segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Coisas...




[Coisas da vida de um padre] Este fim-de-semana estive em Portimão. Entre o pouco tempo, deu para celebrar um casamento, um baptizado, descansar, dar um abraço a um grande amigo no seu aniversário, estar em especial com os meus pais, co-celebrar com gosto na Matriz e co-celebrar, muito agradecido, na missa em que 3 companheiros jesuítas, da nova comunidade que se fundou na minha querida cidade, foram nomeados párocos da paróquia de N.ª Sr.ª do Amparo. Nestas celebrações, encontro sempre muitas pessoas conhecidas. Há sempre algo caricato a acontecer e que se repete: já percebi que a minha simpatia vem de tenra idade… pelos vistos, eu era tão, mas tão, dado que andei de colo em colo por metade ou mais de Portimão… e,melhor, são tantas as pessoas que, além do colo, davam uma ajuda aos meus pais, gabando-se sempre com muito orgulho e entusiasmo pelo facto de me terem mudado as fraldas. Enfim, isto da intimidade tem que se lhe diga… ;)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Gosto de lá voltar




Gosto de lá voltar. Já há muito que não o fazia. Os naturais cumprimentos que alimentam memórias: "como estás? Ainda te lembras dele? Foste meu aluno? Que fazes agora? É padre?!? Não sabia!" Outros cumprimentos de quem não me conhecia: "é o colega novo de português?" Risos e recordações, com as novidades de linguagem comum na educação. Sozinho passeei pelos pátios e pavilhões. Os espaços, com tanto de igual e tanto de diferente, evocam tempos idos. Aquele canto, onde nos juntávamos no intervalo grande da manhã. Os bancos do jardim, que me fizeram lembrar uma conversa específica sobre a morte e a vida. A sala de aula que em tempos passados sentei-me como aluno. Hoje, como professor trago à memória os tempos de aluno, reconhecendo os educadores e formadores que também me ajudaram ser quem sou. Esta semana, na SIC, uma reportagem falava da desmotivação de professores e de alunos. Quem vive o quotidiano de escola, acompanha esse crescendo da desmotivação, tentando ser excepção no estímulo, apesar do sistema educativo cada vez mais burocrático e cansativo. Todo o aluno tem potencialidade de talentos, para além do "tem de ser" para reconhecimento social. Há o simples "ser", esse já de si carregado de força que nada nem ninguém deveria abafar. Educar, que engloba o instruir e o ensinar, implica o direccionar para fora, ajudar a sair de si, dando ferramentas para que cada qual dê o seu melhor. Tal como afirma Eclesiastes, há tempo para tudo. Hoje foi dia de recordar o tempo de aluno e agradecer os educadores que me ajuda(ra)m a sair de mim, para, agora como educador, ajudar outros a partir. Mesmo que o tempo passe e tudo vá ficando diferente, gosto de lá voltar.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Nome e desafios




[Aula de 9.º ano - a primeira] As apresentações podem tornar-se um pouco secantes para os alunos. Afinal, eles dizem o mesmo algumas vezes. Propus algo: “Gostava que me dissessem o vosso nome e, depois, que desafios cada qual sente como dinamizadores em tornar o mundo melhor, mais humano.” Antes da proposta, dirigi-me a cada um(a) e... “você é espectacular!”… (rostos de estranheza e sorrisos). Depois, disse-lhes que não eram o futuro da humanidade. É sempre interessante ver a reacção de indignação. “Alguém tem noção do porquê?” “Porque somos o presente.” Responde um, logo na segunda possibilidade. “É isso. Neste aqui e neste agora, o que cada um de nós faz já tem um sentido. Sim, na tal história de estudar, aplicar-se e, de forma especial na minha disciplina, em humanizar(-se). Então, começamos por aqui… nome e desafios.” Fui escrevendo no quadro. Há muito material para trabalhar ao longo do ano.

Dia de S. Mateus e Internacional da Paz




[Secção outros tons – especial dia de S. Mateus e Internacional da Paz] Chamo-te: acredito na tua essência. Passado de injustiça, presente de confiança, futuro de esperança e anúncio. Sem rodeios, sair… também de pazes apodrecidas. Tu e Eu e Tu formamos diferenças. Não nos enganemos. A Paz vem daquele que acredita que o outro, todo o outro criado à imagem e semelhança, é digno. 

