segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Um ramo de amendoeira entre luz e sombra


[Notas soltas sobre paternidade espiritual] Voltei a esta fotografia. Tirei-a nos meus dias de silêncio, em Exercícios. Fiquei parado a ver a flor de amendoeira. Reluzia com a subtileza do seu diálogo com os raios de sol. Pequena. Como um floco de neve. Recordei a lenda algarvia. Enquanto isso, no coração latejava esta passagem proposta para a oração, do profeta Jeremias: “Em seguida, o Senhor estendeu a sua mão, tocou-me nos lábios e disse-me: ‘Eis que ponho as minhas palavras na tua boca; a partir de hoje, dou-te poder sobre os povos e sobre os reinos, para arrancares e demolires, para arruinares e destruíres, para edificares e plantares.’ Depois foi-me dirigida a palavra do Senhor nestes termos: ‘Que vês, Jeremias?’ E eu respondi: ‘Vejo um ramo de amendoeira.’ ‘Viste bem - disse-me o Senhor - porque Eu vigiarei sobre a minha palavra para a fazer cumprir.’”


Recordo a sensação em mim enquanto rezava. Pequeno. Como a flor. Em luz e sombra. São tantas as vezes que peço a humildade a Deus, sabendo que Ele cumpre a Sua palavra. Como padre tenho imenso poder nas mãos. No olhar. No escutar. No falar. No agir. Atravessa-me mesmo a pequenez e a delicadeza da flor, com toda a responsabilidade que simbolicamente traz. Estes dias tenho-me emocionado, quando confirmo que só podemos viver a vocação com e por Deus. 


Quando escutamos a fragilidade de alguém, temos a sua vida nas mãos. É grande a responsabilidade. Cuidar bem dessa vida só é possível se estivermos centrados no respeito e constantemente conscientes, com toda a humildade diante de Deus, do poder de arrancar e demolir, arruinar e destruir, edificar e plantar. 


Por isso, é tão importante o silêncio. De pés no chão, a aprofundar raízes. A re-centrar o coração naquele que toca os lábios e o coração, sabendo que o poder é para O ajudar a que a Sua luz atravesse todas as sombras, em Primavera anunciada, naqueles e naquelas que confia a quem cuida espiritualmente. Na minha, nossa, pequenez, Ele engrandece nas suas vidas. Assim o creio. E as pétalas cairão dando lugar ao fruto.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Breve oração



[Breve oração ao anoitecer depois de um dia de muitos pensamentos sobre a existência]


Agradeço-Te

as cinzas de tudo

o que me impede de ser mais

livre, autêntico e consciente

dos limites e dos dons

das luzes e das sombras 


Peço-Te

que as uses para fertilizar as terras

que modelas com ternura

e insuflas de alento de Vida

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Pressão, pressões.


[Secção pensamentos soltos sobre critérios para candidatos a emprego] Parece que cada vez mais aparece “capacidade de trabalhar sob pressão” nas ofertas de emprego mais generalizadas. Não se tratam de ofertas para “gabinetes de crise”, “gabinetes de apoio em situação de catástrofe”, mas para “designer”, “marketing”, “áreas administrativas”, etc.. Dá que pensar.


Quando se fala, tanto de temas fracturantes e polémicos, como de aparentes banalidades, há que ter em conta o ser humano na sua existência total, para lá da sua funcionalidade. Mas, tal não acontece. A pessoa na sociedade actual corre o risco de ser mais uma peça de engrenagem, desculpem a expressão, mas “carne para canhão” numa empresa ou gabinete. Trabalhar em pressão até pode ser motivador, estimulando a criatividade, em determinados contextos. Mas, em situação prolongada, a pessoa vai-se deteriorando rapidamente nas muitas dimensões do ser. Por isso, normalizar-se o “trabalho sob pressão” é, a meu ver, perigoso a vários níveis. Para empresas sem cuidado e atenção pela pessoa, quem sofre esgotamentos pela pressão, sai e é substituída. A empresa segue. Pois, somos pessoas e não máquinas. 


