sexta-feira, 29 de março de 2019

Times Square, o cavalo




Leonor Regueiras


[Coisas na vida de um padre] Estamos em plena Festa das Famílias aqui no Colégio. Momento de encontro e convívio com muita animação... e a visita do Times Square. Sim, o cavalo com que alguns alunos fazem terapia. “Sr. padre e que tal uma voltinha?” São oportunidades que não se perdem.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Ajuda a Moçambique




Do que se pode saber, temos visto imagens desoladoras da passagem do ciclone por Moçambique, Zimbabwe e Malawi. A Fundação Gonçalo da Silveira, obra da Companhia de Jesus, com credibilidade e contactos no terreno, vai orientar as ajudas recebidas a quem mais precisa. Ficam as informações para quem possa ajudar financeiramente. 

Donativos para:
Conta: FGS Emergência Moçambique 2019
Nº de conta: 000 10 591814-8
IBAN: PT50 0036 0000 9910 5918 1487 7

terça-feira, 19 de março de 2019

Dia do Pai




Kátia Viola 
Volto a esta foto, pelo muito significado que tem, em especial pela subtileza do braço da minha mãe, no abraço ao meu pai.

[Secção pensamentos soltos em Dia do Pai] A força e a ternura da paternidade. Podia, a meu ver, ser um título para o dia de hoje. Ser pai (ou padre) implica dar vida. Esta dádiva, que para a maioria começa de forma biológica, vai-se transformando em desejo de ajuda ao crescimento. Todo o dom é transformador. Ninguém pode ficar igual quando dá e quando recebe. As nossas histórias são marcadas pelas relações de quem nos foi próximo, ajudando-nos a encontrar sentido de realidade. Neste dia, muitos recordamos os pais que deram e dão o melhor para que sejamos o melhor de nós. Mas, também neste dia gosto de pensar e rezar por quem viveu ou vive um pai que se tenha limitado a ser progenitor e encontra o sentido da paternidade noutra figura masculina ou, sim, na mãe ou outra figura feminina. Deus, que cria o ser humano à sua imagem e semelhança, homem e mulher os criou, diz-nos o Génesis, integra os dons masculinos e femininos. Chamamos-Lhe de Pai, certo. Com entranhas de mãe, diz-nos Isaías. Ser dador de Vida é conciliar a força, da segurança, da determinação, com a ternura, em afecto, que permite a flexibilidade de quem deseja explorar o mundo. Conciliar força e ternura é confiar. Confiar na tradição, na experiência de caminho feito. Confiar que na relação ambos crescemos na flexibilidade de algo novo a acontecer. Assim viveu S. José a confiança.

domingo, 17 de março de 2019

Palavra viva




[Secção boa publicidade] Tenho rezado a partir da nova tradução dos Evangelhos da Conferência Episcopal Portuguesa. Este trabalho tem vindo a ser desenvolvido para ir o mais possível ao original do significado do texto e aproximar a linguagem à actualidade, de modo a ser usado na liturgia, mantendo assim a força teológica da “Palavra viva”. Uma novidade: esta tradução não está fechada. É possível escrever para a Comissão de tradução com sugestões, caso não se entenda alguma palavra, frase e expressão. Afinal, esta Palavra deseja que se forme comunidade. Assim, cada um de nós pode expressar o seu entender, contribuindo para que Ela continue a dar vida a quem a lê.




sábado, 16 de março de 2019

6 anos




[Secção aniversários] Pela manhã, nesse dia, caminhei em silêncio, deixando que os pensamentos e emoções se soltassem. Pela tarde, nu, diante de uma cruz, rezei: “Aqui estou!” Pela noite, prostrado, enquanto escutava a ladaínha dos Santos, pessoas e mais pessoas surgiam-me no coração, enquanto pedia a Deus para ser terra fecunda ao Seu serviço. Ajoelhado, no momento da consagração, apercebi-me do “já está”. D. Fidel, no abraço, sussurrou: “ama muito”. 6 anos como diácono.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Breve oração




[Breve oração ao adormecer]

