sábado, 10 de dezembro de 2016

Alegria




Foto do final de um casamento muito feliz, cheio de alegria


Vejo os textos litúrgicos de amanhã, para ir rezando e preparando a homilia. O III Domingo de Advento é dia de recordar de forma especial que este tempo tem como base a alegria, presente na espera da Luz que nasce para dissipar as trevas. Como o Papa Francisco tantas vezes recorda aos padres, há que ser dadores de vida e de alegria. :)

Em resposta a telefonema anónimo




sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Dar tempo ao Corpo





Laurent Liotard

É tempo de dar tempo ao Corpo. No Advento há gestação a acontecer, onde o ser se interliga nas muitas vidas: biológica, psicológica, sociológica e teológica. O Corpo de Deus desperta na humanidade, presente em cada um de nós, a força de Vida. O gesto, o movimento de corpo tem de ser mais que o executar… tem de ser o habitar o que sou na sua plena potencialidade. O Corpo, de forma mais ou menos subtil, fala das entranhas mais profundas da história. O grito, o desprezo, o gozo, a pancada, mas, também, a carícia, a ternura, o aconchego, que aconteceram ou acontecem ajudam a compreender o presente. Curar as memórias dolorosas e avivar as retemperadoras, é caminho de liberdade. E dando tempo ao Corpo habitado pelo Espírito, elevo a dignidade, minha e de quem me rodeia. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"Onde estás?"




“Anunciação” por Ossawa Tanner

“Onde estás?” é a pergunta que me tem ressoado desde ontem, quando li os textos para preparar as homilias para hoje. À pergunta, Adão e Eva respondem de forma esquiva e serpentina, faltando à honestidade consigo mesmos e com Deus. No entanto, Deus continua a procurar-nos. Não desistindo de nós, busca-nos e pede-nos a verdade, independentemente do que possamos ter feito ou decidido na vida. A verdade passa por acreditarmos em nós, tal como Ele o faz. Quando acreditamos na nossa potencialidade, nos nossos dons, na nossa fé que, em plena autenticidade, nos salva, estamos a ajudá-Lo a viver o encontro e promover a salvação do mundo. Na Anunciação, Deus volta a buscar a Humanidade através de Maria. Com o seu sim, a divindade entra no ser humano, para o resgatar de todo o mal. Por um lado, a resposta de Maria é por toda a humanidade. Por outro, pelo respeito de Deus por cada um de nós, tem de ser cada pessoa a dar a resposta a essa busca. Continuamos em caminho… por vezes, esquivando-nos, outras vezes, acertando o passo, deixando-nos encontrar por Deus. Tenho para mim que muito mudaria se começássemos a crer mais em nós mesmos, na essência, não de poder, mas de serviço para que a Humanidade seja cada vez mais de vida… ou seja, divina.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Escrita solta




[Aula com proposta de escutar-se em escrita] Gosto muito de propor aquilo que chamo "aula da folha em branco". Há sempre o ar de surpresa quando digo para deixarem em cima da mesa apenas uma caneta. "Vamos fazer teste, stôr?", perguntam alguns com sensação de receio. Com as folhas em cima da mesa, dito as regras: 
- A folha é somente vossa. Podem fazer dela o que quiserem. Escrever o que quiserem, da forma como quiserem. A única coisa que é obrigatória é a verdade, a autenticidade, convosco. Se há falta de imaginação, aqui vão ajudas: pensem numa pessoa e escrevam o que sentem ou pensam dela; escrevam sobre algo difícil a contar; escrevam coisas soltas que se vos ocorre. Não prendam a imaginação. A folha é vossa!
- É para escrever o nome?
- Quer escrever?
- Lá está o stôr com os seus enigmas.
- Eu também vou escrever no quadro. Vocês serão a minha inspiração. Vamos a isto?
Música de fundo. Uns começaram logo. Outros, mantinham o ar de perdidos. Folhas na vertical, horizontal, diagonal, escritas em círculos, desenhos, rabiscos, iam-se soltando. Dei tempo para terminar.
- E então? 
Os braços surgiam a pedir palavra.
- Foi estranho ao início, mas depois deixei-me levar.
- Não estava à espera que me ajudasse tanto.
- Foi interessante, mas não é novo. Já penso muito por mim.
- É mesmo muito o que vai cá dentro, stôr.
- A nossa vida é muitas vezes presa por regras e filtros. São necessários, é certo, por vivermos em sociedade e tem de haver o respeito uns pelos outros. No entanto, todos nós precisamos dos nossos espaço e tempo para libertar precisamente o muito que levamos dentro. A escrita é um meio para libertar e, quem sabe, uma ajuda para boas conversas com alguém que possa orientar. No fundo, é dar-me tempo para escutar-me e perceber que, mesmo que se tente, até mesmo humilhar-me, com tudo o que vivo tenho força de existência e de dignidade. Como terminei a minha escrita no quadro, "ah, como gostaria que o Amor de Deus se expandisse e todos percebessem o quanto podemos criar e dar vida. Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. --> Isto é Natal! --> Dar corpo às palavras!"


