sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Vigília no Santo Sepulcro






[Notas soltas de Jerusalém] Estive 9 horas sozinho, sem contar com os monges e frades residentes, no Santuário do Santo Sepulcro. A porta fecha solenemente às 19h, trancada por dentro e por fora, vigiada pelos guardiães das três tradições cristãs que têm a custódia do lugar: Ortodoxos gregos, Arménios e Latinos (Católicos, representados pelos Franciscanos). Alimentam-se as lamparinas de azeite. Acendi a que ilumina a entrada do Túmulo, ficando hoje todo o dia a receber os peregrinos. Entrei no Túmulo e permaneci 3 horas a rezar. 


O silêncio era preenchido por paz e por nomes que me vinham com toda a naturalidade ao coração. Pedi perdão pelo que contribui de mal ao mundo e a pessoas concretas. Em vários momentos, senti-me profundamente em casa. Não tanto ali, espaço físico, mas de sentir a fé neste Cristo que morreu e ressuscitou por cada pessoa. Essa casa que é o Seu Corpo, morto e ressuscitado. 


Muitas letras verdes foram surgindo, a repassar a história dos últimos tempos. Agradeci muito: das grandes coisas ao detalhe. Pedi para que cada pessoa fosse capaz de acolher, aceitar e integrar as suas luzes e sombras. Pedi por este Ano Inaciano, rezando por cada companheiro jesuíta, indo de Comunidade a Comunidade. Pedi por toda a Igreja, em particular pelas feridas que infligimos e pelo sínodo que atravessamos. Entreguei, pausadamente, nomes de A a Z. 


Pelas 23h30 começaram as diferentes liturgias diante do Calvário e do Túmulo. Eu fui para um canto, em frente à pequena capela dos Coptas. Aí fiquei. O silêncio habitado de profunda paz acompanhou-me. Senti o tempo a passar, sem lentidão ou rapidez, mas suspenso no presente. Era ali que tinha de estar. Não para ficar, mas para ir e anunciar a Luz e Paz do Ressuscitado. Às 4 da manhã abriram as portas. E saí, leve com o coração cheio de Vida. [A primeira fotografia foi de quando lá entrei há dias, para ilustrar onde fiquei a rezar com tempo.]


quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Dia intenso (mais um)









[Pequeno apontamento sem muito mais, em Jerusalém] Vou passar a noite em Vigília no Santo Sepulcro, qual Quinta-feira Santa. Depois de um dia intenso, a rezar na Via Dolorosa e com a visita ao museu Yad Vashem, de memória do holocausto, rezarei pela paz. E também por cada pessoa, pelo caminho de perdão e reconciliação. Logo escreverei com calma. Terei tempo. De momento, apenas a certeza de que vir aqui é profundamente transformador.


quarta-feira, 17 de novembro de 2021

O tempo suspende-se





[Notas soltas ao adormecer em Jerusalém] Não sei que escrever. Parece-me pouco. Até mesmo quase miserável ante todo o sentir, sobre ruas e ruelas carregadas de mistério e de banalidade. Repito-me no contraste. Mas é isso que me mexe e faz sentir o sagrado em cada coração, para lá de cores. O silêncio das seis da manhã, enquanto celebrava Missa na Capela da Crucificação, que alternava com os cânticos de lamentação dos coptas ante o túmulo. As pedras com milhares de anos que rodearam o Santo dos Santos que, como escrevia ontem, gritam por encontro. As conversas de partilha de vida com laivos de conversão. O tempo suspende-se. Em cada canto especial, repito a oração “entrego-Te quem me confias, quem dirigi um simples olhar e quem, para lá de credos, se dispõe a acolher o amor”.


terça-feira, 16 de novembro de 2021

Breve oração







[Breve oração ao anoitecer em Jerusalém] 