Os últimos tempos têm sido totalmente atípicos, provocando alterações sociais sérias. Fala-se mais e bem de saúde mental. Mas, e sobre a saúde laboral? Normalizar “trabalho sob pressão” é contribuir para reduzir a pessoa a máquina ao serviço do sistema. E, repito, não somos peças, nem máquinas, mas pessoas, tanto quem busca emprego, como quem é emprega. A única pressão plenamente boa é a de um abraço ou aperto de mão a a afirmar que se está junto na colaboração para o trabalho ser mais humano e mais digno, dando tempo e espaço para contemplar e agradecer a vida.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Dia dos consagrados



Nuno Gonçalves


[Secção pensamentos soltos em dia dos consagrados] Tracei este dia na agenda para ser de descanso. Mais uns minutos na cama pela manhã, oração prolongada, leituras, afazeres de ministro (sim, sou, mas sem assento parlamentar. É um serviço comunitário), passeio pelo bosque, sesta longa, Missa, telefonemas e mensagens, daqui a pouco breve oração e dormir. Ah, comi. Ainda não vivo do ar. Se bem que quando vivia no ar, ouvi: “ah, vocês também comem?” Voltando a hoje, deu para pensar nisto de ser consagrado. E de tantas perguntas que surgem sobre a vocação religiosa. Fará sentido nos dias actuais?


A minha resposta é claramente óbvia. Sim. Entregar a vida totalmente, em comunidade, é um desafio tal como outras vocações. Se bem que, em particular como jesuíta, implica a disponibilidade de coração e de acção. E isso acarreta muito de vida, onde o tempo tem outra dimensão, impensável e impraticável caso tivesse família. Ainda assim, o alicerce profundo é o da espiritualidade. A relação com Deus que nos desafia à liberdade nesse serviço maior a quem mais precisa. Também atravessamos contradições, lutas interiores, silêncios e buscas de maior autenticidade, para podermos testemunhar Deus que nos quer a todos adultos na fé, com alegria. Em tempos, falava-se da vida religiosa como a perfeita caridade. Tenho dificuldade com o termo. A imperfeição também me, atrevo-me ao plural, nos corre nas veias. E ainda bem. Além de ver muita perfeição noutras vocações, a imperfeição torna-me mais próximo e empático com as vidas que acompanho. Pois, é bom deixarmos a comparação de a-minha-vida-é-melhor-que-a-tua. 


A decisão da vida religiosa tem mesmo de ser atravessada de confiança no chamamento por Deus. Dá-se sensação profunda de realização interior, que se manifesta, apesar de todos os cansaços, com a paz que nos descansa. O importante: tomar consciência de que somos colaboradores de humanidade e divindade, a sermos luz e alegria para o caminho de quem de nós se aproxima, apontando na direcção daquEle que vive a amar. Afinal, há que nos choc…, perdão, animar com amor e humor a vida uns dos outros.


terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Estrelas em terra



[Secção coisas de nada] De uma das janelas do gabinete onde escuto, tenho acompanhado o florir de uma magnólia. Flor em flor, foi despontando até se revestir de branco. Depois de uns momentos de silêncio, contemplei-a, serena, no anoitecer. Enquanto olhava as flores, a serem envolvidas pelo escuro da noite, imaginei-as estrelas em terra. Como cada pessoa a querer ser ponto de luz na escuridão que pode estar a vida, sua ou de alguém. Cada vez mais pessoas vêm desabafar a sua escuridão. E em muitos casos é grande. Enquanto as escuto, acompanho, tentando orientar em direcção ao pontilhado luminoso presente nas suas vidas. Deus tem sempre meios curiosos para nos revelar a luz. Isso, estrelas em terra. Sempre sagrada, como é cada pessoa.


segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Lugar de luz



Click Criativo


[Coisas na vida de um padre] Chegam boas recordações de dia bonito, do baptizado do Henrique. Já passaram dois anos (ainda pré-pandemia). Olho a foto e recordo o momento: acolher com beijo na testa, sinal de respeito pela força da vida do Henrique. As crianças são lugar de luz. E fico com sorriso embevecido.


domingo, 30 de janeiro de 2022

Escola de Famílias - (In)Fidelidade





[Notas soltas sobre a Escola de Famílias à volta da (in)fidelidade] Quando tenho de falar de temas humanos mais polémicos ou considerados tabu, deparo-me sempre com a necessidade de voltar ao básico. Volta que resulta muito da escuta e observação da realidade. Vou usar absolutos com o perigo de generalização, mas aqui vão: Todos queremos ser bons, especiais, únicos. Todos queremos ter famílias maravilhosas, perfeitas, dignas de publicação, com imensos filtros a dar leveza. Todos queremos não ter qualquer tipo de problemas. Todos queremos que não haja sofrimento no mundo e se for na vida pessoal mais ainda. Surgem as idealizações e as expectativas, junto com as comparações que impedem a constatação da realidade atravessada de luz e sombra. 


