sexta-feira, 31 de julho de 2020

Santo Inácio de Loiola


[Secção festividade em dia de Santo Inácio de Loiola] Os Exercícios Espirituais são marca da vida de Santo Inácio de Loiola na relação com Deus. Uma bala de canhão fez com que tanto acontecesse na vida deste homem e, depois, em parte da humanidade. Nem ele sonharia que, por exemplo, na lua, tanto por si olhada em conjunto com as estrelas, enquanto contemplava o imenso céu, iria ter crateras com nomes de companheiros seus jesuítas. Talvez respondesse, se soubesse: “espero que tenham amado Deus e o próximo”. Continua, de algum modo, a dizer, pelos Exercícios e muitos outros escritos, como as milhares de Cartas que escreveu: ponham a vida centralizada no amor de Cristo e deixem-se amar por Ele, guiando-se pela Sua vontade. Hoje é dia de Santo Inácio. Peço a oração, o pensamento, pela Companhia de Jesus, por todos os jesuítas, pelas suas obras, para que sejamos verdadeiros instrumentos ao serviço do amor Deus.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Atravessar


[Secção pensamentos soltos] “Tenho (ou tens) de ultrapassar isso”, é expressão que ouço com frequência em contexto de acompanhamento ou de tentativas de ajudar a superar algo. Normalmente lutos, desilusões ou chatices. 

A realidade, do passado ou presente, quando é ultrapassada fica no mesmo sítio e na mesma forma. É a imagem da ferida por curar. Ultrapassar, será um modo de negação. Alivia, é certo. Mas é pouco. Mais cedo ou mais tarde, a dor volta. E conforme a realidade, de forma imprevisível e aumentada.


Atravessar implica reconhecer que algo aconteceu, existiu, está lá num passado que se faz presente. Atravessar é atrever-se à cura. Dói. Talvez mais do que o que provocou a dor inicial. Mas, transforma. Fica lá no tempo que foi. E surge a liberdade para se dar espaço à vida.


sexta-feira, 24 de julho de 2020

Breve oração


[Breve oração antes de adormecer no final de um dia de escutas em retiro]


Agradeço-Te

o brilho do olhar de quem se atreve a libertar a liberdade, cortando amarras de tempos ideológicos sejam do que for


Peço-Te

a esperança, deixando de limitar a vida a medos de incompreensão


quarta-feira, 22 de julho de 2020

Maria de Magdala



[Secção coisas de santos] “Vi o Senhor” é a grande expressão de Maria Madalena, a apóstola dos apóstolos, depois do encontro com o Ressuscitado. Viu porque foi por Ele vista antes, sem julgamento nem condenação da sua vida, apenas com amor. Quando se é amado ou amada plenamente, tudo se vê desde essa Luz.


segunda-feira, 20 de julho de 2020

Amizade



[Secção agradecimento em dia dos amigos] Sem desprimor para com todas as outras boas amizades que agradeço muito e vivo de longa data, desde criança, adolescente, jovem adulto e adulto, sem horas, nem tempos, daqui e do resto do mundo, da Companhia de Jesus e de todas as outras companhias, de crenças e descrenças partilhadas, de orações e de peregrinações, de estudos e de passeios, de silêncios e de conversas, de danças e de abraços, de inícios e de mudanças, estas, Suzanne e Letinha, falam de vida de alma partilhada para além de genes e de passado, sendo constante presente em futuro sonhado.


domingo, 19 de julho de 2020

Breve oração



[Breve oração para qualquer hora] 


Agradeço-Te

a compreensão da luz e da sombra, do branco e do preto, em conjunto com azul-mar e azul-céu, verde-esmeralda e verde-oliveira, amarelo-sol e amarelo-esbatido, vermelho-papoila e encarnado-sangue, bege-trigo e tempo-joio 


Entrego-Te 

todas as conjunções que compõem o ser, entre o concreto e o reflexo


Peço-Te

sabedoria sobre o tempo da colheita, impedindo de julgar apressadamente


sábado, 18 de julho de 2020

Distracções



[Secção letras verdes em início de tarde de calor] Em reflexão após a leitura de comentários desproporcionados sobre as recentes transferências nacionais.


quinta-feira, 16 de julho de 2020

Em dia da Senhora do Carmo




[Secção pensamentos soltos em dia de N.ª Sr.ª do Carmo] Esta invocação de Maria recorda-me a vocação contemplativa, em particular as Irmãs Carmelitas. Este modo de vida não costuma ser bem entendido, ainda mais quando o activismo parece que toma o total lugar na actualidade. Para muitas pessoas é estranha a imagem de alguém [aparentemente] fechado, tendo como missão principal rezar. No entanto, além da chave estar dentro e não fora do convento, a força da oração é misteriosa. 


