terça-feira, 25 de abril de 2017

Liberdade




O tempo tem-me preenchido a escrita nos encontros e outros afazeres. No entanto, em dia em que a Liberdade impera nas palavras e memórias, deixo o desejo de que os nossos gestos sejam cada vez mais livres... de opressão e de imposição no sentir, no pensar, no crer, ganhando força de autenticidade. 

[Foto com poema de José Tolentino Mendonça]

domingo, 16 de abril de 2017

Domingo de Páscoa






[Secção outros tons - especial Domingo de Páscoa] As mulheres dão sinal da Luz. Seguem o insistente convite de largar as amarras do medo. É a Vida que renova todas as coisas, desvelando anúncio de fé, esperança e caridade. Deu-se a Passagem do Senhor. Aleluia. 

Santa Páscoa a quem passa por aqui em cada dia. Neste dia especial, em que Cristo ressuscitou, rezo o abecedário, recordando todos os nomes, pedindo-Lhe a Sua Paz, Vida e Luz por vocês.

sábado, 15 de abril de 2017

Sábado Santo






[Secção outros tons - especial Sábado Santo] Vagueio errante nos sentimentos. O pensar ainda está enevoado, tanto das tuas palavras e gestos de erguer cada rosto perdido, como do silêncio da hora em que ficaste perdido na escuridão da morte. A pedra rolada encerrou a pedra angular. Libertando o vazio da memória, recordo a água fresca nos pés, o teu toque, o teu olhar. E sigo.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Silêncio em noite de Sexta-feira Santa




Sanjay Ramani

[Secção desabafos em noite de Sexta-feira Santa] Esta é a noite do silêncio profundo que evoca todas as dúvidas, perguntas, angústias. Deus está morto, afirmou Nietzsche uma vez. Aquele em quem todas as palavras ganhavam cor, na autenticidade que fazia engrandecer a alma, foi estendido na cruz e sepultado em tempo de trevas. Sim, Deus morre na sua humanidade, tomando para si toda a morte, nessa injustiça que só quem ama tudo e todos pode assumir. Durante a celebração da Paixão e na procissão do enterro do Senhor, o meu coração enchia-se de silêncio carregado de gritos. Naquele tempo e nesta noite, vive-se o memorial que faz repetir todos os acontecimentos, juntando todos os gritos que dia após dia voltam a ecoar no mundo que busca sentido e Paz. Faz-se silêncio pelas trevas que envolvem gestos de morte que atacam tantos seres humanos indefesos, na sua fragilidade, condição de deficiência ou idade. Silêncio pelas trevas que buscam escravidão de mãos nas minas de minerais preciosos ou de corpos vendidos ao prazer de tantos que usam e abusam da mulher como objecto sexual. Silêncio pelas trevas dos que são assassinados pela sua fé ou que são postos em Campos de Concentração por serem de condição homossexual e aí serem torturados. Silêncio diante da normalização de bombas que caiem destruindo e matando, sem pudor e vergonha de se usar a palavra “mãe” numa delas. Silêncio diante das imagens de coletes laranjas em barcos pelo Mediterrâneo, de gente que foge da morte. Silêncio diante da falta de Educação, ao nível político e em claques de futebol que desejam a morte a outros, sem respeito pela memória dos que partiram em desastre de avião. A noite é densa por todas as dúvidas, perguntas e angústias. Nós que temos fé, acreditamos em Deus que morreu, de forma indigna, na sua humanidade para nos resgatar, a todos, à Vida. Que esta noite de silêncio nos ajude a, mais que compreender, viver o muito a que somos chamados no caminho da Paz. 

