quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Em Exercícios [Até breve!]



[Coisas na vida de um padre, com secção letras verdes] É tempo de silêncio com Deus. Fecho para balanço, vivendo escuta, durante uma semana. Rezarei o abecedário de forma especial. Conto também com a oração, a quem é de rezar, com o pensamento, a quem assim mais se ajusta. Até breve.

Viagem a Cabo Verde




[Coisas na vida de um padre] Amigas e amigos leitores daqui d’oinsecto, um abraço. Nos últimos tempos, de 12 a 21 deste mês, estive mais silencioso. Fui a Cabo Verde, mais especificamente Mindelo, Ilha de S. Vicente, orientar formações e algumas celebrações. Logo à chegada assisti à abertura do Carnaval, com as danças dos Mandingas com som vibrante que contagia. Foi mesmo bom sinal para os dias que conheci a terra da maravilhosa Cesária Évora. 



As formações foram durante a manhã, tarde e noite, com grupos diferentes. A exigência atenuava-se com a atenção diante o gosto de saber que percebia em cada olhar. Falei dos temas que me apaixonam: luz, sombra, movimento, proximidade da espiritualidade e de Deus. Numa capela, deparei-me com esta imagem de Maria com Jesus no regaço. Senti luz na sombra de esquemas mentais sobre Deus, onde a encarnação, a entrada de Deus no concreto da história, ganha sentido. A proximidade de Deus vive(-se) na simplicidade.



Foram mesmo dias intensos de partilha, formações, conversas, escuta, olhares, celebrações, conhecimento de terras novas. Muitas vezes ouvi que as pessoas deste país eram de imenso acolhimento. Nas duas ilhas que estive, São Vicente e Santo Antão, confirmei de forma vincada: são maravilhosamente acolhedoras. O Monte Cara, uma das imagens de marca de Mindelo em conjunto com a beleza do azul da Laginha, é mesmo revelador de rostos que falam de vida. Fica a “sôdade” e muito para digerir destes dias.








quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Violência e Paternalismo



[Secção pensamentos soltos sobre violência e paternalismo] Há tempos uma amiga comentava que deveríamos ter alguns dias de tristeza por ano. Concentrada ou espalhada em dias, é necessário dar tempo e espaço à tristeza. É o que me acontece. Atenção, estar triste não significa estar com falta de esperança. Estou triste por, apesar das inúmeras maravilhas, naturais e humanas, que encontramos no mundo, falta tanto amor-próprio que desemboca em falta de empatia, respeito e cuidado com o outro. 

Há cansaço generalizado, ficando-se tudo pela superficialidade tanto do choque emocional, como no entretenimento impeditivo de grandes e necessárias reflexões pessoais e sociais. São notórias as fobias a aumentar, levando a violências de brutalidade assassina de dignidade e de vidas. As guerras não são só nacionais ou internacionais. As guerras começam nos conflitos e tensões, que todos sem excepção vivemos. O choque da existência do outro começa desde cedo. O instinto de sobrevivência está lá. Mesmo sendo seres de convivência, o outro, num primeiro momento, é estranho. A aprendizagem consiste em descobrir a diferença e saber integrá-la. Não nos enganemos: não é fácil. No entanto, é imprescindível esse caminho para sair de auto-centramento e crescer em maturidade. É exigente este caminho, onde se vão deixando as pulsões de criança, de adolescente, levando à adultez nos actos e palavras. Para este crescimento acontecer é fundamental a autoridade. Não confundir com autoritarismo. A figura do sábio, do líder, é aquele que fez o caminho interior de maturidade e orienta para a liberdade. Não confundir com libertinagem. O que acontece na actualidade é a falta de líderes, o que faz crescer o autoritarismo que, entre outras coisas, resvala em paternalismo e libertinagem. Começando por esta última, a libertinagem é reacção a toda e qualquer sensação de opressão. Poderia dizer que é passo de desejo de sentir liberdade, mas disparatando energia de crescimento em birra. O problema são as que desembocam em tal violência que leva à perda da razão pelas quais se está a a manifestar. Partir tudo em nome do fim da violência, só gera mais violência. Criticar agressivamente a agressividade política ou religiosa, só gera mais agressividade. O autoritarismo acontece quando alguém aproveita o crescendo de violência e agressividade. Infelizmente, estando rodeado de sombra e mais a desejando em nome do poder, ainda faz aumentar mais as fobias gerando mais violência e agressividade. Depois, paternalisticamente, censura, corta, anula, todo o tipo de crítica. 

