segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Mão de asa


[Secção coisas de nada] A rever fotografias passo por esta tirada diante de outra de Wolfgang Tillmans, em Serralves. Recordo-me em imaginações de momento: de braço esticado ao céu, ganhava asa. Agora ao vê-la novamente penso no pequeno que é imenso na continuidade do ser para lá da pele. Somos nós, quando percebemos a profundidade de mistério que nos habita. Tomar ainda mais consciência de ser criado à imagem e semelhança de Deus dá-me sentido de reverência, nessa extensão do todo que nos entranha a existência. É-nos concedido o poder de criar, de agir, de amar nas ténues fronteiras de bem e mal, morte e vida, ter e ser, unir e separar. No seguimento de nós, para lá da pele, seremos capazes de voar à medida que nos formos libertando da arrogância de pureza julgadora e enraizando na limpidez do gesto de amor ao próximo.


domingo, 24 de outubro de 2021

Sementes depositadas


[Secção letras verdes] Depois de uma semana imensa e intensa na escuta, a abrir outra plena de vida.


quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Sentir de corpo


Pedro Villa


[Secção pensamentos soltos sobre corpo] Há dias estive à conversa numa formação de acompanhamento espiritual a decorrer na Argentina. Pediram-me para falar da importância de corpo no acompanhamento. Este tema é fascinante. Cada vez mais se percebe como O Corpo Não Esquece,(uso o título na tradução portuguesa do imenso e importante livro de Bessel Van der Kolk, psiquiatra que dedicou a vida a estudar questões de trauma). Nós somos mais que intelecto e o sentir, mais ou menos consciente, manifesta-se por todo o ser.


Apesar de ser algo transversal a todas as pessoas, desta vez penso particularmente na vida religiosa. O dualismo espiritualista que anula o corpo está infelizmente ainda tão, mas tão presente, que incapacita viver bem a vocação. Cansaços, frustrações, que levam desde a infantilidades à rudeza no trato, mesquinhez, inclusive com violência a vários níveis estão presentes e precisam ser vistos com atenção, para o bem de todos. Acompanhar desde corpo é permitir conhecer desde o todo e permitir que o Espírito habite no concreto, para profundamente libertar e reconciliar. As idealizações e auto-enganos moralistas impedem a presença de Deus. Às vezes é preciso recordar que Deus encarnou, não se idealizou. Assumiu corpo, carne, entranhas, vida em movimento pleno e total. 


Na conversa, dizia com humor que precisamos dançar mais. Bem, ou pelo menos saber como habitar o mais plenamente possível a existência no movimento, no sentir de corpo, que permite atravessar todas as sombras, de modo a crescer, a sermos adultos, também na fé, e levar-nos à liberdade do serviço ao outro, tanto na oração e escuta em acompanhamento ou sinais dos tempos, como no cuidar de quem mais sofre. E o reino de Deus ficará mais próximo, onde haverá festa e alegria entre todos e todas os que se atrevem a ser livres e autênticos no amor e no serviço.


terça-feira, 19 de outubro de 2021

Breve oração



Auto-retrato atravessado pela peça “Reacerto para dia luminoso” de Nuno Sousa Vieira, exposto na Brotéria



[Breve oração ao anoitecer, ainda em eco do filme A Metamorfose dos Pássaros]


Agradeço-Te

as recordações reveladas

de pão acabado de sair do forno

ou de palavras escritas, ditas, sussurradas,

nas horas em que Te quis encontrar

pelas células da pele ou das folhas ou

dos encontros fugazes a repensar a vida


Peço-Te

não desperdiçar a vida

com barreiras e dar fluidez

ao sentido dos sentidos

com sementes de paz e de infinito


segunda-feira, 18 de outubro de 2021

46 anos de casal


[Secção Vida em Celebração] 46 anos: celebram a minha Maria e o meu José de vida partilhada. Na mão entrelaçada há sempre aquele momento em que o dar e o receber se fundem. Naquele dia, o da foto, comprometeram-se ao amor na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Este último ano tem revelado esse amor profundo que ambos sentem um pelo outro. Como filho, sinto-me emocionado ao testemunhar a força da recuperação do meu Pai e a delicadeza no cuidado da minha Mãe, em caminho lento de vida nova. Dizia-me o meu Pai há dias: quero casar outra vez. Do outro lado do telefone, ouvi o pedido de casamento. Tens de ser tu a casar-nos, acrescentou. Como não agradecer este dia, em particular o amor de um pelo outro? É a minha história também. Com humildade o digo, se ajudo outros a serem felizes é também graças a este dia e à vossa decisão de, diante de Deus, dizer sim um ao outro, aconteça o que acontecer. Queridos Mãe e Pai, este ano foi muito intenso para nós, mas tão profundo no Amor. Gosto muito de vocês. Com carinho, um beijo e um Abraço, Filho.


