quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

Corpo



Elliott Erwitt


[Secção desabafos] Uma das coisas que me ajuda no estudo sobre o Corpo é percebê-lo, no fundo perceber-me, como um todo. Isto vai crescendo na medida em que descubro algo novo [há sempre algo novo a descobrir sobre o Corpo]. Dá-me tristeza quando, ao ler ou escutar sobre este tema, noto que é visto imediatamente como pecaminoso, em vista ao “santo propósito” de encontro com a pureza, ou ao ser-se imaculado diante de Deus. Temas ligados com a sexualidade, em específico com a genitalidade, deveriam ser tratados como um todo e não sob, quase em exclusivo, a capa do bem e do mal. Quando isso acontece, há o sério perigo de voltar a algo que Jesus cortou de forma radical: a distinção entre puros e impuros. A obsessão nesta via do bem e do mal em relação ao corpo acaba por ser muitas vezes reveladora de frustração, de medo, de vergonha, até mesmo de nojo do corpo… ou seja, de si próprio [admitir isto é outra história]. Durante muito tempo, os puros eram os especiais, aqueles que tinham primazia na relação com Deus, estando a um nível superior de intelecto, de espiritualidade, de moral, enquanto os impuros, esses seres carnais, muitos eram escravos dos “puros”, estavam, já se vê, num nível inferior. Isso foi uma heresia, conhecida por gnosticismo, bastante combatida nos primeiros tempos do Cristianismo. Pergunto-me: até que ponto nalgumas obsessões não se vive actualmente um neo-gnosticismo? Recordo que a parábola do juízo final dá atenção ao corpo, sim, mas em nada sobre questões sexuais, apenas na importância que se deu ao outro: no alimentar, no tirar a sede, no vestir (não por razões pudicas, mas de dignidade e protecção), no visitar, no estar… [Cf. Mt 25, 31-46]. Enfim, desabafos…

7 billion others



[Secção homenagear] Ajuda termos amigas [e especiais, sim] em comum. Também a imensa vontade em conversar muito mais do que aquela vez, em noite familiar, junto ao mar algarvio. Desde aí tenho acompanhado o seu trabalho, na busca de melhorar o mundo, no concreto, na acção, pelo humano, pelo verde e pelo afecto que põe nas coisas que faz. A próxima já está a ser preparada, com abertura no dia 8 de Novembro: a exposição sobre os “7 billion others”, no Museu da Eletricidade, em Lisboa. Ana Rita Ramos, obrigado pela tua força em tornares o mundo mais humano. Abraço demorado, com saudades. 


[Mais sobre o projecto: http://www.7billionothers.org/pt/lisboa]

[Mais sobre o trabalho da Ana Rita: https://www.facebook.com/haveanicedayconteudoseditoriais]


quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Vida(s)




“Paulo, são tantas as vezes que pergunto o que é a vida. Passei fronteiras, fugitivo da morte certa. Lembro-me em cada dia da minha família, de como seria se voltasse. Será isso viver? Será o recordar viver? Há dias que é uma merda. Sim, claro, estou a ser apoiado como refugiado, agradeço. Mas há dias que é uma merda. Eles estão lá e eu fugi. Que opção teria? Morrer? Aqui morro aos pedaços.” Regresso a casa, com as palavras a ecoar. Observo o rosto de cada pessoa no metro. Humedecem-me os olhos. Eu próprio sinto-me ridículo. Acendo a vela e vem-me a vontade de gritar muito… muito. Que fizemos? Que fazemos, nós humanos? Sim, há dias que é uma merda. A merda do poder. E vêm as ânsias de liberdade. E junto mais um nome à lista por quem penso, rezo e entrego a Deus. 

Asas




Jodi Cobb

[Secção outros tons]

As asas agitam-se
em cada leitura

de vida, de conto
ou saudade

Basta o perfume,
e voo desvelando.


Inveja, por exemplo.



Ali Hamed Haghdoust


São algumas as vezes que a inveja aflora em mim. Já a senti bastante forte, por exemplo, quando há uns anos um companheiro foi convidado para dar Exercícios Espirituais e eu não. Mais uma vez foi difícil admitir estar a sentir inveja. Claro que, mais ou menos de forma inconsciente, o meu ego ferido dizia que o mal era dos outros que não viam o bom que eu era. Ah, pois, engano meu. Anos depois apercebi-me que, de facto, não estava preparado. Continuo a trabalhar a liberdade interior: admitindo o sentimento, seja de inveja, raiva, ódio, ciúme, de modo a impedir que me controlem. É isso, sigo em caminho… sobretudo para não me enganar a mim próprio. ;)

segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

"Messieur-dame on ferme !" [Rituais de Paris]




[Coisas do quotidiano em Paris] Estávamos de conversa, acompanhados pelo Sol de Outono que fazia avivar as cores de fogo e a vontade de passear. Gente e gente por ali, à volta do lago, entre filhos, pais, avós, junto com namoros (fugazes) e leituras final de tarde. Mesmo final… pois começou o ritual de adormecer as folhas por cair, chamando à movimentação geral de novos andamentos: “Messieurs-dame on ferme !”, cantado ao jeito de anúncio do programa de espectáculo de l’Ópera Garnier ou Bastille. Aqui, apenas será a orquestra do vento e o bailado das árvores… em exclusivo para os seres da noite. Esses que despertam depois de todos terem saído.