Voltar ao básico é recordar que somos seres de relação, manifestando-se em relações, elas mesmas atravessadas de: emoções, sentimentos, provocados pelo instinto de sobrevivência; educação e cultura; racionalidade; e espiritualidade. A fé, antes de irmos para a transcendência, estabelece-se desde o afecto de pele a pele quando nascemos, abrindo-se a realidade de confiança e/ou desconfiança conforme a realidade de vida que vivemos. Ser fiel, antes de ser algo moral, tem de ser trabalhado ao nível existencial. 


A traição e a infidelidade, na sua complexidade, muitas vezes estão ligadas a idealizações de realidade e, mais ainda, ao desconhecimento emocional diante do que se vive na imperfeição, nos desajustes, no sofrimento. O reencontro, a reparação, a reconciliação são possíveis, mas exigem muito trabalho individual e a dois. 


Ontem, falei um pouco mais de tudo isto. Antes, foi partilhado um forte, sentido e bonito testemunho de desencontro e de reconciliação e de seguida estivemos em conversa a Juliana, o Gonçalo e eu sobre como é trabalhar a fidelidade desde o discernimento, apoiados também em Deus. É de extrema importância falar de temas complexos com maturidade e respeito, como ajuda à humanização também da relação-família, ela mesma estruturante da sociedade. Deixo o link para quem quiser ver toda a sessão: https://youtu.be/3x2LycDL9Dg



sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Breve oração


Nuno Gonçalves


[Breve oração ao anoitecer]


Agradeço-Te

o suporte que somos em abraços,

formando comunidade

na beleza de criarmos laços

em humanidade e divindade


Peço-Te

sermos mais uns com os outros

e uns para os outros

atravessando diferenças

e encontrando as semelhanças

entre nós e conTigo 


quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

De regresso


[Breve nota no regresso dos Exercícios Espirituais] Trago o sussurro do silêncio. Reparar é o verbo destes dias, onde parei, permitindo-me ver a luz a renovar-me no caminho da escuta. Levei o silêncio do Túmulo, nos ecos de Jerusalém. Precisava de atravessar mortes, dando tempo e espaço a Deus para me abraçar e erguer em ressurreição. “Envio-te a dar Vida!”, foi o que me disse depois de colocar-Lhe nas mãos tantos nomes. Cada uma, cada um, estiveram na minha oração. Haja luz a envolver cada sombra.


terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Tempo de pausa




João Almeida


[Secção pausa para Exercícios Espirituais] A partir desta noite, durante a próxima semana, recolho-me em retiro de silêncio. Farei os Exercícios Espirituais. Desde os últimos, há quase um ano, tanto aconteceu, sobretudo na escuta de centenas de pessoas, com o impacto da viagem a Israel, em particular Jerusalém, no mundo e Igreja em transformação. Levo, como assim é em cada dia, muitas pessoas no coração, no encontro com o Criador e o Seu amor. Agradecerei o caminho percorrido e espero estar atento à Sua vontade para o devir. Peço a oração ou o bom pensamento. Contem com as minhas orações, de A a Z. Vou ali e já volto. Até breve.


segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Encontros


[Coisas na vida de um padre] Amanhã, dia 18, às 18h30, na Fnac do Colombo, Lisboa, tenho o gosto de apresentar o livro “Guia para uma vida simples” de Marta Arrais. Enquanto relia algumas partes, eis que o Noor escolhe o melhor momento para também vir ler. Piou-me: “se tiveres dúvidas, avisa.” Começámos uma boa conversa sobre a beleza de voar. Disse-lhe do sonho de vestir uma farda com meia-asa e os paramentos de padre a celebrar missa em pleno voo. Piou-me, como eco, o final do Evangelho de hoje: “a Deus nada é impossível!”


domingo, 16 de janeiro de 2022

Breve oração


[Breve oração ao adormecer]