Sexta-feira da Semana Santa



[Secção outros tons - especial Sexta-feira da Semana Santa] Os ruídos adensam-se em gritos. Acumulam o tempo dos injustos, enquanto burlam histórias e latejam as costas em dores silvadas. Abandono. Chegou a hora em que os olhos semi-cerrados revelam a dignidade de quem não se cansa de amar. Eis o homem elevado até às profundezas do abismo humano. O véu rasgado tomba. Silencia-se a divindade... ouvindo-se o vento entre os ciprestes.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Quinta-feira da Semana Santa






[Secção outros tons - especial quinta-feira da Semana Santa] A toalha cinge os rins. Antes da partida, sela-se o serviço de Mestre em água fresca que limpa os pés de outros e em olhar de chão até ao rosto incomodado de discípulo. Cumpre-se a Palavra. Aproxima-se a hora. Anoitece. O Senhor ama os seus, todos, até ao fim.


quarta-feira, 12 de abril de 2017

Educação




Rahul Talukder

[Secção pensamentos soltos] Surge mais um tema de longa discussão social: os 1000 estudantes que foram expulsos. As reacções mais díspares surgem, entre a reprovação, indignação, normalização, patriotismo, vergonha alheia, etc.. Mais uma vez, instala-se o comentário perdido pela comunicação social, sem que se avance para reflexões profundas sobre a Educação. Daqui a dias já se falará abundantemente sobre outro assunto qualquer, esfumando-se este.

Isto não é novo. Dando um pequeno exemplo, há cerca de 25 anos, quando abriram grandes empreendimentos na Praia da Rocha, centenas de adolescentes e jovens adultos iam lá passar a passagem de ano a preços baixíssimos. Depois, começaram também as viagens de finalistas. Ainda me recordo de estar no 12.º ano, há precisamente 20 anos, e rir com um cartaz, afixado lá na escola, com publicidade para viagens de finalistas na Praia da Rocha… para quem não sabe, sou de Portimão. Já nessa altura se ouvia comentários sobre a selvajaria da ‘geração rasca’ que abria extintores, atirava colchões ou os próprios para a piscina de altos andares, arrancava candeeiros, espalhava bebidas pelos apartamentos, partia vidros e espelhos. Afinal, o modo como alguns celebram na actualidade o finalizar do 12.º não é tão original quanto isso. A originalidade reserva-se às redes sociais onde publicam vídeos e fotos vangloriando-se de “grandes feitos”, provocando com que se ponha tudo o que é estudante na mesma categoria de vândalos e afins.

Todos temos algo de responsabilidade na evolução social. Todos participamos da sociedade… seja a formar-se no melhor que se pode, com as capacidades que se tem, divertindo-se e festejando de forma animada e descontraída, sem necessidade de excessos alcoólicos e de nenhuma violência, seja, por exemplo, a consumir programas sensacionalistas que convidam ao “não faço nada para além de dizer uns palavrões, agredir alguém, e sou famoso”. Depois, já há muito que é comprovado, o efeito grupo tem muito que se lhe diga. A boa educação, mesmo em situações adversas, acaba por ser uma opção. E, podendo ser importante, o dinheiro não é nem fundamental, nem “a” questão para se ser bem-educado.

Os factores medo, cansaço, falta de tempo, comparação e orgulho impedem o reconhecimento de que algo pode ir mal na educação que começa em casa. As regras do respeito e do reconhecimento de que há uma realidade que vai para além do umbigo pessoal são fundamentais. Dar todas as coisinhas para “comprar” os filhos, pelo tempo que não se tem ou das frustrações que não são vividas, integradas ou ultrapassadas, dão resultados terríveis. Os pais que se amam a si mesmos e amam os filhos sabem e vivem os tempos próprios de criança e adolescente, sem ânsias de que sejam adultos à força e mostrando, dentro da liberdade, as balizas que os ajudam a crescer humanamente. Esse crescimento inclui as festas, em celebração, e as viagens que animam sem necessidade de destruir.

Talvez não seja notícia, mas, felizmente, também aumenta o número de estudantes que fazem voluntariado interessando-se pela humanização do outro. Seja como for, deixe-se de brincar com a Educação.



Quarta-feira da Semana Santa






[Secção outros tons - especial quarta-feira da Semana Santa] O rosto endurece com a injustiça que não se cansa de se actualizar. Refinada em moedas de prata que compram as horas escurecidas pela miséria da corrupção e da hipocrisia. "Serei eu?" A resposta atravessa todos os corações que expiam pecados no alvo do dedo apontado ou na pedra por jogar.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Terça-feira da Semana Santa





[Secção outros tons - especial Terça-feira Santa] Das entranhas sai compaixão, em identidade formada desde o início dos tempos. A confiança alicerça-se em quem é com o Pai, na Sua forma justa de amar. Olhando à volta, o silêncio do pão molhado prepara as moedas da denúncia e a negação de quem se sente perdido. O véu estremece com a escuta da partida.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Segunda-feira da Semana Santa





[Secção outros tons - especial segunda-feira da Semana Santa] Silenciei o momento em que o perfume de bálsamo se espalha pelo mundo, sentindo o toque das mãos que reconhecem a hora. As moedas perdem o interesse da paga. Outras virão que condenarão. No entanto, a luz esperada libertará o amor pleno.