Agradeço-Te

os tempos para lá do tempo

em pedras que gritam vida

nas orações ondulantes a Ti


Entrego-Te

nomes, de A a Z


Peço-Te

coração aberto a acolher

silêncio, sons e palavras

de contrastes e de unidade

ao Teu amor entregue por nós


Clarear horizontes









[Secção coisas de nada em Tel Aviv] Fazer uma viagem é sempre oportunidade para abrir e clarear horizontes, perguntas, tempos. Ainda mais quando há grande contraste a acontecer. Gosto de deter-me nos pormenores, detalhes, coisas de nada, de onde podem sair histórias dentro da história da viagem. Faço silêncio. Emociono-me. E parece-me que vou fazer muitos momentos de silêncio, convidado pelos rostos, contrastes e a força dos lugares com tanto significado. A vida acontece. E muito se relativiza, sobre humanidade. Daqui a pouco, Jerusalém.


segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Terras cheias de significado





[Coisas na vida de um padre] Chegaria o momento em que tocaria mar e terra plenos de significado. Serão dias de peregrinação, em escuta de passado, presente e futuro. A acompanhar vidas, desde aqu’Ele que entregou a Sua por estas terras. E para começar, nada como celebrar Missa onde S. Pedro teve a visão da universalidade, em Jaffa, Tel Aviv. Irei partilhando estes dias, com a certeza da oração pelo abecedário.


quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Conversas soltas


Pedro Villa


[Secção conversas soltas, com a devida licença para partilhar]

- P. Paulo, não sei como falar disto. Se bem que tenho a agradecer o comentário com um abraço que deixou no texto em jeito de desabafo da actriz Inês Herédia. Daí o à-vontade que sinto em poder falar consigo. É toda uma novidade e como mãe e como católica estou a ter dificuldade em lidar com isto, sobretudo na questão da Igreja. A minha filha revelou-nos a sua homossexualidade. Ela está bem. Sempre senti algo diferente. Ela está mesmo bem. Eu é que tenho dificuldade em compreender tudo isto.

- O quê mais específicamente? O que lhe custa?

- Nem sei. Porque acolho-a profundamente. Nem poderia ser de outro modo. Já tinha ouvido falar de pais que rejeitam os filhos pela questão da sexualidade. Da minha parte, nem pensar. Saiu de mim. Mas não sei o que me custa.

- Serão a expectativas que tinha de futuro? Poderá haver alguma sensação de culpa por achar que falhou nalguma coisa? Digo isto, pois é o que vou escutando aqui e ali de pais com filhos ou filhas de orientação homossexual.

- Não. Sabe o que é mesmo? Estou zangada com a Igreja. [As lágrimas surgiram!] Isso, estou zangada com a Igreja. Sinto agora na pele imaginar que a minha filha não pode viver o amor. Sim, já li o catecismo e toda essa linguagem descartada da realidade. Desculpe falar assim, mas tenho a sensação que a doutrina não conhece as pessoas. 

- Como a compreendo. Idealizam-se perfeições e castidades, esquecendo o corpo real mais vasto que as ideias. E no tema da homossexualidade e da fé, bem como em muitos outros, há tanta falta de escuta, atenta, cuidadosa, das pessoas concretas, dos seus sentires mais profundos, impondo o impossível. Há tanto desejo de Deus que acaba por ser ofuscado pela zanga, tantas vezes com razão, por visões alheadas do concreto, das pessoas reais e não idealizadas.  

- Sim, sim. Mas, que podemos fazer?

- Estamos em tempos de reflexão sobre a Igreja. Porque não se junta a tantos outros pais preocupados com a mesma questão e escrevem a partilhar o sentir? Dessa zanga pode surgir conversão, vida, em maior respeito. E o amor fica sempre a ganhar.


quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Breve oração


[Breve oração]


Agradeço-Te

os rasgos de luz no horizonte,

recordando que não somos peças,

nem máquinas, nem pedaços de realidade,

mas caminho em corpo a contemplar 

a firmeza e a cura da existência 


Peço-Te

a sabedoria e o fogo do Espírito,

para saber regressar-Te e agradecer

o assombro de beleza em cada anoitecer


domingo, 7 de novembro de 2021

Sobre paternidade espiritual


Paulo - Lovely Moments


[Notas soltas sobre paternidade espiritual] Acompanhar pessoas é dar-lhes vida. Não somos, nem é esse o lugar nem o propósito, salvadores. Mas, como padres, temos a grande responsabilidade de ajudar a que as outras pessoas tenham vida e a tenham em abundância. Escuto muitas histórias de vida. Grande parte das vezes, com partilhas de sofrimento, muito e de diferente género. Na ânsia da busca de alguma serenidade, resposta, orientação. Perguntam-me como aguento. Não há segredos: 


