domingo, 24 de junho de 2012

São João Baptista




São João Baptista - Caravaggio

(Versión en español en los comentarios)

Olho pela janela, vejo o horizonte rodeado dos tons de terra outrora marcada com os nossos passos. Os mesmos que espelhavam as conversas, os silêncios, as idas de povoação em povoação. Contigo. Sempre. Presente na descoberta ou já plenamente connosco em pão multiplicado e em vinho, do melhor, servido em cada boda. Era muito novo quando conheci o teu primo. Dizem-no rude, quase bruto, talvez pela força das palavras. Sem medo de as pronunciar, dizia a verdade que só pode exprimir quem rejubila sem te ver, apenas sentindo a tua presença. Bastou a escuta da voz da tua mãe e ele agitou-se nas águas internas que o amparavam. Tornou-se o último profeta do passado e o primeiro do presente. Sem problemas de identidade, passou-te pelo Jordão e apontou-te como o Cordeiro, que anularia todos os sacrifícios que fossem para além da misericórdia e serviço. A doçura do mel silvestre completava-se com a força ganha do seu silêncio calcorreando o deserto, confirmando que foi enviado a desenhar a certeza da salvação que não tardou a chegar... em ti. As suas palavras, ao jeito de espada afiada, cortavam o que não interessava. E se não cortavam, feriam os que não buscavam o melhor para si e para os outros. Lembro-me da dor que sentiste quando soubeste da sua prisão. Também recordo o que lhe mandaste dizer, confirmando-lhe o teu ser: quem não vê, abre a visão, quem não ouvia, passa a escutar... e os cativos recebem a Liberdade. Outras correntes, não de ferro, passarão a definir a comunidade... mais ampla que a morte. E João, o baptista, não ficou esquecido. Está sempre ligado a ti. Nós o testemunhamos, e o nosso testemunho é verdadeiro. 


sábado, 23 de junho de 2012

[Identidade]



Hugo Correia - Reuters

(Versión en español en los comentarios)


Identidade:
     
Terra, gestos, 
sons, letras,
mar, rostos,
[lágrima
de emoção]
relógio de sol,
em cruz delineado,
espigas descobertas
sobre o silêncio
da via campestre,
[sorriso
de memória]
bilhete trespassado
nos movimentos
da cidade,
pessoa feita homem,

[diluído na (ir)realidade
de muitos,
que dão passos,
trocando mãos,
alimentando beijos,
fortalecidos de pão]
de respiro
e saudade.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

"Uma noite com Kylián"




(Versión en español, todavía sin haber sido corregida, en los comentarios)