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Vi(r)agem



Avelina Ferraz


[Coisas boas na vida de um padre] Há ano e meio, fui desafiado a escrever um texto para um livro integrado no projecto “(Re)Inserir na Trofa”, da Associação Asas. Esta Associação, em outros projectos, acompanha pessoas que desejam libertar-se do vício de álcool e drogas. 23 rostos e histórias, 23 escritores e textos, com Vi(r)agem como pano de fundo. Recebi a história da Rosário. Li, fiz silêncio. Reli, novamente silêncio… até perceber como daria corpo às palavras. Em retiro, numa das noites escrevi-o de seguida. Houve trocas de mails, apurando aqui e ali. Até que o “Quando alguém nos espera…” ficou definitivo. Hoje foi o lançamento do “Vi(r)agem”, com o encontro entre nós escritores e respectivos rostos sobre quem escrevemos. Foi emocionante. Nós tínhamos em mãos a intimidade de quem não conhecíamos… e eles sabiam disso. Sentia-se o misto de solenidade e timidez nas nossas trocas de olhares, em busca de quem seria quem. Chegou a minha vez. A Rosário e eu apresentámo-nos. A timidez foi-se dissipando com a conversa solta, entre os autógrafos e sorrisos. As palavras, além do corpo nas histórias escritas, ganharam corpo nos rostos que se conheceram. Pensar que a passagem do livro de Isaías na Missa de hoje termina desta forma: “Eis o vosso Deus. […] Como um pastor apascentará o seu rebanho e reunirá os animais dispersos; tomará os cordeiros em seus braços, conduzirá as ovelhas ao seu descanso.” A Rosário já trabalha e casou com o António, dando mais valor ao “é sempre bom quando nos espera alguém que nos ama.” Ficou combinado um café.



Lançamento de livro




[Coisas extra-quotidiano na vida de um padre] No lançamento do livro "Vi(r)agem", onde, graças à Mafalda Ribeiro, colaborei com um texto, inspirado na vida de uma utente da Associação Asas. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Tempo... dar-se tempo.




Alexandra Bochkareva

Uma das minhas propostas de Advento é mesmo o dar-me tempo… para sair do ruído exterior e acalmar o interior. “Não tenho tempo!” é muitas vezes a frase sonante que acompanha a sociedade frenética. Até ao dia em que, infelizmente, se é obrigado a parar, sem que se aproveite da beleza do tempo, por se estar doente. Também se ganha a vida com paragens. Tantas vezes digo que ajuda 5 minutos bem aproveitados, p. ex., ao som de uma música que se gosta. Nesses minutos, para quem n’Ele acredita, pode convidar Deus a estar. Afinal, o Advento é mesmo tempo para isso.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Guerra e Paz



Este mês o Papa convida-nos a rezar pelo fim da escravatura, em particular a infantil, no caso dos meninos-soldados. Neste segundo domingo de Advento, Isaías exorta-nos a viver a esperança da vinda do Príncipe da Paz. As coisas ligam-se. Além de rezar por esta intenção, fico a pensar nos conflitos que tenho e farei o possível para os reduzir e eliminar, aumentando os gestos de Paz na minha vida. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Espera




[Secção outros tons - especial Advento]

Silêncio.
Deixa-te descansar
e assim receber-te
demoradamente. 
Antes de partires,
não te canses de amar

quem se sente a teu lado.

Tempo sem tempo




[Secção outros tons] 22 segundos de tempo sem tempo, deixando o olhar perder-se em (en)cantos.

Passeio




[Coisas extra-quotidiano na vida dos padres] 
A animação em passeios comunitários.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O amor não se aguenta.