Diálogo de Corpo


Martin Gallie

[Secção outros tons] Novo momento de encontro. Outro diálogo onde as palavras são gestos, o tacto o principal comunicador. Nessa conversa de corpo, regista-se verdade e interrogações. Daí o silêncio necessário. No final, a serenidade. Não havendo respostas imediatas, há corpo que se deixa ser quem é: uno, amado e amante.


domingo, 19 de Outubro de 2014

Entre pensar, quebra de ídolos e misericórdia divina



Jimmi Chin


Não sei se sou exemplo. Sei, sim, que a minha responsabilidade social vai crescendo. A velocidade? Depende dos dias… e, pelo que percebo, dos posts. ;) Fora de brincadeiras, isto de pensar tem que se lhe diga. E pensar a partir da fé, ui, nem se fala. E pensar a partir da fé estando integrado (e muito contente por isso) numa instituição como a Igreja, então é o extremo do muito a dizer, ou, por vezes, ter de ficar calado, naquele silêncio de quem observa e só fala quando chega o momento certo (ou nem isso). Às vezes são contorcionismos interiores, a revolver entranhas. Apesar de tudo, dá muito gozo. Uma das coisas que me ajudou foi perceber que não ando com Deus no bolso. Em tempos achei que sim, que era tão fácil afirmá-lo ao ponto de ser incompreensível como é que havia alguém que não acreditasse n’Ele. Pois… até chegarem as crises de fé, sim, como jesuíta, e desmontarem-se ídolos tão subtis como a “deusa doutrina”, o “deus moralista”, o “deus que faz acepção de pessoas”. Esses momentos são terríveis, duros… e profundamente libertadores. E isto não leva a um laxismo zen, em que tudo vale. Leva à certeza de que absoluto só Deus, que é lento na ira e pleno de misericórdia.

sábado, 18 de Outubro de 2014

39 anos [de sim partilhado]



Kátia Viola


39 anos de vida partilhada… celebram hoje a minha Maria e o meu José. No abraço há sempre aquele momento em que o dar e o receber se fundem como agradecimento. O tal passar a ser “uma só carne” que leva à paciência, ao sorriso em conjunto, até mesmo ao silêncio com lágrimas de (in)compreensão. É a complexidade da relação, em que vocês dão o vosso melhor. Como não agradecer este dia? É a minha história também, em dia de S. Lucas, que escreveu sobre a família, a misericórdia, o envio. Com humildade o digo: se ajudo outros a encontrarem felicidade e liberdade, é também graças a este dia e à vossa decisão de dizer “sim” um ao outro, diante de Deus. Queridos Mãe e Pai, gosto muito de vocês! Com carinho, um beijo e um Abraço, Filho. 

sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

Mundo: pequeno e próximo




E o mundo torna-se tão pequeno. Sim, nas tecnologias, mas também em cachecol étnico de lã “muy chic en verde olivo” ( ;) ), em presépio, em Abraços escritos que chegam do Chile, lá, a muitos quilómetros daqui, em dia de celebrar Vida. Num momento de aconchego, tudo faz recordar muitas conversas de Deus, de arte, de Companhia de Jesus, de chás, de deserto, de gargalhadas, de partilha de vida que se constrói na amizade, na saudade, no ser Irmão. Sim, ser jesuíta é fazer amizade que também se alicerça na oração. E o mundo torna-se tão próximo. 

quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

Ai trocas de línguas [ou mentes, "qu'enfim"] ;)




I. P.


[Coisas do quotidiano em Paris] Está-se de passeio e repara-se em “publicidades” ou “placardes” que, “prontoS”, é o que dá confusões de línguas… ou mentes, “qu’enfim”, lêem e percebem outras coisas (claro que falo por mim… ;) ).

Homilia de hoje cá em casa



Giovani Cordioli

Quando lemos o 1.º capítulo do livro do Génesis vemos que ao longo dos dias Deus vai reconhecendo que a criação é boa… e depois de criar o ser humano, como homem e mulher, “viu que era muito boa!” Quando se estuda este relato, percebe-se que é “desenhado” de forma minuciosa, chegando ao culminar na criação do ser humano. S. Paulo, na carta aos Efésios, mostra-nos como a partir de Cristo esse momento já era esperado, em que o ser humano é chamado à filiação divina desde sempre. Somos abençoados com todas, repito, todas as bênçãos espirituais em Cristo, e é-nos dado a conhecer o mistério da sua vontade. Deus quer-se fazer presente na nossa vida. Recordo o que Jesus diz no Evangelho de S. João: “não são mais servos, mas amigos”. Há a horizontalidade no amor, nessa entrega a que somos chamados constantemente… e isso, em linha do Génesis, é muito bom.


