quarta-feira, 29 de julho de 2015

Exercícios Espirituais




Paul Brooks


Estou a mergulhar de forma diferente nos Exercícios Espirituais (EE) de St. Inácio. Depois de os ter feito pela primeira vez há 14 anos, preparo os que vou orientar pela primeira vez sozinho a partir de amanhã para um grupo de 16 pessoas. Depois do merecido descanso entre sol e mar, preparo os pontos e os textos bíblicos que irei propor como ajuda ao encontro entre a “criatura e o Criador”. A grande riqueza dos EE está situada neste encontro, onde, mais do que ideias ou teologia, promove a liberdade através de um caminho que fará dialogar a história pessoal com o seu passado, sem julgamentos, na actualidade, em conjunto com a de Deus, em especial a partir da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus. Depois farei eu os meus EE… e de seguida voltarei a orientar outro grupo. Nos próximos dias estarei rodeado de espiritualidade inaciana e sobretudo de encontro com Deus. Nesse silêncio habitado e orante, tanto proposto como o que irei viver, rezarei por vocês, pelas vossas intenções e projectos. Peço-vos a oração e ou o pensamento, por mim e pelos dois grupos. Até breve. :)

terça-feira, 21 de julho de 2015

Coisas extra-quotidiano da vida de um padre - continuação de hoje




Chegado a Portimão para uns dias de descanso mais à séria, o meu pai disse: “vamos até ao Zoomarine!” Assim foi, pensando eu que seria mais uma das muitas vezes que lá fui. Mas não. Se há um ano andei a nadar com leões e elefantes marinhos e fui ver golfinhos no alto mar algarvio, desta vez os meus pais fizeram-me a surpresa de ir nadar de perto com os golfinhos. Este era um dos sonhos de criança. Posso não ser veterinário com especialidade em cetáceos, mas já posso dizer que dancei, nadei, mergulhei com o Hugo e dei e recebi beijinhos da Sara. Toda uma animação! De facto, sempre fui dado a novas amizades… mesmo que para muita gente possam ser estranhas. ;)

Coisas extra-quotidiano na vida de um padre




Os meus pais fizeram-me uma surpresa. Quem disse que sonhos de criança não se cumprem? Daqui a pouco conto mais... agora vou nadar com golfinhos!

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Pastor e ovelha e pastor




Jawed Alan


Ontem, durante mais uma viagem e acompanhado pela noite, recordei os muitos encontros desde que cheguei, junto com boas conversas. Sobrevoava: quem é o ser humano? Talvez em tempo de “silly season” não apetece andar com estas questões mais filosóficas. No entanto, o tempo não pára e os acontecimentos, mais ou menos conhecidos, continuam a mover a humanidade. Pensei nisto de ser “bom pastor” (para onde encaminhavam as leituras deste domingo, ajudado pelas reflexões das homilias dos dois companheiros jesuítas que este fim-de-semana presidiram às suas Missas Novas). Não podemos ser bons pastores se não conhecermos a realidade das pessoas que nos rodeiam. Além das pessoas, também dos tempos, das culturas sociais e religiosas, que vão para além do meu “eu” fechado sobre si mesmo, em ideias ou modos de pensar. No fundo, mais uma vez o apelo à conversão pelo que esta ou aquela conversa ou história fazem ver de novo, em especial, a partir da misericórdia. O Francisco Campos, no sábado, recordava que somos pastores e ovelhas. O Francisco Martins, ontem, recordava-nos que o compadecer de Jesus é algo de entranhas, nesse movimento visceral, até mesmo uterino, que provoca vida. O bom pastor quer e compadece-se da vida das suas ovelhas, independentemente da sua cor, raça, sexo, crença, força ou fragilidade… sem esquecer, ou talvez por tomar cada vez mais consciência, que também é ovelha.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Muros




Laszlo Balogh/Reuters


[Secção desabafos] Li que se começa a erguer mais um muro na Europa. “Impedir a entrada de gente”, dizem eles. Os muros, físicos ou relacionais, erguem-se pelos medos. E o medo em excesso faz coisas muito estúpidas: impede a vida e fecha mentalidades. Ah, e se eles “lá” estão a morrer, isso, pelos vistos, não interessa nada. Realmente, a história é esquecida com muita rapidez.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Fase de regresso