A noite guarda sempre mistério. Silenciosa ou espaço de festa, ruídos ou surpresas, traz a possibilidade de encontros. Uma noite com Kylián abre a porta da transcendência, não etérea, mas bastante terrena e humana. Para dar corpo a esta Noite foram escolhidas, por parte da Companía Nacional de Danza - Espanha, três coreografias de Jiri Kylián que, a meu ver, formam um ciclo. Três peças distintas, uma unidade.
Uma pessoa iluminada projecta a sua sombra sobre a tela: assim inicia Sleepless. Assiste? Vê? Estende os braços, rasgando o véu para a entrada na História que já começou. O mistério do outro lado, ao jeito de uma série de partos de novos acontecimentos, moldados pela relação de corpos: ora fogem, ora surgem, em parte e no todo que se completam ou complementam. O ritmo é frenético, quase gritante, agitando as rupturas interiores que a vida traça. Em contínuos nascimentos, a individualidade abre-se à relação e, assim, tal como nos primórdios da Criação, do caos ao cosmos, do ruído à harmonia. Poderíamos falar de transfiguração, no entanto, seria mais o peregrinar: “não há caminho, o caminho faz-se a andar”. Foi uma boa surpresa ouvir já quase no final a repetição deste verso de António Machado. A peça, a meu ver, de grande profundidade espiritual, faz pensar na identidade: própria ou de quem a busca. A saída e o retorno diário à casa, ao lar, onde no entretanto tudo acontece. O véu do templo rasga-se, sobe, desaparece, para revelar o tal outro lado. Mas há que descer do monte, continuando a fazer caminho, o caminho. No final, a porta estreita abre-se e, incansavelmente, entro de forma renovada na História...
...que, entre muitas experiência, se toca uma e outra vez a Petite Mort: segunda peça. A linearidade dos corpos, em floretes prolongada, agita o respeito ao som dos golpes. Uma mistura de subtileza, sensualidade e força na atitude de quem busca a honra, ou a liberdade ante modos de vestir carregados de Corte e festas palacianas, exclusivas para alguns. Aparecem as ondas, as modas, que mudam os cenários. O mundo é um palco, onde a exposição de quem o pisa é inevitável: daí a honra a defender. Em Petite Mort não encontro espírito, sim, a humanidade plena, quase visceral, suavemente retratada no erotismo do florete e nos negros decotes reveladores de outros desejos. Na tentativa de esconder a morte, de a evitar, no caminho que se faz ela acaba por surgir. Não será uma “pequena morte” a passagem da noite para o dia seguinte? Toda a semente tem de morrer para dar fruto novo... e a semente do amor, em êxtase vivida, não foge à bonita realidade. E na intensidade desse momento, os vestidos são abandonados, dando outro passo no percurso a fazer.
Por mais que se queira fugir, as perguntas existenciais tocam-nos à porta. Responder, ou pelo menos buscar a resposta, faz parte da essência de quem se diz pessoa. Da relação sai o encontro com Deus. Stravinsky dá o mote... ou serão os salmos? Também estes são um caminho do 1 ao 150. E é este último o mais presente no fim da Noite: Sinfonia dos salmos. Acaso? Não me parece. Da unidade conseguida nesta “trilogia”, este culminar é majestoso. Num cenário preenchido por objectos evocativos de oração, os corpos traduzem a linguagem dos repetidos louvores apresentados pelo salmo, pelo coro e instrumentos. O laudate de fundo não invalida a experiência da queda. Só pode haver verdadeiro(s) alelluia(s) depois de se passar pela(s) experiência(s) do sepulcro, nas suas muitas distintas formas: recordamos o dilúvio, o êxodo, o livro Job, o salmo 22, o salmo 50 [miserere], entre outras possíveis passagens e outros relatos. A oração ganha um outro sentido. Deixando de ser repetição mecânica de palavras, passa ao pulsar de movimentos do corpo, transforma-se em vida de quem a vive. Em meditação, reflexão ou contemplação percebe-se o abandono ao existir. Nesta História sou mais um que escreve outro sentir. Pois nesta História cada um compõe uma narrativa. O ser pode desaparecer, mas fica o registo do espaço e da memória que não deixa apagar os pilares do mundo.
Fiquei positivamente impressionado com esta Noite. Em tempos onde parece que há medo de tocar no Espírito ou no que é d’Ele, José Carlos Martínez, como director artístico da CND, evocando a grandeza de Jiri Kylián, propõe, no meu entender, uma entrada no Humano e no Divino. Como? Louvando o Senhor... com a dança, enquanto o caminho é feito a andar.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Coisas da vida...










Cartoon: Carlos Ruas

Ontem, num autocarro, em pleno centro de Madrid, tive a previsão do meu futuro. 
Uma rapariga, de língua portuguesa, comentava que estava a receber pedidos no facebook de pessoas que não conhecia e dizia (com ar muito sério):
- Olha, e estuda teologia. Todos os que estudam teologia são gente louca! 
Depois de toda a conversa (meio surreal), quando ouço isto não aguentei e depois de rir disse:
- Peço desculpa por intrometer-me na conversa, mas... parece-me que nem toda a gente que estuda teologia é maluca.
Ficam os três a olhar para mim, com ar de “fomos apanhados, ele fala português”. Ela responde:
- Bem, todas as pessoas que eu conheço e que estudam teologia são loucas.
- Hmmm, então já sei o meu futuro... Eu estudo teologia!

domingo, 10 de junho de 2012

Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas





Estando fora, a sensação de pertença a Portugal é ainda mais forte. Há um encanto em ser português. Mesmo na crise, mesmo no sentimento de tristeza perante muita injustiça que acontece, quando olhamos para a riqueza de alma do nosso "à beira mar plantado", há o positivo orgulho que nos faz abrir os horizontes e deixar que os "mares" e "Adamastores" de hoje não sejam uma ameaça, mas sim a possibilidade de descoberta de outras "terras" (mais interiores), transformando o "cabo das tormentas" em verdadeira esperança!


segunda-feira, 21 de maio de 2012

E mais uma época de exames...




