quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Desabafos sobre a mística e a humanidade.



Robin Hammod, “Lagos - Nigéria”


Nos últimos dias, em âmbitos diferentes, tenho tido conversas sobre a mística. Tanto da sua importância, como da falta dela no nosso mundo. A mística pouco ou nada tem que ver com arrebatamentos espirituais, em transes de loucura, nessa concepção ridícula que se tem dos crentes. A mística também tem que ver com o sentido de descobrir o “para além” da realidade. Recordo Lucio Fontana, pintor argentino, que ao traçar as telas convidava a que não se ficasse apenas pela contemplação da mesma, indo mais longe no ver das coisas. Acrescento outro verbo: o escutar. Sim, ver e escutar a realidade que nos envolve de modo a ter sentido crítico e que nos ajude a converter, a humanizar. Nestes dias tem-me sido difícil ver e escutar. Têm sido muitos os “gritos” e as imagens que surgem a partir dos recentes acontecimentos com maior destaque em Paris, mas também na Nigéria, na Síria e na Arábia Saudita (entre outros). “Gritos” e imagens à volta da religião, da sociedade, da identidade, ou melhor, da busca dela. Ajuda-me ter amigos de muitos quadrantes e feitios para não me ficar pela crítica fácil às realidades, e foram muitas as boas conversas que me fizeram desmontar e apurar o ver e o escutar. Por vivermos no emotivismo, facilmente se vive ora em apogeu, ora em declínio, num complexo narcísico colectivo. A rapidez das redes sociais, que para muitos constitui o lugar da verdade absoluta (se antes era “aparece nas notícias, logo é verdade”, agora junta-se “se aparece no facebook ou no twitter, logo é verdade”), pode impedir o sentido crítico e, muitas vezes, a noção de bom senso diante das pessoas ou dos acontecimentos. Na sociedade está-se a perder a transcendência, ou por outras palavras, o Outro. O Outro que me convida a ver de forma diferente. Não para mudar radicalmente, mas para perceber que não estou sozinho no modo de pensar ou viver, seja de forma pessoal, seja colectiva. Tal não vai de “Eu sou” ou “Eu não sou”, nas diferentes alusões de busca de afirmação identitária. Tenho para mim que muita gente não sabe quem é verdadeiramente, agarrando-se à manada colectiva, garantido assim a segurança da existência nesse marrar contra algo. E isto acontece a nível social, político e religioso. Nestes dias a pensar sobre isto da identidade, isto do ser., dou-me conta que nem “sou Charlie”, nem sou “não sou Charlie”. No fundo, espero que sejamos mais do que essas definições. Espero que consigamos ser plenamente humanos. A reconciliação é um processo muito complexo, mas parece-me ser a chave para começar a entender, nos dias de hoje, a beleza da humanidade. Não numa abstracção diluída, mas em rostos concretos. Percebe-se que é uma questão de pessoas. Sim, as pessoas que os políticos, que paradoxalmente também o são, continuam a esquecer em nome de números, melhor, de cifras económicas. Como pessoas, há o profundo desejo de encontrar sentido na vida. Fomenta-se a formatação de conteúdos e impede-se a educação ou formação sobre os valores. Dar pilares profundos de existência, para que na construção da vida, havendo derrocadas, possam manter a estrutura fundamental da humanidade. Tudo em nome da poupança para colmatar défices. Pois, mas as más gestões, alienadas da responsabilidade  pelo Outro, pensando no “meu” poder, dão resultados que estão à vista. E temo que possa sair ainda mais caro… não em termos de dinheiro, mas em humanidade. Porque é que se esquece a história tão rapidamente? Talvez porque não se conheça, não se tenha estudado e não se tenha pensado dentro das ciências humanas. Mas isto… é o meu lado ingénuo e utópico… e a imensa força interior que me agita em querer contribuir para um mundo mais humano. Respiro fundo e sigo em caminho de conversão, na descoberta e vivência da mística.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Contra os atentados na Nigéria




Ontem, sem esperar, acabei por participar noutra manifestação, à qual também iria se soubesse que tinha sido convocada: contra os atentados cometidos por Boko Haram na Nigéria. Foi no Trocadéro. Estaríamos umas 300 a 400 pessoas. Nada que ver com o milhão e meio de há uma semana atrás. Como não podia estar muito tempo, fiquei o suficiente para rezar pelas milhares de vítimas, pelos terroristas, pela paz no mundo, em especial no coração de cada pessoa. Nestes últimos dias, tenho lido textos que destilam ódio contra os terroristas, contra a religião (em geral e em particular), contra os não crentes, onde se generaliza com uma brutalidade que, como já escrevi noutro post, se essas palavras fossem balas, facadas ou bombas, haveria muitos mortos… incrivelmente também em nome da liberdade de expressão (até sinto algum receio em usar o termo). Sim, há que combater a atitude terrorista, não só de lá longe, mas muito do que há “ao lado”, onde germina muito mal nas relações humanas e sociais. Infelizmente, os interesses económicos e de poder, em especial político, de alguns para alguns condicionam bastante a possibilidade da paz. No entanto, não me deixando alimentar pelo desespero, no quotidiano tento promover a paz, o respeito e, sim, a liberdade. Entre outras coisas, a rezar e também a escutar o outro, para além das diferenças que possamos ter em relação ao modo de pensar e habitar no mundo. 