domingo, 17 de outubro de 2021

A noite e a cor da alma



Uma página de ‘O Livro das Questões’ de Edmond Jabès


[Notas soltas depois de breves momentos de oração] Volto a escrever sobre a noite. Recordo visitar a minha avó Constança, no profundo Alentejo, e ficar de noite à luz de fogo. Apetecia-me voltar com o entendimento de hoje. Ainda assim, voltam-me ao pensamento as imagens das brasas e das labaredas a encantarem-me para mundos distantes. Quase que ouço os estalidos. Quase que vejo fundir-me com a luz na escuridão. Tem sido assim a minha oração. A noite chegou. Não a sinto escura. Mas necessária. É mais uma travessia de purificação, despojando e integrando outros tempos, deixando que Deus me mostre mais um pouco do todo. É necessário. Só assim posso compreender de entranhas o sentido de amar, libertando as ânsias que ainda ecoam de poder ou poderes que desviam o serviço. A noite encerra beleza, da simplicidade, do que é, sem mais nem menos. E há que atravessar a da alma, para perder todos os medos e abraçar o luminoso infinito que me habita, que nos habita. Deus é irresistível. Como estalidos e labaredas de fogo vibrante pela noite.


quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Breve oração



[Breve oração ao final do entardecer]


Agradeço-Te

as travessias de fogo

a purificar as entranhas 

desde a verdade límpida

de todo o sentir da vida


Peço-Te

cruzar o tempo e o espaço 

ao encontro da plenitude

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Luz e Sombra


[Secção coisas de nada] Tirei o dia para maior silêncio, leitura e descanso. A dar um pequeno passeio final de tarde pelo exterior na Casa da Torre, vejo a minha sombra alongada, envolta de manchas de luz. Tenho contactado com as sombras de muitas pessoas. Faz parte da vida de quem escuta. Que só é possível viver isso bem, quando se contacta com a própria sombra. Das primeiras vezes, é terrível. A imensa quantidade de preconceitos, em jeito de véus ou barreiras, religiosos, sociais, culturais, levanta defesas e, se não formos determinados (e muitas vezes é preciso ajuda para o sermos), fugimos, em negações ou ainda mais juízos. Mas a sombra permanece. E aumenta. Enfrentar o nosso lado sombrio é fundamental para a liberdade, para deixar que a compaixão ganhe lugar na existência. Não se trata de heroísmo, mas de caminho de muito respeito e verdade connosco e com os outros. Quando a sombra é enfrentada e atravessada, surge ressurreição: uma vida nova de sentir, entender e compreender a realidade, que conduz à construção de comunidade, para lá de qualquer competição, em colaboração com os dons, ou manchas de luz, recebidos.


segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Caminho de vida


[Secção memórias e vida] Encontrei esta fotografia na casa dos meus pais. Tinha 18 anos. Pedi a uma fotógrafa profissional que me tirasse algumas fotografias com o intuito de concorrer a um concurso de moda. Intuito, porque não cheguei a concorrer. Recordo a sensação: vergonha. Afinal, pensava eu: “sou feio! Vão gozar ainda mais comigo.” Apesar de nesse tempo já ser bastante social, na organização de muitas actividades, por dentro ainda reinava a desconsideração provocada pelo ridicularizar, entre outras coisas, do meu nariz, das minhas orelhas, do meu vestir fora de moda, da minha timidez, pelo mau jogador de futebol, pela falta de macheza.


Mais de 20 anos depois, a olhar a foto, sorrio. É tanto o que passamos na vida. Tanto, mesmo. E as feridas, as sombras, as dores, podem ser atravessadas de nova luz. A direcção espiritual em conjunto com a psicoterapia, continuando ainda o trabalho pessoal desde corpo em movimento autêntico, ajudaram a libertar-me das angústias do passado e a caminhar cada vez mais com pés firmes de presente. Ainda assim, há ecos que subtilmente surgem. Há dias, partilhava com um bom amigo as vergonhas que ainda surgem desse tempo. 


A aprendizagem: nos dias seguintes, fiz desse surgir os pontos de oração, sem julgar nada do aparecesse de memórias, sentimentos ou desejos: de que ou quem tens vergonha? E medo? E zanga? A quem gostarias de ter dito que amavas, mas não te sentias nem digno, nem capaz? As respostas afloraram luminosas. Fui entregando a Deus, permitindo o perdão. Vi o adolescente a sorrir. Aquietando-o, amei mais um pouco como adulto. Depois, senti o silêncio do novo nascer: “segue-Me! Continua a ajudar a quem te confio a fazer caminho até à beleza da Luz.”


domingo, 10 de outubro de 2021

Saúde mental


[Secção pensamentos soltos sobre saúde mental] Quanto mais leio, investigo, escuto, rezo sobre corpo, mais me dou conta do imenso que somos, enquanto indivíduos em e na relação, e do tanto nesse imenso que está desconhecido. A pandemia veio abrir muitas portas desse desconhecimento. Causou e causa medo. Rapidamente queremos voltar à normalidade, chamando-lhe até de “nova”. No entanto, desde a fragilidade que também caracteriza o imenso de corpo, somos afogados de perguntas e emoções, desde a informação excessiva de como devemos ser e estar. Esgotam-se ansiolíticos e anti-depressivos, como desejo de voltar rapidamente à normalidade sem ter de enfrentar a exigente peregrinação de sabermos quem somos, em luzes e sombras. O problema: depois do alívio, as sombras tendem a aumentar e abafar o ser. 


