terça-feira, 29 de Julho de 2014

Fico-me pelos rostos que entrego.




Kátia Viola


[Secção outros tons] Fico-me pelos rostos que entrego. Um após outro circulam em memória de tempos presenteados. Em solene perfume de incenso, que faz do Mistério aquele arrepio que anula a ausência, deixo-me perceber em Corpo e em Sangue. Ajoelho-me, de braços postos no regaço. Agradeço. Levanto-me. O rosto desvela-se e abre caminho.

segunda-feira, 28 de Julho de 2014

Pagela da Missa Nova



Pagela ou “santinho” é o nome que se dá à recordação da ordenação e da Missa Nova. Sobre a da minha Missa Nova, muita gente perguntou qual o significado. Para mim tem o significado da Amizade. Pedi ao João Delicado, grande Amigo, como um irmão, que me fizesse a pagela. Confiei-lhe tudo. Concepção e escolha da frase que me irá acompanhar a vida. Quando a vi não tinha palavras, apenas aquele sorriso estúpido (ele sabe qual é!) de: “Isto sou eu!”… em tudo! O João, ontem, escreveu um post a explicar os passos da concepção e mais em detalhe o significado. Estou-lhe muito agradecido e também à Marta (da martisses). Aqui vai o link para a "A bandeira do senhor padre, como é?" (sim, sei que sou suspeito ;) , mas vale muito a pena ler!!): http://verparalemdolhar.blogspot.pt/2014/07/paulo-duarte-sj-padre-jesuita-missa-nova.html

domingo, 27 de Julho de 2014

Agradecimentos [na Missa Nova]




Uma das muitas surpresas que me prepararam... uma rede de pesca, com conchas, recordando o Mar, que suporta inúmeras fotos (algumas quais bons “tesourinhos deprimentes” que me fizeram rir bastante)... já nem me lembrava que tinha feito a 1ª Comunhão de All Stars... ;) ramos de oliveira, sim andam a ler os meus posts... eheheh



[Este post é longo. Partilho o texto que li ontem, dando os agradecimentos neste tempo da minha vida, em especial na Missa Nova]

Este momento, em que vou dedicar-me aos agradecimentos, tem como inspiração uma grande mulher: a Mafalda. Ela gostaria muito de estar aqui, mas os seus ossos (ela tem a doença dos ossos de vidro) não permitiram que desta vez fizesse uma viagem até cá. É uma mulher de força e inspiradora, com um desejo imenso de cá estar. Trago-a desta forma: há uns anos escreveu um texto “Obrigado”... e assim, começo...

Obrigado Senhor por seres quem és, em mistério que se revela Corpo que se dá em alimento. Obrigado por não cessares de criar… e provocando-te sorrisos ou lágrimas, alegrias ou dores dilacerantes, continuares a confiar na humanidade.  

Obrigado pela Igreja, esta concreta, constituída por homens e mulheres concretos que põem a render os dons e, apesar de por vezes os desperdiçarem por medo, vergonha ou abuso de poder, continuarem nesta procura da tua vontade, dando o seu melhor no serviço.  

Obrigado pela Companhia de Jesus, por tantos companheiros que consciente ou inconscientemente me ajudaram a ser quem sou e que, em especial os formadores, foram confiando em mim nesta entrega. Agradeço-te de forma especial pelo Carlos, pelo Frederico, pelo Gonçalo, pelo João e pelo Pedro: cada um ao seu modo me revela a amizade e o companheirismo nesta graça do sacerdócio. Gracias por Nacho Boné, por Toño García y, aunque ella no sea jesuíta, por Asun: en mi vida también hay un antes y un después de me haber encontrado con ellos. 

Obrigado pela minha mãe Maria e pelo meu pai José. Mesmo não sendo eu Jesus na terra, foi e é graças a eles, que O fui descobrindo e tento participar cada vez mais da Sua vida. Obrigado pelo seu exemplo de força, de determinação, de humor, de capacidade de encaixe, sobretudo quando a vida dá voltas que eles não esperam. Obrigado por, apesar de não terem netos biológicos, estarem sempre dispostos a receber de braços abertos os inúmeros netos de amizade.

Obrigado pela Suzanne, pela Letinha, pelo Deli, pelo Luís Amaral, pelo Hugo, pela Emília, pela Maria Luísa, pela Patri, pela Esther, por nesta amizade com contornos de laços alargados de família, condensarem todos os familiares e amigos presentes nas mais variadas formas, na sua diversidade de crenças, aqui ou por esse mundo fora, como o Pablo Kramm, no Chile, ou virtuais, como no facebook ou blogues, também na oração, como as amigas carmelitas, e por no pensamento ou no abraço, todos, mas todos, me fazerem recordar tantas conversas, voos, encontros contigo, gargalhadas, “likes”, comentários, estupidezes, choros, aulas, histórias, dúvidas, sonhos, petiscos, danças. 

Obrigado pelo P. Mário, que na amizade e serviço, também condensa esta comunidade paroquial aqui em Portimão. Obrigado por desde o primeiro momento escutar da sua parte: “não te preocupes com a organização, recorda que esta também é a tua casa”. Obrigado pela Dra. Isilda, por, na qualidade de Presidente da Câmara, ter mostrado toda a sua disponibilidade e colaboração para que esta festa seja de todos, já desde a viagem até à ordenação, em Coimbra. Sim, obrigado por toda a entrega destas pessoas que também, seja pela música, como o Coro, seja nos comes e bebes no Salão dos Bombeiros, ajudaram a que esta festa se tornasse fruto de partilha da comunidade, ao jeito da multiplicação dos pães… 

Obrigado pela minha fé, esperança e caridade. Sem interessar a quantidade, vão sendo diálogo entre o teu dom e a minha resposta, umas vezes com mais encontrões e tropeços, outras em velocidade de cruzeiro. Obrigado por este novo dom do sacerdócio. Que nunca me canse de te dar graças por ele e, sobretudo, pô-lo ao teu serviço, nesta dádiva de vida na paternidade espiritual, em especial por aqueles que mais sofrem e estão afastados da Tua casa.