"Tudo tem um começo" de Carlos Ruas

(Versión en español en los comentarios)



Época de exames oficialmente aberta. 
O tempo voa e o segundo ano de Teologia está quase a acabar. Toca mais um esforço. Haja estudo!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Dos verbos "agradecer" e "gostar"




(Versión en español en los comentarios)

Não se devia esperar o inesperado para agradecer. Nem mesmo o fim para dizer, apesar das fraquezas, pecados até, que a pessoa que está ao lado tem o seu quê de especial... mesmo que não faça nada de extraordinário. Continuarão a existir pessoas de quem não se coincide no gostar ou na existência de empatia. Não se trata de heroísmos. Trata-se, simplesmente, de não deixar que a oportunidade de cada momento se esfume. E em igual simplicidade dizer, cada qual ao seu modo, és e eu quero que sejas, gosto muito de ti! 

sábado, 5 de maio de 2012

Entre "fontes" e conhecimento de Deus




"Travelling Light" de Magali Nougarede

(Versión en español en los comentarios)


Venho de retiro. Um dia.
Tive o silêncio como “ponto de orientação”. A partir daí fui guiado para rostos, situações, textos bíblicos que me têm chamado a atenção e para momentos de “alta contemplação mística” onde alcancei o sétimo céu... do meu descanso. Sem esperar - coisas do ipod -, terminei o retiro com o poema As fontes de Sophia de Mello Breyner, recitado por João Delicado.
Chego a casa e lá venho eu à outra realidade do mundo. Antes de abrir o mail e facebook, vou ao A Ronda dos Dias, um dos meus blogues de visita diária, e a meio do post “A um Deus conhecido”, leio:
“- Ok, mas explica-me lá esta necessidade de rezar em latim.
- Para já, eu ouvi e acho giro. Stôra, é altamente, aquilo soa tão bem. Depois, tenho andado a pensar numa coisa: Deus durante muito tempo ouviu rezar em latim e depois deixou de ouvir. Se eu rezar em latim, pode ser que Ele reconheça assim um som que já não ouve há muito tempo e diga:"Oh, olha para esta! Deixa-me lá ouvir o que ela quer." Escreva lá!”
Para além de descobrir uma possível nova categoria teológica, o altamente, imagino Deus aborrecido com a linguagem e penso na beleza da simplicidade de alguém a acreditar que O surpreende com algo inesperado. 
Sim, um dia em cheio, entre fontes e conhecimentos sobre Deus!

terça-feira, 1 de maio de 2012

Sentido de ser (VIII) - Especial 1 de Maio



James Wasserman

(Versión en español en los comentarios)


“Mulheres que esperam à porta da uma fábrica... chove. As mulheres estão do lado de fora, à chuva, diante daquela porta aberta. O que seria mais natural que resguardar-se quando chove e quando uma porta está aberta? Mas este movimento tão natural é impensável, diante desta fábrica, porque está proibido. Nenhuma casa é tão estranha como esta fábrica onde se consomem as nossas forças, diariamente, durante oito horas”.
Simone Weil, in “Ensayos sobre la condición obrera”

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Sentido de ser (VII)



Amy Hildebrand

(Versión en español en los comentarios)

“Honro o outro não só como corpo, mas como corpo vivo, somo ser vivo: para além do corpo, venero o sujeito que o habita, honro o outro como pessoa espiritual e descubro que os seus gestos e as suas palavras são motivados pela sua estrutura pessoal. É o espírito do outro o que habita no meu espírito. O esforço de entrar no seu mundo de valores leva-me a aprofundar no conhecimento do meu eu, a confrontar o meu mundo de valores com o seu, às vezes faz despertar o quanto em nós está adormecido e descobrir o que somos e o que não somos.”
Edith Stein, in “O problema da empatia”

terça-feira, 24 de abril de 2012

Sentido de ser (VI)




"Drop" de Stuart Jesse

(Versión en español en los comentarios)

“O silêncio é necessário em muitas ocasiões, mas há que ser sempre sincero; podem-se conter alguns pensamentos, mas sem disfarçar nenhum. Há formas de calar sem fechar o coração; de ser discreto, sem ser sombrio y taciturno; de ocultar algumas verdades, sem as envolver de mentiras”.
Abade Dinouart, in “A Arte de Calar”

domingo, 22 de abril de 2012

Epifania (III)





(Versión en español en los comentarios)

