quarta-feira, 20 de julho de 2016

Pessoas no mundo




Alexandros Avramidis/Reuters

[Inicialmente publicado na edição de Julho 2016 da Revista da Misericórdia - Santo Tirso]

Pessoas no Mundo
Milhares vivem refugiadas

Facilmente a poesia pode aparecer no quotidiano. A densidade das palavras abrem para sentimentos, recordações, acontecimentos, em frescura primaveril presente nos versos. Como que se se refugiassem entre a subtileza de estrofes que encantam e até cantam. Esse quotidiano até pode estar afastado de outras histórias que nos chegam através de notícias, interpostas por um ecrã ou folha de jornal. Eles lá, nós cá, sem bem saber que dizer, fazer ou pensar. As terras estão longe e eles trazem-nas tão perto. As águas do Mediterrâneo revelam rostos fugidos de confronto, guerra, morte. Novos ares surgem, com muitas perguntas de todos os lados. Quem são? Humanos em busca de vida, com nomes e histórias concretos. No entanto, há um adjectivo que mais os tem acompanhado: refugiados. 

Desde há três anos que acompanho de perto pessoas refugiadas pelos mais diversos motivos, desde a perseguição política, passando pela religiosa, cultural ou sexual, culminando na social, onde a guerra arrasta milhares e milhares em fuga. Durante a minha formação como jesuíta, passei por Paris. Na comunidade onde estive, integrada no projecto Welcome da JRS (serviço jesuíta aos refugiados), viviam connosco pessoas refugiadas. Com o crescer da confiança, partilhavam as suas histórias. Entre os porquês e os modos de fuga, ia sabendo de famílias, umas assassinadas e outras sem qualquer possibilidade de contactar pelo medo de represálias. Uma vez, ao jantar, falava com o M. sobre o dia. Contava-me como pouco a pouco ia aprendendo o francês:

- Às vezes custa, não é? Sobretudo a relação entre a fonética e a escrita.
- Sim, e os temas de estudo. 
- Como assim?
- Temas como “a casa”, por exemplo. Faz pensar a família.
- Tens conseguido falar com alguém da tua família?
- Não sei nada deles há meses. É preferível que eu desapareça para que eles vivam, ou mantenham a vida possível.

Nas conversas, a emoção mostrava que os sentimentos atravessam toda a humanidade. Nas diferenças no modo de expressar, o coração revela que o amor, o desejo de viver, a vontade de abraçar quem nos é querido, brotam da essência do ser humano. O P. Adolfo Nicolás, Padre Geral dos Jesuítas, comentava numa conferência sobre o drama humanitário das pessoas refugiadas: "Temos que aprender com os refugiados. Perderam tudo, mas não a sua humanidade. Talvez sejamos nós que temos de aprender isso mesmo, a ser mais humanos”.

A humanidade tem a tal poesia do sentir. Da poesia até se pode passar à oração. Foi o que me aconteceu depois de ter escutado todo o relato de onde pode ir o mais anti-poético, nesse negrume de maldade humana, tecida em gestos de tortura. Nessa noite, depois da escuta, senti-me um profundo ingrato. Na oração agradeci, agradeci, agradeci e agradeci. Do pormenor do cheiro a amaciador dos lençóis (ridículo, quase), ao facto de estar vivo. Agradeci a fé e o que ela faz comigo e de a vida, ou a conversão, ou sei lá, me ajudar a ser alguém em quem confiar. Agradeci o poder saborear o silêncio sem ter pesadelos. Agradeci o poder fazer uma crítica sem a ameaça da tortura e da morte. Agradeci o não ter medo, nem vergonha, de pedir abraços quando deles preciso.

A relação transforma. A empatia faz com as histórias se entrelacem, alterando o pensar. São rostos que dialogam, modificando a reflexão, nessa empatia em que a dor e a paz são recebidas mutuamente, em mãos que se apertam. Um dos refugiados com quem costumava conversar veio contar-me uma boa novidade: após mais de um ano a tentar ter cartão de cidadania temporária, este finalmente chegou. A partir dali já podia tratar do processo para que a mulher também pudesse vir. Não a vê pessoalmente há mais de três anos. Foi obrigado a fugir do país pela guerra, por ser jornalista e ter denunciado casos de corrupção e abuso de poder. Outro que viveu a tortura de perto… e de longe, ao se ver obrigado a fugir, deixando a família, a terra, sem saber se poderá voltar. Emocionado e com um grande sorriso, depois de contar a novidade, disse: “Paulo, chegou em tempo de Páscoa. Na minha pouca fé, apercebo-me um bocadinho do que é a ressurreição.” Não consegui dizer nada em resposta, para além do forte abraço que partilhámos.