Foi há quinze anos que, com oração própria, foi-me imposto o Escapulário. Estava a fazer os Exercícios Espirituais de final de segundo ano de noviciado. O escapulário é sinal de serviço e de oração. Comprometi-me a tornar a minha oração pelos outros um serviço. Ao longo destes anos fui cumprindo, com falhas, com agitações, mas sempre com a certeza de que Deus é maior que todos os meus erros e pecados. Sempre que vou a sítios especiais ou vivo momentos também eles particulares, rezo por cada pessoa, mais próxima ou distante fisicamente ou em afecto. Acredito que a oração é sempre caminho de luz. Não interessa a quantidade de palavras, apenas aquele estar que deseja a profundidade do amor. Todos, para além da crença, somos chamados à contemplação. 


Para os não crentes em Deus, pode-se chamar a força do pensamento pelos outros, na relação que se estabelece silenciosamente para além do espaço e do tempo. No dia em que toda a pessoa na face da terra deixe de contemplar, atrevo-me a dizer que morreu a humanidade.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Subtil definição de amor



[Secção outros tons] Às vezes fico à espera do silêncio. O calor acalma, amaina, serena, desacelera, fazendo deter o olhar no descanso das horas. O silêncio vem pela observação de algo novo: um jarro de duas pétalas. Amarelo. Surge o entusiasmo pela descoberta. A flor simplesmente é, sem porquê. O silêncio com a contemplação do jarro amarelo recorda que parte de nós é, simplesmente, sem porquê. Pode ser uma subtil definição de amor.


segunda-feira, 13 de julho de 2020

Dias bonitos




[Coisas na vida de um padre] Chegam boas recordações de dias bonitos. O Lourenço e o seu ar chique como a mãe e de sapatos iguais aos do pai (o que lhe deu muita alegria) foi baptizado com muita animação, num dia de Janeiro cheio de sol. Às tantas, quando estávamos a almoçar, perguntei-lhe como se sentia. Responde: “Estou bem. Estou com Jesus enquanto faço anos.”


quinta-feira, 9 de julho de 2020

Dias de tudo



[Secção pensamentos soltos sobre dias de tudo] Estava com o mesmo pensamento na oração sobre os dias de isto ou daquilo, quando fui recordado que tinha escrito algo sobre o assunto. Retomo o texto.


Hoje não é dia de nada nem de ninguém. Sendo-o de nada, junta-se o outro absoluto: é dia de tudo e de todos. Explico-me. Desde há uns tempos que me fazem confusão as celebrações dos dias de algo. Não que não me pareça importante esse salientar, mas é mesmo por ainda termos de recordar, ano após ano, a necessidade do respeito pelo outro, seja a Mulher, o Refugiado, alguém LGBT, seja o Ambiente, a Terra, os Oceanos. A discriminação ainda é gritante, levantando as fobias que anulam pessoas a partir de categorias ou características. 


Incomoda-me ainda mais quando se usa a religião como argumento discriminatório. No caso da cristã, a centralidade do mandamento novo “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” é de tremenda exigência. Esse amor passa por um profundo exercício de auto-conhecimento e, assim, de expansão de si mesmo no conhecimento do outro. Não é fácil. De todo que não. Afinal, antes de mais, há que enfrentar os preconceitos connosco próprios, em especial no que não queremos aceitar em nós mesmos: que fazemos parte de um todo, o qual se inclui o ambiente a cuidar; que, seja ela qual for, vivemos a dimensão afectivo-sexual em toda a sua complexidade; que o ser humano é igual em dignidade independentemente do género ou cultura. 