Claro que o mau orgulho ou o poder mal gerido vão fazer com que uns se queiram sobrepor a outros. Esse poder mal gerido, mal usado, também ao nível da fé ou de sabedoria teológica, vai provocar a separação e Jesus, como se constata, é duríssimo nas suas palavras contra as acções dos Doutores da Lei. Usam a sabedoria em seu benefício e não para mostrar a riqueza de Deus para todos. Afinal, Deus não faz acepção de pessoas, e, ainda recordando a Carta aos Gálatas que temos lido nestes dias passados, a todos nos chama à Liberdade. Se somos profundamente livres, percebemos igualmente a profundidade do Amor. E tal é caminho de vida. Vamos a isso?

quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

Em dia de Santa Teresa de Jesus




Carlos Cuerdas Damas


[Secção outros tons - Especial Santa Teresa de Jesus] Não havia amor, apenas vestidos nobres plissados em tons singelos, rematados em véu, para enganar a vista religiosa. Escutei novo encontro. Todo o corpo desvelado faz-me entrar porta ante porta, chegando a moradas de união plena, onde os pés, sem se turbar, tocam terra na pobreza e simplicidade que renova todas as coisas. Os títulos títulos nada contam: apenas o desejo de servir Amor. Aí, onde só Deus basta.

terça-feira, 14 de Outubro de 2014

É tempo de silêncio...



Sebastien Levebvre


[Secção outros tons] É tempo de silêncio. A fragilidade da vida está tão perto. Da gratidão ao desejo de recuperação, surgem os movimentos de pensamento e oração. Entrega-se. Confia-se. Recorda-se. Apesar de ir além, a vida é traçada pelos limites biológicos do ser. É tempo de silêncio. A fragilidade da vida está tão perto.

segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

Lista(s)...



Marc Ressang


Ontem, durante a confissão, alguém apresenta uma lista impressionante de pecados. Quando terminou, perguntei: “O que é que gostaria de agradecer na sua vida?” “Como?” “Sim, o que é que gostaria de agradecer na sua vida? Desculpe se me equivoco, mas parece-me que a vê como um fardo… e bem pesado.” Levantou a cabeça, fixou-me o olhar e acenou afirmativamente. Da lista, passámos à conversa e o desabafo adensou-se. Histórias tramadas, é o que é. “A forma como vê a sua vida já é bastante dura e é já a penitência no sentido mais negativo da palavra. Se apresentou uma lista de pecados, pois bem, vai fazer uma lista superior de coisas que faz bem ou que gosta de fazer para seu prazer. Das mais simples às mais espectaculares. Sei lá, passear, ler um livro, dormir mais um bocadinho, ouvir uma música, comprar uma flor para alguém querido. É quase ridículo, sei, mas às vezes é preciso voltar às coisas simples para perceber a importância da nossa vida! Deus é mais simples do que pensamos e é nessa simplicidade que muitas vezes nos dá a Sua graça.”

domingo, 12 de Outubro de 2014

Banquete. Vida. Elogios.




João Garcia


[Coisas do quotidiano de um padre] Chamou-me à parte: “Sr. padre, obrigado, muito obrigado pelas suas palavras.” Continuou a desabafar e a elogiar. Eu senti-me estranho, a não querer aceitar o elogio. De vez em quando também surge o arrepio de passagem desse mal de “falsa humildade” de “ai, não, e tal, eu não, podia ser melhor, e não sei quê”. Claro que o arrepio surgiu, mas a humildade (sem aspas e tal qual é) também. É verdade, hoje estava entusiasmado na homilia a falar do banquete e da vida, do quanto somos chamados à Vida… e também ao justo descanso, para podermos continuar a saborear o banquete presente em tanto na vida. E sentiu-se isso, pois foram muitas outras pessoas a agradecer, dizendo o quanto lhes tinha feito sentido o que eu disse. Claro… depois, para não inchar, sim a humildade quer-se no ponto certo, lembrei-me que esqueci-me (oh GOD!) do Credo lá no sítio certo (que rezámos, assim que me apercebi, na forma simplificada antes da oração sobre as oferendas) e que o Pai-Nosso era cantado… ;) É isto, lá continuo a aprender ser padre na vida, no concreto. E é mesmo bom! :D

sábado, 11 de Outubro de 2014

Entre voos e olhares



[Secção outros tons] Os voos ficam guardados na pele e não no sentir de outros. Os pequenos de vista dirão histórias de fracassos. É certo. Há olhares reservados a loucos, ou a génios que não se cansam de viajar… entre nuvens, montes, beleza e palavras. 


[Foto: “Retrato de Rapaz” de Mário Cláudio, p. 79. Fiquei parado, neste final de parágrafo, um bom tempo. E escrevi o que aqui partilho.]

Família(s)



Simon Kwan


As pessoas não devem ser formatadas, tal como as famílias não o devem ser. Tenho ouvido por estes lados franceses o grande louvor à “família tradicional”. As imagens pictóricas representativas mostram alegres casais com um filho e uma filha. Claro, se houver mais filhos e mais filhas, melhor. Sou daqueles que gostaria de ter muitos irmãos, mas, por várias questões da vida, sou filho único. Por isso, segundo o “tradicional”, em parte não encaixo no esquema. Vá, tenho as minhas manas, Suzanne e Letinha, muito especiais, sim, tal como muitos irmãos jesuítas. Mas, o que me faz confusão é a apologia do perfeito, também nas famílias… onde, se há, felizmente, muitos casais que vivem profundamente o Amor, também  há muitos outros que vivem sob pressão de violência (e não é só entre os “pobres”), tal como outros ainda que, por exemplo, em nome do status mantém a fachada da “família feliz”. É por isso que este Sínodo faz muito sentido: falar, sem problemas e sem idealismos de perfeição, da realidade complexa, na grandeza e na dificuldade, que é a família, para que se possa ajudar no concreto.

sexta-feira, 10 de Outubro de 2014

Voem. Voem alto.