Nilton Quoirin


Entre conversas e silêncios vou-me apercebendo que estou em fase de regresso. Há o regresso físico, numa viagem de lá para cá. Depois há as muitas outras pequenas viagens de regressos: de pormenores ridículos de me espantar com o valor de 2,8€ por dois croissants e um pastel de nata… quando em Paris só o pastel de nata seria 2€, passando pela sensação de precisar de tempo e oração para dar-me conta das mudanças. Parece que foi ontem, mas 5 anos fora é algum tempo, ainda mais quando muito aconteceu. O regresso também é tomada de consciência das mudanças, do solidificar ou confirmar caminhos, em registo de tanta gente que conheci, seja em conversas soltas, seja em amizades que ficarão pelo tempo. Estes dias passados foram de (re)encontros, de conhecer a nova casa, de começar a perceber os desafios da nova missão e de recordações, o que permitiu escutar e contar o “como foi” destes últimos tempos. Vivi também a alegria de co-celebrar na ordenação sacerdotal de três companheiros na Sé Nova de Coimbra. Hoje foi a Missa Nova de um deles, com foguetes e tapete de flores. Depois, coisas curiosas como andar na rua e “Desculpe, é o padre Paulo?” “Sim, sou!” “Ah, comecei a segui-lo pelo blogue, depois pelo facebook. Não sei se tem tempo, mas com algum descaramento pergunto: posso confessar-me?” “Vamos a isto! :) ” É isto, entre conversas e silêncios, vou-me apercebendo que estou em fase de regresso.

domingo, 5 de julho de 2015

1 ano de padre




Dulce Antunes


1 ano de padre. :D Sinto o agradecimento a Deus por este dom confiado. São imensos o poder e a força que vou-me apercebendo ter, em conjunto, quase ao mesmo nível, da fragilidade que muitas vezes sinto. Essa fragilidade, dentro da humanidade, tem-me ajudado a ajustar esses imensos poder e força para o melhor, para a dádiva, para a escuta, para o outro. Não é uma questão de ser mais ou menos digno, mas de me dispor à escuta da chamada e assim servir nesta paternidade que dá a vida de Deus. Foi um ano de muitas graças e da consciência do que significa amar na repetição dos gestos que consagram e perdoam em nome de Cristo. Agradeço também este 1.º ano de padre do Carlos, do Frederico, do Gonçalo, do João e do Pedro. Isto de ser padre não é coisa nossa, mas de Corpo e em serviço a esse Corpo: como religiosos, no nosso caso na Companhia de Jesus, como cristãos, na Igreja, e como humanos, na sociedade. Ao recordar este dia, voltam-me a doer as maçãs do rosto do constante sorrir de feliz. ;) Peço-vos, a quem seja de rezar, a oração, a que seja mais de pensar, um pensamento por nós, para continuarmos a ter um coração disponível à escuta e ao serviço do outro, dando vida às pessoas e nas missões que nos são confiadas.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Vontade de leitura




Gurcan Ozturk / AFP/ Getty Images

Ainda não tive oportunidade de ler a recente encíclica “Laudato Si” do Papa Francisco. No entanto, a vontade cresce pelas críticas que tenho lido. Pelo lado das positivas, por ser uma encíclica que aborda pela primeira vez um tema tão importante como a ecologia, dos pontos de vista ambiental e humano. Do lado das negativas, curiosamente muitas vindas de âmbitos mais conservadores da Igreja, de que o Papa trata de temas que não competem à religião, acusando-o de socialista e até mesmo comunista. Pois, só por estas críticas negativas volto ao que fui pensando ao longo deste últimos anos de estudo: a heresia do neo-gnosticismo anda aí. O importante é sermos todos muitos espirituais, a rezar, a cumprir os preceitos todos e mais alguns, sobretudo ao nível da moral sexual, que isto da injustiça social, ecológica, é coisa de países de terceiro mundo. De facto, não me adianta rezar muito e ir a todas as missas e mais algumas se isso serve apenas para alivio de consciência ou “aplacar iras divinas”, mantendo a ideia, por não conhecerem a realidade para além dos seu mundo económico-social, de que há pessoas de categorias diferentes e de que todos vivem muito bem. Quem se diz cristão não pode esquecer que segue o Senhor que foi condenado à morte e de cruz também por ter expulso os vendilhões do Templo. De salientar que esse gesto foi religioso, político e económico, pela injustiça que se cometia em nome de Deus. Pelo que se lê desde o Antigo Testamento, reafirmado pelo Novo, das grandes preocupações divinas é sobretudo pelo que mais sofre, em especial quando tal acontece injustamente.


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Coisas do regresso a Portugal :)