Na foto: palavras de Carlos Drummond de Andrade.

domingo, 9 de abril de 2017

Domingo de Ramos






[Seccão outros tons - especial Domingo de Ramos] Começa a chegada da hora. Os lugares de físicos passam a ser de palavras e de gestos. "Eu sou", em eco de presença de crua humanidade. "Nós somos", torna-se esperança... de momento silenciada. 

Na foto: palavras de Daniel Faria.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Moralismos que não se quer





Sidhartha Bardoloye

[Secção desabafos] Para se compreender algumas separações, distingo moral de moralismo. A moral é antropológica, nessa consciência de que os actos podem ser bons ou maus. O moralismo é a cegueira farisaica que, em nome das aparências, mantém a opressão. Os exemplos nos Evangelhos são muitos. Infelizmente, em pleno século XXI ainda há outros tantos exemplos de moralismo. As situações de violência doméstica são de grande complexidade, sobretudo pelo modo como as vítimas as vivem. Não há dúvida de que a separação entre a vítima e o agressor é o grande passo. Nada legítima qualquer tipo de agressão a alguém. E é de grande tristeza que se possa dizer a uma vítima coisas como “o amor aguenta tudo”, “Jesus também sofreu muitas injustiças”, “se casaste foi tudo incluído no pacote”, “isso é tudo fantochada para chamares a atenção”, e outros “mimos” que tais. Tristeza é pouco, é nojento. Mais o é quando quem o diz é alguém que se diz de Igreja. Aí, está mesmo em pecado. Ficamos chocados com as situações mais dramáticas que são noticiadas. Mas há muitas que se ficam pela calada… em que, em nome do moralismo ou paz podre familiar, os agressores directos são apoiados por indirectos. A partir do momento que se entra na violência, nunca incluída em nenhum sacramento, deixou de haver amor.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Subtilezas de Primavera






[Secção outros tons] Quando uma tulipa desperta a beleza de amor-perfeito, em cores de Primavera, vestem-se campos de novos tempos.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Recordações...






Chegam recordações de momentos bonitos e felizes... com o padre a pedir "beijinho" aos esposos novos.


terça-feira, 4 de abril de 2017

Educação



Em final de período, onde infelizmente há referências a agressões a professores, é de relembrar a importância da Educação. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Coisas... e fotos.






[Coisas na vida de um padre] "Stôr, tire uma foto comigo." E é isto... ;)

Amor em liberdade




Amir Cengic

Não podemos mudar o passado. No entanto, a riqueza do estudo e do conhecimento da história permite-nos perceber o que é possível agradecer ou mudar no presente. Falo de história pessoal e, chamemos-lhe, comunitária. Cada um de nós recebe influências de tanta realidade. Isso significa que temos de estar presos para sempre? Não. Tenho pensado nisto com ajuda das fortes e bonitas passagens do Evangelho de S. João dos últimos domingos. Nos três, a partir da água [samaritana], da luz [cura do cego] e da vida [ressurreição de Lázaro], é intenso perceber o quanto somos chamados por Deus à Liberdade do que nos oprime e impede de sermos nós mesmos fonte de água, luz e vida. Pensando em Lázaro: Que pedras nos encerram em túmulos de medos? Que escuridões provocam reacções de defesa ante algo ou alguém que nos toca em feridas com nomes concretos? Que ligaduras de histórias mal-contadas ou de culpabilizações nos impedem os movimentos? É fascinante como Jesus, emocionado, mostra o seu amor pela humanidade, tocando nos pontos centrais que impedem o nosso crescimento pessoal e comunitário. “Lázaro [ou cada um dos nossos nomes], sai cá para fora!” Sente-se que Deus tem grande desejo no amor em liberdade de cada ser humano.

sábado, 1 de abril de 2017

Pregações




A pregar aos casais das Equipas de Nossa Senhora: "Ser casal: ossos dos mesmos ossos, carne da mesma carne... vida da mesma Vida".

