[Breve oração ao anoitecer]
Agradeço-Te
os tempos intermédios
tantas vezes esquecidos
das nossas histórias inacabadas
quando as contamos vagamente
Peço-Te
consciência do todo,
e assim encontrar sentido
nos pormenores que nos tornam únicos
[Breve oração ao anoitecer]
Agradeço-Te
os tempos intermédios
tantas vezes esquecidos
das nossas histórias inacabadas
quando as contamos vagamente
Peço-Te
consciência do todo,
e assim encontrar sentido
nos pormenores que nos tornam únicos
[Secção Vida] “Faz um ano que nasci outra vez e foste tu que me salvaste.” A densidade do imenso que está nesta frase dita pelo meu pai, dirigida à minha mãe, enquanto conversávamos os três, é de me deixar em silêncio a contemplar. Há um ano, neste dia, fez-se silêncio de espera depois da notícia do AVC muito grave. O advento para uma nova realidade: de cada um, em especial do meu pai. Ao longo deste ano, tantas vezes pensei no que é mesmo importante, no onde faz sentido orientar a entrega, sabendo que Deus nos suporta na adversidade para sermos adultos de fé e de essência. Não duvido na resposta: o amor.
Depois de 6 meses internado, nas várias instituições, com tanto sofrimento, misturado com desejo e força de recuperação, o amor do meu pai pela minha mãe moveu o seu ser a fazer o que aparentemente seria impossível: libertar-se da cadeira de rodas, andar, subir e descer escadas. Tem o sonho de voltar a ir à Fóia de bicicleta. Já esteve mais longe. Sim, o amor salva.
E, permitam-me o orgulho, o amor dos meus pais um pelo outro tem sido exemplo de salvação, em caminho de cura, de reconhecimento que os votos de “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença” se encarnem de forma tão intensa como suporte na relação com desafios tão exigentes. A minha mãe cuida com a delicadeza de novo amanhecer, sentindo o cansaço e a vida. O meu pai, no conforto, entre muitas histórias da dureza daquele tempo sem visitas, conta esta: “pedia sempre três almofadas a mais para dormir. Porquê?, perguntavam. Uma para a perna não tombar. Outra para o braço não tombar. E outra para, com o braço bom, abraçar imaginando a minha Maria.”
No silêncio contemplo a importância, beleza e força da Vida, desde o meu José e a minha Maria como exemplo de casal consagrado a serem sinal de amor enquanto olham o caminho partilhado nos desafios da vida. Sim, o amor, apoiado de esperança e fé, salva.
Marta José - Dreamaker
[Conversas soltas, com a devida licença para partilhar]
- Sinto tanta dor na minha oração. Nem sei se rezei ou se consigo rezar. As pessoas embelezam a maternidade. Sei que não posso generalizar a minha dor, mas estou a encontrar-me como filha de mãe ausente. Melhor, filha de mãe impositiva do seu ser mulher, mas ausente como mãe. Honra pai e mãe. Mas como posso honrar quem me manipula, ignora, anula, despreza?
- O que sente em profundidade?
- Posso mesmo dizer?
- Se sentir liberdade e segurança para o fazer. Mais por si, que por mim.
[Breve silêncio.]
- P. Paulo, eu quero que a minha mãe morra. Desde que nasci que ela me mata. Ela nunca me cuidou, sempre me usou para o seu prazer. Quero que morra. Eu sou péssima. Ela conseguiu. Eu sou péssima. [As lágrimas saíam.] Talvez seja eu quem não deve de existir. Estou condenada à dor.
- Vamos respirar fundo. Situar, aqui e agora. E rezar juntos. Dizia há pouco da dor na oração. Sim, o que vive é muito doloroso, com trauma marcado. Rezemos ao Deus da salvação. Para lá da pessoa que a gerou, há o Deus que a resgata.
- Serei digna?
- Todos somos dignos. Todos.
- P. Paulo, apenas queria sentir uma carícia.