Defendo então uma passividade ingénua ou masoquista? Nem pensar. Então, a meu ver, o que é preciso? 1. Amor-próprio, alicerçado na autenticidade e honestidade, em caminho de consciência dos conflitos/tensões pessoais a serem integrados ou dissipados. Diminuindo em especial a projecção em bodes expiatórios do “mau” que o outro é. 2. Tempo de escuta pessoal, de modo a perceber quais são os conflitos/tensões pessoais. 3. Saber reconhecer a fragilidade, de modo a pedir ajuda no caminho da estabilidade interior, permitindo-me recuperar forças para poder sensatamente dar respostas activas e não reactivas. 


“Dar a outra face” não é uma resposta masoquista de continuidade da violência, é dar outra perspectiva que anule a violência. A violência e o paternalismo não são, nem nunca serão respostas de vida. Quanto muito, e ainda assim tenho muitas dúvidas, de sobrevivência. Se queremos humanizar, cada um, cada uma de nós necessita crescer em maturidade, levando a desenvolver empatia, respeito e cuidado com o outro. Estes desenvolvimentos, começando desde as relações quotidianas expandirá para o mundo. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Breve oração




[Breve oração ao adormecer]

Agradeço-Te
o desajustado, o estranho, o sem-sentido,
mesmo que não compreenda em primeiro momento, é sempre oportunidade de aprender.

Peço-Te
capacidade de queimar o que não interessa e daí dar luz.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Rezar a Vida - 2.ª edição




[Boas notícias sobre “Rezar a Vida”] Foi o presente de Natal, mas partilho em dia de Reis: “Rezar a Vida” chegou à segunda edição. Estou muito agradecido por todas as palavras que tenho recebido com ecos do livro.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Diário [Gráfico]




[Secção boas leituras em dia do Santíssimo Nome de Jesus] Tem sido, ao jeito do final de cada dia da criação, muito bom entrar nas páginas do “Diário [Gráfico] - A experiência de Deus na vida diária” de Nuno Branco Sj. Gosto muito dos seus desenhos. Inspiram-me no encontro com o diferente que marca a relação com Deus.


terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Autenticidade para 2020



MAM

[Secção pensamentos breves em véspera de início de mais uma volta ao Sol] Agradeço tudo o vivido até aqui. Não significa ver tudo como bom ou de tudo gostar, mas permitir-me continuar o caminho de conversão na cura da memória e no reconhecimento e aplicação dos dons confiados. Sinto silêncio nos propósitos. Ainda assim, há um que lateja forte: profunda autenticidade nos gestos e palavras. O resto é elevar Deus rodeado de luz terna e suave. A quem por aqui passa e se detém, desejo que 2020 seja pleno de autenticidade.


segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Cores para curar a agressividade




[Secção pensamentos soltos sobre cores no combate à agressividade] Quando há umas semanas passei pelo Thyssen, este foi um dos quadros onde me detive: “Expansão da luz (Centrífuga e Centrípeta)” de Gino Severini. Recordei-o há pouco durante a minha oração. Trazia ao de cima o desejo de mais luz para o nosso mundo. Em tempos com maior informação, a quantidade de obscuridade, seja em “fake news”, em agressividade nos comentários e nas relações, em atentados religiosos em gestos e palavras, tem muita força. Por isso, é claro que a luz tem de nos atravessar as almas pessoal e social, permitindo a expansão da cor na sua diversidade. A minha experiência dos últimos tempos é a de que mais pessoas estão interessadas na espiritualidade como caminho de encontro. Há desejo de busca de Paz. Isso acontece quando me abro ao conhecimento amplo do outro. Usando uma expressão de Sto. Inácio, sair do meu “amor, querer e interesse” não é apenas uma abnegação infantil de deixar de fazer o que gosto ou tenho vontade. É permitir-me sair da minha visão e vontade redutoras que impeçam a expansão da luz para uma maior humanização. A agressividade é sinal de fechamento no amor, no querer e interesse. Quem agride está em trauma e, em vez de avançar para a cura desse trauma, defende-se atacando. Falta-lhe cor. Falta-lhe cura. Falta-lhe amor. Daí a  minha insistência da travessia da luz nas sombras. Se isso não acontece na vida de cada um, haverá fechamento. Natal e Páscoa vão de mãos dadas. Cristo veio trazer luz ao mundo, dando-lhe a cor divina e expansão de unidade na diversidade. 