Agradeço-Te

as amizades com raízes 

sem tempos a expandir céu


sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Encontros



[Breve acontecimento numa tarde de descanso] Aconchegado de manta na cama, já escuro e frio lá fora, com música suave e boa leitura, ora a dormitar, ora a pensar, ora a rezar por alguém, recebo duas visitas: Noor e Oliv. Já cá tive o Bereshit, mas voou até Portimão e lá ficou a fazer companhia ao Xiribiri. É o rei da casa, dizem-me os meus pais. Já estes dois, também querem ter esse posto no meu quarto. São a banda sonora de fundo, quando aqui falo ao telefone, como se ouve logo do outro lado. Fazem boa companhia. A custo de sementes de girassol, afinal não fizeram voto de pobreza. Ainda! Temos muito a conversar entre os três.


quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Força da palavra



[Secção memórias com pensamentos soltos] Há tempos, no caminho de conhecimento de mim, de curas de memórias, aflorou-me uma do início da adolescência. A entrar na escola, cumprimentam-me: “Bom dia, saciram!” Com risos de seguida. Não percebi porque me chamavam aquilo. E ao longo do dia, mais vezes veio o saciram sempre com risos de gozo. Lembro-me do incómodo sentido. Ao final do dia, depois de insistência minha, em mais humilhação, perguntei porque me chamavam aquilo. “Ainda mais és atrasado! Saciram é maricas ao contrário. És maricas de todos os lados!” Senti-me profundamente mal. 


Partilho isto por dar-me conta de que “mariquinhas” foi usado por quem se candidata a governar 10 milhões de pessoas com diversas características. Diz-se que a política muitas vezes é teatro entre eles e que não se deve levar a sério. Se isto é assim, preocupa-me. Porque governar pessoas não é nem teatro, nem gozo, mas responsabilidade por vidas. Por isso, é preciso tomar consciência de que a linguagem usada tem carácter simbólico e afecta mais do que se imagina, por, e é sério, legitimar ora o positivo ora o negativo. Não me parece tratar-se questão de sensibilidade, mas de maturidade, ainda mais expectável de um candidato. A polarização que existe, levando a hostilidades gritantes, não é caminho de humanização. Podem haver perspectivas diferentes de governação, mas tudo o que é insulto, rebaixamento do outro na sua dignidade, é inadmissível em quem pretende ser líder. Infelizmente, honra e sentido de liderança, não para poder e usufruto pessoal mas responsabilidade social, é coisa deficitária nos últimos tempos. Fazer-se uma reflexão séria sobre liderança e sentido de governo, em especial depois dos efeitos psico-sociais desta pandemia, é urgente e necessária. 


Quem pode fazer caminho de cura, libertação interior, perdão e reconciliação, como tenho vindo a fazer, consegue impedir mais violência. Infelizmente, há muitas pessoas que não conseguem. Por isso, quem governa, ou pretende governar, tem de ter maturidade para contribuir a que os mais fracos e desprotegidos sejam apoiados e integrados, de modo a se sentirem profundamente bem numa sociedade mais livre e humana.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Pedras e libertação


Marta José - Dreamaker


[Conversas soltas, com a devida licença para partilhar] 

- P. Paulo, eu não sou nada vingativo e não quero fazer mal a ninguém, mas a dor é tão grande. É uma angústia por tudo. Ainda mais quando o mal que nos fazem vem de quem menos se espera, tanto pela aparente amizade, como pela suposta crença.

- Do que já tínhamos falado, aqui não há julgamento sobre o sentir. Por mais duro que seja, o que lhe apetecia fazer? 

- Não posso. 

- Aqui pode.

- Mas, e a minha consciência?

- Aqui não está a cometer a acção, apenas a dar-se conta em honestidade consigo mesmo do sentir mais profundo. Vamos até à quinta. Vai apanhar um pedra por cada sentir, por cada pessoa, por cada realidade. Não se fique pelas pedrinhas. É mesmo de sentir o peso físico do que provoca a dor, a angústia.

[Fizemos o caminho e o saco ia ficando cheio de pedras.]

Pode repetir em voz alta, agora a sentir o peso do saco, o que lhe fizeram?

[Repetiu acção por acção terríveis.]

Pegue numa pedra e dê-lhe nome. O que for. O que representa. E quando estiver preparado, jogue-a longe.

[Quando tal acontecia, eu berrava, a ajudar a libertar a fúria, a zanga, a dor]

Mais uma!

[As lágrimas de raiva surgiam, saindo a dor mais profunda.]

Aqui não há julgamento. Apenas a verdade do sentir. Liberte!

[Mais um berro meu, a sincronizar com a dor.]

- Fizeram-me tanto mal. 