Agradeço-Te
ser pó de terra moldado e a moldar
em notas límpidas que falam
de silêncio e de universo

sexta-feira, 8 de março de 2019

Educar para a dignidade




Dasha Horita

[Secção pensamentos soltos repescados para 8 de Março] Há coisas que não são de escrever ou dizer, mas simplesmente de fazer. Neste caso, agir em tudo o que leve à dignidade humana, seja em género feminino ou masculino. Parece-me que tem de haver a complementaridade que dá sentido à evolução humana. No entanto, infelizmente, há que marcar em datas o recordar de que a Mulher não é nem escrava, nem adorno, nem, como ainda em tanto sítio passa, um ser de segunda ou de terceira. O ponto fundamental: a educação. Educar cada menina, rapariga, mulher a viver o respeito por si própria. Educar cada menino, rapaz, homem a viver o respeito por si próprio. Educar ambos para respeitarem o outro, com igual dignidade, fazendo os possíveis para que todos, em especial as mulheres por serem as que mais sofrem, possam ter educação e os seus direitos respeitados.

quinta-feira, 7 de março de 2019

À conversa... na liiv




[Coisas na vida de um padre] Estive à conversa com a Liliana Valpaços e a Sílvia Baptista, editoras da Matéria-Prima Edições e agora com a Liiv. Aqui fica a partilha: https://liiv.pt/self/10-minutos-com-padre-paulo-duarte/

terça-feira, 5 de março de 2019

Carnaval




[Secção pensamentos soltos] Em passeio por esta praia, lembrei-me que há anos (coisa pouca como se pode ver pela foto) também por lá fui em dia de Carnaval. Tanto mudou desde aí. Entre máscaras e fardas postas e tiradas, outros principados acontecem. De nobreza fantasiada, dá-se clero realizado. Por segundos e talvez para a foto encarnei a personagem. O mundo da fantasia é fundamental para uma criança, para abrir a criatividade e ganhar ferramentas psíquicas bastante úteis em situações de adversidade. No caso do adulto, entre a beleza da realidade, remeto-me a Sebastião da Gama: “pelo sonho é que vamos”.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Casa das Memórias




[Secção pensamentos soltos em memórias] Esta manhã fui atravessado por muitas memórias. Faz parte do processo, mais ou menos consciente, do luto e, a meu ver, de dar sentido à Vida. O meu pai tinha-me comentado que uma Companhia de teatro, que está a fazer teatro de intervenção nas zonas de Monchique e Aljezur, queria ver o salão da casa dos meus avós. Antes de ser deles, há mais de 30 anos, foi Casa do Povo e aí, no Salão, celebravam-se muitas festas, encontros, actividades. Provavelmente também festas de Entrudo (diziam mais assim que Carnaval). Daí as memórias para esta peça que aí gostariam de apresentar. Ainda não tinha ido lá depois da partida da Avó Teresa. Foi hoje o dia. Mal passei a porta comecei a ter flashes de memórias: a brincar naquelas descidas de pedra; o cheiro a pão acabado de cozer; as conversas com o Avô Zé vindos da horta; a chegar de ter ido levar o leite; o ar de surpresa da Avó Teresa quando a visitava depois de ter estado tempos fora; até mesmo a Avó Constança, a lavar roupa no grande tanque; e muitas outras. Emocionei-me. A casa, desde há pouco mais de um ano vazia, está com aspecto desabitado. Muitas ervas crescidas. Mas, também ainda flores que a minha Avó tanto gostava. Fiquei pensativo com esta ida à Casa, chamo-lhe hoje, de Memórias. 

O luto acontece. São as memórias que ajudam a transformar. Emociona por saber que esse tempo já não volta. Surge a saudade. Tudo isso é tão natural. Em mim, tem-me levado a pensar sobre a real importância da vida. Em tempo de Carnaval, posso acrescentar, sobre a real importância de deixar que as máscaras da existência possam cair, encontrando cada vez mais a ligação com o “eu sou” que caracteriza a relação com Deus. Ser, simplesmente ser. É o desafio espiritual que ajuda a que todas as categorias percam valor diante da autenticidade ante si mesmo e Deus. 