domingo, 29 de dezembro de 2019

[Sagrada] Família



[Secção pensamentos soltos em dia da Sagrada Família] Do básico: somos seres de família. Independentemente do tipo de família, esta realidade caracteriza-nos, sendo também a base da sociedade. É desde as relações iniciais que se começam a estruturar personalidades: do melhor ao pior. Da profundidade do equilíbrio em amor, à desestruturação que leva a projecções de idealismos sobre os cônjuges e filhos, a complexidade da família deveria ser pensada a fundo pela sociedade. Recordo que ninguém tem avó, avô, mãe, pai, marido, mulher, filhos, netos. É-se avó ou avô, mãe ou pai, marido ou esposa, filha ou filho, neto ou neta. Isto porque enquanto humanos não somos posse de ninguém. A família deve ser o garante da liberdade, sem cobranças, apenas a viver a responsabilidade de ajuda no crescimento mútuo alicerçado em respeito. Não sendo as crianças adultos em miniatura ou projecções das idealizações (ou frustrações) dos pais, também os idosos não são seres descartáveis como um peso. A responsabilidade mútua significa saber acolher a força e a debilidade, onde cada pessoa, em profundo amor-próprio, tem consciência do seu lugar na relação sem impor. Porque deve ser algo a reflectir em sociedade? Muito do cansaço das famílias poderia ser atenuado se fôssemos mais comunidade de entre-ajuda, de acolhimento, de modo particular nas situações mais duras, tanto a nível económico, como social. Para isto necessitávamos todos de parar e fazer um bom exame de consciência: agradecer as luzes, no tanto bem que existe na família, e reconhecer as sombras, percebendo o que há a fazer para iluminá-las, em caminho de perdão e reconciliação possíveis. Se em qualquer momento surgir a necessidade de distância e de pedido de ajuda, que se consiga coragem para dar esses passos de liberdade. E que haja cada vez mais gente pronta a acolher e orientar para a profundidade do amor. Todos ganharemos. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Mais uma foto do mar



[Secção coisas de nada] Mais uma foto do mar. Sempre que o vejo apetece ficar com parte dele na alma. Registo uma foto. Mais uma foto do mar. No entanto, nesta recordei a meditação do oceano, uma das da tradição hesicasta (a palavra significa paz interior, o que os Padres do deserto no início do cristianismo buscavam: a paz interior e assim davam lugar ao Espírito). Respirar fundo e fazer caminho para também ser como o oceano: calmo, imenso, profundo, ainda que à superfície tudo possa revolver em ondas de temporal. Só assim, nessa calma, se podem dar passos a decisões sensatas mesmo em pleno turbilhão de vida. Talvez se tenham de tirar muitas fotos. Estar muitas vezes diante do mar. Até que um dia, por se dar mais um passo no caminho interior, já não seja necessária mais uma foto do mar.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Porta dos Fundos - a polémica



[Secção pensamentos soltos, um pouco mais longos que o tema assim pede] Fui ver o especial de Natal da "Porta dos Fundos”. Afinal, além dos abaixo-assinados e ameaças de crime público, atiraram “cocktails molotov” na sede de produção. Calma. Vou repetir: atiraram “cocktails molotov” na sede de produção. Já li sobre o tema, mas para escrever fui ver o que despontou tal raiva e ódio. Inevitavelmente recordei o dia das mortes no Charlie Hebdo. Estava em Paris. Nessa noite passei pela Republique e sentia-se a dor contra a religião aumentar. Depois participei em muitas das manifestações pelo fim da violência. Significa que aceitava ou aceito que vale tudo no humor ou na vida? Não. Significa que não compactuo com qualquer tipo de violência seja em nome ou seja em defesa de Deus. Assim, vamos por partes:

Considero-me uma pessoa com humor e, na verdade, nem um momento tive vontade de rir durante o “especial de Natal”. Quando se conhece um pouco mais a fundo o sentido das Escrituras, da Religião, é preciso saber fazer humor com as mesmas. É possível, porque Deus de todo que não tem falta de humor. Do bom humor, porque o há mau. Já me ri muito com alguns vídeos da Porta dos Fundos, alguns religiosos, mas desta vez achei demasiado básico. Senti-me ofendido na fé? Zero. Tão fora são as personagens que, tirando os nomes, em nada tocam as verdadeiras pessoas que querem representar. 