A saúde mental ainda é a a face diminuta da saúde global. No entanto, a falta dela, em maior ou menor grau, atinge grande parte da população. Ainda assim, descarta-se com leviandade, não se percebendo depois como “uma pessoa tão boa” tomou decisões marcantes contra si e contra outros. Pois, é fundamental dar-lhe atenção e pedir ajuda. Mas também é primordial que quem toma decisões políticas e profissionais conheça o mundo da interioridade para lá de dinheiro. Cuidar da saúde mental exige tempo, e não é de mês a mês, ou mais. E feito em particular, infelizmente com as condições sociais que temos, é impraticável para milhares de pessoas. 


Apesar da normalidade exterior que se começa a viver, há tremenda anormalidade, desfoque, inquietação interiores. Por isso, tenho para mim que a linha da frente actual terá de ser composta por escutadores. A sombra tem de ser atravessada de luz, no respeito pelo sentir. E muitas vezes a luz não surge de auto-ajuda, mas através de pessoas que se capacitaram para a transmitir, tais como psicanalistas, psicoterapeutas e psiquiatras. Pedir ajuda não é uma limitação, mas o gesto que pode separar a vida da morte da alma. A experiência diz-me que as sombras atravessadas de luz tornam-nos mais humanos. Se respeitarmos a saúde mental, todo ganhamos em corpo imenso e pleno de humanidade.


sábado, 9 de outubro de 2021

Breve oração



[Breve oração antes de adormecer]


Agradeço-Te

o apaixonar-me por rostos 

que me desafiam

às perguntas como passos

até ao profundo da existência 


Peço-Te

sabedoria nas respostas 

em tons de fogo e de infinito 

ao encontro de mais um véu rasgado

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Encontros






[Coisas na vida de um padre] Dia intenso. Depois das Jornadas sobre Cuidados Paliativos Pediátricos, segui para um casamento. Abençoei a boda de dois tripulantes de cabine. Fui apanhado a fazer demonstrações de segurança, fardado de Jesuit Airlines. Entretanto, eis que me dizem: “Sr. Padre já conhece o rei?” E ouço da parte do “rei”, depois da gargalhada: “Há rei, há bispo, os peões estão animados, a partida está ganha!” E rimos os dois. Ofereceu-me o último cd: “tem de ouvir esta: A Vida de Pároco”. Entretanto na festa da boda, eis a primeira música: “Qual o melhor dia para casar?”. Daqui a pouco, reunião de CVX (Comunidade de Vida Cristã). Sim, todo o dia atravessado de vida, esperança e alegria.


quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Isso basta


[Secção letras verdes] Escritas numa breve paragem enquanto ultimo a minha conversa, amanhã, sobre espiritualidade e cuidados paliativos pediátricos, nas I Jornadas de Cuidados Paliativos Pediátricos.


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

À escuta


[Notas nocturnas enquanto vagueio pela oração] Escutar muitas pessoas é de valor incalculável. Ao mesmo tempo que, enquanto humanos, somos brutalmente parecidos, também estamos nos píncaros da diversidade. A carne é a mesma: daí as emoções e a razão que levam a interpretar imagens, sons, memórias, acontecimentos desde esse lugar de nome existência. Sem tempo. Melhor, noutro tempo para lá da passagem de minutos ou anos. Tempo existencial que repete o Teu suave grito a nos chamar ao presente. Ainda assim, a dar conta que em nós habita a possibilidade do pior e do melhor. É tão duro enfrentar as sombras mais sombrias. É tão duro perceber que o pior deus é o que nos quer impedir de amar. Esse deus reveste-se de moralismo, que impede o rasgo de luz na verdade, levando à imposição de gestos diante de mim e dos outros. Já Tu, pois, Tu puxas-nos ao crescimento, à liberdade, enquanto revelas o silêncio e a compaixão desde a verdade mais límpida, sem adereços, ornamentos, apenas a simplicidade do que é. E isso é tão terreno. Nada controlador. À espera do tempo certo para dar fruto, mesmo que passe pela podridão. E como aparas as nossas podridões, doendo, chorando, em especial por aqueles que te abusam o nome, voltando a morrer uma e outra vez, por cada um de nós. Para nos dares vida. É isso o amor, não é? Faz-me pequeno e torna-me cada vez mais terra.


terça-feira, 5 de outubro de 2021

Lágrimas


[Notas breves sobre lágrimas] As lágrimas são as palavras das emoções. Deixá-las sair quando afloram é como escrever um texto sobre a existência, da alegria, à tristeza, passando pela efusividade e pela dor mais profunda. Será um passo gigantesco de humanidade quando se deixar de pedir desculpa por se se emocionar com lágrimas. Outro passo gigantesco: haver cada vez mais gente que as acolham sem pressa, sem julgamento, a apontar caminhos de liberdade. 


domingo, 3 de outubro de 2021

Breve oração



[Breve oração ao anoitecer] 


Agradeço-Te

os casais. Todos. 