- Leio uma passagem de Isaías: “Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca o esqueceria.” E por Deus não a esquecer, acolhe-a e desafia a atravessar a morte, nem sua, nem da sua mãe, mas do que a impede de tomar consciência de que pode começar um caminho novo consigo mesma, libertando-se do controlo da sua mãe. Por mais duro que seja, e é, libertar-se do mendigar carícias. Acaricie-se e respeite-se a si, com a ajuda de Deus que não a esquece.
- Podemos rezar só a primeira parte da Avé-Maria? Tenho de a buscar como Mãe.
- Quer-se sentir no Seu ventre?
- Posso?
[Convidei a enrolar-se em posição fetal e enquanto rezássemos que se fosse abrindo. Repetimos uma quantas vezes.]
Ao fim de algum tempo, emocionada diz:
- É possível nascer de novo.
[Secção outros tons enquanto escuto a oração em LabOratório na SEEI, ainda com muitos ecos de ontem de Transverse Orientation, obra coregráfica arrebatadora de Dimitris Papaioannou] É preciso deixar que a pele se torne lugar de luz. Passo ante passo, fazer caminho a que o olhar amanheça para lá de suposições, modelando desde o que é. Duro, violento, alegre ou pacificado. Somos chamados a voltar ao nu do paraíso, deixando que o banal se entrecruze com o extraordinário, e desde essa beleza de segundos sem excepção permitir Deus brotar em terra aberta de água viva. E nenhum corpo, n’Ele, foi, é ou será esquecido. Isso também é Natal, com a pele a ser luz.
[Secção pensamentos soltos sobre Esperança] Hoje começa o Advento. A espera em esperança da vinda de Deus. Se tivéssemos tempo, melhor, se nos detivéssemos a saborear o tempo, na beleza de cada momento, ficaríamos a contemplar a luz da coroa que se acende ao começar a Missa ao longo do Advento. Gosto tanto da imagem da luz que se espalha, como preparação e anúncio da Luz maior que vem.
O mundo precisa de luz. Sinto o soturno a crescer. Os cansaços a vários níveis entrecruzados com falta de empatia fazem com que cada pessoa se sinta mais presa: ao medo, à desconfiança, à dor, ao sofrimento, ao desespero. Parece que estamos sozinhos no mundo. A força do aparente super-poder humano leva a isso. Mas, não. Somos de relação. E tal deveria ser marca de esperança. A relação que nos convida a crescer como pessoas, a saber ajudar e a pedir ajuda; a saber calar e falar; a saber libertar da ganância e do que impede que o outro seja; a saber dar tempo a contemplar sem necessariamente possuir e simplesmente deleitar. Sei que isso não traz comida para a mesa. Mas também sei que tal humaniza, deixando que a clarividência do sentimento e do pensamento nos afaste das trevas da posse e nos encaminhe para o cuidado e o respeito, por nós próprios e pelo próximo.
Precisamos de luz. De mãos dadas com o silêncio que nos permita escutar o tresmalhar das folhas caídas do que já não nos pertence pelos passos novos da existência que se transforma, converte, modifica no caminho novo. O Advento é oportunidade para recomeçar, nessa Esperança que atravessa a dor, o cansaço, o sofrimento, abrindo-nos à fé que, depois da travessia feita, revela o nascer do divino em nós. E sozinhos não estamos. Deus é connosco. Mas quer sê-lo em liberdade. Por isso, mantém a esperança de nos ver crescer a atravessar as sombras com a Sua Luz.
José Novais
[Coisas na vida de um padre] Chegam boas recordações de dia bonito. Abençoei o casamento da Joana e do José. O seu amor já estava a dar frutos. Recordo o momento em que perguntava se acolhiam os filhos como dom de Deus. Olhámo-nos e sorrimos, nessa certeza já a caminho. Já tenho abençoado casamentos de noivos grávidos. A vida a acontecer. Neste casamento, a Joana mostrava o orgulho do amor na sua barriga e o José deleitava-se a ver a sua amada a acolher o filho de ambos. Pedi licença e também dei a benção à vida ali a rejubilar no dia feliz. Fico a pensar na importância das bênçãos desde sempre, em particular na actualidade: a palavra de origem latina também traduz o dizer bem. Acrescento: o dizer e o fazer bem. Todos ganhamos quando abençoamos.