Ainda há muito caminho a percorrer, enquanto se consumir os recursos naturais como se fossem egoisticamente posse de alguém, enquanto houver pessoas mal-tratadas e assassinadas pela sua condição cultural, sexual, religiosa. Por isso, hoje, tal como amanhã e em cada um dos outros dias que não são particularmente de algo nem de alguém, continuam a ser de tudo e de todos no recordar e viver o respeito pelo outro.


quarta-feira, 8 de julho de 2020

Podcast com Catarina Beato




[Coisas na vida de um padre] Estive à conversa com Catarina Beato sobre o amor. Foi uma hora de boa partilha onde se falou de tanto. E a luz acontece. O podcast está disponível em várias plataformas. Aqui fica o link para o YouTube.


domingo, 5 de julho de 2020

6 anos de padre



José Oliveira da Silva


[Secção aniversário] Seis anos de padre, com tudo a agradecer a Deus e a tantas pessoas. No mesmo dia em que a Igreja ganha mais três novos padres jesuítas na Sé onde fomos ordenados. O que abre ainda mais memórias. Recordo o exacto momento com a sensação física do “já está” selado pelo Espírito. A importância da memória também é ajudar a ver o caminho feito, nesta relação de tempo entre o vivido e a abertura para o futuro. Daí escolher esta fotografia do baptizado da Vera, o primeiro em tempo novo, para ilustrar este dia. Uma menina de muita Luz e Amor, na sua verdade com todas as interrogações que traz à família e ao mundo. Foi muito especial baptizá-la e viver a colaboração com a minha paternidade espiritual. É dia de agradecer.




Vera Sepúlveda


quarta-feira, 1 de julho de 2020

20 anos do primeiro voo como CB




[Secção memórias] Tinha recebido a primeira escala. A4 (assistência das 12 às 18h) para o primeiro dia: 1 de Julho de 2000. Toca o telefone com uma chamada das escalas: 

- Paulo, boa tarde. Para avisar que a assistência de amanhã passa para apresentação às 15h com estadia no Porto. 


A emoção de vestir a farda, entrar no aeroporto, ir para a sala de tripulantes, fazer o check-in e ida para o stand onde estava o Fokker 100. Voo Lisboa-Porto, a reforçar, e no dia seguinte Porto-Genebra-Porto para cuidar de UMs: crianças sem acompanhamento de adultos - 11 para lá, 14 para cá.

Quando me aproximo do avião, vejo o olhar de desespero da Chefe de Cabine e da E2. “Quem é este? Oh, é dos novos!!” Foi um voo, diria, emocionante. O mais rápido que fiz, com cabine cheia. Praxes pelo meio. Toda uma animação. O que sorrio ao recordar. O dia seguinte, qual babysitter aéreo, a cortar a carne às crianças, a acalmá-las, a brincar, a abrir os olhos para não esganar uma delas, todos uns amores... not! Ah, e mais praxes! O tempo passa e são 20 anos desde esse dia com muitos mais voos e vida. Neste tempo de tanto também para a aviação, agradeço o tanto que aprendi e recordo com especial carinho o curso PGA1600 e todos os amigos e amigas tripulantes do ar e de terra, rezando por vocês na Jesuit Airlines em code-share com a Air Vaticano.




terça-feira, 30 de junho de 2020

Todas as cores



[Secção letras verdes com orgulho pela diversidade humana e dor por quem ainda morre simplesmente por ser diferente]


segunda-feira, 29 de junho de 2020

Boa recordação




[Coisas na vida de um padre] Chega-me esta fotografia de um dia muito bonito. Já passaram uns bons meses. Mas, faz sentido partilhar em dia de S. Pedro e S. Paulo, por tanto que há nesta história de vida. As colunas da unidade e da diversidade na Igreja significam tanto no respeito e no encontro. Tal como neste baptismo cheio de Vida.


domingo, 28 de junho de 2020

Tempo novo exige luz




[Secção pensamentos soltos] Estou a orientar retiro perto de uma praia. No final de cada tarde vou lá e faço silêncio deixando o coração falar. Hoje estava nublado. Sozinho, apenas ouvia as ondas. Naturalmente surgiam nomes, situações e acontecimentos. Por vezes esquecemos que vivemos algo novo em todo o mundo. A acumular à realidade pessoal, toda esta pandemia tem agitado as emoções, independentemente de se achar que é tudo uma conspiração, treta, o que for para não querer assumir a realidade que tudo mudou. Os efeitos sociais e políticos estão à vista. Os psicológicos estão a continuar a surgir. 