Quem já foi gozado, sabe bem o quanto de ignorância pode estar em quem goza. Claro que o gozo, o sarcasmo, a burla fazem muito mal. Faz em quem está mais frágil, fraco, e deixa-se influenciar por isso. Nalguns casos, porque precisamente não tem forças. Noutros, porque há medo ou “telhados de vidro” a serem desmascarados. Não sejamos, nós religiosos, ingénuos e puritanos: o péssimo uso e abuso da religião matou e mata tanto na dignidade, como literalmente. Sabemos bem: reacção gera reacção. 

Então que fazer? Curiosamente conhecer um mais da mensagem de Jesus, que agora estamos a celebrar o nascimento. A grande mensagem, a do Amor, pode ser interpretada desta forma: “cresce e conhece de tal maneira a humanidade que à reacção darás lugar à acção”. A acção, com base no Amor, é a de amar os inimigos e dar outra face, outra perspectiva. Poderá ser a de tomar consciência do porquê do gozo e do sarcasmo, ou seja, de que os que se dizem muito cristãos enrolaram-se com o poder, desejando anular tudo o que não seja segundo os seus padrões de verdade e de moral, sem se dar conta da brutalidade da hipocrisia que acontece em tantas situações da relação entre palavra e gesto. Isso dói muito mais, tanto consciente como inconscientemente, do que se imagina. Dar esta perspectiva é extremamente exigente, porque implica o reconhecimento de que cada um de nós necessita de conversão, de modo a escutar que há muito mal com aparência de bem no espiritual, piedoso, moralista. 


Se o “rasgar das vestiduras” da actualidade é compactuar com a violência, então o farisaísmo continua a latejar falta de fé. Deus tem “costas largas”. Se assim não fosse, não encarnaria, não anunciaria a exigência do amor aos inimigos, não morreria na cruz. Uma das grandes implicações da fé é a da reflexão com honestidade intelectual, moral, humana. Façamo-la como pessoas adultas. De certeza que muito mudará em todos nós. Continuação de boa celebração do Natal d’Aquele que veio dar outra perspectiva ao mundo.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Em dia de Natal: Dois Papas




[Secção pensamentos soltos em dia de Natal] Fazer um longo-curso de autocarro dá para pensar, rezar, escrever, dormir, ver um filme, responder mensagens. Os meus últimos Natais sempre foram assim, em viagem. Faz-me muito sentido: o nascer é dinâmico, é movimento, é abertura para caminhos de expansão. Deus, em Natal, continua a saída de si e integrar a humanidade, com tudo, excepto o que não seja amor límpido. Manifesta-se, isso sim, onde quer. Acabo de ver “Dois Papas” de Fernando Meirelles. Deus, pelo menos para mim, manifestou-se. Que filme tão interessante com belíssimas interpretações. O que mais me ressalta é a beleza de se ser humano, para além das vestes e funções. A história pessoal marcada pela densidade das escolhas, em contextos de grande complexidade. Quando se abrange a visão da realidade reconhece-se o porquê de evitar julgamentos rápidos e a possibilidade da complementariedade na(s) mudança(s). O que a Igreja precisa é de continuar a viver Natal: a colaboração que nos leva a Deus. Ele, apesar de tudo, foi o primeiro a querer colaborar connosco. É o que celebramos hoje: céu e terra profundamente unidos. É o que somos convidados a viver: a mudança que este nascer provocou e continua a provocar em profundo amor. Sigo na viagem por esse caminho.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Vésperas de Natal



[Breve oração em letras verdes nas vésperas de santo, feliz, bom, belo Natal] É o que desejo a quem por aqui passa, se detém, partilha: Vida, muita Vida.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Era o que faltava - Rádio Comercial



[Coisas na vida de um padre com secção “Rezar a Vida”] Foi a primeira longa entrevista que dei numa rádio. O ambiente em que o som exterior é abafado para centrar as vozes, levando a grande intimismo. A Ana Martins e o Rui Maria Pêgo foram de grande amizade e escuta. Houve emoção várias vezes, juntando ao bom humor. Sinto-me muito agradecido aos dois e à Rádio Comercial. Aqui fica o link para o podcast, episódio 70 (curiosidade, o 7 é o número da plenitude): https://radiocomercial.iol.pt/player/era-o-que-faltava

