segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Breve oração antes de adormecer



Han Lin Teh

[Breve oração antes de adormecer]

Agradeço a confiança em cada conversa. Nesse pôr de palavras de encarnar o autêntico sem fugas de identidade e acontecimentos. Dá-se liberdade e é-me permitido tocar sagrado em cada vida breve ou longamente iluminada.

Peço-Te

limpidez de silêncio e de escuta.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Breve desabafo em oração



Dolores O'Riordan



[Secção memórias em jeito de homenagem] E de um momento para o outro, ao ouvir Cranberries, a voz de Dolores O’Riordan, voo até aos idos tempos em que estava no 9.º ano. Recordo conversas de turma, o vídeo para a disciplina de Saúde, a frustração de paixões perdidas, os corredores dos pavilhões de aulas, os sítios de encostar à conversa nos intervalos, as listas para a Associação de Estudantes, a escrita no quarto ao final do dia com emoção e desejos de futuro. A história tem marcas de pessoas e de vibração de músicas em momentos precisos.

Dolores, thanks for all… till infinity.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Breve oração antes de adormecer




Chad Butler

[Breve oração antes de adormecer]

Agradeço-Te as perguntas e a liberdade de perguntar-Te tudo, percebendo que não exiges nenhuma perfeição para além de amar. Fico em silêncio ao ver-Te iluminar novas perspectivas de ser.

Que eu não me canse de responder-Te. 

sábado, 13 de janeiro de 2018

Dar atenção aos ruídos




Rhana Chakrabarti

- P. Paulo, fala tantas vezes de silêncio, de fazermos silêncio, como consegue? É tão difícil. Eu não consigo. São muitos os ruídos.
- Bem, antes de mais, há que dar de vez em quando atenção aos ruídos. 
- Como assim?
Levantei-me. Escolhi uma música calma. 



Play. 
- Tome esta folha branca e a caneta e deixe-as de momento no colo. Assente os pés no chão, endireite as costas, pouse as mãos sobre as pernas. Feche os olhos. Vamos fazer três inspirações/expirações profundas enquanto acompanha o som da música. Este tempo é seu. Tome consciência do aqui e do agora. Mais três inspirações/expirações. Liberte o pensamento. Pegue na caneta e na folha e escreva o que lhe vem ao pensamento sem filtrar nada. Não se preocupe em ver. O que está a preocupar? […] O que incomoda na vida? […] A que é que chama ruídos? […] O que está a impedir de fazer silêncio? […] Quando sentir que é o momento, pouse a caneta e volte a colocar as mãos sobre as pernas. E mais três inspirações/expirações profundas. Tome novamente consciência do aqui e do agora. Quando sentir, pode abrir calmamente os olhos. 
- Que leveza…
- Repare na folha.
- Que confusão. 
- E o sentir?
- Leveza e calma.
- Passou os ruídos para o papel. Mas, em consciência, consegue dar nome a algumas coisas que provocam ruído. Dê-lhes a atenção e a importância ajustada. Perceba o que pode fazer sem ajuda. O que tem de fazer com ajuda. O que, de momento, não pode fazer. E vai dando espaço e tempo para a leveza e a calma poderem continuar.


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Breve oração




Francisca Dias

[Breve oração antes de adormecer no Dia do Obrigado] 

Agradeço-Te os detalhes de amizade, no (re)conhecer de beleza e que recordam a Tua presença. 

Ajuda-me a viver sempre de coração agradecido. 