Fala-se de festas, mas omitem-se os aglomerados por necessidade em autocarros ou metros. Fala-se de tele-trabalho, mas omite-se tudo o que tem de ser feito presencialmente, em especial pelos mais pobres. Fala-se de colaboração, mas desde que “eu fique a ganhar mais” (dinheiro, vida, prestígio). Fala-se de preocupação pela saúde mental, mas omitem-se as condições para as ajudas e acções concretas. Fala-se de cercos a freguesias, mas omite-se a justiça social. Fala-se da necessidade de missa, mas omite-se o respeito pela diferença. 


Este tempo novo exige muito de todos nós. Mas mais de quem pouco ou nada têm. No muito que vivemos, sejamos capazes de atravessar as sombras com sentido de justiça, honestidade intelectual, compreensão, reflexão, cuidado, atenção, respeito, com luz, muita luz. 


segunda-feira, 22 de junho de 2020

Humilde não sei



[Secção pensamentos soltos sobre a vida] Penso na quantidade de certezas que há sobre tudo. Acredito de que racionalmente toda a pessoa faz o melhor que acha para si e para os outros. Na cabeça tudo é claro pelo que se aprendeu a ser bem. Os filtros mentais de aprendizagem na vida revelam como se deve ser ou estar. A tal educação formal, informal, consciente e inconsciente. É tanto. 


Mas a vida revela perguntas. Pôr-se em causa pode ser muito doloroso. Pilares da existência podem desmoronar-se com a escuridão desperta de nova aprendizagem. Ou clarão com a perda de filtros ou véus que abafam o ser. A dificuldade do passos aumenta com a incompreensão. Ou suaviza-se com os não-julgamentos rápidos. Apenas os que atravessaram a sabedoria das dúvidas sabem que há muito mais do que a vista pode alcançar. Então, vem o silêncio da escuta. E o abraço do conforto. 


As certezas dão lugar ao humilde não sei. Aí terminam as competições de existência, dando lugar a mãos dadas no caminho das perguntas que abrirão ao amor.


domingo, 21 de junho de 2020

Partilhas úteis




[Secção partilhas úteis] Diante do sem-chão que se fica ante algo forte e chocante, faça-se a homenagem desde o respeito. E também do trabalho pessoal de estar atento a quem precisa de ajuda, de desenvolver humildade e sabedoria para saber realmente como ajudar. Por vezes, é directamente. Outras, indirectamente. A fronteira é ténue. Se há dúvidas, opte-se pelo indirectamente falando com alguém que realmente perceba do assunto. 


A saúde mental, de alma, de espírito, quando está debilitada pode ser muito silenciosa. Mas não deverá ser menosprezada, em nada. Que se saiba lidar com a fragilidade do outro desde o respeito e cuidado. Aqui ficam contactos úteis:

SNS24 - 808242424 (seleccionar a opção 4 - aconselhamento psicológico)


Linha SOS Voz Amiga. Linha de apoio emocional e prevenção ao suicídio - 800 209 899

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Breve oração




[Breve oração ao entardecer em dia de Sagrado Coração de Jesus]


Agradeço-Te

o coração que a todos acolhe


Peço-Te

mansidão e humildade

no caminho a esse acolhimento


segunda-feira, 15 de junho de 2020

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Derrubar? Construir?



[Secção pensamentos soltos sobre derrubar e construir] Estou a orientar Exercícios Espirituais a um grupo. Entre os pontos e as conversas, vou lendo aqui e ali sobre estes novos tempos que vivemos para além ou talvez influenciados pela pandemia. Tenho escutado muito e vivido outro tanto que me têm levado a pensar na raiva, no ódio, na zanga, dirigidos tanto a passados, recentes ou antigos, como a pessoas e a realidades simbólicas na existência. 


Observo os rostos, escuto as vozes, leio o sentir das palavras escritas, e é muito perceptível a energia emocional de zanga com vontade de derrubar. Vontade que se torna acção, depois com gritos de júbilo ante o resultado, na sensação de libertação. Há tanta raiva contida, até mesmo em inconsciente colectivo de acumulação de injustiças, sim. A raiva, alojada na profundidade da existência e desrespeitada, tem muita influência na perda da razão. A raiva mal trabalhada cega a acção e perdem-se nuances, perspectivas, possibilidades de dialogar, eliminando tudo pela frente. Ideologia a anular inclusivamente aquilo de que se queixa não haver: justiça. 