domingo, 11 de janeiro de 2015

Paris saiu à rua contra o terrorismo



Paris saiu à rua. Literalmente. Já no metro apercebia-me que ía muita gente à marcha contra o terrorismo. Com o medo no ar, pois uma ou outra estação de metro acaba por fechar devido a um “Coli suspect”. Pode ser esquecimento, mas, infelizmente, há pessoas que brincam com a situação, como a senhora francesa que gritou do hotel da EuroDisney que era Haya [a mulher co-autora do 2.ª ataque em Paris], que levou à evacuação de todo o parque. Seja como for, esta também seria uma marcha contra o medo. Já se viu que estava muita gente. Foi bonito de ver a dignidade, entre o silêncio e as palmas, de todas as pessoas. Novos, velhos, famílias, estrangeiros de muitas nacionalidades, ateus e crentes (entre judeus, muçulmanos e cristãos) davam rosto à humanidade. Nos momentos mais silenciosos, rezei pela paz e, além das 17 aqui em Paris, rezei pelas cerca de 2000 pessoas que foram igualmente assassinadas na Nigéria pelos radicais terroristas Boko Haram, que não se coibe de fazer mulheres e crianças de bombas. Recordei também as que morreram em Tripoli, Líbano, em ataque terrorista. Não posso pedir apenas pela paz no cantinho onde estou ou quero estar confortável. Se hoje se juntaram milhão e meio de rostos que dão forma à humanidade, biliões de outros estão por esse mundo a desejar a mesma paz. Esperemos que se façam as devidas reflexões sobre todos estes acontecimentos, pondo de lado interesses económicos e de poder. Já no final, quando me aproximava de Nation, aconteceu algo para mim muito simbólico. Esta manifestações são lugar de encontro de humanidade, pois bem, no meio de tanta gente vivo o encontro com o Denis e o Rafael, dois grandes amigos. Foi simbólico, pois também é isto que quero promover na minha vida: encontros e abraços de paz. 






Em marcha pela Paz




Muita gente. Famílias, velhos, novos, silêncio, palmas, som de passos. Comenta alguém: "normalmente quando há manifestações as pessoas põem-se à janela a ver. Hoje não há ninguém. Percebe-se que estão aqui." Fala-se muitas vezes de humanidade, que se pode perder no abstracto. Neste momento vejo muitos rostos que a tornam concreta. Por estas ruas, com a nossa presença, pede-se o fim do terrorismo, o fim do fundamentalismo.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Sobre o mal...



Van Gogh

Eu já desejei a morte de alguém. Não me orgulho disso, não tenho qualquer satisfação por ter vivido esse desejo, nem nenhuma vontade que surja novamente. A recordação deu-se hoje de manhã, enquanto rezava tendo em mente tudo o que se passou aqui em Paris e, um pouco mais longe, na Nigéria. Depois expandiu-se em pormenores nesse tempo da minha vida. Conto um episódio. Estava na despensa de casa, ia buscar algo e ouvi a minha mãe comentar com uma vizinha que eu estava a crescer. Notava-se pelos sapatos. Apertavam-me. Na altura não era tempo de comprar muitos sapatos, mesmo se o crescimento era rápido. A minha mãe chegou a ficar 5 meses sem receber o ordenado. Era, como em muitos sítios infelizmente continua a ser, coisa normal: atraso no pagamento do ordenado. Voltando aos sapatos, a sugestão: fazer um corte à frente e assim duravam mais tempo. Por mim, sem problema. Dia de escola. Naquela altura era tímido, introvertido. Ora, sapatos cortados levaram ao gozo, muito gozo, em risos sarcásticos, a apontarem, com empurrões: “anda na moda!” “O panasca agora dá ar aos pés!” “Até sai cheirinho!” Gozo, muito gozo, risos sarcásticos. Este tipo de situações, como já por cá comentei, duraram anos. Sim, recordo o pensamento em desejar a morte dessas pessoas: “Que desapareçam da minha vida!” Estava tão cansado. Nessa mistura de sentimentos, o medo aprisionava-me e ajudava o ódio a crescer. Apesar de tudo, por muitos factores, não me deixei vencer por eles. Porque conto isto? Por tanto…, sobretudo por não ser nem político, nem governante de uma nação: como tal não irei tomar decisões ou medidas de fundo contra o terrorismo. Mas posso estar vigilante e preparar-me para não permitir que, p. ex., o ódio tome conta do meu ser e passe a controlar-me. É isso, estar atento, reconhecendo, como partilhei, que em mim também existe o combate entre o bem e o mal. Sim, irei amanhã à manifestação aqui em Paris contra o terrorismo. Continuarei a fazer o que posso ao nível social para mostrar a minha repugnância contra o fanatismo e extremismo seja de que espécie for. No entanto, para que isto tenha pleno sentido, vou fazer os possíveis para estar consciente do mal que também há em mim, para combatê-lo como posso, com ajuda de Deus e de outras pessoas, no tempo e na medida certos, impedindo que afecte seja quem for. Agradecido por ser livre, sem esquecer a história, calço os sapatos e continuo o caminho da conversão.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Respeito




