sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Via-Sacra com Maria




Nas sextas-feiras da quaresma somos convidados a rezar a Via-Sacra. É um modo de oração que nos faz entrar nas horas fatídicas da entrega de Jesus. O www.passo-a-rezar.net convida-nos a meditar as 14 estações (apresentadas por João Chaves) de forma diferente, com o olhar e comentário de Maria (na voz de Susana Arrais). Há pouco rezei a 1.ª Estação... que, sem esperar, vai ao ponto do meu post anterior: o problema do mau uso do poder. Boa oração!

[Para a Via-Sacra com Maria: http://www.passo-a-rezar.net/via-sacra-com-maria ]

Em 6.ª feira de Quaresma




Rodi Said/Reuters


Se é por ser lá longe que nada se faz, é de dizer que eles já estão mais que à porta da Europa, eles já estão presentes aqui, estão presentes no mundo, espalhando as imagens da sua loucura fundamentalista, provocando o medo, o ódio. Como se vê, nessa loucura, matam por matar (não, não é em nome de deus) e destroem por destruir. Não me interessa se é “lá longe”, são irmãos meus, cristãos e não-cristãos, que estão a morrer, físicamente e em dignidade, de forma bárbara. Dói-me muito saber das suas mortes, mas dói-me cada vez mais a impassibilidade do mundo. Aqui não se trata apenas de crenças religiosas ou políticas, trata-se de humanidade. E eles estão a destrui-la… ou seja, estão a destruir cada um de nós, alimentando-nos de ódio e de medo, eliminando o sentido de alteridade. Faz-se história com uma sonda a aterrar pela primeira vez num cometa. Mas também se faz por haver pessoas a serem assassinadas apenas pela sua crença ou por não pertencerem a uma ideologia cega. Continuo a rezar por todas as pessoas que estão a sofrer a barbaridade e a pedir pelos que podem tomar decisões, não se ficando na indignação diplomática.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Amor. Eternidade.




Alexis Milford

- que interesse o amar, 
se a vida se reduz ao efémero?

- quando o viveres,
à séria e autenticamente,
nas dores de parto,
no silêncio da impotência,
na certeza do amanhecer,
para além de ti,
tocas eternidade.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

[In memoriam]



Recebi há pouco a mensagem. Estou triste com a partida da Ivone. Fico com a recordação da força na luta pela vida diante da malfadada doença. Conheço-a desde muito pequeno. O Ricardo, a quem envio um abraço demorado, nasceu ano e algo depois de mim. Acompanhava a sua força e fé nas partilhas que ía fazendo por aqui e nas mensagens que trocávamos. Hoje, depois do forte cansaço da luta, está a ser abraçada por Deus. Não perdeu nenhuma luta, porque as pessoas de grande coração são sempre vencedoras. Fica a promessa de viver a amizade da forma como escreveu há dias: "O amigo é semelhante a um irmão que escolhemos. Tem como missão ajudar-nos a ser aquilo que devemos ser, mesmo quando já desistimos..." Querida Ivone, obrigado pela sua força, pela sua fé… fica também a promessa do reencontro em cada Missa e, depois, no grande banquete celeste.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A visita da Mafalda a Paris




Bruno Duro


É sempre bom aparvalhar com a Mafalda. Com toque de “chiqueza” quando vem a Paris, tal como tinha prometido. No meio da loucura, com muita gargalhada, há sempre tempo para conversas sérias sobre a vida, sobre Deus, sobre Teologia, sobre sonhos. Além do famoso “abraço-pegado-ao-colo”, com direito a dança e tudo, também empurrei a cadeira de rodas pelas ruas de Paris. Do que mais me marcou foi ver os olhares das pessoas em direcção à Mafalda. Sempre de enorme respeito, mas um ou outro olhar de “coitadinha”. Ela ria-se quando comentava isto: “pois, ainda és novato. É  sempre assim. Como podes imaginar, já nem ligo!” Claro, ao longo dos tempos a perspectiva muda, mas muda mais quando conhecemos a pessoa e vemos a riqueza que está para além da deficiência ou da diferença. Não, não é cliché… sobretudo quando se ouve o nosso humor mordaz. Quem está fora de contexto pensa que é falta de respeito, quem conhece, sabe que é a beleza da amizade que vê de igual para igual. Afinal, como ela não se cansa de repetir: “é mais o que nos une do aquilo que nos separa!”. Mafi, foi tão boa a tua visita!! :) Até muito breve!! :) 

Boas notícias




Boas notícias pela manhã. Ontem libertaram o Pe. Alexis Prem Kumar,sj, depois de 8 meses em cativeiro pelos talibãs no Afeganistão. O Pe. Alexis é o director do Serviço dos Jesuítas aos Refugiados (JRS) naquele país. De momento regressou à Índia, seu país de origem. Continuemos a rezar ou a pensar por todos aqueles que continuam em cativeiro ou têm de viver em estado de refugiado, pelos grupos radicais fundamentalistas/terroristas e ditadores de nações, impedindo a paz, a justiça e a liberdade.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Na última fila da Igreja