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Dizer a verdade




Ahmad Masood/Reuters


[Secção pensamentos soltos] “Dizer a verdade é a ferramenta mais poderosa que temos.” Uma das frases mais marcantes do discurso de Oprah Winfrey que hoje circula pelas redes. Quando a ouvi ressoou-me a famosa pergunta de Pilatos aquando da condenação de Cristo: “O que é a verdade?” Oprah tem toda a razão com aquela afirmação. E é triste que ainda tenha de ser formulada com tanta veemência de modo a que não haja mais condenações injustas, em especial pela desigualdade no trato. Afinal, a verdade reveste-se de justiça e de autenticidade. O respeito por si próprio e pelo outro tem de ser atravessado pela verdade. Em muitos contextos, ainda é ensinado que há seres humanos inferiores, seja pela questão sexual, seja pela cor, seja pela nacionalidade, etc. etc.. Os ensinamentos atravessam o inconsciente colectivo, arraigado na cultura que subtilmente vai diminuindo e abafando o outro que tem medo: da denúncia, do gozo, da humilhação, da morte. Viver a verdade, no seu sentido de autenticidade e justiça, é mais difícil do que parece. Implica atravessar as sombras das dores de vida, do que talvez possa ter sido ensinado como “sempre foi assim”, em contextos sociais e religiosos que maltratavam quem não tivesse poder. Daí a importância da educação, tanto de pequenos como de adultos. Educar para a justiça que passa, insisto tantas vezes, pelo educar ao amor próprio. Quem tem amor próprio sabe libertar-se de jugos de opressão. Basta ler muitos comentários on-line ao discurso de Oprah para se perceber como a falta de educação abunda e sobretudo para se perceber que, sem se dar conta, dão razão ao próprio discurso. Não sei quantas mulheres e meninas  (e também homens e meninos… porque a violência sobre eles é também uma realidade muito dura e mais escondida ainda) vão escutá-lo e conseguir dar passos de libertação. Deveria ser simples e tudo mudar para o “novo dia” que Oprah refere. No entanto, na complexidade da existência, cada um de nós é chamado a fazer um exame de consciência sobre o modo como trata o próximo… em especial, o mais desprotegido, sem auto-enganos, buscando a verdade. Tomando conta que haverá algumas pessoas que rejeita, maltrata, anula, tentar perceber porquê. O problema pode estar na outra pessoa, como em nós mesmos. Na dúvida, aconselho a pedir ajuda a quem possa contribuir para o seu crescimento. Sim, a verdade é importante antes de mais consigo mesmo, depois com os outros, levando a denunciar qualquer tipo de injustiça que atente a dignidade e o respeito pelo outro, independentemente da idade, sexo ou estatuto social. Que se continue a fazer caminho de humanização.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Breve oração... em dia de Epifania




Peter Nestler

[Breve oração antes de adormecer em dia da Epifania]

Agradeço-Te a luz que ilumina caminho de novas perspectivas de Ti.


Nas interrogações ou dúvidas, peço-Te força e ânimo para buscar as respostas que em autenticidade derrubem tudo o que possa bloquear a nossa relação.

Boas recordações


[Coisas na vida de um padre] E chegam boas recordações de um dia bonito e cheio de Vida.

sábado, 6 de janeiro de 2018

38 anos de baptizado



[Secção memórias] 38 anos passaram desde esta fotografia. 38 anos de baptizado em dia de Reis. Na altura, nada sonhava do que iria viver na relação com Deus. Nem qualquer noção do significado de ligar-me profundamente a Cristo Profeta, Sacerdote e Rei. Olhar para o que esta fotografia evoca, é ver o tanto que já vivi de busca, de perguntas e respostas, de presenças e ausências, de arrebatamentos espirituais calorosos e arrefecimento de vazios, de confirmações e de incertezas em decisões, que me levou desde a fugir da catequese ao sim em ser jesuíta e padre. Já questionei muito, ainda questiono outras tantas coisas, mas, em honestidade comigo próprio, nunca questionei a existência de Deus. Sempre fez parte de mim. Com consciência de que para alguns pode ser loucura, para outros estupidez ou algo ridículo, esta certeza do Amor feito Carne, que conhece e deseja amar cada canto do ser humano, em inclusão e universalidade, está-me presente na existência. Agradeço a decisão da minha Maria e do meu José em baptizar-me desde bem cedo e, depois, em dar-me a liberdade na descoberta da minha vocação. 38 anos passaram desde esta fotografia. 38 anos de baptizado em dia de Reis. 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Notas de silêncio... crepitam




[Secção coisas final de dia] Crepitam notas de silêncio que abrasam o tempo para escutar as perguntas e respostas autênticas de final de dia: que e quem quero agradecer? Que momento mais me marcou? Houve alguma conversa que tenha ajudado a crescer? Dei-me tempo? Amei-me e amei... mesmo se alguém me tenha desvalorizado?