Ajudam-me a ser padre,

na escuta da vida, em existência

partilhada de força e vulnerabilidade,

na beleza da pele que se deixa envolver

de amor a abrir luz e caminho de liberdade


Entrego-Te

os que me confiaste a abençoar

e os que me confias a reconciliar


Peço-Te

consciência 

para não precipitar juízos sombrios;

clarividência 

para ajudar nos encontros de bem-dizer


sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Flores e dedos e flores


[Secção coisas de nada] Passo por elas diariamente. Entre o riso e a gargalhada, penso que a natureza também tem o seu amor e o seu humor. Podemos ser mais profundos: as flores apontam ao céu. Ou então, mais marotos: apontam o caminho a gente mal-encarada. Haja alegria. Bom fim-de-semana!


quarta-feira, 29 de setembro de 2021

A beleza de ser pessoa


[Secção pensamentos soltos com letras verdes sobre a beleza de ser pessoa] Terminei há pouco de orientar mais um grupo de Exercícios Espirituais de 8 dias. É sempre gratificante sentir, observar, confirmar como o Espírito vai trabalhando no coração de cada pessoa. O caminho da verdade connosco próprios é tão libertador. É igualmente exigente, duro, a ser feito com muito respeito, sem voluntarismos, mas profundamente libertador. 


Somos bombardeados de muita informação de como se é suposto ser. Já desde o ventre materno, com os mais menos descansos e alimentações, desejos, emoções, recebemos sentir que já influencia a existência. Depois, nas inúmeras relações  ao longo da vida, muito mais recebemos. Obviamente, muita informação intelectual, emocional e espiritual é boa, necessária, construtiva, de sentido de si e de outro. Informação de Amor, poderia chamar. Mas, em paralelo, também há tanta porcaria, castrações, imposições, directas, indirectas, que ofuscam a beleza do ser. E, a que mais me dá que pensar, é aquela que surge com aparência de bem. E totalmente perversa ainda, quando é em nome de deus (sim, neste caso, em minúsculo). Informação de desamor, poderia chamar. É por isso que um retiro, bem acompanhado e orientado, torna-se lugar de liberdade. Repito, é exigente, duro, a ser feito com muito respeito. Tal como subir uma montanha ou correr uma maratona exige preparação, também ir desbravando a alma implica tempo, equilíbrio, noção dos limites. As informações de desamor não se arrancam, precisam da delicadeza da integração, pois muitas emoções afloram, em novidades de comportamentos que não se esperam. Por isso, não pode ser um caminho de heroísmo, mas acompanhado por quem sabe orientar. 


Pela tarde, passei pela Centésima Página. Enquanto olhava para todos aqueles livros, que, desde a literatura, à poesia, aos mais técnicos nas diversas áreas, retratam do melhor ao pior da humanidade, escrevi uma pequena oração em letras verde, a pensar na beleza de ser pessoa. Sexta-feira começo outro turno de Exercícios, com a maravilha de colaborar com Espírito a dar Vida. 


segunda-feira, 27 de setembro de 2021

481 | 18


[Secção vida em celebração] 481 | 18: anos da Companhia de Jesus no Mundo, os que tenho de vida como jesuíta. 


Quando acordei, depois de agradecer o dia, foi o primeiro pensamento: 18 anos de jesuíta. Brinca-se com o número, pelo significado de maioridade. Enquanto rezava, pedindo a Deus pela Companhia, as suas missões e todos os meus Companheiros de cá e de lá, e em jeito de viagem ao longo deste anos como jesuíta, voltei a pensar no que escrevi há dias, no crescer até ser semente. Têm sido anos de muita aprendizagem, na travessia de sombras pelas luzes, sobretudo de Deus. É exigente crescer, mais ainda permitir-me ser semente. Santo Inácio termina a segunda semana dos Exercícios Espirituais a recordar que mais avançamos em todas as coisas espirituais, quanto saímos do próprio amor, querer e interesse. Depois de 18 anos, percebo o tanto que há de liberdade nesta saída. E só se compreende de entranhas essa liberdade desde o altar. Aí, quando celebro, respiro em profundidade e entrego o amor e o desamor, a vontade e o desdém, o interesse e o desinteresse. Não vai apenas de força pessoal, mas sobretudo de abandono confiante a Deus que me e nos desinstala constantemente a não ficarmos na infância e adolescência espirituais. Chegar a adulto na fé implica entregar-se total e plenamente. Bem, são apenas 18 anos. O caminho continua, a aprender desde o respiro divino até ser semente.