Ao longo do dia andei pela cidade. Há mais polícias e exército armado. Houve mais situações de tristeza, como se sabe, pelas notícias e declarações. Se se encontra algo perdido com ar suspeito, tudo pára. Mas o que mais me tocou foi o telefonema de uma amiga francesa, em resposta à mensagem de voz que deixei ontem para lhe dar o olá de bom ano… e que nada tinha que ver com os acontecimentos. “Obrigado Paulo por teres ligado ontem! Soube-me muito bem escutar-te e dizer que rezas por mim. Um dos jornalistas era um dos meus grandes amigos. Já não tenho lágrimas para chorar. Por ele, por tudo.” De repente senti-me ainda mais próximo do ataque de ontem. Tal como me sinto próximo do Médio Oriente ou de África, quando, por exemplo, jesuítas dessas terras que vivem ou estudam comigo comentam das pessoas que conhecem que foram assassinadas. Têm de se fazer reflexões muito sérias sobre estes acontecimentos, mas não é hoje, nem nestes dias que se seguem. É muito cedo, pois neste momento fala o emotivismo e, normalmente, não é nem bom leitor, nem bom comunicador. Foram disparadas balas certeiras, mas as palavras em posts ou comentários agressivos por essa internet fora tornam-se balas que também matam de algum modo. É preciso mostrar que o medo não avança, e tal não pode ser com violência, gerando mais violência. É tempo de luto. E no luto há respeito. 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Paris, 7 de Janeiro de 2015



Acabo de chegar da Place de la Republique. Por ser um lugar emblemático para a Liberdade, foi aí que começaram a concentrar-se as primeiras homenagens aos assassinados de hoje na sede do jornal Charlie Hbdo. Entre gritos “Nous sommes tous Charlie” e momentos de silêncio, sentia-se o misto de agitação, choque e interrogação. Todo o atentado causa muitas preguntas. Fiz silêncio. Rezei pelos que morreram hoje de forma brutal e vergonhosa. Rezei pelas suas famílias. Rezei pela paz. Rezei pelos assassinos. Rezei por todos os jornalistas e polícias. Rezei pela liberdade. Rezei pelo futuro. Não se pode deixar que o medo assuma o texto principal. Há o lado humano, mas vai haver aproveitamento político. Sinto tristeza, e algum nojo, confesso, por saber que há quem esteja contente por isto. E depois, em nome de deus (não consigo pôr em maiúscula). Não, Deus nunca pediria este tipo de coisas. Essas pessoas não são religiosas. São fanáticas de algo, tal como são todos os fanáticos que vivem extremos de estupidez, mesmo sendo laicos, sem professar qualquer religião. Avizinham-se tempos ainda mais complexos. 







quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

[De passagem... ou sobre passagens]




Roark Nelson


Vivemos rodeados de simbolismo. Esta noite de 31 de Dezembro, que para milhões já passou, envolve-se de ritual. Em passas ou champanhe, de pé direito no chão ou a estrear cueca azul, independentemente das crenças, talvez alguma coisinha destas se fará. Seja como for, a passagem do tempo não é indiferente. Daqui a pouco vou até ali ao Arco do Triunfo, vai haver festa e eu gosto de festa. De certeza que haverá contagem decrescente, gritos, aplausos, beijos e abraços, banho de champanhe, com corações a palpitar pelos muitos desejos de coisas espectaculares, maravilhosas e extraordinárias para o novo ano. É isso, repete-se o ritual. Ora, estava aqui às voltas de pensamento com isto tudo e pensava na importância da mudança. Ou da não mudança. Cada pessoa deveria saber e viver o que há a viver. Tomar consciência do que é que tem de mudar na sua vida e fazer os esforços para que tal aconteça. De nada serve a mudança de relógio, se me resigno à realidade que me afunda e desgasta. No entanto, também pode acontecer que é altura de aceitar a estabilidade do que me é dado a viver, sem provocar qualquer ou mesmo nenhuma mudança. O critério? Encontrar profunda paz interior, aquela que diz: “é por aqui!” É certo que esta noite se reveste de simbologia, mas o grande símbolo está presente na busca da autenticidade, no desafio do conhecimento de quem somos e do que mais necessitamos para nos podermos amar a nós próprios, com qualidades e defeitos, e tentar amar os que estão à nossa volta (sei que por vezes esta última parte é muito difícil e tal é compreensível, mas vá… já sabem que puxo para a humanidade ;) ). Talvez se possa tomar consciência desta dimensão de amar na contagem decrescente desta noite ou de todas as outras noites a que somos convidados a viver. O meu desejo: estar atento às badaladas do coração, em sentido bíblico para além dos afectos é o local discernimento, para saber se estou ou não na altura de passagem de ano, de etapa, de acontecimento, de vida, abrindo-me à graça da oportunidade. Nesta noite simbólica, agradecerei a Deus pelo que aí vem. ;) Seja hoje ou ao longo dos vários dias do ano que entra, desejo boas passagens. Ah, e se puderem, dancem. :D

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Natal 2014




Uma pausa no "retiro" para partilhar sobre este tempo natalício, deixando também abraços. Nestes dias especiais, volto a rezar a partir do abecedário... assim, todos os nomes estarão contemplados. Um Santo Natal!

domingo, 30 de novembro de 2014

"Retiro de escritas públicas"




[A propósito de teses] Há uns tempos uma tese começou a sussurrar baixinho. Depois, em tom mais elevado: “não te esqueças das leituras!”; “Quando é que me começas a escrever?” E, claro, está na altura de lhe dar a devida atenção. Vai daí, pensei fazer um “retiro de escritos públicos” por algum tempo, dedicando maior concentração noutras escritas importantes. Tenho um carinho especial pelo Advento, por nos levar a Deus que assume plenamente a condição humana a partir da sua encarnação. Por os estudos se situarem precisamente à volta do Corpo, da corporeidade, hoje é um bonito dia para começar este “retiro”. Agradecido pelas leituras e partilhas, contem com a minha oração e pensamento pelas caminhadas e nascimentos de todos(as) os leitores(as), dos(as) mais ou menos conhecidos(as). É isso, rezemos ou pensemos uns pelos outros. :) Até breve! 