Já estive no meio de multidões a manifestarmo-nos contra algo. Recordo uma em Paris, com cerca de 3 milhões de pessoas de todos os credos e condições (como se pode imaginar pelo número) na rua a manifestarmo-nos contra as acções do ódio terrorista e todo o fundamentalismo. Destruir para reinar ou avançar para uma neutralidade impossível é anular a humanidade. Vandalizar ou, como já li, propor que se coloquem todas as estátuas em museus, é higienizar a sociedade em mentalidade única. E isto é de extremos. Sempre perigosos. 


É preciso libertar raivas contidas. Fundamental, mesmo. Mas em modos humanizados. E daí, avançar para exercícios de reconciliação, transformando a humanidade desde a riqueza da sua diversidade, a partir do respeito e do perdão. Que bom seria que a RTP3 voltasse a passar o documentário “Para além do bem e do mal - histórias de justiça e perdão”. Há tanto trabalho interior a ser feito, a começar por mim, na construção da justiça em caminhos de reconciliação até à paz, tornando o “amor mais forte que a violência”.


quinta-feira, 11 de junho de 2020

Corpo de Deus




[Secção letras verdes em dia de Corpo de Deus, com tanto a acontecer no mundo e no coração de cada pessoa]


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Simbolismos




[Secção pensamentos soltos sobre o simbólico] Olhei para esta nuvem e recordei os desenhos animados da minha infância sobre uns duendes, com chapéu de cone. Cumprimentavam-se a esfregar os narizes uns nos outros. Gostava tanto que, quando ia visitar os meus avós a Marmelete, procurava-os pelo campo. Duendes e fadas. Sempre acreditei na sua existência.

O mundo da fantasia é caminho de encontro com o simbólico. Estabelecer relações com mundos fantásticos ajuda a criança a sentir-se segura e abrir horizontes de criatividade. Também mais tarde, como adultos, necessitamos do simbólico para estruturar as nossas relações com a realidade, de modo a combater fantasmas pessoais e sociais. O que vi hoje é só uma nuvem, mas a minha memória e criatividade fizeram dela um rosto de duende simpático.

Quando se rasga uma fotografia, se deita uma estátua abaixo, coloca-se uma aliança, atribui-se um sentido simbólico de uma realidade que se quer transformar. Às vezes, é apenas contemplação, como a nuvem, outras vezes, são marcas de vida, com implicações sérias na responsabilidade dos actos. O simbólico tem características de união. Fico a pensar que o respeito, o cuidado e o sentido do outro está a pedir atenção, para que não se perca humanidade nos gestos e nas palavras.

sábado, 6 de junho de 2020

Flash de luz



[Secção coisas de nada] Quando a vi parecia que chamava para que a admirassem. Flash de luz a recordar a beleza da contemplação. Não resisti ao registo. Ainda mais simbólico de bons reencontros, em amizade luminosa, em tempos que nos pedem cuidar do outro. Ficou o abraço por dar. Mas, a luz, ah, a luz, está sempre lá.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Pele e afecto



[Secção coisas de corpo] É fascinante a importância da pele para o ser. E, apesar de a cor ser importante para a reflexão, há algo mais fundo a perceber: o afecto. A falta de afecto é das principais causas do despontar de violência, seja em direcção ao próprio seja exteriorizada. Muitas vezes, a educação desajustada em nome de uma rigidez doutrinal, intelectual, moral, ideológica, que também já tenha sido recebida de herança, perpetuam-se bloqueios na relação afectiva. Lendo sobre a importância da pele, de como os traumas também ficam registados na memória corporal, observando a realidade nos acontecimentos e no modo como se escreve por aqui, por ali e por aí, é gritante tudo a falar de afecto, ou melhor, da falta dele. O constante ataque e defesa, desde as pequenas coisas, às grandes, nas relações pessoais e institucionais, é sinal de que muito ainda se mantém nas estruturas primitivas do ser. Atravessar os medos implica um ajuste afectivo. É fundamental libertar a quantidade de crostas que se foram acumulando na pele, muitas em nome da sobrevivência. Tirá-las, para encontrar a vida, dói. Mas, como se tem visto, outras dores, pessoais e sociais, tornam-se mais intensas quando esse trabalho individual não é feito. A dissociação da corporeidade, começando pela pele como zona de individualização, causa muitos estragos. Reconhecer as zonas de falta de afecto em si mesmo é caminho para as integrações pessoal e social. Sem desvalorizar outras hashtags, apenas complementar, quase se poderia criar um movimento “#KnowingLoveAndHealingYourSkinMatter”.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Portimonense em destaque



