segunda-feira, 17 de junho de 2019

domingo, 16 de junho de 2019

Diversidade na unidade



Reuters/Francis Mascarenhas

[Secção pensamentos soltos em dia da Santíssima Trindade] Já lá vão uns bons anos desde uma conversa simples sobre pintura. Uma amiga comentava-me como as primeiras aulas estavam a mudar a sua perspectiva de visão da realidade: 
- Hoje vamos pintar nuvens, disse o professor. 
- Vai ser preciso muito branco, comentou alguém com humor.
- Para não haver abuso do branco, vamos lá fora e olhar as nuvens. Observem, com calma.
- Paulo, sempre vi nuvens na minha vida, mas naquela tarde, ainda mais a acontecer o pôr-do-sol, tudo mudou. Impressionante a quantidade de cores e tons numa nuvem. O mesmo se passa connosco próprios e com os outros. Impressiona a diversidade. 

Esta conversa, além da vezes que olho as nuvens, volta à memória enquanto leio “Longe da árvore - Pais, filhos e a busca da identidade” de Andrew Solomon. Ainda estou nas primeiras cem páginas das mais de mil. No entanto, a crueza da investigação sobre a realidade da diferença (deficiência, surdez, filhos de violação, prodígios, esquizofrenia, anões, autismo, síndrome de Down, transgénero, etc.) abre desde logo tantas perspectivas no pensamento. São muitas as fronteiras entre o que se vê como doença, como aceitação e integração. Os combates internos e externos, tanto de pais, como de filhos… ou de cada um de nós, ante a diferença, seja ela qual for, são imensos. É isso, impressiona a diversidade de cores na nuvem, tal como impressiona a diversidade do que somos enquanto seres humanos. 

Os ecos do livro vêm-me à oração. Agitando o ruído das vezes que não quero nem aceito a diferença do outro, apercebo-me do subtil igualitarismo que remanesce em mim. 

É aqui que entra a beleza da Santíssima Trindade. Ainda a semana passada, em Pentecostes, perguntava-me: “como é que Deus ama cada pessoa?” Não é duvidar do Seu amor e da possibilidade, mas saber como é que esse amor acontece. N’Ele mesmo há diversidade em Amor único. Isto pode ser demasiado abstracto, mas quando entramos na complexidade humana só pode haver deslumbramento nesse amor. Ainda assim, é difícil: por esta luta constante em querer que as nuvens ou a humanidade sejam num igualitarismo que assusta. E facilmente se julga, eu julgo, mais as pessoas, que as acções, atitudes e comportamentos, na subtileza do não gostar do feitio até ao gozo, burla, acusação de aberração, desejando a sua não-existência.

Acredito claramente que nos podemos aproximar desse amar de Deus a cada pessoa. É caminho árduo, exigente e profundamente libertador. Recordando as palavras de S. Paulo na leitura para este dia, em que “tribulação produz a constância, a constância a virtude sólida, a virtude sólida a esperança”, esse caminho é o da vida. Afinal, continua S. Paulo, “a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.” Em passos de ajuda, há para mim coisas fundamentais: o silêncio, a libertação dos auto-enganos, muito amor próprio, levando à cada vez maior abertura de coração em, no que me é possível, pôr-me no lugar do outro… e amar, simplesmente amar como Deus ama.

sábado, 15 de junho de 2019

Voos celebrativos




Pedro Leite 

[Coisas na vida de um padre] Chega uma boa recordação de um dia feliz. Ainda mais tirada pela mão de Pedro Leite (PS Photography), Chefe de Cabine da Portugália e excelente fotógrafo. Ontem, em Mirandela, falei das viagens de vida: as que me levaram a ser padre e as que vivo como padre. Sim, cada celebração é um voo. Acolher quem se quer descobrir na profundidade do ser e promover o encontro com Deus são das grandes viagens que realizam.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Obrigado CAIC




                                                                      João Ferrand 

[Secção desabafos] O mundo é preto e branco. Mas não é só preto e branco. Nele há uma variedade de cores e infinitas tonalidades. O mundo também somos nós, seres humanos. São já alguns milhares de anos de humanidade e, ainda assim, apesar de muito se ter evoluído, em muitos aspectos retrai-se. E dói. Dói muito. 