Passado uns tempos comenta: “A minha mulher está quase a chegar!” Os olhos brilhavam com uma ternura impressionante. Havia o tremer de lábios e de palavras em dizê-lo, afinal são mais de três anos de separação forçada. O Poder, em especial político, insiste em fazer mal. “Já preparaste o reencontro?” Respondeu-me: “Nem sei. Passa-me tanto pela cabeça e pelo coração. Vou levar um ramo de flores, como ela gosta. Depois, só queremos ficar abraçados.” Tempo depois, o S. telefona-me e vai lá a casa. Deu-se encontro entre nós. Não vinha sozinho. A mulher acompanhava-o. Depois de grande batalha burocrática, tinha chegado há dois meses. Pouco-a-pouco instalam-se nesse reencontro, ainda com medo com o que se pode passar com os que lá ficam. Mesmo vivendo este fantasma, toda a conversa foi à volta da esperança… e nada forçada, pelo contrário, transparecia no rosto. Que abraço bom demos todos.

Torna-se claro que penso muito na humanidade. Talvez seja das palavras que me acompanha muito frequentemente em léxico. Não a quero gastar com o uso, tornando-a quase banal. Simplesmente quero enaltecer o profundo sentido do que é ser humano, também concebido em cultura que cruza a humanidade condicionando o modo de pensar e de viver. É difícil, para não dizer impossível, alcançar a pura neutralidade. Questões de crenças tocam todos os âmbitos. Ser humano é ser crente. E não vale a pena fugir disto. Os tipos de crenças é que podem variar: do desportivo ao religioso, sem esquecer o político, elas pairam na vida de cada um. Somos cultura, somos crença… e somos relação, que nos ajuda a perceber a riqueza da humanidade na sua diversidade. Pelo que já escrevi, marca-me muito a chegada de tanta gente, como cada um de nós, por mar, atravessando arames farpados, de culturas diferentes. Apenas buscam viver… nem é viver melhor, apenas viver. Ficar-se neutro é impossível, já não o é optar entre o medo ou a confiança na altura de falar no auxílio a todas estas pessoas. Continuo a acreditar que, para além das crenças todas, possa crescer a de um mundo melhor. Para que tal aconteça, passa por acolher, e não expulsar, em especial quem quer, depois de tanto sofrimento, simplesmente viver.
  

E a vida, como se vê, reveste-se de poesia. Tanto fala de amor, de beleza, como também grita pela justiça e misericórdia por aqueles de longe que estão aqui perto. “Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar”, disse-nos Sophia de Mello Breyner. Os rostos deles são os nossos.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Formação sobre Corpo




Teresa lamas Serra


Mais uma formação dada sobre corpo. Desta vez para educadores daqui da escola. Uma primeira parte um pouco mais teórica, também com o filme Baraka para abrir perspectivas. Depois, movimento habitado por cada pessoa. A ideia base era conhecer(-se) em corpo e em relação, saindo do convencional, também com fortes pinceladas sobre fé e teologia. Exercícios simples, promovendo a consciência do corpo que se é, independentemente de como se é. É-se e ponto. Encontrar a limpidez do respirar, que não é tão óbvio como parece, e da posição que recorda a força da dignidade. Para terminar, um diálogo de gestos, pondo de lado julgamentos… despertando gargalhadas. Foi pedido o módulo II.


segunda-feira, 18 de julho de 2016

Questões




José Hernán Cibils

Este fim-de-semana foi muito cheio: dois casamentos abençoados, a Missa Nova de um companheiro, uma festa de finalistas, um baptismo, um jantar de reencontro, onde em tudo houve muito boas conversas. Sinto-me, em muitos momentos, cada vez mais em escuta. Surgem os comentários sobre Igreja, fé, Deus, mundo, mais ou menos típicos, alguns bastante pertinentes, em especial quando há partilha a partir de exemplos pessoais. Aumenta em mim a percepção desta transformação do mundo mais acentuada, provocando ou adensando questões. Partilho algumas. Como me vejo no mundo de hoje, na sociedade concreta? Como me formo e informo para além das redes sociais e de opiniões soltas, nos mais variados temas, em particular nos que não domino? Como relaciono a emoção e a razão nas minhas reflexões? Estou disposto a conhecer-me em profundidade sobre os dons, talentos, qualidades e capacidades, pondo-os a render, tomando consciência da minha importância no mundo? Percebo quais são os momentos em que tenho de diluir a minha opinião ou acção e dá-la ou pôr em prática quando faz realmente sentido? Como vivo o agradecimento na minha vida? As conversas ajudam-me muito nas reflexões seguintes. Continuo em escuta.


sexta-feira, 15 de julho de 2016

Silêncio




Beamie Young

[Secção outros tons] 

Silêncio.
De longe tão perto, os sinos anunciam vidas ceifadas.
Os rostos clamam por paz.