Foto de uma foto que me foi oferecida com tanta história de partilha e encontro. Por detrás, dactilografado, um poema de Daniel Faria: 

explicação da madrugada

água entre muralhas:
 o orvalho


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Entrevista Ecclesia




Convidaram-me, em conjunto com a professora Elisa Urbano, para ir ao programa da Agência Ecclesia falar sobre educação. Aqui fica o meu agradecimento ao Paulo Rocha pela entrevista. Abordámos, inevitavelmente, a situação das escolas com contrato de associação, precisamente por trabalhar numa que sofreu cortes totais, estando a sofrer as tristes consequências. Mantém-se o silêncio oficial por parte do Ministério, considerando que a comunicação social (ainda?) não é orgão oficial de comunicação do Estado. 


Educação





Sally Nguyen

[Pensamento muito solto sobre educação em tempo de regresso às aulas] Devia-se caminhar cada vez mais na colaboração entre educadores-família e educadores-escola. Sabendo a função de cada um, sem atropelos, em complemento, ajuda muito mais no crescimento do educando. Por aqui vamos avançando na educação parental, onde se fomenta a importância do elogio e a aprendizagem no ajuste na correcção, percebendo o que é que a criança realmente está a dizer, seja em gestos ou palavras. Melhoramos o ser educador (em família ou em escola), para além da experiência que se tenha, na aprendizagem uns com os outros.  


sábado, 17 de setembro de 2016

TED




Quase, quase a "botar faladura"... O sentido para além dos sentidos. Eu que sou grande fã das TED talks, vou partilhar algo numa. É emocionante!

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

[...]




[Secção outros tons] A cruz nem sempre é vista com a claridade das horas. Em tempo sombreado, mesmo que a perda, a morte, o sem sentido, sejam a principal nota, o matizado de vida, na diversidade de dons, ilumina a certeza da passagem a outras possibilidades.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Exercícios Espirituais





Dentro de breves minutos começo a orientar Exercício Espirituais a um grupo de 15 pessoas. Em silêncio, propõe-se escuta de Deus... e de cada qual diante d'Ele.


Desabafos




Edwin Rosskam

[Secção desabafos] Por respeito, não é de mostrar a realidade de vidas económica e social de boa parte dos nossos alunos que estão a regressar às aulas, selecionados segundo os critérios estabelecidos pelo Estado. E esta escola é uma das que tem contrato de associação. Para quem vive diariamente as suas histórias, começa, além de entristecer, a cansar as piadas à volta do mesmo, em especial vindas de muita desinformação. A Educação precisa, mais do que política, confrontos e acusações, de colaboração. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Libertar




Chris Cannucciari

“Desculpe, P. Paulo, por estar a levar com isto tudo.” Ouço, muitas e muitas vezes, no final de uma partilha intensa ou mesmo confissão. No entanto, nunca aceito este pedido de desculpa. Não faz sentido. Sobretudo quando, de algum modo, me confirmam a vocação de ajudar a libertar. Cada pessoa tem a sua história e por vezes tem de despejar a porcaria que a impede de viver bem, com qualidade, nas suas muitas dimensões. “Ah, mas dizes que a vocação de padre é ser caixote do lixo?” Não… digo que a vocação de padre, inspirado por Cristo, também é a de, apesar das noites, tristezas ou porcarias, ajudar a revelar a beleza e o imenso da humanidade.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Encontros





[Coisas na vida de um padre] 

Estação Porto-Campanhã. Sotaque bem cerrado.
- O senhor num estebe ontem na tê bê?
- Sim, estive. 
- É o padre?
- Sim.
- Ai tenho de dizêre: onde é que dá Missa? Bou passar a ir todos os dias! Fala bem e é todo jeitôso. 
A amiga: - oh, num tens bergonha? 
- De quê?! De dizêre a berdade? Gostei do que disse sobre os bombeiros e q'é jeitôso, é! 
Eu, depois de rir à gargalhada:
- Obrigado pelo elogio. Mas, olhe, se começar a ir mais à Missa há-de reparar que, além de haver muitos mais padres a falar bem e jeitosos, o grande jeitoso é mesmo Nosso Senhor. 