Foto e Mural: Eduardo Kobra


Voa. Voa alto. Continua o sonho de ser Mulher. De gerares no teu seio a força da justiça e a garra de dar letras a quem não as tem, convertendo o ódio em paz. Voa. Voa alto. Dando continuidade ao teu trabalho de paternidade a tantas crianças que desejam crescer e saber. Voem. Voem alto. Que os vossos rostos sejam espelho de milhares de outros, chamados a viver a dignidade de aprender. Abracem quem convosco partilha a Paz. Complementem-se na maturidade e na certeza de que, apesar das dificuldades, lutas e riscos, é possível transformar. Voem. Voem alto e espalhem as raízes da humanidade pelo mundo.

Homilia de hoje, cá em casa.



Paraj Shukla

A fé: podemos vê-la em jeito de caminho, de peregrinação, que vai modificando o nosso olhar e o nosso viver ao longo dos tempos. Não é a mesma de ontem e esperemos que não seja a mesma de amanhã. No entanto, como nos diz S. Paulo, é a fé que nos justifica, neste sermos filhos de Abraão… que caminhou, confiou, num abandono que teve perguntas e provas. 

É mais fácil cumprir, ser o certinho, ao jeito do filho mais velho, na parábola do filho pródigo. Contudo, sabemos que a Carta aos Gálatas apela à liberdade. [S. Paulo é forte nas suas palavras.] Não significa tudo fazer, mas perceber que o caminho de encontro com Deus implica muito mais que o cumprir, como alívio de consciência. Não se faz uma apologia da rebelião, mas, sabendo que nem todos viveram (d)a Lei, percebe-se que a fé, que cada qual tem ao seu modo, é o passo do Encontro com Deus. Antes do “fez ou não fez”, é preciso ajudar a pessoa a descobrir-se como pessoa amada. Sim, a fé e o amor vão de mãos dadas… junto com a esperança, num Cristo que expulsa o que nos divide com o dedo de Deus. Podemos errar, podemos falhar, mas temos sempre a certeza que antes da nossa fé em Deus, há sempre a Fé de Deus em nós.

quinta-feira, 9 de Outubro de 2014

Vento e folhas nas árvores



Kevin Connolly


Passei pelo jardim do Luxemburgo, depois de uma visita no hospital. Escutei o vento sobre as árvores. Recordei uma conversa que tive há anos com um amigo que esteve à beira da partida, depois de um acidente: “Já reparaste, Paulo, na beleza do som das folhas ao vento?” Sim, já tinha reparado, mas desde aquele dia, sempre que ouço agradeço a simplicidade da vida. Tanto que já sei, tanto que já vivi. Muito mais que ainda não sei, muito mais o que ainda está reservado para viver. Tanto a acontecer no mundo, nos corações de tanta gente. Naquele momento, fechei os olhos… e limitei-me a escutar o vento sobre as árvores.

quarta-feira, 8 de Outubro de 2014

Passagem



César Patrício e Arias


[Secção outros tons] Guarda o nome. A nova etapa não foi sonhada, nem desejada. No deserto, a beleza surpreendente abre o silêncio. Ficar: e o quem sou petrifica-se. A violenta notícia ecoa como monstro. Questões, entre o porquê e o que fazer, conduzem à passagem, pesando os músculos com a ansiedade de futuro. Enfrenta-se a fragilidade, gritando o nome que deu e dá vida. [Entrelaça-se as mãos] Curvando-se, nesse caminhar, aceita-se e transforma-se o corpo e o afecto. Na chegada recebe-se as forças para o combate, em Luz que aquece o abraço a dar.


terça-feira, 7 de Outubro de 2014

[Ainda a] Liberdade



Chester Boyes


A propósito do post anterior, perguntaram-me: “Paulo, como consegues essa liberdade?” Obviamente não foi só graças a isto, mas… há coisas de 3 anos, depois de um grande discernimento, percebi em oração, com ajuda de algumas conversas, que estava na altura de dar um passo na minha formação: fazer um caminho de psicoterapia. Na altura senti vergonha, para além do medo de se achar que seria fraco, não sendo sequer capaz de ser “bom jesuíta e bom padre” por necessitar de psicoterapia. Sim, necessitava. E que bom que tive um director espiritual, um Superior e muitos companheiros com muita história de vida que me apoiaram neste caminho, ajudando a eliminar os primeiros fantasmas “vergonha” e “medo”. Foram dois anos, de encontros semanais com a Asún, que me fizeram ir aos infernos de mim, às dores do bullying, à riqueza de quem sou, às feridas, aos desejos, à fragilidade, à força, numa luta de quase corpo-a-corpo com Deus. Também passei (e às vezes ainda volta) pelo orgulho de “ah, agora és especial, pois estás a ser espectacular, corajoso, réubéubéu, pardais ao ninho”. Mais do que coragem, foi mesmo uma questão de perceber algo fundamental: “se a minha vida vai ser ajudar os outros a serem livres, tenho de, com a ajuda de Deus, de companheiros e de alguém preparado para isso, perceber o que se passa no meu caminho de liberdade”. Este foi um grande, enorme passo ou salto de confiança: há mesmo o Paulo de antes e o Paulo depois dos 2 anos de terapia… no entanto, o caminho continua… Deus também convida a isso, ou seja, a não estagnar nesse ser livre.