sábado, 29 de novembro de 2014

Confiança para ajudar a confiar


Ivan Lesica

Quando faço acompanhamento tenho como atitude base que a pessoa diz-me a verdade, sobretudo quando sei que vem de alguma situação de grande sofrimento ou trauma. Até poderá estar a mentir, como já aconteceu e eu estar a aperceber-me disso mesmo. Mas dou-lhe a minha confiança. Em situações de trauma, p. ex., pode ser uma defesa dessa pessoa e se se mostra "pé atrás" está-se a aumentar a desconfiança que já tem em tudo à sua volta. Os primeiros passos não são de "pô-la no lugar", mas de ajudá-la a encontrar-se, sentindo que tem diante de si alguém que acredita sobretudo nela, enquanto pessoa, para além do que diz. Depois faremos os possíveis para que siga no caminho de verdade consigo própria, nessa autenticidade que não julga, mas liberta. 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Final, que prepara novo tempo




Aaron Huey

[A minha homilia de hoje, cá em casa] Há passagens do livro de Apocalipse que são fantásticas, remetendo-nos a filmes do tipo “Senhor dos Anéis” ou “Hobbit”. Quase se vêem todos os efeitos especiais. Sim, estão carregadas de simbolismo. Nesta altura prepara-nos para o final do tempo. E é certo, daqui a dois dias começaremos tempo novo. Cada final prepara um princípio, uma nova etapa, uma nova fase. Hoje recordo os meus alunos… terminaram o 9.º ano e há todo o turbilhão de passar ao secundário. Depois, é o fim do secundário, com a separação de caminhos, não de amizades. Mas, com mudanças, crescimento que faz parte da ordem natural das coisas. Ai as festas de finalistas, com tanta agitação de emoções. É o final, sim que aponta para algo novo. Agita-se o coração a pensar “como será?” A inquietação do novo… e o Apocalipse mostra-nos, no meio da agitação, o som harmonioso de fundo que aponta para a nova Jerusalém. 

E em ligação com o Evangelho, percebe-se que, como Jesus nos diz, “passará o céu e a terra, mas as minha palavras não passarão”. Sim, passarão agitações, chatices, alguns bons momentos também, naqueles altos e baixos característicos do ser. Mas, Ele não passa, Ele fica. Sendo Jesus a Palavra feita carne (que o Advento nos vai mais uma vez preparar), ele não passa da nossa vida. Pode-se afastar ou silenciar para nos deixar crescer, mas não passa. Que pequenos “absolutos” estão na nossa vida que têm de passar? Sim, doenças, chatices com alguém, irritações, angústias de passado ou ansiedades antecipadas de futuro? Se vivermos com autenticidade, mesmo no meio dos combates, espirituais ou humanos, que fazem parte  “nada nos pode separar do Amor de Deus”. E isso também é a força que nos permite avançar para uma nova fase. Afinal, cada final prepara um princípio, uma nova etapa, um novo tempo.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Vejo-te ao longe



Duarte Bon de Sousa


Já te vejo, ali ao longe. É melhor atar os sapatos, tenho vontade de correr até ti. Estou com algum atraso. Enganei-me na rua. Talvez pelo hábito de “flâner” pelos caminhos, contemplando as surpresas daqui ou dali, não me apercebi que tinha de virar. É isto, de vez em quando surge a conversão, mas também é bom perder. Nem sei se é perder ou perder-me, impedindo que as proibições autoritárias cortem a liberdade. Vejo-te ao longe. Sorrio e: “deixa-te de divagações, já sabes que não é tudo ou nada. É o respeito por quem espera”. Sorrio mais ainda por saber que vou-te encontrar, abraçar outra vez, depois de tantos anos, e deixarmos conversar a saudade.

Cante Alentejano - Património Imaterial da Humanidade




[Coisas extra-quotidiano na vida de um padre] Como português, com fortes raízes vindas do belo Alentejo, fui apoiar in loco a candidatura do Cante Alentejano a Património Imaterial da Humanidade. No plenário da UNESCO foram apresentando vários projectos culturais do nosso mundo. É emocionante assistir e aplaudir às diferentes adopções das candidaturas. Quando chegou a vez de Portugal, com o Cante Alentejano, o coração palpitou e com a aprovação, no momento da ovação e do canto em directo, houve mesmo emoção. Na imensidão que é a cultura, tudo isto faz-me pensar sobre a importância das raízes humanas, nas palavras (em poesia e em canto, como no caso do Líbano e Portugal), no cultivo   e tratamento de produtos locais (como o Argão, em Marrocos), nas tradições religiosas locais, como as festas/procissão em honra da Virgem da Candelária em Puno - Perú), como a dança (o caso de Omã e Mongólia). O que é certo é reconhecimento do Cante Alentejano como Património Imaterial da Humanidade, que se junta ao Fado, é algo de dignificar as belezas do nosso país. Parabéns Portugal! Parabéns "mê Alentéju"!





quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Outras fontes



MS


[Secção outros tons] Aproximei-me da fonte. Depois de tanto caminho, por linhas tortas, estava na altura de parar. As leituras de Deus necessitam de respiro na compreensão. Estava brisa, bem suave. Tirei o chapéu, contemplei a planície. Depois do sol, estando à sombra, uns dizem a morte, eu prefiro a passagem angélica, em recordação de vida, passou por mim. Sorri. A caminhada foi longa, sentia cansaço livre. Abeirei-me. Com a mão em concha bebi do novo amanhecer, respeitando a promessa de que seguirei a cumprir o ser.

