domingo, 24 de setembro de 2017

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Jonathan Ernst/Reuters

[Secção pensamentos soltos após leitura de algumas páginas da recente carta de “correcção filial” ao Papa francisco] Cheguei há pouco de Soutelo. Estive a orientar Exercícios Espirituais. Sinto-me profundamente agradecido por ver como Deus trabalha no coração de quem se deixa amar em verdade… em profunda verdade consigo mesmo e com Ele. É um desafio estranho, que nos pode levar por caminhos de maior abertura ao imenso que Deus nos pode propor. Além do mais, a beleza da conversão, em perceber como se podem derrubar pequenos e grandes ídolos, até mesmo de imagens de Deus, chegando um pouco mais ao “Deus clemente e compassivo, justo e cheio de misericórdia” que o Salmo de hoje nos recorda. Também tem que ver com o Evangelho de hoje: todos recebem um denário: tanto os que trabalharam o dia inteiro, como os da última hora. Todos recebem o mesmo. Injusto? Sim, se não se compreender o amor de Deus. 

Depois da chegada, passo os olhos pelas notícias online e vejo que houve a publicação de uma carta de “correcção filial” ao Papa Francisco. Só o título da carta causa-me bastante incómodo, junto com o uso do sete, número bíblico da plenitude, na enumeração das “heresias”, ainda mais escritas em latim. Comecei a ler e apenas continuei por esta mania minha de tentar pôr-me no lugar do outro sem julgar. Mas, chega a um ponto que, de momento, não consigo seguir para mais páginas, já que me apercebo da falta de conhecimento do terreno, da “adamah”, das vidas concretas das pessoas, em resumo, do sério sentido do mistério da Encarnação. Ecoa-me o evangelho, onde os trabalhadores de todo o dia gritam a injustiça, em atitude de corrigir o dono da vinha: “Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor.” 

O preâmbulo de que são movidos pela fidelidade a Jesus e amor à Igreja, impele à “correcção”, com as justificações bíblicas e teológicas para o fazer, levando à acusação de heresia. Isto porque algumas publicações e afirmações do Papa Francisco provocaram escândalo. Mas, que tipo de escândalo? De se deixar de segregar pessoas? De se abrir portas às conversões profundamente humanas e espirituais sem ser ao ritualismo? De ajudar a que as pessoas possam conhecer o Deus da liberdade que tanto incomoda a quem gosta de ter gente subjugada a regras moralistas e castradoras? De promover a possibilidade de dar a conhecer uma Igreja que acolhe, recebe, compreende, porque ela mesma, Igreja, recorda que se envolveu com o poder que a levou a rejeitar, segregar, inclusivamente matar, percebendo, então, que por aí não era o caminho? Vamos ver, que se possa discutir teologicamente, também a partir dos dados que todas as ciências na actualidade  nos dão, os argumentos, as interpretações, de forma construtiva do modo a ajudar a crescer este grande Corpo místico de Cristo: bendito seja Deus. Agora, que se queira, sete séculos depois, na atitude paternalista que tanto jeito dá em subjugação, repetir a “correcção filial”, é de andar-se a desejar o poder que não é de Deus. 

Francisco continua a não responder a este tipo de atitudes. A melhor resposta é o testemunho. Podem fazer muito ruído com argumentos de “escândalo” e de “promoção de perda de unidade e da fé católica”, mas a autenticidade com que Francisco mostra o profundo amor que tem por Deus e pela Humanidade, é silêncio habitado por justiça de, voltando ao Evangelho de hoje, quem dá o igual pagamento a todos. Isso, para quem quer ser segregacionista, é difícil de suportar, percebendo-se facilmente a amargura nos seus corações. Quer queiram, quer não, a grande manifestação de fé é a alegria de quem é capaz de amar profundamente o Deus do amor e o próximo como a si mesmo.

Espera, sem cansaço



[Secção outros tons] Espero por ti, sem cansaço, entre cores da tua estação. Nunca te tirarei a liberdade dada, mesmo sabendo que poderás não querer voltar. Espero por ti, sem cansaço.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O luto pede silêncio




O luto pede silêncio. E assim tenta-se escutar os sentimentos que brotam em perguntas. De fundo, há confiança na Vida já abraçada. Essa fé que ilumina novos tempos. As perguntas são do aqui e do agora em renovação, onde o essencial quer ganhar sentido. Do legado dos que partem deveria ficar a vontade de amar (ainda) mais. Só o profundo amor acalma todas as perguntas. Para a ele chegar, o caminho continua a ter de ser feito com muito silêncio, abandono e agradecimento. Até breve, Companheiros. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Anoitece




[Secção outros tons] Anoitece: no silêncio surge a oportunidade de perceber a luz de tantos momentos vividos.