quinta-feira, 14 de julho de 2016

Inferno | Vida




Konstka Lincola

- Como atravessamos o inferno, P. Paulo? Diga-me?
Foi numa daquelas conversas em que senti as entranhas revolverem. As perguntas surgiram em grito, com muitas lágrimas a acompanhar. Eram muitas as ataduras que envolviam a pessoa, que já acompanho há algum tempo, numa história marcada por rejeição, culpa, violência... tudo num silêncio sufocante.
- Dê-me a mão.
Pusemo-nos de pé.
- A quem e como gostaria de dizer o que conta? Ou, melhor, o que gostaria de fazer a essas pessoas?
Estranhou as perguntas. 
- Obviamente que o vai fazer aqui, em local protegido, com alguém que não vai julgar os gestos ou as palavras, é para ficar neste espaço. O sofrimento está aí a latejar para sair. Todo o corpo fala, preparando-se para libertar pesos antigos. Que dizem essas mãos? Esses pés? 
Emocionei-me ao ver como aos poucos deixava-se falar em corpo da raiva contida. Foram uns largos minutos de luta. Apesar da exaustão, esboçou um tímido sorriso.
- É isto atravessar o inferno?
- Não... Há muito que o atravessava e estava a apoderar-se de si. Já era tempo de começar a sair dele. Não se fique pelo vislumbre da porta. Como sabe, houve muito caminho prévio e ainda há outro tanto a fazer. 
- E Deus?
Apontei para a pintura de Cristo na cruz que tenho no gabinete.
- Deus faz caminho consigo. 
Já à noite, recebo uma mensagem: "P. Paulo, a vida vale a pena!" 
E agradeci.


quarta-feira, 13 de julho de 2016

Feridas




Will Strathmann


As feridas. Não tanto as de pequenas brincadeiras em aventuras pelos bosques, mas as de alma. Essas têm de ser especialmente curadas com muita atenção, respeito e cuidado. Infelizmente, há tantas, mas tantas, que acabam por ser abafadas no orgulho, medo, vergonha, idealismos, moralismos, e vão minando a própria pessoa, como as relações que vive ou estabelece. São muitas, demasiadas, pessoas feridas em sofrimento, projectando-se em mau-humor, irritabilidade, falta de paciência, intelectualismos, julgamentos, etc. Curar essas feridas de alma é doloroso, não podendo ser feito de qualquer forma. Dar o passo no pedido de ajuda, ou admitir para si mesmo a necessidade desse caminho de cura, em especial da memória, será muito libertador.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Fé... e fim de vencedores e vencidos




Martin Bagg


[Secção pensamento solto sobre a fé nestes dias] Reparo que tem surpreendido a muita gente a fé de Fernando Santos. Ou, pelo menos, a forma natural como fala dela. Destacou-se que agradeceu a sabedoria que Deus lhe dá, devolvendo-Lhe a dádiva de glória. Poder-se-á deduzir que Deus ajudou Portugal a ganhar o Euro. Sempre me fez confusão estes aparentes favoritismos divinos. Deus, não impondo, dá em igual os dons que cada qual, por esse mundo fora, necessita para humanizar a criação. A questão reside na liberdade que temos, nessa disposição de aceitá-los ou não. Quando se chegar a tempos em que todos aceitemos e percebamos a Vida da divindade para cada ser humano, em especial no amor e misericórdia, deixará de haver vencedores e vencidos.

domingo, 10 de julho de 2016

PORTUGAL




Tirei-a em Paris, no dia 10 de Junho e hoje faz sentido republicá-la. Portugal | UNESCO | Celebração

[Secção CELEBRAR] Não ligo muito ao futebol, mas se há coisa que me mexe as entranhas é a injustiça, seja onde for. E foi enervante. No entanto, a verdade, a honra e a justiça ganharam através de nós, portugueses. Com a vitória do Euro em conjunto com as medalhas no atletismo, o dia transforma-se em universalmente português. VIVA Portugal!

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Vi-o a rezar.







Passei e vi-o a rezar. Imaginei alguém que, depois de mergulhar às profundezas de si, regressa, observa, deixa-se estar, ao seu ritmo, em escuta de novos tempos. A conversão é um nascer de novo.

domingo, 3 de julho de 2016

N.ª Sra. de Sheshua






No hospital da Madalena, onde Sto. Inácio esteve alojado quando regressou à sua terra no tempo em que estudava em Paris, há uma pequena imagem de N.ª Sra. de Sheshua, vinda da zona de Saigão, que os jesuítas usavam para evangelizar. Ao vê-la, agradeci a diversidade de olhares para a mesma realidade, que tem em conta a cultura local e mostra como a religiosidade conjuga o universal e o particular. Os jesuítas perceberam desde logo a importância da inculturação no anúncio do Evangelho. Teologicamente tem que ver com o Mistério da Encarnação. Deus que se faz próximo, que não impõe, mas a partir do concreto que muda, transforma e altera-se nos tempos e espaços, propõe sempre uma visão de “amar o próximo como a si mesmo”, em jeito de criança de respira e vive alegria nos braços da sua mãe.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Viagens e recordações