Veselin Atanasov

[Coisas na vida de um padre] Há uns tempos, fui a uma paróquia falar sobre o sacramento da reconciliação. Lá falei da beleza do sacramento, dos mitos, da liberdade sentida quando se encontra espaço e tempo para se ser escutado na partilha de entranhas de tudo o que fizemos e/ou deixámos de fazer, impedindo-nos de crescer em fé, esperança e caridade. No final, nas perguntas, alguém começa a confessar-se em público. Notava-se a dor e o desespero da pessoa, que vivia separada do marido, já em processo de divórcio... e de como foi tratada pela comunidade. Foi um momento de tensão, aumentada com a falta de respeito de outra pessoa que intervém, com tom de desprezo:
- Oh, minha senhora, quando alguém casa por amor tem de aguentar o amor até ao fim.
Fez-se silêncio. Senti as entranhas revolver. Olhei-os e:
- Aqui se percebe o quanto a vida é complexa e não há preto e branco nas coisas. Se o senhor acha que há que aguentar o amor, eu digo-lhe: o amor não se aguenta. O amor vive-se e cresce em reciprocidade num casal. Quando alguém casa, acredito e espero que seja por amor. No entanto, ao fim de algum tempo, se a violência, seja psicológica, física, moral ou todas, ou seja, se esse aparente amar se manifesta em "enxertos de porrada", digo-lhe, não há amor que aguente. Como crime que é, há que afastar e ajudar a pessoa a encontrar caminho de vida. E a comunidade tem muita responsabilidade nisso mesmo. Talvez por isso fazem falta mais reconciliações pessoais e comunitárias. Afinal, podemos ser tanto destruidores, como dadores de vida. Espero que se escolha sempre o ser dador. Para isso, é preciso fazer um grande caminho de, antes de ditar sentenças, conhecer a fragilidade do outro... e muitas vezes a própria, pondo de lado "machezas". Em geral, para não dizer sempre, as sentenças deixam de existir. Mais alguma questão?
Depois de um momento de silêncio, o senhor levantou-se e:
- Quero pedir desculpa a todos, em especial à senhora, pela minha intervenção. Foi impulso do cansaço. 
A senhora levantou-se e foi apertar-lhe a mão. 

Houve aplausos. Vislumbrou-se o que se tinha falado na hora antes.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Último voo do F100 Albatroz



Lurdes Ramos

O Albatroz, último avião Fokker 100 da PGA - Portugália Airlines, fez hoje o seu último voo. Foi num F100 que comecei a voar no dia 1 de Julho de 2000, como reforço num Lisboa-Porto. No dia seguinte, fomos para Genebra, onde a minha função era cuidar de UM’s (Unaccompained Minors), já que para lá iam 11 e para cá 13, enquanto as praxes aconteciam à grande. Depois, foram muitos mais horas dentro dos 6 F100 que a PGA tinha, com o som de reactores tão característico. Deixei de voar como Comissário há mais de 13 anos. Emocionei-me ao ver um vídeo com a chegada do avião a Lisboa, ladeado com honra. É o misto de sentimentos para tantas pessoas, pelo imenso de significados e, sobretudo, de memórias… para mim, desde a selecção, à formação, aos voos, terminando na minha despedida com a mudança de Companhia. Mais do que tudo, rostos e amizades que começaram e continuam. Isto de voar mexe e fica para sempre. Mesmo que o logo PGA - Portugália Airlines já não apareça pelos aeroportos do mundo, estará presente em conversas, em partilhas, em histórias, anedotas e demonstrações tanto em salas de aula como em viagens de vista de estudos. Queridos amigas e amigos voadores, “let’s fly” no profissionalismo que nesta Companhia aprendemos. Estão no meu pensamento. É isto: Once PGA, always PGA!



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Amor e fé




Razz Razali

Quem teve oportunidade de celebrar Missa hoje, rezou com a passagem do Evangelho de S. Mateus onde se relata a cura do servo do centurião [Cf. Mt 8, 5-11]. No final, Jesus faz um grande louvor a alguém que não comunga da fé judaica e, ainda por cima, faz parte daqueles que oprimem Israel. Nesta passagem, Jesus reconhece a fé pessoal, para lá de participações sociais, religiosas e/ou políticas, a partir de alguém que, além de amar e desejar a vida do outro, neste caso do seu servo, tem perfeita consciência do que significa o poder e a obediência. Mais uma vez, a partir de algo quotidiano, Jesus reconhece a fé que vai para além de manuais de teologia e de rituais. Eles são necessários para compreender e viver a relação com Deus, mas não são absolutos. Absoluto é, à semelhança do amar a Deus, o amor pelo próximo… por isso, nesta esperança do nascimento do Amor, o próprio Jesus, a fé é desperta em tantos e tantas que simplesmente amam e desejam promover a elevação da humanidade. Não sabemos se o centurião se converteu à fé judaica, apenas sabemos que o seu amor pelo servo ajudou à cura e à admiração de Jesus: “Em verdade vos digo: não encontrei ninguém em Israel com tão grande fé”.