[Outra pedra voava para longe, levando a simbolicamente o sentir verdadeiro.]

Sinto-me tão cansado, mas estranhamente leve.

- O cansaço e a leveza são naturais que surjam. A dor, a angústia, a raiva estavam a consumi-lo, a destrui-lo por dentro. Para se poder pensar no que há a fazer com racionalidade e justiça é fundamental libertar as emoções que abafam a alma.

- Preciso descansar.

- Para dar continuidade ao novo acordar. 


terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Pinceladas de beleza






[Secção coisas de nada] Amanheceu com tons de mistério. O nevoeiro rodeava a quinta, dando-lhe silêncio ainda mais sossegado. Detive-me nas pinceladas de beleza. Como a fragilidade de um fio, que à escala revela tanta força para aguentar o toque da bruma. Pensei nas pessoas frágeis que são, ainda assim, sinal de força de vida. E que aguentaram tanto. As memórias e as experiências que se tornam resiliência no caminho de encontro. Desde aí, formam redes, entrelaçam relações, partilham histórias como testemunho de que é possível, apesar da fragilidade, ser forte. O nevoeiro foi levantando. O sol despontou. Enquanto contemplava os pequenos diamantes a brilhar pousados nas pinceladas de beleza, o tempo parou e senti a leveza da eternidade. Agradeci e voltei à escuta de vidas também plenas de mistério do imenso de humanidade.


domingo, 9 de janeiro de 2022

Boas recordações



SL Casamentos


[Coisas na vida de um padre] Chegam boas recordações de dia bonito. E com uma criança a animar. Disse-lhe que podia ir ao microfone dizer o quanto gostava dos padrinhos, já que ficou perto deles quase toda a celebração. Afinal, toda a gente tinha de ficar a saber esse carinho. Depois, ia querendo mais. Das coisas boas das crianças é que nos recordam esse mais da alegria e do amor a que somos chamados.


sábado, 8 de janeiro de 2022

Breve oração



[Breve oração ao anoitecer]


Agradeço-Te

as perguntas feitas pontes

convidando a travessias para lugares

de escuta e livres de preconceitos 


Peço-Te

ajuda-nos a derrubar muros de rótulos 

e assim abrir espaço a conversas

de comunhão, expandindo humanidade


quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Sobre sexualidade


[Secção pensamentos soltos sobre sexualidade] Os ecos do live com a Xia continuam a chegar. Entre mensagens de agradecimento e desabafos, é notório o impacto que aquele momento teve em tantas pessoas. Consciente das muitas fronteiras, sabendo que o humor seria o registo, houve oportunidade de, tal como gosto, boa conversa. Surgem muitos comentários positivos pela minha abertura para falar de temas como sexo, sexualidade e corpo. Pois, parece-me cada vez mais importante falar-se disto de forma madura, clara e adulta. A carência da educação sexual (que nada tem que ver com promoção de sexo) é gritante, levando a profundos desajustes no que realmente importa: o respeito pela dignidade da pessoa. 


Infelizmente, a formação demasiado moralista que castra a criança, impondo-lhe “nojos”, “vergonhas” e outras coisas que tais na sua fase genital, que é de descoberta sensível e física (repito, sensível e física), faz com que muitas pessoas estejam estagnadas aí, tornando a realidade sexual algo desde o conspurcado ao idolatrado. Pois, os extremos são perigosos. Depois, dado a piadas que, num momento têm graça, haja humor, sim, mas depois se se insiste… isso, é a confirmação de que ainda se está na fase sensível e física. É que do físico, há que passar ao relacional, ao encontro. E tal pode ser, em acto sexual. Ou não. A sexualidade implica afecto de entrega ao outro sem que necessariamente haja sexo. Esta consciência não acontece de um dia ao outro. É trabalho interior, desde a vocação particular, para a vida toda, em todas as condições de vida. 


Se queremos de sair de: violência de género; mulheres ou homens como objectos sexuais; tensões entre casais; infidelidades várias; abusos vários; rejeição da realidade própria de corpo; então, há que abordar a sexualidade de forma adaptada às diferentes capacidades de entendimento conforme as idades, ou seja de forma madura, desde as dimensões física, psico-afectiva, racional, social e espiritual. A dignidade, o respeito, o sentido de alteridade é caminhada humana. E, sim, como em tudo no humano, podemos levar com humor, desde que atravessemos as fases em maturidade. O bom da boa sexualidade é que verdadeiramente humaniza.

sábado, 1 de janeiro de 2022

Desejos soltos


João Almeida


[Desejos soltos no primeiro dia de 2022] 


Que sejamos travessia, em qualquer tipo de viagem, para a Paz. 