[Breve oração ao adormecer]
Agradeço-Te
o ouro que ilumina a terra
com histórias a libertar o passado
até ser riqueza de experiência
e sábia humildade de vida
Peço-Te
desprendimento
para fazer caminho
leve de mim, pleno de Ti
[Secção letras verdes] Ecos de peregrinação, onde o corpo ainda sente os sons, os cheiros, as vistas, os sabores e os toques.
[Notas soltas com um “até breve” Jerusalém] A intensidade dos dias traduz-se pela sensação de muito vivido. A diversidade cultural e religiosa, junto com a semelhança: todos, apesar de tudo, somos pessoas. Marcadas por uma educação: por vezes de segregação, mas, espero que mais vezes, de relação, comunhão, proximidade, compreensão. Este último caminho é mais exigente. Implica, sobretudo, desmontar preconceitos, atravessar sombras, para abrir horizontes de luz e de amor. Antes de sair, passei novamente pelo Muro das Lamentações. Há a tradição de deixar um papel com intenções. Pensei escrever uma oração ou umas “palavras bonitas”. No entanto, por tantas pessoas e orações que levava no coração, tantas pedidas, tanto vivido, fazia sentido deixar literalmente todas as letras verdes. As mesmas que coloquei no altar do Túmulo onde celebrei Missa. Sinto muita gratidão, em especial ao grupo que acompanhei, que também me ajudaram muito a ser padre e a viver estes dias. Voltarei a eles, em ecos com pensamentos soltos do muito vivido. Já em Portugal, digo: até breve, Jerusalém. Shalom Adonai.
[Notas soltas com breve oração em Bethlehem]
Por vezes sinto-me como Moisés no Monte Sinai: dias que são anos. Aqui o tempo tem tal densidade que é difícil compreender o que se passa. Talvez não seja para agora. Não é mesmo. Continuei a observar e os ecos virão nos próximos dias. Hoje, em Bethlehem, na gruta da Natividade, depois de acender velas e abençoar com o óleo da lamparina que ilumina o sítio do nascimento, abri o coração numa breve oração.
Agradeço-Te
os abraços que se tornam pontes
a recordar como o Teu nascer
em corpo, em carne, continua.
Entrego-Te
as esperanças de tanta gente.
Peço-Te
o fim de muros, barreiras, fronteiras,
sociais, religiosos, políticos, culturais,
a fim de que possamos ser mais Corpo
uns com os outros e no mistério da Vida.
[Notas soltas de Jerusalém] Estive 9 horas sozinho, sem contar com os monges e frades residentes, no Santuário do Santo Sepulcro. A porta fecha solenemente às 19h, trancada por dentro e por fora, vigiada pelos guardiães das três tradições cristãs que têm a custódia do lugar: Ortodoxos gregos, Arménios e Latinos (Católicos, representados pelos Franciscanos). Alimentam-se as lamparinas de azeite. Acendi a que ilumina a entrada do Túmulo, ficando hoje todo o dia a receber os peregrinos. Entrei no Túmulo e permaneci 3 horas a rezar.
O silêncio era preenchido por paz e por nomes que me vinham com toda a naturalidade ao coração. Pedi perdão pelo que contribui de mal ao mundo e a pessoas concretas. Em vários momentos, senti-me profundamente em casa. Não tanto ali, espaço físico, mas de sentir a fé neste Cristo que morreu e ressuscitou por cada pessoa. Essa casa que é o Seu Corpo, morto e ressuscitado.