Estou contente. A Casa das Memórias vai ser habitada por momentos, tornando-se cenário de parte da peça “Medronho#2 - Serra”, com textos de Afonso Cruz, que segundo Giacomo Scalisi, director artístico, falarão do universo feminino na Serra. São memórias a despertar a importância de se viver bem o presente. 

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Abertura




[Secção pensamentos soltos] Estive a orientar três dias de Exercícios Espirituais. Fazer é um graça. Orientar é uma graça e uma riqueza, por ver de forma tão forte o que Deus realiza quando cada pessoa se abre à Sua luz. Permitir, em passos, pequenos ou grandes, que o Amor se vá adentrando de tal modo na vida e assim viver a plenitude do que somos: criados à Sua imagem e semelhança. Na sexta-feira de manhã, esta magnólia estava em botão. Hoje, em abertura. É o que acontece quando se deixa Deus amar todas as sombras.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

"P. Paulo"




[Coisas na vida de um padre num Colégio] 
- P. Paulo, pode entrar aqui na sala?
Muitos risos dos colegas.
- O Dinis tem algo a mostrar.
Dinis (ou Zé Tuga Produções) meio envergonhado começa a ler “Padre Paulo”. Muitas palmas no final, com o meu sorriso de orelha-a-orelha ante a criatividade artística.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Sombra e luz



[Secção coisas de nada] Passei por esta sombra. Achei interessante a luz, a forma e, depois, o desfocado da fotografia. Fica o registo, em subtileza de ramificações que ligam vidas desde memórias agradecidas.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Ao sétimo dia descansou




[Secção pensamentos soltos] A primeira leitura para a Missa de hoje é a segunda parte do primeiro capítulo do Livro do Génesis. Contempla a beleza da criação do ser humano à Sua imagem e semelhança, destacando o sexto-dia como muito bom. De seguida, surge o famoso descanso do sétimo dia. Eu gosto muito destas passagens dos relatos da criação (sim, são dois e dá muito a comentar). A riqueza destes textos é imensa. Desta vez, detenho-me no sétimo dia, com o descanso divino. Deus descansa. Não para tirar uma soneca porque tem de ser. O descanso tem como propósito contemplar o vivido. Não é um acessório, é algo de essencial, fundamental. Apercebo-me de que muitas vezes é o primeiro a ser posto para canto: “não tenho tempo, logo o primeiro a cortar é no descanso”. Muitas vezes, as crianças e adolescentes, para quem o descanso é ainda mais importante, seguem o mesmo caminho. O cansaço tem efeitos muito negativos nas muitas nossas dimensões. Recordar o descanso, as horas de dormir, de contemplar beleza, de, sim, “dolce fare niente” e saborear a vida, são formas de reconhecer e agradecer o muito bem recebido. Não é ficar em atitude relaxada sempre, é dar-se tempo para que o ser recupere vida e continue a pôr os dons a render… e a criar. Fico a pensar que o Vitinho poderia voltar a recordar a hora de descanso. E à sociedade, que nem tudo vale no propósito do progresso.

Para um momento de nostalgia, aqui fica a primeira versão do “Boa noite”: 




segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

[...]



[Secção letras verdes] Ecos do livro do Génesis. Coisas (aparentemente) simples.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Violência doméstica




Estamos a 6 de fevereiro de 2019. Nas notícias, a indignação da violência doméstica com a morte, efectiva, de mulheres. Não ponho o número que dizem, por, a meu ver, serem muitas mais mortes: de vida, de honra, de carácter, de personalidade. O coração continua a bater e os pulmões a trocar o ar. É apenas o estado de sobrevivência, entre o medo e a incompreensão. Mas, cada um de nós é chamado à Vida e não à sobrevivência. Sempre que vem a propósito, em homilias ou conferências, falo do tema da violência doméstica. No final, apercebo-me do tom de muitos “obrigada”, alguns acompanhados de lágrimas. É o agradecimento de que há voz e são recordadas desde um púlpito. Tenho consciência de que isso não chega, pois a justiça é muito branda. A vítima será sempre vítima, desprotegida, até ao momento em que morra. Aí, todos falaremos, com pena e indignação. Mas, é mesmo, já morreram totalmente. Esta realidade atravessa todos os estratos sociais, culturais e religiosos. Tanto agressor como vítima precisam de ajuda. No entanto, a vítima muito mais necessita, para além de “estou contigo” de conforto, de uma efectiva protecção. E isto é algo de toda a sociedade. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Perdão e esquecimento