Pelo caminho, se abra a consciência do que nos impede de amar, e livres, amemos. 


Olhemos o outro, para lá de todas as diferenças e ainda que nos custe cruzar a presença, como igual em dignidade. 


Possamos permitir Deus entrar no caminho e assim crescer com Ele, que nos quer adultos na fé. 


Ajustemos o material à necessidade do que realmente precisamos na vida, sabendo que num instante damos conta de que apenas o abraço importa. 


Possamos ter coração disponível para acolher, cabeça fresca para pensar o que acolhemos e mãos abertas para devolver em dádiva de bem.


Vivamos o humor em recordação da alegria como fonte de humanidade e a reverência como sinal de respeito, em especial por quem sofre. 


No meio da multidão, agradeçamos sermos apenas mais um. No silêncio do quarto, agradeçamos sermos únicos. No conforto de um abraço ou beijo, agradeçamos a possibilidade de partilhar afecto.


No serviço, sejamos generosos a pôr os dons a render, em colaboração com quem nos é confiado no caminho. 


Ganhemos tempo em leituras, conversas, encontros, silêncios, espectáculos que nos abram o ser a cuidar da humanidade e da nossa casa comum. 


Boas passagens na continuação de caminho em 2022.


sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Breve oração


[Breve oração antes da Passagem]


Agradeço-Te

o amanhecer e o anoitecer

de onde saem as sementes

com as raízes ao mais fundo

e os ramos ao mais alto 

de corpo pleno de Ti


Entrego-Te

as vidas e as mortes


Peço-Te

água límpida

pão fresco

vinho doce

para continuar, levando nomes, 

o caminho de liberdade até Ti


terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Encontros


João Almeida


[Conversas soltas, com a devida licença para partilhar]

-Sempre me defini ateu, ultimamente nem sei. E agora depois de ter tudo o que gostaria, ainda assim há um vazio que me habita. Não me identifico com as Missas, com a religião. E já li e viajei muito à procura. 

-À procura de si?

-Não, de colmatar esse vazio.

-Ou seja, de si.

-Como assim?

-Também me sinto algumas vezes perdido. 

-Estranho, um padre não vive de certezas?

-Algumas. Mas essas certezas não afastam a busca. E ver que essas certezas também são usadas em nome de poderes individuais e institucionais, causa vazio. Junto também a consciência do mal em mim, que posso fazer. De vez em quando, e ainda bem que acontece, abana as estruturas e sinto-me perdido. 

-Como faz?

-Tento viver cada vez mais o exigente exercício da verdade. Para lá daquela lógico-racional, a verdade do que é, do que sinto, das vontades mais viscerais às mais virtuosas. Ao princípio, era muito duro. Lutava comigo mesmo, com vergonha, com medo. Ainda acontece. Mas muito menos. O que me apercebo entrego a Deus na Missa.

-Pois, mas eu não acredito na Missa, nem em Deus.

-Já atravessou algum sofrimento visceral?

-Foi há muitos anos. Um dos meus filhos esteve muito mal, com uma meningite. Recordo estar disposto a tudo para que ele ficasse bom. Ainda dói quando penso nisso.

-Ele ficou bem? 

-Sim, sim. Mas, apercebo-me: voltámos à mesma rotina. Como se nada tivesse passado.

-E talvez, subtilmente, levantou-lhe a busca do sentido? Destapando o vazio?

-Isso. Sobretudo ver como a vida é efémera. O medo de o perder fez-me perceber a minha pequenez. E eu não podia. Tinha de ser forte.

-Então viajou à procura da sua pequenez?

-Tenho medo que Deus me anule.

-Qual Deus?

-O que nunca conheci, mas quero conhecer. Como acredita em Deus? O que o leva a ser crente?

-O modo como Ele atravessa a vida das pessoas com amor, quando O permitem.

-Tenho medo que Ele me mude. 

-O quê?

-A vida.

-Aquela que mudou quando se deu conta ser efémera? 

[Faz-se um largo silêncio.]

-Estou com uma estranha sensação de presença. Nunca tinha acontecido.

-Feliz Natal. 