Agência Ecclesia




[Coisas na vida de um padre] De hoje até sexta estarei a fazer breves comentários natalícios no programa da Agência Ecclesia na Antena 1. Aqui fica um pequeno apanhado.

sábado, 21 de dezembro de 2019

Visitas de luz



[Secção letras verdes] Maria, depois de receber a notícia do Anjo e dizer sim, visita a sua prima Isabel. “A Deus nada é impossível”. Hoje acontece solstício.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Boa recordação



[Coisas na vida de um padre] Chegam boas recordações de um dia bonito. Celebrar a força do amor de Deus no baptismo, mostrando que somos suportes na ajuda do crescimento na fé, esperança e caridade. Paulo a segurar o pequeno Pedro depois de o baptizar. É Vida a acontecer.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

História da Salvação




[Secção pensamentos soltos] Começamos a novena até ao Natal, com a belíssima passagem do Evangelho de S. Mateus com os nomes de quarenta e duas gerações. Nomes que são pessoas. Entre muitos outras, esta passagem mostra como a história da Salvação é caminho de desfazer as ideias de pureza que muitas vezes teima em habitar no modo como se acha que tem de ser a relação com Deus. Como se alguns fossem mais dignos que outros. Não. A dignidade não se mede por castas de pureza, mas pela força de Deus que deseja relacionar-se com toda e qualquer pessoa. O texto mostra-nos claramente: “David, da mulher de Urias, gerou Salomão”. David assassino e adúltero integra a história da salvação. Por mais que doa, ninguém é rejeitado. Se o texto nos coloca diante desta realidade, significa que todos somos chamados a viver caminho de (re)encontro. É caminho exigente para libertarmo-nos do mal que fizemos ou fazemos. Apenas está fora quem quer esta fora, porque Deus não se impõe. Deus espera pacientemente o momento da liberdade de cada pessoa para nascer. Isso nada tem que ver com (im)pureza. Isso é Amor. 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Pressa(s)



[Secção coisas de nada] Tirei esta fotografia sem querer. Ao vê-la, nem sei porquê, lembrei-me dos primeiros tempos de internet. Até que uma página abrisse, dava para ir preparar o lanche, comer, e ainda estava à espera. Tranquilo. Hoje, caso demore alguns milésimos de segundos, começa a brotar a agitação, os nervos, o stress, “ahhhhhhhhhhhhhhh”. D-E-S-E-S-P-E-R-O! É curioso como a tecnologia foi alterando o modo como nos ajustamos ao tempo. A rapidez da recepção/envio transforma-se em rapidez de vida. Reconheço que para muito é maravilhoso. No entanto, na existência é preciso diminuir a(s) pressa(s). Dar tempo para saborear, para que se consiga distinguir realidades a manter e a separar. Por vezes, surge a exigência de sermos produtos acabados e perfeitos. Pois, não somos nem produtos, nem acabados, nem perfeitos. Estamos assim, desfocados e desajustados. Então, dar tempo, dar-se tempo de caminho, significa ir conhecendo a existência nas luzes e nas sombras até chegar a esse momento em que tudo será ajustado na profunda colaboração de vida uns com os outros. 

domingo, 15 de dezembro de 2019

Os profetas são fundamentais




Foto tirada em Paris numa manifestação que participei contra o terrorismo: 
“ateus e crentes - Amor e Fraternidade contra o ódio e o terrorismo”


[Secção pensamentos soltos] Enquanto não houver plenitude na humanidade os profetas são fundamentais. No entanto, para sê-lo é preciso humildade. Afinal, ser denunciador de injustiça e anunciador de Vida é de grande exigência. Há que estar livre, profundamente livre de toda e qualquer ideologia, de modo que a sua palavra e o seu gesto sejam límpidos e autênticos. Reconhece-se não como o messias ou o salvador, mas como intermediário, tendo capacidade de escutar a realidade dos tempos e, com verdade, promover o sentido de comunidade, no respeito pelos que menos têm. É também voz daqueles e daquelas que a têm abafada pela tristeza do abandono e da solidão e é capaz de amar as pessoas dando-lhes o sentido da fé e da esperança.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Artigo DN





[Coisas na vida de um padre com secção “Rezar a Vida”] Depois da boa conversa com Maria João Caetano, escreveu este sentido artigo. Retoma o que Sónia Morais Santos escreveu há cinco anos. Agradeço muito a amizade de ambas! Tanto aconteceu desde aí. Tanto acontece nestes últimos dias. Bem, dou-me conta de que o artigo é “premium”. Partilho na mesma o link para quem possa ler na totalidade: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/13-dez-2019/o-padre-que-deixou-uma-companhia-aerea-pela-companhia-de-jesus-11611294.html