[Secção pensamentos soltos] Há pouco, numa capa de revista, vi em grande destaque a frase “Perdoo, mas não esqueço” dita por Júlia Pinheiro. Ouço esta frase com alguma frequência. Perdoar não significa directamente esquecer. Perdoar é fazer caminho de serenidade de coração em relação ao mal que foi feito. Esse caminho, dependendo da situação, tem um tempo muito próprio. Gosto muito da expressão de Enzo Bianchi que vê o perdão como cura da memória. Não se trata de esquecer, mas de curar. Usando a imagem da ferida, cada uma, dependendo da profundidade, tem um processo de cura. Não se pode curar uma queimadura do mesmo modo que um corte. No entanto, todas elas curam mais depressa com ajudas, mais simples ou especializadas. O mesmo se passa com as feridas emocionais e relacionais. No final, fica uma cicatriz. Quando deixa de doer acontece perdão em nós. Depois, curiosamente, também a memória pode começar a desvanecer. Se há esquecimento, vivemos a semelhança com Deus. Afinal, no Seu coração o perdão coincide totalmente com esquecer. N’Ele só há amor. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Em homenagem ao Tiago




[Secção homenagem] Recolho-me depois de uma tarde de Paixão. Foi o funeral do Tiago. 16 anos, sorriso aberto, de coração cheio de Amor. Assim o demonstraram as centenas de amigos aos seus Pais e Namorada nesta tarde. Essa certeza, sem o Tiago o saber ou pretender, de que foi um anjo nas suas vidas. Os Pais do Tiago, honra e respeito lhes sejam dados, tiveram o cuidado de nestes dias ir ter com pessoas importantes na vida do filho: “Se ele era quem era, também foi graças a si, a vocês, a todos.” Permitiram que do Tiago a vida continuasse em quem mais precisasse, doando o que fosse possível da sua dimensão corporal. O coração volta a bater, os pulmões a respirar, os rins a purificar sangue. Quem os receber, que seja sempre agradecido à força da Vida. Desde a sua dimensão relacional, ficam as muitas recordações do ânimo e da força do Tiago. Será sempre fonte de inspiração para os amigos e colegas de voleibol e de escola onde, em nome dele, farão caminho para serem vencedores na vida e na amizade. Filhos e pais, abalados com esta partida, terão oportunidade de reforçar laços, entre silêncios, gestos e palavras, de ajudar a perceber o que importa para o seu crescimento como pessoas: o amor. A Ressurreição, nas pessoas que receberam vida do Tiago, já acontece em muito suave e ténue amanhecer.

domingo, 13 de janeiro de 2019

Fundo do Jordão




[Secção pensamentos soltos em dia de Baptismo] O silêncio tem estado muito presente em mim. Talvez por isso, ao ler o Evangelho de hoje, imaginei Jesus, no Baptismo, naqueles breves segundos no fundo do rio. Segundos que podem ser eternos, em tempo que marca a revisão de toda a sua vida: pessoal, social, afectiva, religiosa, política. A Encarnação de Deus é totalmente imersa na vida da humanidade. No silêncio do fundo do Jordão, as águas tornam-se travessia de emoções diante da realidade concreta para o caminho de maior liberdade. Muitas vezes pergunto no meu silêncio: como olharia Jesus estes tempos igualmente agitados? Como sinto de entranhas o Seu convite a olhá-los? O fundo das águas, apesar da luz, também se preenche de escuridão. A sombra do racismo. A sombra da intolerância. A sombra do medo. A sombra da anulação do outro por quem acha que pode converter a sua essência. A sombra do desrespeito pela privacidade. A sombra de muros. A sombra do mau uso da fé e da religião. A sombra do perfeccionismo. A sombra da desumanização. O mergulho na sombra que existe em cada um de nós, exercício dos mais duros e exigentes, faz-nos tomar consciência da sua força. Levar luz à sombra é o que Jesus vai viver ao longo da vida pública, mostrando o caminho de como canalizar essa força para o maior Amor, seja, por exemplo, pela denúncia das injustiças (que não podem ser embelezadas pelo entretenimento), seja a curar, em especial, a ignorância. Ainda há muito caminho por percorrer e fundos a visitar. Depois de ser baptizado, Jesus recolheu-se no silêncio do deserto, como passo de maior liberdade. 