Do beijinho não escapei e seguimos caminho. ;)

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Nação Valente




Nação Valente, o programa de hoje da RTP, em homenagem aos bombeiros e angariação de fundos, tanto para os bombeiros, como para as vítimas dos incêndios em Portugal. Dei o meu contributo, comentando algumas ideias. Estava nervoso. Tentava concentrar-me no que me perguntavam. É mesmo diferente falar em estúdio e no exterior. De fora, na TV, não se nota tanto a agitação de exterior, mas lá, com as crianças na natural animação ali mesmo ao lado, o mega foco de luz apontado à cara e o coração a pensar em tanta gente concreta, estava com o pensamento a mil e tinha a sensação de me baralhar e repetir no que ia dizendo. Esqueci-me de algo: agradecer a todos os militares que ajudaram no terreno. Neste tempo em que se fala, também injustamente, de alguma formação militar, é de reconhecer a honra que vivem no serviço à pátria e ao próximo. Aqui ficam os links para os dois momentos:




domingo, 11 de setembro de 2016

Texto a pensar em ti que entraste e em ti que não entraste no Ensino Superior




Riyas Muhammed


A ti que entraste:
Parabéns. Se foi onde querias, aproveita ao máximo esse desejo que foi brotando e agora vês realizado. O natural ânimo vai ajudar a superar os desafios que tens pela frente. Se foi onde não era bem o que querias, porque não agarrar a oportunidade? Haverá sempre a possibilidade de mudar, mas, ainda assim, algo novo está pronto a ser-te revelado: entre pessoas, sítios e ensinamentos, até poderás ter a surpresa de perceberes que faz sentido e ser o/a melhor daquilo tudo. ;) Enquanto és caloiro(a), vai aprendendo dos mais velhos, não só o que há a fazer, mas aquilo que não queres fazer. Não entres em competições estúpidas, que levam a injustiças e malvadez. Que as tuas classificações sejam sempre abrilhantadas de esforço, de verdade e de colaboração.

A ti que não entraste:
Poderás estar a dar voltas ao porquê, naquela sensação de frustração e vazio. Ou então, a deixar que a esperança da 2.ª fase ganhe sentido para avançar. Não, não és a pior pessoa do mundo. Não te compares com ninguém: a história e a vida são as tuas, o caminho é o teu. O mundo não acabou. Respira fundo e vê o que há a fazer para continuares a lutar pelos teus sonhos. O mundo pode dar voltas e encontrares sentido de caminho onde menos esperas. Abre o coração às surpresas. ;)

A ambos:
O Ensino Superior é reconhecimento. No entanto, maior reconhecimento é alguém que trabalha os seus valores na contribuição de um mundo mais justo e humano. Por isso, seja em que etapa de vida estiverem, não sejam medíocres no pensar, na visão do mundo, nem se percam em imitações seja de quem for. Sim, inspirem-se em quem possa orientar para o crescimento humano, que implica o académico, mas, sobretudo, o de sentido de justiça e de serviço. Não guardem para vocês: partilhem, colaborem, humanizem o que vos envolve. Continuem a descobrir os talentos, a pô-los em prática. Não tenham problemas em reconhecer a fragilidade. É certo que em realidades tão competitivas, algumas mesmo selvagens, são os mais fortes que aparentemente ganham. No entanto, a fragilidade bem entendida, pode dar muita força… nesse caminho de humanização. Não esqueçamos: não somos máquinas, somos humanos.

sábado, 10 de setembro de 2016

Mentalidade de aldeia




Juan Osorio

[Secção desabafos] A mentalidade de aldeia por vezes pode ser muito perigosa. Reconheço o bom de se viver em comunidade mais pequena, em que as pessoas encontram-se em maior proximidade e entre-ajuda. No entanto, o lado menos simpático da mentalidade de aldeia é mesmo o de se ficar com a visão pequena da realidade, como se o mundo fosse apenas aquele espaço limitado. “O que é os outros vão pensar?”, ouve-se por vezes. Mas, saberão lá os outros da vida de cada qual? Do que realmente se passou? Se alguém engravidou, surge com uma criança, abortou, "saiu do armário" divorciou-se, é familiar de uma pessoa que se suicidou, etc., não precisa de gente a apontar o dedo, a condenar, a pôr-lhe mais fardos pesados. Se não se sabe o que dizer, cale-se. Sim, o silêncio é maravilhoso, pois assim, além de não provocar mais ruído, ajuda a escutar o próprio coração e a curá-lo das ânsias de novidades sórdidas para espalhar maldade e mesquinhez. Há tanto sofrimento desnecessário… e tanta gente a precisar de sair da aldeia cerebral para perceber que o mundo é muito mais vasto.