[Secção coisas de nada] Ver o meu Portimonense com este destaque no L’Équipe faz brotar orgulho. Reconheço que posso roçar a hipocrisia, afinal, não sou aficionado em futebol e parece que só gosto do clube nestes momentos. Pois, não. Apesar de ser pouco aficionado, sou sócio há 40 anos. O que me leva a escrever é sobretudo o facto deste jornal francês ter escolhido, entre tantas possibilidades como júbilo do regresso dos jogos, um clube não considerado dos grandes (apesar de evidentemente o ser). Perspectivas. Ou poemas como o “Para ser grande, sê inteiro” de Ricardo Reis.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Breve oração em #blackouttuesday



[Breve oração ao anoitecer em #blackouttuesday]

Entrego-Te
nomes de mulheres e homens que querem a liberdade tolhida por tons de pele, na estupidez de supremacias brancas, triste e indignadamente em Teu nome. 

Peço-Te
clarividência no olhar da justiça, argúcia na voz na denúncia da injustiça, sensatez na palavra ao recordar que não fazes acepção de pessoas, mas de todas as atitudes que anulem o outro.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Dia da Criança



José Almada

[Secção pensamentos soltos, repescados, por continuarem a fazer sentido, em dia da criança] Enquanto adultos educadores temos uma função principal: ajudar o bébé ser bébé, a criança ser criança, o adolescente ser adolescente. Nenhum deles é adulto em miniatura, nem uma extensão de cada pai, mãe ou educador, mas único, necessitando de quem os oriente no caminho do crescimento, da evolução pessoal. A orientação ou educação é um desafio em permanente actualização: implica viver o complexo jogo de limites amorosos e liberdades respeitadoras. O perigo situa-se nos dois pólos “podes-fazer-tudo-que-assim-aprendes” e “não-podes-fazer-nada-sem-que-seja-eu-a-controlar”. Para não estarmos em nenhum extremo destes, muitas vezes somos nós adultos que temos de permitir que o bébé, a criança, o adolescente que em nós não cresceu o faça. Sermos como crianças, como nos recorda Jesus no Evangelho, não é nos infantilizarmos. Ser como criança é permitirmo-nos ser o que somos, no reconhecimento dos limites e das liberdades entre luzes e sombras que anseiam por dissipar-se, e assim chorar choros contidos, brincar brincadeiras impedidas, amar amores plenos e autênticos. Ao sermos adultos como crianças tornamo-nos suportes dadores de vida. Bom caminho.

domingo, 31 de maio de 2020

Todas as cores




[Secção outros tons em dia de Pentecostes nestes tempos de tanto a acontecer no mundo] Em mim habitam todas as cores e nenhuma raça. Sendo homem, complementa-se na masculinidade a força do feminino. Na fé, como padre, tento libertar-me de ideologias e extremos que impeçam o amor, a vida, a paz. Creio no Espírito que dá continuidade à revolução de Deus: fazer de cada rosto lugar de infinito e de cada coração templo, na construção do Corpo que perde a necessidade de competir e estimula o desejo de colaborar com os dons recebidos. N’Ele somos profundamente humanos e plenamente divinos.

sábado, 30 de maio de 2020

Breve oração




[Breve oração em anoitecer de Pentecostes]