E deixo que a cálida luz ilumine o merecido descanso.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Santíssimo Nome de Jesus



Paul Haring/CNS

Nós, jesuítas, celebramos hoje a Solenidade do Santíssimo Nome de Jesus. Somos mais conhecidos por jesuítas, mas Sto. Inácio, aquando da fundação da Ordem, fez questão de que se chamasse Companhia de Jesus. É de recordar que o nome traz identidade, permite identificar. Longe de ser uma designação convencional, em muitas culturas expressa o papel de um ser no universo: o ser e a natureza através da missão e das acções que realiza. Deus, no livro do Génesis, cria, pondo nome aos astros e pede a Adão que dê nome a cada um dos animais. O nome dado ao ser humano no nascimento expressava a actividade ou o destino que cada qual levava. Pensando em Jesus, o nome traduz a força de ser “Deus connosco”. Sendo nós companheiros d’Ele, então, hoje é dia de recordar a nossa missão de anunciar, por esse mundo fora, como em Jesus se anula a distância em relação à divindade, tornando-nos amigos e, de forma ainda mais profunda, irmãos em Deus. 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

sábado, 30 de dezembro de 2017

Plantei uma árvore




Suzanne Rodrigues

[Coisas na vida de um padre] Plantei a minha primeira árvore. Tudo com tanto significado: uma oliveira, a minha árvore preferida e que tenho em nome; oferecida como lembrança do baptismo da Vitória, uma menina muito especial que desde o nascimento venceu muito; plantada a terminar o ano, em desejos de paz para o próximo, e na casa que, além da dos meus pais, é-me muito querida. A oliveira traz nova criação, em frutos que permitem a unção que leva à missão e à paz. Como padre, dou vida espiritual a muitos filhos e filhas. O livro? Fica em aberto a possibilidade. Hoje, sem grandes programações, plantei a minha primeira árvore: uma oliveira com tanto significado.

Brevíssima oração entre Natal e Passagens




Yohan Dumortier

[Brevíssima oração entre Natal e Passagens]

Agradeço-Te a liberdade de converter-me, 
de amar e de criar. 

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

É tempo




[Secção outros tons - entre Natal e Passagens] É tempo de deixar partir as horas que prenderam os sonhos. A fé conta as histórias de perguntas para além das sombras. As respostas? Perde o medo de voar e nasce de novo.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Gotas de chuva




Encontro silêncio nas gotas de chuva pousadas no entardecer. Ainda é Natal. Na oração recolho luz do Menino. Ou permito que me atravesse e transforme.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Breve oração antes de adormecer




[Breve oração antes de adormecer]

A liberdade de amar: agradeço-Te. Amar também cada pedaço de história minha que ainda não compreendo. Por mais indigna ou escura que seja, faz parte da descoberta da humildade.


Peço-Te: ajuda-me a não me deter em incompreensões, seguindo caminho na liberdade de amar(-Te).

Boas leituras




[Secção boas leituras em tempo de Natal] “As estratégias do desejo” de José Tolentino Mendonça, Ed. Cotovia, p. 33.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Revista Bica




Revista Bica

[Secção boa publicidade] Esta semana, além de textos para esta oitava de Natal a serem rezados através do www.passo-a-rezar.com, também estreei a presença numa revista cultural portuguesa, a Revista Bica, com "Toda a noite tem um amanhecer". Esta 3.ª edição da Bica centra-se na noite. Pode ainda ser conseguida em formato impresso na edição do Expresso de sábado passado (apenas na zona de Lisboa) ou online aqui: http://revistabica.com/bica-3/

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Breve oração no entardecer de Natal




[Breve oração no entardecer de Natal]

Agradeço-Te a viagem de vida e cada tom de luz. 
As palavras silenciam-se. Fala o Teu tempo.


Peço-Te: ajuda-me a nascer sempre na beleza do agradecimento de Ti e a olhar o outro com a Tua luz.

Carta a Ieshu, o Menino Deus




Joseph Anthony

Depois de ter celebrado a Missa do dia de Natal no Carmelo de Fátima, onde mais uma vez rezei o abecedário e assim mencionar todos os nomes diante do Menino, partilho a homilia/carta a Ieshu, em Menino Deus, lida à luz de uma vela na Missa do Galo. Bom, Feliz e/ou Santo Natal a todos os que por aqui nos vamos encontrando. Que a Luz do Menino vos ilumine todas as sombras.