Senhor, é isso, agradeço-te por seres quem és.

E agradecendo ainda o carinho, protecção, o Sim de Maria para acolher o Filho no seu seio, rezemos uma Avé-Maria a Nossa Senhora da Conceição.

sábado, 26 de Julho de 2014

Missa Nova [Homilia]





Termino o dia com cansaço agradecido. Foi um dia de muita acção de graças. Não escrevo mais de momento. Já que está online (mais um agradecimento a quem gravou) partilho a homilia da minha Missa Nova... :)

sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Infinito de Mar




É um misto de sensações. Sinto a tristeza do que se passa no mundo, naquela impotência que tenho comentado, deixando-me ficar em pequenos momentos de silêncio orante pedindo a paz: não só nas zonas de conflito, como aos corações das pessoas que vivem a dor dilacerante das perdas humanas de forma tão bruta. Também sinto aquela felicidade inexplicável do dom recebido por Deus, desta entrega de dar corpo, no serviço aos outros. Hoje fui ao “fim de terra”, olhar o infinito do Mar, numa zona tão especial para mim desde muito novinho: o promontório de Sagres. Aí, sentindo a força do vento a empurrar-me, escutando as ondas a rebentar na costa, rezei a Deus que se confia nas nossas mãos para sermos portadores da Sua paz. Naquele silêncio preenchido pela História de tantos que, com garra e medos, partiram em busca de novas terras, pedi ao Senhor que me dê um coração sábio, mantendo a autenticidade que vou descobrindo, e possa, ao jeito de São João Baptista, apontar ao Infinito que dá vida. E recordando São Tiago, pedi-lhe para fazer dos meus passos peregrinos um meio de encontro entre Ele e quem o busca. 

quinta-feira, 24 de Julho de 2014

Infelizmente... mau uso do poder



Nadya Kulagina


A propósito de recentes acontecimentos políticos, confirma-se que para alguns senhores no poder o que interessa é a economia e aumentar o seu próprio poder… o resto, tipo as pessoas e a sua dignidade, pelos vistos “algo” pouco importante, são para eles “palha que o vento leva” ou, pior, “coisas” ao serviço do seu poder. Lá vou eu ao post de há 3 dias: reduzo-me ao silêncio… da oração.

quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Rostos



Shahnewaz Karim


Tenho a mania de olhar rostos. Aperceber-me dos detalhes, das características que marcam a pessoa a partir do rosto. Nota-se o cansaço, a felicidade, a tristeza, a dureza do muito que passa ou passou, o desejo. Se os olhos são “o espelho da alma”, o rosto, como Emmanuel Lévinas afirma, é o infinito do outro. Cada vez mais me convenço: o que cada rosto segreda é o desejo de ser amado. Isto não é coisa pouca… há quem sofra e faça sofrer por isto não acontecer. As variantes são inúmeras. Volto ao mesmo: “como a si mesmo, amar o próximo”. E a dignidade humana, se mais passos houver neste sentido, ganhará novos contornos… mesmo sendo nós mais de 7 mil milhões no mundo.

terça-feira, 22 de Julho de 2014

Agradecido



Co-celebrei com o P. Belchior, que presidiu e celebra este ano 50 anos de sacerdócio, na Missa de encerramento do ano lectivo no CAIC. Foi para mim oportunidade de dar graças pelos 2 anos que muito me ajudaram a ser quem sou. Sim, agradeço muitas vezes, mas hoje foi especial: tornei o agradecimento sagrado, pedindo também pela vida e intenções de tantos amigos, sejam docentes, não-docentes ou alunos. Os dois tínhamos um bolo original: o P. Belchior gosta das suas caminhadas... e eu fui recordado pela minha entrada de mota, vestido de Pai Natal, na festa de Natal há 5 anos, que dançou à fartazana enquanto distribuía as prendas às crianças. Sim, olhando para este dia, melhor, para estes dias, volta-me ao pensamento a passagem do Cântico dos Cânticos que se leu hoje: "encontrei Aquele que o meu coração ama".

segunda-feira, 21 de Julho de 2014

Reduzo-me ao silêncio



Reza


Reduzo-me ao silêncio perante muitos acontecimentos brutais que acontecem no nosso mundo, ainda mais quando são fruto da estupidez e da ganância de poder. Desde o avião abatido recentemente, passando pelos bombardeamentos na Faixa de Gaza, não esquecendo as outras inúmeras zonas de conflito armado pelo mundo, juntando ainda o aumento da escravidão e tráfico humano. Reduzo-me ao silêncio, por não poder fazer mais que rezar ou pensar nas pessoas que vivem estas situações. Ou então, tentar trazer Paz às pequenas guerras do dia-a-dia, muitas vezes desnecessárias, ou fazer caminho para que seja a vida, e não o poder, a prevalecer nas minhas decisões e relações com os outros.

sábado, 19 de Julho de 2014

Entre o destruído e o novo



Alfredo Henriques


Passei pela Igreja de S. Domingos, ao lado do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Para mim é passagem obrigatória quando cá venho. Gosto de recolher-me por lá e sentir-me rodeado pela força de contraste entre o destruído e o novo. Nem é o renovado, é o novo mesmo, nesse choque de que as marcas não se apagam, apenas poderão ser integradas nas mudanças que acontecem. O faustoso foi esmagado pelo fogo, ficando o silêncio das pedras e dos pilares. Não se deixou de celebrar Missa por lá… mesmo com chuvas e ventos. Hoje em dia, esta Igreja rodeada de História faz-me agradecer a simplicidade e alertar para o sentido das coisas… e, mesmo sendo os inícios, estar atento para não desvirtuar a missão que me foi e é confiada.