Papa Francisco na visita ao Parlamento Europeu e ao Conselho da Europa



Pool/Reuters

O Papa Francisco tem carisma natural. É notório. Gosto sempre de ver como cumprimenta as pessoas ao chegar aos sítios, como, p. ex. ontem, ao Parlamento Europeu e ao Conselho da Europa. À partida seria algo banal: põe-se o “sorriso 33” ou o “25” e já está. Pois, no caso dele, não. Há autenticidade a sair em cada expressão ou gesto. É sabido que é do melhor a quebrar o protocolo quando assim faz sentido. O que nele importa é a humanidade, o sentido da humanidade, tratando os outros, sejam crentes ou descrentes, como humanos (que devem ser tratados como sujeitos e não como objectos… e, infelizmente, é tão fácil objectivar o outro, desumanizando-o). Sim, é de ler e reler os seus ovacionados discursos ao Parlamento e ao Conselho, onde recorda tanto do essencial. Claro, não se fique pela beleza das palavras e dêem-se passos concretos pela humanização e pela paz. 

Discurso ao Parlamento Europeu:

Discurso ao Conselho da Europa:


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Escutar e Juízos




Lance McMillan

Num grupo de adolescentes que acompanho, para falarmos na capacidade de escutar, em especial o outro, comecei com um exercício de escuta de vários tipos de música. Enquanto ouviam cada música teriam de escrever o que sentiam ou surgia ao pensamento. Da mesma música, como se esperava, houve vários comentários ou reacções. Propus de seguida que se pusessem de pé, de olhos fechados, e escutassem as mesmas músicas com o corpo. Sim, não se ficar apenas pelo ouvido, sentindo as vibrações da música a partir das mãos, pernas, braços, cabeça, etc. As reacções foram muito engraçadas, pela novidade que se abriu. Entre outras, uma das conclusões foi: interpretamos a realidade de maneira diferente, ao nosso modo, como é óbvio, mas, como vimos, da mesma surgem várias perspectivas. Por isso, antes de se fazer qualquer julgamento, há que ter muita atenção às “vibrações” que circundam. Depois de as receber, é conveniente parar, respirar fundo e pensar, evitando fazer juízos que podem ser prejudiciais ao outro e à própria pessoa que os faz.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Respiro e embalo




Há noites, depois de dias agitados, que terminam bem com músicas de respiro e embalo. É isto. E faz-se silêncio.

Um dos lados negativos do facebook





Há pouco, um amigo avisou-me que viu um perfil com uma foto minha. Vi o perfil, falso evidentemente, e telefonei de imediato para a Polícia Judiciária, pois, além de usurpo de identidade (com duas fotos minhas, uma de perfil e outra com o meu pai, como sendo suas), constatei que entre as “amigas” [apenas tem “amigas”] havia fotografias de menores. A PJ não recebe denúncias ou queixas por telefone. Aconselharam-me a ir à Polícia aqui. Fui. Não posso apresentar queixa, por ser uma conta portuguesa. No entanto, ficou registado em ocorrência para me ilibar caso seja cometido algum crime ou delito a partir desse perfil. Na Polícia disseram-me que não tem perfil de pedofilia, mas de possível acção de burla (algo bastante frequente. Criam-se perfis falsos, com fotos simpáticas e acolhedoras, e depois de algumas trocas de mensagens, pede-se dinheiro por algo: saúde, viagens, etc.) Antes de denunciar no facebook, queria que a Polícia visse a conta, pois poderia ser bloqueada antes de se fazer algo. E se fosse situação de pedofilia facilmente poderia criar outra conta. Já denunciei como falso e a equipa do Sr. Mark Zuckerberg já o eliminou. Não é a primeira vez que lido com perfis falsos, por isso costumo estar muito alerta. Mas, claro, alguém com a mesma foto não vai pedir amizade. Estejam atentos, sobretudo pais e mães, que o facebook e afins também pode ter muito “dislikes”. 

domingo, 23 de novembro de 2014

Justiça




Rhys Logan


No dia em que a Igreja celebra Cristo Rei do Universo, aquele que julga justamente, vivemos intensos acontecimentos de questões, precisamente, de justiça em Portugal. Cada vez mais me convenço que um dos grandes pecados é o mau uso, indo ao abuso mesmo, do Poder. Seja político, económico, religioso, social, e também virtual. Virtual? Desde ontem tenho lido artigos, posts, comentários, com reflexões interessantes sobre a situação, outros que me dão que pensar sobre a humanidade que se vive. Sim, que se faça justiça, mas não se abuse dela em nome do poder, rejubilando por “sangue alheio”. Que não se mate pelas palavras, na agressividade que dói. Ontem saiu em liberdade Ricky Jackson. Esteve preso 39 anos, mais dos que tenho de vida. Todo o tempo inocente, de uma falsa condenação de homicídio. E afirma isto: “Acho que muita gente quer que eu odeie essa pessoa [que o acusou falsamente] e lhe transmita hostilidade, mas eu não. (…) As pessoas vêem-no hoje como um homem crescido, mas em 1975 ele era um menino de 12 anos, que foi manipulado e coagido pela polícia, que o usou para nos colocar na prisão. (…) Quanto ao que respeita a esse homem, desejo-lhe o melhor. Não o odeio. Desejo que tenha uma boa vida.” Li isto ontem. Hoje, na Missa, rezei em especial pela justiça em Portugal, sobretudo pelos que têm que manter a mão firme para além de jogos de poder, e por todas as pessoas, para que sigamos o caminho de humanidade. Com a consciência do difícil caminho que o mundo percorre, acredito que podemos ser mais humanos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Click to pray




[Pausa para boa publicidade] Começar a rezar à velocidade de um click. Seja a rezar orações propostas, seja a propor orações para rezar, aqui está um novo site e uma nova aplicação que permite começar a rezar à velocidade de um click: www.clicktopray.org

Missa. Jesus a chorar. Refugiado. Humanidade.