domingo, 30 de dezembro de 2018

Liberdade e felicidade no caminho de Vida




[Secção pensamentos soltos] Estes dias particulares são dados a retrospectivas e desejos. Em mim, ainda ecoam os efeitos do Natal. Faz-me cada vez mais confusão o modo acelerado com que tudo se vive. Parece que se cumprem dias, momentos, encontros, ao jeito de check-list, e já está, já passou, já foi. Será mesmo? Sim, se se ficar por um cumprimento da realidade sem a saborear, impedindo que a mesma nos abra caminho de crescimento. Nas relações, nos acontecimentos, como na fé, se não se aprofunda, fica tudo numa passagem superficial. Até sou capaz de dizer as palavras bonitas e os gestos “natalícios” e dar muitos presentes. Mas, como dar tempo para prolongar esses efeitos, o sentido do que significa presentear(-me) e ser presenteado? Como dar tempo para torná-los vida para além desta época, em acções que me ajudem a aprofundar o meu Ser de amor ao próximo como a mim mesmo? Não sei o que o próximo ano me reserva. Assim sentia há um ano. No entanto, quando olho para trás sinto muito agradecimento a Deus e a tantas pessoas, em conjunto com a vivência de lutos inesperados. Talvez por isso, este sentimento crescendo de amar a luz e a sombra, aprendendo com tudo. Não é nada fácil. Pelo contrário, é tal a exigência que impele-me a um cada vez maior silêncio para perceber esse Amar tudo. Assim, a olhar para o infinito que tenho diante, quero continuar este caminho de Amar, entre o conhecido e o desconhecido, e assim deixar que a fé vá ficando cada vaz mais do tamanho de um grão de mostarda. E, no que me for permitido, continuar a ajudar as pessoas a serem profundamente livres e felizes nos seus caminhos de Vida. 

P.S - são “pensamentos soltos” sem que sejam ainda os votos de Bom Ano. [Foto: Suzanne Rodrigues]

sábado, 29 de dezembro de 2018

Cabeça de descanso



[Coisas na vida de um padre] A cabeça muitas vezes precisa de descanso, é certo. Mas, de vez em quando ela mesma se torna pouso e sítio de estar/descanso para o Xiribiri. Enfim...

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Viva o Natal




Este ano voltei a celebrar a Missa do dia de Natal no Carmelo de Fátima. Rezei o abecedário e assim trouxe ao coração todos os nomes diante do Menino. Partilho a homilia de ontem da Missa do Galo. Bom, Feliz e/ou Santo Natal a todos os que por aqui nos vamos encontrando. Que a Luz do Menino vos ilumine todas as sombras.


Homilia Noite de Natal 2018

“Natal. E, só pelo facto de o ser, o mundo parece outro. Auroreal e mágico. O homem necessita cada vez mais destas datas sagradas. Para reencontrar a santidade da vida, deixar vir à tona impulsos religiosos profundos, comer e beber ritualmente, dar e receber presentes, sentir que tem família e amigos, e se ver transfigurado nas ruas por onde habitualmente caminha rasteiro. São dias em que estamos em graça, contentes de corpo e lavados de alma, ricos de todos os dons que podem advir de uma comunhão íntima e simultânea com as forças benéficas da terra e do céu. Dons capazes de fazer nascer num estábulo, miraculosamente, sem pai carnal, um Deus de amor e perdão, contra os mais pertinentes argumentos da razão.” Miguel Torga, ‘Diário (1985)”

Recordei este texto de Miguel Torga por estes dias passados de Advento. É uma rápida descrição deste momento de Natal que o mundo celebra. No entanto, para mim, mais do que “o mundo parece outro”, o mundo é outro. Só pode ser outro. 

