quarta-feira, 17 de julho de 2019

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Envelhecer, amadurecer




[Secção coisas de corpo] Abrindo as redes sociais vejo muitas publicações de pessoas envelhecidas. Apercebo-me que é uma aplicação nova. Reconheço a piada. No entanto, surgiu-me novamente a diferença entre envelhecer e amadurecer. Envelhecer poder-se-ia dizer um estado ligado ao avançar cronológico. Amadurecer será um estado que revela o crescimento existencial. Nem sempre o aspecto físico revela a maturidade da pessoa. É-se amadurecido quando as idades biológica, intelectual, psicológica se conjugam. Isso é um processo a trabalhar ao longo da vida. Há pessoas de “pele nova”, mas velhas no modo como se relacionam. Há pessoas de “pele enrugada”, mas infantis no modo como se relacionam. Sabermos ir crescendo nas distintas idades, conjugando a beleza da experiência, torna-nos sábios. Isso exige tempo, que vai para além do clique num filtro. Como disse, reconheço a piada. Ainda assim, apesar de saber que isto hoje em dia da privacidade total só acontece se nos desligarmos totalmente das tecnologias, prefiro não dar os meus dados de reconhecimento facial a uma empresa russa. Que venham os tempos próprios e ajustados do caminho do amadurecimento, com mais ou menos rugas, mais ou menos cabelo, mais ou menos brancas, sempre com mais respeito por si mesmo e pelo próximo. 


sábado, 13 de julho de 2019

Rasgar véus




[Secção pensamentos soltos] Estamos rodeados de véus. Uns mais evidentes, outros subtis, mas estamos rodeados de véus. Fico a pensar no desafio que é ir dando conta ou nomear esses véus e permitir atravessá-los. Dos versículos que mais me ecoa é o “rasgar do véu do templo” no momento da morte de Jesus. Deus, ou o Santo dos Santos era inacessível, rodeado por um véu. Rasgou-se. Que som igualmente forte quando a palavra é pronunciada. R-A-S-G-A-R. Quando se rasga algo, muitas vezes é sinal de estar gasto. Outras vezes é de pequeno acidente. No entanto, quando rasgamos propositadamente algo, folhas de papel ou fotografias, é outro modo de dizer: já não interessas. É exercício de liberdade. A folha de papel pode ser tantas coisas, sociais, religiosas, políticas, culturais, que, além de se terem transformado em estruturas pesadas, impedindo a leveza da Vida, bloqueiam a passagem. Daí que na oração, para quem é crente em Deus, e na reflexão consigo mesmo, para quem é crente apenas na humanidade, há algo primordial: a verdade a nomear os véus, que podem ser sentimentos, acontecimentos, pessoas, incoerências, medos. Esse processo pode ser muito doloroso, sendo necessário acompanhamento. Não se trata de heroísmo, mais de cuidar-se. Dos momentos mais bonitos que vivo como padre é acompanhar a beleza das travessias na vida. Quando S. Paulo escreve que agora vemos como num espelho, depois será face-a-face, imagino-me para lá de todos os véus rasgados diante do profundo olhar amoroso de Deus rodeado de gente, muita gente na mesma contemplação de Vida. 

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Abecedário




[Secção coisas curiosas] Rezo a partir do abecedário com muita frequência. Assim, pelas letras dos nomes trago todas as pessoas ao coração. De vez em quando publico que usei este modo de oração. A última vez foi a iniciar a Caravana. E eis que um amigo beneditino de Monserrat depois de ler o post envia-me esta oração que encontrou. Diz que está situada entre os séculos XVII e XVIII e ainda que “deve ser uma piada requintada, no entanto é capaz de ter ajudado algum padre mais escrupuloso”. O certo foi a boa gargalhada que dei. Se alguém puser em causa este tipo de oração, tenho argumentos históricos.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Fotografia



[Coisas na vida de um padre] 
- P. Paulo, agora uma fotografia connosco!
- Já sabem que tem de sair uma fora do tipo convencional.

E assim chega uma boa e humorada recordação do baile de finalistas do INA. Aliás, não só do baile. Também, simbolicamente, da amizade com tantas e tantos alunos.