quinta-feira, 17 de Julho de 2014

A entrevista no programa Boa Tarde - SIC



As palavras, hoje, deixo-as sair a partir da entrevista. ;)

A DEF, a Chique e o Padre






O prometido foi devido: li-te, Mafalda, na última crónica do "mafaldisses" reservada para ser lida depois do “abraço nosso suavemente apertado”, já não escrito ou dito, mas dado “suavemente apertado”. Depois de ler, adormeci, agradecido à Vida: tua, minha, nossa de humanidade com tanto para dar. Sou de sono pesado, sobretudo quando ando mais cansado. Mas, qual 04h03, despertei recordando as nossas gargalhadas, ralis de cadeira de rodas pelo Vasco da Gama, momentos de “selfies” com a Suzanne, e dando graças a Deus por tanto bem recebido através de vocês. Não te recordavas da última crónica, mas é, precisamente, “(+1 semana)_Antes Que Me Pegues ao Colo”. Ri-me, só de ler o título. E, claro, mais uma crónica daquelas de ficar tempos a digerir. Voltei a sentir nos braços o teu corpo, leve de biológico, forte de Ser. Recordei a Fé em Deus que também nos une, nesta amizade desenvolvida de Paris a Lisboa, que apontará Portimão dentro de dias. Pois, a dada altura, pelos olhares e reacções, acharam que andavam 3 parvos à solta: uma DEF, uma chique e um padre… com momentos que despertaram sorrisos, daqueles que sussurram ou gritam que a Vida não é para os perfeitos, mas para quem se deixa amar como é e sabe saborear e agradecer. [Já agora, para conhecer um pouco mais sobre a força desta mulher, aconselho ganharem 14 minutos a ver esta palestra da Mafalda: http://youtu.be/EFNf95hjWSE ]

quarta-feira, 16 de Julho de 2014

Programa "Boa Tarde" - SIC



[Coisas extra-quotidianas da vida de um padre com pouco mais de uma semana] Vamos ver. Eu cá não sou dado a intrigas. Nem pensar nisso. E o que vou aqui dizer, para esclarecer uns assuntos pendentes, não é para dizer a ninguém. Fica aqui, entre “nózes” no “blogger”. Ok? “Prontes”, cá vai… mas, segredo!!! Diz qu’amanhã, 5.ª feira, 17 de Julho, vou estar no programa Boa Tarde, na SIC. Pelo que percebo começa pelas 15h50. Vamos falar sobre a minha vocação e assim. Mais a relação com Deus. ;) E isto de ter sido comissário de bordo e agora ser padre. Enfim, coisas da vida. “Prontes”, é isto. Agora segredo, ok? ;)

Nada de especial



Nada de especial. Uma cadeira iluminada pelo reflexo de um vitral. À frente, uma carmelita que reza. Nada de especial. Porque se repete em cada dia, nessa entrega silenciosa que traz nomes, acontecimentos, deixando que a vida contemplativa impeça que o ritmo voraz da vida citadina absorva a essência das coisas. Tenho uma relação de muita amizade com estas mulheres que fazem da oração o seu quotidiano. Neste dia de Nª. Srª. do Carmo, nada de especial. Uma cadeira iluminada pelo reflexo de um vitral. À frente, uma carmelita que reza.

segunda-feira, 14 de Julho de 2014

Entrevistas




[Coisas extra-quotidiano na vida de um padre com uma semana] “Agora anda pelo corredor até àquela porta. (…) Entra na capela e aproxima-te do altar. (…) Desce as escadas e põe a mão no corrimão. (…) Agora fazemos um plano em que estás a olhar os aviões. (…) Olha o televisor com as informações das partidas e chegadas. (…) Vai até aos balcões de check-in (…)” E no meio, duas entrevistas: uma no CAIC (Colégio da Imaculada Conceição) e outra no aeroporto de Lisboa. Amanhã ou depois darei mais novidades. :)

domingo, 13 de Julho de 2014

Fruto... em abundância



Cheryl Bezuidenhout


[Secção: outros tons] Fiquei adormecida. Em espera. No silêncio que aguarda o tempo. Amadurecer: junta-se a emoção e a razão, onde o momento da fragilidade, ou até mesmo morte, faz-me tomar consciência que sou algo mais. É duro. Não quero. É fácil habituar-me ao tipo de conforto que não passa de um incómodo resignado. No entanto, serei mais uma. No dia que decidir deixar de o ser, revelarei o esplendor e crescerei. Tenho de aprofundar o meu húmus, a terra que me envolverá as entranhas. Aí darei fruto, ao meu modo, em abundância.

sábado, 12 de Julho de 2014

Gargalhada no confessionário




Momento em que voltava a pentear o meu farto cabelo, depois de me ter despenteado ao vestir a casula ;)