Beleza ao entardecer



[Secção outros tons] A esperança anima em momentos de incerteza, em especial os que são fazedores de caminho. Esses, mesmo que a vida lhes desfoque o olhar, deixam-se acompanhar por brilhos de beleza ao entardecer.

domingo, 27 de novembro de 2016

Primeiro domingo do Advento




Com desejos de bom Advento, cheio de luz, esperança e conversão: Maranatha, vem Senhor Jesus.

Padre Peter Hans-Kolvenbach,sj




[Secção homenagem] Ontem partiu para o Pai o P. Peter Hans-Kolvenbach. O P. Kolvenbach foi o nosso Padre Geral durante mais de 24 anos. Holandês de nascença, de pai alemão e mãe italiana, viveu grande parte da sua vida no Líbano, como professor e orientador espiritual. Os dramas da humanidade, como as guerras, a II mundial e a do Líbano, marcaram a sua visão de promotor de reconciliação. A sua experiência espiritual, intelectual, religiosa e social ajudaram-no a compreender o sentido de serviço da Companhia de Jesus na promoção da fé aliada à justiça, à cultura e à educação. Quem o conheceu de perto, tem muitos exemplos da sua delicadeza, discrição e sentido de humor. Depois de deixar de ser P. Geral, voltou ao Líbano, como assistente bibliotecário… dando mais um grande exemplo de que cargos de liderança não são poder eterno, mas de serviço temporal. Partiu, mas o seu legado espiritual fica. Numa carta que escreveu à Companhia sobre o discernimento, diz: “o discernimento se exercita sobre a experiência do apostolado e sobre como desenvolvê-lo melhor procurando sempre meios mais adequados para realizar fiel e eficazmente a missão recebida, tendo em conta a mudança contínua das circunstâncias. […] E assim, à luz do discernimento, reflectir, não tanto de um modo negativo - ‘o que é que estamos a fazer mal?’ - mas de uma perspectiva positiva - ‘como podemos fazer melhor?’.” Imagino que já está a viver o grande abraço agradecido por parte de Deus.  

sábado, 26 de novembro de 2016

Viver a fé



[Secção pensamentos soltos] Viver a fé exige poesia. Parece-me que ser homem ou mulher de fé implica entranhar na beleza de pequenos nadas, do quotidiano, em conjunto com a brutalidade dos acontecimentos locais e universais. A bomba que cai em sítios longínquos estilhaça em ecos nas nossas vidas, tanto pela ignorância, como pela dor provocada nos gritos ensurdecidos das crianças, de cá e de lá. E o sol insiste em nascer, tal como a chuva cair, sobre cada ser humano. Quem vive fé, deixa-se entranhar por esse sentir da Vida que não se cansa de nos anunciar Paz, a começar em cada coração. É uma aventura tremenda, de nos pormos diante de Deus, silenciando e escutando o pulsar que nos ajuda a encontrar a cura das feridas da memória e, assim, empurrar à Vida maior. É preciso dar-se tempo, voltando à peregrinação de terra batida, onde os passos são dados à medida da necessidade dessa escuta. Em paragens de se dar conta do aqui e do agora, sem angústias de passado, nem ânsias de futuro. Que posso fazer? Que posso, realmente, fazer? A fé ganha corpo, nesse gesto por quem tantas vezes se desdenha, julga mal, esquece… e cá, no quarto ao lado, na porta da frente, no prédio da rua de trás. E o bem concreto que promovo, aqui perto, nesse amor ao próximo nada abstracto, espalha-se até longe. O coração de carne, pela fé em Deus feito Humanidade, ama pessoas, ajudando-as a ser mais humanas. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Sombra e luz



[Secção outros tons] Por vezes encontro-me na sombra... e, perdendo o medo de a atravessar, deixo a luz fluir.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Respiro




[Secção outros tons] Respiro. Entre inspirações e tentativas de compreender histórias… de rostos e de mim, em desejo de reconciliações, de paz, de libertar outros modos de sentir e viver Deus. Expiro o que afasta a autenticidade. Laivos de luz mostram amanhecer. E respiro.

Papa Francisco e Clero





Uma querida amiga enviou-me este vídeo que, apesar de publicitário, está muito bem apanhado para muitos temas. Pouco depois, li um artigo sobre a audiência do Papa Francisco a participantes de uma conferência organizada pela Congregação para o Clero. Fazendo alguma relação com o vídeo, ressaltam-me estas frases:

“Um bom sacerdote é antes de tudo um homem com a sua própria humanidade, que conhece a sua própria história, com as suas riquezas e as suas feridas, e que aprendeu a fazer as pazes com ela, alcançando a serenidade de fundo, própria de um discípulo do Senhor.”