Asas...




Há pouco comentei que os meus voos são outros. Ainda assim, as asas ficaram... e estendem-se ao infinito, ajudando outros a voar.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Abertura de horizontes





Danish Siddiqui/Reuters


[Secção coisas] Se há coisa que, como padre e professor, proponho é a abertura de horizontes. Implica regras? Sim. A liberdade implica regras. Viver em sociedade de forma anárquica é ir contra a natureza humana que, mais que não seja a partir da dor, tem consciência do bem e do mal. A abertura de horizontes amplia as regras do respeito e da percepção do quanto há tantos preconceitos e estereótipos a eliminar, sobretudo, no modo como se olha para as diferenças na humanidade. Esta noite vou falar a um clã de Escuteiros sobre “espiritualidade no quotidiano e na vida”. Amanhã e domingo, orientarei um retiro a casais. Pediram-me um tema. Dei-lhes este: “Ser casal: ossos dos mesmos ossos, carne da mesma carne… vida da mesma Vida!” É isto: promoção de abertura de horizontes, com reflexão e sentido de serviço na humanização do mundo.

terça-feira, 28 de março de 2017

"Alentejo Prometido"




[Secção leituras] Acabei de ler "Alentejo Prometido" de Henrique Raposo. Aquando da sua publicação, li bastantes críticas ao livro. As boas... e as que chegaram ao ponto de "pedir a cabeça" do autor. Vou conhecendo o seu estilo pelas crónicas no Expresso e Renascença, percebendo que não é amado por muitos que destilam ódio nas caixas de comentários. Sou daqueles que não se fica pela opinião dos outros. Surgem-me as perguntas e, com tempo, tento, se me for possível, fazer o caminho e formular opinião. Um livro que fala do Alentejo, de onde é natural o meu lado materno familiar. Logo, tema que me toca. Li... e começo a perceber onde o autor quer chegar. Há feridas que não se gosta de tocar. As páginas passam e, apesar da dureza, fazem sentido. Sai-se da poesia dos campos primaveris floridos ou dourados de Outono e entra-se no que será o Inverno humano. Não apetece reconhecer de onde vem a dor, mas se não se investiga e afirma ficamos no auto-engano. Talvez o género literário possa sugerir uma projecção da vida do autor, no entanto, é um meio... com o qual eu mesmo poderia colocar outros nomes que conheço. Recordo a minha querida avó Constança falar-me das divisões na Missa: lavradores à frente, sentados em lugares especiais, povo, mulheres sobretudo (ou somente), atrás e de pé. Suicídio, sim, muitas histórias partilhadas. Dificuldades em viver ali, no sol-a-sol da monda ou ceifa, com idas para o Algarve (hotelaria sobretudo) ou sul do Tejo. O livro é duro de real de uma grande parte da população. Talvez esteja em mudança, não conheço para opinar. Mas, das histórias que recebi, o Alentejo de que gosto, humanamente falando, claro, não é dado a muitos romances. Para haver um caminho de cura, de mudança, há que reconhecer o podre, o menos bom, o que não se gostaria de enfrentar. Do que li, mesmo não me identificado com o seu sentimento de não pertença, parece-me uma boa ajuda à Marta e, em especial ao David, a seguirem o caminho da mudança.

Discurso




Foi uma honra discursar para mais de 200 alunos universitários a quem foi atribuída uma bolsa de estudo. Falei do meu sonho de criança, ser veterinário, e das voltas que a vida dá até ser padre (o momento que provocou a reacção de surpresa). Falei-lhes do presente que são e das possibilidades sempre em aberto de mudança do mundo para melhor, com as possibilidades de descobrir rumos novos e abertura de horizontes pelas visitas a sites como UNESCO, Nações Unidas e Comissão Europeia

Apagar fogos...