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Celebração




[Secção homenagem] Podia contar histórias e mais histórias, que de História já se preenchem estes laços de irmandade. 26 anos de melhor amizade do mundo, universo e arredores, onde mantemos a loucura de crianças e a seriedade de adultos que partilham cantos e encantos do caminho feito, longe ou perto, nesse apoio de quem muito quer a Vida um do outro. Agradeço a Deus, entre muitas coisas de ti, Suzanne, a existência plena de sentido, em especial na entrega de humanidade e de sonhos. Tu, hoje, és a Rainha.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Educar


Marius Cinteza
Educar não é fácil. Até aí nada de novo. O novo é cada educador, em relação familiar, académica, cultural ou desportiva, perceber isto em cada dia. Todos se transformam: o educando em receber ferramentas para a liberdade, o educador em descobrir-se cada vez mais livre para transmitir ao seu modo as ferramentas para a liberdade. O trabalho é exigente e contínuo, para que não haja imitações, mas inspirações. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Sapatilhas [ou ténis]




[Secção coisas de nada] Podia ser uma pintura. Reconheço a inspiração em Van Gogh. Saiu uma fotografia de sapatilhas (ou ténis, conforme a região geográfica de quem lê). Engraçado como as coisas ganham história e estórias. Comprei-as em Madrid, numa das minhas primeiras estadias em tempos de comissário. No Corte Inglês de Preciados. Na altura, andava com a mania das modas e das marcas. Inconscientemente: “só se é gente quando se veste marca”. Enfim, daquelas coisas de crise de auto-estima. Os anos passaram e entrei na Companhia de Jesus. Não tinha outras e levei-as para o primeiro Campo de Férias. Depois, peregrinação. Seguiram-se outros Campos e peregrinações. Contam muitos km’s e muita terra, coladas várias vezes com super-cola. Nem sequer era mania de pobreza, apenas o gosto de já fazerem parte dessas histórias de 13 Campos, com muito pó e muita animação. Ao vê-las recordo especialmente o uso, o caminho feito, desde aquele dia, lindas e maravilhosas na montra… até agora, gastas, rotas e cheias de contos. Hoje, conscientemente: “só se é gente quando se ama”. 

domingo, 4 de setembro de 2016

Madre [Santa] Teresa de Calcutá




AP

Os santos de longe em tempo, apesar de perto na oração, são descritos a partir de histórias que foram deixadas em textos, seus ou de outros por si. Depois, há os que tocaram pelo seu gesto e pela sua voz, aqui tão pertinho, como se os conhecêssemos em vizinhança. É o caso de Teresa de Calcutá, que, como o Papa Francisco hoje dizia na canonização, pela marca da sua simplicidade não dá para chamar por Santa, mas, como sempre foi carinhosamente conhecida, Madre Teresa. O profundo de Deus presente na simplicidade da acção pelos que a sociedade mais rejeita, excluí, como se fossem indignos. Das grandes lições é que diante d’Ele não há indignos. A Madre Teresa foi a grande mensageira disso mesmo.


terça-feira, 30 de agosto de 2016

Surpresas | Sentidos




Tenho andado desaparecido. Entre Campo de Férias e Romarias, tenho publicado mais posts e respectivas fotos pelo Instagram. Torna-se mais fácil, sobretudo quando ando afastado do computador. Ainda vai ser assim por mais alguns dias. Quando estiver com mais tempo ao teclado de computador, publicarei por aqui o correspondente dos dias anteriores e escreverei de forma particular sobre o Campo de Férias. Foi muito especial, pelo imenso de humano tanto em animadores, como em participantes. No entanto, hoje, ao ver as fotos do Campo, deparei-me com esta. Foi numa surpresa que os participantes nos fizeram. Depois de terem estado grande parte do dia sozinhos no Campo, prepararam-nos uma recepção a partir dos sentidos. Tínhamos, tal como fizemos com eles, de nos abandonar e confiar, à medida que nos liam textos em modo de oração. Aqui estava o paladar, nesse saborear da vida. Nem sabem como me deram uma boa ajuda para a palestra TEDx que irei dar em breve… precisamente sobre os sentidos para além do sentir. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Campo de Férias


Começou ontem o Campo de Férias. Lambretas II. 42 participantes. 15 animadores. Na primeira Missa, a proposta foi de colocar a impressão digital na cruz presente na capela. Cada um de nós é único, dando cor a todo o grupo. Todos estamos em Deus. 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

(Re)descobrir a vivência cristã… em sacramento




Bin Yu

Texto publicado na edição Agosto/Setembro da revista Mensageiro do Apostolado da Oração

As palavras missa, eucaristia, sacramento, fé, catequese, etc., parecem estar cobertas de pó. Talvez por uma questão de linguagem ou, então, de mudança de “tempos culturais”, quer estas palavras quer o seu sentido têm vindo a ser muito conotados com enfadonho, seca, aborrecido, apenas se necessário ou quando dá jeito. Em parte, há razão de ser: afinal, a linguagem e os rituais religiosos – em especial para quem não os conhece – tornam-se fechados, incompreensíveis, podendo chegar ao aparente sem sentido. E aos poucos, ajuda a que cresça essa conotação e, em seguimento, o número dos “católicos não-praticantes”. Partindo da ideia de que “não-praticante” é quem, entre outras coisas, professa a fé católica, mas, tirando casamentos, baptizados e funerais, não tem por hábito ir à Missa, poderia perguntar o que levaria a que essas pessoas tenham-se afastado da prática religiosa. Daria um bom estudo, junto com outro sobre o “estar na Missa”. Afinal, acabam por se relacionar, nesse “o que é” e “como” praticar ou viver os sacramentos.