Escutava uma pessoa. Era tão engraçada a falar. Daquelas pessoas com natural bom humor. Ao início, fiz um esforço para não me rir, tentando manter a seriedade. Chegou uma altura que não aguentei, e começa-me a saltar o meu humor também. Chorávamos os dois… de rir à gargalhada. O que vale é que os confessionários em Fátima são muito bem insonorizados. No final, depois da absolvição, vira-se para mim: “Oh, Sr. Padre, já saí de algumas confissões a chorar, mas a chorar de rir é a primeira vez”. Respondi-lhe: “Olhe, se não fosse a loucura, daquela boa, a vida seria muito aborrecida”. “Oh, a quem o diz, a quem o diz!” Lá foi outra gargalhada. :D

quinta-feira, 10 de Julho de 2014

As primeiras confissões



Réhahn Croquevielle


E assim de repente (dois dias, diga-se) confessei muita, mas muita gente… homens, mulheres, crianças, em português, em espanhol, em inglês, em francês. Presenciei lágrimas de dor e muitas de alívio. Houve muitos momentos de me sentir pequenino diante da humildade das pessoas. Os sorrisos no final do sacramento foram bastantes e também aconteceram gargalhadas. :D O sacramento da reconciliação leva a isso: da dor à alegria do encontro com Deus. Também à compreensão do que é verdadeiramente pecado. Tenho para mim que atravessou-se uma teologia ou um modo de espiritualidade que punha pecado em tudo… por isso, também houve oportunidade de dar esclarecimentos, a partir da vida, da misericórdia e do amor de Deus. Estou com aquela sensação de cansaço bom. A imagem que me vêm à cabeça é a de ajudar, com a graça de Deus, a tirar valentes pesos de cima das pessoas para continuarem a fazer caminho. E isto é só o começo… :)

segunda-feira, 7 de Julho de 2014

Agradecido



Paula Merelo Romojaro


Gratidão. Fico em silêncio com este sentimento. Ainda atordoado com os muitos outros que circulam por mim. Foi um sábado intenso: de Deus, de família, de amizade, de dádiva e entrega. Nomes, voos, histórias, vida condensada no Dom que recebi, em Igreja, em conjunto com os meus 5 companheiros, na Companhia de Jesus. Sou padre… quero ser sempre um dador de Vida, com olhar e gestos de misericórdia. Aos poucos partilharei um pouco mais. De momento, gratidão, muita gratidão: a Deus, aos meus pais, à Igreja, em particular ao D. Virgílio que com muita amizade nos ordenou, à Companhia de Jesus, ao Carlos, Frederico, Gonçalo, João e Pedro que foram ordenados comigo, a tantos, mas tantos amigos (com ou sem farda… ;) ). Também são todos estes que me ajudam a ser padre. Fico em silêncio agradecido e habitado pelo Dom que me foi confiado… para dar a Vida de Deus.

sexta-feira, 4 de Julho de 2014

Um ramo de Oliveira



Uma das minhas árvores preferidas é a Oliveira. “Tenho-a” no nome. Faz-me recordar a família, também pelo azeite da minha avó Constança e as azeitonas preparadas pela minha avó Teresa. Apanhei este pequeno ramo no retiro de há dias. Pensei no tanto que simboliza e pode simbolizar. Tenho desejos de paz. Vivo-a neste momento. E na oração, pensava que, enquanto ungido sacerdote com azeite perfumado (é um dos momentos do ritual de ordenação sacerdotal), também quero ser mensageiro de paz: de corações, de famílias, de relações, de vidas, de povos. Sendo-o, também convidarei a que outros o sejam. Sim, a Oliveira tem grande força. Este ramo irá comigo amanhã.

quinta-feira, 3 de Julho de 2014

Ver para crer



Ruta Balciunaite

Às vezes é necessário pôr a fé em causa, no questionar acertado, tentando tirar as dúvidas que, se não saem, podem ficar a amargurar a alma. Ver para crer, tal como Tomé, pode ser mote para conversão. Tento pôr-me na pele daquele homem: depois da brutalidade dos acontecimentos, dizer-lhe a frio que o Senhor está vivo é de sentir, mais que desconfiança, que gozam com a sua cara. Põe em causa, porque, parece-me, o desejo de encontro ainda lateja no coração. O Mistério não se fecha num granito imutável... surge em caminhos incertos e pode implicar questionar para descobrir o que pode abrir ainda mais horizontes. Há dois anos arrisquei um poema, depois de rezar a famosa passagem do encontro de Tomé com o Ressuscitado. Volto a ele... e nisto retoco a fé.


[Jo 20, 24-29] 


Não sei se são contos.

A morte não foi um jogo.
O véu rasgou-se, sim,
mas o corpo,
em tarde eclipsada,
foi acolhido em braços caídos.

O desalento, a cor, o silêncio,
o retumbar da pedra
na escuridão da gruta,
foram testemunhas do fim.

Pedem-me para crer?

Depois de tanto vivido,
estou cansado de fantasmas,
de histórias desencantadas,
de entusiasmos gastos
pelo etéreo sem mundo.

Apenas peço que os sentidos
doados ao nascer
sejam o registo
desta minha forma de fé.

Eu quero crer.

Escuto o meu nome.
Obediente estendo a mão.
No ver toco as marcas
da História viva.

Será paz o que me envolve?
Ou a certeza de que sou atendido
nas preces da agitação?

Creio, Senhor.


quarta-feira, 2 de Julho de 2014

Depois do retiro...



Não estou preparado! Entre outras, saio de retiro com esta sensação. E é bom sentir isto. Passaram-me muitos nomes pelo coração, enquanto caminhava pela quinta de Soutelo (a casa de retiros). Diante de Deus revi a minha incapacidade e os meus pecados. Depois, em risos, enumerei-lhe e agradeci-lhe os dons que me dá directamente ou através dos acontecimentos da vida e de muitos rostos que também formam o ser quem sou. Recordo muitas pessoas: crentes; mais ou menos beatos; não crentes; consagrados; solteiros; casados; divorciados; com muitos ou poucos estudos; de tantos países do nosso mundo; artistas; com dúvidas; em caminho de vida; homossexuais; políticos; refugiados; doentes ou cheios de saúde; felizes; em busca de si mesmo; em luto ou a celebrar o nascimento de alguém. É isso, não estou preparado… e, faltando 3 dias, dá-me imensa serenidade. Afinal, se aqui estou, assim feliz, é porque Deus envia-me como sou a servir estes rostos com nome concreto e outros ainda por conhecer. E deixo que seja Ele a preparar-me, ao modo de Cristo e inspirado pelo Espírito, para esta nova realidade na minha vida: ser padre. :D

sexta-feira, 27 de Junho de 2014

De retiro...