Ontem, nós, jesuítas, e comunidade CAIC (educadores, alunos, famílias, conhecidos), recebemos a dura e triste notícia de que este Colégio, com 64 anos, por muitos considerado segunda casa, não vai abrir portas no próximo ano lectivo. Foi no CAIC que iniciei o meu gosto pela educação. Foi no CAIC, sendo director de turma pela primeira vez, que senti de forma forte a paternidade espiritual. Foi no CAIC que vivi a educação para além da sala de aula, acompanhando situações delicadas de vida de alunos e famílias. Sim, dói muito. O CAIC junta-se a muitas outras escolas que, pelos cortes de financiamento dos contratos de associação, viram-se forçadas a terminar os seus projectos educativos. A partir daqui desabafo algumas considerações:

A Educação é fundamental para a humanidade. Sendo fundamento, pilar, deve ser tratada com o cuidado merecido. Educar é muito mais que instruir e, de todo, que não é formatar. Educar, na raiz da palavra, ajuda a crescer para a pluralidade. Acrescento, ajuda a crescer para a reflexão, para além de ideologias e interesses pessoais. A reflexão bem vivida é multicolor. A que se fecha no monocolor vai ser inevitavelmente cega e as decisões daí decorrentes podem ser destrutivas para muitas pessoas. Basta ler um pouco de História. Um Ministério da Educação que se preze deveria abster-se de ideologias políticas e perceber realmente o que cada Escola faz para a sociedade. 

Se o critério financeiro é importante, então, que seja aplicado justamente quando está mais que provado que grande parte das Escolas com contrato de associação são mais rentáveis. As que não são ou que usam o financiamento para outros fins, há meios, como inspecções, para o confirmar. Mas, também é sabido, o “amiguismo”, igualmente político, faz parte da realidade monocolor. 

Nas centenas de comentários, há mantras constantes como “se querem escolas de ricos, que paguem” e “os meus impostos não são para pagar os ricos”. Não me posso pronunciar por centenas de pessoas com estas ideias, mas a muitas fui convidando para conhecer no concreto as Escolas que mostram a universalidade do acolhimento e da educação. O CAIC era uma delas. No ano seguinte aos primeiros cortes, uma jornalista da TSF entrou em contacto connosco. Fui eu que falei com ela e estava surpreendida. Ficou-me a ecoar esta frase: “estive a pesquisar e afinal vocês têm alunos de todas as realidades sociais.” Respondi do mesmo modo como fiz a muitos: “sim, temos. Não quer passar por cá?” Não veio. Como muitos não vieram, não apenas registar o drama e a emoção, mas viver o quotidiano na Escola. Assim, tomariam consciência do que se faz nas aulas e fora delas, no acompanhamento de alunos e famílias, vendo a multiplicidade de cores com que se dá sentido à Educação para Servir. 

Enfim, são desabafos que não adiantam nada para reverter a dura decisão do fecho do CAIC. O mundo da ideologia política não é complexo, é complicado. Mas, temo que pior: torna-se cada vez mais abstraído do real, do concreto, do que se faz com sentido em nome de uma sociedade mais justa. 

Aos Jesuítas, Educadores, Alunos e Antigos Alunos do CAIC, muitos deles amigos, um abraço forte e agradecido. Se posso pedir alguma coisa, que seja a de continuarem a honrar tudo o que aprenderam e viveram naquela segunda casa, dando o vosso melhor à sociedade concreta, tornando-a, com a vossa riqueza de pensamento, coração e mãos, plural, diversa, mais justa e humana. 
  



terça-feira, 11 de junho de 2019

Cócó de unicórnio




[Coisas na vida de um padre num Colégio] 
- P. Paulo, pode segurar nisto, se faz favor?
- Hmm, o que é isto?!?
- Ah, não se preocupe, é cócó de unicórnio. É bonito e cheira bem. 

Bom dia!

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Pentecostes



[Secção letras verdes] Ainda em eco do bonito dia de ontem. Sendo inspiração para o de hoje.

sábado, 8 de junho de 2019

Finalistas




[Coisas na vida de um padre] 
- P. Paulo a selfie da turminha!! Tem de ser! Queremos “instamoment” com coisas na vida de um padre!