Amanhece



[Secção outros tons] Depois da oração da manhã.

domingo, 17 de setembro de 2017

Perdão e vida




Tony Burns

“P. Paulo, sinto-me lixo por tudo o que fiz.” Recordei esta expressão, dita por alguém que viveu um caminho de conversão, ao rezar os textos do dia de hoje. A sua vida foi marcada por muitas atitudes e comportamentos deploráveis. O processo de conversão começou quando deparou-se com a doença mortal. Passou pela revolta e negação até perceber que não teria muito mais tempo de vida. “Quer viver em amargura até ao momento da passagem? Ou permite-se amar-se apesar de tudo?” Estas conversas nunca são fáceis. Entre afirmar a realidade e ajudar a vivê-la com serenidade são horas de respeito. O livro de Ben-Sirá recorda-nos hoje que podemos viver amargados e amargurados com a podridão das nossas faltas para connosco próprios e para com os outros. Se faço mal, eu sou o primeiro visado. O mesmo livro recorda o fim da vida como momento em que nos confrontamos com a nossa realidade, exortando-nos a sair do ódio. Podemos ter feito do pior, mas Deus está pronto a perdoar e a dar uma nova oportunidade em mostrar-nos que das suas mãos criativas nunca sai lixo, mas beleza. “P. Paulo, apesar das dores horríveis, sinto como nunca senti a paz do perdão.”

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Cadernos e deserto




Casey French

Encontrei dois cadernos daqueles onde vou escrevendo os pensamentos. O mais antigo tem mais de 10 anos. Não resisti a folhear. Surgiram muitas memórias. Tanto que já passei desde aí. Houve momentos em que escrevia mais, outros apenas uma palavra, com saltos de meses sem registar o que fosse. Desperta a recordação: o silêncio aconteceu em aparente deserto interior. Na altura, sentia-o, como se nada houvesse em mim, tanto de fé, como de emoções. Com esta distância, apercebo-me do engano. Afinal, houve muita agitação de busca da identidade e da vocação. Ser padre ainda era algo tão longínquo, parecendo quase impossível de vir a acontecer. Na altura, marcou-me a passagem do profeta Oseias: “vou levar-te ao deserto para falar-te ao coração”. No aparente deserto, o silêncio permitia os gritos de entranhas, libertando perguntas que me fustigavam o ser. Apesar do misto de vergonha, medo e pudor, fui libertando as amarras da pseudo-deferência diante de Deus. Os desertos, em geral, são metáforas de morte. Com Deus, são travessias de Vida. Vou continuar a folheá-los e, em oração da noite, agradecer o muito vivido.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Aroma de chá




[Secção outros tons] A terminar o dia.

Família alargada




[Secção animais] A Crunchie e o Bumby tiveram 3 crias, já todas a animar crianças. Entretanto, já na casa de Verão (sim, estiveram de férias do dono), tiveram mais 7. Já estão crescidas e é uma animação aqui na caixa. Aqui vos apresento todos a dormir em família.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Educar para os sentidos




Jobit George

Neste início de tempo lectivo, partilho o texto “Educar para os sentidos” que escrevi para a Revista da Misericórdia de Santo Tirso, publicado na edição de Julho 2017.

A educação é tema complexo... e, tal como o ser humano, nunca assenta em neutralidade. A nós, jesuítas, sempre nos apaixonou desde cedo. Santo Inácio de Loiola, o nosso fundador, apercebeu-se da riqueza que era formar pessoas, dando-lhes valor e dignidade pela aprendizagem em “letras e virtude”. A pedagogia inaciana, inspirada nos Exercícios Espirituais, conduz a que a pessoa desenvolva e explore os seus talentos, com liberdade de pensamento e religião, em serviço da humanidade. Não é por acaso que o lema dos nossos colégios é o de “Educar para Servir”. 