Sento-me e recordo o ardor de coração, quando o passado começou a fazer sentido. Escrevo e as memórias afloram de maneira distinta. As notas que surgem embalam primeiro, depois confirmam que não se pode guardar a poesia, nem impedi-la de viver no meio do caos. A crise torna-se uma encruzilhada, pondo em prática a liberdade. Fico em casa mais um tempo. O presente é o início. 

sábado, 21 de abril de 2012

[Ceia]



"A festa de Babette" (1987)


(Versión en español en los comentarios)


Abro os dias
com a novidade.
Uma mesa posta
ao estilo antigo, 
com novos sabores
de frutos da época.
Preparo-me,
como as palavras,
nos seus muitos sentidos.
Dirijo-te o rosto,
baixando-o para ser elevado.
Reconheço o silêncio a guardar.
A gestação não é ruidosa,
o ser tem várias facetas.
As dores de parto serão passageiras.
O que fica:
a certeza da nova criação.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A arte e o público e a arte





(Versión en español en los comentarios)


A Compañía Nacional de Danza (CND) daqui de Espanha iniciou uma campanha de sensibilização para a dança. Uma fotografia de cada pessoa, acompanhada da frase “le gusta la danza. ¿Y a ti?” (“Gosta da dança. E tu?”). Sabia que iam fazer esta campanha. Foi em Janeiro, aquando da primeira apresentação da CND com a nova direcção artística de José Carlos Martínez. No intervalo estavam a fotografar pessoas do público em geral. Também me fotografaram. Sei que o meu gosto por esta campanha também tem o seu lado subjectivo. No entanto, como não sei se me seleccionarão para aparecer na campanha, devo dizer que gosto mesmo desta ideia de relacionar o público com a arte, neste caso a dança.
Qualquer forma de arte sem público não tem sentido. O acto criativo, mesmo não tendo que estar focado no público, tem de o considerar. A questão não se prende em “vão gostar ou não”, mas como forma de dar algo, de promover uma relação. A criação é exteriorizada numa entrega, numa partilha. Pintar, esculpir, coreografar, dançar, compor, escrever, para ficar fechado é apenas uma idealização do processo criativo e não uma realidade artística. O acto de publicar confere a saída do tempo e do espaço do criador, dando-lhe uma nova abertura.
Quando vi as coreografias apresentadas pela CND em Janeiro, sabia que havia uma tensão no ar. Nacho Duato esteve anos à frente da CND e agora entra um novo director artístico. O que irá acontecer? Nova linha? Mudanças? O pouco que estava dentro do assunto restringia-se ao que havia lido sobre o tema, antes de ver as peças. Percebe-se então que há uma espera da reacção do público. O que dirá quem vai assistir? Com esta campanha há um convite claro da participação do público a ver, a saborear, a entrar na dança, reagindo a tudo isso. Também eu recordo o que senti.
Entrei no Teatro Zarzuela e caiam penas no palco. Para mi, a clara sensação de, mesmo estando a entrar, já estar a acontecer algo. A preparação já é acção. E a primeira coreografia já estava, de alguma forma, em marcha. Não temos a presença dos bailarinos, mas temos o cenário que já nos informa, do que entendi depois, da leveza de Extremely close, de Alejandro Cerrudo. Segue-se El espectro de la rosa, de Angelin Preljocj, Artifact II, de William Forsythe, terminando com Walking Mad, de Johan Inger.
Como alguém do público, fora do que senti e vivi em cada coreografia, a grande sensação foi: a CND quer apresentar algo novo, sem ter uma linha para além do: “Desde que seja bom, apresentamos”. Todas as coreografias eram bastante diferentes entre si e num dos intervalos houve o recordar da História da CND. Passado, presente e futuro.
O que mantém em comum tudo isto? A realidade do público. O público não é uma abstracção. São pessoas que sentem, vivem, aplaudem, criticam, soltam gargalhadas, choram e que de alguma forma afirmam que a arte é vida e não pode morrer. Em tempos de crise é fácil eliminar a arte, como se de um luxo tratasse. É verdade que as entradas são caras e não se pode ir a tudo. Mas não podemos esquecer que os artistas não vivem do ar e que entrar no mundo da arte é também entrar no mundo do humano. A arte permite uma relação com a humanidade, um vínculo que dá outra dimensão da vida. O que seria um mundo sem música? Sem pintura? Sem dança? No fundo, sem cultura? Sem dúvida que seria um mundo mais desumanizado.
A arte precisa do público e o público precisa da arte. A arte é um dos cumes do humano: a capacidade de abstracção e de acolhimento dos sentimentos que surgem nesse momento. Fazer o “desenho” da vida, em movimentos, pinturas, música. A arte, em si, não é um capricho, é uma necessidade humana, porque nos afecta. Podemos ter com que comer e beber, junto com um tecto, mas só com isso não somos felizes. Há necessidade de mais. O afecto, o vínculo, a capacidade de desenvolver uma relação abre as portas: da imaginação, da Vida que quer dar vida e respeito pelo outro, do artístico e, sim, da Fé. E isso é Ser Humano.
Parafraseando a campanha da CND: Sim, Gosto da Arte.
Afinal, a arte também é o público e o público também é a arte.
P.S. - Este sábado, 21 de Abril, quem possa, não perca o II Fé e Arte, em Braga. Mais informações em www.fe-e-arte2012.com