[Demos uma gargalhada.]

-Acho que cheguei ao início de algo novo.

-Bom caminho!


sábado, 25 de dezembro de 2021

Nós não somos deste mundo


[Secção pensamentos soltos no dia de Natal] Ruy Cinatti no poema Anunciação repete por três vezes o verso “Nós não somos deste mundo”. Essas três vezes, cada vez que o leio, ecoam fundo em mim. Nós não somos deste mundo. E não somos mesmo. O Natal marca essa certeza. E sinto-me tão convicto dela, graças a outra certeza: Deus fez-se fragilidade e nasceu longe de todos, menos dos excluídos, representados pelos pastores. O Seu nascimento abre-nos as portas ao mundo a que pertencemos: ao divino. Mas apenas conseguiremos perceber isso se nos fizermos simples, desde Ele e com Ele. 


A simplicidade a que o Natal desafia faz-nos tirar adornos de vida: do poder, das coisas miseráveis que desgastam a humanidade, das cobranças de amizade e  do que desvia o sentido do amor. Precisamos de Natal. Precisamos de contemplar o Menino Deus em palhas: que sinal imenso a desmontar todas as imagens desviadas de poder desumanizador. Somos chamados à alegria, com o convite a libertar os adornos e descobrir o divino na simplicidade.


Quando acendi uma destas velas em Bethlehem, junto ao sítio onde Jesus nasceu, pedi pela simplicidade e pela paz. Ontem à noite, a rezar com a Luz do Menino Deus, agradeci por Ele nos abrir as portas do Seu mundo, aquele a que verdadeiramente pertencemos. Sejamos, assim, Natal uns para os outros e uns com os outros. E o mundo de que somos amplia-se em Luz e Amor. Santo e Luminoso Natal!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Breve oração



[Breve oração na Noite do Menino Deus] 


Agradeço-Te

seres parto de Luz e de Paz,

dando vida da Tua à nossa carne

permitindo a fragilidade ser lugar divino


Entrego-Te

cada nome que guardo no coração

em particular os que mais sofrem

para que deles faças brotar Natal


quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Olhar o horizonte


[Secção coisas de nada em ante-véspera de Natal] Olhar o horizonte provoca em mim esperança. Tenho perdido a pressa de estar lá, no futuro, libertando-me das ânsias do amanhã. Sucedem-se os abraços de Natal. Enviam-se os desejos bons para este dia que continua a transformar a humanidade. Mas faz cada vez mais sentido o presente e ser presente. Isso abre rasgos de céu ou vias que ligam corações em amizade, carinho, perdão, respeito. Já em ecos deste Menino a germinar e prestes a nascer tendo nele a Paz. Torna-se ramo de novidade e de esperança. Ainda assim, não se impõe. O que dá, livre e gratuitamente, só chega a quem está disposto a acolher, a receber. Quem o faz, descobre que ser divino é ter poder para amar mais e mais. Enquanto olhava o horizonte, rasgado de esperança, brotou-me a invocação:


Ó Luz sem ocaso

que embelezas a noite,

atravessa os corações empedernidos

com o mistério da Tua carne

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

A Nossa Tarde


[Coisas na vida de um padre] O Facebook recordou-me que há quatro anos estive à conversa com Tânia Ribas de Oliveira e José Pedro Vasconcelos sobre o Natal. Hoje voltei à RTP. Desta vez, muito bem recebido por Vanessa Oliveira, fui o primeiro convidado do programa e partilhei algumas ideias sobre Natal. Aqui fica o link: https://www.rtp.pt/play/p8248/e587704/a-nossa-tarde


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Deus é simples


[Notas soltas sobre Advento] Tenho tido dias muito intensos a vários níveis. É bom. É a vida a acontecer (também e sobretudo para lá das redes sociais). Este advento tem sido muito preenchido de dádivas de esperança, também com muitos ecos dos efeitos em mim da viagem a Israel. E hoje avivou-se a memória, com este presente cheio de beleza, criado pela i.lust.tra.me, daquele momento único no Túmulo, de noite a rezar pelo mundo. Sai-me o sorriso, o silêncio e a gratidão a repassar no coração aqueles dias lá. E confirmo a missão: tenho pensado e rezado muito por tantas pessoas, ainda mais nestes tempos cheios de agitação. Brota da oração: Deus é simples e faz-se ainda mais simples em Menino. E nós complicamos. Precisamos mesmo de paragens de amor, de escuta, de renovar o sentido de caminho. Pois, precisamos de Natal: nascer, dar vida uns aos outros. Esta vida também de Deus que nasceu e a entregou. Pensar que está nas mãos de cada pessoa provocar nascer de vida nova. Ele desafia-nos a isso. Amanhã voltarei a falar de Natal em boa conversa com Tânia Ribas de Oliveira no “A Nossa Tarde” na RTP1. Sigo em caminho, na beleza de Deus a chegar.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Vejo olhares


