quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Experiência da realidade





Dina Goldstein

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A experiência da realidade do quotidiano, vivido ou bem escutado, permite uma concepção menos intelectualista do ser humano e, ao mesmo tempo, mais integral. O mundo idealizado e perfeito não existe. Existe, sim, o convite a crescer na liberdade que permite o afastamento de comparações inúteis ou de visões que reduzam a mulher ou o homem ao funcionalismo biológico, social, político e, até mesmo, religioso. Isto de ser “concebido à imagem e semelhança de Deus” não é uma brincadeira, também é a vida concreta.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

(...) [II]




(Versión en español en los comentarios)

Vou conhecendo pessoas que Amam: de forma silenciosa, tentam dar o seu melhor. Descobrem no Amor uma forma vital. Tomam tempo para o pronunciar, por vezes até se afastam da palavra. E se o manifestam, mesmo usando a voz, não têm problemas com a humildade e carregam-no de experiência e gesto.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

S. Tomás de Aquino





(Versión en español en los comentarios)

S. Tomás de Aquino: provocou a viragem do pensamento teológico no séc. XIII. No entanto, é interessante saber que as suas reflexões não foram imediatamente aceites no seu tempo. Sabendo disto, da sua capacidade intelectual, junto com a força espiritual e humildade (não muito conhecidas), seria, muito provavelmente, um grande defensor do diálogo teológico com as novas realidades do mundo, das suas muitas sociedades, que pode implicar mudanças nas distintas escolas teológicas. Pensar que é-lhe atribuída a afirmação: “Tenho medo do ser humano de um só livro”.  


domingo, 27 de janeiro de 2013

A propósito da Semana do Consagrado




Paul Wujick

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Faz sentido consagrar a vida a Deus? Sim, se se perceber que ser religioso(a) é viver e servir no mundo concreto e não idealizado. Sim, se não se vê como um heroísmo, mas como outro lado da humanidade. Sim, se o passado, a história, os pecados perdoados não são motivos de vergonha, mas de compaixão com a fragilidade dos outros. Sim, se apesar do medo ou inquietação, a confiança fale mais alto. Sim, se as conversões quotidianas levem à humildade que afirma: “Não somos melhores, somos simplesmente diferentes no encontro com Ele”.

sábado, 26 de janeiro de 2013

"Europa ou o Caos": um grito de humanidade




AFP

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No princípio, o Espírito de Deus pairava sobre as águas rodeadas de caos e confusão dando-lhes ordem. Ordenar significa dar o lugar a que se pertence, pondo em relação com o Criador. Tudo através da palavra plena de bondade e reconhecendo a mesma bondade na criação. 

O manifesto “Europa ou o caos”, escrito com palavras fortes, densas, carregadas de História e sabedoria (link para versão completa em espanhol), é assinado por quem não quer ver o fim de uma realidade surgida pelo esforço de muitos. Não querendo o fim, têm o desejo de alimentar a esperança no futuro das gerações que estão para chegar.

A partir do reconhecimento e gratidão das dádivas das grandes cidades e grandes nomes que compuseram a Cultura e História europeias, este manifesto revela o grito da vergonha política e da nova ditadura da economia, onde milhares de pessoas sofrem cada vez mais. A integridade política é fortemente desejada e necessária. Por um lado, a união pelo respeito, por outro, que quem se diz responsável por um país ou nação seja íntegro nos seus valores humanos. A responsabilidade implica dar a vida, não absorvê-la de outros. Isso é despotismo, como em muito foi visto ao longo da História. 

Um país é composto de rostos, não de peças de uma engrenagem ao serviço de alguns. Um país não corresponde a cifras, essas deveriam apenas ser o justo fruto do trabalho digno a que todos têm direito. Um país deveria lutar pelo que de melhor tem, não como um orgulho “patriocentrado”, senão como possibilidade de partilhar esse melhor com quem não o tem. Para isso, é importante a educação que desenvolva pessoas que, depois de uma formação alicerçada em valores do respeito e conhecimentos humano e científico, sejam livres no pensar, rezar e viver... e não ignorantes que se refugiam em formatações de ideologias políticas e económicas. 

