo. Mas não podemos esquecer que os artistas não vivem do ar e que entrar no mundo da arte é também entrar no mundo do humano. A arte permite uma relação com a humanidade, um vínculo que dá outra dimensão da vida. O que seria um mundo sem música? Sem pintura? Sem dança? No fundo, sem cultura? Sem dúvida que seria um mundo mais desumanizado.
A arte precisa do público e o público precisa da arte. A arte é um dos cumes do humano: a capacidade de abstracção e de acolhimento dos sentimentos que surgem nesse momento. Fazer o “desenho” da vida, em movimentos, pinturas, música. A arte, em si, não é um capricho, é uma necessidade humana, porque nos afecta. Podemos ter com que comer e beber, junto com um tecto, mas só com isso não somos felizes. Há necessidade de mais. O afecto, o vínculo, a capacidade de desenvolver uma relação abre as portas: da imaginação, da Vida que quer dar vida e respeito pelo outro, do artístico e, sim, da Fé. E isso é Ser Humano.
Parafraseando a campanha da CND: Sim, Gosto da Arte.
Afinal, a arte também é o público e o público também é a arte.
P.S. - Este sábado, 21 de Abril, quem possa, não perca o II Fé e Arte, em Braga. Mais informações em www.fe-e-arte2012.com

terça-feira, 17 de abril de 2012

Diálogos Ocultos (IV)





(Versión en español en los comentarios)


- Não te parece que está na altura de abrir os olhos?
- Não me apetece, há todo um mundo de recordações a passar diante de mim... a partir da suavidade.
- Já alguma vez tiveste a sensação de regresso a casa?
- Hmm, como que viver cada canto e cada história? A linguagem que só as entranhas conhecem? Afinal, o que é a casa senão o mais intimo que não nos pode ser tirado?
- A isso chama-se liberdade. A possibilidade de regressar a casa, esteja-se onde se estiver. Não importa o lugar. 
[Abre os olhos]
- Ah, esse olhar tão teu. Tenho para mim que estiveste lá.
- Foi de passagem, mas senti-me livre, plenamente livre, por momentos. 

domingo, 15 de abril de 2012

[Jo 20, 24-29] *




"A incredulidade de Tomé" de Caravaggio 

(Versión en español en los comentarios)


* Tomé, um dos Doze, a quem chamavam o Gémeo, não estava com eles quando Jesus veio. Diziam-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor!» Mas ele respondeu-lhes: «Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu peito, não acredito.» Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez dentro de casa e Tomé com eles. Estando as portas fechadas, Jesus veio, pôs-se no meio deles e disse: «A paz seja convosco!» Depois, disse a Tomé: «Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito. E não sejas incrédulo, mas fiel.» Tomé respondeu-lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» Disse-lhe Jesus: «Porque me viste, acreditaste. Felizes os que crêem sem terem visto!»


Não sei se são contos.
A morte não foi um jogo.
O véu rasgou-se, sim,
mas o corpo,
em tarde eclipsada,
foi acolhido em braços caídos.
O desalento, a cor, o silêncio,
o retumbar da pedra
na escuridão da gruta,
foram testemunhas do fim.
Pedem-me para crer?
Depois de tanto vivido,
estou cansado de fantasmas,
de histórias desencantadas,
de entusiasmos gastos
pelo etéreo sem mundo.
Apenas peço que os sentidos
doados ao nascer 
sejam o registo
desta minha forma de fé.
Eu quero crer. 

Escuto o meu nome.
Obediente estendo a mão.
Vejo e toco as marcas
da História viva.
Será paz o que me envolve?
Ou a certeza de que sou atendido
nas preces da agitação?
Creio, Senhor.


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Tempo(s)



"on time" de J F Rauzier

(Versión en español en los comentarios) 



Um dos sinais da Ressurreição:
Os tempos do espírito podem não seguir o Tempo comum.
A espera do Advento, em jeito de deserto quaresmal, vive o seu ser em travessia.


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Sobre a palavra... e no final o abraço também.