Indo à etimologia de Educar, chegamos ao latim educare/educere, com o sentido de conduzir, direccionar, orientar para fora. Em modo simples, poderíamos dizer que é ajudar o outro a encontrar sentido na sua vida, dando-lhe ferramentas humano-afectivas e intelectuais. Que significam essas ferramentas humano-afectivas? Da minha perspectiva, têm que ver com a atenção que damos aos sentidos e à afectividade. É o que exploraremos neste breve texto. 

Antes de falar dos sentidos e da afectividade, é de me deter um pouco sobre a questão da corporeidade. É sabido que não temos um corpo, mas que somos corpo. Este ser corpo implica as várias dimensões que o compõem: biológica, psicológica, racional, social e espiritual. Estas dimensões vão interagindo entre si. Pensando na educação, por exemplo, se houver cansaço biológico, não se alimentar adequadamente, a dimensão racional será afectada, provocando nervosismo por não se conseguir realizar uma prova. Ou, se, para além de pressões sociais para esta ou aquela nota, houver descontração na realização de um projecto com base num gosto pessoal, surge a serenidade e o ânimo. Cuidar do corpo que somos, implica o cuidar pessoal, com a totalidade do ser. 

A nossa realidade enquanto pessoas é marcada pelo corpo que pode ter características de individualidade, o “eu”, e de comunidade, o “nós”. Se somos corpo, também somos algo fundamental: corpo em relação. Afinal, apelando à dimensão social, inevitavelmente estamos limitados a determinado tempo e espaço, implicando a presença de determinada cultura na nossa vida. Essa cultura, que começa a entranhar no ser já desde a concepção, vai-se desenvolvendo no modo como se educa a criança, tanto na tomada de consciência de si, da sua individualidade, como da sua presença na primeira comunidade que é a família. 

A consciência da individualidade está muito relacionada com os sentidos. A visão, a audição, tacto, o paladar e o olfacto, na sua organicidade, permitem-nos orientar na nossa presença no aqui e no agora. No entanto, se aprofundarmos um pouco mais os mesmos sentidos, a presença no aqui e no agora humaniza-se. A educação ajuda a ver para além do olhar, a apurar a escuta para além do que se ouve, a deixar que o toque seja transmissor de segurança e de respeito, a permitir o saborear da vida nesse alimento que pode traduzir história e memórias, em conjunto com o aroma que fala de lugares e de pessoas. A criança, antes de qualquer racionalidade, começa a descobrir o mundo a partir dos seus sentidos, conhecendo-se enquanto corpo que é, afectando-a, deixando marcas.

Falar de afecto é falar igualmente de relação. O que é que me afecta? Mais do que “abracinhos” e coisas fofinhas, o afecto é básico na nossa formação enquanto pessoas. Não é coisa de meninas ou de mulheres, mas de todo o ser humano. Entre experiências e acontecimentos, são muitas as referências da importância do afecto e do carinho nos primeiros tempos de vida. Educar, direccionar para fora, implica mesmo estimular a partir do afecto. Vamos entender, claro está, o afecto no seu sentido positivo. Se houver um meio agressivo, de violência, de falta de amor, a criança também recebe esses estímulos. A criança no início do seu desenvolvimento é totalmente afectiva. Assim, todo e qualquer estímulo deve ser de cuidado, de carinho, de confiança. O modo como se educa afectivamente vai marcar a personalidade da criança. 

À medida que cresce, a racionalidade vai ganhando espaço. Então, nesse envolvimento cultural, a criança começa a imitar os comportamentos de quem está mais próximo: pais, outros familiares, educadores escolares. Nós aprendemos por imitação. Não adianta muito dizer algo quando o que faço é o contrário. “Não se grita às pessoas”, quando o modo de falar é aos berros com a mulher ou marido, ou o vizinho, ou com quem não se gosta. É fácil perceber que qualquer coisa não vai bem com quem é azedo nas palavras e nos gestos. Não, não é uma questão de personalidade, mas de problemas afectivos, consigo e com o mundo. Formar-se para educar afectivamente não é restrito ao exercício maternal ou paternal, mas de todo o educador que lide com crianças. Se a personalidade pode ter características genéticas, muito se deve ao modo como se educa. 