No encontro de países, em comunidade, onde a união não significa uniformismo, mas diálogo e partilha, a diferença deve ser tomada como riqueza e não como inimigo a abater; a fragilidade ou os erros olhados com compaixão e não possibilidade de eliminação, como se quem condenasse fosse perfeito; e o fraco e oprimido protegidos sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. 

A palavra continuou a manifestar-se na História até encarnar naquele que ensinou que o verdadeiro poder está em servir.

Definitivamente: Europa e Humanidade.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Conversões




Pormenor da “Conversão de S. Paulo” de Caravaggio


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No meio das muitas e pequenas conversões diárias quase imperceptíveis, há as grandes, onde se deram viragens no modo como me vejo como pessoa em relação com os outros e com Deus. Posso dizer que todas têm que ver com encontros. Não me tornei um novo Paulo, mais um Paulo renovado. Há medos e limites que se mantêm. O que muda? A consciência de que não estou sozinho, perdendo a vergonha da fragilidade. Aí, entre outras, a força do respeito dá-me impulso à vocação.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Beleza e unção




“A Festa de Simão, o Fariseu” de Rubens

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Podia-se falar da importância da beleza natural, no entanto, os tempos têm algo a dizer. O cuidado com a imagem, sem que seja uma obsessão, também revela o cuidado que cada pessoa tem consigo mesma. Não me parece futilidade e superficialidade a ida ao cabeleireiro, pôr baton, perfumar-se ou vestir algo que assenta bem. A mulher que ungiu os pés de Jesus com nardo puro não seria desleixada. O incrível, naquele tempo, foi a sua entrega na unção, incluindo o seu cuidado com a beleza.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Hoje pode ser um dia diferente




(Versión en español en los comentarios)

Hoje pode ser um dia diferente. O mesmo ritmo, o mesmo amanhecer, as mesmas coisas ridículas (eu voltei a fazer caretas diante do espelho), a mesma seca de trabalho, o mesmo tom de voz do Ministro das Finanças, o mesmo desespero de fim de mês a chegar, a mesma vontade de café ou cigarro, ou sabe-se lá que vício. Hoje pode ser um dia diferente no que aparenta o mesmo, se houver disponibilidade em receber a subtileza do distinto, que pode provocar mudanças e levar ao que realmente importa: entre outras possibilidades, não ter horizontes pequenos.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Moralismo... [menos, por favor]




Andy Barter

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Tenho a sensação de que se vive um excesso de moralismo. E quando se trata da relação com Deus, ui, nem se fala. A moral é necessária, faz parte da convivência humana e divina. No entanto, quando se entra no campo do moralismo, em vez de suavizar, provoca ainda mais distância no relacionamento, seja ele qual for.


domingo, 20 de janeiro de 2013

O nu e a unidade




Spencer Tunick

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“Jesus nu nasceu e nu morreu.” Ouvi esta frase numa homília há uns tempos. Hoje, durante o retiro, voltou-me à memória enquanto rezava pela unidade dos cristãos. Há bastantes divergências, no entanto, há um mistério na riqueza da diversidade, já que permite ver pontos de vista diferentes. A nudez pode ser sinal de unidade: ninguém é perfeito, todos passamos por vulnerabilidade e, parece-me, ganhamos mais quando nos complementamos também a partir do respeito.


domingo, 13 de janeiro de 2013

(...)



Jonas Bendiksen

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Para se saber criticar tem de se conhecer bem a realidade e estar livre de invejas ou rancor. Se assim for, a boa crítica contribui para que ambos cresçam: quem a faz, em credibilidade, quem a recebe, em qualidade. Sim, hoje celebramos o baptismo do Senhor, que entrou plenamente na realidade humana. 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O mundo e os desejos [da Samsung à Chanel, passando por Deus]




Frederick Helwing

Não me considero uma pessoa que está acima do “bem e do mal”: vícios, desejos materialistas e pecados moram também por aqui, partilhando o espaço com qualidades e capacidades. Não vivo numa neutralidade afectiva, as coisas ditas ou escritas não se remetem a uma impassibilidade indiferente. 