Bruce Dale


[Ainda na sequência do post de ontem sobre o “estar na Missa”] Apercebo-me que há pessoas que se sentam por opção nos bancos do fundo da Igreja. Muitas na última fila mesmo, independentemente se grande parte das filas da frente estão quase sem ninguém. A tendência será criticar pela negativa, mas parece-me que aqui deve de haver respeito por essa decisão. Sim, numa ou noutra vez, quando a Igreja tem pouca gente, já pedi, com toda a liberdade, para se aproximarem. Mas só mesmo em situações muito pontuais. Parece-me que a escolha do lugar está ligada à relação que se tem com o altar, com Deus, com a comunidade. Foram algumas as missas em que me sentei na última fila, sobretudo em tempos em que a minha relação com Deus não vivia os melhores momentos. Mas estava lá, sim, por perceber que a zanga que se possa ter é sempre mais fraca que o amor d’Ele por cada um de nós. Por isso, respeito muito a decisão das pessoas na escolha do lugar.  E, claro está, como padre, se me sinto muito incomodado com esta situação, terei de pensar no que faço para me tornar mais acolhedor e perceber que o tempo e o espaço entre as pessoas e Deus podem passar por muitos momentos. Lá está, evitar ao máximo o julgamento e multiplicar o gesto de acolhimento. 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O "estar na Missa"



Willem Kuijpers


[Secção desabafos] Um dia, quem sabe, farei um estudo sobre o “estar na Missa”. É tão estranho quando, também a partir da linguagem corporal, sente-se o mecanicismo em que se está lá porque “faz parte”, “sempre foi assim”, “lá me levanto e lá me sento”, “lá repito as fórmulas”. Nós, padres, somos chamados a ser autênticos animadores e não meros executores do ritual, que em vez de ser algo de vida vai-se esvaziando em ritualismo, resumindo-se num “fazer coisas”. Sei que os factores são muitos, mas não me estranha que também por isto as pessoas comecem a deixar de celebrar. A beleza do ritual perde-se e torna-se algo artificial, mecânico. Não é fazer da celebração da Missa um espectáculo ou uma festarola para ser “fixe, moderno e atrair”: cai-se também no ridículo. Trata-se de ajudar a que se esteja lá plenamente a celebrar a vida de Cristo em comunidade. Às vezes basta começar por relaxar os ombros e respirar calmamente… e depois, claro, trazer a vida, tal qual ela é para a celebração. Afinal, o que oferecemos como “fruto da terra, da vinha, e do trabalho humano” é, segundo a nossa fé, transformado em Cristo, que, não é um executor, mas o pleno animador.

Deserto e liberdade



Silvia Aresca

Andava em busca 
da afirmação, 
como se a existência 
tivesse de ser declamada 

na vontade de poder, 
no controlar dos passos. 

É deserto a atravessar,
onde ainda se chora as cebolas 
recolhidas na escravidão .

Queima a pele, 
surge a sede, 
sai o velho,
aparece o novo. 

E noite após noite 
as histórias são recontadas, 
permanecendo a memória 
e a certeza da liberdade.  


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

[Depois de ver "Timbuktu"]



Fotograma do filme “Timbutku”

Trazem a morte
antes do tempo

em nome de um deus
que pensam conhecer.

Tentam cortar as notas,
mas as lágrimas,
de flagelo, 
insistem em cantar

ao som de areia cortante
a desfazer caminhos
da cultura que não vêem,
nem têm. 

O sem-sentido cobre-se 
de ridículo, no desprezo
pelas paixões invejadas.

Lapidando sem piedade,
secam as almas, pois
trazem a morte
antes do tempo

em nome de um deus
que pensam conhecer.



[Outras] leituras



Boryana Katsarova

Quando vivia em Lisboa, dos sítios que mais gostava de entrar era na FNAC ou na Bertrand. Folheava os livros, lia duas ou três linhas e era como se tivesse lido tudo. Sentia-me orgulhoso. Afinal, era culto e lia muitos livros. Na verdade, o interesse não era a leitura. Era provar(-me) inteligência. Vivia a sensação de inferioridade. As cicatrizes relembravam o empurrão e o grito: “menina, tu não és, nem serás nada!” Aprendi a sobreviver a partir dos afectos. Os meus pais insistiam comigo em ser simpático e educado. Davam-me abraços. Ao seu modo, tal como hoje, ajudavam-me no que podiam. Já passaram 3 anos desde que reli com novo olhar a passagem em S. João: “Como pode alguém nascer de novo?” Sim, é possível nascer de novo. Do sobreviver ao viver. A fazer novas leituras, de palavras e tempos. Desde o “querer” no primeiro passo, depois a pedir ajuda e a seguir deixar-se ajudar. Gosto de livrarias, mas cada vez mais gosto de entrar onde converto o coração e o modo de pensar: seja em livros, seja em histórias pessoais… onde as palavras têm corpo e conduzem à humanidade. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Porta e janela



Isr

Soa o clique do trinco da porta.