segunda-feira, 6 de Outubro de 2014

Loucura [e liberdade]




Jad Chebly


Cada vez mais me convenço que é preciso alguma loucura para encontrar liberdade: diante de mim mesmo, diante dos outros e, até mesmo, diante de Deus. Diante de mim mesmo para permitir conhecer quem sou, sem moralismos, e a partir daí fazer caminho. Diante dos outros: deixar de estar preso ao julgamento de quem não me conhece, podendo manifestar a minha perspectiva da realidade, sem esquecer a escuta humilde de outras perspectivas. Diante de Deus, para perceber o quanto Ele não é paternalista, mas Alguém que deseja o crescimento de cada ser humano [mesmo quando muitos acabam por ficar pequenos… infantis…, pois, isso… é preciso loucura para encontrar liberdade] ;)

domingo, 5 de Outubro de 2014

Vida(s)




Escultura: “Árvore da Vida” de Stefan Szczesny


Este fim-de-semana, em particular o dia de hoje, vejo-o a partir da vida: a de Portugal, a de alguém que parte e a da família. 1) Portugal celebra a sua História. Mais ou menos simpática, é a que é. Querer modificá-la ou ignorá-la é, tal como na história pessoal, enganar-se, buscando a inexistente perfeição. Se há podres ou momentos menos felizes, aproveitemos para olhar para eles evitando, assim, de os repetir. 2) Não se fica indiferente quando alguém tão novo parte. Li a oração que Rodrigo Menezes escreveu há dias e é de pensar em alguém que estava em busca. Acredito que já está a viver o encontro. 3) Começou o Sínodo sobre a família. Mais do que mudanças radicais, espero que se escute a realidade, não a partir de abstracções ou idealizações, mas do concreto, aceitando os Sinais dos Tempos para se viver a proposta do Espírito para a actualidade. Na Missa de hoje, em Avignon, rezei pela Vida.

sábado, 4 de Outubro de 2014

Dança(s)



Richard de Courson

“Paulo, que te parece dançares enquanto lemos a leitura de partes do “Tombé hors du temps” de David Grossman?” O livro retrata, em forma poética, a evolução do luto… depois do autor ter perdido o filho na guerra israelo-libanesa. Foi no serão de ontem aqui em Aix-en-Provence, sul de França, no encontro de todos os que frequentamos mestrado em teologia e filosofia no Centre Sèvres, em Paris. Antes desta apresentação, um colega jordano partilhou a experiência deste Verão num Campo de Refugiados iraquianos: “É impressionante o sofrimento daquelas pessoas desalojadas, violadas, despojadas!” Concentrei-me e tornei-me eco do conjunto de sentimentos que circulavam nas entranhas. O tema de estudos deste ano é a filiação. Saí da reflexão e entreguei-me, sentindo as diferentes “energias” pela sala. Já há muito que não dançava assim… pode não ter sido fácil, mas foi libertador.


Richard de Courson



Richard de Courson


Richard de Courson



Pedro Pablo



sexta-feira, 3 de Outubro de 2014

Suportar



John Stanmeyer


Tenho andado mais hermético na escrita, preferindo optar por “outros tons”. Também como reflexo das minhas partilhas, têm-me chegado outras de vida que dão que pensar. Não consigo responder com a imediatez da “frase bonita” para consolar. Um bom romance ajuda a mexer as entranhas. Mas, a vida concreta de pessoas concretas pode ser um valente “murro de estômago” que fazem com que as entranhas se amassem… e, mesmo não sendo o meu problema, as dores chegam até mim. E vou percebendo mais um pouco disto da paternidade espiritual. Por um lado, aqui estou para servir, por outro, em muitos casos apenas possível a partir da confiança do suporte divino.

quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

Visito-me. Em contrastes.




Visito-me. Em contrastes. O peso do veludo, nesse antigo espelho que distorce a realidade, impede-me de desconhecer a vaidade [talvez fosse mais puro e transparente, no entanto, perder-se-ia a força da carne.] Visito. Em contrastes. A leveza da liberdade permite conhecer portas para outras saídas. 

quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Palavra [desvelada]



Lynn Johnson


[Secção outros tons] A palavra quer-se desvelada. Abre-se a janela do quarto há muito encerrado. As portadas batem com o vento agitador de tempo novo, deixando ver perguntas que anulam o medo: de errar, de mudar, de amar. A palavra desvela-se na humildade de criança, com respostas indicadoras de caminho. É preciso ser simples para escutar e compreender.

terça-feira, 30 de Setembro de 2014

Estrutura e humanidade




[Coisas do quotidiano em Paris] Estava a caminhar e passei pelo Louvre. Estavam a desmontar uma tenda gigante. Achei piada à simetria ou linearidade… entre a estrutura e a humanidade. Apenas isso. ;)

Encontros bons



Acabo de viver um encontro muito especial, com um dos refugiados políticos que acompanhei o ano passado. Não vinha sozinho. A mulher, com quem já não estava há mais de 3 anos, veio com ele. Depois de uma grande batalha burocrática, chegou há 2 meses. Pouco-a-pouco instalam-se nesse reencontro, ainda com medo com o que se pode passar com os que lá ficam. Afinal, foi obrigado a fugir do país pela guerra, por ser jornalista e ter denunciado casos de corrupção e abuso de poder. Viveu a tortura de perto… e de longe, com as ameaças à família. Mesmo vivendo ainda este fantasma, toda a conversa foi à volta da esperança… e nada forçada, pelo contrário, transparecia no rosto. Que abraço bom demos o 3.  