A transição para Portugal começou com um encontro inesperado ainda em Paris. Na comunidade estava o Pe. Alexis Prem Kumar, antigo director do Serviço de Jesuítas aos Refugiados no Afeganistão, que esteve refém pelos talibãs durante 8 meses. Aí falámos um pouco desses dias e disse-lhe que em Portugal também muita gente tinha rezado por ele. Ficou muito agradecido. Daí a ideia da selfie, como forma de agradecimento. Seguiu-se o resto das arrumações; dormir duas horas e ir para o aeroporto. No check-in a senhora estava muito agitada a chamar o supervisor. Só dizia: “Staff! Staff! Il est staff!” Não estava a perceber o que se passava, mas consideraram-me como “staff”… ;) Até que vi o cartão de embarque: executiva. Deu muito jeito, pois para económica tinha excesso de bagagem, o que deixei de ter, podendo levar até dois volumes para a cabine. Foi perfeito. Depois percebi que houve “mimos” dos amigos aviadores… o que agradeço muito, muito. Não me roguei. Sendo dia de S. Paulo, recordei a sua passagem que fala do saber viver ora quando se tem e ora quando não se tem. Lá fui ao “lounge” tomar o pequeno-almoço. Voltei ao ambiente de avião: tão bom! Houve boas conversas de galley, a recordar velhos tempos. Depois aterrei em Lisboa no cockpit: foi fechar um ciclo para começar outro com grandes vistas. Como me disse a Suzanne: “Olha, foi uma transição à grande e à francesa!” ;) Rezei em acção de graças por S. Pedro e S. Paulo… acho bonito e fortemente simbólico regressar neste dia. E como se canta na famosa música do Dino Meira: “Voltei, voltei, voltei de lá. Ainda ontem estava em França e agora já estou cá!” ;) De fundo há sensação boa, muito boa… da vontade de anunciar a Vida em abundância de Deus. 

domingo, 28 de junho de 2015

Au revoir, Paris !




[FR] Merci Paris ! Merci a tous les nouveaux amis de Paris ! Merci pour ces deux ans de Vie dans ma vie. Dieu a travaillé beaucoup en moi dans ce temps et je pense que je l’ai aidé aussi. ;) C’est la ville de l’amour et de la lumière. Que ça continue à passer, pas seulement dans les filmes ou dans l’imaginer des gens, mais dans le cœur de chaque personne. Je suis heureux pour tout que j’ai vécu ici. Je quitte avec une marque d’une forte sensation d’action de grâces. Je continue à prier pour vous, chers amis. Je vous attends au Portugal. ;) À très, très bien tôt, j’espère ! Je vous embrasse avec tendresse !


[PT] Obrigado! É a agradecer que faz sentido terminar mais esta etapa aqui em Paris. Sou feliz pelo que aprendo e que vivo. Espero continuar a dar, como sou chamado. Portugal, até amanhã! ;) 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Vibrações, diferença e paz





[Coisas do quotidiano em Paris] Claro, esta secção não podia faltar nos últimos dias. Estava há pouco a dar um passeio quando, em plena rua, vejo uma senhora metida num grande cuenco tibetano, com outro na cabeça. Dois senhores lá tocavam nos dois cuencos para provocar vibração. A senhora quase levitava. Depois, no autocarro, vi esta senhora e este senhor a trocarem contactos. Tão diferentes no modo de vestir e unidos pela paz. O que despontou a conversa foi ele ter-se despediu-se de alguém a dizer: “Precisamos de paz na diferença!” Estando sentados em frente um do outro, a senhora deu um sorriso e disse: “Je suis d’accord!” E puseram-se a conversar. Em dia de tristeza pelos atentados, é uma pequena lufada de ar fresco ver encontros na diferença, seja a “levitar” com cuencos, seja em conversas a partir da paz. Tendo em conta o post de há pouco, hoje foi dia de UNESCO tanto na sede, como na rua. 

UNESCO



Fui pela primeira vez à UNESCO no dia 27 de Novembro. Nesse dia vivi a alegria da passagem do Cante Alentejano a Património Imaterial da Humanidade. Vivi igualmente a surpresa de uma nova amizade a surgir. Voltei lá mais vezes para boas conversas de vida, de humanidade, em alegrias e tristezas, dores e esperanças, de partilha daqui e dali sobre educação, ciência e cultura, de escuta, de pensar e de sonhar. O mundo da cultura, nessa riqueza da diversidade, também me ajuda a continuar a percorrer caminhos de fé, de humildade, de respeito e de aprendizagem na escuta de outras perspectivas. Perceber a importância da cultura, da educação e da ciência, em boas reflexões, é também ir percebendo quem é o ser humano.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Dança e agradecimento




Quando termino etapas sinto sempre profundo agradecimento. É muito o que recebo. Um dos encontros importantes que levou a uma grande amizade é sem dúvida o que tive com a Diana, minha professora de dança durante este tempo de Paris. Hoje tivemos a última aula, pelo menos por cá (nunca se sabe o futuro ;) ). Foi muito o que aprendi com “mi maestra.” Este trabalho, implicando corpo, dança, movimento, foi fundamental para o caminho que faço de autenticidade comigo, com Deus e com os outros. Recordo das primeiras coisas que me disse: “o que recebi é para dar, não me interessa guardar para mim.” Deus esteve presente nas aulas, entre partilhas e respiração. Houve transição nas nossas vidas, em gestos que ganham consistência e densidade em dança que “torna visível o invisível.”

terça-feira, 23 de junho de 2015

Mudanças




As mudanças são aborrecidas. Ponto! É estranho começar a ver o quarto a ficar vazio. Recordo a primeira vez que mudei de quarto no noviciado. Não achei piada nenhuma: “Ainda há 6 meses mudei-me de Lisboa para Portimão, depois para Coimbra e agora ando a mudar outra vez!” Pois, é a nossa vida de jesuítas, em sinal de disponibilidade, de ir aprendendo a partir para onde somos enviados em missão. Já não sinto a fúria que senti no noviciado, apenas aquele lado aborrecido de encaixotar. ;) Despersonaliza-se o quarto mais uma vez. Por seu lado, a vida vai ficando mais cheia de nomes, rostos, histórias, acontecimentos. Tal como em registos de livros… muitos livros. ;) 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Mestrado em Teologia: check!