“É melhor ficar longe dos sacerdotes rígidos, eles mordem. Lembro-me daquilo que disse Santo Ambrósio no século IV; onde há a misericórdia está o espírito do Senhor. Onde há a rigidez, estão só os seus ministros. E o ministro sem o Senhor torna-se rígido. E isso é um perigo para o povo de Deus.”

“É interessante: quando um jovem é muito rígido, muito fundamentalista, eu não confio. Detrás daquilo existe algo que ele mesmo não sabe.”

“As nossas raízes ajudam-nos a recordar quem somos e de onde Cristo nos chamou. Nós, sacerdotes, não caímos do céu, mas somos chamados por Deus, que nos tira ‘de entre os homens’, para constituir-nos em ‘favor dos homens’”.


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Observar o bosque




A vida a ser observada por um aluno de 9.º ano

[Aula com alunos de 9.º ano] Há alguns dias: “Stôr, quando vamos ao bosque?” “Como  podem ver, o tempo não está para bosque.” Hoje, acordei, abro a janela e… céu aberto, sem qualquer previsão de chuva. Pensei logo neles. Aula no bosque. Antes de lá chegarmos, já bastante animados, surge o central da aula:
- Estamos a trabalhar a dignidade. Hoje vamos observar o exterior. Peço-vos silêncio e observem. Quando somos mais pequenos, desenhamos e pintamos o céu de azul, as nuvens de branco, o sol de amarelo, as árvores de verde, os troncos castanhos. Mas, à medida que vamos crescendo, há muitos tons de cores e conforme se está mais escuro ou claro no dia, essas cores são mais vivas ou mais pálidas. Observem. […] Então? Que viram?
- É imenso. As gotas de orvalho.
- Cores. Tantas folhas de cores diferentes 
- Pormenores nos troncos. Os raios de sol. 
[etc. etc….]

- Já repararam que o mesmo se passa connosco. Sejamos nós ou alguém, pode(mos)-nos marcar com “és inteligente”, “és burro(a)”, “és fraquinho”, “não sou bom(a) a matemática ou a inglês ou seja-lá-o-que-for”, “és top”, … pois, ficamos marcados e temos, ora que corresponder a expectativas, ora que nos resignar… Não, cada um de nós é mais que uma marca. Nós somos seres humanos, em que há muito a acontecer no nosso interior. Tal como o exterior é uma variedade de tons, visuais e sonoros, também nós passamos por muito e é preciso aprender a lidar com esses movimentos todos. Se não somos bons nisto, de certo que seremos naquilo. Mesmo que a minha inteligência esteja mais estimulada, há que fazer caminho no processo, a não acomodar-me, seguir no continuar a descobrir.  Proposta de trabalho para casa: o que vi? o que observei? o que senti? como sinto e vivo o que me rodeia?

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Dia nacional do pijama




[Coisas da vida de um padre] Hoje estamos a celebrar o dia nacional do pijama, instituído pela associação Mundos de Vida, para recordar que todas as crianças têm o direito a crescer numa família. Ver o padre de pijama: foi a loucura e o delírio.

domingo, 20 de novembro de 2016

Brecha




Francisco Andresen Leitão


[Secção outros tons] A majestade silencia-se na revelação do segredo. Não é de barro, não é de ouro, não oprime, não fecha portas, não impede sonhos, não anula. Espera. Pacientemente, espera. Abre-se a brecha. O véu do templo rasga-se e ilumina a fé. A sede de amor dá frutos no encontro de paraíso… em oração de gesto próximo por quem ninguém quer.