Apenas o incenso, a vela,
o silêncio e o quotidiano
partilham o sentir da oração. 

E da janela vejo o mundo.

Cinzas como fertilizante



Jennifer Jesse


Tudo o que vem de Deus convida à vida. O dia de hoje não pode ser diferente. As cinzas que se colocam na cabeça, recordando o tal pó que se é, são o resultado de ramos queimados. Esquecendo a beleza dos campos, há o risco de esquecer que este tipo de cinza também é fertilizante. Mais do que ver o o peso ou o drama quaresmal, a recordação do pó pode ajudar-nos a compreender esta terra que somos e que de vez em quando precisa ser lavrada e fertilizada, para continuar a dar bom fruto. Assim, a quaresma, mais do que tempo-de-aliviar-consciências-por-se-ter-cumprido-preceitos-e-coisas, torna-se tempo de liberdade para seguir Deus que convida à vida, nesses frutos renovados de justiça e de paz. Aí haverá conversão… em terra fértil a ser semeada.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

[Pousei a máscara]



Pablo Kramm,sj


[Secção outros tons] Pousei a máscara. O suor da folia passa nas rugas vincadas de sorriso no imaginário possível de outro mundo. Revesti-me de sonhos e de críticas, alargando o ser a novas histórias. Esqueci por momentos as dores, envolvi-me das muitas cores. Novo dia começará, a recordar as cinzas que também somos. Sabendo que nunca as haverá sem fogo, que abrasa, ilumina, anima. Pousei a máscara. A seguir à dança, vem o silêncio de vida vivida.

[Ainda] a fé!




Chaoying Zhao


Li os nomes dos 21 cristãos que foram decapitados na Líbia. Apesar de não os conhecer, durante a oração não me saiam do pensamento. Talvez por rezar a contemplar o ícone de Jesus. Foi apenas por acreditarem n’Ele que morreram. Chorei-os. Daquelas lágrimas que não se sabe de onde vêm. Suponho que da fé. A mesma que une o sentimento e dores humanos de vida partilhada para além da raça, da cor, do sexo, da nacionalidade, da confissão religiosa ou política. Deus, lê-se no livro do Génesis, arrependeu-se de ter criado o ser humano. Lucas, mostra-nos Jesus a chorar sobre Jerusalém. Têm o coração magoado por ver a malícia humana. No entanto, Noé, Maria, como tantos outros nomes mais ou menos conhecidos, guardam a justiça e a humanidade, permitindo manter a esperança divina. As lágrimas repetem o dilúvio, salvaguardando o sentimento de compaixão. A verdadeira fé não mata. A verdadeira fé quer a vida do outro, para além de qualquer diferença.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Guardei o sinal por dizer




Luis Lameiras

Guardei o sinal por dizer.
O tempo ainda fermenta,
em trigo moído e amassado,
com vinho puro preparado. 

Os céus abrem
a limpidez do olhar.

Lá longe, as raças 
espelham eternidade.
Pacientes, aguardam
o passo da unidade.

Na terra continuam
caminhos por tocar.

Planeta Terra



“Satélites a circular à volta da Terra” - European Space Agency


[Pensamentos soltos, enquanto vejo o “feeds” do facebook] 21 cristãos decapitados. Atentados em Copenhaga. Carnaval em várias partes do mundo. Mulheres violadas. Escravidão. 50 sombras. Poder. Crises económicas. Crises políticas. Queixas, críticas e comentários. Liberdade de expressão. Zlatan Ibrahimovic em campanha contra a fome no mundo. Poesia. Deus. Papa Francisco. Novos cardeais chamados ao serviço. O tempo (metereológico e psicológico). Coisas de nada. Coisas de tudo. Flutuação de emoções. Cerca de 7 mil milhões de rostos. Ser humano. Quem é o ser humano?

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Rejeição, toque, acolhimento.



Guillaume Megevand

[Secção outros tons] A pele transformou-se em rejeição. Vesti-me a preceito, de leis, gritando a impureza que a sociedade submeteu, pondo-me em cantos longínquos e de rosto miseravelmente perdido. Apenas o olhar descoberto, deixando entrever que nunca deixei de ser apesar de todos me apontarem o contrário. Vi-te. Arrojei-me no teu caminho, impedindo-te o passo. Das entranhas, em som que acumulava o desejo da existência: “Se quiseres, podes curar-me!” Vimo-nos. Em olhar sem nojo, tocaste-me: “Quero: fica limpo.” Assim, sem mais, anulas essa lei de impurezas humanas que tanto matou em fé e em relação. Não esqueces a tradição e ordenas que me mostre a esses sacerdotes, como testemunho de novos tempos. O calar-me? Não consegui. Devolveste-me a coragem de ser, descobri o rosto. Nem me dei conta que assumiste, Tu, o deserto. Ficaste fora, nesses baldios onde estão o rejeitados. Ainda assim, ou talvez por isso, compreenderam a tua diferença e até hoje és o refúgio dos desgraçados. Só Deus sabe que ninguém o é.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Ainda o amor...