Coluna de luz



[Secção coisas de nada] Há dias vi esta coluna de luz. Estava de conversa e parei, parámos. “Aparece com frequência e é bonito”, comentou. Pensei: haverá sempre mistério na luz. E na subtileza do jogo de sombras. Ainda ontem líamos, em Missa, a luta de Jacob com o Anjo. Começou de noite e terminou na aurora. Recebeu novo nome. As lutas, entre luzes e sombras, renovam o ser.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Dias de nada... ou de tudo




Jon super/AFP, de um projecto fotográfico de Spencer Tunick

[Secção pensamentos soltos] Hoje não é dia de nada e de ninguém. Sendo-o de nada, junta-se o outro absoluto: é dia de tudo e de todos. Explico-me. Desde há uns tempos que me faz confusão as celebrações dos dias de algo. Não que não me pareça importante esse salientar, mas é mesmo por ainda termos de recordar, ano após ano, a necessidade do respeito pelo outro, seja a Mulher, o Refugiado, alguém LGBT, seja o Ambiente, a Terra, os Oceanos. A discriminação ainda é gritante, levantando as fobias que anulam pessoas a partir de categorias. Incomoda-me ainda mais quando se usa a religião como argumento discriminatório. No caso da Cristã, a centralidade do mandamento novo “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” é de tremenda exigência. Esse amor passa por um profundo exercício de auto-conhecimento e, assim, de expansão de si mesmo no conhecimento do outro. Não é fácil, de todo que não. Afinal, antes de mais, há que enfrentar os preconceitos connosco próprios, em especial no que não queremos aceitar em nós mesmos: que fazemos parte de um todo, o qual se inclui o ambiente a cuidar; que, seja ela qual for, vivemos a dimensão afectivo-sexual em toda a sua complexidade; que o ser humano é igual em dignidade independentemente do género ou cultura. Ainda há muito caminho a percorrer, enquanto se consumir os recursos naturais como se fossem egoisticamente posse de alguém, enquanto houver pessoas mal-tratadas e assassinadas pela sua condição cultural, sexual, religiosa. Por isso, hoje, tal como amanhã e em cada um dos outros dias que não são particularmente de nada e de ninguém, continuam a ser de tudo e de todos no recordar e viver o respeito pelo outro. 

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Silêncio




[Secção pensamentos soltos] O tema silêncio acompanha-me há muito tempo. Muito antes mesmo da saída do “Silêncio” de Martin Scorsese, a partir da obra de Sushaku Endo. Talvez por ser filho único, tenho um lado de recolhimento forte. Gosto muito de estar com amigos, vida social, mas, cada vez mais necessito de espaços de silêncio, que vão de cinco minutos a dias completos. Vem isto a propósito por ter celebrado Missa há pouco pela primeira vez no Mosteiro das Carmelitas de Bande, perto de Paços de Ferreira. Irmãs de clausura e de silêncio, dedicando-se inteiramente à oração. Quando entrei na Capela, já paramentado, tive a clara sensação de sentir-me profundamente em casa. Não pela questão da vocação, sou jesuíta com muito gosto, mas pela força do silêncio habitado de vida que ali senti. Estive à conversa com a Irmã Vera, Madre Superiora, que faz parte de um grupo de religiosos contemplativos que vivem a reflexão do diálogo inter-religioso nessa componente mais mística, monacal. Contou-me a experiência que viveu com dervixes: “P. Paulo, temos tanto a aprender com a mística oriental”. Concordávamos que no ocidente ficámos (e estamos) muito presos ao racional. Esquecemos o corpo, o silêncio do corpo. A vitalidade que se sente quando enfrentamos os ruídos “medos” ou “vergonhas”. É duríssima a experiência de dar nome a esses fantasmas que podem chegar a anular quem não os enfrenta. Mas é nomear que liberta. Ao passar por um dos corredores deparei-me com este ícone do Arcanjo Miguel. Ele defende-nos do que divide. Uma das maneiras de o fazer é mostrar-nos a realidade e reduzi-la à insignificância ante a força de Deus. O silêncio, bem vivido, torna-se Arcanjo Miguel. E a Vida acontece. 