Carta a Ieshu, em Menino renascido.

Menino Deus, há dois anos sussurrei-te uma carta, em noite bendita de luz. Volto a fazê-lo. Entre milhares de mensagens, mails, posts, escritos por esse mundo fora a desejar um bom, santo ou feliz Natal, pensei em sussurrar-te novamente uma carta suavemente iluminada, ajudando-me a focar no essencial: Ieshu, Jesus, bem-vindo! Ou serás tu que nos dás as boas-vindas à divindade humanizada com o teu primeiro respiro de presença?

Ano após ano voltamos a este mistério de redescobrir o teu nascimento. Poderás ser todo-o-poderoso, vendo-te, assim, frágil, pequeno, a entreabrir os olhos diante da luz dos pequenos luzeiros da noite, aconchegado no regaço da tua mãe que te afaga a pequena mão? Que beleza grande acompanhar-te nessa pequenez que só os grandes de coração conhecem, como a tua mãe, Maria, como José, teu pai, que abrasado de confiança defendeu-te em amor no desconhecido desde o anúncio.

Coincidentemente, este ano de 2017 junta Anunciação e Nascimento quase no mesmo dia. Em poucas horas, repassámos a força da Encarnação na Anunciação, no sim que permite alterar todo o curso da história, até ao teu nascer. “Faça-se em mim a tua palavra”. A Palavra, que a tua Mãe acolheu, és tu. A Palavra que José defendeu de toda a humilhação, até mesmo da possível morte por apedrejamento, és tu. Tu comunicas a mudança de coração que nos permitirá colaborar com cada gesto teu de humanidade. Não são acontecimentos piedosos, de elevação de olhos. São acontecimentos humanos, de fé, encarnados em confiança, levando a baixar o olhar para a tua fragilidade envolta de panos, amor, cheiros intensos e reconhecimento de quem está fora de toda a lógica.

Passando a ansiedade de dias anteriores, o teu nascimento revela oportunidade de rever toda a história pessoal. Como nascer de novo? Dirás a resposta daqui a uns tempos a Nicodemos, ou a cada um de nós, nesse desejo de nos deixarmos iluminar pela tua Vida, como estrelas que só podem brilhar mais forte em noite amada. Amar as entranhas da própria vida, reconhecendo que a miséria humana é lugar de Deus. Não para lá ficar, mas para resgatar todo e qualquer ser humano que se permita o amor.

Há dias, nesta comunidade, fiquei a ecoar com duas perguntas: Onde estás? e Quem és tu? Duas perguntas que nos levam a situar na existência a partir de ti. Nestes tempos, estamos muito influenciados por uma sociedade que nos obriga a despersonalizar em nome de aparências de força, de poder desmedido, de felicidade estonteante a todo o momento, a vidas glamorosas em constante comparação. Onde estará cada um nós quando olha para a tua fragilidade? Quem será cada um de nós quando se vê e sente amado pelo teu olhar? Estas respostas apenas poderão ser dadas no silêncio da contemplação e no gesto de amor ao próximo como a si mesmo.

Silêncio. Como qualquer bebé, recordas-nos a importância do silêncio para podermos acolher a Palavra com sentido. Não em ruídos incessantes, de músicas, notícias, publicações indiscriminadas em redes sociais que agridem, cospem, matam, humilham. Maria e José, teus pais, sabem bem o que isso é. A injustiça do mal-entendido acompanhou-te o desenvolvimento no útero. Essa injustiça ainda continua a fazer tanto dano. Por isso, a certeza do que tudo o que viveste e viverás é sinal claro de podermo-nos confiar a ti por cada momento da nossa vida. As respostas que buscaremos desde as nossas entranhas a esse ser e estar de nós mesmo, podem ser dadas esta noite no silêncio dos nossos corações para que, iluminadas, sejam adubo de existência renascida contigo e em ti.
Ieshu, Jesus, sei que a noite é de silêncio e recolhimento. Mas, como em cada ano, os pastores chegam até ti. Os pastores são os esquecidos que congregam todos os outros esquecidos e rejeitados deste mundo do qual queres pertencer. As respostas que cada um busca às tais perguntas de onde se está e quem se é, depois de iluminadas, tornam-se luz para quem não é visto, para quem é esquecido. As nossas vidas contigo tornam-se dádiva como tu. Dádiva de pão e de justiça. Tu, o Menino da Paz, és a resposta a todas as profecias que anunciam tempo novo. Por isso, este novo nascimento não nos pode deixar indiferentes às misérias e injustiças do mundo. Tantas pessoas em solidão, abandonadas por esse mundo. Tantas pessoas que não conseguem encontrar a alegria da festa, pela doença ou ausência de alguém querida. Tantas pessoas que este ano que passou perderam a vida, perderam gente e perderam bens de sua sobrevivência em incêndios criminosos. Provavelmente perderam a fé. Provavelmente seremos nós, em mãos abertas graças a fé em ti, que lhe daremos uma subtil luz na esperança de que possam retomar o caminho com ânimo.