Brendan McCarthy


Amor. Namoro. Risos. Rostos embevecidos, com olhos brilhantes de paixão. Corações. Flores, chocolates e poemas. Também tristeza e desencanto. Dor e saudade. Hoje é o dia que muito se falará à volta disto… ou se sentirá. Entre sorrisos e consumos. Pois, que não prevaleça o consumo, mas os sorrisos, os beijos, os abraços… os “gosto muito de ti” sinceros e cheios do agradecimento pela vida do Outro. Pela gratuidade que condensam, poderão ter aquele poder mágico de reavivar o sentido da vida. Não se nasce para sofrer, nasce-se para amar. E se há sofrimento que aparece, desejo e rezo para que o sonho, entre outras coisas da liberdade, seja mais forte que a dor, não apenas hoje, mas em cada dia da vida.

Amor, com muito humor, a roubar sorrisos.




É isto! :D


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O silêncio fica



Stefano Unterthiner

O silêncio fica 
apurado com o golpe
de asa 

ou de respiro.

Desfaz-se a fronteira,
ergo-me,
expando a visão
liberta-se o horizonte. 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

2 anos da renúncia do Papa Bento XVI



AP Photo/Osservatore Romano


Faz dois anos que o Papa Bento XVI anunciou a sua renúncia ao Papado, o que aconteceu pela primeira vez em plena liberdade em toda a História da Igreja. Em mais de 2000 anos de história foi bastante marcante. Muitas interpretações podem ser feitas, mas para mim é de destacar o sentido teológico desta decisão: mostra Deus como absolutamente central, seguindo-se o bem da Igreja, sendo o Papa o sumo servidor, para além das doutrinas que se formem à volta do papado. Aliás, uma das riquezas da história da Igreja é precisamente mostrar como o modo de interpretação das doutrinas na Igreja foi mudando conforme o contexto das diferentes épocas: de grosso modo, da perseguição à cristandade, passando pelos cismas, reforma/contra-reforma, iluminismo e contemporaneidade. Mantêm-se os dogmas, com o seu profundo sentido estrutural, mas a doutrina foi sendo rezada, pensada e ajustada ao longo dos muitos Sínodos e Concílios. Quando se fala de doutrina há que ter em conta que tem como base a salvação de cada ser humano por Deus. É a salvação, repito, e não a condenação. Deus não pode condenar o que criou e  continua a criar por amor, designado por “bom”, por “belo”. É certo que na liberdade humana encontra-se a possibilidade de rejeitar essa salvação, mas, será sempre o ser humano e não Deus. Deus a condenar o ser humano seria contradizer-se a Si mesmo. Toda a reflexão teológica também deve ter por base o ajuste humano. A tradição não é para ficar reduzida, ou fechada, num Concílio específico, mas fazer uma caminhada, sobretudo a partir do último, o Vaticano II, onde os conhecimentos humanos também dão a sua contribuição ao pensamento teológico. Se assim não for, corre-se o perigo de heresia, primeiramente contra o dogma da encarnação. É verdade que pode ser mais seguro manter-se em estruturas fixas, rígidas, mas não podemos esquecer que Cristo, em quem acreditamos, não tem onde reclinar a cabeça, relacionando-se com o Espírito que sopra onde quer, no anúncio do Pai a que todos somos convidados a chamar de Abba. Não me parece que Deus deseje o caos e convide à anarquia, pois, precisamente pela encarnação, sabe que faz parte do ser humano uma estrutura hierárquica. A novidade reside em mostrar que essa estrutura deve alicerçar-se no serviço, dentro da misericórdia e perdão, e não no poder. Afinal, não é a escravidão, mas a liberdade e a salvação do ser humano que a Deus interessa. Sim, em nome do serviço, nesse amar a Deus acima de todas coisas, Bento XVI deu o passo que ficará na história do dinamismo da vida da Igreja. No seu caminhar, depois deste passo, segue em oração, no total acolhimento do actual Sumo Servidor.