domingo, 7 de julho de 2019

(Re)inventar as palavras



[Secção pensamentos soltos] A reler Almada Negreiros detive-me nestas passagens. Somos seres de comunicação, onde a palavra tem especial destaque. Infantil é não ter voz ou ainda não ter força na palavra dita. É preciso crescer, articular emoção e razão onde a palavra ganha consistência. Fico a pensar que Deus usa a palavra para criar cada canto e recanto, com cume na criação do ser humano à sua imagem e semelhança. Re-inventar as palavras já criadas pode ser, a meu ver, voltar à beleza da origem: comunicar para dar vida. Seguindo eu o Verbo que se fez carne, aprofundo a re-invenção: comunicar para dar e sermos vida divina. Sei que é mais difícil e complexo. Então, para comunicar bem é preciso tempo, de silêncio, de aprendizagem (observando muito sem julgamentos rápidos e bruscos) e de saber ler os sinais dos tempos. Que se re-inventem as palavras, em especial as que humanizam.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

5 anos de padre




[Secção aniversário] Agradeço muito a Deus tanto vivido nestes 5 anos de padre. Hoje, sem muito mais palavras, a fotografia revela o meu sentir.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Caravana - O Sorriso




[Caravana 2019] Deu-se o encontro com o Sorriso que tranquiliza e repete a promessa: “estarei convosco até ao fim dos tempos.” Mesmo com dúvidas de fé, perguntas sobre tanto da existência, diante do Cristo do Sorriso faz-se silêncio para sentir que na individualidade que enriquece a diversidade somos enviados a amar como Ele nos ama. É desafio diário. Quem por aqui passa e se detém, libertando medos e agradecendo a vida, ficará sempre com a companhia do Sorriso.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Caravana - Ser peregrino




[Caravana 2019] Ser peregrino: condição de cada pessoa que (se) busca. Uns na quietude de casa, em quotidiano que faz da rotina espaço de entrega e amor. Outros, a deixar o extraordinário, em conhecimento de novos rostos e histórias, abrir vistas de Deus que não se cansa de amar. Ser peregrino: condição de cada pessoa, libertando-se de comparações.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Caravana - Acontecimentos



[Caravana 2019] Há acontecimentos que nos mudam a vida. Nada de novo. A novidade é vivida quando o acontecimento torna-se ocasião de mudança de muito(s). A desgraça da perna partida permitiu que Inácio descobrisse Deus de forma renovada. A sua conversão levou à fundação da Companhia de Jesus. Também graças a esse acontecimento hoje conhecemo-nos, estamos por aqui em viagem, muitos, para não dizer todos, libertamos um pouco mais o que nos afasta de nós mesmos. Há acontecimentos que mudam a vida e Deus aproveita para ser + entre nós.

Caravana - Ser apanhado




Teresa Líbano Monteiro


[Coisas na vida de um padre em Caravana 2019] Ser apanhado a ouvir a explicação sobre o regresso de Sto. Inácio à sua terra Natal. Na Capela da Madalena falou sobre Jesus às crianças. Curiosidade: como era de família importante, os Loyola, o irmão, envergonhado por ele ter aparecido vestido de serapilheira e não querer ficar no Solar mas no hospital com os doentes e peregrinos, disse-lhe que não viria ninguém ouvi-lo. Respondeu: “Eu falarei nem que seja apenas a uma pessoa.” Aparecem centenas... e o próprio irmão, ficando comovido com o amor com que Inácio falava de Jesus.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Caravana - história(s)





[Caravana 2019] Sou quem sou com histórias. No plural, por se fundirem a pessoal e a universal. Há coisas vividas grandiosas, outras aparentemente insignificantes: o importante é saber ajustá-las sem as negar. Cada um de nós é essas histórias. Por mais escuras que possam ser, quando aceites e integradas tornam-se cor de vida.

domingo, 30 de junho de 2019

Caravana - Partir



[Caravana 2019] Partir. Em modo de ir em descoberta de novas terras e quebrar o que impede a liberdade de encontrar a terra fértil que cada um(a) é. Somos 46 total, a maioria alunos de 11.º, em caminho ao encontro de Inácio e Xavier, santos que se deixaram amar por Deus e partiram em anúncio de Vida. Trago o abecedário no coração.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

terça-feira, 25 de junho de 2019

Saudades da terra de onde saímos



[Secção pensamentos soltos] Por vezes tenho saudades de tempo e espaço que não conheço. Até para mim é estranha a sensação. A saudade é sentida e vivida a partir da experiência de encontro com pessoas, lugares, situações. Ainda assim, esse desconhecimento causador de saudade não é daqueles desconfortáveis, mas estimulador a fazer caminho em direcção a algo mais fundo ou mais pleno. Sim, há saudades de casa. Ou da terra de onde todos saímos. No mais íntimo sei, sabemos, de onde somos e a vida é o convite a esse regresso à origem, onde há que libertar coisas e coisinhas que impedem o amor. As saudades, afinal, tornam-se sinal de que em cada um de nós reside a vontade de regresso ao Paraíso. Na pele latejam em memória viva as marcas da moldagem divina.