Cristo Rei



Duarte B Sousa


A passagem do Evangelho proposta para este dia de Cristo Rei, mostra-nos a primeira canonização directamente da cruz para a corte celestial. Sem pompa, mas com muita autenticidade, um condenado reconhece o mal que fez e a injustiça cometida a Jesus. Nas condições mais miseráveis, alguém é capaz de fazer uma crítica em nome da verdade e da liberdade. Nos versículos anteriores, Jesus é burlado, gozado, escarnecido, por grupos distintos, para que manifeste a grandeza do messianismo salvando-se a sair da cruz. É forte o silêncio… não lhes dá resposta. A única vez que O “ouvimos” falar é a dizer ao outro condenado, conhecido como bom ladrão, que naquele mesmo dia estará com Ele no paraíso. É muito duro aguentar com este tipo de messianismo. Num momento, resume toda a sua acção: um rei… condenado… que no limite das suas forças entrega graça a um desgraçado. O seu poder é dar poder, não de posse, mas de serviço. Isto não se aguenta com facilidade. O mais natural e subtil é um poder que controle, endoutrine, formate, mutile, psicológica e religiosamente a liberdade que Deus insiste em nos dar. A tentação do reinado, ou de uma Igreja régia, que muitos ainda desejam com rebusques de autoritarismo dogmático e moral, afunda-se em celebrações, manifestações ou afirmações, que esquecem a experiência divina encarnada no meio de gente de má-vida. Fica sempre a soar que esses “precedem no Reino”. Para mim, do que vou lendo, estudando, rezando, vivendo, apercebo-me que a melhor reverência a fazer a Cristo Rei e Messias, é conhecê-Lo, na subtileza e força dos gestos de salvação no terreno, no meio das pessoas, crentes e não crentes, em especial os oprimidos e condenados pela religiosidade vigente, enquanto revela Deus Abbá, e assim amá-Lo e segui-Lo.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Foto



[Secção coisas] Estive para escrever um texto sobre a visão “quadradona” e monocolor das realidades, entre outras, em especial da religiosa e da eclesial. Mas, lembrei-me da foto que tirei hoje de manhã. 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Filosofia [Dia mundial]




Adrian Borda


[Secção pensamentos soltos… em dia mundial da Filosofia] Nos meus idos tempos de secundário, tinha muito claro que queria ciências para seguir medicina veterinária. Entre as disciplinas “com sentido”, lá havia as “sem sentido”… como Filosofia. “Aquilo é demasiado estranho!” De tal maneira que tive brilhantes notas: 11 no 10.º, 10 no 11.º. Passei, com a sensação de “filosofia, nunca mais!” Ironia da vida: durante o discernimento, dou-me conta de que os jesuítas fazem a licenciatura em Filosofia. E lá a fiz, com imenso gosto… e, já mais velho, a perceber a importância de saber pensar bem. O estímulo do pensamento é cada vez mais necessário. Tantas vezes digo aos meus alunos para que façam as boas perguntas às reportagens, aos telejornais, aos posts e artigos de opinião, não se deixando levar pela emoção e reacção, de populismo em simpatia ou antipatia. O bom uso da razão é caminho de humanização… afinal, entre o dogmatismo e o cepticismo, há o caminho do sentido crítico, não permitindo qualquer fundamentalismo, mas compreensão do ser humano, na riqueza da sua existência… para o bom, para o belo, para o ajustado, para o relacional.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Amor que não esquece




Hideki Mizuta


Das muitas referências do amor de Deus, há uma, no livro de Isaías, que me tem dado que pensar: “Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu [diz o Senhor] nunca te esqueceria.” Para quem tem e vive o amor pelos seus filhos, é impensável este esquecimento, em modo de negligência. No entanto, o pormenor da ressalva mostra que é possível acontecer. E acontece. Crianças e adolescentes que crescem a partir da triste motivação de que a vida se consegue pelos gritos, pela violência ou, por si, esquecidos desse afecto fundamental para a resiliência e sentido de vida, esperam, sem se aperceber, atenção a partir da violência e agressividade. Hoje, um aluno, num acesso de raiva, saiu-se com esta: “Estou farto desta escola. Toda a gente se preocupa comigo.” Sem mais, abracei-o. Senti os seus braços a descaírem nos ombros… e os soluços de choro. Não dissemos mais nada. Muitas vezes tem de sair o raspanete, mas… vou ganhando a sensibilidade para perceber que esse modo de funcionar já lhes está quase tatuado na alma. Há alunos, melhor, pessoas, a quem o raspanete, castigo, etc., já não funciona. O que os baralha mesmo é sentirem-se amados como pessoas, em gestos que mostram não serem esquecidos.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Misericórdia