[Coisas extra-quotidiano na vida de um padre] A última vez que apaguei um fogo físico (os de alma e de relações são muito mais frequentes) foi há 16 anos num refrescamento como comissário de bordo. Hoje voltei ao extintores... numa formação de prevenção. A boa formação na PGA continua bem presente. É caso para dizer "padre on-fire".

domingo, 26 de março de 2017

Rezar com a Dança




“Não esperava que fosse possível chegar tão profundamente a mim através do movimento.” Esta foi um dos “sentires” dito no final de mais um Rezar com a Dança. Desde sexta à noite até hoje ao almoço, 7 pessoas confiaram-se à Maria Luísa Carles e a mim, neste caminho de descoberta de corpo, de dança e de relação com Deus. Por conversas que vou tendo, quando falo desta relação, apercebo-me desde a surpresa aos estereótipos seja sobre a dança, seja sobre o rezar. Enquanto corpo que somos, impressiona-me como ainda se bloqueia ou reduza a dimensão biológica/física, louvando a dimensão intelectual colocando-a no pedestal de supremacia. A maturidade acontece quando as nossas dimensões estão ajustadas e o movimento habitando de consciência autêntica, vulgo dança, permite que tal aconteça. Foi uma feliz coincidência termos vivido o fim-de-semana na solenidade da Anunciação e no domingo da Alegria. Foi bastante intenso. Ainda mais quando se juntou a nós um grupo de partilha sobre a experiências de luto. O corpo em movimento fala muito da pessoa. Exige atenção para ajudar a evoluir nesse encontro com Deus, da dor à alegria. Se estivermos atentos ao nosso corpo, à nossa autenticidade, veremos, tal como o cego de nascença que foi curado (o Evangelho proposto para hoje), a nossa realidade e a de outros com nova luz.

sábado, 25 de março de 2017

Mão em movimento





Neste dia da solenidade da Anunciação, em que oriento, junto com Maria Luísa Carles, um tempo de Rezar com a Dança, 23 segundos de mão que se entrega e reza.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Humano




[Secção entardecer de quaresma] O corpo é quem sou. Ou agradeço e caminho à Vida. Ou estagno e sobrevivo às horas. 

Na foto: poema de Adélia Prado.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Londres... ou qualquer outro conflito.




Os atentados mais próximos relembram todos os outros distantes. Em conflitos, no final, nunca há vencedores. Todos perdemos. Que a luz consiga atravessar a sombra... que assola a humanidade.

terça-feira, 21 de março de 2017

Dia Mundial da Poesia




Tomasz Tyrka

[Secção entre pensamentos soltos e outros tons] A poesia, falando de oração, tem-se tornado constituinte do meu modo de olhar a vida, o mundo, o ser humano. Fico sempre naquele limbo do inexplicável, que por vezes o silêncio é a melhor resposta. No entanto, deslumbra-me saber que as palavras dão corpo a esse silêncio apenas compreendido por quem sabe parar no caminho e contempla os nadas de fora e o tudo das entranhas. 

Levanta-se o pó,
humedecido com lágrimas  
felizes de paternidade.

Molda-se o coração em escuta
deixando crescer o tempo
de passagem do corvo
até ao ramo de oliveira.

Entrelaçam-se as mãos
de sim misterioso anunciado
em aroma de puro nardo.

E louvando o prémio, mais um justo e merecido, que Maria Teresa Horta ganhou, partilho igualmente um poema, do seu romance “Anunciações” que me faz tanto sentido:

Asas de Poesia

Olhou as suas asas de arcanjo
uma de luto
outra de dia

uma cruel
outra de perda

uma de negrume
outra de meio-dia

E quando Maria
entendeu as palavras
de crivo que lhe eram ditas

começou a criar a sua
identidade própria

a partir da poesia

domingo, 19 de março de 2017

Samaritana





D. Von Schoen

Em dia do pai, Jesus mostra como a paternidade passa pelo reconhecimento da dignidade do outro para além de tudo o que possa ter feito. Como? Pondo a liberdade para além de esquemas mentais, morais e preconceitos religiosos, que se leia, reze, contemple, o encontro d’Ele com a Samaritana. A subtileza das palavras no diálogo desse encontro mostra como acolhe a Mulher que muitos rejeitam (naquele tempo e provavelmente na actualidade), tornando-a discípula e evangelizadora de quem Ele é.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Amigos no Senhor