E assim é na festa de finalistas. Agradecer os três anos de secundário, a vê-los a fazer caminho. Como li numa entrevista a Agustina: “Fim - o que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa.” Parabéns!


quinta-feira, 6 de junho de 2019

Bodas de Ouro




[Coisas na vida de um padre] Chegam boas recordações de um dia muito bonito. Gosto de celebrar casamentos. Mas celebrar bodas de ouro tem o seu quê de especial. Estas, da Lolita e do Abílio, foram celebradas com muita emoção por tantos anos de vida e histórias partilhadas. A simpatia, doçura, ternura, carinho com que se cuidam e olham são sinal do Amor aprofundado ao longos dos tempos desde aquele sim de há 50 anos. Viva a beleza do Amor!

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Instante(s)




[Secção pensamentos soltos] Em instantes tanto acontece. Em instantes mudanças de vida surgem. Claro, são instantes raros, esses, pois mais abundantes são os quotidianos, banais, repetitivos, onde nalguns se “chora as cebolas do Egipto”, noutros se anseia para que o futuro seja o mais rápido possível. Mas, como viver o presente como ensinamento? Esse instante que, mesmo banal, pode marcar uma viragem no modo como se acolhe e aceita a realidade? É impressionante como somos rodeados e marcados com modos de ser e estar, como se nos caracterizassem na plenitude. Por isso, instantes em que tudo pode ser posto em causa podem levar ao essencial: o amor. O trabalho é árduo e exigente. Deixa de ser uma resignação, até mesmo uma revolução, para passar a aceitação da liberdade. Na passagem do Evangelho para hoje, Jesus vive a consciência do instante em que ficará só. Abandono, poderíamos pensar. No entanto, não é um “só” moral, mas existencial. Esse despojamento total permite a Sua vitória. A única coisa que o marca é o amor. Assim tem de libertar-se de tudo e todos para ser tudo em todos no amor. Atrevo-me a dizer que são os desafios de quem deseja viver a fé em profundidade: amar, simplesmente amar. Sendo difícil, não é impossível. Apenas exigente. Pode haver o instante em que tanto, ou tudo, se liberta e abre-se caminho na direcção da vida.


sábado, 1 de junho de 2019

Dia Mundial da Criança




José Almada 

[Secção pensamentos soltos em dia da criança] Enquanto adultos educadores temos uma função principal: ajudar o bébé ser bébé, a criança ser criança, o adolescente ser adolescente. Nenhum deles é adulto em miniatura, nem uma extensão de cada pai, mãe ou educador, mas único, necessitando de quem os oriente no caminho do crescimento, da evolução pessoal. A orientação ou educação é um desafio em permanente actualização: implica viver o complexo jogo de limites amorosos e liberdades respeitadoras. O perigo situa-se nos dois pólos “podes-fazer-tudo-que-assim-aprendes” e “não-podes-fazer-nada-sem-que-seja-eu-a-controlar”. Para não estarmos em nenhum extremo destes, muitas vezes somos nós adultos que temos de permitir que o bébé, a criança, o adolescente que em nós não cresceu o faça. Sermos como crianças, como nos recorda Jesus no Evangelho, não é nos infantilizarmos. Ser como criança é permitirmo-nos ser o que somos, no reconhecimento dos limites e das liberdades entre luzes e sombras que anseiam por dissipar-se, e assim chorar choros contidos, brincar brincadeiras impedidas, amar amores plenos e autênticos. Ao sermos adultos como crianças tornamo-nos suportes dadores de vida. Bom caminho.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Dia Mundial do Tripulante de Cabine




Mário Raposo: fotograma da reportagem RTP sobre a entrega das minhas divisas e meia-asa da farda à Nossa Senhora do Loreto em 2003

[Secção memórias] Em dia da Visitação de Nossa Senhora à sua prima Isabel, celebra-se o dia mundial do Tripulante de Cabine. Gosto muito de ser padre. É sabido. Mas, isso não significa o anular de outros gostos. E, sim, tenho saudades de voar como tripulante. Vestir uma farda e, entre demonstrações de segurança, voz colocada de discursos de bordo, ir com o trolley por ali fora em “chá, café, laranjada”. Também das 300 milhões de vezes a dizer: “bom dia, bem-vindo a bordo” e “adeus, boa tarde e obrigado”. Mas, sobretudo, da boa disposição que leva a serenar passageiros e a ajudá-los em caminhos de boas visitas em segurança. Quem sabe um dia celebro uma Missa a bordo. Hoje agradeço as vidas de todos os tripulantes, rezando de forma especial pelos amigos de voos. 