Estava à procura de umas coisas aqui pelo blogue e acabo por ler um ou outro texto mais antigo. Por exemplo, esta partilha que fiz de um dos momentos de oração de uns Exercícios Espirituais, que, por vários motivos, é tão actual para estes meus últimos dias: “Repito muitas vezes ‘misericórdia’, com o sentido de ‘entranhas mexidas’ com a dor, o sofrimento, do outro. Tenho receio de que de tanto repetir possa esvaziar a palavra, tal como acontece com ‘amor’. No entanto, tal como na dança a repetição do gesto, do movimento, é fundamental para o incorporar, também é necessário repetir os gestos de misericórdia. Deixar que se entranhe, incorpore o sentido da entrega, do amor ao próximo. Dito assim pode ser, ou pode entrar num voluntarismo. Aqui é uma questão, mais que de esforço, da prática de amor ao próximo a partir de Cristo. Imitar Cristo, não me comparar com Ele. Senhor, peço-te, ajuda-me a ‘con-figurar’ contigo. Não para ver se chego onde tu chegas… não é uma questão de comparação ou competição, mas de viver o amor ao próximo a partir do teu amor. É aí que vou percebendo o ‘passou fazendo o bem’ e o ‘levanta-te’ tantas vezes repetido a quem estava caído, desprezado, excluído e rejeitado, sem exigires nada, absolutamente nada, em troca.” 

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Humanizar


Norbert Fritz
[Secção desabafos] Nestes últimos dias tem-se assistido à agressividade a crescer nas palavras, ditas e/ou escritas. Anula-se, mata-se, chacina-se, a uma velocidade ultra-sónica. O argumento ad hominem, onde se ataca a pessoa e não a ideia ou posição apresentada, é o mais fácil a ser usado… aliás, pessoas que deveriam ser modelo, pelos cargos que ocupam ou vão ocupar, usam-no de forma leviana e natural. Da esquerda à direita, fala-se de valores de humanismo, etc. e tal, e depois o que surge é a animalidade reaccionária. Deseja-se, quer-se, impõe-se o mundo melhor, mas tem de ser ao “meu modo”, de uma só cor… que depois, seja qual a imposta, se torna bastante escura. Subtilmente, acontece o estranho fenómeno: “sou tão anti-fundamentalista que por mim todos os fundamentalistas devem morrer”. Ao ler comentários, notícias, posts reaccionários pelas redes sociais fora, tento fazer silêncio para acalmar o ruído que se gera. Depois, levo para a oração e para a missa, e assim, no que me é possível, anular os efeitos dessa agressividade crescente. Como? Pela escuta das minhas emoções sobre temas que me são sensíveis e com os quais fico incomodado pelo que escuto ou leio, independentemente se as pessoas que os dizem são dos meus grupos ou não. Há que ir ganhando liberdade interior para não cair em defesas do indefensável, e não cair no perigo de incoerência ou hipocrisia nos gestos. Aí entra o diálogo entre a emoção e a razão. As grandes ditaduras, os nacionalismos, crescem, entre outras coisas, porque a emoção do medo ganha espaço e tempo no indivíduo e no colectivo. Não sabendo dialogar com essa emoção, ataca-se ferozmente ou refugia-se em seguranças doutrinais (políticas ou religiosas) em que se vê o outro que pensa diferente como alvo a abater. Há pessoas com que, de todo, não me apetece, nem quero, ir "tomar café", mas isso não significa que lhes deseje a morte. A grande inimiga do ser humano, dos seus valores de tolerância, respeito, para além das crenças que cada qual vive, é a ignorância. E essa vai-se anulando pelo exercício da escuta autêntica de nós próprios e do que nos rodeia, em boas conversas e aprendizagem, onde se toma consciência de que em cada um de nós existem, quer se queira ou não, todas as cores, com os seus muitos tons.

domingo, 13 de novembro de 2016

Senhor...



[Secção outros tons] Senhor, que continue a viver a sensibilidade de ver a pessoa como o todo que é... para além de qualquer característica e opiniões. Senhor, ajuda-me a nunca matar com palavras, mas a dar vida em gestos e beleza. 

sábado, 12 de novembro de 2016

Terminou a Congregação Geral



www.gc36.org

[Secção jesuítas-on-fire] A Congregação Geral terminou… curiosamente em dia de aniversário do P. Arturo Sosa, o nosso novo P. Geral. Este tempo foi forte para nós, milhares de jesuítas e milhares de colaboradores da missão comum. Foi eleito o novo Padre Geral e muito foi rezado, pensado e conversado sobre a Companhia por todos os delegados do mundo inteiro. Na riqueza da diversidade, os delegados levarão a experiência da proximidade e de tantas outras perspectivas do modo de viver o anúncio de Cristo no mundo de hoje. Em breve chegarão os decretos. Por agora, fica o agradecimento a todos os delegados e todos os colaboradores presentes na Congregação Geral 36. Fica também o agradecimento a tanta gente que rezou e/ou pensou neles.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Descobertas




[Aula com alunos do 7.º ano] 
- Stôr, onde vamos?
- Ali.
- Lá está com o sorriso matreiro.
- VAMOS AO BOSQUE?!?!
- Sim, vamos. [Animação geral] Andamos a falar das origens do universo. Se temos natureza perto, há que senti-la. Junta-se as origens da descoberta como crianças, com a curiosidade natural de ver cantos e recantos. Aproveitem e corram, brinquem…

[Um pequeno grupo às escondidas, outro a pisar folhas secas, um terceiro a fazer barro, sujando as mãos e imaginando uma padaria… “tal como fazíamos quando estávamos na primária.”]