[Sobre] Eleições



Valerios Theofanidis


Cada vez que há algum tipo de eleições espera-se o salvador: “Ah, agora sim é que vai mudar!” Há festas, críticas, sorrisos, descontentamentos, gritos de vitória, silêncios de frustração, mas, haverá o essencial? Batalho na mesma tecla: o sentido de responsabilidade por quem irão servir. Servir e não ser servidos. Isto é bonito, mas um dos grandes descréditos na política surge por não se ter em consideração as pessoas. O Povo? O Povo é uma massa abstracta bonita, mas que tem muita gente incógnita, que se desconhece. “Mima-se”, em apelo de “agora é que é”, para os votos, mas depois… desconsidera-se a realidade, entrando ora numa de populismo ora numa de regressão e cortes incompreensíveis, não se dando pontos fundamentais: justiça e humanidade. Sim, estamos em tempos de “fibra óptica”, passa tudo muito rápido, a memória fica curta, misturado com “o meu, só meu, interesse”. Talvez tenha passado ao lado, mas a Frente Nacional (partido de extrema-direita) ganhou pela primeira vez, repito, primeira vez, dois lugares no Senado francês. “Calma, mas estás a falar de Portugal ou de França?” Estou a falar de presente a apontar para o futuro.

segunda-feira, 29 de Setembro de 2014

[Arc]Anjos



Johannes Simon


Diz que Deus por vezes é tímido. Ou então, o seu rosto é tão intenso que não é possível vê-lo directamente. Por isso envia anjos. Apareceram a Abraão, um lutou com Jacob, Gabriel encontrou-se com Maria. Mensageiros: mostram a importância da humanidade. Hoje recorda-se os Santos Arcanjos. É dia de trazer à memória e agradecer a quantidade de anjos que acompanham, abraçam, fazem rasgar caminhos, desafiam ao crescimento, não deixam ninguém só mesmo na maior solidão. Tantos de carne e osso, com nome e rosto concretos... meio disfarçados.

domingo, 28 de Setembro de 2014

Avivar o dom



[Secção outros tons] “Avivar o dom”. Na essência perceber corações que se escutam, para ajudar outros a escutar, em silêncio da noite: onde a Menina dos olhos ajusta-se à nova luz. Dar-lhe tempo. Tempo feito de nadas, naquele estar em que só os pobres de espírito sabem soprar docemente a brasa que faz libertar o aroma de lavanda (que foi suavemente visitada pela borboleta transformada no deserto). E “enquanto o corpo reposa, vigia o coração amante”. Emocionado, recolho-me em agradecimento. É o tempo da esperança. 

Arte Total



[Secção recordações] Como antigo aluno da Arte Total, em Braga, pediram-me para falar do que esta escola representa para mim. À medida que o tempo passa, vai surgindo história dentro da história de vida. A Arte Total foi a minha base no lançamento do mundo da dança. Joana Domingues, Cristina Mendanha, Teresa Prima foram as minhas primeiras mestres desta arte. Hoje, continua a amizade… e, já que hoje estou numa de falar de aprendizagem, continua o ainda muito a aprender com elas… em conversas, em partilhas e em movimentos. 

Mais infos: http://artetotal-cea.blogspot.fr

Envio de catequistas



Hoje, na Missa na Comunidade Portuguesa onde colaboro, foi o envio dos catequistas na missão de dar o seu melhor na formação na fé de cerca de 200 crianças/adolescentes. Senti-me agradecido diante daquele grupo de mulheres e homens que gratuitamente, mesmo com receios, com mais ou menos experiência, dão do seu tempo e disponibilidade nesta missão. Não é fácil falar de “catequese”. Na entrevista que dei à SIC brinquei um pouco com isto, dizendo que quando se fala de “catequese” ou “bíblia” muitas vezes surge a imagem da “catequista de bigode”, como coisa antiquada com cheiro a mofo. ;) Fora a brincadeira, a formação na fé é algo sério: junta o pensar à fé. A fé sem razão reduz-se ao fideísmo, que pode ser perigoso e levar ao fundamentalismo. A razão sem fé reduz-se ao racionalismo, que anula a possibilidade do Mistério. Se há que repensar a catequese? Sim. Talvez se devesse investir mais na formação teológica e humana de leigos. A Teologia não é, nem deve ser, reservada a padres e freiras. Jesus, no Monte, ensinava a todos. Nunca é tarde para continuar a aprender. 