Depois da agitação de ontem, e de hoje pelos vistos, sobre os famosos desejos, fiquei a pensar na encarnação. “O quê, agora também se vai pôr Deus e Jesus ao barulho?” ou então, “Ui, lá vem moralismo da Igreja que, claro está, vai condenar a futilidade, a superficialidade e essas coisas todas!”. Pois, a Encarnação é no mundo na sua totalidade. 

Como escrevi no post de ontem, o problema não são os desejos, esses fazem parte de cada um de nós. São reveladores do nosso contexto, sim, são. Se me perguntassem os meus diria: que se fechem os Centros de Internamento de Estrangeiros, que acabe a guerra na Síria e a matança que ocorre no Congo, que haja justiça em Portugal, mas também tenho um escondido mais materialista: gostava de ter um iphone. Ui, escândalo! Um jesuíta a desejar algo... assim tão materialista. Bem, desejo, mas não necessito e se não tenho não desespero, como acontece na realidade. Reconheço o trabalho interior que tenho feito, para com naturalidade ir percebendo o que é mais importante, para além do ter isto ou aquilo. Confesso que quando ouvi os desejos, antes de toda a confusão gerada, pensei: “Podem ter, que bom para eles.” Não senti ponta de inveja. 

O que me entristece é a condenação pública que facilmente se faz nos dias de hoje. Muitas palavras que tenho lido são como pedras em direcção às pessoas, nomeadamente à agora famosa Pépa Xavier, como se fossem as mais execráveis à face da terra. 

A Samsung foi muito infeliz, com erros de casting e briefing, onde, obviamente, se pode sentir indignação entre o contexto da publicidade e o contexto social em que Portugal vive, sim. No entanto, já se viu que quando as pedras voam (tenho na memória a última manifestação em frente à Assembleia da República), alguém fica mal, muito mal. E se os desejos podem dizer algo de quem os formula, as pedras atiradas também. 

Há valores mais importantes que o ter uma carteira Chanel, sem dúvida que há. Um deles podia ser formulado desta forma: “não me julgues imediatamente por eu desejar de uma forma diferente da tua.” 



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Samsung e o mundo



Zed Nelson

Em relação à recente publicidade da Samsung, que acabou por suspender: o problema não são os desejos, o problema está na redução da realidade portuguesa à vida de meia dúzia de pessoas.

FMI e ensaios intelectuais



Chris Coekin 

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As novas medidas propostas pelo FMI, se fossem um ensaio intelectual, poderiam intitular-se: “Como eliminar uma nação sem eliminar as pessoas que dão jeito à subserviência (já que não se pode mencionar escravatura) daqueles que ficam com os lucros dos cortes humanos, perdão... financeiros.” Outra possibilidade: “Como eliminar uma nação, sem dó nem piedade, em nome da sua própria (pseudo-)salvação.”

domingo, 6 de janeiro de 2013

Epifania ou Manifestação




Ivan Terestchenko

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Na Missa ouvi: "hoje é o dia em somos chamados a ir às fronteiras do que temos por adquirido". Tenho pensado na desinstalação, na mudança de perspectivas em relação à realidade, minha ou de outros. Recordo, por exemplo, Ignace Lepp: de ateu, em linha marxista (tendo sido um dos máximos dirigentes dos intelectuais revolucionários da Europa), converteu-se ao cristianismo, entrando na Companhia de Jesus e ordenou-se padre. Para Deus, as pessoas são pessoas, não etiquetas. 

sábado, 5 de janeiro de 2013

60.038



Amy Hildebran

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É o número de visitas d’o.insecto, até agora.

Muitas pessoas chegam aqui a partir das imagens. Algumas pelos títulos dos textos. Outras através do nome do próprio blog ou porque partilho os posts no facebook. Seja como for, são já mais de 60000 visitas de muitas pessoas.

Não fui eu que comecei o.insecto, fui convidado a participar há uns anos. No entanto, desde há bastante tempo que apenas sou eu a escrever: pequenas reflexões mais pessoais, outras com tom mais social, às vezes atrevo-me a entrar na poesia, não esqueço Deus nem a Teologia que agora estudo. 