Jiang Xi

Enquanto celebrava Missa e imaginava Jesus a chorar diante Jerusalém [passagem do Evangelho de hoje], lembrei-me de muitos rostos e de algumas conversas como esta com um refugiado. Contava-me como pouco a pouco ia aprendendo o francês. 

- Às vezes custa, não é? Sobretudo a relação entre a fonética e a escrita.
- Sim, e os temas de estudo. 
- Como assim?
- Temas como “a casa”, por exemplo. Faz pensar a família.
- Tens conseguido falar com a tua família?
- Não sei nada deles há meses. É preferível que eu desapareça para que eles vivam, ou mantenham a vida possível.

[Depois de publicar vejo pelo facebook que um companheiro presente em Roma, numa conferência, publicou esta frase dita pelo nosso Padre Geral, P. Adolfo Nicolás: "Tenemos que aprender de los refugiados. Han perdido todo, pero no su humanidad. Quizás nosotros tenemos que aprender eso, a ser más humanos".]



quarta-feira, 19 de novembro de 2014

[Sem título]




Giorgio Lulli

As brumas envolvem
aqueles que pintam 
as letras e dançam
com as palavras
cinzeladas.

Em luar escondido,
o texto ganha contorno
amadurecido pela luz
da Estação.

A viagem é partilhada:
Rostos de lá,
silêncio de cá.

Desvelam-se 
novas páginas.

Vive-se o encontro.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Vistas





Sempre gostei de vistas vastas. Pontos altos, permitindo ver para além do horizonte imediato. Aí, sempre que possível, deixo-me escutar o silêncio enquanto observo. Nesse silêncio brotam perguntas sobre os sentidos da vida e da humanidade. As vistas ajudam-me a pensar que não é coisa pouca. Não pode ser. À partida parece óbvio, nem devia ser algo a considerar. Mas, meia volta, em nome do poder apenas de ou para alguns, menospreza-se tantos outros. Se na escala dos mundos somos irrelevantes, na escala de Deus cada ser humano é universo. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Crescer




Joe Hsu


Das coisas que mais me têm ajudado na fé, uma é descobrir Deus que convida a crescer: não sendo paternalista, não infantiliza. Talvez seja mais confortável uma relação de cumprimentos e piedosa: “cumpro, rezo tudo e mais alguma coisa, logo está tudo bem!” Talvez seja necessário passar por essa fase, mas… é isso, passar. No fundo, é a passagem pelas várias imagens de Deus para deixar cair ídolos que facilmente se constroem. Claro, como Deus convida a crescer, convida a desmontar o que vai para além do Amor. E o Amor, o verdadeiro Amor, não prende, não pressiona, tira a estabilidade… para fazer-nos ir ao essencial: a Deus, que convida a crescer.

domingo, 16 de novembro de 2014

Entre talentos, dons e capacidades.



Paulo Teia,sj


[Secção outros tons] Dou-te talentos: cria. Deixa que as mãos moldem a terra, semeando possibilidades de poemas. Dou-te dons: anuncia. Trabalha a voz, aprende a palavra, nesse canto que evoca paz, perdão e justiça. Dou-te capacidades: serve. Desenrola-te, em rosto frontal e braços dispostos em oferenda, de tempo e de espaço. E se o medo aparecer, poda-o. És chamado a fazer caminho.

sábado, 15 de novembro de 2014

Fecho a noite




Massimo Gugliucciello


Fecho a noite
com a escuta.

Entre movimentos,
o presente clarifica-se,
o coração aprende.

A morte abre-se
à Vida.



Oração. Fé. Justiça



Kiet Vo

[A minha homilia de hoje, cá em casa] Quantas vezes não ouvimos: “Deus não me escuta”; “Deus não atende as minhas preces”; “bem que rezo, mas de nada serve.”; ou outros desabafos semelhantes? No evangelho para hoje Jesus vai ao ponto: “orar sempre sem desanimar”. Mais uma vez, com um exemplo muito concreto, não só mostra a força da oração, como também aborda a questão da fé e revela um pouco mais quem é Deus. 

Posso pensar: como é que rezo? Como é a minha oração? No fundo, como é a minha relação com Deus? E nessa relação, como vivo a fé em mim e em Deus? Jesus não tem problemas em fomentar a oração de petição, destacando nesta passagem a oração a pedir justiça. A oração de petição permite-me o reconhecimento da necessidade de ajuda. Não podemos esquecer: somos seres em relação, entre nós e com Deus. A oração deve ser esse espaço de encontro, onde também se pede o que se necessita. Mas é para pedir com fé. E a fé pode implicar insistência, naquele pedido que não desanima. Ou seja, não perde a vida enquanto não é concedido. O problema surge quando se perde essa vida, achando que Deus não escuta. Noutra passagem evangélica, a mulher com hemorragia é curada pela sua fé. Desde as entranhas acreditou que bastaria tocar no manto de Jesus para ser curada. Na passagem de hoje, outra mulher, mesmo estando diante de um juiz iníquo, não deixa de acreditar na justiça a ser feita.