Breve oração




[Breve oração no entardecer de S. João]

Agradeço-Te os encontros 
que desvelam tempos sem tempo
e convidam a descalçar em terra
sandálias sem pó

Peço-Te
voz que ilumine 
o teu caminho


segunda-feira, 24 de junho de 2019

Olhos fechados



Rita Rocha

[Secção pensamentos soltos desde coisas na vida de um padre] O sentido visão é dos que capta mais informação. Sou daqueles que facilmente se distrai com a informação visual a acontecer. Luzes e movimento, por exemplo, podem retirar-me o foco. Ao longo dos anos que me dedico particularmente ao silêncio, na oração, na meditação, fechar os olhos ajuda-me a focar no essencial: seja numa leitura a acontecer, seja no saborear alguma informação recebida em contemplação. Acrescento: não é só fechar os olhos, também ajuda muito tranquilizar a respiração com inspiração e expiração pausadas. São muitos os momentos em que tudo se transforma. O Espírito tem especial predilecção pelo silêncio.

Em início de Verão




[Secção boas leituras] Em início de Verão, a simplicidade por Matsuo Bashô.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Dia de Corpo de Deus... e refugiados



[Secção letras verdes] Pequena oração de consciência do muito que somos e do mais que poderemos ser.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Nova porta




pés com luz sombreada em terra da maravilhosa quinta da Casa da Torre em Soutelo

[Coisas na vida de um padre jesuíta] Na tradição hebraica, os números têm carácter simbólico. O 4, por exemplo, é símbolo de porta, de passagem. Depois de 4 anos de muita aprendizagem no Colégio das Caldinhas, em primeira missão como padre, no contacto e partilha de vida com outros companheiros e tantos alunos, educadores, famílias, é tempo de atravessar nova porta. Faço-o de coração muito agradecido, a cada pessoa, sem excepção, e, claro, a Deus. Foram anos de muito crescimento como homem, como jesuíta e como padre. A educação fica no coração. Agora, é tempo de, na Casa da Torre - Centro de Espiritualidade e Cultura, em Soutelo, colaborando também no CAB - Centro Académico de Braga, descobrir mais sobre espiritualidade, dando o contributo com a beleza da corporeidade, da dança, a orientar Exercícios Espirituais e outros retiros, a acompanhar humana e espiritualmente, a dar formações, a ajudar a viver o silêncio, a liberdade e travessias de portas para o Espírito. E será bom, muito bom!

segunda-feira, 17 de junho de 2019

domingo, 16 de junho de 2019

Diversidade na unidade



Reuters/Francis Mascarenhas

[Secção pensamentos soltos em dia da Santíssima Trindade] Já lá vão uns bons anos desde uma conversa simples sobre pintura. Uma amiga comentava-me como as primeiras aulas estavam a mudar a sua perspectiva de visão da realidade: 
- Hoje vamos pintar nuvens, disse o professor. 
- Vai ser preciso muito branco, comentou alguém com humor.
- Para não haver abuso do branco, vamos lá fora e olhar as nuvens. Observem, com calma.
- Paulo, sempre vi nuvens na minha vida, mas naquela tarde, ainda mais a acontecer o pôr-do-sol, tudo mudou. Impressionante a quantidade de cores e tons numa nuvem. O mesmo se passa connosco próprios e com os outros. Impressiona a diversidade. 

Esta conversa, além da vezes que olho as nuvens, volta à memória enquanto leio “Longe da árvore - Pais, filhos e a busca da identidade” de Andrew Solomon. Ainda estou nas primeiras cem páginas das mais de mil. No entanto, a crueza da investigação sobre a realidade da diferença (deficiência, surdez, filhos de violação, prodígios, esquizofrenia, anões, autismo, síndrome de Down, transgénero, etc.) abre desde logo tantas perspectivas no pensamento. São muitas as fronteiras entre o que se vê como doença, como aceitação e integração. Os combates internos e externos, tanto de pais, como de filhos… ou de cada um de nós, ante a diferença, seja ela qual for, são imensos. É isso, impressiona a diversidade de cores na nuvem, tal como impressiona a diversidade do que somos enquanto seres humanos. 