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Queda livre




Fotograma do episódio "Queda livre" da série Black Mirror 

[Secção desabafos] Podia falar da abstenção. Mas não quero de momento. Ainda estou a digerir este “murro no estômago” ao sentido e significado de liberdade a que tantos lutaram. A propósito da era dos “gostos” estivemos a ver com os alunos de 11.º ano o episódio “Queda livre” da série Black Mirror. O episódio retrata o perigo dos “gostos”, em pontuação social, de 0 a 5, conforme a simpatia ou antipatia nas relações. É-se pessoa minimamente considerada a partir de 4. Só se pode comprar ou ter acesso a determinadas coisas conforme a pontuação. Tudo normal naquela sociedade. Isso é, aparentemente, aceite. Que remédio. Mas, naquela sociedade da série ou na nossa realidade? Afinal, votamos a “torto e a direito” pelas redes sociais, ganhando ou perdendo estatuto, onde rapidamente se flutua entre o “besta” e o “bestial”. Claro, é só uma série de ficção científica. Depois, foi apresentar um pouquinho do que se passa na China. “Isto é o episódio!”, foi um comentário ao de leve, em conjunto com muitos ares de espanto. Disse-lhes no final da aula: “quando chegar a vossa oportunidade de votar, pensem que o mundo movimenta-se conforme as nossas acções”. Podia falar de abstenção. Mas não quero. Ainda estou a digerir o valor de 70% e a pensar na “Queda livre”. 




sexta-feira, 24 de maio de 2019

Votar





[Secção pensamentos soltos em vésperas de eleições] Atravessamos tempos de desgaste político. Talvez mais que desgaste, descrédito. A propósito de eleições vou ouvindo ou lendo “não vale a pena votar em nenhum”, “tudo o mesmo”, “não serve de nada”. É aí que penso na História, no significado e importância de uma simples cruz num quadrado. É sinal de liberdade, de tantos que lutaram para que isso acontecesse. Daí ser um direito que, sim, até posso menosprezar. No entanto, ao pensar no sentido comunitário, esse direito é complementado pelo dever. Votar também é um dever por me levar a implicar na sociedade que tantas vezes atrevo-me a exigir que se transforme. E sim, o meu voto conta nessa transformação. Cada voto conta. Fico a pensar numa entrevista a alguém que não votou no referendo “Brexit”. Dizia “eu não votei porque era claro que o ‘permanecer’ ia ganhar”. Pois e é a crise que sabemos. Mesmo atravessando o desgaste político, que isso não impeça de exercer o direito/dever que nos assiste: votar, porque cada voto tem poder.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Breve oração




Tessie Wallace
[Breve oração ao amanhecer]

Agradeço-Te por permaneceres,
depois de a noite absorver as horas e permitires novas perguntas.

Peço-Te
bons frutos. 

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Contornos



[Secção coisas de nada] Ia abrir a janela do meu quarto quando reparei na beleza do tom dourado sobre a madeira. O contraste da sombra ainda desperta mais a luz. A vida é feita de contornos. Também de beleza inesperada.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Instante





[Secção letras verdes] Por esta tarde, em passeio pelo bosque, pensar na efemeridade da vida, de como só o amor é importante e da dificuldade em apreender com todo o ser isso mesmo.

domingo, 19 de maio de 2019

Amor sempre maior



[Secção pensamentos soltos] Das coisas mais difíceis e exigentes de entender, compreender, sentir, viver, apreender: o amor de Deus é maior, sempre maior. Tenta-se emoldurá-lo em regras ou definições à medida de olhares sociais, culturais, religiosos. Quando olhamos uma vasta planície, sendo apenas uma pequena percentagem do mundo, ou parte do céu nocturno de milhares de estrelas, impossíveis de contar, dá-se deslumbre. E é pouco. O amor de Deus é maior. Meditá-lo e rezá-lo, na tentativa de cumprir o mandamento de amar como Ele amou, faz-me ver o tanto que ainda tenho a desmontar ou desvelar. A esperança reside nos encontros em silêncio de oração permitindo recordar que o sol quando nasce é para todos. Todos! Cabe a cada um de nós saber viver essa Luz. O tal trabalho de vida no regresso ao paraíso, permitindo a “renovação de todas as coisas”. Por outras palavras: mesmo difíceis e exigentes, passos à conversão ao amor sempre maior. 