Gosto de ser “desafiado”. Tenho a sensação que alguns dos meus melhores posts surgem de conversas, de estímulos por parte de dúvidas, inquietações ou possíveis desacordos. O diálogo ou outras perspectivas ajudam a abrir o horizonte. 

Já agora, que críticas faria(s) a este blog?

Cara(o) visitante, muito obrigado pela(s) visita(s). A porta segue aberta. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

[Liberdade]





(Versión en español en los comentarios)


Liberdade:
encontrar a novidade
aqui.

Liberdade:
deixar Deus ser
Deus
e não
deus.

Liberdade:
Shhhhhh...
-Escuta-

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Sabores... desde um bolo de iogurte





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Fiquei pelo bolo de iogurte. Delicioso como sempre. Os doces nunca foram o meu forte, mas aquele bolo tinha um sabor que me levava à infância. Um dia cortei uma fatia, envolvi-a num guardanapo de papel. No recreio, na escola, sentei-me num canto. Desembrulhei os pensamentos, enquanto comia aquela fatia. Os sons de crianças no pátio preenchiam o espaço. Pensei que iria sempre saborear a vida, não permitindo que algo ou alguém me impedissem de ver, de descobrir ou de abrir horizontes. Já desde pequeno que os rostos me falavam. Não percebia nada de metafísicas ou questões existencialistas. O olhar de criança simplesmente tinha o mundo por diante: a criatividade, as formas nas nuvens, Deus numa pequena flor. Soa a campainha. Sacudo as migalhas. Caminho até à sala com o sabor de bolo de iogurte. Delicioso como sempre.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Viragens [de ano]




"Goal Post, Chile" - Nadav Kander

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As viragens. Possibilidade de abertura: o mistério desejoso de ser revelado. Deixando o medo sem a principal palavra, a História quer ser escrita... e vivida a partir de oportunidades e encontros. Para 2012: Amém. Para 2013: Aleluia! 


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Ironia(s) da actualidade




A entrada em Lisboa (e de algum modo em Portugal) pela estação de Metro “Aeroporto” tem como anfitriões muitas personagens destacadas da cultura portuguesa. A estação do Saldanha da mesma linha, entre muitas citações de Almada Negreiros, tem uma que me chamou a atenção: “O idioma é a instrução de um povo, a arte a sua educação”. 

Sorri e pensei: “Que curiosa ironia para os tempos que correm”. 


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

A minha Carta de Natal 2012





(Versión en español en los comentarios)

“Em tudo o que suscita em nós o sentimento puro e autêntico do belo, existe realmente a presença de Deus. Há uma espécie de encarnação de Deus no mundo, de que a beleza é testemunho. O belo é a prova experimental de que a encarnação é possível. Portanto, toda a arte de primeira categoria é, por essência, religiosa. (Algo que hoje em dia desconhecemos.)” 
Simone Weil, em A Gravidade e a Graça


Queridas Amigas, queridos Amigos,

Há dias, nas minhas escritas e estudos, escrevi: as palavras têm “corpo”. Tinham em mente a certeza de que quando se escreve de “coração na mão”, as palavras tornam-se verdadeiramente densas, como que um espelho que reflecte não só o sentir, mas também toda a pessoa que as escreve. Tenho para mim que nesses momentos não pode haver mentira, que a verdade mais pura do sentir aflora e torna-se presente. Outra forma ou outro lado da encarnação, diria. Acrescento que quando me refiro ao coração, faço-o no sentido hebraico, em que é considerado como centro não só das emoções, dos afectos, como também do discernimento, do pensar, do encontro com o sentido e decisões da vida. Por isso, escrever de “coração na mão” é escrever com todo o ser.

Em jeito de pequeno ritual, acendo a vela que me acompanha nas orações dos últimos tempos e dou “corpo” a esta carta de Natal de 2012. 

“Onde estás?” (Gn 3,9) Esta pergunta soou-me forte há dias. No contexto em que é formulada, Deus procura Adão, que se escondeu depois de comer o fruto proibido. No entanto, mais do que me sentir procurado por Deus, percebi que a pergunta me levava a ir ao presente, a uma escuta do “aqui e agora”. “Que fazes? Que queres? Que sonhas?”, ramificariam a partir desse estar. Não se trata de um presente que anula o passado e o sentido das coisas. Tem os alicerces na História (seja ela qual for) e, precisamente por esse passado, é vivido de uma forma diferente. Mesmo que ao jeito de ritual familiar se cumpram as tradições, estas não serão iguais. Olho para este ano que passou e é impressionante as mudanças que houve, os acontecimentos que me levaram a uma diferença no meu olhar da realidade, alterando as respostas quanto ao meu estar, fazer, querer e sonhar.