"The Gorbals" de Bert Hardy

(Versión en español en los comentarios)


Gosto muito de ir ao sentido das palavras, na poesia, na literatura, até mesmo na simples conversa. São muitas as vezes em que dou voltas às palavras, à sua origem e ao seu significado. Muitas vezes cheguei a dizer aos meus alunos para, em caso de dúvida sobre o sentido da frase, colocarem perguntas à(s) palavra(s). Se é uma negação, uma afirmação, se é composta e de que forma. A beleza está em dar corpo à racionalidade. 
Nós, humanos, temos a tendência em colocarmo-nos, ou apenas no lado da razão, ou somente no lado do corpo (os sentimentos, emoções, sensibilidade). Parece-me que a grandeza reside na capacidade em articular ambas. Que tem a sua dificuldade. A nossa parte animal impele à reacção imediata: chama-se sentido de sobrevivência. Quando se centra no racional, pode-se ficar num intelectualismo perigoso, que esquece o quotidiano, o toque do sentir. Dar corpo à palavra poderia ser essa capacidade de articulação dessas duas dimensões tão nossas. A palavra é a razão, o seu sentido mais profundo em nós seria a encarnação da mesma. Também por isso dou muitas voltas ao prólogo de S. João: “No princípio era o Verbo. (...) E o Verbo fez-se carne e montou a sua tenda no meio de nós” (Jo 1, 1.14). A Palavra que constrói a morada carnal na humanidade. É o contínuo jogo entre a razão e os sentimentos. 
O Humano é chamado à Palavra e ao Abraço.



terça-feira, 10 de abril de 2012

Diálogos Ocultos (III)





(Versión en español en los comentarios)


- Se fecho os olhos volto a sentir a suavidade da tua mão.
- Seria tudo tão mais simples se as mãos fossem dadas sem medos. 
- Sim, mas há todo um mundo de cuidados a ter com imagens e interpretações. 
- Por isso é que gosto que também me vejam como um abrigo... daí a suavidade.
- É preciso partir...
- ... Sim, isso, ir mais longe, quebrando aquilo que não é...
- ... Ganhando uma nova respiração e um novo andar. Acho que já vou aprendendo algumas coisas.
- Não te preocupes, toda uma vida. Há tempo para tudo...
- ... até para fechar novamente os olhos e sentir a suavidade da tua mão.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O silencioso dia de Páscoa





Da banda do sonora do filme Água (2005) de Deepa Mehta 

(Versión en español en los comentarios)


A Ressurreição de Cristo também tem o seu quê de silêncio. Na calada da noite, onde outras visões se tocam, o Corpo ganha outra forma. Atravessa o espaço e o tempo, mantendo as propriedades desse mesmo espaço e tempo. A passagem que une Vidas. A História mantém-se: o lado, as mãos e os pés assim o revelam. Mas já não são a marca definitiva. A certeza dá-se na Vida que entra por portas e umbrais de outras histórias: a de cada ser. 
Escolho esta música para ilustrar este meu sentimento silencioso desta Páscoa. Água. Um filme forte, intenso, onde a morte toca a vida, estando a ponto de ter a última palavra. No final, o rio é cruzado. É passagem! A Vida atravessou mais uma morada.
Santa Páscoa!

sábado, 7 de abril de 2012

Sábado Santo




"Quest for silence" project de Brice Portolano

(Versión en español en los comentarios)


Escuto mas não sei
se o que oiço é silêncio
ou Deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
o ressoar das planícies do vazio
ou a consciência atenta
que nos confins do universo
me decifra e fita.

Apenas sei que caminho como quem
é olhado, amado e conhecido
e por isso em cada gesto ponho
solenidade e risco.

Sophia de Mello Breyner Andresen


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Sexta-feira Santa







“Tudo está consumado.” E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. 
[Jo 19, 30]

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Quinta-feira Santa




"Sunray Vision" de Ramon Haindl

(Versión en español en los comentarios)


Hoje é o dia do olhar desnivelado.
De toalha à cintura, a visão começa nos pés e termina no rosto... do outro!
Primeira passagem: Mestre a Amigo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Silêncios




"Biwa Lake Tree, Study 2" de Michael Kenna

(Versión en español en los comentarios) 

O caminho podia ser descrito através dos silêncios passados ao longo da vida. 
O silêncio da alegria, o silêncio da espera, o silêncio do encontro, o silêncio de um beijo, o silêncio da oração, o silêncio diante da vista sem fim, o silêncio da impotência, o silêncio da raiva, o silêncio da injustiça, o silêncio da dor, o silêncio do escuro, o silêncio do incógnito, o silêncio do desencontro, o silêncio do desespero, o silêncio do final de uma peça musical, de um dizer, de um poema. O silêncio ante uma pintura, coreografia, o silêncio de uma catedral, o silêncio de um centro de metrópole, o silêncio do campo, o silêncio de um abraço, o silêncio de uma viagem, o silêncio do céu, o silêncio das nuvens, o silêncio do tempo, o silêncio de uma praia em pleno Inverno, o silêncio após escutar “Tudo está consumado.” E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. 
O silêncio que acompanha o nascer de uma nova vida, que começa a fazer caminho.

terça-feira, 27 de março de 2012

[Em Manutenção.