sábado, 25 de setembro de 2021

Potencial de amar


[Notas nocturnas enquanto vagueio na oração] Todos temos potencial de amar. Sinto-o esta noite desde a profundidade das entranhas. Como se fosse atravessado de todas os rostos que vi e que amei, escarneci, motivei, odiei, abracei, gozei, temi até aos ossos, desejei ser, desdenhei, ajudei, ignorei, suportei. Rostos que desconhecia e vi a sorrir, a gritar de horror, com olhar de ternura, dureza de violência, marcas de tempo, maquilhados de futuro. O mundo está em mudança. Os corações estão em mudança. O meu coração está em conversão constante, nessa busca de ser dador de vida, a aprender a ser semente. Todos temos potencial de amar. Apesar de todas as dores que nos magoam a alma, apesar de ainda lutarmos em lugares de infância dorida e adolescência oprimida, apesar de nos julgarmos constantemente a nós próprios e aos outros pelas suas características mais ou menos coloridas, apesar de impormos normais físicos e humanos, apesar de temermos o caminho da liberdade e da fé, todos temos potencial de amar. Chegará o dia em que celebraremos o sol a nascer para todos e a chuva irrigar cada terra sagrada a libertar os frutos de vida. Bem-aventurados seremos nesse dia. Até lá, que caminhemos a deixar a luz dissipar todas as trevas, permitindo o amor ser tudo em todos.


sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Uma folha


[Secção coisas de nada] Ofereceram-me esta folha, com tanta delicadeza e carinho “se colocares a meio de um livro mais pesado mantém as cores”, que deixou de ser mais uma folha para passar a ter a densidade de pensamento, partilha, presente e presença, amizade e muito mais características novas. Nós, seres humanos, temos esta capacidade de tornar o banal em algo profundamente especial; a simplicidade em algo cheio de significado. Por outras palavras, a riqueza do simbólico que transforma o gesto e o objecto em parcela de plenitude. Quando penso na passagem em que Jesus nos convida a ser como crianças, também me vem ao coração a plenitude que lhes acontece no pequeno. Do nada, caída no chão, uma folha torna-se pedaço de eternidade e lugar de contemplação da amizade e do sentido da vida com significado nas relações desde as pequenas coisas.


quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Luz de Outono


[Secção coisas de nada] Gosto da luz de Outono. Gosto da luz em geral, mas a de Outono aquece o caminho do recolhimento, desponta lágrima de saudade, por ter o seu quê de nostalgia, e, por isso, aguça o mistério do silêncio. Para escutar a profundidade e beleza do ser, convidando a libertar tudo o que já não nos pertence e impede crescer. Gosto da luz de Outono.


terça-feira, 21 de setembro de 2021

Fnac Talks




[Coisas na vida de um padre] Estive na Fnac Portugal à conversa com Bárbara Ramos Dias, psicóloga com enfoque em adolescentes, sobre a importância da paz interior, tanto de pequenos como graúdos, na vida, na educação, no ser. Agradeço à Bárbara o convite para esta boa partilha de tema tão pertinente na actualidade. Esta conversa integra um conjunto de Fnac Talks. Fica o link: https://youtu.be/zjS2LTQxxQ0


segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Breve oração



[Breve oração ao anoitecer]


Agradeço-Te

as memórias simples, desde os sentidos,

dos abraços dados e dos beijos recebidos,

das horas a deixar a luz entrecruzar-se

nas sombras, enquanto se libertam

culpas, vergonhas, angústias e medos,

dando mais tempo e espaço ao amor


Peço-Te

mãos soltas ao serviço,

pés cada vez mais firmes

em terra e horizontes que escrevam 

memórias simples, tornando-nos

fragilmente humanos e fortemente divinos

como uma criança a ser sinal de Ti

domingo, 19 de setembro de 2021

Paulo de Paz



[Secção pensamentos soltos sobre redes sociais] Já ando pelas redes há uns anos. Nesta ou naquela plataforma, tenho vindo a publicar em modo partilha, com reflexões e humor, seja nos pensamentos soltos, com letras verdes, coisas de nada ou na vida de um padre, por vezes também de corpo e pelas breves orações. Muitos dos textos acabaram por ser compilados em dois livros. Tudo já levou a muitas conversas, com pessoas a interrogar, a abrirem-se à fé, a serenar o coração, a descobrir novas faces de Deus. Vão-se juntando e tanto no Facebook como no Instagram passam os 11 mil seguidores em cada uma.


Tenho trabalhado a liberdade em relação às redes. Várias vezes pensei sair. Há muita tensão, onde o conflito, o desdém e o ataque são facilmente postos como possíveis e adquiridos. Por mais que não se queira, as redes influenciam a vida. Têm impacto social e político, também religioso. Tenho cada vez mais consciência do quanto as pessoas tomam o “vi na net, logo é verdade”. Pois. Daí a noção da responsabilidade também como caminho de paz. Aquando da polémica da Carta aos Efésios, do que mais percebi foi a responsabilidade que há a ter quando somos seguidos por milhares de pessoas. O meu vídeo foi visto por mais de 20 mil pessoas. Isto deu-me e dá-me que pensar: para sermos homens e mulheres de paz, a liberdade tem de estar sempre aliada à responsabilidade. Tal implica observação, silêncio, reflexão, liberdade interior. No caso das redes, mais ainda. Se quero ser “Paulo de Paz” (ou, convido a cada qual pôr o seu nome), tenho de estar atento às profundas motivações que me movem. Afinal, uma publicação pode fazer muito mal ou muito bem.