Para se educar é preciso ser-se paciente. Para se ser paciente é fundamental ter-se tempo para o poder dar à criança. As crianças sentem muito a nossa tensão ou descontração e reagem a esse mesmo estado. Em geral, as crianças irrequietas, são-no por viverem sob stress dos educadores que as envolvem. A criança é criança, não é um adulto em miniatura, necessitando de atenção. Educa-se a criança no seu espaço e tempo, sem que seja a partir da agressividade, mas da confiança. Muitas vezes surgem modos de educar que forçam a criança a cortes bruscos: “não pego ao colo para não se habituar mal” ou “tens de comer isto ou aquilo”. O forçar é agressivo. A criança por ser mais afecto que razão, tem de conhecer pelos sentidos. Dar-lhe tempo para descobrir as cores e os sabores, dar-lhe espaço para sentir o carinho pelo toque e, pouco a pouco, a descoberta da liberdade a partir da confiança e da segurança. 


Educar para os sentidos, é despertar a orientação, é dar sentido ao crescimento seja de quem for que nos é confiado, ajudando a que a pessoa seja o que é chamada a ser na sua plenitude. 

domingo, 10 de setembro de 2017

Texto a pensar em ti que entraste e em ti que não entraste no Ensino Superior




Riyas Muhammed

A ti que entraste:
Parabéns! Se foi onde querias, aproveita ao máximo esse desejo que foi brotando e agora vês realizado. O natural ânimo vai ajudar a superar os desafios que tens pela frente. Se foi onde não era bem o que querias, porque não agarrar a oportunidade? Haverá sempre a possibilidade de mudar, mas, ainda assim, algo novo está pronto a ser-te revelado: entre pessoas, sítios e ensinamentos, até poderás ter a surpresa de perceberes que faz sentido e ser o/a melhor daquilo tudo. ;) Enquanto és caloiro(a) vai aprendendo dos mais velhos, não só o que há a fazer, mas aquilo que não queres fazer. Não entres em competições estúpidas, que levam a injustiças e malvadez. Que as tuas classificações sejam sempre abrilhantadas de esforço, de verdade e de colaboração.

A ti que não entraste:
Poderás estar a dar voltas ao porquê, naquela sensação de frustração e vazio. Ou então, a deixar que a esperança da 2.ª fase ganhe sentido para avançar. Não, não és a pior pessoa do mundo. Não te compares com ninguém: a história e a vida são as tuas, o caminho é o teu. O mundo não acabou. Respira fundo e vê o que há a fazer para continuares a lutar pelos teus sonhos. O mundo pode dar voltas, levando-te a encontrar sentido de caminho onde menos esperas. Abre o coração às surpresas. ;)

A ambos:

O Ensino Superior é reconhecimento. No entanto, maior reconhecimento é alguém que trabalha os seus valores na contribuição de um mundo mais justo e humano. Por isso, seja em que etapa de vida estiverem, não sejam medíocres no pensar, na visão do mundo, nem se percam em imitações seja de quem for. Sim, inspirem-se em quem possa orientar para o crescimento humano, que implica o académico, mas, sobretudo, o de sentido de justiça e de serviço. Não guardem para vocês: partilhem, colaborem, humanizem o que vos envolve. Continuem a descobrir os talentos, a pô-los em prática. Não tenham problemas em reconhecer a fragilidade. É certo que em realidades tão competitivas, algumas mesmo selvagens, são os mais fortes que aparentemente ganham. No entanto, a fragilidade bem entendida, pode dar muita força… nesse caminho de humanização. Não esqueçamos: não somos máquinas, somos humanos.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Silêncio




Pica - Francisco Mariz Rodrigues

[Coisas na vida de um padre] Antes da Missa de Campo, ou de algo importante, o silêncio do aqui e do agora.

Corpo e Fé e Corpo





[Secção coisas de corpo] Tirei esta foto há umas semanas. Esteve assim uns bons minutos. Achei um momento de grande delicadeza de fé que vive de corpo. Somos corpo. Alguns podemos acrescentar corpo orante, que vive a fé com dinamismo próprio de quem tem de tocar Deus. As imagens, em si mesmo, valem a emoção que lhes colocamos. Qual mãe gostaria que rasgassem sem mais uma fotografia do seu filho? Ou um aficcionado de um clube que diante de si queimassem a bandeira desse mesmo clube? A fé vive de afecto também em corpo. Abraçar uma fotografia no momento da saudade, tocar a imagem na oração, é manifestar a presença que vai para lá do objecto propriamente dito. Aquele toque não é apenas num pedaço de madeira transformado numa escultura. Na sua fé, sem grandes rebuscos argumentativos, toca a relação com Deus que se deixa tocar.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Ainda a reconciliação




Andrei Z.