Hoje, depois de hora e meia de exame final, por um lado, à volta de uma questão teológica sobre a Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo e não a cervejaria/zona de Lisboa, entenda-se ;) ), por outro, sobre o dossier final de ano que escrevi com uma dissertação teológica sobre o apanhado geral dos estudos feitos, dou por concluída esta fase de estudos. Mestrado em Teologia: check! :D Houve algumas perguntas de “chatear”. Ajudou estar calmo e tranquilo, afinal com esta idade já não estou para este tipo de chatices. O que sei, sei. O que não sei, pois não vou enrolar, não sei. Parece óbvio, mas não foi há tanto tempo quanto isso em que os exames eram momentos dramáticos desgastando-me a provar, estupidamente a mim mesmo em primeiro lugar, que era capaz, ou que sabia, ou que até era digno de ser jesuíta. Isto para mim é um grande ensinamento para as cenas dos próximos capítulos que se aproximam em que serei professor: ajudar os alunos a buscar a verdade e autenticidade de si próprios. Agora: semana de “até já”, “até logo” e, claro, encaixotar. Também faz parte!

domingo, 21 de junho de 2015

Em dia grande



Andrew Hara


Em dia grande escrevo
cada deixa de silêncio.

Após o ponto final
parágrafo
fitarei o horizonte.

Rodeado de rosas fogo 
caminho de pés em terra.



quarta-feira, 17 de junho de 2015

Gestos




AFP/Bülent Kiliç - Sírios a fugir do Estado Islâmico por uma abertura na fronteira com a Turquia


[Secção outros tons] Há gestos que só podem ser compreendidos por outros gestos. Não se trata de argumentos, nem de razão. Apenas deixar o corpo ser. Aí, o silêncio condensa-se de existência e percebe-se que a humanidade não pode ser maltratada por arame farpado, nem por muros que impeçam a liberdade.

After-Sun ;)




[Pausa para boa publicidade] Parece que é daqui a muito tempo, que ainda há todo um Verão para a acontecer, mas… para programar é bom saber. Ah, pois é. AFTER-SUN a chegar nos dias 4, 5 e 6 de Setembro. Um fim-de-semana onde se juntará muita gente dos 18 aos 35 anos em Cernache. Em breve aparecerá o programa detalhado… entretanto, aguça-se o apetite com o “Lado B da vida - livres para decidir”. Em caso de dúvidas, inquietações, palpitações, informações ou já o propósito firme de inscrição, favor escrever para: aftersun2015@gmail.com.  

domingo, 14 de junho de 2015

Primeiras Comunhões



Diana Ringel


[Secção coisas na vida de um padre] Pela primeira vez dei a primeira comunhão a um grupo de crianças. Sorriam com “cara laroca" de contentes por este dia. No corredor, antes da Missa começar, fizemos a “onda” umas duas vezes: “Olha à ondaaaaa… ooohhh uééééé!!!” Ao vê-los, sentia-os nervosos… e, claro, apesar do nervosismo normal das coisas importantes, há que mostrar que o respeito e seriedade não têm de ser vividos a partir da rigidez, mas da alegria e presença. Foi bom ouvir-lhes as gargalhadas. Na celebração, recordei a importância de nos alimentarmos de Jesus, para depois sermos nós alimento de paz, serviço e justiça uns para os outros. Comungar é fazer e promover a união, entre cada um de nós e Jesus e entre todos nós. Por vezes há dificuldades, por imensas questões de personalidades, histórias pessoais, etc., no entanto, o caminho é deixarmo-nos ir conhecendo e amando, por nós mesmos e por Ele. Se há esse alimento de fé, sabemos que essa semente vai crescendo noite e dia… e se é bem cuidada, dará muito fruto.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Coração



Mel Kevin Jumangit


[Secção outros tons] Embelezam o coração de cores várias. Desenham-no em piedade entre o sofrimento e a alegria. Apenas fala de misericórdia, com a suavidade dos que sabem tocar a liberdade de amar. No ritmo constante, variando-se em sístoles e diástoles, o sangue nutre o movimento de erguer o olhar e a palavra: a tua fé salvou-te. Dias depois, no silêncio, vendo a cabeça tombada, aperceberam-se que a vida entrega-se. “Fazei isto, por todos, em memória de mim!”, ecoa, recordando esse amor de entranhas.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Impedir um assalto