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Tempo de transformar



[Secção pensamentos soltos] Os textos dos profetas, em especial neste tempo de Advento, são de grande beleza. Emocionei-me a ouvir a passagem de Isaías para o dia de hoje. Começa assim: “Sou Eu, o Senhor, teu Deus, que te seguro pela mão direita e te digo: ‘Não temas, Eu venho em teu auxílio’. Não temas, pobre verme de Jacob.” Esta é uma passagem que me acompanha há muito. Passei da leitura infantilizadora, para a existencial. Deus liberta os medos. Deus deseja o crescimento de cada pessoa. E ser “pobre verme”, na sequência da leitura existencial, significa a pobreza de estar livre de tudo o que impede de remover a terra e assim prepará-la para as sementes de vida, os dons, as qualidades que somos chamados a pôr a render. O verme trabalha a terra no silêncio, no escondimento. Noutra possibilidade de perceber o verme, também ele se torna casulo para se transformar num ser alado. Por isso ser também fundamental o recolhimento para o trabalho interior, de entranhas, de profunda verdade connosco próprios e assim encontrar caminho de liberdade. Pelo menos 5 minutos por dia de encontro pessoal com o silêncio e com Deus toda a gente tem. Nesses 5 minutos, basta agradecer a terra sagrada que somos, nomear as sementes a brotar vida e transformarmo-nos em seres divinos.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

No silêncio do quarto



[Secção letras verdes] Em dias intensos, sentir os pés na terra e dirigir o coração a Deus.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Entrevista por Cristina Ferreira




[Coisas na vida de um padre com secção “Rezar a Vida”] Aqui fica o link para a entrevista por Cristina Ferreira. Agradeço todas as mensagens e comentários. Vou tentar responder a todos. Peço desde já desculpa se saltar alguém. Não me é novo o impacto da presença na televisão, mas hoje apercebi-me um pouco mais disso mesmo. Mas, o que me solta alguns sorrisos é ver os rostos no antes e no depois das entrevistas. Ah, e o impressionante silêncio de atenção no estúdio. Continuo a dizer: nota-se a sede de espiritualidade nos dias de hoje.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

domingo, 8 de dezembro de 2019

"Onde estás?"




[Secção pensamentos soltos] “Onde estás?” Volta-me a ressoar a pergunta divina no livro do Génesis. Estes tempos, um pouco pelo mundo, em particular por Portugal, têm revelado cansaço. Não sou propriamente pessimista, tampouco um alienado que pode colocar tudo num maravilhamento irreal. Se por um lado agradeço todas as possibilidades humanas que levam ao melhor conforto de vida, por outro, dou-me conta do cansaço humano a crescer. Há cansaço de vida, na busca de sentido e isso brota, por exemplo, do cansaço nos professores, nos médicos, nos enfermeiros, nos polícias, em todos os que são sujeitos a decisões de gabinetes sem conhecer o terreno onde há embates com a fragilidade da realidade. 

Ao dar-se o afastamento do ser humano de Deus em nome da emancipação, no desejo de assumir o papel divino simbolicamente representado no fruto comido, a nudez, que antes era sinal de liberdade, torna-se vergonha. “Onde estás?” A pergunta recorda que Deus não se cansa de buscar. De buscar-nos, a cada um de nós, independentemente de qualquer cansaço. É o resgate da salvação, que na sua raíz etimológica implica sanação plena de todas as dimensões. É a pergunta que abre espaço à grande travessia que o ser humano, cada um de nós, tem de fazer para encontrar-se e encontrar o outro com respeito pela colaboração a acontecer. Paradoxalmente, o caminho é o do despojamento, do regresso à nudez como libertação de todas as ideologias, políticas, sociais e religiosas, que impedem o encontro e o respeito pelo outro. Essa travessia é dura e exigente, sendo explicada, explicitada, revelada em muitos mitos como o da expulsão do paraíso. Não é um castigo, mas uma necessidade para tomar consciência da quantidade de grilhões que nos impedem a divindade. A expulsão é com desejo de regresso.