A todas as pessoas que têm chegado, deixo o meu abraço. Por todas rezo em cada dia. Por aqui, tentarei seguir o caminho de paz e promoção de humanidade. O Deus no qual acredito convida-nos a amar como Ele amou. E isso talvez seja do mais maduro que há, onde liberdade e responsabilidade juntas são lugares de adultez e de amor. Por aqui seguimos em partilhas. Obrigado pela confiança.


sábado, 18 de setembro de 2021

Boas conversas


[Secção letras verdes] Em profundo agradecimento, para que mais aconteçam, ajudando o mundo e as relações a serem mais humanos e, daí, divinos.


sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Atraso do padre




[Foto: Paulo - Lovelymoments_pt]


[Coisas na vida de um padre] Estes tempos têm sido muito animados com casamentos e baptizados. Isto de 2020 ter sido escasso em celebrações, passou para 2021. Tenta-se facilitar o mais possível a vida. Para não haver enganos, confirmo e reconfirmo datas e horas. Mas… pois, há um mas e um dia que o padre provoca taquicardias aos noivos. Ia todo tranquilo a caminho do Sameiro, quando começo a receber chamadas da noiva, do padrinho, de amigos. Parei o carro a devolver a chamada. “P. Paulo, está tudo bem? O casamento era às 13h.” Já passava meia hora. Solta-se-me um palavrão. “Ai, já estou quase a chegar!” Estaciono. Encontro a noiva. “Não te dê agora um ataque cardíaco!” Gargalhadas. Entro na basílica. Paramento-me. Vou pelo corredor central: “o padre chegou. Desculpem atrasar as moelas… ou o tofu, que isto temos de ser inclusivos.” Mais gargalhadas. Vou para a porta a esbracejar: “Noivo, já cá estou! Vamos começar!” E ficou registado o momento. A celebração continuou na normalidade: com muita animação, emoção e amor entre eles e Deus. Haja alegria!


terça-feira, 14 de setembro de 2021

Breve oração



Luís e Marta - Lounge Fotografia


[Breve oração ao anoitecer] 


Agradeço-Te

as conversas rosto a rosto

em liberdade e confiança

a anunciar vida e a acolher

o coração pronto a amar 


Peço-Te

consciência para abraçar

cada história com respeito,

apontando à alegria


segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Pés em terra [sagrada]


Julia Duro


[Secção coisas de corpo e na vida de um padre] Quando oriento retiros, na escuta em acompanhamentos, a celebrar Missa, quando falo de temas sagrados, gosto de me descalçar e sentir os pés firmes no chão, em terra sagrada de vidas, histórias ou temas aos quais sou chamado a fazer silêncio e reverência. A dança ajudou-me muito a descobrir essa ligação entre céu e terra, onde a pele faz ligação com o todo. Resolvemos tapar os pés. Impedimos essa possibilidade de consciência de presença com o aqui e o agora. A vergonha, o nojo, a estranheza e o esquisito são formas de julgamento. Somos chamados à liberdade desses julgamentos. “Descalça-te”, diz Deus a Moisés. Hoje, a dar um testemunho sobre oração, mais uma vez toquei terra, húmus, para falar desde a humildade de como vivo a relação com Deus através da oração. Quando saímos de uma oração centrada na cabeça e deixamos todo o ser rezar, de pés bem assentes na terra, vivemos plenitude. E, aos poucos, no caminho da vida, em terra sagrada que somos, algo novo surge, em maior compreensão, liberdade, encontro e respeito. Fica a sugestão de descalçar, respirar e agradecer, abrindo o coração para servir. 

sábado, 11 de setembro de 2021

11 de Stemebro [20 anos]



[Secção memórias com pensamentos soltos] Estava a fardar-me, numa tarde normal antes se ir trabalhar. O meu pai telefona-me: “tens a televisão ligada?” Liguei. “Que filme é este?” Do outro lado: “Não é filme. É em directo de Nova Iorque.” E dá-se o embate do segundo avião contra a outra torre. Fiquei em silêncio. Desliguei, sem antes ouvir com voz preocupada “que tenhas um bom voo.” Cheguei ao aeroporto. Grande agitação. Íamos fazer o Turim-Madrid. Havia silêncio, comoção, estranheza. Os passageiros embarcaram e o ambiente no avião era estranho. Estávamos todos incrédulos. Mas era real. 


Continua a ser real, 20 anos depois, o medo, a dor, as perguntas, a mudança no mundo. E em tantos corações. O lá longe torna-se perto. Os conflitos continuam e somos chamados a trazer paz às vidas, ao mundo. É também um trabalho pessoal, em que cada um(a) de nós tem de atravessar as suas zonas de sombra, ódio, cansaço, para não permitir que a vingança tenha a última palavra.