Ieshu, Jesus, em Palavra renascida, em carne que não cansa de divinizar a humanidade, nesse teu silêncio de Menino, recorda-nos a delicadeza e autenticidade de criança. Assim, que as nossas respostas diante de ti se revistam de silêncio que acalma ruídos, de luz que ilumine todas as sombras, de palavra que dêem vida. Menino Deus, nesta noite e em todas as noites, não te canses de nascer em todos os corações dos que se inquietam, dos que amam e dos que pelo menos têm o desejo de desejar amar. Amén.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Em preparação para a beleza do Nascimento




[Em preparação para a beleza do Nascimento que tudo mudou, que tudo muda]

- Eu desenrasco-me, aqui estarei muito bem. Encontraste um lugar adequado, quente e tranquilo. Eu desenrasco-me, José, sou mulher para isto. Ao amanhecer ponho-te Jesus ao colo.
   As dores tinham começado. José colocou um pouco de palha sobre umas pedras secas, estendeu por cima uma manta e peles. Pedi-lhe a faca e uma bacia de água. Deitei-me. O coração latia com mais violência, os latidos ressoavam nas têmporas, como para fechar os olhos. Ninguém à minha volta, o pequeno estábulo estava fora, nos campos. Uma luz caía desde a abertura do tecto de canas e ramos. Era ele, o cometa, posto no céu como um luzeiro. Antes de nos separarmos, passei-lhe a mão pelo cabelo, sorrimo-nos. 

[Erri de Luca, “En nombre de la madre”, p. 85]  


sábado, 23 de dezembro de 2017

Todas as sombras são perspectiva



[Secção outros tons em ante-véspera de Natal] Todas as sombras são perspectiva. É tempo de dar voz à luz e ver de novo. Ou entreabrir, suavemente, cantos há muito fechados. O Menino amado amará, simplesmente amará... e iluminará.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Entrevista no Agora Nós - RTP1



[Coisas na vida de um padre] A conversa foi bonita e cheia de Vida. Nos bastidores, também houve boa gargalhada. É Tempo de Natal! Obrigado Tânia, Zé Pedro e toda a produção do Agora Nós. Aqui fica o link para a entrevista: https://www.rtp.pt/play/p3027/e322359/agora-nos/625889


Magnificat de Maria




Este coração de oliveira foi-me trazido com muito carinho e oração desde Belém da Judeia.