É tão estranho quando, também a partir da linguagem corporal, sente-se o mecanicismo em que se está lá porque “faz parte”, “sempre foi assim”, “lá me levanto e lá me sento”, “lá repito as fórmulas”. Nós, cristãos, somos chamados a ser autênticos animadores e não meros executores do ritual, que em vez de ser algo de vida vai-se esvaziando em ritualismo, resumindo-se num “fazer coisas”. O ritual bem vivido ajuda a que todas as pessoas se sintam participantes da celebração. Vivendo em ritualismo, a beleza da celebração perde-se, tornando-se artificial e mecânica. Não é fazer da celebração da Missa um espectáculo ou uma “festarola" para ser “fixe, moderno e atrair”: cai-se também no ridículo. Trata-se de ajudar a que se esteja lá plenamente a celebrar a vida de Cristo em comunidade. Às vezes basta começar por relaxar os ombros e respirar calmamente, permitindo trazer a vida, tal qual ela é, para a celebração. O que oferecemos como “fruto da terra, da vinha, e do trabalho humano” é, segundo a nossa fé, transformado em Cristo, que não é um executor, mas o animador por excelência. Essa nossa oferta é toda a vida, com as suas alegrias e esperanças, dores e angústias, para que Cristo possa dar-nos a graça que mais necessitamos para melhor vivermos a nossa relação com Deus e com quem nos envolve. Uma das grandes tentações é a de que apenas se vá à Missa em momentos pontuais e, quando se personaliza ainda mais, nos que estão carregados de dores e angústias, descurando os de felicidade. Todos, mas todos os momentos são de celebrar com Cristo. A Missa é encontro que nos permite participar da vida de Deus. 

Há uns anos, numa sessão de Formação Humana e Espiritual, pedi ajuda ao grupo. Sem filtros, ou seja, a partir das entranhas, pedi-lhes que me falassem de Deus e da Igreja. O que achavam, o que sentiam, se lhes era indiferente, fossem crentes ou não. Houve respostas muito interessantes. Uma delas, pela forma tão sincera com que foi dita, deu-me bastante que pensar: “Deixei de ir à Missa quando já não me obrigavam. Acho que nessa altura até tinha deixado de acreditar em Deus. Um dia, depois de muito tempo sem ir, entrei numa Igreja. A Missa estava a começar. Decidi ficar todo o tempo. Fui comungar e vivi a presença de Deus. Tive vontade de voltar.” Perguntei-lhe se tinha consciência do que é que a fez voltar. Respondeu: “Não sei. Mas, senti que foi a partir de uma decisão minha e não de uma imposição.”

Participar na eucaristia dominical e de dias santos de guarda faz parte dos deveres de quem vive a fé católica. Mais uma vez, surge a sensação estranha de o encontro com Deus se dar a partir da obrigação. Até há, mais para a norte do país, a expressão da “desobriga”, quando se cumpre o que há a cumprir ao nível religioso. É certo que Deus manda-nos viver a proximidade com Ele em forma celebrativa, nos sacramentos, e relacional, nas obras de misericórdia. No entanto, esse mandamento não deve ser visto de forma paternalista e castradora, onde se dá o cumprimento por medo, infantilizando a relação com Ele. 

A fé necessita ser alimentada, além da oração, por uma boa formação, em catequese de adultos ou cursos teológicos, pela leitura, participação comunitária, acompanhamento espiritual, para que possamos crescer, à semelhança de Jesus, “em sabedoria e em graça”. Ao fazer este caminho de crescimento pessoal e espiritual, apercebemo-nos da importância da vida em, com e por Deus, que liberta-se da ideia ou sensação de obrigação penosa, para passar a ser uma necessidade de encontro com Ele, fonte de vida. Esse encontro, tal como sugere Santo Inácio de Loiola nos Exercícios Espirituais, aumenta o conhecimento interno que temos de Cristo, com o propósito de mais O amar, seguir e servir. É um caminho de fé desafiante. Quem tem o desejo de o fazer, vai percebendo a força da travessia, com implicações a todos os níveis, em especial de transformação do modo como se compreende o mistério da vida de Deus e, por reflexo, do Ser Humano. O cristianismo é a vivência, o relacionamento, não com uma doutrina ou um conjunto de regras, mas com a pessoa de Cristo, em comunidade, a Igreja. Tal como vamos aprendendo a nos relacionar em família, em amizade e nos vários grupos de que fazemos parte, naturalmente surgem deveres que, de algum modo, fazem aumentar os vínculos, o afecto e o sentido de pertença. 