[Secção coisas na vida de um padre] O dia de hoje teve muitas emoções. Há cansaço desta grande Semana, que mexe com tantas pessoas… “P. Paulo, podemos arranjar um tempinho para conversar?” tem sido uma pergunta a surgir com frequência, depois deste ou daquele momento vivido na Semana Inaciana. Parece-me que o melhor mesmo é o agradecimento que sinto pelo grupo do GRAPA. Nestes dias, a disponibilidade que eles tiveram, seja a pendurar um pano, a cortar pegadas em papel, a colocar fios em cruzes num kit, a pôr ketchup em centenas de cachorros, em… “P. Paulo, é preciso mais alguma coisa?”, é impressionante e gratificante. Vamos ser sérios: para quem achar que esta geração está perdida, ou coisas do género, dê um salto até aqui e converse com eles. Vale a pena ser educador. Vale a pena ser professor. Vale a pena ser Amigo no Senhor.

Homenagem...




[FR] Les gens devraient être honorés quand nous pouvons les embrasser. Certaines personnes n'aiment pas ça, ils se sentent malaise de ne pas avoir besoin de montrer qu’ils ont fait bien avec des gestes ou des mots. Mais encore, la vie devrait être pleine d'hommage et des hommages. Chaque « bon jour » devrait être une reconnaissance de l'importance de cette personne sur notre chemin. Denis est parti aujourd'hui, en jour de Saint Patrick. Il illuminera le ciel avec sa joie naturelle de vie. Nous avons habité dans la même communauté pendant les deux années que j’ai étudié à Paris. Nous avons échangé beaucoup d'histoires, beaucoup de sourires, de rires, nous avons dansé, nous avons suivi un couple qui s’a préparé au mariage, nous avons beaucoup parlé de l'éducation, car il savait que j’allais venir à un collège. En deux ans, il était pour moi un maître, dans l'amitié, d’être jésuite, d’être prêtre. Le jour où je pris congé de lui à la sortie de Paris, il m'a dit : « Paulo, n’avais pas peur d'ouvrir des horizons. Notre Dieu ouvre les cœurs. Il ne les ferme pas ». Je crois en la joie avec laquelle Denis est dans les cieux... et c’est avec « saudade » que je pleure le départ d'un grand Compagnon et Ami. « A bien tôt, Denis… en ce jour de ton départ au Ciel, mon dit qu’il y a un nouveau être à arriver en ce monde » 

 [PT] As pessoas devem ser homenageadas quando podemos dar um abraço. Há quem não goste, por sentir o incómodo de não ter necessidade de mostrar que fez o bem, em gestos ou palavras. Mas, ainda assim, as vidas deveriam ser cheias de homenagem e de homenagens. Cada “bom dia” deveria ser um reconhecimento da importância dessa pessoa no nosso caminho. O Denis partiu hoje, em dia de São Patrício. Irá iluminar o céu com a sua natural alegria de Vida. Vivemos na mesma comunidade nos dois anos que estudei em Paris. Trocámos muitas histórias, muitos sorrisos, gargalhadas, dançámos, acompanhámos um casal na preparação para o casamento, falámos muito de pedagogia, desde que soube que vinha para um colégio. Em dois anos foi para mim um mestre, na amizade, no ser jesuíta, no ser padre. No dia em que me despedi dele, na saída de Paris, disse-me: “Paulo, não tenhas medo de abrir horizontes. O nosso Deus é de abrir corações e não de os fechar!” Acredito na alegria com que o Denis está no céu… e é com saudade que choro a partida de um grande Companheiro e Amigo. “A bien tôt, Denis… no dia em que partes, fico a saber que um novo ser vem a caminho!”

quinta-feira, 16 de março de 2017

4 anos de diácono






O cenário é o do quotidiano. Mas, a foto, por se achar piada ao padre a lavar tachos e panelas onde se preparam febras e salsichas, marca a alegria de 4 anos de diácono. Um padre que não vive a diaconia, ou seja, o serviço, nunca será um bom padre.