- a oração. Entrego a Deus cada pessoa. Em recta intenção antes de cada conversa, peço-Lhe ajuda para saber o que dizer ou fazer. No final, coloco-a nas Sua mãos.


- a liberdade. A vida de cada pessoa não é a minha vida. Vivo a empatia da escuta: rir com os que riem, chorar com os que choram, como diz S. Paulo. Mas, são as vidas de cada pessoa, não a minha. 


- a humildade. Quando não consigo, direcciono para quem possa orientar melhor. Quando sinto cansaço de alma, peço ajuda. 


- o cuidar(-me). Preciso do meu tempo para rezar, descansar, ler, formar-me, fazer nada, estar com companheiros, família e amigos, dançar. 


- a confiança. Quando sentimos e vivemos a nossa vocação, abandonamo-nos à confiança em Deus que chama. Há a força do Espírito que nos habita, a fortalecer o dom. No meu caso, ou de quem acompanha, da escuta, da compaixão, da assertividade, do silêncio orante. 


- a alegria. Para acompanhar as sombras e dar luz é preciso deixar-se inebriar pelo desejo do Bom, Belo e Ajustado, como no final de cada dia da criação. 


E se há coisa que me realiza na paternidade espiritual: ver a pessoa descobrir mais vida e alegria em Deus. 


sábado, 6 de novembro de 2021

Ser padre


[Secção letras verdes] Enquanto me recolho na oração, a entregar a Deus quem oriento em Exercícios Espirituais.


quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Silêncio e encontro


[Secção coisas de nada] Entrei no gabinete e olhei o horizonte. Mesmo repetido, cada dia é diferente. O silêncio interior, no deserto que liberta, abre-nos perspectivas. Em “O Amigo do Deserto”, de Pablo D’Ors, a personagem principal desenha em cada dia o deserto que vê da sua janela. Todos os desenhos são diferentes. O mesmo se passa connosco quando nos escutamos no silêncio: sendo nós os mesmos, as mesmas, há diferenças no sentir, no viver, no conhecer, no amar. Com o passar do tempo nesta aprendizagem de vida a compreender que somos inacabados em caminho, ganhamos serenidade ante o que é. E liberdade, sem julgamentos precipitados. Estamos muito marcados por supostos disto e daquilo, bombardeados de expectativas nossas e de outros. O silêncio ajuda a tranquilizar tudo isso, de modo a chegar ao concreto, do hoje, do presente, que abre possibilidades de horizonte, em amor e serviço, que se renovam em cada dia.


quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Deus espera. Sempre.


Luís e Marta - Lounge Fotografia


[Secção conversas soltas, com a devida licença para publicar]

- P. Paulo, fui educado em certezas religiosas tão absolutas que cada vez que olhava para a cruz sentia o peso dela em cima. Se não me confessava de todos os males, “Jesus leva com mais uma martelada no cravo, fazendo-o sangrar”. Eu com 10 anos não sabia o que eram todos os males. Mas sentia-me terrivelmente. Cheguei a mentir no confessionário e depois confessava-me de que mentia. Além dos meus pais, o confessor fazia-me sentir ainda pior. Era terrível! Cheguei a um ponto em que já não conseguia acreditar mais em Deus. Foi o choque familiar. Formei-me. Corri mundo em busca de mim, a fazer do melhor ao pior, sobretudo com pessoas, enganando-as, usando-as para prazer, no corpo, na vida. É um desespero tão grande. Passaram mais de 30 anos e sinto que Deus me chama. É possível? É isto a fé? Não sou um degenerado? 