Penso em todos os que perderam e perdem a vida por vingança pessoal, comunitária, política ou religiosa. Que haja consciência do poder que cada um de nós tem para o mal ou para o bem. Está nas nossas mãos contribuir para a Vida.


sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Boas recordações


Luísa e Paulo - Lovely Moments


[Coisas na vida de um padre] Chegam boas recordações de dias bonitos. Abençoar um casamento é fazer a ponte entre o amor dos casal e o amor de Deus também por eles. E se há coisa bonita, é vê-los a viver essa confiança n’Ele. Claro que é trabalho para a vida. O padre está lá para ajudar. A fé tem muito de comunidade e de abraço.


quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Somos silêncio


[Secção letras verdes] Depois de, numa conversa, ter-se soltado o grito de anos que impedia a fé e o amor, sobretudo em si mesma.


quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Em celebração



[Secção Vida] Acordei a pensar nesta foto. De tantas, esta surgiu com muita naturalidade. Fui buscá-la. Já a tinha partilhado por estes lados. Na amizade não se esgota a novidade, mas é estimulada pela força das recordações a permitir algo novo. Volto à foto, com toque antigo, a avivar a beleza da celebração de hoje. Recordo: as gargalhadas que demos nessa viagem, qual subida das escadarias da Sagrada Família; os momentos de tensão, qual jovens adultos ainda com tanto laivo de adolescentes; as conversas soltas com gente importante (“sabem com quem estavam à conversa?”, diz-nos o senhor do restaurante, e nós “com uma pessoa simpática”, vai-se a saber era alguém de alta responsabilidade na comunicação social espanhola) e com outros turistas que se divertiam connosco; também as partilhas sempre presentes que adensam a melhor amizade do mundo, universo e arredores. É, mesmo à distância, maravilhoso celebrar a tua Vida, Suzanne. Sou muito agradecido por te ter como irmã de alma. Que Deus e Maria, já que nasceste no dia em que também celebramos o Seu aniversário, te envolvam de Luz e continuem a avivar-te as graças da autenticidade e humanidade. GMdT!


segunda-feira, 6 de setembro de 2021

A Vida é




Madalena Meneses


[Secção conversas soltas condensadas, com a devida licença para publicar, nestes dias de julgamentos em praça pública sobre temas tão complexos da vida humana]

- P. Paulo, das coisas mais terríveis é ter de chegar a casa e pôr a máscara. Quem diz casa, diz também igreja ao Domingo com família, para manter as aparências da família feliz. Fica bem. Estou farto do “fica bem” e não me consigo libertar disso. Fala-se muito em sociedade de emancipação, de saída do armário, de tanto, mas não se conhecem os meandros psicológicos e espirituais provocados pelo que se ouve desde quase o ventre materno. É mais fácil uma vida dupla e, mesmo sendo terrível, chegar a casa e pôr a máscara. Ir à Missa e pôr a máscara. Quem sou eu? [Com a pergunta as densas lágrimas surgiram.]

Levantei-me e diante coloquei a minha mão no ombro, mantive o silêncio, deixando falar o gesto firme de acolhimento. Quando serenou, regressei à cadeira. Seguiu: sou o filho que vê a mãe a chorar depois do pai gritar. Sou o irmão que vê os mais novos começarem a seguir caminhos extremos ao nível político e religioso. Sou o amigo que se isola cada vez mais. Vale a pena viver?

- Que resposta tem para essa pergunta? 

Fixou-me o olhar.

- Como assim?

- Do imenso que me conta, é como se encontrasse um muro intransponível e, de algum modo, se começasse a identificar com esse muro. Pode fechar os olhos? Respire fundo. Volte a abrir. Diga-me: vale a pena viver a sua vida ou a de outros? Sei que a sociedade, a família, até mesmo a religião, obriga, paradoxalmente nalguns campos no aparente em nome da liberdade, a viver a vida que outros querem, seja em massa amorfa de características, seja em individualismo fechado da sociedade. Descobrimos a nossa vida, na relação tu-a-tu connosco e com Deus, é extremamente exigente, mas é também aí que se começa a desvelar a resposta à tão séria pergunta de “quem sou”. O caminho é longo, mas não impossível de percorrer. E vai precisar de ajuda espiritual, sim, mas igualmente psicológica, de modo a dialogar com as máscaras sem as julgar. 

- Aconselha-me alguma leitura?