[Secção desabafos] Comecei a manhã a pensar, escrever e, depois, rezar sobre a reconciliação. É um tema que me é particularmente querido e especial. A reconciliação, sendo um processo complexo, permite a paz, individual e comunitária. Este Verão foi e continua a ser particularmente intenso em conflitos. Além das feridas provocadas pelos incêndios em Portugal, penso imediatamente em Barcelona, Charlottesville, Venezuela, Guam, a juntar a tantos outros locais menos conhecidos (ou menos sonantes) que vivem conflitos com impacto para tantas pessoas. No entanto, outros conflitos são também cada vez mais frequentes: as redes sociais têm sido “locais” onde o ódio tem aumentado nas muitas polémicas cada vez mais frequentes. Começam e nunca terminam de forma sensata. Muito pelo contrário, chega ao extremo de levar a tomar-se medidas governamentais influenciadas pela acessa discussão afastada de séria reflexão diante dos temas complexos. Isto provoca, de forma mais ou menos consciente, o aumento de feridas, divisões, impedindo o básico do humano: o respeito pelo outro. Há temas a reflectir? Sem dúvida que há. Mas, não, ataca-se e “mata-se” na honra e na história. Basicamente, anula-se pessoas, dando azo a ideologias da direita à esquerda tomarem conta da sociedade. Entre o ressabiado e a hipocrisia, políticos e religiosos, gera-se podridão em vez de cura. Por mais que alguns possam desejar ou até mesmo querer, o mundo não é, nem vai ser, de uma só cor. O caminho mais difícil é cada pessoa reconhecer e viver em si mesma a reconciliação, percebendo o imenso que também tem no seu ser. Escrevendo desta forma, pode sair a ideia de ingenuidade ou utopia da minha parte. Talvez alguma, sim. Contudo, além de saber que o caminho de reconciliação é duro, difícil e nada apetecível, precisamente pelo confronto antes de mais com a escuridão e verdade pessoais, acredito no ser humano. Aliás, a minha fé no ser humano está intimamente ligada à minha fé em Deus que se fez frágil, vulnerável e limitado. Pois, é preciso muito silêncio, tanto em quantidade como em qualidade. O silêncio, calando os ruídos e gritos exteriores, permite expurgar os interiores. Calando esses, a vida própria em comunidade ganha mais sentido. Não se pode continuar a banalizar o mal, sobretudo, como li há pouco num artigo, com passos de quotidiano. Esses passos travados podem ser convertidos em bem: em especial no respeito que cada um tem por si próprio e por cada pessoa.

Paz e Silêncio




Suzanne Rodrigues


O desafio da actualidade: a Paz, em caminho de reconciliação. Para tal, é preciso paragem, em tempo de encontro com terra, mar e céu interiores. Não é automatismo, mas caminho de diálogo com luzes e sombras, feridas e curas, pecado e graça diante da história pessoal e comunitária. Há demasiadas lutas de interesses, esquecendo que o poder que humaniza é o do serviço ao próximo. Para lá chegar, é preciso muito silêncio habitado de Vida e de Infinito. Bom dia!

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

De regresso




[Coisas na vida de um padre] Depois de um Verão cheio… de silêncio, de boas conversas com Pai, Mãe e Amigos em encontros de histórias e saudades, de mar, de sol, de celebrações, de muita animação em Campo de Férias, sem paragens na oração pela Paz no mundo, regresso aos poucos a estes lados. Numa surpresa no Campo de Férias, os participantes fizeram um cartaz a descrever cada animador. Este foi o meu. Faz sentido partilhá-lo neste regresso. 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Comoção existencial




[Secção tempo de paragem] Entre luz e sombra, o silêncio faz-me encontrar a importância de Deus no nada. Sim, a oração de agradecimento ou petição. Mas, mais profundamente, o silêncio que desperta o que Paul Tillich, teólogo, descreveu como "comoção existencial": sou podendo não ter sido. A gratuidade dos pés assentes na terra recordando o sagrado de tanto na minha vida. Pode-se descansar, e bem, de tudo. Mas que não se descanse de quem se é e, para quem n'Ele acredita, de Deus. Ele deseja profundamente o nosso crescer em terra sagrada que somos.

sábado, 29 de julho de 2017

Tempo de paragem - Até breve!