Entre viagens, passeios em Madrid, molhas-surpresa com garrafas de água, gritos nas montanhas-russas ("é a loucura, é o delírio") e golos de Portugal, houve uma pequena paragem para uma foto de grupo com grande parte da minha direcção de turma. Apesar da vergonha inicial, tão típica da adolescência, lá os convenci a tirar esta foto maravilhosa. Foi uma despedida em grande, com muito "brio profissional". Entretanto, já estou em Loiola, no País Basco, com outro grupo, em Caravana. É non-stop, esta vida de padre!!! ;)


terça-feira, 28 de junho de 2016

Há um ano




Esta foto foi tirada há precisamente um ano. Foi a última, de muitas, que tirei à Torre, quando estava a regressar a casa para terminar de fazer as malas e arrumar o quarto. Tanto aconteceu desde há um ano, nesse regresso a Portugal depois de 5 anos fora a estudar. Há pouco, na Missa, recordava bem esse dia carregado de emoção. As despedidas são sempre estranhas, junto com a vontade de (re)encontros. Também a chegada à nova Missão, no conhecer tantas pessoas que se foram tornando importantes. A vida de jesuíta tem este quê de partir, chegar, re-partir e… o coração vai-se enchendo de pessoas, histórias, amizades e conversões. E, amanhã, em dia de S. Pedro e S. Paulo, nesse aniversário de regresso, viajo em visita de estudo até Madrid e depois, com outro grupo da escola, sigo para Loiola e Xavier. É isso, partir, chegar, re-partir… 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Amamentar




Alex Midura /Reuters

[Secção coisas de Corpo] Tem acontecido, quando há celebrações por aqui, de me pedirem para usar o meu gabinete para amamentar. Aparentemente por ser um local resguardado para a criança. Mas, não, engano! É por ser um local resguardado para os outros… em especial os que sentem incómodo, até mesmo nojo, de ver a “cena”, ou seja, o conjunto mama e bébé a mamar. Como é possível que se tenha de resguardar, fugir, de olhares e comentários reprovadores, até para uma casa-de-banho (que sítio para comer!?!?) para viver algo de tão natural que é alimentar uma criança? Esta coisa de puritanismo corporal faz-me alguma confusão, ainda mais quando nos referimos ao básico: tipo, somos mamíferos! “Ai, padre Paulo, mas a senhora tem de tapar o seu peito [vulgo, mama], por ser indecoroso!” Indecoroso é a falta de respeito na forma como as mulheres são destratadas também por terem de se esconder para alimentar as suas crianças. Isto de ensiná-las a estar à mesa é só a partir de uma certa idade. Antes, não escolhem nem hora, nem local, para comer. Têm fome e pronto. Quem tem rasgos de puritanismo e pudor excessivo com a mama alheia, abra um pouco mais os horizontes, estudando e conversando sobre, por exemplo, o profundo significado da relação, do vínculo e do afecto mãe-criança que se estabelecem nesses momentos únicos.

domingo, 26 de junho de 2016

Recordações




[Secção Memórias] E de repente, a ver algumas fotos de um grupo de Alcafozes, uma pessoa voa até aos primeiros dias de Setembro de 2003 e, depois, Agosto de 2014. Ambos anos com boas memórias… da mudança de Companhia (da aérea para a de Jesus) à celebração da Missa, no ano em que fui ordenado, em honra de N.ª Sr.ª do Loreto, em Alcafozes. Meia-volta, os aviões, a farda, os voos e, sobretudo, os amigos “voadores”, lá vêm avivar as boas recordações. Vuuuuu…. ;)





sexta-feira, 24 de junho de 2016

Resultados





Emanuele Toscano

Haverá sempre tensão entre o abstracto das instituições [sociais, políticas, religiosas] e o concreto do quotidiano. Diminui, quando quem decide conhece a “realidade-real”, para além da “realidade-de-papéis-com-números-e-ideias-soltas". Aumenta, quando a ignorância ganha terreno. Os resultados andam à vista. E, tristemente, os extremos ganham ânimo.



quinta-feira, 23 de junho de 2016

Movimento e gesto




Gal Gross

Estava a rezar e a apercebi-me do impressionante ruído que me envolvia. Queria falar a Deus de muitas situações, sem saber por onde começar. A angústia subtilmente ganhava terreno. Comecei a dançar e deixei que o corpo revelasse através do gesto cada uma das situações e pessoas que tinha em mente. O corpo em movimento abriu as portas e as janelas à serenidade. Da mente, passaram para o coração. Aos poucos, os gestos foram ficando mais lentos, permitindo ambos corações dialogar. Aproximou-se o silêncio e, nome após nome, entreguei as vidas.


quarta-feira, 22 de junho de 2016

Fronteira(s)



Christian Fernandez


[Secção outros tons] A fronteira não delimita o dentro do fora ou o fora do dentro. Para uns, necessidade de ficar confortável no adquirido, para outros, simplesmente o não abandono nas mãos do medo e possibilidade, apesar dos riscos, de transformação da sobrevivência para a Vida.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Vida(s) em partilha




Momento da primeira Comunhão de algumas crianças, filmado por Marta e Tiago

Muitas vezes têm-me perguntado de onde vem este meu modo de ser. Em resposta rápida e limpa, seria da Relação. A seguir teria de acrescentar com quem, o que levaria a uma extensão imensa, por exemplo, de pessoas mais ou menos próximas em tempo e espaço.