Levantei-me, baixei-me para ficar com o olhar próximo, coloquei a mão no ombro e pedi para fechar os olhos e regular a respiração.

- Pode voltar à criança que se foi confessar?

[O rosto contristou-se em dor e encolheu-se.]

- O que lhe quer dizer? Agora, depois de toda esta experiência de vida? Sem filtros. 

Passado uns momentos de silêncio, com aumento de tom até ao grito.

- Não tens culpa! Não tens culpa! Desculpa, não tens culpa! Jesus não sangra mais. Jesus, não sangra. [O choro contido de anos soltava-se!] Jesus não é como eles dizem. 

- Respire fundo. 

- Perdoa-me! Perdoa-te! Eu quero amar!

- Respire fundo.

- Eu fiz tanto mal. Repeti o mal. 

- E agora está na altura de encontrar o bem, a luz, a vida. 

- E Deus?

- Deus está a tirar o anel do dedo e a preparar o vitelo gordo. 

- Como?

- É o que faz cada vez que um dos seus filhos regressa.

- Mas, depois de todo o mal que fiz?

- Ele espera. Sempre. Tem o nosso nome tatuado na Sua mão.

- Posso confessar-me? 

[…]

- Eu o absolvo de todos os seus pecados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.



segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Breve oração



[Breve oração ao anoitecer de Todos os Santos]


Agradeço-Te

a frescura do olhar 

de quem abraçou o Teu amor

sabendo-se pó de terra 

com raízes no escuro profundo

e mãos na luz de serviço 


Peço-Te

atravessa-me com a mesma pequenez

de quem se deixou levar pelo Teu vento


domingo, 31 de outubro de 2021

Halloween e Todos os Santos


[Secção pensamentos soltos sobre Halloween e Todos os Santos] Desde pequeno que o mundo da fantasia e do fantástico me fascinou. Tenho a dizer que em parte até me salvou. Explico: na sessão de psicoterapia em que pela primeira vez me dei conta das dores contidas do bullying de há anos, voltando a sentir as dores dos pontapés e os gritos, solucei em lágrimas. Às tantas, a Asu pergunta: “o que te salvou?” Sem hesitar, recordando o livro e filme A História Interminável, respondi: “a fantasia!”. 


O mundo simbólico, de que também muito podemos encontrar nos textos bíblicos, abre muitas perspectivas. Quem diz o mundo simbólico, diz também o fantástico, inclusive o tenebroso. Os monstros, fantasmas, vampiros, bruxas, demónios, seres das trevas, mostram o lado desconhecido da alma e da vida a que é necessário dar nome e amar. Libertar as crianças, os adolescentes e os adultos do medo só acontece quando enfrentamos precisamente os medos e males escondidos no mundo interior. Por vezes tem de ser com humor. Sem grandes rasgares de vestiduras por vir de outras tradições. Não me parece que se invoque o mal. (Também em nome de Deus, infelizmente, se fez e faz muito mal com aparência de bem em imposições moralistas de culpa e pecado.) Os fantasmas devem aparecer para ter nome e assim dissiparem. Os vampiros para serem amados. Os monstros para serem curados de traumas vários. 


Os santos foram os primeiros a atravessar as suas noites tenebrosas, enfrentando os demónios que os dividiam. Com a ajuda de Deus fizeram dos seus combates espirituais caminhos a chegar à compaixão e anúncio de vida. Quando enfrentamos os monstros pessoais, com a ajuda de Deus, ganhamos liberdade diante de tradições que podem não ser nossas. Atravessando-as, ganharemos o Pão por Deus de alma e vida, com nova luz. Hoje compreendo que não foi a fantasia que me salvou, mas a criatividade de Deus que permite, desde o simbólico, ir a outros mundos buscar forças para sermos mais livres neste, combatendo as trevas desde o amor e o humor. Sem sustos e com muita alegria.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

42



[Secção vida]

42 anos

a guardar nomes e rostos, histórias e orações, poemas e voos, danças e movimentos, silêncios e palavras, emoções e pensamentos, sombras e luzes, a contribuirem para o meu caminho de crescimento até ser semente. E agradeço a Deus. Tudo.


segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Mão de asa


[Secção coisas de nada] A rever fotografias passo por esta tirada diante de outra de Wolfgang Tillmans, em Serralves. Recordo-me em imaginações de momento: de braço esticado ao céu, ganhava asa. Agora ao vê-la novamente penso no pequeno que é imenso na continuidade do ser para lá da pele. Somos nós, quando percebemos a profundidade de mistério que nos habita. Tomar ainda mais consciência de ser criado à imagem e semelhança de Deus dá-me sentido de reverência, nessa extensão do todo que nos entranha a existência. É-nos concedido o poder de criar, de agir, de amar nas ténues fronteiras de bem e mal, morte e vida, ter e ser, unir e separar. No seguimento de nós, para lá da pele, seremos capazes de voar à medida que nos formos libertando da arrogância de pureza julgadora e enraizando na limpidez do gesto de amor ao próximo.


domingo, 24 de outubro de 2021

Sementes depositadas


[Secção letras verdes] Depois de uma semana imensa e intensa na escuta, a abrir outra plena de vida.


quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Sentir de corpo


Pedro Villa


[Secção pensamentos soltos sobre corpo] Há dias estive à conversa numa formação de acompanhamento espiritual a decorrer na Argentina. Pediram-me para falar da importância de corpo no acompanhamento. Este tema é fascinante. Cada vez mais se percebe como O Corpo Não Esquece,(uso o título na tradução portuguesa do imenso e importante livro de Bessel Van der Kolk, psiquiatra que dedicou a vida a estudar questões de trauma). Nós somos mais que intelecto e o sentir, mais ou menos consciente, manifesta-se por todo o ser.


Apesar de ser algo transversal a todas as pessoas, desta vez penso particularmente na vida religiosa. O dualismo espiritualista que anula o corpo está infelizmente ainda tão, mas tão presente, que incapacita viver bem a vocação. Cansaços, frustrações, que levam desde a infantilidades à rudeza no trato, mesquinhez, inclusive com violência a vários níveis estão presentes e precisam ser vistos com atenção, para o bem de todos. Acompanhar desde corpo é permitir conhecer desde o todo e permitir que o Espírito habite no concreto, para profundamente libertar e reconciliar. As idealizações e auto-enganos moralistas impedem a presença de Deus. Às vezes é preciso recordar que Deus encarnou, não se idealizou. Assumiu corpo, carne, entranhas, vida em movimento pleno e total. 


Na conversa, dizia com humor que precisamos dançar mais. Bem, ou pelo menos saber como habitar o mais plenamente possível a existência no movimento, no sentir de corpo, que permite atravessar todas as sombras, de modo a crescer, a sermos adultos, também na fé, e levar-nos à liberdade do serviço ao outro, tanto na oração e escuta em acompanhamento ou sinais dos tempos, como no cuidar de quem mais sofre. E o reino de Deus ficará mais próximo, onde haverá festa e alegria entre todos e todas os que se atrevem a ser livres e autênticos no amor e no serviço.


terça-feira, 19 de outubro de 2021

Breve oração



Auto-retrato atravessado pela peça “Reacerto para dia luminoso” de Nuno Sousa Vieira, exposto na Brotéria



[Breve oração ao anoitecer, ainda em eco do filme A Metamorfose dos Pássaros]