terça-feira, 17 de abril de 2012

Diálogos Ocultos (IV)





(Versión en español en los comentarios)


- Não te parece que está na altura de abrir os olhos?
- Não me apetece, há todo um mundo de recordações a passar diante de mim... a partir da suavidade.
- Já alguma vez tiveste a sensação de regresso a casa?
- Hmm, como que viver cada canto e cada história? A linguagem que só as entranhas conhecem? Afinal, o que é a casa senão o mais intimo que não nos pode ser tirado?
- A isso chama-se liberdade. A possibilidade de regressar a casa, esteja-se onde se estiver. Não importa o lugar. 
[Abre os olhos]
- Ah, esse olhar tão teu. Tenho para mim que estiveste lá.
- Foi de passagem, mas senti-me livre, plenamente livre, por momentos. 

domingo, 15 de abril de 2012

[Jo 20, 24-29] *




"A incredulidade de Tomé" de Caravaggio 

(Versión en español en los comentarios)


* Tomé, um dos Doze, a quem chamavam o Gémeo, não estava com eles quando Jesus veio. Diziam-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor!» Mas ele respondeu-lhes: «Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu peito, não acredito.» Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez dentro de casa e Tomé com eles. Estando as portas fechadas, Jesus veio, pôs-se no meio deles e disse: «A paz seja convosco!» Depois, disse a Tomé: «Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito. E não sejas incrédulo, mas fiel.» Tomé respondeu-lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» Disse-lhe Jesus: «Porque me viste, acreditaste. Felizes os que crêem sem terem visto!»


Não sei se são contos.
A morte não foi um jogo.
O véu rasgou-se, sim,
mas o corpo,
em tarde eclipsada,
foi acolhido em braços caídos.
O desalento, a cor, o silêncio,
o retumbar da pedra
na escuridão da gruta,
foram testemunhas do fim.
Pedem-me para crer?
Depois de tanto vivido,
estou cansado de fantasmas,
de histórias desencantadas,
de entusiasmos gastos
pelo etéreo sem mundo.
Apenas peço que os sentidos
doados ao nascer 
sejam o registo
desta minha forma de fé.
Eu quero crer. 

Escuto o meu nome.
Obediente estendo a mão.
Vejo e toco as marcas
da História viva.
Será paz o que me envolve?
Ou a certeza de que sou atendido
nas preces da agitação?
Creio, Senhor.


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Tempo(s)



"on time" de J F Rauzier

(Versión en español en los comentarios) 



Um dos sinais da Ressurreição:
Os tempos do espírito podem não seguir o Tempo comum.
A espera do Advento, em jeito de deserto quaresmal, vive o seu ser em travessia.


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Sobre a palavra... e no final o abraço também.



"The Gorbals" de Bert Hardy

(Versión en español en los comentarios)