Também comentam que sou diferente. Sim, sou diferente, porque tenho encontrado tantos e tantas diferentes que me inspiram. O primeiro é Cristo. Depois, muitos crentes (com destaque para inúmeros companheiros jesuítas, padres e outros imensos amigos de perto, de longe) e não crentes (em maior ou menor amizade, mas com profundo sentido de humanidade). Sou diferente, pois também, além de ter perdido o medo de conhecer-me e amar-me nas luzes e sombras, como cristão, em particular como padre, tenho tido a oportunidade de conhecer a grandeza do coração humano, quando, de livre e espontânea vontade, tantas pessoas sentem confiança em partilhar comigo as suas entranhas.

De igualmente salientar que nas minhas amizades, sérias, daquelas que se partilha profundidade de vida, há gente de muita diversidade social, cultural, nacional, política, artística, intelectual, religiosa, etc, com quem tenho tido conversas que me obrigam a ver outras perspectivas. Se venho a concordar, a discordar, a aceitar ou a tolerar os pontos de vista, é outra história, mas sei que faz parte do caminho que desejo no percurso de humanização.

Graças a estas amizades, juntando as leituras e a escuta que vou tentando fazer da realidade, vai crescendo a consciência da complexidade em que vivemos. Por isso, apercebo-me também do difícil trabalho que é compreender o outro. Isso não significa aceitar tudo, junto com o não mergulhar em generalizações em que se arruma tudo no mesmo armário, caixa, esquema, etc.. Reconheço que, como cristão, em particular como padre, sinto muitas dores de alma: por viver, sim, o jugo de uma história e actos que merecem muitos pedidos de perdão; por acompanhar vítimas de tanta estupidez e barbárie, resultado de péssimas interpretações do Evangelho, que promovem mais a condenação que a salvação; mas também por ver-me incluido em rótulos de injustiça. Claro que poderia ser muito pio e regozijar-me em estar a “ser perseguido” como diz o Evangelho. No entanto, não me regozijo, precisamente pela complexidade, em que, por exemplo, essas perseguições são também fruto de outras tantas promovidas, ao longo dos tempos, pela minha família religiosa mais ampla. Mas seria injusto da minha parte, se não mencionasse o imenso Bem, discreto e silencioso, que esta minha família, Igreja, faz por esse mundo fora, continuando em caminho de conversão e busca da entrega e serviço. Há tanta falta de clareza nesta complexidade, que tem muito pouco de neutra e está recheada de matizes, de tons e de sons. Por isso, é necessário paragem, silêncio, oração ou pensamento, escuta, reflexão, para não terminarmos todos cegos, mancos, surdos e mortos… de humanidade.

Nestes últimos dias tenho escrito, pensado e rezado sobre o ódio e sobre a força do Amor. Faz tanta falta tomar consciência do Outro, sem que tenha de partilhar imediatamente do que se pensa, diz, faz, é. Se se quer contribuir para o tal “mundo melhor”, há que sair, descentrar, abrir horizontes… pôr-me rosto-a-rosto, sem complexos de superioridade, seja mais ou menos conservador ou progressista. Há dias, Rui M Pêgo, na sua página do facebook, escrevia, em resumo, num texto viral com mais de 38 mil “likes” e mais de 4800 partilhas, para que não rezássemos por Orlando, mas que tratássemos os outros com o respeito com que gostaríamos de ser tratados. Parafraseou a milenar Regra de Ouro, transversal a todas as culturas, como algo simples. Simples, é. O desafio em torná-la prática e viva tem que ver com a exigência do reconhecimento das luzes e sombras que todos vivemos. É que isto de transformar o coração de pedra em carne é trabalho de vida, com necessidade de algo fundamental e inerente à condição humana: a relação que humaniza e transforma o modo de ser.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

"Amar os inimigos"




Davorin Volavsek

Inicialmente publicado no site imissio.net

São muitas as passagens do Evangelho que me obrigam a fazer silêncio e a parar. São muitas mesmo, para não dizer todas. Algumas pela densidade teológica, como por exemplo, muitas passagens em S. João. Outras, pela clareza da limpidez de Jesus diante da humanidade. E umas poucas por implicarem uma reviravolta de entranhas, na dificuldade do que é pedido. "Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem", é destas últimas, que ainda mais caracteriza algo muito específico do cristianismo.