Igreja de São Francisco Xavier y São Luís Gonzaga - Ventilha - Madrid

(Versión en español en los comentarios)


Não o blog, mas quem nele vai escrevendo. Um vírus, não informático, com parte da sua família, resolveram achar que a minha pessoa é um bom sítio para alojamento. Mas há inquilinos indesejáveis. Estes são um deles e estou a tratar do rápido processo de despojamento: descanso, descanso e descanso. Já poderia chover à séria em Madrid, limpando os ares da cidade. Todos sabemos que dias de sol não faltarão.] 
No entanto, tenho aproveitado para dormir e despreocupar-me, por uns momentos, do periférico. 
Este fim-de-semana foi muito intenso com as ordenações, diaconais de três companheiros jesuítas e sacerdotal de outro. Por questões logísticas de ajuda à celebração, fiquei todo o tempo no fundo da Igreja. Estar de frente para a grande cruz, sobretudo no momento em que os ordenandos se deitam no chão para as ladainhas (oração onde se invocam as Santas e os Santos), enquanto junto com todas as pessoas rezávamos por eles, fez-me pensar que mesmo faltando apenas um ano, se Deus quiser, ainda há todo um caminho a percorrer. 
Em tempos, entendi a minha vocação como uma carreira [até mesmo de poder]. Muito deste entendimento já foi dissipado. É que isto de ser padre não tem nada que ver com carreira, mas com serviço. Infelizmente, são muitas as vezes que me esqueço disso, mas, estando de frente para aquela grande cruz, voltou muito claramente a recordação. 
Curioso, ou sem curiosidade nenhuma, adoeci. Não, não foi um desígnio de Deus. De vez em quando, as manutenções até vêm bem. Algumas, por supuesto, não as quero. Mas, se por tanta agitação interior chegou, há que aproveitá-la. É preciso muito silêncio diante desta certeza: “Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.” (Mc 10,45).
Afinal, até chove em Madrid.



quinta-feira, 22 de março de 2012

Diálogos Ocultos (II)




(Versión en español en los comentarios)

- Hoje apetecia-me levar-te pela mão, deixando que os movimentos torneados ganhassem outra cor.
- O que te impede?
- Sim, tens razão, nada... a não ser o medo disto ou daquilo, de além ou aquém-mar, dessa falta de aragem que os pensamentos e os sentimentos têm.
- E então? Continuarás nisso... ou deixas-te embalar? 

[Estende a mão]
- Ah, como é bom deixar que os ventos levem o sem sentido dos preconcei... hmm, que mão suave a tua!

quarta-feira, 21 de março de 2012

21 de Março - Poesia!




(Versión en español de mi texto en los comentarios)

Escolho este poema para celebrar este dia por conjugar tanto do que vivo: novos olhares sobre outras faces; a busca do Senhor da Vida, no que morre ou me faz "morrer" tento ir para além da temporalidade; o vazio da máscaras da personalidade; Portugal e Espanha; a interpretação da História, pessoal e comunitária; a arte presente no respirar das palavras e no escondido dos sentimentos.



terça-feira, 20 de março de 2012

[Gn 1, 1]




James Field

(Versión en español en los comentarios)




O tempo reserva o espaço.
Encontram-se numa bondade
imperfeita.
Em passos perde-se o medo
de ser frágil. Isso dá o eterno
sentido das coisas.
Ser, mais que parecer,
virtude - esperança - encontro.



segunda-feira, 19 de março de 2012

Gaudium et Spes 44




"Garden#10" de Shinichi Maruyama

(Versión en español en los comentarios)