Passei pelo nervosismo, depois surgiu a ansiedade com o desejo do regresso a Portugal. Cheguei, descansei, encontrei a família, alguns amigos e companheiros, vi o Mar, o “meu” Mar. Rezei em comunidade, vivendo a beleza da preparação. É emocionante, é bonito, perceber também, como já disse outras vezes, o entusiasmo das pessoas com o aproximar deste grande dia na minha vida. Agora vivo uma imensa serenidade, com vontade de rir e sorrir, agradecido a Deus por este dom que me confia, nesta forma de dar vida. Amanhã entraremos, os 6 que vamos ser ordenados, de retiro. Sim, encontrar-me com Deus e dizer-Lhe: “Obrigado pela tua Vida e por ma dares. Ainda pensando na celebração do Coração de Jesus, peço-te que não te canses de me dar o afecto, o carinho, a misericórdia e um coração que saiba discernir o melhor serviço. Aqui estou, Senhor!” E, de certeza que sairá uma boa gargalhada, por ainda pensar: “Sim, tu, Paulo, oh artista, vais ser Padre!” Haja animação. ;) Quem seja de rezar, peço-vos a oração, quem seja mais de pensar, peço-vos o pensamento por nós nestes dias. :) 

quinta-feira, 26 de Junho de 2014

Instante



Hielke Gerritse


[Secção outros tons] O instante. Descreveria como aquele momento em que nada se espera e tudo acontece. O que já foi fica registado, deixando que o movimento siga na continuidade dos tempos. Na atitude de reverência, compreendendo que os sonhos são possíveis, a fé ganha corpo… e as histórias continuam a ser escritas e contadas. Alimenta-se a esperança, contempla-se o instante.

quarta-feira, 25 de Junho de 2014

Preparativos



Volodymyr Zinchenko

Estou aqui em preparativos e tive uma boa surpresa. Na 1.ª leitura do dia em que celebrarei a Missa Nova, Deus diz a Salomão: “Pede o que quiseres!”. Salomão, podendo pedir “vida longa, riquezas ou a morte dos inimigos”, pede um coração inteligente. Deus concede-lhe assim o dom da sabedoria. O saber discernir para bem governar, para melhor servir. Releio… pensando no dia da Missa, na minha pessoa, só me sai, citando um grande amigo bastante Delicado: “Deuscidências”. :)

domingo, 22 de Junho de 2014

"Está quase!"



Hideyuki Katagiri


“Está quase!” É uma expressão que tenho ouvido bastante. É bonito perceber a emoção das pessoas amigas, que se junta à minha. Entre descanso e encontros, torna-se o tema de conversa: “Como te sentes?”; “Já viste como o tempo passa rápido?”; “Quem diria?”; “Estás feliz? Oh, desculpa, que pergunta, nota-se logo que sim!” Há pouco na procissão do Corpo de Deus rezava agradecido pela vocação, por nós 6 que vamos ser ordenados, e pelas pessoas a quem vamos servir. É isso, faltam 14 dias... na verdade, 13 dias e algumas horas. ;)


sexta-feira, 20 de Junho de 2014

Golfinhos :)



(Versión en español en los comentarios)

“Que queres ser quando fores grande?” “Veterinário com especialidade em cetáceos!”, respondia prontamente, já com os meus 10 anos. Já se sabe as volta que a vida deu. Mas, claro, o carinho pelos cetáceos continua. Ontem o meu pai perguntou: “Tens programa para amanhã à tarde?” “Qual a proposta?” E eis que fomos para o alto-mar algarvio ver golfinhos selvagens. Era à sorte, pois nem sempre se consegue ver. No entanto, para grandes sorrisos de toda a gente, os golfinhos até nadaram às voltas do barco, como que a cumprimentar… enquanto caçavam a bela da sardinha. Foi difícil tirar boas fotos. No regresso, em silêncio a contemplar a costa, agradeci a Deus a beleza da criação e pedi-lhe que houvesse cada vez mais consciência da importância da protecção da Natureza. Não é uma questão de caprichos… mas também de sobrevivência da humanidade.  

quinta-feira, 19 de Junho de 2014

Símbolo



Kamala Kannan

[Secção outros tons] Busco o símbolo. De mim ou de ti, no caminho que molda os pés. Os gestos rodeiam-se de ternura, misturado com o cansaço da viagem de tanto. São as saudades que marcam aquele estar, no abraço que continua a bordar o que será. As conversas dispersam-se no muito a dizer. Não se notam as rugas, apenas a amizade que o tempo não apagou. 

quarta-feira, 18 de Junho de 2014

[Pensamentos soltos sobre animais]



Sempre quis ter um cão. Se a minha vida permitisse adoptava um, em especial que tivesse sido abandonado. Fico impressionado com a quantidade de animais que são abandonados, sobretudo pelos caprichos de algumas pessoas. E os que, em nome de luxos, feitiçarias, etc. e tal, são mortos por este Planeta fora? A natureza tem um misterioso equilíbrio, onde não se pode, nem deve, confundir uso de abuso. Pensava nisto enquanto o “Xiribiri” [nome dado por mim, confesso] veio ter comigo aqui ao computador. Agora, volta a estar no meu ombro, enquanto escrevo, mordiscando-me a orelha. Aos poucos foi-se habituando a estar por casa… a gaiola está sempre aberta. 

terça-feira, 17 de Junho de 2014

Cheiro que marca encontro



Ainda cheiram a sardinhas. Normalmente não gosto do cheiro que fica nas mãos, mas hoje não me importo nada. Há as pequenas coisas que aparentam ser ridículas ou cliché, mas… vividas com seriedade tornam-se isso mesmo: vida. Hoje é o cheiro das sardinhas que marca a chegada e os encontros. O meu pai preparou-as, tal como uma salada de tomate feita pela minha mãe, junto com o belo do pão caseiro da minha avó, e soube-me pela vida. Que boas estavam! A comida tem sabor de encontro, de relação e de vida. Chego de outra Ceia, presidida pelo Luís, um companheiro jesuíta e grande amigo. Juntam-se as famílias. Dá-se encontro… e é bom, muito bom. :)

Post digno para hoje...