Ao longo do Advento fomos preparando os caminhos até esta gruta. Os profetas, em textos cheios de ânimo e esperança, foram-nos ora sussurrando ora gritando a certeza da nova Luz que trará paz e sentido a cada uma das nossas vidas. Se estivermos atentos, há desconcerto nas profecias e nos acontecimentos. Aparece Gabriel e a multidão de anjos, em anúncios de vida, mas, sobretudo, de fim de medos e temores. Afinal, neste Menino a criação atinge a plenitude. Explico-me:

No princípio era o caos, diz-nos o Génesis. A primeira palavra de Deus é “Faça-se Luz!” Desde aí, a escuridão dissipa-se diante do poder divino criador. São João, ajustando o Génesis, dirá “no princípio era o Verbo”. Dinamismo criador que nos leva a perceber a importância do movimento para sentir a vida. O nascer da luz, em palavra dita por Deus, ordena a desordem e chega à criação do ser humano à Sua imagem e semelhança. Marcas divinas, diz-nos Ireneu de Lyon, ficam incrustadas em barro moldado. Deus olha a obra suprema da Sua criação e vê que, mais do que boa, é muito boa. Somos nós. Cada um, cada uma, de nós. Por isso, nos juntamos em festa, nessa irmandade de carne que atravessa a nossa história. Em personalidades diferentes, os mesmos átomos, as mesmas moléculas, fazem de nós seres únicos e especiais aos olhos de Deus. 

Mas, algo faltava. Ainda recordando Ireneu, esse barro moldado também ficou nas mãos de Deus. Atrevo-me a imaginar o pensamento divino: “também quero ser parte desta carne.” Inácio de Loiola, nos Exercícios, no início da segunda semana, convida-nos a contemplar a Trindade a observar a Terra. Vê a humanidade, em particular os traços de sombra, entre guerras e injustiças, entre medos e confusões, apercebendo-se de que chegava a altura de enviar o Seu Filho. 
- Estás pronto?, pergunta-lhe. 
- Seja feita a Tua vontade!, responde.
- Viverás tudo. Descobrirás cada emoção, cada toque de pele, cada sentir de silêncio e de alegria. A tua história fará parte da história, onde as dores de cada humano serão as tuas dores, onde as celebrações de vida de cada humano serão as tuas celebrações. O teu nascer será agitado e discreto. Nascerás e morrerás fora. Mostrarás que a tua vida é plenamente dentro da humanidade. Estás pronto?
- Sim, estou. E lá, em cada casa, em cada coração, estão prontos?
- O Espírito rejubila-se com a resposta de Maria: Sim!

Maria, sabemos, é fundamental. A humanidade acede à vinda de Jesus. Esse “sim” foi e pode continuar a ser o nosso “sim”. Permitir que Deus transforme o nosso coração em lugar onde quer habitar. Pergunto: será que me disponho a ser lugar de Deus? Pode tornar-se bonito e poético tudo isto, no entanto é de recordar que os 9 meses até chegar a esta noite foram de total transformação nas vidas de Maria e de José. Acusações de adultério, caras voltadas pela incompreensão de aparente "grávida-de-outro", em conjunto com a firmeza e a confiança de amor um no outro, alicerçados na fé naquele Menino que crescia no ventre, dando Luz, provocando exultações de alegria. Apesar das agitações da incompreensão dos modos de Deus a fazer as coisas, já se cumprem as profecias: o Menino traz Paz. 