Os ecos do livro vêm-me à oração. Agitando o ruído das vezes que não quero nem aceito a diferença do outro, apercebo-me do subtil igualitarismo que remanesce em mim. 

É aqui que entra a beleza da Santíssima Trindade. Ainda a semana passada, em Pentecostes, perguntava-me: “como é que Deus ama cada pessoa?” Não é duvidar do Seu amor e da possibilidade, mas saber como é que esse amor acontece. N’Ele mesmo há diversidade em Amor único. Isto pode ser demasiado abstracto, mas quando entramos na complexidade humana só pode haver deslumbramento nesse amor. Ainda assim, é difícil: por esta luta constante em querer que as nuvens ou a humanidade sejam num igualitarismo que assusta. E facilmente se julga, eu julgo, mais as pessoas, que as acções, atitudes e comportamentos, na subtileza do não gostar do feitio até ao gozo, burla, acusação de aberração, desejando a sua não-existência.

Acredito claramente que nos podemos aproximar desse amar de Deus a cada pessoa. É caminho árduo, exigente e profundamente libertador. Recordando as palavras de S. Paulo na leitura para este dia, em que “tribulação produz a constância, a constância a virtude sólida, a virtude sólida a esperança”, esse caminho é o da vida. Afinal, continua S. Paulo, “a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.” Em passos de ajuda, há para mim coisas fundamentais: o silêncio, a libertação dos auto-enganos, muito amor próprio, levando à cada vez maior abertura de coração em, no que me é possível, pôr-me no lugar do outro… e amar, simplesmente amar como Deus ama.

sábado, 15 de junho de 2019

Voos celebrativos




Pedro Leite 

[Coisas na vida de um padre] Chega uma boa recordação de um dia feliz. Ainda mais tirada pela mão de Pedro Leite (PS Photography), Chefe de Cabine da Portugália e excelente fotógrafo. Ontem, em Mirandela, falei das viagens de vida: as que me levaram a ser padre e as que vivo como padre. Sim, cada celebração é um voo. Acolher quem se quer descobrir na profundidade do ser e promover o encontro com Deus são das grandes viagens que realizam.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Obrigado CAIC




                                                                      João Ferrand 

[Secção desabafos] O mundo é preto e branco. Mas não é só preto e branco. Nele há uma variedade de cores e infinitas tonalidades. O mundo também somos nós, seres humanos. São já alguns milhares de anos de humanidade e, ainda assim, apesar de muito se ter evoluído, em muitos aspectos retrai-se. E dói. Dói muito. 

Ontem, nós, jesuítas, e comunidade CAIC (educadores, alunos, famílias, conhecidos), recebemos a dura e triste notícia de que este Colégio, com 64 anos, por muitos considerado segunda casa, não vai abrir portas no próximo ano lectivo. Foi no CAIC que iniciei o meu gosto pela educação. Foi no CAIC, sendo director de turma pela primeira vez, que senti de forma forte a paternidade espiritual. Foi no CAIC que vivi a educação para além da sala de aula, acompanhando situações delicadas de vida de alunos e famílias. Sim, dói muito. O CAIC junta-se a muitas outras escolas que, pelos cortes de financiamento dos contratos de associação, viram-se forçadas a terminar os seus projectos educativos. A partir daqui desabafo algumas considerações:

A Educação é fundamental para a humanidade. Sendo fundamento, pilar, deve ser tratada com o cuidado merecido. Educar é muito mais que instruir e, de todo, que não é formatar. Educar, na raiz da palavra, ajuda a crescer para a pluralidade. Acrescento, ajuda a crescer para a reflexão, para além de ideologias e interesses pessoais. A reflexão bem vivida é multicolor. A que se fecha no monocolor vai ser inevitavelmente cega e as decisões daí decorrentes podem ser destrutivas para muitas pessoas. Basta ler um pouco de História. Um Ministério da Educação que se preze deveria abster-se de ideologias políticas e perceber realmente o que cada Escola faz para a sociedade. 