- “O caminho menos percorrido” de Scott Peck. A primeira frase: “A Vida é difícil”. Depois, é abrir-se à riqueza e sentido da sua vida.

domingo, 5 de setembro de 2021

Sobre a noite


[Secção coisas de nada] Gosto da noite. Atrevo-me a dizer que tenho mesmo um suave fascínio. Há bastante tempo, era pela noite no seu sentido louco, de danças em pistas ou em cima de colunas, entre conversas divertidas, com gin tónico apenas gin, água tónica, gelo e uma rodela de limão. Sorrio ao recordar. Agora, sou mais da noite no mistério do silêncio, que permite outras conversas, a maioria interiores, algumas intimistas, como aconteceu com bons amigos na noite em que tirei esta foto. A beleza era imensa. A noite é espiritual. Jacob lutou com o anjo até à aurora. Nicodemos encontra-se com Jesus durante a noite. S. João da Cruz abriu-nos à noite escura da alma. É preciso saber atravessar as noites, fazer silêncio, observar e escutar os meandros de nós, na existência, no fulgor de nós para nos permitirmos receber algo novo. Crescer. Ser adulto na fé, nas relações, na vida. Gosto da noite, com suave fascínio. No dia seguinte à foto voltei à praia sozinho. Não lutei, dancei e mais uma vez deu-se um luminoso e novo suave nascimento.


sábado, 4 de setembro de 2021

Boas recordações



Moisés Soares


[Coisas na vida de um padre] Chegam boas recordações da dias bonitos e felizes. Têm sido muitas as celebrações, já que acumulam de dois anos. No entanto, cada uma é única, no casal a trazer os corações a latejar futuro, no desafio de amar. A brincar com um amigo padre, que também tem celebrado muitos casamentos, dizia-lhe: somos padres casamenteiros. O importante é que, à semelhança do amor divino, continuem a crescer na entrega, entre-ajuda, amizade, colaboração, partilha, sendo suporte de vida um do outro. Haja alegria!


sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Breve oração




[Breve oração ao anoitecer]


Agradeço-Te

o tempo suspenso, 

deixando acalmar os ruídos,

dispondo o coração a acolher

o que vem de nomes ou sentires


Peço-Te

manter o amor em luz

pela humanidade


quarta-feira, 1 de setembro de 2021

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Tempo de pausa. Até breve.


[Secção tempo de pausa] Há uns anos, em conversa com um amigo nascido em montanha, dizia-me que o oceano era o limite. Isto depois de lhe ter dito que para mim, nascido de mar, era o infinito. Bonito, isto das perspectivas mediante a existência pessoal. A montanha é lugar de Deus, tal como o mar. Ambos abrem Infinito. Basta ter o coração desperto. Ainda assim, a minha vida pede dias fortes de mar. Está-me no ser. Nos próximos tempos afasto-me daqui das redes para aproximar-me de Deus em descanso e contemplação de tanto vivido. Continuarei a levar cada pessoa na oração. Até breve!


segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Encontros


Helder Couto





[Coisas na vida de um padre, com pensamentos soltos] Faz hoje uma semana baptizei a Sarah.  Também hoje pela manhã recebi uma tão bonita mensagem de uma antiga aluna e pela tarde a visita de dois alunos do tempo em que estive em Paris, que, de passagem pelo Porto, vieram até cá para agradecer o tanto que os ajudei numa fase intensa de estudos.


Tudo muito providencial. 


Estes últimos meses têm sido exigentes, na escuta de muitas pessoas, de mim próprio no tanto que me vou apercebendo nos acompanhamentos e no mundo, com muitas perguntas. Como vejo as perguntas como lugares de Deus, não me agita. No entanto, o imenso que vivemos, no crescendo de emotivismo, polarizações, acusações, fazem com que questione o meu lugar na ajuda ao outro, de modo a manter o caminho de equilíbrio e sentido da realidade. Estes tempos são desafiantes, onde na nova linha da frente estão os escutadores, tanto de saúde mental, como de espiritual.


As crianças trazem-nos esperança, como há uma semana vivi no baptismo da Sarah. A dádiva de coração traz agradecimento, outro lado da fé, como nas mensagens ou visitas que se tornam anjos. Também com boas conversas, percebemos como Deus é irresistível no modo como apresenta o amor. E, nesta linha, como é dia de Sta Teresa Benedita da Cruz, Edith Stein, mulher e santa tão interessante, partilho em eco deste meus últimos tempos algo dos seus “Escritos essenciais”, tão actual: “Para os cristãos não existem 'humanos estranhos'. O nosso 'próximo' é todo aquele que temos diante e que tem necessidade de nós, e é indiferente que seja nosso parente ou não, que nos caia bem ou nos desgoste, ou que seja 'moralmente digno' de ajuda ou não. O amor de Cristo não conhece limites”. 


domingo, 8 de agosto de 2021

Tempo suspenso


[Secção coisas de nada pela tarde] Tempo suspenso. O que também acontece com algumas fotografias: suspendem o tempo e o acontecimento. A nuvem assim quieta no imenso céu azul levou-me a outros momentos da vida, ainda por integrar. Ajudado por algumas conversas, leituras, escutas, situações que igualmente suspendem o tempo. E encaminham até ao que não foi visto com olhos de respeito, amor, cuidado, sem julgamento, aceitando, em particular a dor, as dores, retomando-nos no único lugar que cada pessoa é: essa densidade da existência, que nada nem ninguém pode substituir ou tirar. Surge a emoção de vida nova. Depois de tirar a fotografia à nuvem, ela continuou o seu caminho. E eu, o meu. O de continuar a amar.