[Secção pensamentos soltos em Semana de Advento] Maria exulta de júbilo numa oração diariamente rezada por muitos. As orações que se repetem com frequência correm o perigo de serem recitadas em que se apaga o coração. O “de cor”, ou seja, “de coração”, torna-se mais “de mens”, ou seja, “de cabeça”, “de mente”. Por isso, é necessário voltar cada vez que se reza à profundidade do coração. Não é emotivismo, nem racionalismo, mas equilíbrio no centro do discernimento. Se aprofundarmos o Magnificat de Maria, a seguir ao encontro com Isabel, percebemos que o Menino vem para alterar a lógica do mundo, recordando o essencial: nenhum ser humano deve ter poder sobre outro, inspirando-se na misericórdia de Deus. Ainda ontem, o Papa Francisco no seu discurso natalício aos cardeais, bispos e restantes membros da Cúria romana, foi claro e assertivo na dimensão do serviço, abertura e adaptação da Cúria [Igreja toda] aos contextos (ou seja, viver o mistério da Encarnação), recordando com palavras fortes os perigos de “cancro de conluios” de poderes também em meios eclesiásticos e “o dos traidores da confiança ou os que se aproveitam da maternidade da Igreja, isto é, as pessoas que são cuidadosamente seleccionadas para dar maior vigor ao corpo e à reforma, mas – não compreendendo a alçada da sua responsabilidade – deixam-se corromper pela ambição ou a vanglória e, quando delicadamente são afastadas, auto-declaram-se falsamente mártires do sistema, do ‘Papa desinformado’, da ‘velha guarda’... em vez de recitar o ‘mea culpa’.” Esta oração de Maria não é uma beatice, é o ressaltar da força do Natal. O nascimento de quem nos vem mostrar que o poder que anula pessoas não é de Deus. O poder de Deus resgata a humanidade desde as entranhas, da compaixão, da misericórdia. Em Belém nascerá o Coração que amará e iluminará toda e qualquer escuridão. Basta querer recebê-lo e acolhê-lo.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Maria e Isabel encontram-se




[Secção pensamentos soltos em Semana de Advento] Duas mulheres encontram-se e confirmam a força da Vida de Deus. A Palavra está em Maria, o Silêncio em Isabel. O silêncio prepara o caminho assertivo da palavra, já exultando no primeiro encontro. Perceber o Natal nas entranhas, é deixar-se limpar de ruídos, dando-se tempo para se viver com verdade a força da existência, independentemente da condição biológica, sexual, social, intelectual, religiosa, cultural, económica, indo ao essencial da palavra límpida e autêntica que dá sempre vida para além de lógicas e leis antigas. Para Deus, no amor, nada é impossível.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Em nome da mãe




[Secção boas leituras em tempo de Advento] “En nombre de la madre” de Erri de Luca. Livro romanceado sobre Maria desde a Anunciação ao nascimento de Jesus. Como diz o autor no final da premissa: “‘Em nome do pai’: inaugura o sinal da cruz. Em nome da mãe inaugura o sinal da vida.” Muita pena o livro estar esgotado nas edições portuguesa e espanhola. Ah, o autor, estudioso de hebraico, afirma-se ateu. Bom dia, em semana da Senhora do Ó.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Aleatório com forma




[Coisas na vida de um padre] Passava por um dos corredores do Colégio. Reparei num fio perdido no chão. Tirei uma foto. Aqui está. O aleatório, ao jeito de nuvens, com forma. E tão própria para este tempo.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Breve oração antes de adormecer




Michelle Valberg

[Breve oração antes de adormecer]

Agradeço-Te o deserto que ajuda a despojar adereços
e chegar, também em dança, à alegria serena dos que, 
à Tua semelhança, 
curamos os corações atribulados, libertamos os oprimidos 
e anunciamos a salvação pelo testemunho em luz.


Peço-Te, guia-me nos caminhos de bem-dizer. 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Mais do que notas.




Lyle Krannichfeld

[Secção desabafos] Estive a lançar notas. Para mim, dos momentos mais dolorosos. Farto-me de dizer que as pessoas não são números e lá tenho de atribuir um a cada aluno(a). Custa, ainda mais por saber que não são as notas que caracterizam seja quem for. É importante avaliar, para aferir como vamos no caminho de humanidade e no que se deseja, quer, sonha para o futuro. Mas o sistema, esse abstracto, nunca conseguirá avaliar o carácter e a honra de alguém. Apenas a vida e o modo como cada pessoa se relaciona com o próximo e com a sociedade é que mostrarão a apreensão de sabedoria humana. 

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Lã de ovelha




Michael Buholzer/reuters

[Secção pensamentos soltos, a pensar na passagem evangélica de hoje] A lã da ovelha perdida e rejeitada é mais agreste [do que a das que sempre se sentiram encontradas, estando, sem darem conta, perdidas no seu orgulho e na sua ingratidão] porém, aquece como o perdão.

Um presente





[Coisas na vida de um padre] “P. Paulo, temos um presente para si.”, disseram-me as “meninas das pochetes”! (A piada está no nome de turma que ficou desde há dois anos depois de, na brincadeira, as ter baptizado assim por estarem todas de pochete.) [As letras do “obrigada” são elas mesmas.]