Agradeço-Te
a promessa cumprida em sopro de fogo
que liberta medos e dá voz ao amor

sexta-feira, 29 de maio de 2020

I can't breathe



[Secção pensamentos soltos com letras verdes] Quando começam a circular vídeos de violência não tenho qualquer tentação de ver. Mesmo que sejam a apelar à justiça. Não significa desinteresse, simplesmente escolho não o fazer. Desta vez foi diferente. Ainda sem ter visto, ecoava-me na oração o “I can’t breathe” [“Não consigo respirar!”] de George Floyd, enquanto as lágrimas saiam. Como agora, ao escrever. Sim, desta vez tinha de ver. Não pelo masoquismo, mas na empatia de saber que tristemente, como pertencente à humanidade, também deixei de respirar, acabando por morrer. Não se é o mesmo depois da morte. Não se é o mesmo depois da morte por violência. Não se é o mesmo depois da morte por violência à mão de quem nos deve proteger… seja polícia, pai, mãe, irmão, irmão, filho, filha namorado, namorada, marido, mulher.

Ao mundo falta respiração, em consciência do alento que transforma o instinto em  cuidado do outro. A profundidade que nos leva a atravessar as sombras do pior de nós, deixando transformar em humanidade. Esta violência tem gerado mais violência. É compreensível pelo emotivismo vigente, contudo têm de haver passos concretos de se encontrar a Paz. É fácil apontar o dedo, dizendo que o problema é do outro. Tremendamente mais difícil é fazer a travessia do deserto enfrentando o nosso lado escuro. Atenção, não desculpabilizo para nada nenhum agressor. Tem de haver a condenação dos actos, para além do simples despedimento. Que se faça justiça, da que não alimenta mais violência. Para isso, recordo algumas palavras de Martin Luther King do seu “I have a dream”: 

“Há algo, porém, que devo dizer ao meu povo, que se encontra no caloroso limiar que conduz ao palácio da justiça: no processo de ganhar o nosso legítimo lugar não devemos ser culpados de actos errados. Não tentemos satisfazer a sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio. Devemos sempre conduzir a nossa luta no nível elevado da dignidade e disciplina. (…) Não podemos caminhar sozinhos.”

Que nenhuma morte justifique mais mortes. Que esta morte seja viragem para a consciência do fim de todas as fobias humanas, permitindo que todos possamos respirar digna e livremente.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Haverá um dia



[Secção outros tons quando tanto acontece pelo mundo] Haverá um dia em que o corpo não será fronteira, mas casa. A porta aberta sem trinco. À entrada, os sapatos ficam, deixando os pés tocar o sagrado de cada ser. No jardim, a mesa com refrescos e muitas cadeiras. E pufos. E toalhas estendidas a acolher o espreguiçar de tanto sofrimento. Tudo a dar lugar a quem queira participar do todo. As cores são bem-vindas à dança, permitindo que se possa respirar sem medo, livremente. Haverá um dia.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Breve oração




[Breve oração durante a tarde] 

Agradeço-Te 
o silêncio na visita a cada sombra
escutando com sagrado respeito 
os ruídos de outros tempos

Peço-Te
a lucidez para acarinhá-los
enquanto se transformam em sabedoria

terça-feira, 26 de maio de 2020

"By Heart"



[Secção pensamentos soltos sobre cultura] Nos meus tempos de estudo em Paris fui ao teatro ver “By heart” de Tiago Rodrigues. A peça fala da sua avó Cândida. Sabendo-se a ficar cega, pediu ao neto que escolhesse um livro para aprender de cor, de modo a continuar a lê-lo mentalmente quando deixasse de ver. Na folha de sala: “lancei-me numa viagem. Uma viagem literária e labiríntica que, ainda hoje, continua”.

Ao pensar na cultura, nestes dias em que se toma forte consciência da precariedade dos artistas, dos produtores, de todos os técnicos que trabalham nos bastidores, recordei o “By heart” por muito do que foi dito e que escrevi na altura a partir da peça:

Dá-se uma viagem pela literatura. George Steiner é citado a partir d’ “O belo e a consolação”. (…) O saber de cor, no coração, lugar da força dos afetos e discernimento. Aprende-se de cor, mais do que memória mental, o que se ama ou se quer perdurar. No coração guardam-se versos de poemas ou capítulos de textos que nenhuma polícia ditatorial poderá mandar queimar. Aí, de cor, ficam a amadurecer as palavras que fazem sentido à vida. Em jeito de recordação, como no ritual judaico, onde o mais novo pede ao mais velho para repetir a história dos antepassados. A explicação de toda essa viagem: a avó Cândida sempre leu durante toda a vida. Mesmo preparando bacalhau no restaurante que abriu com o marido, passando também a II guerra mundial, a mistura do banal com o profundo acontece através das palavras.