Gosto muito de ir ao sentido das palavras, na poesia, na literatura, até mesmo na simples conversa. São muitas as vezes em que dou voltas às palavras, à sua origem e ao seu significado. Muitas vezes cheguei a dizer aos meus alunos para, em caso de dúvida sobre o sentido da frase, colocarem perguntas à(s) palavra(s). Se é uma negação, uma afirmação, se é composta e de que forma. A beleza está em dar corpo à racionalidade. 
Nós, humanos, temos a tendência em colocarmo-nos, ou apenas no lado da razão, ou somente no lado do corpo (os sentimentos, emoções, sensibilidade). Parece-me que a grandeza reside na capacidade em articular ambas. Que tem a sua dificuldade. A nossa parte animal impele à reacção imediata: chama-se sentido de sobrevivência. Quando se centra no racional, pode-se ficar num intelectualismo perigoso, que esquece o quotidiano, o toque do sentir. Dar corpo à palavra poderia ser essa capacidade de articulação dessas duas dimensões tão nossas. A palavra é a razão, o seu sentido mais profundo em nós seria a encarnação da mesma. Também por isso dou muitas voltas ao prólogo de S. João: “No princípio era o Verbo. (...) E o Verbo fez-se carne e montou a sua tenda no meio de nós” (Jo 1, 1.14). A Palavra que constrói a morada carnal na humanidade. É o contínuo jogo entre a razão e os sentimentos. 
O Humano é chamado à Palavra e ao Abraço.



terça-feira, 10 de abril de 2012

Diálogos Ocultos (III)





(Versión en español en los comentarios)


- Se fecho os olhos volto a sentir a suavidade da tua mão.
- Seria tudo tão mais simples se as mãos fossem dadas sem medos. 
- Sim, mas há todo um mundo de cuidados a ter com imagens e interpretações. 
- Por isso é que gosto que também me vejam como um abrigo... daí a suavidade.
- É preciso partir...
- ... Sim, isso, ir mais longe, quebrando aquilo que não é...
- ... Ganhando uma nova respiração e um novo andar. Acho que já vou aprendendo algumas coisas.
- Não te preocupes, toda uma vida. Há tempo para tudo...
- ... até para fechar novamente os olhos e sentir a suavidade da tua mão.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O silencioso dia de Páscoa





Da banda do sonora do filme Água (2005) de Deepa Mehta 

(Versión en español en los comentarios)


A Ressurreição de Cristo também tem o seu quê de silêncio. Na calada da noite, onde outras visões se tocam, o Corpo ganha outra forma. Atravessa o espaço e o tempo, mantendo as propriedades desse mesmo espaço e tempo. A passagem que une Vidas. A História mantém-se: o lado, as mãos e os pés assim o revelam. Mas já não são a marca definitiva. A certeza dá-se na Vida que entra por portas e umbrais de outras histórias: a de cada ser. 
Escolho esta música para ilustrar este meu sentimento silencioso desta Páscoa. Água. Um filme forte, intenso, onde a morte toca a vida, estando a ponto de ter a última palavra. No final, o rio é cruzado. É passagem! A Vida atravessou mais uma morada.
Santa Páscoa!

sábado, 7 de abril de 2012

Sábado Santo




"Quest for silence" project de Brice Portolano

(Versión en español en los comentarios)


Escuto mas não sei
se o que oiço é silêncio
ou Deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
o ressoar das planícies do vazio
ou a consciência atenta
que nos confins do universo
me decifra e fita.

Apenas sei que caminho como quem
é olhado, amado e conhecido
e por isso em cada gesto ponho
solenidade e risco.

Sophia de Mello Breyner Andresen


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Sexta-feira Santa







“Tudo está consumado.” E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. 
[Jo 19, 30]

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Quinta-feira Santa




"Sunray Vision" de Ramon Haindl

(Versión en español en los comentarios)


Hoje é o dia do olhar desnivelado.
De toalha à cintura, a visão começa nos pés e termina no rosto... do outro!
Primeira passagem: Mestre a Amigo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Silêncios




"Biwa Lake Tree, Study 2" de Michael Kenna

(Versión en español en los comentarios) 

O caminho podia ser descrito através dos silêncios passados ao longo da vida. 
O silêncio da alegria, o silêncio da espera, o silêncio do encontro, o silêncio de um beijo, o silêncio da oração, o silêncio diante da vista sem fim, o silêncio da impotência, o silêncio da raiva, o silêncio da injustiça, o silêncio da dor, o silêncio do escuro, o silêncio do incógnito, o silêncio do desencontro, o silêncio do desespero, o silêncio do final de uma peça musical, de um dizer, de um poema. O silêncio ante uma pintura, coreografia, o silêncio de uma catedral, o silêncio de um centro de metrópole, o silêncio do campo, o silêncio de um abraço, o silêncio de uma viagem, o silêncio do céu, o silêncio das nuvens, o silêncio do tempo, o silêncio de uma praia em pleno Inverno, o silêncio após escutar “Tudo está consumado.” E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. 
O silêncio que acompanha o nascer de uma nova vida, que começa a fazer caminho.