Ofereceram-me um presépio. As figuras não tinham rosto. Gosto muito de presépios assim concebidos. Dá-me a possibilidade de rezar e de alguma forma ser eu a pôr o rosto: meu ou de alguém. Uma das grandezas da Bíblia é permitir entrar nela com a própria vida e sentimentos. Este ano gritei dolorosamente como Job, blasfemei como Moisés, voltei a construir ídolos como o povo hebreu, senti a minha fé ser desafiada como Abrãao, passei por uma conversão como S. Paulo. Se me centrar nas figuras do presépio: encontrei-me com incógnitas como Maria, junto com a consolidação do sim à minha vocação em servir; foram algumas vezes que fiquei “sem chão” perante os desafios pessoais, sobretudo aqueles que me levavam ir ainda mais fundo de mim e confiar... confiar... e confiar, tal como o grande José; e aos poucos deixar-me entrar no “sentir” do Menino. Este “sentir” de quem não conhece nada, nem ninguém, quando nasce, quando descobre outra realidade da Vida, tendo de ser ensinado e aos poucos crescer em todas as suas dimensões como humano.

Uma grandeza (ou pequenez) de Deus é este voltar a nascer. Não porque necessite, mas para que cada ser humano possa fazê-lo também, na simplicidade dos acontecimentos da sua vida. Pode ser fácil ou muito duro, difícil até. Nós crentes, por vezes, acabamos por dizer coisas “bonitinhas”, como se a vida fosse torneada de “luzinhas e fitinhas natalícias” ou, então, carregarmos a força da crise e dos que estão a sofrer muito. Sem dúvida que temos de lutar pela justiça, no entanto, também temos de respeitar e/ou ajudar as pessoas a encontrar o seu caminho pessoal de relação com Deus, que pode não ter nada que ver com a nossa visão das coisas. Dar corpo às palavras também é passar a uma escuta da realidade, percebendo que o “nascer de Deus” pode dar-se onde menos se espera. O Salvador nasceu frágil, numa gruta, e não caiu dos céus, como um deus guerreiro. 

Onde estou? Estou a ver um presépio sem rosto, onde na sua beleza deixo que a presença de Deus se manifeste, de modo que aí ponha os vossos rostos, com todos os sentimentos que possam estar a passar: a alegria do reencontro, ou a tristeza da separação, ou a incompreensão por tanto mal na realidade, ou o sofrimento pelo desemprego, ou o afastamento da Igreja (mais que de Deus) por todos os motivos e mais alguns, ou a força ganha por um desafio ultrapassado, ou o silêncio da solidão, ou o silêncio de quem contempla agradecido(a) tanto bem que recebeu (nos acontecimentos consolados ou dolorosos), ou a angústia do “sem chão” em relação ao futuro, ou a certeza de que apesar de tudo, mas tudo mesmo, é amado ou amada. 

Queridas Amigas, queridos Amigos,

o meu desejo para estes dias de Natal é que tomem consciência da beleza que cada um de nós é, que todas e todos somos “arte de primeira categoria”. Se isso acontece, o belo falará mais forte e a forma como viveremos o ano de 2013 será diferente, permitindo que as encruzilhadas que passamos sejam oportunidades com esperança e humanidade. 

No silencioso, misterioso e belo acontecimento da noite de 24, rezarei por cada um(a) de vocês ao Menino Jesus: pelos vossos sonhos, desejos e necessidades. Neste novo ano que se aproxima, aconteça o que acontecer, para cada uma e cada um peço esperança, serenidade e oportunidades de encontro com o sentido mais fundo do Natal: a Vida!