Quando a fé em Cristo é mal compreendida, de modo mais ou menos inconsciente, põe-se em causa os deveres desse sentido de pertença ou, então, limita-se à superficialidade da sensação imediata: “sinto-me bem, vou; se não me é confortável, já não faz sentido ir” ou “estou a precisar, vou; se já estou bem, já não faz falta ir”. Quando a fé em Cristo é bem vivida, percebemos que, tal como aconteceu com os discípulos, podemos passar por questionamentos, revoltas, dúvidas, no entanto, sabemos que são passos na escalada espiritual. Há a recordar que a conversão também se dá a partir da nossa história, daquilo que somos. Não podendo mudar o passado, podemos aceitar e integrar o que cada um foi e é. Aí, consegue-se a força que nos agarra por dentro. À medida que o conhecimento interno de Cristo vai sendo cada vez mais presente na nossa vida, percebemos que Deus não pede o desencarnar do que fomos e de quem somos. Muito pelo contrário, convida a que cada qual seja o que é na sua máxima profundidade, entre luzes e sombras. No fundo, a coragem de sermos cada vez mais autênticos diante d’Ele. E tal é de se viver especialmente nos sacramentos da eucaristia e da reconciliação.

Mais do que uma prática, participar livremente nos sacramentos a partir da fé vivida, moldada e transformada por Deus, deixa de ser pela “desobriga”, mas segue os passos do desejo do encontro real com Cristo. No crescimento da relação, afastamo-nos do “sentir-superficial”, do simples apetecer, dando-se uma maior proximidade com o Senhor que nos quer fazer participantes da sua vida, para sermos, tal como Ele, vida para os outros.


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Final de Férias


Suzanne Rodrigues


[Secção final de férias] Isto do “ao sétimo dia descansou” tem muito que se lhe diga. Não só em fim-de-semana, independentemente de qual dia, como também em pousio final de época, há sagrado no restabelecer o curso das horas e das estações de corpo, onde se incluem todas as sua dimensões. É preciso desligar e, nesse tempo, simplesmente fazer nada. Houve momentos na praia em que contemplava Deus no mar. Sentia o silêncio crescer. Ainda vivia resquícios de tentação no formular palavras de agradecimento para aliviar o “tens-de-dizer-sempre-qualquer-coisa”. Sei de onde vêm, mas igualmente sei que faço caminho na contemplação deixando-me estar. E serenam-se as vozes, dando espaço ao silêncio. Terminaram estes dias. Já me encontro novamente em viagem.

sábado, 13 de agosto de 2016

Vício




Dotan Saguy

[Secção coisas de corpo] Este texto é escrito com a devida autorização, ainda mais por, em determinado momento, ter-me proposto que o escrevesse. “Paulo, por trabalhares as questões do corpo, gostava de falar contigo sobre algo que tem provocado muito sofrimento e tem sido terrível: tenho um forte vício ao sexo.” A conversa foi muito dura e intensa, para lá das três horas. A pessoa precisava desabafar, sem se sentir nem julgada, nem, sobretudo, gozada. É muito fácil entrar com a piadinha fácil. No entanto, diante de mim tinha alguém em profundo sofrimento. Perguntei-lhe se estava a ter acompanhamento. “A vergonha é muita!” Pois, mais uma vez não é tema fácil. Há que ter cuidado para não ir a extremos, ambos perigosos: nem ao conservadorismo que torna o sexo tabu, nem à banalização de uma realidade tão bela da dimensão afectiva do ser humano. “Começámos uma relação aberta, com a possibilidade de conhecer e viver coisas novas. Há quem diga que são os homossexuais que as têm, mas não é assim. O sub-mundo do sexo é assustador e, no meu caso, viciante.” Na actualidade, com o culto do corpo em crescimento, parece que se desperta ainda mais a animalidade sem afecto. 
Ao longo da conversa, fui-me apercebendo de uma grande falta de amor-próprio. 
- Que procuras?, perguntei-lhe. 
- Sentir prazer! [Enquanto falávamos, todo o corpo se contraía, a fechar-se.]
- Pára. Não te mexas. Observa-te. Sente-te. Já viste como estás em total contracção de ti mesmo. Será que te procuras a ti? Ou algo mais forte de ti? 
Fixou-me o olhar, começou a emocionar-se. Assim ficou uns breves minutos.
- Não… sei… quem sou!
Pedi-lhe para se concentrar, respirar com calma e voluntariamente perder a contracção do corpo.  
Depois de um tempo de trabalho em tomar consciência de si, disse-lhe:
- Não és uma pessoa louca, nem sequer a pior do mundo. Tens um vício, para dares o passo de liberdade há que atravessar a vergonha. Não é fácil, mas mais difícil será se continuas como estás, nessa contracção e fechamento de ti. Agradeço-te a confiança, muito mesmo, aqui estou para escutar-te. Parece-me que precisas de ajuda mais especializada. 