Nicole Cambré


[Coisas do quotidiano em Paris, que não gosto e não quero que se repitam] Infelizmente é do quotidiano. Ontem impedi que um assalto tivesse um final feliz para o assaltante. Após o toque de fecho de portas do metro, um miúdo dá um puxão e rouba um telemóvel de uma senhora. Rapidamente forço as portas, não deixando que se fechem e vou a correr em direcção ao miúdo que fugiu para o lado sem saída. Aproximei-me dele… sentia-se o nervosismo. [Entretanto o maquinista do metro sai também] A primeira coisa que lhe disse: “O que ganhas com isto? Alguma coisa!” Fugia-lhe o olhar e abanava a cabeça em não. Notava-se que ainda queria fugir, mas não conseguia. Voltei a perguntar o mesmo e pedi-lhe o telefone. Deu-o à senhora que aproximou-se. A senhora perguntou-lhe a idade. Não percebi se respondeu 16 ou 17, mas era por aí. O maquinista perguntou se queríamos chamar a polícia. Perguntei à senhora e ela disse que não. O miúdo sentou-se no banco. Antes do metro começar a andar, olhei-lhe nos olhos e de forma vincada disse-lhe: “Desta vez tiveste sorte, muita sorte. Pensa no que queres fazer na vida. Não te ponhas a roubar para provares nada a ninguém!” Entrei no metro e seguimos. Ele ficou sentado. Duas coisas: controlei-me para não lhe dar um par de estalos. Sinceramente, mais do que por ter roubado, por estar a fazer aquilo com aquela idade, claramente para provar algo a alguém. Depois, tirando uma ou outra pessoa que saiu do metro para assistir à situação, mais ninguém saiu para ajudar. Isso magoou-me. Reconheço a generalização, mas o que senti ontem foi a indiferença diante do mal a acontecer ao outro e, de algum modo, o medo do que “me possa acontecer”. Pois, e se fosse comigo? Já fui assaltado há uns anos, com faca de ponta e mola e a sensação é terrível. Mas, nesta linha social, fiquei a pensar no miúdo durante bastante tempo. Enfim, o que me vale é que acredito e sei de bons exemplos que mostram que, mais do que gente diluída em manadas insensíveis, somos capazes de ser humanos, no serviço ao outro, em particular na educação.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Pátria Lusitana




Passei pela UNESCO. Sabia que estaria a bandeira portuguesa hasteada ao lado da das Nações Unidas. Vi-as a flutuar e comovi-me. Esta coisa do símbolo tem que se lhe diga. Em mistura de saudade, angústia, orgulho, nem sei. Por mais que se fale de globalização, as raízes são sempre de terra nossa. Mesmo que esteja de certo modo em caos, onde por influência de (des)valores corre-se riscos de perder identidade de língua e de gesto. Como portugueses temos garra, sim, nessa vontade de ir longe… mas, depois, há momentos que nos mirra a crise de auto-estima e ficamos presos à superficialidade do medo, do cómodo ou da eterna queixa, fazendo pouco para mudar. Em tempos o mar foi a nossa ida, hoje parece-me ser o infinito do Céu, sem esquecer a força da pátria, nesse amor Luso que nos faz acolher. Já o escreveu Fernando Pessoa: “Deus ao mar o perigo e o abismo deu, / Mas nele é que espelhou o céu.” 

terça-feira, 9 de junho de 2015

Categorias? Rostos e nomes



Marco Vernaschi


[Secção outros tons] Espera-se sempre pela categoria. O gesto firme de classificar, arrumar na prateleira ou cacifo das coisas ou pessoas. Alivia-se, para assim se amar ou odiar, sem perder tempo em tentar perceber o coração que igualmente bate, ou pulmões que inspiram o mesmo cheiro de terra molhada, de maresia, de vento. As crenças podem ser diferentes em igual fome de fruta colhida no quintal. Em resumo, não há categoria nenhuma… apenas rostos e nomes.

Os últimos dias...




Estes últimos dias foram bastantes cheios: de celebrações, encontros, conversas e defesa. No sábado abençoei o casamento de dois amigos: a Julia e o Sérgio. Conheci a Lourdes, avó da Julia, com quem ficaria horas à conversa. É daquelas pessoas cheias de sabedoria, que articulam o sorriso das histórias com as lágrimas da emoção. Como lhe disse: “Querida Lourdes, a senhora é muito bonita!” Enrubesceu e agradeceu, com a simplicidade de quem conhece a beleza da vida. Quanto aos noivos, aquela felicidade estampada no rosto. A felicidade de quem leva amizade dentro, de saber o que se está a fazer. Disse-lhes o costume, o óbvio, o evidente, mas tão importante a recordar: não exijam do outro o que ele não pode dar; amem-se, sabendo que o amor muda, tal como vocês; sejam criativos e nos momentos de cansaço, recordem a história que despertou o amor; saibam que Deus está sempre pronto a vos apoiar. Aos familiares e amigos também recordei a importância da amizade, desse suporte que há que dar aos dois enquanto casal. Isto em vésperas da defesa da tese. Foi ontem: já está! Estou muito contente. Entre considerações, perguntas e respostas, ficou a forte recomendação de não deixar este projecto de relacionar a dança e a espiritualidade, até mesmo a teologia. Afinal, é óbvio ;) que a dança pode dizer e fazer despertar muito de Deus em cada um de nós. Parece-me que há muito estereótipo a combater… sobre a dança e sobre Deus. :) Agora, começar a preparar o exame final.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Acessórios para telefone