[Secção tempo de paragem] Várias vezes comento sobre a importância da passagem em que Deus descansa depois de ter visto que o que tinha acabado de criar era muito bom. Na minha história há tanta coisa muito boa, incluindo a que aparenta ser menos boa. É preciso tempo para reconhecer e agradecer. Daí que entro em modo paragem: retiro, férias e campo de férias. Além de rezar, como de costume, o abecedário, desejo um bom tempo de descanso para quem o terá e muito ânimo para quem ainda tem de esperar um pouco mais. Até breve!

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Desejo de Paz e Reconciliação




Kátia Viola, exactamente há 3 anos, na Missa Nova em Portimão

Há pouco, escrevi um post a falar da sensatez a ter na vida, de modo a impedir que o emotivismo tome conta da sociedade. Escreveram-me a recordar que há 3 anos, na minha Missa Nova, apelei à Paz e à Reconciliação, tanto na homília como na oração eucarística para as Missas da Reconciliação. Diante de Deus, como padre, é das coisas que mais quero, ser promotor de Paz neste mundo.


Equilíbrio... bom senso...




Chris Eyre-Walker

[Secção desabafos] Encontrar o equilíbrio, a partir do bom senso, é algo difícil. O humano não se situa em extremos: puro racionalismo ou puro emotivismo. Reclamar, criticar, reivindicar, faz sentido quando acontece a partir da vontade de ajudar o outro ou algo a ser melhor. Claro que isto de ser ponderado exige muito trabalho pessoal, de cura de mágoas e ressabiamentos. Se assim não for, reclamo, critico, reivindico em ataque, provocando igualmente danos humanos. Neste último tempos, a acompanhar polémicas pelas redes sociais, resumo em "sou tão anti-fundamentalista que por mim podiam morrer todos os fundamentalistas". O ódio em crescendo, com tal subtileza, mesmo em nome de direitos, assusta. Não se pode exigir humanização com desumanidade. Parafraseando Gandhi, em breve acabamos todos cegos, sem dentes e sem vidas, independentemente das características de cada um. Obviamente as faltas de consideração incomodam, doendo até pelo nível de injustiça, mas ao longo de toda a história da humanidade fomos recebendo ferramentas para lidar com elas sem que necessariamente se entre em caminhos de ódio. Isto de amar os inimigos, pensado e escrito há 2000 anos, por exemplo. Estudando um bocadinho de História, percebe-se como muitos ditadores, tanto de direita como de esquerda, aproveitaram muito bem o emotivismo social. É preciso justiça em tantos casos recentes, contudo, que seja, passo a redundância, verdadeira e autenticamente justa, alicerçada na honra e no respeito por pessoas concretas.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Boas recordações




Arte Magna

[Coisas na vida de um padre] Com o amanhecer, chegam recordações de momentos bonitos e felizes…