Sei que está a tê-la. Também continuamos a conversar. Aos poucos, na escuta que vou vivendo, vou confirmando a grande necessidade que há da educação dos afectos.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Ajuda(s)




Ricardo Oliveira Duarte/TSF


São muitos os amigos em aperto, tanto no Funchal, como mais a norte, aqui no Continente. Por eles tenho pensado e rezado. Neste momento, facilmente o emotivismo surge. O que se diz e escreve, para quem não está no terreno, tem de ser muito bem pensado, ainda mais se se cai no risco de julgar decisões de quem lá está. Fora de zona de perigo torna-se fácil decidir com toda a lógica e ponderação. Também devem ouvir-se as declarações ditas em desespero com cuidado, respeito e, claro está, sem julgamentos. Neste momento, há que juntar o máximo de esforços para a ajuda nos locais, tanto a bombeiros que ainda estão a lutar contra as chamas, como às pessoas que ficaram sem as suas casas e locais de trabalho…. e, sim, também sem os seus animais de estimação ou de sobrevivência. Quem está próximo e possa, são sempre bem-vindos bens de primeira necessidade. Para quem está longe e possa ajudar financeiramente, a Cáritas criou uma conta “Cáritas ajuda a Madeira”: 0035 0697 0059 7240130 28, da CGD.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Bombeiros




Reuters


Aos Bombeiros, por este país fora, muito obrigado e muita força. A quem vive o sofrimento pelo drama dos incêndios, um sentido abraço. Neste momento, a minha oração.

Edith Stein - Sta. Teresa Benedita da Cruz




Edith Stein, mulher e santa muito interessante, por quem sinto bastante devoção. Judia de nascimento, ateia por convicção, estudou filosofia. Sendo discípula de Husserl, escreve a sua tese de doutoramento sobre “O problema da empatia”. Mais tarde lê o "Livro da Vida" de Santa Teresa de Ávila. Converte-se ao cristianismo. Baptiza-se e, anos depois, entra no Carmelo, tomando o nome de Teresa Benedita da Cruz. Morre nas câmaras de gás de Auschwitz a 9 de Agosto de 1942. Dos seus “Escritos essenciais”: “Para os cristãos não existem 'humanos estranhos'. O nosso 'próximo' é todo aquele que temos diante e que tem necessidade de nós, e é indiferente que seja nosso parente ou não, que nos caia bem ou nos desgoste, ou que seja 'moralmente digno' de ajuda ou não. O amor de Cristo não conhece limites”.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Tempo de maternidade e paternidade




Vivek Prakash/Reuters


Um dos temas a abordar nas próximas homilias de casamentos será o do respeito pelo tempo da maternidade e paternidade dos esposos. Nenhuma vida é totalmente pública. Nem deve de ser. Por isso, não se pode saber o que cada qual está a atravessar. No caso da maternidade e paternidade, há que ter muito respeito e cuidado pela forma como se aborda a questão. “Então, já há tanto tempo casados e nada de filhos?”; “Estamos numa de gozar férias prolongadas como marido e mulher, é?”; “Para quando os filhos?”… estas e outras perguntas do género podem ser extremamente dolorosas. A paternidade e a maternidade não deve ser uma obrigação, mas um caminho de decisão ponderada a dois, nessa entrega de amor. Pode acontecer que seja um tema muito delicado, por algum motivo que, para além de quem eles queiram partilhar, ninguém tem de saber. Quando se pensar em perguntar sobre filhos a um casal que ainda não os tem, que se pense, por respeito e educação, duas ou mais vezes se tal faz sentido. E se não souber que outro tema tratar, o cumprimento, seguido de silêncio, tornam-se sempre uma boa opção.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Transportes [II]