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Conversa com Sónia Morais Santos




Marisa Freitas
[Coisas na vida de um padre] No passado dia 15 celebrou-se o Dia Internacional da Família. A Oficina de Inovação Pedagógica “Escola-Família” do INA convidou a Sónia Morais Santos para cá nos vir falar sobre este tema. Gosto muito da Sónia. Nunca lho disse, mas o olhar atento enquanto escuta o que estamos a partilhar é algo que lhe admiro. Também o modo como normaliza a vida, as relações, o ser mulher-esposa-mãe-profissional, quebrando esquemas de perfeccionismo. É clara a experiência de maternidade, em conjunto com a de conhecimentos de muitas histórias que a levam a pensar sobre a vida e no que realmente importa. Gosto muito da Sónia, da nossa amizade e de toda a família. 

domingo, 12 de maio de 2019

Bom Pastor e mãos.




[Coisas na vida de um padre com pensamentos soltos em dia do Bom Pastor] Sempre gostei muito de mãos. A evolução biológica da mão permite dos gestos mais grossos como os mais finos. Com as mãos damos, recebemos, seguramos, suportamos, chamamos, escrevemos, teclamos, abençoamos e, no caso dos padres, consagramos. Também podem ser o fim de impulsos agressivos, onde com elas se pode magoar muito, estando abertas ou fechadas. Por isso, gosto de pensar que a grande decisão é, antes de mais, de deixarmo-nos cuidar pelo Bom Pastor. Afinal, como nos diz o profeta Isaías, tem cada um dos nossos nomes tatuados na palma da mão. É para aí que olha, recordando que somos carne da Sua carne. Mesmo que se possa rejeitá-lo, por questões culturais ou intelectuais, achando que é “coisa de fracos”, de “ópio”, ainda assim, olha para a mão e afága-a, tocando nesse nome único que cada um de nós tem. Imagino-O e olho para a minha mão. Foi um dia ungida para amar. Sim, em muitos gestos aproximo-me desse ser pastor que cuida. No entanto, ainda tenho momentos em que a fecho dando azo mais ao mal-dizer que ao abençoar (de raíz significa bem-dizer). Neste dia, em que vivi Baptizados, Primeiras Comunhões e Profissões de Fé, pedi ao Bom Pastor para que me ajude a ser cada vez mais à Sua semelhança de mãos abertas… convidando outros a sê-lo também.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Deus Como Tu em peregrinação




[Secção “Deus Como Tu”] Escreve-me a Inês a partilhar a sua boa surpresa ao ver que na peregrinação até Fátima vai ser acompanhada por Deus Como Tu. E boa surpresa a minha, por vê-lo a ajudar a fazer caminho interior.

terça-feira, 7 de maio de 2019

Breve oração




[Breve oração ao amanhecer]

Agradeço-Te os tempos
que recordam Vida, em maternidade e paternidade, para além de dias ou genes,
permitindo partos de ressurreição.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Simples as flores




[Secção coisas de nada] São simples as flores. Nem únicas, nem raras. Simplesmente simples. Vi-as de manhã, num pequeno passeio inesperado por uma pequena mata. Adiantei-me nas horas. Fez-me dar passos em terra, rodeado de centenas de pequenas flores simples. Foram estas que registei, pelo pormenor do sol directo, despontando a brancura que reflecte todas as luzes. São simples as flores. 