domingo, 23 de julho de 2017

Corpo e relação




Migz Nthigah


[Secção pensamentos soltos] Estive a ler o artigo “Cupido 2.0” de Nelson Marques no E, a revista do Expresso, deste sábado. Junta temas que entram na minha linha de interesse sobre o ser humano: corpo e relação. Para quem não leu, tem por base a evolução das aplicações para promover encontros, com forte objectivo sexual. Na linha do post anterior, sem fazer julgamentos demasiado apressados em especial por quem se escandalize mais rapidamente pensando que o “mundo está perdido”, confirma-me a lógica do pêndulo. Durante séculos, reprimiu-se o corpo, colocando tudo o que fosse sexual no âmbito pecaminoso (ainda hoje muitas pessoas vivem dessa forma), sem se olhar e perceber a beleza do ser corpo, em especial na suas dimensões afectiva e sexual. Com o passar do tempo e evoluções tecnológicas dá-se a libertação dessa opressão corporal. O que acontece ao pêndulo quando é largado depois de puxado a um extremo? Segue até ao outro. Neste caso, explorar ao máximo as potencialidades corporais, que são direccionadas, de modo particular, no sexo, cru, sem necessidade de mais. Ora, nem anulação, nem absolutização do corpo. Ao longo do artigo, vai surgindo várias vezes a palavra “ego”: “ajuda o ego”, “estimula o ego”, “satisfaz o ego”. Bem, mais que “ego”, por, infelizmente, ser rapidamente conotado de forma pejorativa, prefiro o termo “self”. Nós somos seres de e em relação. Estas aplicações de encontros são uma forma sofisticada de anúncios já de há anos ainda sem internet: “senhora procura cavalheiro”, “cavalheiro procura senhora”. Se é fugaz ou profunda, há necessidade da relação para dar corpo à identidade. “Quem sou?” De forma geral, alguém corporal, mental e espiritual. As particularidades dependem de inúmeros factores, os quais terão de ser vistos com o cuidado devido para que o “self”, a identidade, única e especial, possa ser respeitada, antes de mais, por mim e pelos outros. O artigo acaba com uma afirmação muito interessante: “Se conhecemos hoje mais pessoas do que nunca e, mesmo assim, não estamos mais satisfeitos, a culpa não será certamente de uma ‘app’ [aplicação].” Correndo o risco de ser redutor, a culpa também tem que ver com o facto de nos conhecermos muito pouco, em especial na riqueza da nossa individualidade, com luzes e sombras. Apercebo-me que cresce a falta de conhecimento da beleza da realidade própria, que conjuga corpo, afecto, intelecto, cultura e espírito, sem entrar em comparações que anulam a unicidade. Parece-me que cada vez cresce mais a necessidade de uma saudável educação para os afectos. Não, não é uma educação para a sexualidade, mas para os afectos. Percebendo aquilo que nos afecta, tal ajuda-nos a crescer, integralmente, em todas as dimensões que compõem o Ser.

Trigo, joio... aparências




Lauren Breedlove

“- P. Paulo, lê mesmo revistas femininas ou disse por dizer para a homilia?” 


Sim, leio. Não é com periodicidade, mas, na casa de alguém, numa sala de espera ou onde houver, gosto de folhear e ter consciência do que se lê. Se têm grandes tiragens é porque são muito lidas. Há artigos interessantes. No entanto, gosto de perceber como a sociedade acaba por ser influenciada por modelos subtis apresentados de “como ser mulher” ou “como ser homem”. Ah, isto vem tudo a propósito da parábola do trigo e do joio, em especial, pela forma como se julga demasiado rápido, seja a si próprio, seja uns aos outros, também pelas aparências. “Se não tenho o corpo desta ou daquela forma, não sou pessoa”; “se não tenho relação sexual, de todo, ou de forma como a revista dá dicas, não sou pessoa e sou ‘antiquado(a)”; “se não educo os filhos desta ou daquela forma, em estado zen, sem nunca me irritar ou incomodar, logo sou um(a) péssimo(a) pai/mãe”: cuidado com estes julgamentos, que são mais frequentes do que se imagina. A parábola, mais uma vez, alerta para complexidade de tanto no ser humano. Nessa complexidade, há que estar com a atenção necessária para não se deixar influenciar por modelos que podem tirar a liberdade. E dar-se tempo, muito e bom tempo, para com calma separar o joio para se ver a beleza do trigo.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Absolutos?




Stevenchou Zhouzheng


Escuto muitas vezes, durante as conversas, absolutos como “não consigo”, “não sou capaz”, “não me é possível”, referindo-se à mudança de algo. Como acredito que as palavras têm força, proponho sempre um acrescento à frase de modo a diminuir a intensidade do absoluto: “de momento não consigo”, “ainda não sou capaz”, “por agora não me é possível”. Abrem-se, assim, pequenos convites à transformação ou conversão... e à esperança. Bom dia!

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Silêncios



Samuel Afonso,sj


[Seção outros tons] Há silêncios que abrem as barras de coração que bloqueiam a visão de humanidade.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

"Não nos esqueçam"




Teresa Lamas Serra

[Secção outras perspectivas, a partir da minha escuta de quem passou por terras queimadas e não quer que tal caia em esquecimento] “Há pouco voltei a pegar na enxada e cavei a terra ainda escurecida. Indecisa se semear ou plantar. Os pensamentos estavam na filha, genro e netos que voltei a ter em casa. Perderam tudo. O que se pode semear, menina, depois da desgraça? Até aos cães custa ladrar e aos gatos miar, por terem as gargantas sufocadas do seu modo de gritar. Coitaditos. Não saem do pensamento aquelas horas de agonia. 64 mortos. Eu conhecia, menina. Eu conhecia. Há que refazer a vida. Mas a terra ainda está escurecida.” Em lágrimas, “não nos esqueçam, menina. Não nos esqueçam”.