Se o critério financeiro é importante, então, que seja aplicado justamente quando está mais que provado que grande parte das Escolas com contrato de associação são mais rentáveis. As que não são ou que usam o financiamento para outros fins, há meios, como inspecções, para o confirmar. Mas, também é sabido, o “amiguismo”, igualmente político, faz parte da realidade monocolor. 

Nas centenas de comentários, há mantras constantes como “se querem escolas de ricos, que paguem” e “os meus impostos não são para pagar os ricos”. Não me posso pronunciar por centenas de pessoas com estas ideias, mas a muitas fui convidando para conhecer no concreto as Escolas que mostram a universalidade do acolhimento e da educação. O CAIC era uma delas. No ano seguinte aos primeiros cortes, uma jornalista da TSF entrou em contacto connosco. Fui eu que falei com ela e estava surpreendida. Ficou-me a ecoar esta frase: “estive a pesquisar e afinal vocês têm alunos de todas as realidades sociais.” Respondi do mesmo modo como fiz a muitos: “sim, temos. Não quer passar por cá?” Não veio. Como muitos não vieram, não apenas registar o drama e a emoção, mas viver o quotidiano na Escola. Assim, tomariam consciência do que se faz nas aulas e fora delas, no acompanhamento de alunos e famílias, vendo a multiplicidade de cores com que se dá sentido à Educação para Servir. 

Enfim, são desabafos que não adiantam nada para reverter a dura decisão do fecho do CAIC. O mundo da ideologia política não é complexo, é complicado. Mas, temo que pior: torna-se cada vez mais abstraído do real, do concreto, do que se faz com sentido em nome de uma sociedade mais justa. 

Aos Jesuítas, Educadores, Alunos e Antigos Alunos do CAIC, muitos deles amigos, um abraço forte e agradecido. Se posso pedir alguma coisa, que seja a de continuarem a honrar tudo o que aprenderam e viveram naquela segunda casa, dando o vosso melhor à sociedade concreta, tornando-a, com a vossa riqueza de pensamento, coração e mãos, plural, diversa, mais justa e humana. 
  



terça-feira, 11 de junho de 2019

Cócó de unicórnio




[Coisas na vida de um padre num Colégio] 
- P. Paulo, pode segurar nisto, se faz favor?
- Hmm, o que é isto?!?
- Ah, não se preocupe, é cócó de unicórnio. É bonito e cheira bem. 

Bom dia!

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Pentecostes



[Secção letras verdes] Ainda em eco do bonito dia de ontem. Sendo inspiração para o de hoje.

sábado, 8 de junho de 2019

Finalistas




[Coisas na vida de um padre] 
- P. Paulo a selfie da turminha!! Tem de ser! Queremos “instamoment” com coisas na vida de um padre!

E assim é na festa de finalistas. Agradecer os três anos de secundário, a vê-los a fazer caminho. Como li numa entrevista a Agustina: “Fim - o que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa.” Parabéns!


quinta-feira, 6 de junho de 2019

Bodas de Ouro




[Coisas na vida de um padre] Chegam boas recordações de um dia muito bonito. Gosto de celebrar casamentos. Mas celebrar bodas de ouro tem o seu quê de especial. Estas, da Lolita e do Abílio, foram celebradas com muita emoção por tantos anos de vida e histórias partilhadas. A simpatia, doçura, ternura, carinho com que se cuidam e olham são sinal do Amor aprofundado ao longos dos tempos desde aquele sim de há 50 anos. Viva a beleza do Amor!

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Instante(s)




[Secção pensamentos soltos] Em instantes tanto acontece. Em instantes mudanças de vida surgem. Claro, são instantes raros, esses, pois mais abundantes são os quotidianos, banais, repetitivos, onde nalguns se “chora as cebolas do Egipto”, noutros se anseia para que o futuro seja o mais rápido possível. Mas, como viver o presente como ensinamento? Esse instante que, mesmo banal, pode marcar uma viragem no modo como se acolhe e aceita a realidade? É impressionante como somos rodeados e marcados com modos de ser e estar, como se nos caracterizassem na plenitude. Por isso, instantes em que tudo pode ser posto em causa podem levar ao essencial: o amor. O trabalho é árduo e exigente. Deixa de ser uma resignação, até mesmo uma revolução, para passar a aceitação da liberdade. Na passagem do Evangelho para hoje, Jesus vive a consciência do instante em que ficará só. Abandono, poderíamos pensar. No entanto, não é um “só” moral, mas existencial. Esse despojamento total permite a Sua vitória. A única coisa que o marca é o amor. Assim tem de libertar-se de tudo e todos para ser tudo em todos no amor. Atrevo-me a dizer que são os desafios de quem deseja viver a fé em profundidade: amar, simplesmente amar. Sendo difícil, não é impossível. Apenas exigente. Pode haver o instante em que tanto, ou tudo, se liberta e abre-se caminho na direcção da vida.