P.S. - Tenho estado mais desaparecido. Esta semana estamos a viver a Semana Inaciana no Colégio. E absorve muito tempo coordenar todas as actividades. Aliás, a foto é tirada depois de se ter vendido muita bifana e cachorro. ;) 

Na próxima semana, voltarei como de costume. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

personagens 3D






[Coisas na vida de um padre] A experimentar programas de reconhecimento facial em 3D. E daqui ainda vai sair uma personagem... outra, já que naturalmente sou uma. 

ternura





Reuters/Brendan McDermid

[Secção outros tons – em paragem no meio da azáfama dos preparativos da Semana Inaciana]

o toque
reveste-se de ternura

segredos sentidos
pela pétala de magnólia

ambos sabemos
dos nomes escritos
na palma da mão

humana e divina

quinta-feira, 9 de março de 2017

Quaresma e liberdade




Romeo Doneza

Houve tempos em que não gostava nada da quaresma. A imagem que rapidamente me vinha ao pensamento era a da penitência e sofrimento. Como padre, apercebo-me que, infelizmente, ainda anda por aí esse modo de viver a quaresma: "quanto mais sofrimento melhor, afinal Jesus sofreu por nós e nós somos uns ingratos." É certo que sofreu. É certo que pode haver ingratidão. No entanto, a quaresma, em toda a sua beleza, leva ao reconhecimento do imenso que somos e que desconhecemos, em especial diante de Deus, que deseja o nosso crescimento pessoal e comunitário. No meio de tanto ruído, exterior e interior, há notas perdidas que não são tocadas na sua harmonia. Por isso, ter tempo para mim, deixando silenciar o coração, faz-me perceber a força do grito ou do simples sussurro a viver com Deus. Ao libertar o que levo atravessado, as mãos desprendem-se e posso servir melhor. O caminho de quaresma, passa pelo silêncio, pelo desprendimento e pela entrega. Ao ler os textos propostos para este tempo, tal como no Advento, vejo a riqueza do que nos é dado rezar. O sofrimento pode fazer parte da vida, mas a Vida é convite de passagem para a alegria da autenticidade.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Perspectivas




[Secção outros tons - especial dia da Mulher] Perspectivas... ou oportunidade de ver pormenores na existência do outro, seja de perto ou de longe que ajudam a complementar a vida. É o exercício da abertura de visão e de mentalidade. Flores, é isso, flores e lua em céu azul.

Em dia da Mulher...




Dasha Horita

[Escrito há um ano, mas, infelizmente, ainda muito actual] Há coisas que não são de escrever ou dizer, mas de simplesmente fazer. Neste caso, agir em tudo o que leve à dignidade humana, seja em género feminino ou masculino. Parece-me que tem de haver a complementaridade que dá sentido à evolução humana. No entanto, infelizmente, há que marcar em datas o recordar de que a Mulher não é, nem escrava, nem adorno, nem, como ainda em tanto sítio passa, um ser de segunda ou de terceira. O ponto fundamental: a educação. Educar cada menina, rapariga, mulher a viver o respeito por si própria. Educar cada menino, rapaz, homem a viver o respeito por si próprio. Educar ambos para respeitarem o outro, com igual dignidade, fazendo os possíveis para que todos, em especial as mulheres por serem as que mais sofrem, possam ter educação e os seus direitos respeitados. 

terça-feira, 7 de março de 2017

Mistério e fé e perguntas




[Secção amanhecer de quaresma] Passar a fé de um problema a um sentido de mistério que se aprofunda... e tanto pode ser a fé em Deus, como no ser humano. 

Texto da foto: in Paciência com Deus de Tomás Halík, p.37.

domingo, 5 de março de 2017

Tentação



[Secção outros tons] A tentação faz parte do pó terreno cada dia pisado. Também moldado, ficando com marcas de divino em alento insuflado. A grande tentação que leva à perdição é a do poder que oprime e divide. A escuridão é ultrapassada pelo serviço. E quando se ama, mais luz surge a mostrar caminho de encontro. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