Porta e passagem




Mariana Salazar


[Secção outros tons] Não me revejo na vista. Fico-me em breves instantes pela porta: regista passagem de peregrinos. Depois, atravesso o amanhecer, de sombra para a luz, em caminho de maior verdade e vida. O resto são adereços.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Crunchie e Bumby




Há tempos escrevi que a Crunchie tinha companhia de nome Bumby. Como não sabia se era um ou uma, o nome era ajustado para qualquer caso. Eu já andava desconfiado. Ontem confirmei que é UM Bumby: a Crunchie pariu 3 crias. O mais interessante foi a minha sensação quando descobri. Voltei aos anos de adolescência em que tive hamsters e os vi nascer. Foi exactamente a mesma sensação… de vida. Vê-la a cuidar, a ajustar o ninho, na azáfama de alimentá-las, deu-me para ficar ali um pouco a pensar sobre o cuidado como instintivo. Nós, enquanto humanos, damos saltos da dimensão biológica para a afectiva e racional: o cuidado torna-se amor de respeito ao próximo, como escrevi no último texto. E divino… quando esse cuidado chega ao extremo no amor aos inimigos. Pois, é isto: a Crunchie e o Bumby tiveram três crias.  
  

domingo, 16 de julho de 2017

terra




Phuc Auh Huynh

[Secção pensamentos soltos] Este domingo tenho andado com “terra” no pensamento. Além de ter de pensar na homilia, ecoavam em mim outras palavras: racismo, “religio-fobia”, homofobia, intolerância, agressividade, cuidar. Muitas mais, evidentemente, mas, para este texto destaco estas… começando por terra.

Os textos deste domingo apontam muito para a importância da terra, em concreto e em metáfora. Na beleza do mito da criação retratado no livro do génesis, percebemos que o ser humano (em hebraico “adam”) é criado da terra (em hebraico “adamah"). Sim, ser humano, englobando masculino e feminino. A nossa condição tem essa dimensão física/biológica que é transversal a qualquer ser humano, SEM excepção. Biologicamente falando, não temos raça. Durante séculos, foi difícil entender isso, dando importância à cor de pele ou linhagem de nascimento, situando entre a hiper-valorização e a desvalorização. Conforme a cor, havia, bem, infelizmente ainda há seres humanos (adam) que são colocados em patamares de sobre ou sub-humanidade. Repito: adam e adamah.

O Evangelho deste domingo fala-nos em especial do semeador e das sementes. Desta vez, como já se notou, fiquei-me pela terra. Desde o terreno pedregoso e espinhoso até à terra fértil. Até que ponto não temos de perceber que cada um de nós tem um pouco de tudo? Pedras e espinhos que impedem lavrar e bloqueiam a nossa visão de humanidade para além de qualquer característica. E terra fértil, onde sementes deram frutos de respeito e de escuta do outro sem o anular ou matar à partida pela sua diferença de características em relação às minhas. É certo que as minhas pedras e espinhos podem impedir-me de gostar de toda a gente, mas não tenho o direito de os anular. Qualquer fobia, mais ou menos evidente, dirigida a pessoas, traduz uma série de pedras e espinhos que têm de ser, primeiramente amados por ainda fazerem parte de mim, ou seja reconhecer sem julgar, e depois, aos poucos serem removidos de modo a que a terra se torne profundamente humana. Isso é de tremenda exigência, porque obriga a ir ao fundo de mim, conhecer-me, na história pessoal e social, e tomar consciência que tirando todas as características sou da mesma terra do que todos os seres humanos que estão na face da Terra. 


Para mim, enquanto cristão, ainda é mais desafiante. Afinal, Deus no qual acredito “enterrou-se” plenamente. Não acredito num deus etéreo, mas em Alguém que assume a própria criação. Daí que Deus não nos vê, nem escuta, a partir de características, mas a partir do ser total profundo em terra à qual Ele próprio pertence. Deus não separa seres humanos. Se existe algo a separar, tal não é a partir de cores de pele, religiões, estatutos sociais ou orientações sexuais, mas da quantidade e qualidade de cuidado que tivemos connosco próprios e com o próximo. Quanto mais cuidado com a terra, mais sementes brotarão, dando muito fruto.