sábado, 27 de Setembro de 2014

Ainda a festejar... em oração com o Papa



As mãos do Papa enquanto rezava o Pai-Nosso

Acabo de rezar Vésperas com o Papa Francisco e os meus Companheiros em Roma. [Vantagens da tecnologia: permitir “estar” lá.] A História é estranha, com toque de ironia. Hoje, nesta celebração de 474 anos da fundação da Companhia de Jesus, também encerramos oficialmente a celebração dos 200 anos da restauração, depois de 41 anos de supressão, com um Papa que é jesuíta. Enquanto rezava sentia a vontade deste serviço universal em fronteiras, mais que físicas, culturais e sociais. Há muito a fazer pelo bem da humanidade, mas esse muito só pode ser realmente bem feito se houver discernimento, como nos recordava o Papa, mesmo e sobretudo em tempos de desolação e crise. Esses, ou direi estes, tempos não são fáceis, são duros para muita gente. Daí que o abraço e a confiança devem surgir de coração que escuta e acolhe a vontade divina, que tem sempre como base o Amor. E, em Igreja, é neste mundo concreto, onde Deus encarnou em Jesus, que também nós jesuítas somos chamados a servir, sobretudo os que vivem a pobreza e a injustiça a tantos níveis, como pecadores amados. 



Abraço de Irmãos

11 anos [dentro dos 474]




11 anos de entrada no noviciado, a acompanhar os 474 da Companhia de Jesus, que celebramos hoje, 27 de Setembro. Muito poderia contar sobre estes 11 anos, dentro desta grande História muito maior que a minha. Em memória agradecida, recordo as pessoas, as conversas, as peregrinações, as aprendizagens, as dores, as quedas, as dúvidas, as confirmações, a fé, os Exercícios Espirituais, o silêncio, o “ser em caminho”... que me têm aproximado a Deus. Um Abraço a todos os companheiros jesuítas, junto com a minha oração ao “Senhor de todas as coisas” por nós, pelas nossas missões e por todas as pessoas que nos ajudam a ser quem somos.

sexta-feira, 26 de Setembro de 2014

Observar...




Tenho esta característica de ser observador. Talvez a vá apurando, nem sei. Há uma ou outra cor de casaco ou écharpe que me chama a atenção. Ou um gesto, um olhar. Mesmo sendo acontecimentos ou pessoas no outro lado na rua, apercebo-me deles, como se chamassem por mim. Às vezes, ao ver as pessoas no metro, nos cafés, a saírem das lojas, imagino histórias, como se fossem personagens de um romance por estrear. Ponho-me a rir sozinho do ridículo do meu pensamento. Depois, com naturalidade, vão saindo do capítulo. Não totalmente. Há sempre algo que fica, para me recordar que a humanidade é mais vasta do que penso. 

quinta-feira, 25 de Setembro de 2014

Deixei-me estar pelo entardecer



[Secção outros tons] Deixei-me estar pelo entardecer. É Outono. Sei-o pelo fogo que apenas queima o olhar, enquanto o fresco novo provoca o abraço. Apoiei-me no parapeito a ver o folhear. Recordei nomes formulados em oração. Num curto espaço, todo o tempo passou por mim. “Charlotte ! C’est l’heure.”, escutei ali mesmo ao lado. Os sinos de Saint Suplice replicavam pelas seis e meia. Ajeitou o laçarote, protegeu-se na mão e continuou no suave crescimento em cada hora renovada. É o tempo que passa, deixando-me estar pelo entardecer. 

"Vaidade das vaidades. Tudo é vaidade"




Kalpana Chatterjee

[Homilia de hoje, cá em casa] “Vaidade das vaidades. Tudo é vaidade”. Pode-se ler este texto do livro de Eclesiastes de forma angustiada, vendo a vida como um ciclo que se repete sem esperança. Vaidade vem do latim vanitas, atis que significa vazio. Tudo é vazio? Sim, sem a esperança de algo mais a vida torna-se vazia. Uahhh… O drama, o desespero do vazio… o abismo. Ok, mas, deixando de lado a frieza desse drama do vazio, podemos dar o passo de o preencher. O útero está vazio… e em cada mês prepara-se para receber uma nova vida. Caso não aconteça, esvazia-se e retoma a preparação. De facto, por vezes é preciso esvaziar o que já não interessa para dar espaço a algo mais importante ou prioritário. Dando um salto, a ressurreição também começa a ser vivida pelo túmulo que está vazio… continha apenas o essencial para perceber que Cristo já não estava lá: as ligaduras que já não prendem e convidam a desprender as nossas. Tudo é vaidade, tudo é vazio, se se perde o encontro com o essencial.


quarta-feira, 24 de Setembro de 2014

Final de tarde "fashion"