Volta à memória o que senti na peça, o que me provocou reflexão no regresso a casa e dias seguintes, até hoje: os ecos da tão necessária humanização que nos faz viver para além do biológico. Em “By heart” foram-nos dados literalmente a comer versos de Shakespeare. Bela alusão ao alimento de alma que necessitamos na caminhada de humanização. Mas, os artistas, os produtores e os técnicos que fazem da vida criação para nos alimentar a alma, precisam de reconhecimento nestes tempos, para que também possam comer e não perder a força da inspiração e criatividade.


A saúde física complementa-se com a intelectual, a relacional e a espiritual. A cultura a todas alimenta.



segunda-feira, 25 de maio de 2020

Uma joaninha



[Secção coisas de nada] Pousou. Ali ficou a caminhar pela mão. A simplicidade da joaninha fala de Primavera. Fiquei em silêncio a olhá-la e a pensar que nestes momentos de contemplação as ideologias desaparecem, as crenças esfumam-se, o clubismo não tem sentido. Sem necessidade de provar nada, apenas fica o deleitar-se. Não tira a fome. Não acaba com as injustiças. Não anula desigualdades. No entanto, a paragem provocou o agradecimento de tanto que vai para além de mim, de modo a continuar o caminho de amor ao próximo. Pouco depois, voou. 

Vigília Inaciana



[Secção Jesuítas-on-fire] Pela primeira vez, vamos ter uma celebração conjunta para todo o mundo. Será no próximo Sábado, pelas 19h em Portugal, que a família Inaciana por todo mundo se juntará a rezar em Vigília de Pentecostes online. Fica o registo para apontar na agenda. Em breve, mais informações. #TogetherAMDG #IgnatianPentecost

domingo, 24 de maio de 2020

Maturidade na fé



[Secção pensamentos soltos sobre maturidade na fé] Ser homem ou mulher de fé amadurecida, crescida, adulta, é exigente. Nos inícios, qual criança a que se lhe tem de dar comida à boca, é necessária a devida ajuda na compreensão dos mistérios. Escrevo “mistérios” no sentido da raíz “mythos”, de algo sempre novo a descobrir. Nada que ver com fechamento. Muito pelo contrário, com maior abertura de horizontes. A fé amadurecida é aquela que ajuda à libertação de acessórios, encontrando a força do essencial: o Deus da Vida e do Amor.

Os discípulos são enviados às periferias. Se olharmos a comunidade escolhida por Jesus vemos que de cultos, muito pouco; um ou outro algo bronco; e até escolhe um que o trai. Jesus na sua vida conhece a humanidade com a luz e a sombra. É nessa totalidade que a resgata para a divindade e é também o que celebramos hoje, com a Ascensão. Cristo quer que cresçamos na fé, não ficando agarrados a imagens que façamos dele. Não nos quer como crianças, a receber a comida directamente na boca dada por alguém. Todo o nosso ser, desenvolvido, é para a liberdade no acolhimento e comunhão d’Ele em mãos, como ensinaram desde muito cedo os Padres da Igreja, por serem o sinal do serviço ao outro. Quando crescemos na fé, deixamos a pequenez de horizontes e somos capazes de ir seja aonde for e estar seja com quem for a ser dadores de vida e de justiça. O adulto na fé não segrega pessoas, mas congrega. O adulto da fé não ataca pessoas nem promove a violência, mas contribui para a união. O adulto na fé não se fica a olhar o alto em espiritualismo etéreo, mas sabe que o concreto, o contexto, é realidade de Deus, por isso, sem necessidades de supremacia, seja de que tipo for, aprende a dialogar com todas as tradições.

Tudo isto é exigente, sim. Até pode ser mais confortável ficar-se acomodado na infância. Ainda assim, a Solenidade da Ascensão recorda-nos, mais uma vez, que somos chamados, não a defender, mas a anunciar a vida em Seu nome. Para isso, é preciso crescer, madurar, na beleza da fé. Afinal, Ele tem em si mesmo tudo o que somos e desafia-nos a ser participantes da liberdade de tudo o que Ele é: Amor.