[Coisas do quotidiano em Paris] Estava com amigos. Uma amiga de uma amiga começa a falar ao telefone. De repente, toda a gente a olhar. De facto, há acessórios e... há "A"cessórios para o telefone. “Isto merece uma foto!”, pensei. “Queres experimentar?” Pronto”s”, saiu uma “sélfe”. Salientar que este telefone, para além de todo o sucesso em cada momento, já fez um televisivo. A A. é advogada e um dia, numa audiência importante com direito a televisão, foi apanhada num directo por ter este telefone cravejado de brilhantes rosa choque. Haja criatividade e animação. :) 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Nova Missão




Teresa Lamas Serra - Topo da Capela do Colégio das Caldinhas, com rastos de avião. 
De algum modo, passado, presente e futuro numa foto.


Estou muito contente! :D O Provincial confia-me uma nova missão: de Paris seguirei para o Colégio das Caldinhas, em Santo Tirso. Quando recebi a carta senti grande consolação, como se as entranhas sorrissem neste dar de mim a que sou chamado. Será um dar com escuta do que também irei receber. É um dar que tem o suporte de toda a formação, humana, espiritual, académica, profissional, que recebi até agora. São novos desafios que se avizinham, pessoas novas a conhecer e a acolher. Volto para um colégio. Tenho muito a aprender, reconhecendo a aprendizagem feita no Colégio Imaculada Conceição, em Cernache, que tanto me ajudou na descoberta do mundo da educação. É tempo de agradecer a Deus pelo futuro que aí vem. Estou muito contente! :D

terça-feira, 2 de junho de 2015

"Não acredito em Deus"




Alexey Trofimov


Tive uma conversa que me deixou a pensar. “Paulo, há muito que busco acreditar em Deus. Já passei por várias fases, entre a revolta, a queixa e a total indiferença. Cheguei ao ponto do mais óbvio: assumir que não tenho fé em Deus. Do que me apercebo, nunca tive.” Dizer que é alguém que busca a autenticidade de si mesmo e que de ignorância tem muito pouco. Normalmente, sai-me logo aquele desejo de provar, de mostrar os vários níveis de fé, etc. Mas, não… daquela vez sentia nas entranhas que deveria estar em silêncio. Não me apetecia nada estar com respostas argumentativas a provar a fé. De todo o corpo saía silêncio para escutar a verdade daquela pessoa. Nesse silêncio, o meu pensamento acelerava-se: se há o mistério da fé, também há o mistério do não acreditar. Eu vivo o contrário, acho que nunca “não acreditei” e digo-o com liberdade, por já ter passado por muitos momentos de dúvidas que terminaram sempre com a profunda sensação de presença de Deus na minha vida. Não sei se tenho muita ou pouca, não vai de quantidades, apenas sei que sou um homem de fé. É verdade que a pessoa ficou surpreendida com o meu silêncio. Parece que se espera que um “homem de Deus” esteja sempre a provar a existência divina. Naquele momento, percebi que o que podia dar era a minha escuta e amizade. Pediu-me para voltar a conversar.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Em dia da criança...




Amy Hildebrand

[Escrito há um ano, mas mantém a mesma vida] Crianças, que nós adultos sejamos capazes de vos libertar de toda a escravidão, dando-vos a possibilidade de crescerem aos vossos ritmos. Crianças, que nós adultos permitamos que os vossos trabalhos sejam sempre de descoberta e de gozo, nunca vos cortando o sonho e a imaginação. Crianças, que nós adultos sejamos sempre motivadores da vossa existência, da vossa educação e do vosso sorriso, sendo cada um de nós amparo nas vossas quedas. Crianças, façam-nos recordar a criatividade que permite encontrar uma nova personagem em cada objecto ou nuvem e que todos somos convidados a brincar “infinitos”.