sábado, 1 de junho de 2019

Dia Mundial da Criança




José Almada 

[Secção pensamentos soltos em dia da criança] Enquanto adultos educadores temos uma função principal: ajudar o bébé ser bébé, a criança ser criança, o adolescente ser adolescente. Nenhum deles é adulto em miniatura, nem uma extensão de cada pai, mãe ou educador, mas único, necessitando de quem os oriente no caminho do crescimento, da evolução pessoal. A orientação ou educação é um desafio em permanente actualização: implica viver o complexo jogo de limites amorosos e liberdades respeitadoras. O perigo situa-se nos dois pólos “podes-fazer-tudo-que-assim-aprendes” e “não-podes-fazer-nada-sem-que-seja-eu-a-controlar”. Para não estarmos em nenhum extremo destes, muitas vezes somos nós adultos que temos de permitir que o bébé, a criança, o adolescente que em nós não cresceu o faça. Sermos como crianças, como nos recorda Jesus no Evangelho, não é nos infantilizarmos. Ser como criança é permitirmo-nos ser o que somos, no reconhecimento dos limites e das liberdades entre luzes e sombras que anseiam por dissipar-se, e assim chorar choros contidos, brincar brincadeiras impedidas, amar amores plenos e autênticos. Ao sermos adultos como crianças tornamo-nos suportes dadores de vida. Bom caminho.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Dia Mundial do Tripulante de Cabine




Mário Raposo: fotograma da reportagem RTP sobre a entrega das minhas divisas e meia-asa da farda à Nossa Senhora do Loreto em 2003

[Secção memórias] Em dia da Visitação de Nossa Senhora à sua prima Isabel, celebra-se o dia mundial do Tripulante de Cabine. Gosto muito de ser padre. É sabido. Mas, isso não significa o anular de outros gostos. E, sim, tenho saudades de voar como tripulante. Vestir uma farda e, entre demonstrações de segurança, voz colocada de discursos de bordo, ir com o trolley por ali fora em “chá, café, laranjada”. Também das 300 milhões de vezes a dizer: “bom dia, bem-vindo a bordo” e “adeus, boa tarde e obrigado”. Mas, sobretudo, da boa disposição que leva a serenar passageiros e a ajudá-los em caminhos de boas visitas em segurança. Quem sabe um dia celebro uma Missa a bordo. Hoje agradeço as vidas de todos os tripulantes, rezando de forma especial pelos amigos de voos. 

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Queda livre




Fotograma do episódio "Queda livre" da série Black Mirror 

[Secção desabafos] Podia falar da abstenção. Mas não quero de momento. Ainda estou a digerir este “murro no estômago” ao sentido e significado de liberdade a que tantos lutaram. A propósito da era dos “gostos” estivemos a ver com os alunos de 11.º ano o episódio “Queda livre” da série Black Mirror. O episódio retrata o perigo dos “gostos”, em pontuação social, de 0 a 5, conforme a simpatia ou antipatia nas relações. É-se pessoa minimamente considerada a partir de 4. Só se pode comprar ou ter acesso a determinadas coisas conforme a pontuação. Tudo normal naquela sociedade. Isso é, aparentemente, aceite. Que remédio. Mas, naquela sociedade da série ou na nossa realidade? Afinal, votamos a “torto e a direito” pelas redes sociais, ganhando ou perdendo estatuto, onde rapidamente se flutua entre o “besta” e o “bestial”. Claro, é só uma série de ficção científica. Depois, foi apresentar um pouquinho do que se passa na China. “Isto é o episódio!”, foi um comentário ao de leve, em conjunto com muitos ares de espanto. Disse-lhes no final da aula: “quando chegar a vossa oportunidade de votar, pensem que o mundo movimenta-se conforme as nossas acções”. Podia falar de abstenção. Mas não quero. Ainda estou a digerir o valor de 70% e a pensar na “Queda livre”.