[Coisas extraordinárias na vida quotidiana de um padre] "Paulo, fui convidado para ir à inauguração de uma loja. Queres vir?" "On y va !" E de repente estou rodeado de fashionables, top models, etc. e tal. Claro que se mete conversa. [Exemplo de diálogos que se repetiram: "E tu, que fazes?" "Estudo teologia, sou padre." "Wow, 'extraordinaire'! Mas... posso-te fazer muitas perguntas? Talvez não aqui, mas depois?" E lá trocávamos contactos.] Além disto, lembrei-me sobretudo dalgumas amigas que gostam destas coisas fashion. ;)

terça-feira, 23 de Setembro de 2014

A importância das trevas



Brice Portolano


[Divagações, depois de ter tido uma boa conversa, a publicar num post nocturno] O primeiro título que me vem ao pensamento é “elogio às trevas”. No entanto, não é um elogio que quero fazer. Apenas reconhecer a importância das trevas, da escuridão, da tristeza, como possibilidade de encontro comigo mesmo, nesse canto do sagrado. [É complexo escrever sobre este tema] Recordo as sessões de psicoterapia, onde as dores dos pontapés e murros que levei, entre os 10 e 13 anos, voltaram a sentir-se neste corpo de adulto. Também essas dores fizeram-me entrar na trevas de mim. Questionei Deus! A sua existência e a sua presença. Mais do que nunca percebi a luta de Jacob na escuridão. A visão estava-lhe vedada. Apenas podia escutar e sentir, enquanto lutava. Daqui ganhei um respeito muito grande por quem vive fases de trevas, escuridão e tristeza. A felicidade não é passo rápido. Nem Deus é passo rápido: há que respeitar o silêncio de Nome, evitando invocá-lo em vão. A descoberta seguinte, sem entrar na questão de tempo, é a Liberdade.

Desabafo...



Dina Goldstein


[Desabafo depois de ver o anúncio publicitário a determinado programa] É fácil pôr as culpas no programa, mas limita-se, pelo que percebo, a continuar o que muitos indirectamente pedem. Será, aliás, já deve estar a ser visto, comentado, com os participantes a serem votados e igualmente comentados, por muita gente, tornando-se exemplo ou símbolo da degradação humana. E o incrível? Serem louvados por isso! Não sou dado a puritanismo… apenas fico incomodado quando se exalta o mau da condição humana, tornando isso digno de espectáculo para milhares consumirem. O consumo desenfreado empequenece. Cita-se muitas vezes (algumas mal) o famoso “a religião é ópio do povo”. Marx, naquela altura, não conhecia a actualidade de alguma programação portuguesa.

segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

Há 17 anos, neste dia...




Há 17 anos, no dia 22 de setembro de 1997, com 17 anos, levantei-me cedinho, bem cedinho, para ir a Faro. Um dia de muita emoção e agitação, nervos, com ansiedade de “a vida vai mudar”: a universidade, entrar na medicina veterinária que tanto queria e sonhava desde criança. Até teria a ajuda de Deus, com a rosa colocada em cada sábado na capela do Santíssimo. O dedo corria a lista, deslizava pelos “Paulos”, até chegar ao nome certo. Encontrei-o. [Silêncio] “Não colocado”! O dedo fico parado, começando a ecoar em mim o vazio, os ombros a abater, a cabeça a baixar. Regressei a casa fechei-me no quarto, deitei-me na escuridão sentindo-me a nulidade em pessoa. Os meus pais abraçaram-me, também a Suzanne e, cada um ao seu jeito, disse-me: “És mais que uma entrada na Universidade!” Nessa tarde, no sítio onde cada rosa era depositada em cada sábado, agradeci a Deus a vida. Sem saber o misterioso caminho que ainda iria percorrer. Hoje, 17 anos depois, sorrio e agradeço a Deus as frustrações, ter vivido esse vazio de mim, o conhecer a tristeza e a capacidade de não ter ficado aí preso. Há 17 anos, levantei-me bem cedinho para ir a Faro, com a ansiedade de “a vida vai mudar”… e, inesperadamente, mudou. 

domingo, 21 de Setembro de 2014

Entre pontos e cansaço



Huynh Jet


Estávamos 16 pessoas à mesa. Tão diferentes. Mais ou menos conhecidos uns dos outros. Alguém e algo nos unia. Celebrámos a sua vida e também a forma como nos vamos descobrindo em Corpo com a sua ajuda. Eu, padre, estava entre actores, administrativos, bailarinos, enólogos, encenadores, professores, psicoterapeutas, vizinhos, estilistas. Ausentei-me da mesa e quando voltei apanhei uma conversa a meio: “…quando se faz a casa do botão desta forma, há que dar um determinado jeito de mão com a agulha no puxar da linha, repetindo-se para ficar este arredondado. A posição do corpo tem de ser esta, para não cansar o movimento. Os pontos ressentem-se quando o movimento está cansado.” De regresso a casa, pensei nesta conversa e recordei alguns cansaços meus e em como vou percebendo que muitas pessoas estão cansadas… de si, dos outros, da vida… porque a sua “posição de corpo” não é a adequada. O medo, a vergonha, a pressão social, o falso pudor, fazem com que o corpo seja desconhecido e os “pontos” da vida ressentidos. Ainda há quem estranhe quando dou como penitência dar um abraço a si próprio… e depois a outros. ;) Estávamos 16 pessoas à mesa. Tão diferentes. Falou-se de Corpo e de pontos que se ressentem com o cansaço do movimento.

sábado, 20 de Setembro de 2014

Horas da noite



Francesco Filippo Pellegrini


[Secção outros tons] Se a noite tivesse horas certas, rígidamente programadas? Não me intimido. Desço do lençol e danço, enrolado no silêncio que faz ouvir as estrelas. E se o nevoeiro da culpa aparece, deixo-o passar incógnito para não despertar ninguém.