Mafi e Paulo: 1 ano a celebrar amizade



Mafalda Ribeiro


Não lhe olhem ao corpo, mas a memória é de elefante. ;) Depois de rezar, ligo o telefone e tenho esta foto, com mensagem, da Mafalda a celebrar um ano de conhecimento, com evolução à amizade. Diz ela que não sonhava ter um amigo padre e que, talvez eu, não sonhasse ter uma amiga Def. Seja como for, a partir de conversas de tanto, de Deus à loucura, passando por livros e desafios, foi crescendo a amizade. Com ela, entre outras coisas, aprendi a perder os “falsos respeitos” com a deficiência. Explico, inconscientemente pode haver aquele lado de: “ai, vou sempre dizer bem ou ficar maravilhado ou não vou criticar para não ferir mais”. Não, nem a amizade, nem a Mafalda querem este tipo de atitude. As pessoas portadoras de deficiência mais ou menos acentuada não querem ser olhadas como “coitadinhas”. Querem ser, como qualquer outra pessoa, respeitadas. Cá está, para respeitar é preciso conhecer mais do outro. Afinal, mais que as características da pessoa, a riqueza de se ser quem é deve ser o suficiente para dar outro tom à diversidade humana.  Mafi, e com isto, parabéns a nós!! :) Abraço dos nossos, suavemente apertado (só para não te partir nenhum osso, pois Paris espera-te e não dá jeito que venhas escangalhada, ainda por cima por culpa minha ;) ). 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ainda a Teologia dos Abraços




Continuando na investigação, partilho algo que me animou bastante. Haverá possibilidades de franchising? :)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Notícias falsas




Samuel Mendonça


Tenho amigos jornalistas. De alguns até posso dizer bons amigos. Imagino que, tal como fico triste ao saber de situações que mancham a Igreja e o nome dela, também eles ficam tristes quando lêem notícias com dados falsos, incorrectos, tocando a mentira, que mancham o bom trabalho que fazem em dar boa informação, daquela que ajuda a pensar. Ontem o Correio da Manhã publicou uma notícia, com bastante destaque na primeira página e fotografia, sobre um padre específico, dado como pároco de Vila do Bispo - Algarve, suspeito de violar uma mulher, estando condenado por um juiz em Espanha. Quem escreveu a notícia não se deu ao mínimo trabalho de investigar quem é o pároco de Vila do Bispo, já que nada tem que ver com as referências que dão na “pseudo-notícia”. Rapidamente da diocese do Algarve foi escrita uma nota a esclarecer que na diocese não há qualquer padre de nome João Daniel Madja, defendendo assim a honra padre Jesus Ejocha, este sim, pároco de Vila do Bispo. Ok, pode-se dizer que é o Correio da Manhã, que é sensacionalista, etc., mas não podemos esquecer que é lido por milhares, onde muitos, como me apercebi pelos comentários feitos à notícia, tomam-na como certa, dando os seus julgamentos, incluindo “a morte aos padres pedófilos e violadores”. E neste caso, é claramente algo falso. Se há coisa que me dói é a injustiça… e aqui é feita mais uma, em primeiro ao padre Jesus Ejocha, depois também a todos os bons jornalistas que fazem o melhor, até mesmo dando a vida.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Agradecido por ser padre




Kátia Viola


[Secção confissões] Cheguei a casa e senti forte necessidade de rezar. Trazia o misto de emoções pelo dia. Missa, confissões, festa das crianças, onde vivi o ser padre como presidente da eucaristia, depois como mediador do perdão de Deus e, de seguida, como aquele que também serve no animar com a presença, a gargalhada e, no final, de esfregona na mão a lavar o chão a seguir à festa. Senti necessidade de rezar, agradecido pela minha vocação. Nestes dias, sobretudo desde os recentes atentados e o que se vive no mundo que acaba por nos tocar a todos, tenho lido tanto sobre religião, sobre os responsáveis religiosos (mais do Islão, é certo), e não tem sido em muito bons tons. A religião tornou-se tema que leva à agressividade. Eu que nem sou de ter insónias, há noites que tenho o pensamento a mil. Articulam-se muitas perguntas: quem é o ser humano? o que é ter fé nos dias de hoje? qual a nossa presença na sociedade? o que é ser padre na actualidade? Parece-me, enquanto aprendo a ser padre, que as pessoas pedem a presença, aquele estar que anima (literalmente, que dá vida!). Pode haver incompreensão, possivelmente até o perigo de passar riscos, reconheço, mas há confortos demasiado medíocres. Recordo sempre o forte pedido a Deus que fiz na celebração da minha primeira Missa: “Peço-te um coração que escuta!” Sim, na escuta da realidade apercebo-me que as pessoas, começando por mim, querem alguém que as escute e ame como são, na sua grandeza e na sua miséria. É dos desafios que de vez em quando volto, porque, não vou estar com floreados, nem sempre é fácil. Claro que há caminho a fazer, mas o primeiro passo não é moral, ou pior, moralista, mas de relação. Às vezes tenho a sensação que em Igreja corremos o perigo de nos desligar do mundo, levando ao desconhecimento da realidade, criando idealizações de perfeições, tomando a atitude de ataque antes da escuta, de ver a desgraça, esquecendo o “belo” o “bom” no final de cada dia da criação. Não é fácil, é demasiado complexo, sim. Nem se trata de viver ingenuamente, como se tudo estivesse bem, quando não está. Trata-se de lutar pela justiça a partir da misericórdia. Rezando os Evangelhos, identifico-me cada vez mais com Jesus. Peço-lhe para ser humano, ao Seu modo. Cheguei a casa e rezei, agradecido por ser quem sou, por ser jesuíta, por ser padre, nesta Igreja e nestes tempos concretos, onde sou chamado, à semelhança de Jesus, a dar (a) vida.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