Voltando a Miguel Torga, já que toca na passagem do Evangelho de S. Lucas que sempre nos acompanha nesta noite, retenho-me no “estábulo”. A frase do Evangelho é muito curta: “Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria”. Jesus nasce no silêncio da noite e afastado de todas as pessoas. Maria nem sequer podia ser acompanhada por José. Não era permitido aos homens assistir ao parto. Imagino esse silêncio, depois de toda a agitação vivida ao longo dos nove meses. Maria dá à luz a Luz. A noite torna-se aurora de nova esperança. Mais um passo na profecia: “o povo nas trevas viu uma grande luz”. Esta noite vive-se nova criação. O caos, as trevas, dissipam-se e vive-se a Luz no Menino Deus. O Verbo fez-se carne e habita entre nós. Monta a sua tenda em cada uma das nossas histórias.

Então, o estábulo, a gruta, desde esse dia deixa de ser um lugar lá, em Belém, para poder ser cada um de nós. N’Ele podemos colocar todas as nossas dores, para se tornarem de parto e assim geradoras de vida. N’Ele podemos colocar todas as nossas alegrias, ampliando assim o ânimo a dar uns aos outros. N’Ele podemos celebrar como os pastores o fim do medo, porque a Vida por, com e em Deus tem sempre a última palavra. 


Permitamos, com toda a liberdade que Deus nos dá, que o Menino nasça na nossa Vida. Afinal, Natal é deixar acontecer a vontade de Deus para o Filho, em ser um connosco. Se tal acontece, tudo muda, tudo transforma, o mundo deixa de ser o mesmo. E sim, esta data torna-se sagrada, em especial cada vez que cada um de nós permite nascer a Luz e a Paz nos nossos corações. Para quê? Para que a essa mesma Paz, essa mesma Luz, em sentido de comunhão e Vida possam, de facto, transformar todo o ódio em amor. Esse é dos grandes desafios de Natal nas nossas vidas. Acontecendo isso, divinizamos a humanidade e cantamos, em alegria, com os anjos: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra em toda a humanidade por Ele amada.” Ámen. 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Em preparação de Natal




[Erri de Luca, “En nombre de la madre”, p. 85]

[Em preparação para a beleza do Nascimento que tudo mudou, que tudo muda]
- Eu desenrasco-me, aqui estarei muito bem. Encontraste um lugar adequado, quente e tranquilo. Eu desenrasco-me, José, sou mulher para isto. Ao amanhecer ponho-te Jesus ao colo.

As dores tinham começado. José colocou um pouco de palha sobre umas pedras secas, estendeu por cima uma manta e peles. Pedi-lhe a faca e uma bacia de água. Deitei-me. O coração latia com mais violência, os latidos ressoavam nas têmporas, como para fechar os olhos. Ninguém à minha volta, o pequeno estábulo estava fora, nos campos. Uma luz caía desde a abertura do tecto de canas e ramos. Era ele, o cometa, posto no céu como um luzeiro. Antes de nos separarmos, passei-lhe a mão pelo cabelo, sorrimo-nos. 

domingo, 23 de dezembro de 2018

¡Gracias, Nacho!




[Breve partilha ante a partida de um Companheiro muito especial e importante na minha história de vida, em geral, e vocacional, em particular] Natal e Páscoa juntam-se. Vives essa fusão, tu que a muitos ajudaste a encontrar a Luz e o Sentido em Deus. ¡Gracias, Nacho, muchas gracias por tu mirada de Vida! Sigue, te pido, ayudándonos a alcanzar la Luz, ahora junto del Señor que tanto has amado.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Visitas




[Secção pensamentos soltos, no seguimento das passagens do Evangelho deste tempo de preparação para o Natal] Maria exulta em Magnificat depois das visitas. O Anjo vem até Ela. Ela segue sem demora até Isabel. Êxodos: de Deus e da Humanidade. O exercício de sair é dos mais exigentes. Sair do acessório para o essencial, quero dizer. O grito de humildade, no reconhecimento da beleza de quem se é, implica muitas travessias de montes e vales da história, pessoal e universal, entre silêncio e multidões. É a busca do ajustado, na força da palavra que derruba poderosos e alimenta famintos. Deus torna-se pequeno, muito pequeno, para anunciar o fim dos holocaustos desprovidos de amor. Maria tem consciência dessa nova Verdade. Sente na pele o ser apontada como potencial adúltera, enquanto é protegida pela fé de José. O Filho que leva no ventre dá-lhe a Esperança do Mundo Novo a acontecer, que unirá plenamente céu e terra. Essa Esperança transmite na saída de si, na visita que faz, na certeza de ser habitada pela Palavra que é Justiça e Paz.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Anunciação