Há dias, num post humorado, publiquei a foto do encontro com os Transportes Paulo Duarte. Tendo em conta os comentários, resolvi escrever-lhes, com a partilha do post, a agradecer o nome da empresa, já que são muitas as pessoas que pensam também em mim quando passam pelos ditos transportes. Tenho a pronta resposta que está na foto. No dia seguinte, pedem-me a morada para uma surpresa. Chegou. Será que o carteiro ficou baralhado com tanto Paulo Duarte? ;) E assim, de forma inesperada, surgem simpatias com piada. :) Obrigado, Transportes Paulo Duarte. O meu abraço! :)

Humanizar a morte




Achintya Guchhait


Ontem jantei entre conversas de anjos. Melhor, com anjos. No meio de tanto, falou-se, em especial, de humanizar a morte. Afinal, conhecemo-nos num encontro de formação sobre cuidados paliativos neo-natais. Há medo de falar da morte, em especial com quem está para partir ou quem está a cuidar. Talvez não se saiba como. Não é tema fácil, nem desejável. Mas atravessa-nos a todos, sem excepção. Exigimos a vida, ou coração a bater, em respiro, para dar aquele tempo de perdoar ou de ser perdoado. Em tanta gente os gritos são silenciosos e nada iguais. Quer-se libertar culpas e dores, mais que físicas, de alma. Não se executam técnicas, apenas, por vezes, são necessários o toque, a presença e nenhuma palavra. Os anjos encontram-se… e ontem partilhámos sobre a humanização da morte, nesse desejo de aproximar quem é cuidado e de quem cuida à Vida.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Infinito




Maria Rita, 
que a tirou e pensou em mim, agradecida pelo que vou partilhando no facebook [e por aqui]


[Secção outros tons]

Silêncio
entre histórias. 
Conduz-me Infinito. 


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Paz | Esperança




Florien Escoffier
Quando o coração fraqueja, a defesa impele ataques. No entanto, o medo pode ser anulado com a esperança. São tempos em que facilmente se generaliza, impedindo de ver que nem todos partilham de violência. Em Paris tive oportunidade de conhecer o Nassr, Íman. Ficámos amigos. De vez em quando trocamos palavras em orações. Partilhamos a dor sentida em cada atentado. Também a esperança de vivermos a fé no Deus de e da Paz. Ontem, em muitas Igrejas francesas, muçulmanos foram à Missa, prestar a sentida homenagem ao Padre Hemel. 

domingo, 31 de julho de 2016

Em dia de Sto. Inácio de Loiola




Ser jesuíta significa muito. Ao longo destes anos, tenho ouvido o "ah, é jesuíta" como elogio, piada, comentário com algum desdém, acompanhado de perguntas de curiosidade, espanto ou louvor. Talvez por tentarmos viver a indiferença inaciana, acabamos por marcar alguma diferença no modo de ver e estar no mundo. Caracteriza-nos os Exercícios Espirituais que Inácio de Loiola, Santo que hoje celebramos, nos deixou como caminho de encontro com Deus. Ele mesmo viveu este encontro de forma tão intensa, que se apercebeu como poucos da força, subtileza, riqueza, desmontagem, intensidade do mistério da encarnação em Jesus Cristo. Mostrou-nos como a nossa história é chamada a ser lugar de memória agradecida, onde em conversão tudo pode ganhar sentido de crescimento e liberdade, de modo a viver a vontade de Deus no maior amor e serviço. Também por aí o arriscar, nesse cruzar fronteiras de dúvidas, questões, humanidade, podendo passar por caminhos aparentemente desviantes, na busca de Deus em todas as coisas "na Terra tal como o é no Céu." Um abraço e a oração agradecida por todos os jesuítas por esse mundo fora, em especial por aqueles que nos governam: P. José Frazão, Provincial; P. Adolfo Nicolás, Geral; Francisco, Papa.

sábado, 30 de julho de 2016

SIC Notícias




[Secção Informações] Convidaram-me da SIC Notícias a comentar a visita do Papa à Polónia, integrada nas Jornadas Mundiais da Juventude. Lá estarei, no noticiário das 19h. :) 

terça-feira, 26 de julho de 2016

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Pietro Sorano


Estou a orientar Exercícios Espirituais. Tinha a ideia de escrever um post sobre o dia dos avós. Mas um padre foi assassinado em França. Acrescentam-se mais mortes do género pelo mundo. Apetece-me silenciar. Não quero alimentar ódios. Toda a morte incomoda.