Muitas letras verdes foram surgindo, a repassar a história dos últimos tempos. Agradeci muito: das grandes coisas ao detalhe. Pedi para que cada pessoa fosse capaz de acolher, aceitar e integrar as suas luzes e sombras. Pedi por este Ano Inaciano, rezando por cada companheiro jesuíta, indo de Comunidade a Comunidade. Pedi por toda a Igreja, em particular pelas feridas que infligimos e pelo sínodo que atravessamos. Entreguei, pausadamente, nomes de A a Z.
Pelas 23h30 começaram as diferentes liturgias diante do Calvário e do Túmulo. Eu fui para um canto, em frente à pequena capela dos Coptas. Aí fiquei. O silêncio habitado de profunda paz acompanhou-me. Senti o tempo a passar, sem lentidão ou rapidez, mas suspenso no presente. Era ali que tinha de estar. Não para ficar, mas para ir e anunciar a Luz e Paz do Ressuscitado. Às 4 da manhã abriram as portas. E saí, leve com o coração cheio de Vida. [A primeira fotografia foi de quando lá entrei há dias, para ilustrar onde fiquei a rezar com tempo.]
[Pequeno apontamento sem muito mais, em Jerusalém] Vou passar a noite em Vigília no Santo Sepulcro, qual Quinta-feira Santa. Depois de um dia intenso, a rezar na Via Dolorosa e com a visita ao museu Yad Vashem, de memória do holocausto, rezarei pela paz. E também por cada pessoa, pelo caminho de perdão e reconciliação. Logo escreverei com calma. Terei tempo. De momento, apenas a certeza de que vir aqui é profundamente transformador.
[Notas soltas ao adormecer em Jerusalém] Não sei que escrever. Parece-me pouco. Até mesmo quase miserável ante todo o sentir, sobre ruas e ruelas carregadas de mistério e de banalidade. Repito-me no contraste. Mas é isso que me mexe e faz sentir o sagrado em cada coração, para lá de cores. O silêncio das seis da manhã, enquanto celebrava Missa na Capela da Crucificação, que alternava com os cânticos de lamentação dos coptas ante o túmulo. As pedras com milhares de anos que rodearam o Santo dos Santos que, como escrevia ontem, gritam por encontro. As conversas de partilha de vida com laivos de conversão. O tempo suspende-se. Em cada canto especial, repito a oração “entrego-Te quem me confias, quem dirigi um simples olhar e quem, para lá de credos, se dispõe a acolher o amor”.
[Breve oração ao anoitecer em Jerusalém]
Agradeço-Te
os tempos para lá do tempo
em pedras que gritam vida
nas orações ondulantes a Ti
Entrego-Te
nomes, de A a Z
Peço-Te
coração aberto a acolher
silêncio, sons e palavras
de contrastes e de unidade
ao Teu amor entregue por nós
[Secção coisas de nada em Tel Aviv] Fazer uma viagem é sempre oportunidade para abrir e clarear horizontes, perguntas, tempos. Ainda mais quando há grande contraste a acontecer. Gosto de deter-me nos pormenores, detalhes, coisas de nada, de onde podem sair histórias dentro da história da viagem. Faço silêncio. Emociono-me. E parece-me que vou fazer muitos momentos de silêncio, convidado pelos rostos, contrastes e a força dos lugares com tanto significado. A vida acontece. E muito se relativiza, sobre humanidade. Daqui a pouco, Jerusalém.
[Coisas na vida de um padre] Chegaria o momento em que tocaria mar e terra plenos de significado. Serão dias de peregrinação, em escuta de passado, presente e futuro. A acompanhar vidas, desde aqu’Ele que entregou a Sua por estas terras. E para começar, nada como celebrar Missa onde S. Pedro teve a visão da universalidade, em Jaffa, Tel Aviv. Irei partilhando estes dias, com a certeza da oração pelo abecedário.