Deus é o Deus da justiça, sobretudo pelos mais fracos e desprotegidos. Não é por acaso ser uma viúva uma das personagens da parábola. A oração faz com que, sobretudo no momento em que me sinto mais vulnerável e desprotegido, perceba que Deus não desampara e está lá. A fé vai-se alimentando aí, nesse Deus que, sim, escuta e deseja a justiça. E percebe-se que fé não é sentir conforto, mas precisamente o incómodo que nos põe em movimento na busca da justiça, seja pessoal, seja para os que mais necessitam.


Sim, posso pensar: como é que rezo? Como é a minha oração? No fundo, como é a minha relação com Deus? E nessa relação, como vivo a fé em mim e em Deus?

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Crónica iMissio: Há textos que vão-se sabendo de [...] coração (II)




Há textos que vão-se sabendo de cor, ou seja, de coração. Vão-se entranhando, tornando-se parte de nós. Foi assim que comecei a crónica da semana passada. Recordo bem o que tinha em mente quando a escrevi. Pensava na oração, na liturgia das horas, onde os salmos ou cânticos vão-se repetindo diariamente, semanalmente ou de 4 em 4 semanas. Depois, pensei em tantos outros textos, que nas mais variadas razões vão-se repetindo, saboreando, e, sim, entranhando, tornando-se parte de nós. Não sonhava que uma semana depois de o ter escrito (sim foi na 5.ª feira à tarde) iria ver, melhor, estaria literalmente em palco numa peça de teatro que andaria à volta disto do saber de cor… de coração.

Um companheiro jesuíta já me tinha falado da peça de um português que estava em Paris. Mas, depois de dias agitados com tanto, acabei por me esquecer. Até que na 4.ª feira, em leituras à volta da teologia estética, lembrei-me: “a peça que o Manel me falou!” Fui pesquisar e estaria em cena até 6.ª feira. “Só posso ir amanhã!” Comprei o bilhete on-line. Continuei, tal como na quarta à tarde, em leituras à volta da teologia estética: “(…) Dostoievsky afirma, com referência a Cristo, que a beleza salvará o mundo. Ou recordando Jean Anouilh que escreveu, numa das suas obras: ‘a beleza é uma das raras coisas que não leva a dúvidas sobre Deus’” [Gesa. E. Thiessen]. Inevitavelmente, acabei por recordar o final do discurso de Bento XVI, no seu encontro com o mundo da cultura portuguesa no CCB: “Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza.” 

Aproxima-se a hora. Saio de casa. Chego ao teatro. “By heart”, chama-se a peça, escrita, encenada e interpretada por Tiago Rodrigues. Ainda perguntei à senhora que recebia os bilhetes, tendo em conta que os lugares não eram marcados, qual o melhor sítio. “2.ª ou 3.ª fila, a meio. Mas verá, toda a plateia tem boa visibilidade”. Sentei-me na 2.ª fila. Saliente-se que o actor já estava em cena. Esta técnica dá-me sempre que pensar. Já está a acontecer. É isso. Não há um pano de palco na vida, ela está sempre a acontecer. As pessoas falam, ele lê um livro, e é isso, já está a acontecer. A vida está sempre a acontecer. Recordei o “Talk Show - até se apagar o corpo”, uma coreografia de Rui Horta, em que já está acontecer algo quando entramos… e tudo começa com um transplante de coração. O actor lê, até se levantar e, em francês (toda a peça é em francês): “Preciso de 10 pessoas que ocupem estas cadeiras vazias.” Risos, agitação. “Não se apressem. (…) Bem, dizer que essas 10 pessoas vão ter de, ao longo da apresentação, aprender de cor alguns versos de um poema”. Risos, agitação. Aproxima-se uma senhora. Alguém mais. Outra pessoa. E outra. Lancei-me também, ocupando o lugar ao lado do banco do autor. 

Dá-se uma viagem pela literatura. Onde George Steiner é citado a partir d’ “O belo e a consolação”. Ri por dentro, recordando as minhas leituras da tarde. O saber de cor, no coração, sim, onde se guarda a força dos afetos. Aprende-se de cor, mais do que memória mental, o que se ama ou quer fazer viver. No coração guardam-se versos de poemas ou capítulos de textos que nenhuma polícia ditatorial poderá mandar queimar. Aí, de cor, ficam a amadurecer as palavras que fazem sentido à vida. Em jeito de recordação no ritual judaico, onde o mais novo pede ao mais velho para repetir a história dos antepassados. A explicação de toda essa viagem: a avó Cândida que sempre leu durante toda a vida. Mesmo preparando bacalhau no restaurante que abriu com o marido, passando também a 2.ª guerra mundial. A mistura do banal com o profundo, as palavras e o sentir ecoavam-me… e voltava aos versos de Shakespeare que todos tínhamos de aprender de cor.

Em jeito métrico, como instrução primária, lá repetíamos. Eu ouvia os risos do público, ou o sussurrar tentando também aprender. Vulnerável, sentia-me. Às vezes perdido. Como alguns outros, que não conseguíamos “de-cor-ar”. Sentia a face a aquecer, outros viam o rubor em contraste com o casaco verde, que disparou quando, chegou a minha vez de aprender o verso individual. Diz o actor: “‘Je souffre au dur retour des tourtures soufferts.’ Este é difícil para um português. Vamos?” Começo “Je souffre au…” Olha para mim: “É português?” Aceno que sim. Gargalhada geral. Senti o verso em mim. Depois, enquanto outros aprendiam os seus versos, estando eu naquela perspectiva, observei uma ou outra vez aqueles que da plateia assistiam ao entoar da “cantilena shakespereana”. Braços cruzados. Queixo apoiado na mão. Corpo deslizado na cadeira. Muitas pernas cruzadas. Risos. Ar de cansaço. Tanto a saber de cor na vida. O saborear da literatura que também nos transporta para o mais que somos. A avó Cândida teria de ir para o lar. O neto oferecia-lhe livros. Até saber que iria ficar cega. E aí tudo muda. “Saber de cor um texto, para o ler mentalmente quando já não possa ver.” A oração do peregrino russo: repete-se, repete-se, repete-se, para que todo o corpo reze esse versículo. A beleza das palavras que assumem corpo, que tornam-se carne. Afinal, o Verbo fez-se carne. Sim, a Palavra que disse “faça-se luz” assume a humanidade plenamente. E antes de morrer e ressuscitar, deixa-se em eucaristia, acção de graças, de pão e vinho, a serem comidos e bebidos como Corpo e Sangue por nós, para sermos o que Ele é: vida em abundância a ser dada.