Agradeço-Te

as recordações reveladas

de pão acabado de sair do forno

ou de palavras escritas, ditas, sussurradas,

nas horas em que Te quis encontrar

pelas células da pele ou das folhas ou

dos encontros fugazes a repensar a vida


Peço-Te

não desperdiçar a vida

com barreiras e dar fluidez

ao sentido dos sentidos

com sementes de paz e de infinito


segunda-feira, 18 de outubro de 2021

46 anos de casal


[Secção Vida em Celebração] 46 anos: celebram a minha Maria e o meu José de vida partilhada. Na mão entrelaçada há sempre aquele momento em que o dar e o receber se fundem. Naquele dia, o da foto, comprometeram-se ao amor na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Este último ano tem revelado esse amor profundo que ambos sentem um pelo outro. Como filho, sinto-me emocionado ao testemunhar a força da recuperação do meu Pai e a delicadeza no cuidado da minha Mãe, em caminho lento de vida nova. Dizia-me o meu Pai há dias: quero casar outra vez. Do outro lado do telefone, ouvi o pedido de casamento. Tens de ser tu a casar-nos, acrescentou. Como não agradecer este dia, em particular o amor de um pelo outro? É a minha história também. Com humildade o digo, se ajudo outros a serem felizes é também graças a este dia e à vossa decisão de, diante de Deus, dizer sim um ao outro, aconteça o que acontecer. Queridos Mãe e Pai, este ano foi muito intenso para nós, mas tão profundo no Amor. Gosto muito de vocês. Com carinho, um beijo e um Abraço, Filho.


domingo, 17 de outubro de 2021

A noite e a cor da alma



Uma página de ‘O Livro das Questões’ de Edmond Jabès


[Notas soltas depois de breves momentos de oração] Volto a escrever sobre a noite. Recordo visitar a minha avó Constança, no profundo Alentejo, e ficar de noite à luz de fogo. Apetecia-me voltar com o entendimento de hoje. Ainda assim, voltam-me ao pensamento as imagens das brasas e das labaredas a encantarem-me para mundos distantes. Quase que ouço os estalidos. Quase que vejo fundir-me com a luz na escuridão. Tem sido assim a minha oração. A noite chegou. Não a sinto escura. Mas necessária. É mais uma travessia de purificação, despojando e integrando outros tempos, deixando que Deus me mostre mais um pouco do todo. É necessário. Só assim posso compreender de entranhas o sentido de amar, libertando as ânsias que ainda ecoam de poder ou poderes que desviam o serviço. A noite encerra beleza, da simplicidade, do que é, sem mais nem menos. E há que atravessar a da alma, para perder todos os medos e abraçar o luminoso infinito que me habita, que nos habita. Deus é irresistível. Como estalidos e labaredas de fogo vibrante pela noite.


quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Breve oração



[Breve oração ao final do entardecer]


Agradeço-Te

as travessias de fogo

a purificar as entranhas 

desde a verdade límpida

de todo o sentir da vida


Peço-Te

cruzar o tempo e o espaço 

ao encontro da plenitude

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Luz e Sombra


[Secção coisas de nada] Tirei o dia para maior silêncio, leitura e descanso. A dar um pequeno passeio final de tarde pelo exterior na Casa da Torre, vejo a minha sombra alongada, envolta de manchas de luz. Tenho contactado com as sombras de muitas pessoas. Faz parte da vida de quem escuta. Que só é possível viver isso bem, quando se contacta com a própria sombra. Das primeiras vezes, é terrível. A imensa quantidade de preconceitos, em jeito de véus ou barreiras, religiosos, sociais, culturais, levanta defesas e, se não formos determinados (e muitas vezes é preciso ajuda para o sermos), fugimos, em negações ou ainda mais juízos. Mas a sombra permanece. E aumenta. Enfrentar o nosso lado sombrio é fundamental para a liberdade, para deixar que a compaixão ganhe lugar na existência. Não se trata de heroísmo, mas de caminho de muito respeito e verdade connosco e com os outros. Quando a sombra é enfrentada e atravessada, surge ressurreição: uma vida nova de sentir, entender e compreender a realidade, que conduz à construção de comunidade, para lá de qualquer competição, em colaboração com os dons, ou manchas de luz, recebidos.


segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Caminho de vida


[Secção memórias e vida] Encontrei esta fotografia na casa dos meus pais. Tinha 18 anos. Pedi a uma fotógrafa profissional que me tirasse algumas fotografias com o intuito de concorrer a um concurso de moda. Intuito, porque não cheguei a concorrer. Recordo a sensação: vergonha. Afinal, pensava eu: “sou feio! Vão gozar ainda mais comigo.” Apesar de nesse tempo já ser bastante social, na organização de muitas actividades, por dentro ainda reinava a desconsideração provocada pelo ridicularizar, entre outras coisas, do meu nariz, das minhas orelhas, do meu vestir fora de moda, da minha timidez, pelo mau jogador de futebol, pela falta de macheza.