Um Abraço muito apertado e até breve!
Paulo Duarte,sj

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Perdão [em Advento]





amy friend

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Também para o Advento: O perdoar é da condição humana. Tal como a limitação e o tempo. Para perdoar é preciso reconhecer os limites e deixar o tempo dar a sua contribuição. Sem pretensões de teses sobre o perdão ou o acto de perdoar, sei que somos capazes de dar esse passo, mas a partir de muitos outros prévios. Não se pode exigir o perdão a ninguém, nem mesmo o esquecimento. Aliás, perdoar não significa esquecer, de todo que não são sinónimos. Em jeito muito simples, perdoar significa chegar ao ponto em que não se deseja mal (com as suas muitíssimas variações) a quem mal (lhe) fez. E a recordação do acontecimento ou da pessoa que é/foi perdoada poderá ajudar a ver a vida e os outros de modo diferente.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Mistérios da identidade



Martin Klimas

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Muitas vezes busca-se definições que possam emoldurar quem se é. É verdade que é a forma de apresentação. No entanto, não pode ser reduzida a características absolutas. Alto ou baixa, gordo ou “Olivia palito”, emotivo ou racional, hetero ou gay, guineano ou holandesa, crente ou ateu, cristão ou islâmica, de esquerda ou de direita, praticante ou não praticante, doente ou saudável, médica ou varredor, corrupto ou irrepreensível, são exemplos de qualificativos com que se rotula a identidade. O Advento pode ser o caminho de quebrar rótulos até ao encontro de alguém que nasce confirmando que se tem de haver alguma definição, que seja a partir do “ser amado”. Aí também reside o “mistério da identidade”.



quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Perspectivas de Advento





(Versión en español en los comentarios)



A fé é um caminho de muita sinuosidade, onde todos os sentimentos são convidados a caminhar por esses passos. É na vida, com as narrativas que se escuta, lê e se encontra que a fé é movida. 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Aos [meus] professores





Queridas professoras, queridos professores,

Pode parecer estranho ou ridículo. Talvez desajustado, mas gostaria de vos agradecer publicamente. Agradecer de coração terem passado pela minha vida. Hoje fui ver O Substituto. Duro, intenso, real. Todos os que estão directa ou indirectamente ligados a educação deveriam vê-lo. É um valente “murro no estômago”. O ampliar da realidade presente no filme pode a ser a imagem do grito que de muitos sai. Se os que governam no âmbito educativo conhecessem de facto a realidade, o olhar para contas feitas ou por fazer seria diferente. Nem o professor seria mais um objecto, como uma cadeira ou uma mesa, nem os alunos seriam postos numa carreira de competitividade, esquecendo os valores mais altos de ser humano, nem a Escola se transformaria em mais uma empresa ou “depósito de filhos” em busca de lucros e objectivos.

A meio do filme comecei a recordar os meus antigos alunos, depois, e de forma bem definida, quem me ensinou a ser para além das matérias. Surgiu-me o forte desejo de agradecer. Talvez se dirá que a entrega faz parte de ser professor. No entanto, também o agradecimento faz parte do reconhecimento dessa mesma entrega, por vezes em dias duros, que não apetece nada ouvir os desaforos, enfrentar a má educação, ou ver o desalento ante a aprendizagem.

Há momentos que ficam na memória de muitas aprendizagens. Sobretudo o recordar o gosto com que as aulas eram dadas. Sim, enquanto via o filme apetecia-me agradecer o que recebi de cada um e cada uma de vocês. Sobretudo quando também tenho na pele a experiência de ser professor, de tentar educar e ensinar, enquanto se escuta no aluno outra realidade para além do caderno que não trouxe, ou da resposta agressiva e desobediente. Fui professor e, obviamente, também tinha vida fora das aulas: exterior e interior. Muitas vezes apeteceu-me dar um valente estalo, uma ou outra vez a voz saiu mais forte, mas há um carinho que fica, a estranha sensação de que se recebe mais do que se dá, literalmente. 

Dentro de dias tenho exame de “Virtudes”. Curioso estar em estudos sobre a fé, esperança e caridade e de seguida aterrar neste filme. A realidade na actualidade pede-nos isso mesmo: cultivar a confiança, no encontro do sentido, na entrega ao outro... sem ser em lugares idílicos, mas no concreto da História.