No final, os 10 fomos contemplados com algo. Ironia das coisas. Tendo-se recordado antes o profeta Ezequiel, que teve de comer as palavras que iria proferir em nome de Deus, foi-nos dado a comer os versos escritos em “pão de hóstia”. Mais uma vez recordei a crónica da semana passada: Às vezes faz falta mastigar a palavra. [Pois] “não é o muito saber que sacia a alma, mas sim saborear as coisas internamente” Sto. Inácio de Loiola. Alguém comentou: “mas é religioso?” Eu ria-me. Não, não é. Ou apenas será, apeteceu-me responder, se deixarmos que a religião seja o que ela também deve ser: re-ligar o que a humanidade separou da divindade. Não comi todos os versos. Parei a meio, pensando, vou guardar algo de “re-cor-dação”. E o que não comi, dando-me conta quando vi? “Íntimos remorsos; retorno das torturas; dor; feridas reabertas”. Sorri e pensei: “Não como, mas escuto muito disso nas confissões, ajudando a libertar-lhes, em nome de Deus, o coração.” 

Depois do espectáculo, fui ter com uns estudantes que faziam uma peregrinação nocturna à basílica do Sacré-Cœur.

A beleza disto tudo? Saber que a vida tem imenso de misterioso a saber “by heart”.  

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

"By heart" de Tiago Rodrigues



Soneto comido


[Coisas extra-quotidianas em Paris ou coisas na vida de um padre] Fui ao teatro ver “By heart” de Tiago Rodrigues. A peça tem como pano de fundo a avó Cândida. Sabendo-se a ficar cega, pediu ao Tiago que escolhesse um livro para aprendê-lo de cor e assim poder lê-lo mentalmente quando deixasse de ver. Na folha de sala: “lancei-me numa viagem. Uma viagem literária e labiríntica que, ainda hoje, continua”. O actor chama 10 espectadores, à sorte. Lancei-me. A peça deu-me que pensar. Havendo momentos de humor inesperado, nisto de ser(mos) português(es). No final, os 10 comemos, literalmente, o soneto de Shakespeare que fomos convidados a saber “by heart”, “par cœur”, de cor. Não o comi todo e até são curiosas as palavras que ficaram. De seguida, fui ter com estudantes que iam de peregrinação de Notre-Dame de Paris até à Basílica do Sacré Cœur. Amanhã, na crónica no IMissio (por tudo isto acabar por estar ligado com a da semana passada), desenvolverei um pouco mais.


Escravidão... e liberdade




Teruo Araya

[A minha homilia de hoje, cá em casa, onde celebrei Missa pela dignidade do e no Trabalho] 

O Reino de Deus não é um local ou um espaço, mas o modo de agir a partir da fé, da esperança e da caridade. A presença de Deus é perceptível pelos gestos que humanizam o outro. Por vezes podem ser muito subtis, apenas conhecidos por quem faz a caridade. Outras, é um apelo generalizado, quase em grito, pelos que sofrem, sobretudo, a injustiça. Já naquele tempo, em que a escravidão era permitida (mesmo no meio cristão), S. Paulo começa a dar a volta a esta ideia, explicando que o escravo deixa de o ser por ser um irmão. 

Onésimo fugiu. Todo o escravo deseja a liberdade. E impressiona como na actualidade há tanta escravatura. Não é apenas lá, nos chamados países de terceiro mundo. Basta pensar aqui ao lado, onde, por exemplo, filipinas são submetidas à escravatura doméstica em casas de gente rica de dinheiro, mas miserável em humanidade. Ou na escravatura sexual que é cada vez maior por esta Europa fora. Em Portugal, há muitas empresas que, sob ameaça de despedimento, impedem que as mulheres engravidem, tudo em nome da produção e da economia. Ou então, aproveitando a “abundância” de gente em procura de emprego, mantêm os empregados em condições de exploração. Volto a estas palavras de S. Paulo: “Talvez ele se tenha afastado de ti, Filémon, durante algum tempo, a fim de o recuperares para sempre, não já como escravo, mas muito melhor do que escravo: como irmão muito querido. É isto que ele é para mim e muito mais para ti, não só pela natureza, mas também aos olhos do Senhor. Portanto, se me consideras teu amigo, recebe-o como a mim próprio.”


Assim,  trago para esta Missa todas as pessoas que estão submetidas à escravidão e todos os que a mantém escravos. Que o Reino de Deus se possa manifestar nos corações de uns e de outros. Dos escravos, mantendo viva a fé e a esperança da liberdade. Dos que escravizam, apelando à consciência de que também eles são escravos da desumanidade, permitindo-lhes ver que a caridade também é o caminho que têm de seguir para a liberdade de todos.