Mais de 20 anos depois, a olhar a foto, sorrio. É tanto o que passamos na vida. Tanto, mesmo. E as feridas, as sombras, as dores, podem ser atravessadas de nova luz. A direcção espiritual em conjunto com a psicoterapia, continuando ainda o trabalho pessoal desde corpo em movimento autêntico, ajudaram a libertar-me das angústias do passado e a caminhar cada vez mais com pés firmes de presente. Ainda assim, há ecos que subtilmente surgem. Há dias, partilhava com um bom amigo as vergonhas que ainda surgem desse tempo. 


A aprendizagem: nos dias seguintes, fiz desse surgir os pontos de oração, sem julgar nada do aparecesse de memórias, sentimentos ou desejos: de que ou quem tens vergonha? E medo? E zanga? A quem gostarias de ter dito que amavas, mas não te sentias nem digno, nem capaz? As respostas afloraram luminosas. Fui entregando a Deus, permitindo o perdão. Vi o adolescente a sorrir. Aquietando-o, amei mais um pouco como adulto. Depois, senti o silêncio do novo nascer: “segue-Me! Continua a ajudar a quem te confio a fazer caminho até à beleza da Luz.”


domingo, 10 de outubro de 2021

Saúde mental


[Secção pensamentos soltos sobre saúde mental] Quanto mais leio, investigo, escuto, rezo sobre corpo, mais me dou conta do imenso que somos, enquanto indivíduos em e na relação, e do tanto nesse imenso que está desconhecido. A pandemia veio abrir muitas portas desse desconhecimento. Causou e causa medo. Rapidamente queremos voltar à normalidade, chamando-lhe até de “nova”. No entanto, desde a fragilidade que também caracteriza o imenso de corpo, somos afogados de perguntas e emoções, desde a informação excessiva de como devemos ser e estar. Esgotam-se ansiolíticos e anti-depressivos, como desejo de voltar rapidamente à normalidade sem ter de enfrentar a exigente peregrinação de sabermos quem somos, em luzes e sombras. O problema: depois do alívio, as sombras tendem a aumentar e abafar o ser. 


A saúde mental ainda é a a face diminuta da saúde global. No entanto, a falta dela, em maior ou menor grau, atinge grande parte da população. Ainda assim, descarta-se com leviandade, não se percebendo depois como “uma pessoa tão boa” tomou decisões marcantes contra si e contra outros. Pois, é fundamental dar-lhe atenção e pedir ajuda. Mas também é primordial que quem toma decisões políticas e profissionais conheça o mundo da interioridade para lá de dinheiro. Cuidar da saúde mental exige tempo, e não é de mês a mês, ou mais. E feito em particular, infelizmente com as condições sociais que temos, é impraticável para milhares de pessoas. 


Apesar da normalidade exterior que se começa a viver, há tremenda anormalidade, desfoque, inquietação interiores. Por isso, tenho para mim que a linha da frente actual terá de ser composta por escutadores. A sombra tem de ser atravessada de luz, no respeito pelo sentir. E muitas vezes a luz não surge de auto-ajuda, mas através de pessoas que se capacitaram para a transmitir, tais como psicanalistas, psicoterapeutas e psiquiatras. Pedir ajuda não é uma limitação, mas o gesto que pode separar a vida da morte da alma. A experiência diz-me que as sombras atravessadas de luz tornam-nos mais humanos. Se respeitarmos a saúde mental, todo ganhamos em corpo imenso e pleno de humanidade.


sábado, 9 de outubro de 2021

Breve oração



[Breve oração antes de adormecer]