sexta-feira, 26 de abril de 2019

terça-feira, 23 de abril de 2019

Deus Como Tu - 1 ano




[Secção aniversário] “Deus Como Tu” fez um ano há dias. Não escrevi na altura por ter sido na Semana Santa. Apesar do nome do livro, há prioridades. Mas, hoje, dia mundial do livro, recordo o aniversário enquanto volta a emoção de quando toquei em “Deus Como Tu” pela primeira vez. A sensação de palavras ganharem corpo em papel. Mais forte ainda sentir que o livro deixava de ser meu, passando a ser de tanta gente que o lia. Tanto nas apresentações como nas mensagens, mails ou cartas que recebi, fui também percebendo a sede espiritual que atravessa a actualidade. Tanto nas partilhas do sentido que os textos iam fazendo, como nas perguntas que suscitavam, Deus, ou pelo menos a questão divina ou espiritual, tornava-se uma realidade próxima, presente, de forma positiva. Em agradecimento a quem leu e lê, também a Liliana Valpaços e a Sílvia Baptista, editoras da Matéria Prima, partilho uma das orações registadas em “Deus Como Tu” em formato manuscrito: “Agradeço-Te os detalhes de amizade no (re)conhecer de beleza que recorda a Tua presença. Ajuda-me a viver sempre de coração agradecido”. 

sábado, 20 de abril de 2019

Noite de Luz



[Secção outros tons em Noite de Vigília Pascal] O véu do templo rasgou. Nada impede o tu-a-tu divino. A noite rasga-se em lume novo. Tudo, até a morte vencida, convida a Deus.

Sábado Santo



Francisco Oliveira Sá


[Secção pensamentos soltos em manhã de Sábado Santo] Ao longo dos últimos anos tenho vindo a ganhar mais respeito a este dia. É certo que sabemos o final da história: a ressurreição. No entanto, tudo pode tornar-se demasiado artificial se apenas se celebra ou vive como cumprimento litúrgico. Este dia é igualmente demasiado forte: fala-nos do vazio, do sem-chão, do luto. Mistura-se a desilusão, a ingratidão, onde possivelmente pode ter despontado a raiva e ódio nos próprios discípulos: “porque o segui?”; “de nada serviu deixar tudo”; “ele enganou-me”. Também as memórias dos olhares, dos gestos, das palavras com autoridade de quem sempre quis a vida do outro. Se os outros dia têm símbolos como o lava-pés ou a cruz, este nada tem a não ser o silêncio entre desespero e esperança de algo novo. É um dia mais que racional, emocional. Daí ser preciso estar atento aos “sábados santos” da vida. Facilmente se pode cair na resignação. Encolhem-se os ombros e anulando-se mais pouco o ser segue a vidinha. Contudo, a esperança da fé convida-nos a integrar os acontecimentos por mais duros que sejam. Não é fácil, roçando o quase impossível por vezes. Nos textos evangélicos, em dois vemos o despontar do que significa esta confusão de sentir. Em S. Lucas, os discípulos de Emaús regressam desesperados. Em S. João, Maria Madalena, chora o desespero. Em ambos, o ressuscitado aparece sem que o reconheçam imediatamente. Pede-lhes para recontarem os acontecimentos. Hoje é o dia de luto. Com o ressuscitado, mesmo que não o sintamos. Sábado Santo: convite a enfrentar o sentir diante da brutalidade dos acontecimentos. Teologicamente falando, Jesus atravessa a “mansão dos mortos”, integrando em si a Vida.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Sexta-feira Santa




[Secção outros tons especial Sexta-feira Santa] Os olhos fecharam-se dando alento. É o silêncio da hora. Erguido como sinal de nada que se faz tudo. É tudo. Fica a lágrima reluzente de esperança.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Quinta-feira Santa




[Secção outros tons especial Quinta-feira Santa] Vive-se a Ceia, em pôr-do-sol que antecipa a entrega. Aproxima-se a hora de tantas outras que esperam o tempo certo de amar. “Amou-os até ao fim”. Esse é o gesto certo, em pés lavados a plena luz.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Notre-Dame




[Secção pensamentos soltos em ecos de Notre-Dame em Paris] “Saudai-vos na paz de Cristo”, é, a seguir à proclamação do Evangelho, o segundo de três momentos em que se ouve a voz de um diácono durante a Missa a preparar a comunhão. Era o que o que dizia  nesta foto, na primeira vez que vivi Missa na Catedral de Notre-Dame. Celebrávamos a Missa dos Estudantes. Daí também não me ser indiferente o que aconteceu ontem. As fortes imagens, em especial a queda do pináculo, fizeram-me pensar muito no concreto e no simbólico de todo o incêndio. Ainda mais quando hoje uma amiga me disse que ao mesmo tempo a mesquita Al-Aqsa em Jerusalém também ardia. 