"Aqui nada se passou"




[Coisas do quotidiano em Paris] Não pude deixar de dar um sorriso. Ficar registado que nada se passou naquele dia, naquele local. E já foi há uns anos. Fiquei a pensar que afinal, em jeito paradoxal, acabou por se passar algo: mais que não seja a colocação da placa… com sorrisos pelo grande feito, provocando outros tantos ao longo deste tempo. ;) A vida tem muito disto: aparentemente parece que não se passa nada, mas há tanto a acontecer. Sim, há “nadas” que podem ser “tudo”. É uma questão de atenção ao quotidiano. :)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Nunca fui refugiado



Hemad Nazari


Nunca fui refugiado. Não quero passar pela experiência em corpo, mas passo-a na escuta. Há dias que dói e muito. Tira-me o sono depois de algumas conversas, onde a morte é palavra recorrente, pela fuga, pela tentativa de suicídio no desespero de não aguentar mais as dores, físicas e psicológicas. Elas violadas, eles também. Engravidam de forma diferente, onde o medo, a dor, a vergonha são presença constante, no trauma que leva tempo a aliviar mesmo estando longe dos torturadores. Buscam ajuda, tentam viver abraços. A rua tem sido a morada de muitos até conseguirem uma casa, mesmo que não seja lar. O exercício de se pôr na pele do outro é difícil e exigente. Sim, tira o sono, ou dão as lágrimas que o Papa Francisco há dias dizia ser a melhor resposta. Nesse trauma, por vezes, escutamos o que parece ser arrogância, exigências e falta de humildade. De facto, nunca fui refugiado, mas sei que a dor pode transformar-se em algo destrutivo. Tal não é voluntário, são memórias cravadas na pele que querem ser arrancadas. É preciso paciência, muita. E respeito, muito também. Os traumas necessitam de espaço para sair e nem sempre é como se deseja. Há dias que dói e muito. Nesses dias, respiro, agradeço a vida e preparo-me para acolher outra possível dose de dor que se liberta. Nesse momento, é quem escuto que importa. Dá-se a experiência do silêncio de mim, para dar espaço ao grito do outro… e nesse grito surge um pouco da liberdade em tempos perdida, permitindo que a vida possa ser a principal palavra.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Em dia da Vida Consagrada




Mafalda Ribeiro


Há dias “skypei” com a Mafalda. Entre partilhas sérias, sobre a relação com Deus e sobre a vida, houve momentos de gargalhadas. Acabou por tirar esta foto, em que estou no meio de uma estupidez. ;) Enviou-ma. Hoje, ao pensar na loucura que é a vida consagrada, achei digna para partilhar um pouco dessa loucura que em mim também existe. De facto, a vida religiosa provoca admiração, inquietação, dúvidas, rejeição, indiferença, humor. Daqui a uns dias teremos o Carnaval e de certeza que se encontrará alguém vestido de freira (mais ou menos louca) ou de frade bem “apessoado” com bochechas de vinho. Nós, religiosos, somos dados à caricatura. ;) Sou dos que acha que está a dar-se uma mudança no modo de ser religioso na actualidade. Estamos mesmo a ser convidados pelo Papa Francisco a reflectir sobre isso ao longo deste ano, especialmente dedicado à Vida Consagrada. Continuamos a ter algo a dizer ao mundo, não tanto na crítica ou separação, mas a ajudar a mostrar a cada pessoa: és mais do que pensas! Mas é preciso ser padre ou freira para isso? Sim. Pela especificidade da nossa entrega total de vida a Deus, somos chamados a dar Esperança… no estar, na escuta, na luta pela justiça, sobretudo dos que são rejeitados pela sociedade. E em vez da imagem da freira louca ou do padre comilão (haja criatividade ;) ), teremos o exemplo de alguém com quem dá gosto estar, porque à semelhança de Deus, tenta amar a pessoa tal como ela é.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Preparações para o casamento