Liberdade: coisa divina




Quoc Loc

A liberdade é coisa divina. A sua grandeza reside na capacidade de dirigir-me para a essência do bem. Ponto. As decisões que possa tomar, daquelas que implicam vida, seja numa viragem radical, seja em palavras que escrevo ou profiro, só revelam liberdade quando promovem a liberdade do outro. Daí o divino. Deus quer cada um de nós para si, no amor que ama toda a beleza e toda a imperfeição, sem qualquer sombra de rejeição (em Deus habita Luz). Ao querer-nos para si, quer-nos livres... ao ponto de o podermos rejeitar, de nos podermos rejeitar. A liberdade é coisa divina. Quando a vivemos, sem prisões de emotividades reaccionárias, há sempre crescimento, em especial da dignidade. E a cruz, nossa, que se toma, ganha contornos de "+", permitindo o crescimento da alma para a liberdade.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Encontros comigo e com Deus




[Secção outros tons - especial dia de Cinzas] “Rasgai os vossos corações”, ouve-se desde o Profeta Joel neste dia de Cinzas. Terra, barro, pó, caracterizam a nossa existência. O coração rasgado é sinal que perde a pedra ou as pedras que o rodeiam, reconhecendo o limite e o tempo de maior recolhimento. Mais do que penitências desmedidas e negrumes estéreis de sentido, abre-se o tempo privilegiado da escuta terra-a-terra, deixando queimar o que afasta da Vida. Em tempo de escuridão, o coração rasgado permitirá entrar luz, tornando a cinza adubo que fortificará os dons do Espírito. É peregrinação até ao suave amanhecer de Páscoa. 

[Vídeo: Andrés Waksman - proposta: conectar comigo e com Deus - música: Dalur de Ólafur Arnalds & Brasstríó Mosfellsdals]

Regresso




Nestes dias que estive mais comigo, o silêncio marcou presença em dança, em rostos, em histórias e em escuta. Quarta-feira de cinzas, um bom dia para regressar... ao coração que se converte.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Pausa



David Corte

[Secção pausa merecida] Ontem escrevi sobre o descanso, pois… hoje digo que volto daqui a uns dias. Bom Carnaval. ;)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Importância do descanso




Mike Melnotte

[Escrevo um artigo sobre (in)felicidade nas organizações. Com a aproximação da paragem lectiva de Carnaval, partilho este parágrafo:] 

Sem que se absolutize o famoso sétimo dia da criação, percebemos a importância das paragens para a felicidade. Melhor, para saborear a felicidade presente na Vida. As pausas, em folgas ou férias, não são um luxo, mas uma necessidade para que cada pessoa possa restabelecer o seu equilíbrio humano, onde se inclui o produtivo. Já se legislou tempos de trabalho e tempos de descanso, começa-se a entrar no cúmulo o ter de se legislar sobre horas de leituras de mails profissionais. Algo tão natural deve ser o respeito pelo tempo livre de quem trabalha, dando-lhe tempo e espaço mental e afectivo para algo tão importante como a família, os amigos ou, simplesmente, estar consigo mesmo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Agradecer



Eric Songbill

Há dias cheios. Ao chegar a casa, detenho-me no primeiro ponto do exame de consciência: agradecer. Nem faz sentido seguir para os outros pontos. Revejo os momentos, as pessoas, os pequenos e grandes “olás” pelos corredores fora, as aulas em que alunos expressam de alma palavras que falam de liberdade e criatividade, as boas conversas que o bosque sempre proporciona… e agradeço. Nas leituras de hoje, dia da cátedra de S. Pedro, Jesus dá ao apóstolo o poder de ligar e de desligar o céu e a terra. Sem qualquer pretensão de sentido papal, fica-me, sim, o eco de que cada um de nós pode ser pontífice, na construção de pontes que promovem encontro, amizade, que ajudam o caminho de aprendizagem. E o mundo expande-se na beleza de mistério em revelação. No final deste dia, simplesmente, agradeço. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Deus da Paz



Faisal Mahmood/reuters

- P. Paulo, podia arranjar-me uma bíblia em árabe?
[Como conversamos com o tradutor do google, quis certificar-me:]
- Bíblia ou Corão?
- Bíblia. Nós somos muçulmanos, mas não radicais. Quero saber mais.
- Irei encontrar, sim.
- Também quero ir à Igreja. Temos de rezar com quem nos acolhe tão bem.
- Então, combinamos um domingo que possam, venho buscar-vos e vamos à celebração que eu costumo ir.
- Com muito gosto. O Profeta não é da violência, como muitos têm feito em nome dele.
- O nosso Deus é Deus da Paz.