Há já umas semanas que tenho este post pensado para publicar hoje. ;)

segunda-feira, 16 de Junho de 2014

O que se recebe é para dar



(Versión en español en los comentarios)

O que me faltava terminar neste ano lectivo, está feito e entregue num mail que acabo de enviar. Saiu um bocado “a ferros”: juntou-se a preguiça mental em pensar em francês (que filme!), junto com o facto de estar “noutra” desde há algum tempo. Às vezes, qual estudante que se preze, barafusto, erro, reclamo, faço imensos “pós-doc” em procrastinação, no entanto, sinto-me muito agradecido por poder estudar, ler, pensar, articular realidades, apercebendo-me da força deste modo de servir. Acumular conhecimentos de nada serve se não se conjugar com sabedoria de vida: o que se recebe é para dar. E há muitas formas de o fazer, tanto de receber como de dar. ;) 

domingo, 15 de Junho de 2014

Reencontro



Gilbert Sape

(Versión en español en los comentarios)

“A minha mulher está quase a chegar!” Os olhos brilhavam com uma ternura impressionante. Havia o tremer de lábios e de palavras em dizê-lo, afinal são mais de 3 anos de separação forçada por uma fuga à tortura e à morte. O Poder, em especial algum Político, insiste em fazer mal. “Já preparaste o reencontro?” Respondeu-me: “Nem sei. Passa-me tanto pela cabeça e pelo coração. Vou levar um ramo de flores, como ela gosta. Depois, só queremos ficar abraçados.” Infelizmente não são todos, mas há capítulos com finais felizes. Sinto-me agradecido por poder fazer parte desta história. Dá ânimo para continuar a fazer caminho para que haja mais assim. Afinal, parece-me que o dinamismo da Santíssima Trindade, que hoje a Igreja celebra, tem que ver com este caminho de justiça e de paz. Talvez seja longo, mas… não impossível.


sábado, 14 de Junho de 2014

Momentos e recordações de "stôr"




De 4.ª feira até hoje à tarde, estive a acompanhar aqui em Paris um grupo de 80 alunos do Colégio [CAIC] onde fui professor há 4 anos (GOD, o tempo passa!!). Foi voltar a dois anos de muita aprendizagem. O “stôr Paulo” veio ao de cima à força toda: a orientar, a organizar, a estar atento, a dar-lhes “uma chapadona” ;) . Além disso, foi muito bom estar com bons amigos, também “setôres”, e dar umas boas gargalhadas. Estes dias fizeram-me recordar muitos momentos como Director de Turma, em que vivi pela primeira vez o sentido da paternidade espiritual. E nisto também fiz mais um bocadinho da passagem de Paris de França para Portugal… ;) 

quarta-feira, 11 de Junho de 2014

Humildade... em agradecimento



Ly Hoang Long

Ontem recordei uma conversa muito importante para mim. Não sei precisar o dia, mas sei que passaram alguns meses depois de começar a voar como Comissário. “Paulo, que se passa? Porquê esse ‘nariz empinado’?”, pergunta-me a Suzanne. Por vários motivos, estava a seguir por um caminho de superioridade que, de todo, não me caracterizava. O que é certo é que estava a seguir. Porque recordei esta conversa ontem? Pelas mais de mil partilhas feitas pelo facebook [será que se pode considerar “viral”? ;) ], muita gente leu a minha “breve” história vocacional, de relação com Deus, publicada no Folha de Domingo. Tive bastantes comentários e mensagens, a agradecer e a celebrar a ordenação que aí vem. Como dizia há dias, mexe por dentro, surge o nervosismo: a minha vida é e será de partilha. “Humildade” ressoou-me na cabeça e no coração ao longo do dia, quando via os vários pedidos de amizade e as partilhas da notícia a aumentarem. É fácil resvalar para o mau orgulho de “sou mesmo bom”… pondo-me num pedestal. Estes anos de formação deram-me campainhas interiores para recordar: “Paulo, não percas o sentido do dom de Deus. Sente-te reconhecido e agradecido por ele. Que bom que a tua vida pode ser exemplo e meio para que as pessoas possam conhecer Jesus, a quem tentas seguir. Mas, liberta-te dos interesses do mundo. Não és melhor, nem pior que ninguém. Não és superior a ninguém. Sabes bem que Jesus, a quem queres imitar, lavou os pés.” Depois, quando me deitei, lembrei-me desta partilha: "Tentações e flatulência" 

Humildade: com esta palavra acabei o dia de ontem, agradecido a Deus e tanta gente que me ajuda a ser quem sou, em especial à formação que recebo na Companhia de Jesus... e, claro, com uma boa gargalhada. :D


terça-feira, 10 de Junho de 2014

Saudade... neste dia de Portugal




Passo algumas vezes por esta avenida.

Há um ano estava por terras de Espanha. Agora estou em Paris de França. E vivo aquela sensação de “Tuga” que sente a saudade e está desejoso de chegar a Portugal. Neste dia de Camões, do sangue Lusitano, recordo o que escrevi há um ano precisamente. Continua a fazer sentido.