“Onde estás?” Estamos em tempos de sair de preconceitos religiosos e dar resposta a Deus: “aqui estou, como sou. Apesar do medo, da revolta, do cansaço, de querer ainda assim controlar tudo, aqui estou, como sou.” É tempo de abandono. Por outras palavras, de fé e de esperança. Sendo a resposta individual, a autenticidade do que for dito, terá sempre efeitos para os outros. Do melhor ao pior. Espero sempre pelo melhor: o Amor.

Tinto no Branco: Festival literário



[Coisas na vida de um padre] Estive à conversa com Frei Bento Domingues no Festival Literário “Tinto no Branco”, em Viseu. Foi uma dupla estreia na minha vida: participar num Festival Literário e, como jesuíta, estar em boa conversa com um dominicano. Haja “Vinho e Religião” para promover encontros. Fica aqui o artigo de Maria João Costa na Renascença sobre o encontro.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Rezar a Vida em Braga



[Secção “Rezar a Vida”] Tanto a agradecer, mais uma vez, pela bonita apresentação em Braga, pela Bruna e pelo Rui. Entre algumas gargalhadas e momentos de escuta atenta, foi muito bom ouvir estes dois Amigos a falar da beleza, simplicidade e profundidade do livro. É muita emoção para poucos dias. Haja fé na Amizade.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Candeeiro transformado



[Secção coisas de nada] É um candeeiro banal. Transformou-se em único para a fotografia. Há sempre algo de especial quando se detém o olhar. Contemplar será o verbo. Sai-se da lógica do ridículo ou do desinteressante, para tentar perceber outra perspectiva. Nem sempre é fácil. Por vezes duro e muito exigente, mas possível, dando luz à escuridão.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

domingo, 1 de dezembro de 2019

Perfil




Pedro Sadio


[Secção perfil] Vivo tempo novo, na continuidade do caminho de busca de Deus. Assim, tempo de nova foto de perfil, no amanhecer de Advento. Tirada entre boas conversas com o fotógrafo Pedro Sadio. Imagens e histórias, com partilha de bons encontros… a ligar céu e terra. A vida acontece.

sábado, 30 de novembro de 2019

Agradecer [III]




[Secção “Rezar a Vida”] Agradecer. Continua a ser o verbo também para o dia de hoje, depois da apresentação mais a norte. A beleza da autenticidade nas palavras, vidas, seres da Helena e do Nuno ainda ecoam em mim... e, acredito, em quem lá esteve. São mesmo tempos de agradecer. A fé desafia... e muito!

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Agradecer [II]



João Delicado


[Secção “Rezar a Vida”] Agradecer. Continua a ser o verbo. Ainda não consigo verbalizar muito bem o final de tarde de dia 27. Foram muito bonitas e densas as palavras da Sílvia, da Ana Rita e do Henrique. Depois, sentir diante o carinho dos meus pais e a amizade de companheiros e tantos amigos. É avassalador. Há pouco, no silêncio do santuário de Fátima, agradecia e pedia a Deus para me guiar. Amanhã, dia 30, há mais na fnac do Marshopping, pelas 16h30. Que dirão Helena Teixeira da Silva e Nuno Baltazar sobre o “Rezar a Vida”? Estou muito curioso. Entretanto partilho o que o Henrique Raposo escreveu aqui.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Agradecer



[Secção letras verdes] Sendo pouco, muito pouco, no muito a agradecer, é o que de momento partilho sobre ontem.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Vésperas de dia bonito




Zeferino,scj

[Seccão pensamentos soltos com “Rezar a Vida”] Tenho vivido muito o presente. Sinto isso nas minhas orações, no meu quotidiano, por exemplo. Talvez ajude viver na Casa da Torre. Casa que aviva a beleza e a força do silêncio na sua importância em deixar-mo-nos habitar pelo Espírito. Há dias perguntavam-me se estava nervoso com a chegada do dia 27. Não. Afinal, ainda havia tanto até lá. Hoje, em vésperas de um dia bonito, a resposta é outra. Sim. É o presente a acontecer. Ainda mais quando já me começam a chegar bonitos e emocionantes comentários sobre o impacto do livro a quem o está a ler. O meu livro é aquele que toquei por primeira vez e está comigo. O “Rezar a Vida” já tem vida própria e faz caminho, atrevo-me a dizer, divino. Aproximar o amanhã, o dia 27, com a primeira apresentação, dá então o nervoso miudinho. Tenho tanto a agradecer. A caneta verde já está preparada.