Pedro Villa
[Secção conversas soltas, com a devida licença para partilhar]
- P. Paulo, não sei como falar disto. Se bem que tenho a agradecer o comentário com um abraço que deixou no texto em jeito de desabafo da actriz Inês Herédia. Daí o à-vontade que sinto em poder falar consigo. É toda uma novidade e como mãe e como católica estou a ter dificuldade em lidar com isto, sobretudo na questão da Igreja. A minha filha revelou-nos a sua homossexualidade. Ela está bem. Sempre senti algo diferente. Ela está mesmo bem. Eu é que tenho dificuldade em compreender tudo isto.
- O quê mais específicamente? O que lhe custa?
- Nem sei. Porque acolho-a profundamente. Nem poderia ser de outro modo. Já tinha ouvido falar de pais que rejeitam os filhos pela questão da sexualidade. Da minha parte, nem pensar. Saiu de mim. Mas não sei o que me custa.
- Serão a expectativas que tinha de futuro? Poderá haver alguma sensação de culpa por achar que falhou nalguma coisa? Digo isto, pois é o que vou escutando aqui e ali de pais com filhos ou filhas de orientação homossexual.
- Não. Sabe o que é mesmo? Estou zangada com a Igreja. [As lágrimas surgiram!] Isso, estou zangada com a Igreja. Sinto agora na pele imaginar que a minha filha não pode viver o amor. Sim, já li o catecismo e toda essa linguagem descartada da realidade. Desculpe falar assim, mas tenho a sensação que a doutrina não conhece as pessoas.
- Como a compreendo. Idealizam-se perfeições e castidades, esquecendo o corpo real mais vasto que as ideias. E no tema da homossexualidade e da fé, bem como em muitos outros, há tanta falta de escuta, atenta, cuidadosa, das pessoas concretas, dos seus sentires mais profundos, impondo o impossível. Há tanto desejo de Deus que acaba por ser ofuscado pela zanga, tantas vezes com razão, por visões alheadas do concreto, das pessoas reais e não idealizadas.
- Sim, sim. Mas, que podemos fazer?
- Estamos em tempos de reflexão sobre a Igreja. Porque não se junta a tantos outros pais preocupados com a mesma questão e escrevem a partilhar o sentir? Dessa zanga pode surgir conversão, vida, em maior respeito. E o amor fica sempre a ganhar.
[Breve oração]
Agradeço-Te
os rasgos de luz no horizonte,
recordando que não somos peças,
nem máquinas, nem pedaços de realidade,
mas caminho em corpo a contemplar
a firmeza e a cura da existência
Peço-Te
a sabedoria e o fogo do Espírito,
para saber regressar-Te e agradecer
o assombro de beleza em cada anoitecer
Paulo - Lovely Moments
[Notas soltas sobre paternidade espiritual] Acompanhar pessoas é dar-lhes vida. Não somos, nem é esse o lugar nem o propósito, salvadores. Mas, como padres, temos a grande responsabilidade de ajudar a que as outras pessoas tenham vida e a tenham em abundância. Escuto muitas histórias de vida. Grande parte das vezes, com partilhas de sofrimento, muito e de diferente género. Na ânsia da busca de alguma serenidade, resposta, orientação. Perguntam-me como aguento. Não há segredos:
- a oração. Entrego a Deus cada pessoa. Em recta intenção antes de cada conversa, peço-Lhe ajuda para saber o que dizer ou fazer. No final, coloco-a nas Sua mãos.
- a liberdade. A vida de cada pessoa não é a minha vida. Vivo a empatia da escuta: rir com os que riem, chorar com os que choram, como diz S. Paulo. Mas, são as vidas de cada pessoa, não a minha.
- a humildade. Quando não consigo, direcciono para quem possa orientar melhor. Quando sinto cansaço de alma, peço ajuda.
- o cuidar(-me). Preciso do meu tempo para rezar, descansar, ler, formar-me, fazer nada, estar com companheiros, família e amigos, dançar.
- a confiança. Quando sentimos e vivemos a nossa vocação, abandonamo-nos à confiança em Deus que chama. Há a força do Espírito que nos habita, a fortalecer o dom. No meu caso, ou de quem acompanha, da escuta, da compaixão, da assertividade, do silêncio orante.