Sombras... e Luz




Ivan Dimitrov

Tomar consciência de que em cada um de nós há algo, senão mesmo de tudo, o que não se gosta de desumanidade, ajuda a perceber o modo como se pode lidar com isso: ou auto-engano-me, achando que tal não me afecta; ou enfrento, sem julgamentos, esse lado sombrio e levo-lhe luz, de modo a que o desconhecido em mim passe a ser conhecido. Sendo conhecido, posso dar-lhe o rumo adequado na evolução pessoal. Enfrentar a escuridão tem de ser acompanhado com Luz, a mesma que ajuda a enfrentar os demónios pessoais, como, por exemplo, Gandalf, n’O Senhor dos Anéis, o fez ao lutar contra Balrog… de Cinzento, passou a Branco. Para mim, não tenho dúvidas que é levar Cristo, que desceu aos Vales da Morte, a essas zonas. Para quem não é crente, é isso, fique-se com a imagem do iluminar as zonas sombrias… que todos, sem excepção, temos. 

Para quem não conhece esses momentos do filme, referentes à luta e à conversão, aqui fica uma ajuda:



quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Dar espaço e tempo à Luz




[Secção outros tons] Em tempos enevoados, há que dar espaço e tempo à Luz. Sombras todos temos, sementes à espera de brotar ou reforçar talentos, também. Que a queixa não domine, apenas a certeza de que podemos dar o nosso melhor à Vida em comunidade... local e universal.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

No dia de hoje...




Tania Ruda


[Secção pensamentos soltos… muito soltos] Está-me a ser bastante difícil escrever este texto. Nem sei bem explicar a sensação. Na homilia de hoje, diante de mais de 2000 pessoas, a grande parte alunos, falei da importância de sermos co-criadores na construção de um mundo melhor. A importância inclui a consciência de sermos o presente, no aqui e no agora, da humanidade, levando-nos a pôr os meios, na formação humana, académica e técnica, para amar e servir nessa co-criação. Falava de coração… cada vez mais direccionado para a educação, que, de todo, não é uma brincadeira. Por um lado, tendo a base no que e em Quem acredito, falei com o desejo de alimentar a esperança e a confiança. Conheço já bastantes vidas que tinha diante. Por outro, falei com o aperto de ter acordado com a percepção de que o medo ganha cada vez mais terreno no mundo. Basta um pouco de bom senso para perceber como os extremos são sempre preocupantes. Ainda mais, quando se fundamentaliza…. tanto a existência como a inexistência de Deus. Parece-me cada vez mais, graças ao medo em crescendo, que nos afastamos de algo grande enquanto humanos: a liberdade. Por medo, prefere-se a ultra-segurança… que pode estar presente na regra, na doutrina, em muros, em segregações, em limitações da identidade e da cultura, ao ponto de se poder considerar a exclusão, até mesmo a morte, de alguém como caminho viável para afirmar idealismos, nacionalismos, “religiosismos”. Para se educar contra o medo, é preciso tomar consciência também dos monstros que todos levamos dentro e combatê-los, para que a confiança impeça que nos tornemos reactivos, à defesa, fazendo do outro um alvo a abater. Esse medo avança, alimentado por faltas de formação, de educação, de valores que ajudem a pessoa a ganhar pensamento próprio alicerçado em Humanidade. Cada vez mais estamos situados entre escolhas de “mal menor”, quando deveriam ser de “bem maior”. Parece-me que a globalização aumentou o “ambiente aldeia”, em que as “mentes pequenas” crescem a partir de ódio, de inveja, de tremendas faltas de respeito em nome da “minha opinião”. Hoje, houve e há muita surpresa com o “mundo estranho”. No entanto, pena é que as graves lacunas na educação, em especial nas áreas das ciências humanas, não provoquem tanta inquietação. Todos somos o presente da humanidade, chamados a co-criar, a construir um mundo melhor, onde o medo em crescendo possa ser substituído pela confiança e pela esperança. Que se perca o medo, mas nunca de vista que “todas os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade (…) sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.”