[Secção letras verdes] A começar mais uma orientação a um grupo a fazer Exercícios Espirituais.


quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Breve oração


Christopher Sousa


[Breve oração depois de dias intensos]


Agradeço-Te

seres suporte de caminho,

seriedade na escuta e

entrega autêntica a dar Vida


Peço-Te

generosidade 

como a luminosa flor 

de final de Outono


terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Levar as alianças



Estúdio 44


[Coisas na vida de um padre] Chegam boas recordações de dia bonito. E nesta recordação destaco a importante missão de levar as alianças à nova família. Primos, afilhados, filhos, amigos do coração, já assisti a muitas modalidades de mais pequenos a graúdos, orgulhosos desse momento. A honra, entre nervosismo e sorrisos, é notória. E, claro, há sempre uma salva de palmas para os portadores desta grande missão. Haja festa!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

O silêncio de Deus


[Breves apontamentos depois de rezar] O silêncio de Deus é desafiante. Em tempos idos, sentia aperto no ego ferido: esqueceu-se de mim. Cada vez compreendo mais a importância desse silêncio, ajudando-nos a ganhar fé adulta. Deus apenas esquece, depois de o chorar, o desamor. Enquanto isso, todo Ele é recordação da humanidade. Do silêncio abre-se em Verbo e encarna uma e outra vez: faz-se Menino para nos revelar nesse rosto simples a Sua presença. Desafia-nos no silêncio, para O escutarmos no balbuciar de criança. E, com Ele, fico em silêncio a ver o que libertei. Agradeço. Comovo-me. Torno-me húmus.


sábado, 11 de dezembro de 2021

Sobre a noite


[Breves notas à noite sobre a noite] Tem luz própria. Desvelada pelo mistério que acalma os passos, ajustando os batimentos do coração a recordar o dia: dá graças. Também a sedução surge, depois de os filtros se recolherem, permitindo a nudez da verdade, sem medos: os sonhos abrem o caminho do que é, entre símbolos, memórias, desejos, com a oração mais límpida. A noite abre-se em segredos. E no silêncio, danço livremente no tremeluzir da vela a acompanhar o respiro do movimento, dispondo as mãos a dar vida à aclamação “Bendito sejas Tu, pela noite que empardece cada rosto.”


sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

O Nome


[Secção letras verdes no dia internacional dos Direitos Humanos] Trago estas letras verdes no dia de hoje, mas foram inicialmente escritas no dia 18 de Novembro, à noite, enquanto estive em oração, sozinho, envolvido de nomes, diante do Túmulo no Santo Sepulcro.


quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Abraço



João Almeida


[Coisas na vida de um padre] Chegam boas recordações de dias felizes. O sentido do sacramento, em diferentes vocações, é partilhado pela certeza de que todos somos chamados a viver o amor. O abraço que trocamos recorda isso mesmo: agradecer a vocação específica de cada um e recordar que o caminho conta com suporte de amizade, de escuta, de luz. E assim também se forma e vive o Corpo de Cristo na diversidade de amor.


quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Faz-se Luz em Corpo


[Notas soltas ao terminar o dia da Imaculada Conceição] Maria cumpre o faça-se a luz do início da criação. Com o Seu sim, nenhuma noite, sombra, escuridão, trevas se tornam algo fechado, mas passagens para a humildade de vida nova. E Deus não perde oportunidade de manifestar o Seu amor. Faz-se Luz em Corpo no ventre de Mulher. Ainda precisamos de muitos mais anos para compreender a igualdade na dignidade da Mulher? Deus já o vive, de forma particular, desde há coisa de 2000 e tal anos. Muitos (e muitas) ainda preferem o lugar de comodismo antigo. Vale-nos que outros tantos e tantas que conseguem perceber a força da humildade de Deus e de Maria: ambos vivem a Luz atravessada de Amor. E tudo, desde aí, muda.