B. Anthony Stewart


Já como diácono e mais agora que sou padre, tenho recebido, como é normal, casais que pedem acompanhamento e ajuda na preparação para o casamento. Muitos com vontade de fazer serio caminho de preparação e, lá vem um ou outro com cara desesperada porque se atrasaram no processo, ou com ar de “ai que frete lá temos de fazer isto”, ou também versão “super-religiosos”. [Como gosto da natureza humana e da sua diversidade! ;) ] Claro, “há que sempre agradar o padre, para ver se ele nos ajuda!” ;) É normal, natural, tão humano. Por tantas outras questões também passei por isto de agradar para conseguir algo. É isso, é normal, é natural, tão humano. Então, toca a desmontar, pois cada casal é um casal, para podermos ter uma boa conversa com autenticidade e fazer caminho para viverem bem e com profundidade o sacramento. Um casal: “Padre Paulo, gostaríamos de lhe pedir que nos ajude a preparar o casamento. É algo importante para nós, rezamos muito, Jesus, a Maria, vamos sempre à Missa, somos bons cristãos!” [Saliente-se que foi dito a alta velocidade!] “Muito bem, já vivem juntos?” “Ai, não, nada disso!” “Ok, já podiam viver. Caso sim, a conversa seria outra por já terem experiência de vida em comum. Sim, fico contente por saber que tem vida intensa de oração e relação com Deus. Mas, para começar: estão preparados para aguentar com os cheiros um do outro?” “Como?” “Ah, pois, estavam a pensar que a preparação era só a falar das coisas de Jesus e da Igreja? Sim, chegaremos a Deus, antes há que conhecer o humano, para saber como viver a fé também em casal. Não se esqueçam que um dos grandes problemas da vida de casal é a falta de comunicação… e às vezes sobre coisas mínimas, como os cheiros. ;) ” Demos uma boa gargalhada e começámos a caminhar na preparação em humanidade e divindade… afinal, está tudo tão ligado.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Teologia dos Abraços



Matthieu Paley


Escreveu-me um amigo, a propósito do post de há dias sobre a situação da violência doméstica: “adoro a tua Teologia dos Abraços.” Dei um sorriso. Esta frase fez-me recordar muitas coisas, também da nossa amizade. Ao lê-la pensei na quantidade de vezes que fico em silêncio, sem saber que responder, quando escuto a vida de algumas pessoas… ou percebo, para além do que está a ser dito pelas palavras, a realidade mais forte da existência que leva a que sejam rejeitadas ou pela sociedade ou por algumas paróquias ou pessoas ditas religiosas. Há pessoas muito magoadas, doridas, sofridas, com feridas físicas e de vida que lhes atravessam a alma. Muitas vezes não vai de palavras, mas de gestos que dão confiança e que curam, ajudando-as a ganhar ânimo. Tanto pode ser o abraço, como a escuta atenta sem fazer qualquer julgamento das suas vidas. Isto parece básico, mas quanto mais estudo e me apercebo da complexidade humana, mais tenho noção da necessidade de muitas vezes voltar a aprender a respirar, a andar, a amar… neste caminho de ser padre.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Life Is Victory



Cyril

Estes últimos dias têm sido muito particulares em reflexões em torno da humanidade, disto de ser humano. Por isso, pelo que sinto também de vocação de ajudar a tornar o mundo melhor, tenho saído do “retiro de tese” para partilhar sobre o que me tem tocado tanto nestes tempos, sobretudo desde os recentes atentados no mundo. Hoje tive um encontro, programado de agenda, inesperado no conteúdo, que me animou bastante. Estive à conversa com a Noy, presidente da LIV - Life Is Victory - Foundation. Falou-se da Companhia de Jesus, de África, de reconciliação e cura (também através da arte em geral, dança em particular) de mulheres e crianças devastadas pela guerra. Mais capítulos surgirão. E é simbólico ser neste dia dos 70 anos do fim de Auschwitz. Termino o dia agradecido.

Mais sobre a fundação: http://www.livfoundation.eu



Sandrine

70 anos




Kacper Pempel/Reuters


As datas redondas têm maior peso. 70. 70 anos da libertação dos campos de morte. Campos que matavam porque não se era perfeito, em raça dita pura. O fanatismo do homem que conseguiu arrastar multidões a partir da emoção contra o diferente, contra o que a seus olhos não era puro, impedindo assim a existência. Talvez hoje se escute, como já li, “que seca, hoje vai tudo falar de Auschwitz… do holocausto”. Sim, que se fale, que se recorde, e muito, mantendo viva a memória, tal como ainda estão vivas muitas pessoas que têm o infame número tatuado no braço, essa marca de pele que tentava anular o nome, a existência. Foram milhares de judeus, de cultura e religião, centenas de negros, de homossexuais, simplesmente por serem quem eram, e de cristãos que se opuseram frontalmente a essa chacina. 70 anos parece que foi há muito tempo. Mas, na história da humanidade foi “ontem”. Recorde-se também, para impedir que o ódio volte a tomar terreno entre nós, tentando seguir Lévinas, filósofo judeu francês, que apesar de ter perdido toda a família nesses malditos Campos, escreveu que somos infinitamente responsáveis pelo Outro, inclusive pelo carrasco. Lendo isto, faço silêncio, mantendo vivo o sentido de humanidade.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Rosa... sem espinhos: reais e metafóricos