A Igreja é feita de pessoas e de história. As catedrais foram construídas por pessoas que, em total anonimato, registaram o que será história. Notre-Dame tem a marca de milhões de pessoas: centenas que a construíram, milhares que nela rezaram e rezam, milhões que por ela passaram, de todo o mundo, com mais ou menos fé, apenas porque foram a Paris e faz-parte-visitar-os-monumentos-característicos, agitadas pelo silêncio ou incomodadas pelos selfie-sticks para registar tudo e mais alguma coisa sem interesse, e ainda deixando-se maravilhar pelos recantos em expectativa de encontro de Quasimodo. A Catedral deixa de ser de pedra encontrando carne em cada pessoa. Daí a dor de ontem. O imponente pode cair. A História é recordada e transforma-se com a queda do pináculo. 

Fala-se milhares para a reconstrução. Como que a apagar o mais rápido possível a memória da destruição e voltar gloriosa a imagem da fé. Mas, fico a pensar: toda a reconstrução é algo novo. O restauro apresentará sempre a certeza da cicatriz. Que nova humanidade se espera? Que nova Catedral de Igreja se transformará? Sim, a partir de agora será sempre nova. É Páscoa. É Passagem. O antigo ganha a cicatriz da renovação e torna-se oportunidade de dar espaço ao reconhecimento da fragilidade como caminho de humildade. Os valores que Notre-Dame simboliza podem avivar-se em caminho de Paz. 

Ter sido em início desta Semana Maior, em que somos chamados a fazer um grande exame de consciência na preparação do Triduo Pascal, torna-se ainda mais impactante. Tento imaginar o silêncio quando se entrou hoje de manhã em Notre-Dame. Entre lágrimas e nenhuma palavra, a sensação de impotência deve ter surgido. Junto com o desejo de voltar ali a celebrar, em altar com destroços, a força da Vida de Cristo Ressuscitado. Essa é a nossa esperança. Cristo atravessa qualquer destroço, tornando a cicatriz memória de compaixão e humanidade, dando a Paz.

Que os fogos que assolaram Notre-Dame e Al-Aqsa, dolorosos e destruidores, nos possam ajudar a reflectir sobre novos caminhos de reconstrução, de encontro e de Vida. Ah, o terceiro momento em que se ouve a voz do diácono é no final da Missa e diz: “Ide em Paz e que o Senhor vos acompanhe”.

Aconselho vivamente a leitura destas duas crónicas:



segunda-feira, 8 de abril de 2019

Em caminho...



[Secção pensamentos soltos em Quaresma] Há dias lia uma tradução sobre a famosa árvore do conhecimento que, em vez de ser vista como a do “bem e do mal”, seria a do “cumprido e não cumprido”. No mito da criação, Adão e Eva seriam expulsos do Paraíso por se terem apressado em querer viver o cumprindo, o alcançado, no fundo, serem deus sem passar pelo crescimento e maturação da existência. Do que vou vivendo de fé, somos chamados a ser participantes da vida divina. No entanto, isso implica o exigente caminho de conhecer o próprio Amor. Entre capas e véus, sociais, culturais, religiosos, vamos fazendo caminho, diria normal. Até que um dia dá-se o passo maior de querer realmente Amar, não apenas de cabeça, mas com todo o ser. No fundo, de deixar-se cumprir em Deus. Esse é caminho de Páscoa. Faz-se silêncio. Vive-se silêncio. Diante do olhar surgem as camadas mais ou menos fortificadas a derrubar. Entre feridas antigas e recentes a curar ou modelos impostos de relação com Deus, abrem-se novas perspectivas. Começa a despontar o desejo de perdão. Talvez nesta altura ainda não se consiga verdadeiramente viver o perdão, mas surge o desejo, como vislumbre de nova luz. Depois, seguem-se os subtis véus, dos pequenos apegos que mais não são que desamores fugazes. Ou sombras interiores. O recolhimento, o silêncio, o perscrutar em respeito e plena autenticidade esses desamores, amando-os, fazem-nos dissolver na imensidão da luz renovada. Por isso, crescer implica diminuição, chegando a tal simplicidade que toda a palavra dita é terra fértil, cada gesto vivido, fruto cumprido. Aí será a chegada a casa: chamemos-lhe Paraíso, Terra Prometida, Céu, Perdão ou simplesmente Deus. 