Um dos trabalhos que tenho em mãos é sobre a Constituição Pastoral Gaudium et Spes (GS) do Concílio Vaticano II. O texto é de uma beleza e actualidade impressionantes. Esta Constituição fala do diálogo da Igreja com o Mundo. Recomendo a leitura.
Neste momento, o número 44 da GS é o que me está a dar mais que pensar. Pela primeira vez, num documento oficial, a Igreja reconheceu a ajuda que necessita do Mundo. Deixo aqui todo este número (o sublinhado é meu).
44. Assim como é do interesse do mundo o reconhecimento da Igreja como realidade social e fermento da história, também a Igreja reconhece o quanto recebeu da mesma história e da evolução do género humano.
A experiência dos séculos passados, os progressos científicos, os tesouros escondidos nas várias formas de cultura humana, permitem conhecer mais a fundo a natureza humana, abrem novos caminhos para a verdade e são de igual proveito para a Igreja. Esta última aprendeu, desde os começos da sua história, a formular a mensagem de Cristo por meio dos conceitos e línguas dos diversos povos, e procurou ilustrá-la com o saber filosófico. Tudo isto com o fim de adaptar o Evangelho à capacidade de compreensão de todos e às exigências dos sábios. Esta maneira adaptada de pregar a palavra revelada deve permanecer como lei de toda a evangelização. Deste modo, com efeito, suscita-se em cada nação a possibilidade de exprimir a mensagem de Cristo segundo a sua maneira própria, ao mesmo tempo que se fomenta um intercâmbio vivo entre a Igreja e as diversas culturas dos diferentes povos. Para aumentar este intercâmbio, necessita especialmente a Igreja - sobretudo hoje, em que tudo muda tão rapidamente e os modos de pensar variam tanto - da ajuda daqueles que, vivendo no mundo, conhecem bem o espírito e conteúdo das várias instituições e disciplinas, sejam eles crentes ou não. É dever de todo o Povo de Deus e sobretudo dos pastores e teólogos, com a ajuda do Espírito Santo, saber ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e julgá-las à luz da palavra de Deus, de modo que a verdade revelada possa ser cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente.
Como a Igreja tem uma estrutura social visível, sinal da sua unidade em Cristo, pode também ser enriquecida, e de facto o é, com a evolução da vida social. Não porque falte algo na constituição que Cristo lhe deu, mas para mais profundamente a conhecer e melhor a exprimir e para a adaptar mais convenientemente aos nossos tempos. Ela verifica com gratidão que, tanto no seu conjunto como em cada um dos seus filhos, recebe variadas ajudas dos homens de toda a classe e condição. Na realidade, todos os que, de acordo com a vontade de Deus, promovem a comunidade humana no plano familiar, cultural, da vida económica e social e também política, seja nacional ou internacional, prestam não pequena ajuda à comunidade eclesial, na medida em que esta depende das realidades exteriores. Mais ainda, a Igreja reconhece que muito aproveitou e pode aproveitar da própria oposição daqueles que a hostilizam e perseguem.

domingo, 18 de março de 2012

Diálogos Ocultos (I)





(Versión en español en los comentarios)

Há umas semanas, em jeito de brincadeira, comecei a escrever pequenos diálogos a partir de um ou outro acontecido no dia e também inspirado pelas músicas dos Danças Ocultas. Vou deixando por aqui...
No(c)turno das 7
Em conversa, ele disse:
- Ando em tanta volta cá dentro, por vezes nem me reconheço!
Ela perguntou:
- Quem és? 
Sem hesitar, respondeu: 
- Alguém em crescimento!
Sem quase deixar acabar a frase, devolve-lhe: 
- E isso não é pouco.

sábado, 17 de março de 2012

"Feitos em Portugal"



Está neste momento a começar um programa que vale a pena ver e acompanhar. Pode ser uma inspiração para estes tempos que trazem algum gosto amargo de falta de Esperança.
Caso não seja possível vê-los no dia da emissão, os mesmos poderão ser vistos aqui.

quinta-feira, 15 de março de 2012

domingo, 11 de março de 2012

Lendo os outros...