Agradeço-Te

o apaixonar-me por rostos 

que me desafiam

às perguntas como passos

até ao profundo da existência 


Peço-Te

sabedoria nas respostas 

em tons de fogo e de infinito 

ao encontro de mais um véu rasgado

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Encontros






[Coisas na vida de um padre] Dia intenso. Depois das Jornadas sobre Cuidados Paliativos Pediátricos, segui para um casamento. Abençoei a boda de dois tripulantes de cabine. Fui apanhado a fazer demonstrações de segurança, fardado de Jesuit Airlines. Entretanto, eis que me dizem: “Sr. Padre já conhece o rei?” E ouço da parte do “rei”, depois da gargalhada: “Há rei, há bispo, os peões estão animados, a partida está ganha!” E rimos os dois. Ofereceu-me o último cd: “tem de ouvir esta: A Vida de Pároco”. Entretanto na festa da boda, eis a primeira música: “Qual o melhor dia para casar?”. Daqui a pouco, reunião de CVX (Comunidade de Vida Cristã). Sim, todo o dia atravessado de vida, esperança e alegria.


quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Isso basta


[Secção letras verdes] Escritas numa breve paragem enquanto ultimo a minha conversa, amanhã, sobre espiritualidade e cuidados paliativos pediátricos, nas I Jornadas de Cuidados Paliativos Pediátricos.


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

À escuta


[Notas nocturnas enquanto vagueio pela oração] Escutar muitas pessoas é de valor incalculável. Ao mesmo tempo que, enquanto humanos, somos brutalmente parecidos, também estamos nos píncaros da diversidade. A carne é a mesma: daí as emoções e a razão que levam a interpretar imagens, sons, memórias, acontecimentos desde esse lugar de nome existência. Sem tempo. Melhor, noutro tempo para lá da passagem de minutos ou anos. Tempo existencial que repete o Teu suave grito a nos chamar ao presente. Ainda assim, a dar conta que em nós habita a possibilidade do pior e do melhor. É tão duro enfrentar as sombras mais sombrias. É tão duro perceber que o pior deus é o que nos quer impedir de amar. Esse deus reveste-se de moralismo, que impede o rasgo de luz na verdade, levando à imposição de gestos diante de mim e dos outros. Já Tu, pois, Tu puxas-nos ao crescimento, à liberdade, enquanto revelas o silêncio e a compaixão desde a verdade mais límpida, sem adereços, ornamentos, apenas a simplicidade do que é. E isso é tão terreno. Nada controlador. À espera do tempo certo para dar fruto, mesmo que passe pela podridão. E como aparas as nossas podridões, doendo, chorando, em especial por aqueles que te abusam o nome, voltando a morrer uma e outra vez, por cada um de nós. Para nos dares vida. É isso o amor, não é? Faz-me pequeno e torna-me cada vez mais terra.


terça-feira, 5 de outubro de 2021

Lágrimas


[Notas breves sobre lágrimas] As lágrimas são as palavras das emoções. Deixá-las sair quando afloram é como escrever um texto sobre a existência, da alegria, à tristeza, passando pela efusividade e pela dor mais profunda. Será um passo gigantesco de humanidade quando se deixar de pedir desculpa por se se emocionar com lágrimas. Outro passo gigantesco: haver cada vez mais gente que as acolham sem pressa, sem julgamento, a apontar caminhos de liberdade. 


domingo, 3 de outubro de 2021

Breve oração



[Breve oração ao anoitecer] 


Agradeço-Te

os casais. Todos. 

Ajudam-me a ser padre,

na escuta da vida, em existência

partilhada de força e vulnerabilidade,

na beleza da pele que se deixa envolver

de amor a abrir luz e caminho de liberdade


Entrego-Te

os que me confiaste a abençoar

e os que me confias a reconciliar


Peço-Te

consciência 

para não precipitar juízos sombrios;

clarividência 

para ajudar nos encontros de bem-dizer


sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Flores e dedos e flores


[Secção coisas de nada] Passo por elas diariamente. Entre o riso e a gargalhada, penso que a natureza também tem o seu amor e o seu humor. Podemos ser mais profundos: as flores apontam ao céu. Ou então, mais marotos: apontam o caminho a gente mal-encarada. Haja alegria. Bom fim-de-semana!