Li Hoang Long


Dava mais um dos meus passeios. Encontrei a D. Maria [nome fictício]. “Olá, está boa? Já há algum tempo que não a vejo pela Missa.” “Sabe como é sr. padre, a vida… a vida…” Reparei que tinha uma mancha estranha perto do olho. Apercebeu-se do meu olhar e prontificou-se, antes que fizesse qualquer pergunta: “tropecei em casa e bati no móvel.” Nestes dias tenho andado mais sensível e emocionei-me. Saiu-me: “D. Maria, posso dar-lhe um abraço?” Ela percebeu que eu percebi que não tinha sido móvel nenhum, mas uma mão. Não sei se fechada. Não sei se aberta. Mas foi uma mão que lhe fez aquela mancha. Aceitou o abraço e chorou. Chorámos. “Tem tempo, sr. padre?” Como não havia de ter. E conversámos. Recordo esta história por ler que esta semana foram 4 mulheres assassinadas em Portugal. Quantas mais começam a ser pouco-a-pouco assassinadas na sua dignidade? Hoje, na Missa, numa tradição na paróquia, os casais renovaram os votos de matrimónio. Na homilia sugeri aos maridos para oferecerem uma rosa às suas mulheres. Não disse, mas subentendia-se: sem espinhos… reais e metafóricos.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Desabafos sobre a mística e a humanidade.



Robin Hammod, “Lagos - Nigéria”


Nos últimos dias, em âmbitos diferentes, tenho tido conversas sobre a mística. Tanto da sua importância, como da falta dela no nosso mundo. A mística pouco ou nada tem que ver com arrebatamentos espirituais, em transes de loucura, nessa concepção ridícula que se tem dos crentes. A mística também tem que ver com o sentido de descobrir o “para além” da realidade. Recordo Lucio Fontana, pintor argentino, que ao traçar as telas convidava a que não se ficasse apenas pela contemplação da mesma, indo mais longe no ver das coisas. Acrescento outro verbo: o escutar. Sim, ver e escutar a realidade que nos envolve de modo a ter sentido crítico e que nos ajude a converter, a humanizar. Nestes dias tem-me sido difícil ver e escutar. Têm sido muitos os “gritos” e as imagens que surgem a partir dos recentes acontecimentos com maior destaque em Paris, mas também na Nigéria, na Síria e na Arábia Saudita (entre outros). “Gritos” e imagens à volta da religião, da sociedade, da identidade, ou melhor, da busca dela. Ajuda-me ter amigos de muitos quadrantes e feitios para não me ficar pela crítica fácil às realidades, e foram muitas as boas conversas que me fizeram desmontar e apurar o ver e o escutar. Por vivermos no emotivismo, facilmente se vive ora em apogeu, ora em declínio, num complexo narcísico colectivo. A rapidez das redes sociais, que para muitos constitui o lugar da verdade absoluta (se antes era “aparece nas notícias, logo é verdade”, agora junta-se “se aparece no facebook ou no twitter, logo é verdade”), pode impedir o sentido crítico e, muitas vezes, a noção de bom senso diante das pessoas ou dos acontecimentos. Na sociedade está-se a perder a transcendência, ou por outras palavras, o Outro. O Outro que me convida a ver de forma diferente. Não para mudar radicalmente, mas para perceber que não estou sozinho no modo de pensar ou viver, seja de forma pessoal, seja colectiva. Tal não vai de “Eu sou” ou “Eu não sou”, nas diferentes alusões de busca de afirmação identitária. Tenho para mim que muita gente não sabe quem é verdadeiramente, agarrando-se à manada colectiva, garantido assim a segurança da existência nesse marrar contra algo. E isto acontece a nível social, político e religioso. Nestes dias a pensar sobre isto da identidade, isto do ser., dou-me conta que nem “sou Charlie”, nem sou “não sou Charlie”. No fundo, espero que sejamos mais do que essas definições. Espero que consigamos ser plenamente humanos. A reconciliação é um processo muito complexo, mas parece-me ser a chave para começar a entender, nos dias de hoje, a beleza da humanidade. Não numa abstracção diluída, mas em rostos concretos. Percebe-se que é uma questão de pessoas. Sim, as pessoas que os políticos, que paradoxalmente também o são, continuam a esquecer em nome de números, melhor, de cifras económicas. Como pessoas, há o profundo desejo de encontrar sentido na vida. Fomenta-se a formatação de conteúdos e impede-se a educação ou formação sobre os valores. Dar pilares profundos de existência, para que na construção da vida, havendo derrocadas, possam manter a estrutura fundamental da humanidade. Tudo em nome da poupança para colmatar défices. Pois, mas as más gestões, alienadas da responsabilidade  pelo Outro, pensando no “meu” poder, dão resultados que estão à vista. E temo que possa sair ainda mais caro… não em termos de dinheiro, mas em humanidade. Porque é que se esquece a história tão rapidamente? Talvez porque não se conheça, não se tenha estudado e não se tenha pensado dentro das ciências humanas. Mas isto… é o meu lado ingénuo e utópico… e a imensa força interior que me agita em querer contribuir para um mundo mais humano. Respiro fundo e sigo em caminho de conversão, na descoberta e vivência da mística.