Porque me identifico muito, para não dizer totalmente, com este post: 
E parece-me muito apropriado para um Domingo de Quaresma.




sexta-feira, 9 de março de 2012

7 anos d’o.insecto






O 7 guarda o misterioso significado de plenitude. 
Os 7 dias da criação, as 7 cores do arco-íris e as 7 notas musicais são apenas alguns exemplos da presença deste número denso e o que o mesmo pode evocar. O que pode parecer um fechamento, a plenitude, também pode ser visto como um tempo de reflexão. 
Este blog começou há 7 anos. 
A partir de uma sana inveja e manifestando o contentamento de ter um blog, o Pedro Rapoula deu início a’o.insecto. A partir daí foi um continuo partilhar. Primeiro a solo, depois juntando mais vozes. O tiago card, o Morgado Louro, a Moura, a Azul Comum, o João Mattos e Silva e eu. Estas vozes foram configurando a variedade deste blog. Falou-se de política, design, dança, poesia, música, desabafos, citações, desporto em geral e futebol em particular, teologia, filosofia, reflexão mais espiritual e/ou humana. Não posso esquecer os muitos convidados especiais que por aqui passaram, sobretudo quando manifestaram o seu carinho aquando dos 3 anos (outro número igualmente denso) d’o.insecto. 
Hoje sou eu que deixo o meu pensar sobre estes 7 anos. Afinal, tenho sido quem mais publica nestes últimos tempos. Já me dizem: “vi o teu blog”. Mesmo sendo ultimamente mais meu do que propriamente nosso, atendendo à sua realidade colectiva continuo a dizer o “blog onde participo”. Gosto desta imagem da participação. Participar é estar, é fazer parte de. Quem me conhece, sabe a importância que dou ao tema da relação humana. Recordando o que escrevi aqui pela primeira vez, em simplicidade disse que queria viver uma experiência de reciprocidade em caminho. Assim, considero-me parte de um projecto que, apesar das muitas mudanças, tem as marcas de uma história da colaboração de muitos, de forma especial do fundador. Pensemos, por exemplo, no nome do blog e no grafismo que se mantêm, para que de algum modo, sem que seja de forma saudosista ansiando pelo regresso ao jeito sebastianista, fique a boa recordação da presença do Pedro, com os seus escritos e sensibilidade.
O dia de aniversário condensa o tempo, a história. Recorda-se o passado, dando corpo aos desejos, aos projectos, aos sonhos. Nestes 7 anos podemos falar mais do que de plenitude (não me parece que o.insecto tenha culminado a sua voz), de um tempo de viragem. Não esquecendo que é um blog colectivo, e assim gostaria que continuasse, quero continuar a escrever e a partilhar ao meu estilo. Não escondo que por vezes me sinto meio perdido, afinal, a plenitude mesmo que tocada pelo 7, não está alcançada. Por isso, sigo em aprendizagem... em conversão, manifestando-a no que aqui vou deixando. 
Sim, a experiência da conversão é um ponto de viragem. Na conversão, por mais pequena ou forte que seja, a plenitude é tocada. Como que um encontro onde é revelado um novo conhecimento da realidade. Obviamente, esse conhecimento não é (e ainda bem) total. Bem vivido impele a outros conhecimentos, até mesmo a uma mudança e a um novo olhar sobre a realidade. A amplitude do conhecimento aprofunda a sabedoria, baixando as defesas, acolhendo mais, permitindo que se faça a justa selecção do que verdadeiramente importa, até a uma nova conversão... até à plenitude completa.
Não posso deixar de agradecer de forma especial a alguns amigos bloguistas que, junto à minha história e meus acontecimentos quotidianos, me inspiram, fazem pensar, “desinstalam-me”, no melhor sentido do termo: o João Delicado,sj no Ver para além do Olhar, o José Ricardo Costa no Ponteiros Parados, a Laura Abreu Cravo no A Alma Conservadora, os meus companheiros sj filósofos no Companhia dos Filósofos, a Ivone Costa no A Ronda dos Dias, o Nuno Delicado no bulicenas, o Nuno Branco,sj e José Maria Brito,sj no Toques de Deus, o Alfaiate n’ O Alfaiate Lisboeta, o José Barbosa Borges no Um Kaddish por Portugal, a Laurinda Alves no A substância da vida e muitos dos que escrevem no Delito de Opinião e no Escrever é triste.
Felicitar o.insecto é felicitar a cada uma e a cada um que lhe deu e dá corpo: em escritas, em inspirações e em leituras. É isto: Parabéns!

terça-feira, 6 de março de 2012

Outro modo de ser



É isto, para o dia de hoje... 
Outro modo de ser, em continua (re)descoberta. 

sexta-feira, 2 de março de 2012

Tarde no Retiro


Pat Wallace

(Versión en español en los comentarios) 



Há momentos que ficam registados no gesto. A conversa solta entre os dedos, no corriqueiro quotidiano que se torna diferente à medida que o sol se eleva e aquece os prados. De arte e de corpo, em separado e em relação, era a nossa conversa. E assim continuou a história.



quinta-feira, 1 de março de 2012

essejota.net: 4 anos!