A palavra “saudade” descreve muito de nós, portugueses. Parece que estamos constantemente com saudade: do passado, do futuro, do presente. Se por vezes há aquele desejo bom do reencontro, noutras amargamos o que ainda não temos, prevalecendo a queixa e o desespero. Não podemos esquecer a raça Lusitana, aquela que nos fez rasgar horizontes desconhecidos, acolhendo novas terras e gentes. Hoje, os horizontes não são físicos, mas de alma. Que o dia de Portugal nos ajude a agradecer a riqueza do que somos e a lutar esperançosamente pelos “mares por navegar” da justiça, lealdade e verdade. 

Artigo... na Folha de Domingo


domingo, 8 de Junho de 2014

[Apontamentos nocturnos]



Richard T. Cole

(Versión en español en los comentarios)


Mais uma vez, em jeito de partilha, solto os pensamentos neste fechar de noite. Volto a tomar consciência do imenso que somos, do que nos rodeia, do que não se pode controlar, do que posso decidir, sim, em plena liberdade e o outro lado que são lá uns senhores que decidem por mim, por nós. No entanto, ninguém pode tirar-me a possibilidade de maravilhar-me com a noite, deixando-me envolver por esse mistério da pequenez e do Infinito. É como se o tempo parasse e se fundisse, fazendo rodopiar tudo e todos que constituem as coisas da vida. Do ridículo ao estupendo, das coisas estúpidas às fundamentais. Pode surgir a revolta, o desespero ante a catástrofe eminente. Ou então, aceitar que o poder não leva a lado nenhum. Apenas a Esperança: se aceito converter-me é aí que se dá mudança. Esta minha mania de ser utópico tem destas coisas… Acho que está na hora de ir dormir. Começou a trovejar. Ainda é a noite do Espírito. Haverá alguma que não seja?

[Secção outros tons... em dia de Pentecostes]




Martin Roemers

(Versión en español en los comentarios)

No princípio é a inspiração. Insufla o corpo no primeiro grito que abrasa e confirma a vida. Aos poucos a linguagem torna-se semelhante a quem impele o crescimento, anulando o medo de andar e encontrar(-se). As divisões cessam com o gesto de paz, em que as palavras são desnecessárias: basta que ames, tão simples quanto isso. Forma-se outro Corpo, onde nenhum membro é matéria morta. No perdão encontra-se o fogo que transforma todas as coisas a dar de si, renovadas pelo sopro do Espírito. E nasce-se de novo, deixando que no princípio seja a inspiração.


sábado, 7 de Junho de 2014

[Coisas do quotidiano em Paris]




Na crónica de ontem no iMissio recordei que não é o extraordinário que faz a vida, mas o quotidiano. O extraordinário o que faz é dar impulsos de vida para que o quotidiano siga no bom ritmo. Venho eu no Metro [qualquer dia escrevo um livro sobre os acontecimentos que vivo no Metro] e o maquinista, depois de informar que por razões técnicas ficaríamos uns minutos parados, começa a cantar “moving like jagger” dos Maroon 5. Seguimos viagem e ele todo animado, continua a cantar, deixando os passageiros com um sorriso de boa disposição. É isso, toda uma animação no Metro. :D

sexta-feira, 6 de Junho de 2014

"Hoje"



Hoje | foto de Joana Patita em

Saio do Hoje, a última criação coreográfica de Tiago Guedes. Saem notas soltas, sem pensar muito, apenas, tal como a peça “exige”, ficar-me pelo(s) registo(s) do(s) momento(s) presente(s).

Fecho os olhos e a velocidade paira no fundo da memória curta. A velocidade dos gestos apressados, perfeitamente adequados ao ritmo do agora, deste instante que, mesmo sendo noite, recolhe a aceleração de todos os batimentos cardíacos, deixando em exaustão a própria desorientação das coisas. Nessa respiração ofegante, que eu próprio vivi sentado a ver toda a intensidade que saia do palco, deixo que o corpo se adapte aos tempos… ao meu tempo, ao meu hoje, ao meu agora, à minha actualidade. Que inevitavelmente tropeça no Hoje que são outros que me deixaram a pensar.

Num primeiro momento, a vida acelerada, como que numa ida às compras, saindo do metro, depois do trabalho, para ir para casa, fazer o jantar, arrumar o dia ou as horas, na continuidade do presente. Outros e ninguém ao lado, apenas a subtileza do olhar ou um primeiro suave encontro que leva directamente ao confronto, ao agarrar, na exigência da tua, da vossa, presença na minha vida. Tudo sem parar, sem deter o tempo, que não cessa de dizer: “Agora! Tem de ser agora”. Afinal, já não são as horas que contam ou a continuidade do ritmo de cada dia, mas tu ou eu, ou tu e eu, ou nós, entrelaçados numa figura mitológica de mil braços, que não cessa de mover e implicar-me na história. E a meio apeteceu-me gritar. 

Não posso dizer taxativamente “é isto!”, mas há a densa interpretação deste agora que é bruto, que exige o combate diário pela vida. Será solidão se não amparo as quedas e não faço o silêncio necessário para me reposicionar no quem sou? que vai dando nomes à minha própria pessoa. Os gestos tão individuais e tão comuns fazem com que identifique a humanidade. Essa mesma, ofegante de tanto mover-se, num novo mundo que se renova constantemente. O Hoje inquieta. Tenho o seu quê de responsabilidade, impedindo, naquilo que posso, a morte do mundo pela exaustão. Dá-me vontade de parar e pensar no amanhã


Obrigado Tiago!