domingo, 31 de maio de 2015

Coisas da vida de um padre




Aconteceu: o despertador não tocou. Ouço movimentos pela casa e ainda tive a lata (ai o sono!) de pensar “que barulheira… esta gente não pensa nas horas?” Pois, as horas já eram adequadas para o normal barulho da hora que gosto de chegar à Igreja para calmamente preparar a Missa. Salto da cama. Despachar o mais rápido possível e chegar provocando algum atraso na Missa. Senti-me mesmo aflito. Não acho piada nenhuma ter pessoas à minha espera e neste caso, pior: MISSA! ;) Lá cheguei e celebrámos. Fecha-se o mês dedicado a Nossa Senhora e por estes lados franceses hoje é o dia da mãe. No final, chamei todas as mães à frente e, em nome de toda a comunidade ofereci uma rosa a cada uma. Já se imagina a emoção! Depois estive a confessar as crianças que se preparam para a primeira comunhão… em cada uma tive de me controlar para não rir. “Preferes falar em português ou em francês?” “Português!”, respondiam muito determinadas. “Então, vamos começar: o que é que gostarias de agradecer a Jesus?” “Moi, hmm, j’aimerais dire merci à Jesus pour…” [os meus neurónios baralhavam um bocadinho]. No final, claro, continuando em francês: “Alors, peux-tu dire l’acte de contrition?” “Oui.” Ajeitavam-se com muita solenidade e: “Meu Deus, porque sois tão bom…” Era todo um salto entre o português e o francês. Uma animação, portanto! Depois, a bela festarola com os catequistas e o coro. É bonito e muito bom ver como as pessoas nas comunidades dão o seu melhor, partilhando talentos. :) Também ao longo do dia, tal como rezei na Missa, pedindo a oração de todos, fui pensando nos tripulantes de cabine, neste seu dia mundial. Em honra, tendo em conta o meu atraso, no início da Missa, na altura de pedir perdão, fiz o discurso aéreo de “pedidos de desculpa pelo atraso”, que despertou algumas gargalhadas. ;) Agora, continuar nos estudos que, apesar de já ter entregue a teses, ainda faltam umas coisitas para terminar tudinho!! :) É isso: Haja animação! 

sábado, 30 de maio de 2015

Pais católicos com filhos de orientação homossexual



Michael George


Há umas semanas estive à conversa com uns pais católicos com um filho homossexual. Comentaram-me que desde há 6 anos que iam a um encontro nacional de grupos de casais que viviam esta situação e sentiam necessidade de partilhar entre eles os desafios de aceitação, acolhimento, compreensão e conhecimento da complexa realidade que é a homossexualidade, em particular dos filhos e/ou netos, e a fé. Foi hoje o encontro. Estavam casais, pessoas de orientação homossexual, religiosos e leigos enviados pelos bispos das respectivas dioceses a trabalhar esta dimensão da pastoral da família. Éramos cerca de 50 pessoas. Foi um dia de escuta de muitas partilhas. Uma palavra que saiu bastante foi “audácia”, sobretudo por parte dos bispos em arriscarem a conhecer e trabalhar com estas famílias. Outra, “prejuízos”, tanto da parte de Igreja, como da parte de homossexuais. É sabido que há feridas muito grandes, mas a que mais custa, como comentou um casal: “foi a rejeição que vivemos por parte de membros da comunidade paroquial.” No entanto, como comentou outro casal, há boas surpresas: “Houve o dia das famílias. No átrio da catedral puseram o stand do nosso grupo ao lado do das Equipas de Nossa Senhora [pelo que percebi, sobre estes temas seguem uma linha mais restrita]. Havia alguma apreensão, mas apercebemo-nos que havia muitos casais nesta situação, presos pela vergonha, medo, enfim, o que já tínhamos passado. Foi oportunidade de boas conversas. Um dos casais já se juntou ao nosso grupo.” Este último casal comentou ainda que vai haver uma peregrinação que juntará casais e respectivos filhos e amigos homossexuais, onde o bispo faz questão de estar presente. Ainda tenho muito a digerir deste dia. Sei que o tema é muito complexo, havendo reacções muito variadas. No entanto, os tais prejuízos de parte a parte são muito nefastos e impedem a possibilidade de Deus agir. Por isso, mais do que o combate à base de ataques e defesas, a escuta e o diálogo são fundamentais para a boa reflexão e caminho a ser feito.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Liberdade de encontro com o Pai




Steve Webb


Não me parece, de todo, que Jesus tivesse alguma obsessão. Ideologia? Muitíssimo menos. Primava, sim, pela liberdade. Nisso era radical, ou seja, além de ser plenamente livre, ía às raízes do que impedia a liberdade de encontro com o Pai e mostrava como as eliminar. Das grandes preocupações que tinha, muitas, para não dizer todas, relacionavam-se com a falta de amor ao próximo. É certo que nalguns momentos abordou, por exemplo, questões de temática mais sexual. No entanto, rapidamente “chutava o tema para canto”, de modo a ir ao essencial: a importância de cada ser humano na sua liberdade de encontro com o Pai. Diante dos muitos pios, que exteriormente eram imaculados no cumprimento da lei, foi duríssimo, recordando-lhes que punham as cargas pesadas nos ombros de outros e nunca nas deles. A sua morte, também resultado da condenação dos “imaculados” e que aparentemente foi uma grande derrota, revelou-se o momento em que abraçou todos os rejeitados, aqueles que hoje são vítimas, por exemplo, de escravidão, corrupção e abuso de poder. Esse abraço culmina com a ressurreição, que abre caminho à presença do Espírito… que sopra onde quer sempre com muita frescura, convidando não à condenação, mas à liberdade de encontro com o Pai.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Entre cartas e anjos




Pablo Ponti

Entregam cartas
onde as palavras
são musicadas
de corpo,
verdade,
sentido.