A mensagem de António Valério,sj, Coordenador Geral do site essejota.net, a propósito do 4.º aniversário.

Políticos, artistas e religiosos online à volta da esperança

Personalidades tão diversas como o eurodeputado Paulo Rangel, os cantores Tiago Bettencourt e Carminho, o porta‐voz do Papa ou o escritor Jacinto Lucas Pires juntam‐se numa iniciativa online para apresentar o seu olhar sobre a esperança. A página web www.essejota.net, da Companhia de Jesus, propõe celebrar deste modo o seu quarto aniversário.

“Ainda há esperança?”. O P. Alberto Brito, sj, Provincial dos jesuítas em Portugal, dá o mote à pergunta, a que procuram responder as reflexões de Isabel Jonet, Paulo Rangel e do jornalista António Marujo. A actriz Cleia Almeida, uma das protagonistas do premiado “Sangue do Meu Sangue”, apresenta um filme, o cantor Tiago Bettencourt comenta um vídeo, o fotógrafo Luís Ferreira Alves mostra‐nos uma imagem, o cartoon é de Luís Afonso e a jornalista Paula Moura Pinheiro fala acerca de um quadro. O livro sugerido por Pedro Mexia, um poema de Manuel António Pina, vencedor do Prémio Camões 2011, a música escolhida pela fadista Carminho e a história contada pelo escritor Jacinto Lucas Pires abrem horizontes acerca de um olhar optimista sobre o futuro. Esta edição conta ainda com a participação do jesuíta irlandês Michael‐Paul Gallagher, professor na Universidade Gregoriana em Roma, e uma entrevista ao porta‐voz da Santa Sé, P. Federico Lombardi, para além de uma surpreendente reflexão de uma Carmelita que, do interior do convento, olha para o mundo como quem o conhece profundamente.

Neste momento, em que tanto se fala de crise e de falta de esperança, esta edição especial do essejota.net reúne colaborações de pessoas de vários quadrantes políticos, artísticos, sociais e religiosos que apresentam diversas perspectivas acerca de um tema que toca as preocupações dos portugueses.

O www.essejota.net pretende ser um espaço onde se pode encontrar uma nova forma de falar do mundo, do mistério humano e da fé. A partir das suas secções, trabalhadas quinzenalmente por uma equipa de 110 voluntários, que vão desde a arte ao entretenimento, da reflexão sobre acontecimentos da actualidade a textos de aprofundamento da fé cristã, o essejota.net propõe aos seus leitores um olhar atento e esclarecido sobre a realidade, numa linguagem acessível e adaptada às interrogações das gerações mais novas.


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

[Job 42, 1-6]



"Twilight Dreams of a Papilio Demouleus (5)" de Clang

(Versión en español en los comentarios)

Job respondeu ao Senhor e disse: «Sei que podes tudo e que nada te é impossível. Quem é que obscurece assim o desígnio divino, com palavras sem sentido? De facto, eu falei de coisas que não entendia, de maravilhas que superavam o meu saber. Eu dizia: 'Escuta-me, deixa-me falar! Vou interrogar-te e Tu me responderás.' Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora vêem-te os meus próprios olhos. Por isso, retracto-me e consolo-me, cobrindo-me de pó e de cinza.»
No princípio buscava
o meu rosto no teu nome.
Calcorreando caminhos
de subidas e vales,
em silêncios do alto
e escuridão do abismo.
Em espelhos de pedra
tentava desenhar os meus contornos
pensando para mim conhecer-te
e não ter dúvidas.
E continuei, ainda assim,
a pôr estradas nesses passos.
Será que te encontrarei?
Na tempestade do deserto
perco a orientação:
mudam as questões ou intensificam-se.
Como o anoitecer
sem estrelas, 
escuto o silêncio
de uma nova abertura.
Tenho de esperar,
dar outro sentido à história.
Mesmo em razão:
Não esquecerei o caminho feito,
marcas das entranhas,
no chão desfeitas,
no coração delineadas
com o cinzel de carne.