Aqui damos de frente com o cúmulo do Amor de Deus. A aparente impossibilidade é logo desmascarada com a simplicidade do “faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre os justos e injustos”. Estamos perante o Pai que não selecciona pessoas para a sua dádiva de amor. Isto baralha. De instinto, ante os inimigos, parece que é natural e justificado deixar o ódio desenvolver, tentando eliminá-los. No entanto, a humanização em caminho de divinização, implica ultrapassar o instinto. “Apesar de tudo, quero que o outro, mesmo sendo meu inimigo, seja”, seria, parafraseando Gabriel Marcel, uma definição de amor.

Entende-se que o amor visto desta forma não é lamechice pegada, de beijinhos e abracinhos, como se, de repente, tivesse de tornar os meus inimigos como melhores amigos. Isto seria ridicularizar o embate forte de tudo isto. “Amar os inimigos” implica entranhar-me, a partir dessa oração que Sto. Inácio de Loiola nos convida a fazer nos Exercícios Espirituais, de ter e viver o conhecimento interno de Jesus para mais o amar e seguir. Então, apercebemo-nos que, por exemplo, em S. João, Jesus não se cala diante da injustiça e dos seu inimigos, revelando o amor a partir do questionamento. Quando leva a bofetada replica, não em violência, mas na questão que aponta à reflexão e conversão: “Se falei mal, mostra onde; mas, se falei bem, porque me bates?” Diante desta cena, imagino o diálogo a continuar: “O que te leva a bater-me, ainda mais quando tens capacidade para pensar e reflectir por ti? Queres estar submisso à tua aparente valentia de poder? Ou simplesmente imitas o caminho mais fácil, quando os poderes político e religioso são postos em causa ao se mostrar a dignidade de todos, em especial os excluídos e oprimidos?”

Pois, os mandamentos resumidos deixam de ter cargas morais, para se alicerçarem em existência relacional a partir do Amor: “Amai os inimigos”; “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”; “amai ao próximo como [se amam] a vós mesmos”. Isto não é simplismo, é densidade no caminho de compreensão de amor próprio (e tanto que falta no mundo) e do amor de Deus, nessa relação com o próximo (que nos remete à parábola do Samaritano). Por isso, a reviravolta de entranhas, muito ligada ao sentido da compaixão, faz como que o caminho de conversão implique o amor à luz e à sombra pessoais, nesse admitir com o mais verdade e coragem possíveis que tanto posso ser perseguido como perseguidor. Se desejo essa aproximação a Jesus, farei os possíveis para atrever-me a entrar, com Ele, na minha escuridão e aí levar a Sua luz. Esse exercício de conversão, podendo ser doloroso, é libertador… permitindo ver que nem o sol, nem a chuva, são do meu domínio, deixando, assim, o julgamento para Deus que simplesmente Ama. E isto, apesar de difícil de compreender, revela o Senhor da Vida.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Cores | Sentido(s) | Fé




Claudio Ceriali


[Secção outros tons - especial “dias-de-tanto-a-acontecer”] A fé ganha mais sentido quando o ver, o escutar e o tocar se afastam da multidão. Essa distância necessária, em espaço e tempo interiores, promove saídas da rigidez do preto e branco. As cores, em clareza de luz ou matizadas, mostram o silêncio do muito em cada rosto.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Combater fobias



Leland Bobbé

O grande trabalho é combater os medos, as fobias, em especial as que se dirigem a pessoas. Deixemo-nos de hipocrisia, a maldade pode estar no coração de qualquer um(a), em qualquer grupo social, religioso, político. Por isso, o trabalho é de educar para humanizar… e não são “os outros”, começa por mim. Não interessa atiçar mais ódios, permitindo que uns se tornem mais justificados que outros. Interessa humanizar, pensando que as pessoas são pessoas, para além de características ou crenças. Tendo em conta os recentes acontecimentos em Orlando, lembrei-me deste encontro e conversa que tive há três anos, em Madrid. 