Com um Abraço, o meu Obrigado a cada uma, a cada um!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Sentido de ser (IX) - Especial Advento




Elif Sanem Karakoç

(Versión en español en los comentarios)

“Chegámos à convicção de que, entre todas as coisas da terra, o primeiro a expor era a Mística do Corpo, já que é a mais desconhecida e a mais próxima de nós. Vivemos com o nosso corpo e através do nosso corpo. Ele é o nosso primeiro universo, a forma concreta do nosso ‘eu’, um instrumento universal e tão à mão, que é ao mesmo tempo o artista responsável e a primeira matéria da obra. Mas nós não conhecemos este corpo. Arrastamo-lo a trabalhos absurdos, sem dirigir-lhe sequer um olhar, sem que nos passe pela mente interrogar-lhe sobre tudo o que nos poderia dizer.” 

Victor Poucel,sj, em “Apologia do Corpo” (1959)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Carta [a ti Isabel] sobre silêncio e Deus.




(Versión en mi mejor español en los comentarios)

"Deus quando nos fala não grita. Sussurra. Para que as palavras não nos levem à loucura porque afinal... somos só meros humanos..."  Isabel P.

Querida Isabel,

Escrevo-te uma “carta”!
Sem saberes acabaste por me dar algo a pensar. Sem querer acabei por andar acompanhado por esta tua frase surgida a partir do silêncio. Como te tinha dito, gosto muito do silêncio e necessito dele. Antes, punha-me na pele de “jesuíta-que-‘tem’-de-viver-o-silêncio” como se fosse uma obrigatoriedade, na vivência da oração, do encontro com Deus. Talvez em jeito de gritos impostos por mim próprio, querendo chegar até Ele dessa forma. Aos poucos fui percebendo que não fazia sentido. Esse desejo de silêncio, mais do que uma fuga do mundo, era mesmo uma fuga de ruídos que me impediam de ver-me e ver os outros. 

Tenho para mim que quando mergulhamos fundo no coração, o silêncio desperta-se até na maior confusão de um centro de cidade em hora de ponta. Claro que sabe muito melhor quando se dá no recolhimento do canto especial, ou nos braços de alguém de simplesmente quer partilhar esse momento, sem muitas ou nenhumas palavras. Também quando se dá em locais onde mais facilmente a presença silenciosa da vida desperta com mais facilidade. É isso, há momentos e locais em que é mais fácil chegar até ele. 

No entanto, como dizia, a grande riqueza é fazer silêncio de coração e escutar o sussurro de Deus, que por vezes reduz as palavras ao mínimo essencial. Gostei tanto de “... para que as palavras não nos levem à loucura...”. Que sabedoria está nesta frase. As palavras gritantes que hoje saltam pelos olhos dentro, com tanta informação, ou exigências de identidade para sermos isto ou aquilo. Não... não é por aí o caminho. É um sussurro que diz, simplesmente: “Amo-te, como és!”. Infelizmente, parece-me que nos afastamos com medo deste sentir de Deus. Sim, somos “meros humanos”. “Meros humanos” vistos por Ele com um carinho difícil de imaginar ou sentir. 

Deus fascina-me. Não é novidade. O que se torna novo é a descoberta da beleza de Deus precisamente pelo silêncio. Na Páscoa passada, altura em que escrevi o texto que te passei, todo o meu ser “gritava” por silêncio. Não me apetecia palavras nenhumas, nem reflexões. Aí descobri a riqueza de estar, nada mais que estar, diante de Deus. Afinal, Ele não grita, sussurra em jeito de sopro. E sabes? Libertei-me de pesos que não faziam sentido. Por isso, aconteceu em mim aquilo que dizias no comentário: “leva-nos a bom porto”. 

Estamos em contacto silencioso, boa?
Espero que tenhas bons voos... no silêncio! 