- a alegria. Para acompanhar as sombras e dar luz é preciso deixar-se inebriar pelo desejo do Bom, Belo e Ajustado, como no final de cada dia da criação.
E se há coisa que me realiza na paternidade espiritual: ver a pessoa descobrir mais vida e alegria em Deus.
[Secção letras verdes] Enquanto me recolho na oração, a entregar a Deus quem oriento em Exercícios Espirituais.
[Secção coisas de nada] Entrei no gabinete e olhei o horizonte. Mesmo repetido, cada dia é diferente. O silêncio interior, no deserto que liberta, abre-nos perspectivas. Em “O Amigo do Deserto”, de Pablo D’Ors, a personagem principal desenha em cada dia o deserto que vê da sua janela. Todos os desenhos são diferentes. O mesmo se passa connosco quando nos escutamos no silêncio: sendo nós os mesmos, as mesmas, há diferenças no sentir, no viver, no conhecer, no amar. Com o passar do tempo nesta aprendizagem de vida a compreender que somos inacabados em caminho, ganhamos serenidade ante o que é. E liberdade, sem julgamentos precipitados. Estamos muito marcados por supostos disto e daquilo, bombardeados de expectativas nossas e de outros. O silêncio ajuda a tranquilizar tudo isso, de modo a chegar ao concreto, do hoje, do presente, que abre possibilidades de horizonte, em amor e serviço, que se renovam em cada dia.
Luís e Marta - Lounge Fotografia
[Secção conversas soltas, com a devida licença para publicar]
- P. Paulo, fui educado em certezas religiosas tão absolutas que cada vez que olhava para a cruz sentia o peso dela em cima. Se não me confessava de todos os males, “Jesus leva com mais uma martelada no cravo, fazendo-o sangrar”. Eu com 10 anos não sabia o que eram todos os males. Mas sentia-me terrivelmente. Cheguei a mentir no confessionário e depois confessava-me de que mentia. Além dos meus pais, o confessor fazia-me sentir ainda pior. Era terrível! Cheguei a um ponto em que já não conseguia acreditar mais em Deus. Foi o choque familiar. Formei-me. Corri mundo em busca de mim, a fazer do melhor ao pior, sobretudo com pessoas, enganando-as, usando-as para prazer, no corpo, na vida. É um desespero tão grande. Passaram mais de 30 anos e sinto que Deus me chama. É possível? É isto a fé? Não sou um degenerado?
Levantei-me, baixei-me para ficar com o olhar próximo, coloquei a mão no ombro e pedi para fechar os olhos e regular a respiração.
- Pode voltar à criança que se foi confessar?
[O rosto contristou-se em dor e encolheu-se.]
- O que lhe quer dizer? Agora, depois de toda esta experiência de vida? Sem filtros.
Passado uns momentos de silêncio, com aumento de tom até ao grito.
- Não tens culpa! Não tens culpa! Desculpa, não tens culpa! Jesus não sangra mais. Jesus, não sangra. [O choro contido de anos soltava-se!] Jesus não é como eles dizem.
- Respire fundo.
- Perdoa-me! Perdoa-te! Eu quero amar!
- Respire fundo.
- Eu fiz tanto mal. Repeti o mal.
- E agora está na altura de encontrar o bem, a luz, a vida.
- E Deus?
- Deus está a tirar o anel do dedo e a preparar o vitelo gordo.
- Como?
- É o que faz cada vez que um dos seus filhos regressa.
- Mas, depois de todo o mal que fiz?
- Ele espera. Sempre. Tem o nosso nome tatuado na Sua mão.
- Posso confessar-me?
[…]
- Eu o absolvo de todos os seus pecados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
[Breve oração ao anoitecer de Todos os Santos]
Agradeço-Te
a frescura do olhar
de quem abraçou o Teu amor
sabendo-se pó de terra
com raízes no escuro profundo
e mãos na luz de serviço
Peço-Te
atravessa-me com a mesma pequenez
de quem se deixou levar pelo Teu vento