Quando desço a Rua Fuencarral ou a Preciados (centro de Madrid), encontro quase sempre pessoas a pedir sócios ( = €) para ACNUR, Oxfam Internacional, Aldeas Infantiles SOS, Cruz Vermelha, Fundación Josep Carreras, etc. Normalmente, por uma questão de respeito, paro, pois grande parte das vezes aquelas pessoas são votadas ao desprezo de tanta gente. Infelizmente não posso ajudar, o qual explico, depois de dizer que, de alguma forma, também contribuo com a minha própria vida (directa ou indirectamente) em muitas situações que estas instituições também ajudam. Ontem voltei a parar. Desta vez a história é um pouco curiosa. Estavam 4 travestis a pedir para uma Associação de ajuda a pessoas com osteogénese imperfeita (também conhecida como doença de ossos de vidro). Com elas estavam duas raparigas que sofriam da doença. Enquanto descia, uma travesti abordou-me:
- Olá “guapo”! Tens um minuto?
- Sim.
Explicou o propósito da recolha de fundos, se queria ser sócio etc. e tal. Respondi-lhe que não poderia ajudar, pois não me iria fazer sócio da associação.
- És italiano?
- Não, sou português.
- Estás cá a trabalhar?
- Não, estudo.
- Posso saber o quê?
- Sim, claro. Estudo Teologia.
E com ar de muito espanto: 
- Não me digas que vais ser padre?
-Sim, vou e já sou diácono.
A sua reacção facial mudou, como se tivesse saído uma máscara, mesmo por detrás de toda a maquilhagem. E já sem voz de festa:
- Não estás a gozar comigo, pois não?
- Porque haveria de o fazer?
- Hmmm, não é suposto uma pessoa como tu parar e falar, por exemplo, comigo. Não estava à espera. 
Soltei uma gargalhada. 
- Oh, mas... porque não? Porque és travesti? Oh... És uma pessoa, que neste momento está a trabalhar por uma causa e já está. 
E desenvolveu-se ali uma conversa de meia dúzia de minutos. Percebi que era uma pessoa em busca da fé. E no final disse-me, ainda com a sua voz natural e de forma sentida:
- Obrigado por teres parado e me escutares. 
- Espero que consigam uma boa recolha. Já costumo rezar pelas pessoas que sofrem, mas esta noite, de forma especial, rezarei pelas que sofrem desta doença de ossos de vidro. 
- Posso pedir-te que rezes também por mim?
- Claro, com gosto. “¡Suerte!” Adeus.
E abana a cabeça, ajeitando os cabelos e voltando a “máscara”:
- Adeus “guapetón”... ai, desculpa a minha falta de respeito! 
Deu uma gargalhada artística. Eu dei outra e segui caminho. 

De facto, o possível título deste acontecimento é mesmo: “Actos dos Apóstolos 10, 34”, ou seja: “Pedro tomou a palavra: ‘Verdadeiramente compreendo que Deus não faz acepção de pessoas’”

Contra a violência




Eric Smith


[Secção desabafos] Já é tarde, mas estou mesmo com os pensamentos em grande velocidade após leituras sobre o atentado em Orlando. Além do choque de mais mortes, fica a dor de se acrescentar a dose de homofobia que provocou o próprio atentado. O Deus no qual acredito chora estas mortes, tal como chora todas as outras em ataques vis à dignidade humana, envergonhando-se de toda a atitude que descrimina seja quem for, independentemente da raça, religião, género ou orientação sexual. Nos últimos tempos, sempre que há um ataque terrorista, faço um pequeno exame de consciência para ver onde possa habitar algo de ódio em mim, de modo a eliminá-lo. Afinal, como pessoa e, em especial, como padre, não quero partilhar os mesmos sentimentos com terroristas, violadores e homofóbicos.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Corpo




Jean-Louis Fernandez

A propósito do Bgreen // Ecological Film Festival (com a grande Grande Gala bgreen // ecological film festival 2016 esta noite), temos a visita de alunos e professores de escolas europeias. Ontem orientei um pequeno workshop de corpo para um grupo destes alunos. E mais uma vez surge a surpresa das potencialidades nesse conhecermo-nos como corpo que somos. Os bloqueios mentais, que também levam ao moralismo excessivo, diminuem a consciência da dignidade pessoal. Surge o medo do corpo próprio, dos olhares de comparação, dos julgamentos diante do (aparente) ridículo. Surge a vergonha de quem se é. E depois, as pequenas ferramentas para libertar-me, aos poucos, de tudo isso, dando força à dignidade de ser. Tomar consciência e viver as potencialidades do ser corpo em relação é fascinante… e libertador.   

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Surpresas



[Coisas que aparecem de surpresa] A propósito do post anterior, a Isabel Bastos comentou que ouviu o Professor Júlio Machado Vaz, em conversa com Inês Meneses, a referir-se à minha pessoa no “Amor é…”, programa da Antena 1. Estive a ouvir. Comentam um poema de Chico Buarque. Por volta dos 22 min e 30 seg surge o tema da religião e eis que menciona o nosso encontro na sala de maquilhagem da RTP, antes de entrarmos em directo n’A Praça. O encontro e o programa já foram há uns meses. É muito agradável ser referido como um exemplo de mudança, ainda mais num programa com Amor no título e a falar de Chico Buarque. ;) Muito obrigado, Isabel! :)


terça-feira, 7 de junho de 2016

Ser conhecido e pipocas




[Coisas do quotidiano da vida de um padre numa escola com grande diversidade de pessoas] Elogio desta tarde, vindo de um aluno do 8.º ano: “O padre Paulo é mais conhecido que as pipocas!” Gargalhada. “Porque diz isso?” “Fala a toda a gente e toda a gente lhe fala.” E é isto. ;)

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Mulheres | Violência | Respeito