[Secção pensamentos soltos] O encontro de Gabriel com Maria reveste-se de solenidade. Não da pomposa, mas da silenciosa. Relendo o evangelho de hoje, a Anunciação, apercebo-me dessa presença do Senhor nas nossas vidas. É certo que a saudação é dirigida em particular a Maria. Contudo, fazendo ponte com a Criação, o ser humano ao receber o alento divino torna-se participante da vida divina. Que significa isto? Nessa anunciação que de algum modo é dirigida a cada pessoa. Dar vida, dar a vida é do mais complexo que há. Não se reduz a um simples altruísmo natalício, mas a cada gesto de quotidiano que se dirige ao outro. Em cada Natal fico a pensar no que significa “nascer de novo”. Serão gestos que aprofundam a autenticidade da existência? Maria, de algum modo, é convidada a abrir os horizontes. Depois do recolhimento do encontro, viverá em constante saída, que, no seu caso, poderia mesmo implicar a fatalidade de perder a vida. A Anunciação, que cada pessoa é chamada a viver, é de abertura de horizontes, de saída de uma aldeia para a universalidade do mundo, que é e será sempre vasto. Daí a solenidade deste encontro, sem pompa, mas com a profunda autenticidade que leva à transformação do que significa humanidade.  

domingo, 16 de dezembro de 2018

Breve Oração




[Breve oração antes de adormecer]

Agradeço-Te 
a Luz que desvela silêncio e a certeza da Tua alegria primeira por cada vida.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Corpo com integrador



Guillem Jové

[Coisas na vida de um padre] “Educar para a razão e a emoção: o corpo como integrador”, foi o meu tema. Depois falou Maria Ángeles Guiteras, com enfoque na psicologia. O debate seguinte foi muito animado, tal como as conversas no final. Há muito interesse nos temas de corpo. Muito mesmo! 

Simpósio Internacional




[Coisas na vida de um padre] Hoje o dia é por aqui, em estreia como orador convidado no Simpósio internacional “Razão e emoção: sociedade, política e religião”, organizado pela Fundação Joan Maragall - Barcelona.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Testemunho para a Câmara Municipal de Portimão




[Coisas na vida de um padre] A Dra. Isilda Gomes, Presidente da Câmara Municipal de Portimão, convidou-me a estar presente na sessão solene comemorativa do Dia da Cidade e a dar um testemunho sobre o voluntariado, em especial, a propósito do incêndio na Serra de Monchique. Foi ontem. Isto de estar quase no pólo oposto do país impossibilitou-me de ir pessoalmente a Portimão. No entanto, enviei um vídeo com o meu testemunho. Como algumas pessoas pediram o acesso ao vídeo, aqui o partilho. 

[Vídeo e edição por Vasco Martins, nosso aluno da OFICINA - Escola Profissional do INA.]

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Natureza



[Secção outros tons] A natureza, em espera de tempo certo, ensina o equilíbrio. Movimenta o silêncio. Abre as cores. Desvela mistério. Sem refúgios, é. Simplesmente é. Aí reside a grande maestria divina. 

"Não basta?"



[Secção boas leituras] Assim, para começar a semana em que terminam as aulas e aumentam as azáfamas natalícias. Almada Negreiros, “A Invenção do Dia Claro”, p. 11.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Palmas




[Coisas na vida de um padre] Chegaram registos de momentos felizes. “Palmas, amigos! Palmas! Eles estão casados!”

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Crónica de Henrique Raposo




[Secção "Deus como Tu"] O Henrique Raposo partilhou comigo o esboço desta crónica no dia em que as lágrimas despontaram por vários momentos. Disse-lhe isso. Fico-lhe muito agradecido pela partilha, pela consideração e palavras sobre "Deus como Tu" nesta crónica, que vem na sequência de outra, sobre isto de educar o rapaz, o adolescente, o homem para as lágrimas.