Um beijinho,
Paulo

P.S. - Escolhi esta música como pano de fundo desta carta, por ter sido simbolicamente a “voz de Deus” numa performance que apresentei sobre a conversão de São Paulo. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Outras possibilidades





(Versión en español en los comentarios)


Avanços. Retrocessos. Não tem nada que ver. A música? Sim. Porquê? Põe algo mais bonito! Esta não é? Sai do teu mundo. Abre asas ou sons. Nem tudo se explica em absoluta racionalidade. Nem em absoluto emotivismo. Há dias assim, em que a beleza ensina outros tons. 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Relação: outro modo de expressar




Foto: CND

(Versión en español en los comentarios)



Os momentos de crise, ou de viragem, ou de questionamentos, ou de aberturas a novas oportunidades mais ou menos escondidas, estão aí, presentes e destacados na realidade das ruas, nas casas, nas vidas, nas relações de cada pessoa. Normalmente são frias, quase rígidas, onde o confronto é desagradável. A vitalidade pede acção: constatar e humildemente reconhecer que, nestes momentos, é impossível avançar só, como se dentro houvesse o fechamento a toda a ajuda possível. 


Tudo isto pode ser apresentado de forma muito racional: estatísticas, planos de reformas, alterações em medidas que mexem cada ser humano ou cada cidadão na sua história pessoal e social. No entanto, já basta a crueza da tal crise. A arte abre outras portas de revelação de sentimentos. Nada de novo. Mas tem de ser repetido, pois há mais a ser dito para além de números e possíveis certezas. Já foi na quinta-feira passada, mas de vez em quando recordo alguns momentos das peças apresentadas pela Compañía Nacional de Danza - Espanha: Unsound, Babylon, Demodé.



Unsound transportou-me para essas sensações de inquietude, de movimentos bruscos de quem busca algo ou alguém, ou a si mesmo. Os encontros e desencontros gritavam-me rostos com histórias marcadas pela vida, em decisões a tomar diante de tanta mudança. Também nas relações, onde os movimentos frenéticos eram exemplos disso mesmo. Repulsão ou desejo, posse ou simplesmente o suave toque na descoberta de quem se é ante o outro. Gritos dados pelos corpos, acompanhados por “vozes” de um fundo de pulmão, ou de sangue... ou de imagens que subtilmente mudam conforme o andamento. O ser humano é mais, muito mais que uma simples existência ao acaso. O braço que abraça, ou a perna que faz correr em busca do tudo ou do nada, a expressão de rosto que diz: “estou aqui”. É desconfortável a sensação de que se precisa ser amado, querido ou desejado. Essa necessidade que faz sentido quando se percebe que sem a relação não se pode viver.

Babylon, o nome perfeito para uma coreografia que, a meu ver, explora o lado transcendental da humanidade. Com tons bauschianos, abre a outra realidade da crise: a existência espiritual, que se foi perdendo em nome de um progresso que renega as raízes da História sagrada. Aquele corredor inicial de gente que vive em correria, atravessando os caminhos ritmados da rotina diária, apagada em fatos negros. Mas a suave cor da leveza não se apaga. Mesmo de ar triste, passa, marca a presença. E aos poucos dá-se a transformação, o negro vai caindo, dando lugar ao despojar do medo ou vergonha em viver a abertura a algo mais. Em conjunto, como numa comunidade que vive, se separa, parte e volta-se a encontrar, repetindo gestos, acções, discordando ou, simplesmente, estando. Ainda que apagado em rituais ou obrigações sem sentido, como uma burka que anula o rosto, o Infinito abre outras portas ou janelas que permitem vistas profundas. As burkas caem, tal como o negro e no final há o abraço... o silencioso abraço. 

Com Demodé defronto-me comigo. Quem sou? A pergunta que cruza todas as peças acentua-se com a chegada das modas. Sou cultura, sou meio, sou imagem, sou relação, mais ou menos distorcidas por tanta informação que me chega: revistas, televisão, sugestões intermináveis de como se deve ser se se quer pertencer a este grupo ou tempo. A busca da identidade a partir de encontros que dão voltas entre um “eu-tu”, que se funde, se desgarra, refundindo-se novamente. Sempre acompanhados pela música que intensifica a sensação de pertença a este presente. Posso-me apagar ou, então, desenhar um ritual que abre perspectivas: à liberdade, à plenitude em ser para além de uma imagem ou de uma imposição social. 

Definitivamente: em nome da crise não anulem a arte. Não nos tirem mais um pedaço da humanidade.