Tatiana Sharapova


Talvez já tenha caído em esquecimento, por ter sido “lá longe”, mas continua a revolver-me entranhas saber da violação de uma mulher por tantos homens e ainda terem publicado imagens de toda a cena. Fez-me lembrar os tempos de criança/adolescente, em que para se ser “macho”, provando virilidade, havia que apalpar as raparigas, levantar-lhes as saias, etc. e tal. Fazia-me confusão isso tudo. Não tenho irmãs de sangue, mas já imaginava o sofrimento que poderia causar à Suzanne e à Letinha, minhas irmãs de coração. Tantas vezes fui apelidado de maricas, por recusar-me a esses gestos de “macheza”. Afinal, quantas mais são violadas em cada dia, por esse mundo fora, por questões dessa estúpida demonstração de virilidade, de guerra, de raça, de pobreza, “porque sim”, por estranhos ou pelo próprio namorado, marido, companheiro, onde o problema é quase sempre visto a partir delas? Li muita indignação com o acto, junto com o comentário igualmente presente “também ela devia estar a pedi-las”. As leituras deste domingo falaram de viúvas que perderam os filhos. Além da dor da perda, indescritível, estas mulheres retratadas tanto no Livro dos Reis, como no Evangelho, são símbolo de todas as que são socialmente rejeitadas e renegadas. As tais mulheres desgraçadas e apontadas como inúteis ou passíveis de serem violadas. Jesus travou esse abuso. Tanto os homens (pelo que se tem visto, talvez sobretudo os homens), como as mulheres, deveriam crescer e formar-se no fundamento: a educação para a dignidade e o respeito, próprio e de outrem.

domingo, 5 de junho de 2016

Pensamentos soltos, depois de dias de muito.




Mel Kevin Jumangit


[Secção pensamentos soltos: questões de fé, ódio, perdão e vida] Estes últimos dias foram muito cheios. 5.ª e 6.ª, visita de estudo com o 5.º ano a Lisboa (todos ao rubro e eléctricos, parecendo milhares, muitos milhares). ;) Ontem, casamento luso-belga em Óbidos, onde voltei a dar asas ao “franciú”. ;) Depois, Baile de Finalistas, com muito glamour e emoção e recordações. Hoje, celebrei uma Missa de manhã e celebrarei mais duas durante a tarde. Assim, nestes dias, durante as viagens, estando com tantas pessoas diferentes, com mais ou menos fé em Deus, e enquanto preparava as homilias, pensei no bem e no mal que nós, gente de Igreja, em especial padres, podemos fazer. De onde é que este pensamento vem? Por um lado, muitas pessoas vieram agradecer-me as celebrações, algumas comentando que estavam afastadas da Igreja e o porquê, por outro, entre leituras de artigos de opinião, posts, conversas, apercebo-me de muita gente ferida na relação com Deus. O ódio, o rancor, o ressabiamento, mais ou menos disfarçados, impressionam-me sempre e levam-me a pedir perdão, de coração, a Deus pelo mal que nós possamos ter feito em todas estas pessoas. Fazemos muito, mas muito bem, no entanto, parece que uma má palavra, um gesto de recriminação, condenação, exclusão, eventualmente num dia menos simpático, além de ter um eco mais forte, pode abrir feridas imensas no coração de tantas pessoas, acabando por deixar crescer ódio visceral à Igreja, aos padres, até a Deus. Rezo muitas vezes a Missa da reconciliação, também por viver a vocação de construir pontes, sendo alguém a ajudar a que a Paz seja cada vez mais possível neste mundo. Afinal, é impressionante a quantidade de mal-entendidos que impedem o bom diálogo e a compreensão das diferentes partes. Peço muitas vezes a Deus que me ajude a estar atento ao meu sentir, aos meus gestos e palavras, de modo a que a minha acção, ainda mais como padre, possa ser como Jesus, também nessa referência ao profeta Elias, que se compadece, faz parar os caixões e liberta a escuridão desses ódios, deixando que a Vida tenha a palavra mais forte.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Criança(s)




Pai José, com a Mãe Maria por perto.

Foi engraçado encontrar esta fotografia em que estou vestido de príncipe, com o mar ao fundo. Em criança queria ser Super-Homem, para defender quem estaria desprotegido. No entanto, este ser príncipe, mais do que estar ligado a aristocracia, era pensar que poderia ter outros poderes para ajudar e salvar. Se há coisa que as crianças têm é sonhos, junto com grande capacidade para compreender quando são amadas. Andei pelas salas a agradecer a força de ser criança. Houve uma do 5.º que comentou, com a espontaneidade própria: “Padre Paulo, hoje vamos ter gelado e pizza para o almoço [foi o almoço surpresa, que rapidamente segredavam uns aos outros o que era, como se fosse a grande descoberta do mundo ;) ]. Pena é que aqueles meninos refugiados que chegam de longe não possam comer connosco. Eu partilhava com um o meu gelado.” Dei-lhe um sorriso e agradeci o coração que vai ganhando honra e sentido de justiça pelos que mais sofrem… também ao jeito dos príncipes dos contos de fadas.