domingo, 7 de abril de 2019

Rezar com a Dança




[Coisas na vida de um padre] Em conjunto com Maria Luísa Carles, orientámos a 6.ª edição do Rezar com a Dança. Foi este fim-de-semana. Perceber a graça de Deus a habitar no movimento não é novidade. Assistir à abertura de coração de cada pessoa ao que vive na descoberta de si enquanto corpo habitado de dança, aí sim, é sempre novo. Ver em cada participante a evolução é sempre de agradecer. A liberdade de entregar-se e deixar-se moldar nesse ser mistério à imagem e semelhança do Verbo que se faz carne. “Mais gente devia fazer isto!” soou em eco como avaliação.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Flor




[Secção pensamentos soltos] Na tradição hesicasta (que traduz silêncio, quietude), seguida pelos Padres do Deserto, há uma série de meditações propostas de encontro consigo mesmo com o objectivo de aprofundar a relação com Deus. Uma é a da flor. Neste dias que a Primavera revela beleza em cores, há a possibilidade de nos determos na flor que simplesmente é. Penso nas vezes em que somos bombardeados com modo de “ter de ser” desta ou daquela forma com propósitos de aceitação ou integração social. Meditar a flor é o convite a contemplar a realidade que simplesmente é, sem capas, adereços ou categorias. No fundo, ir tirando camadas que exageram ou diminuem a realidade impedido a humildade: o que é, sem mais nem menos. Pode ser uma flor ou a minha própria pessoa. A simplicidade é dos grandes exercícios de fé.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Times Square, o cavalo




Leonor Regueiras


[Coisas na vida de um padre] Estamos em plena Festa das Famílias aqui no Colégio. Momento de encontro e convívio com muita animação... e a visita do Times Square. Sim, o cavalo com que alguns alunos fazem terapia. “Sr. padre e que tal uma voltinha?” São oportunidades que não se perdem.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Ajuda a Moçambique




Do que se pode saber, temos visto imagens desoladoras da passagem do ciclone por Moçambique, Zimbabwe e Malawi. A Fundação Gonçalo da Silveira, obra da Companhia de Jesus, com credibilidade e contactos no terreno, vai orientar as ajudas recebidas a quem mais precisa. Ficam as informações para quem possa ajudar financeiramente. 

Donativos para:
Conta: FGS Emergência Moçambique 2019
Nº de conta: 000 10 591814-8
IBAN: PT50 0036 0000 9910 5918 1487 7

terça-feira, 19 de março de 2019

Dia do Pai




Kátia Viola 
Volto a esta foto, pelo muito significado que tem, em especial pela subtileza do braço da minha mãe, no abraço ao meu pai.

[Secção pensamentos soltos em Dia do Pai] A força e a ternura da paternidade. Podia, a meu ver, ser um título para o dia de hoje. Ser pai (ou padre) implica dar vida. Esta dádiva, que para a maioria começa de forma biológica, vai-se transformando em desejo de ajuda ao crescimento. Todo o dom é transformador. Ninguém pode ficar igual quando dá e quando recebe. As nossas histórias são marcadas pelas relações de quem nos foi próximo, ajudando-nos a encontrar sentido de realidade. Neste dia, muitos recordamos os pais que deram e dão o melhor para que sejamos o melhor de nós. Mas, também neste dia gosto de pensar e rezar por quem viveu ou vive um pai que se tenha limitado a ser progenitor e encontra o sentido da paternidade noutra figura masculina ou, sim, na mãe ou outra figura feminina. Deus, que cria o ser humano à sua imagem e semelhança, homem e mulher os criou, diz-nos o Génesis, integra os dons masculinos e femininos. Chamamos-Lhe de Pai, certo. Com entranhas de mãe, diz-nos Isaías. Ser dador de Vida é conciliar a força, da segurança, da determinação, com a ternura, em afecto, que permite a flexibilidade de quem deseja explorar o mundo. Conciliar força e ternura é confiar. Confiar na tradição, na experiência de caminho feito. Confiar que na relação ambos crescemos na flexibilidade de algo novo a acontecer. Assim viveu S. José a confiança.