quinta-feira, 5 de Junho de 2014

Falta 1 mês



A um mês do grande dia, recordo o que um companheiro, daqueles com muita sabedoria de anos e vida, me disse há dias: “Paulo, tenta não perder o olhar dos que amam. É esse olhar que ajuda a ver mais longe e dar fé aos que não a vivem por tanta coisa. Se és chamado a ajudar que os outros sejam livres e felizes, recorda que tu és pecador amado. Sim, repetimos isto muitas vezes. Para que deixe de ser mais um cliché, faz tu mesmo caminho de liberdade e felicidade, na fé de que Deus nunca te deixará de amar, mesmo nos momentos mais escuros ou vergonhosos da tua vida. Aí serás capaz de paternidade. E se a tua oração um dia passar pelo vazio, pelo sem sentido, tornando-se seca, dando-te vontade de desistir, volta a contar, como memória agradecida, as tuas histórias de encontro com Deus e limita-te a agradecer diante d’Ele do mais ridículo ao mais profundo da vida”. 

quarta-feira, 4 de Junho de 2014

O que vivo é único



Paolo Pellegrin

(Versión en español en los comentarios)


Tenho andado estranho nos últimos dias, podendo-se contar em semana e algo. Hoje, enquanto dançava, entrei no silêncio de mim e comecei a sair da terra, quase voar, atrevo-me a dizer a sair ao encontro profundo com Deus. Mas algo não batia certo. Sim, é bonito o desejo, a vontade, do encontro com Deus, mas… naquele momento, apesar de ser autêntico, estava em fuga, esquecendo o corpo, a vida, o agora. Fui convidado a prostrar-me, recordando esse gesto tão forte na ordenação. Assim o fiz. Aterrei, repetindo com as variações que no profundo de mim ia sentindo. Toquei o chão com todo o corpo, percebendo: “queres manter a normalidade, mas, Paulo, o que vives é único. Por isso não fujas, mesmo que seja por uma defesa para fazeres o que ainda há a fazer.” Sim, ainda tenho de acabar aqui alguns trabalhos, mas… GOD, é uma sensação tão boa este aproximar-se da ordenação que inevitavelmente a cabeça e o coração voltam-se para esse momento. Quase é difícil pensar, ainda mais noutra língua. O que apetece mesmo é estar lá, prostrado, sentindo o coração agradecido pela entrega e por perceber que, humildemente, darei a vida de Deus, sem esquecer o corpo, a vida, o agora. É isso, daí a estranheza… o que vivo é único. E escrevendo agora, sai-me: único e muito bom! :D

terça-feira, 3 de Junho de 2014

Peço orações ou pensamentos



Um jesuíta, o Pe. Alexis Prem Kumar, director do Serviço dos Jesuítas aos Refugiados (JRS) no Afeganistão, foi raptado ontem por um grupo armado quando saía da escola dirigida pela JRS-Afeganistão. De momento não há mais informações. Peço-vos a oração ou o pensamento. Muito obrigado!

segunda-feira, 2 de Junho de 2014

Silêncio em movimento




Carmelitas do Carmelo da Paz, em Mazille, relativamente próximo de Taizé

A suavidade do silêncio: a entrada, os passos a dar, a distância e a proximidade, o olhar, o ir, enquanto se prepara o coração para o louvor a Deus que pauta o dia destas irmãs carmelitas descalças. Rezei com elas. Fiquei fascinado com as entradas para a Capela. As saídas são igualmente suaves. Talvez seja nada de especial, mas bastou-me isto para encontrar o silêncio do movimento na relação com Deus no tempo que durou a oração. 

domingo, 1 de Junho de 2014

Crianças...



Amy Hildebrand


Crianças, que nós adultos sejamos capazes de vos libertar de toda a escravidão, dando-vos a possibilidade de crescerem aos vossos ritmos. Crianças, que nós adultos permitamos que os vossos trabalhos sejam sempre de descoberta e de gozo, nunca vos cortando o sonho e a imaginação. Crianças, que nós adultos sejamos sempre motivadores da vossa existência, da vossa educação e do vosso sorriso, sendo sempre, cada um de nós, amparo nas vossas quedas. Crianças, façam-nos recordar a criatividade que permite encontrar uma nova personagem em cada objecto ou nuvem e que todos somos convidados a brincar “infinitos”.

sábado, 31 de Maio de 2014

Em dia de Visitação [e do Tripulante de Cabine]




[Secção outros tons] Visitar: sair ou viajar ao encontro de alguém a quem sirvo num abraço, na escuta ou simplesmente no olhar que abre o horizonte. Partilha-se o alimento ou as perguntas que fazem ir mais longe. Os Mistérios ganham outra luminosidade... e percebe-se o convite à descoberta de outros voos. [Recordo de forma de especial, neste dia da Visitação e do Tripulante de Cabine, todos os que voam e que permitem o voar... em particular antigos colegas e agora amigos ]

sexta-feira, 30 de Maio de 2014

Numa breve passagem por Taizé...




Capela da Ressurreição em Taizé


Aqui, neste silêncio habitado por tanta gente, rezo: Senhor, dou-te graças pela amizade, pelas histórias que também constroem a minha, pelas pessoas que não se cansam de sonhar e pôr em prática a Vida pelo outro. Peço-te por todas as pessoas que guardo no coração. Abraça-as muito! 

terça-feira, 27 de Maio de 2014

[Secção pensamentos soltos]



Marco Parenti

(Versión en español en los comentarios)

Há insistência em contar as coisas como elas são. É justo! É de verdade que se trata. No entanto, há o perigo de abuso, como se alguém a tivesse em pleno bolso, junto com meia-dúzia de moedas. “Sou muito verdadeiro, digo tudo o que tenho a dizer no momento!” Esta frase pode magoar, mesmo que pareça revestida de autenticidade. Arrisca-se o pecado da omissão do tempo, do espaço, do outro. Antes de se dizer, tenta-se investir no perdão… primeiro de si próprio, não deixando as dores das feridas pessoais falar. Dar a outra face, com olhar fixo no horizonte, é sinal que o caminho não acaba ali. É oportunidade de recomeço… e de contar de outro modo as coisas como elas são.