O próximo é 
tema constante,
a descobrir.

E assim se 
conhecem
os anjos.


segunda-feira, 25 de maio de 2015

Testemunhos




Quando dou testemunho vocacional, revejo inevitavelmente a minha história. E se pode ajudar quem o ouve, também eu sou ajudado por mim mesmo, ao recordá-la com as suas alegrias e tristezas, vendo onde fui crescendo, amadurecendo e onde ainda estou estagnado. Por perceber a riqueza do (re)contar a história, do voltar atrás, aconselho os casais a fazerem o mesmo. Sim, surge a sensação de ridículo, do “não tenho pachorra ou idade para isso”, mas o segredo de recontar a história ajuda a tomar consciência do caminho feito até hoje. Recordar as alegrias, os momentos de crise, como foram ultrapassados (ou não), os momentos de desgaste, de abandono da relação, o que mantém a chama viva (mesmo que seja muito ténue), nesse desejo de não querer separar, pode ajudar a perceber e a tomar as decisões mais acertadas para o futuro de cada um e dos dois. Hoje li o que considero um testemunho vocacional da vida de casal, a partir da celebração dos 15 anos de casados. Conheço a Sónia e o Ricardo e na sua diferença têm feito caminho de complementarem-se “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”. E a surpresa que a Sónia lhe preparou fez com que um e outro, de modos diferentes, fizessem uma viagem ao que já viveram. Parabéns a eles… como casal, pelos filhos e pela criatividade de vida a um, a dois e a seis. É a família Cocó na Fralda!


José Fernandes

É mais que conhecido o carinho e a amizade que tenho com a Mafalda. Hoje tive um dia intenso de boas conversas e há pouco, ao chegar a casa é que tive oportunidade de ler este artigo/entrevista. Mais uma vez, está no ponto e é de partilhar, claro. Aqui está uma tirada que dá que pensar: “[As crianças] são educadas como se todos fôssemos muito perfeitinhos. E não somos. Os pais protegem muito as crianças de lidar com pessoas como eu e isso irrita--me profundamente. Ou na família há alguém próximo com um problema semelhante ao meu, ou então a deficiência não existe até chegarem a adultos. E depois são preconceituosos. Os pais lidam muito mal quando numa escola, de repente, é colocado um miúdo portador de deficiência. Não têm paciência para as perguntas que os filhos lhes fazem sobre o assunto.” 

domingo, 24 de maio de 2015

Pentecostes




Steve Bradburn

Tenho um carinho especial ao Pentecostes. Entre o gostar muito da leitura dos Actos dos Apóstolos, viver a presença do Espírito na sua ternura e força, no aconchego e no desinstalar, parece-me que este dia é muito marcante por convidar a abrir ainda mais horizontes. É difícil aguentar que o Espírito sopra onde quer, mostrando-me o valor do amor que impele a sair dos meus prejuízos e preconceitos sobre o ser humano (em geral e em alguém específico). Obviamente não é algo que acontece de um dia para outro, daí os ciclos de renovação e em mais um ano celebrar-se o Natal, a Páscoa, o Pentecostes. Acredito que nesses tempos algo novo acontece se tomo à séria a autenticidade da fé de Deus em cada pessoa, em mim. Apenas depende de nós aceitar as riquezas dos dons… e pô-los a render, nesse caminho de humanidade e divindade a que somos a chamados viver.

sábado, 23 de maio de 2015

Vocação [testemunho e acção]




Kelsey Gerhard


Esta manhã fui dar um testemunho vocacional aos alunos do 12.º ano do nosso colégio aqui em Paris. Falei sobre as alegrias e tristezas, os desafios, as dores e as riquezas e possibilidades da vida religiosa e, no meu caso, como padre. Avacalhei tanto… Às vezes penso que devia ganhar mais juízo, ou não. ;) No final, houve uns quantos que vieram falar comigo em particular, com mais uma ou outra questão. Já sabemos que este ano é muito importante pelas decisões de futuro. Houve um que me disse: “afinal, pelo que ouvi da tua história de vida, a decisão que eu possa tomar agora sobre o curso, universidade, etc., não tem de ser tipo ‘fim do mundo’. Sim, é importante, mas tenho muito de vida pela frente.” E outro: “bem, pelo que vi, a vocação religiosa não é nem triste, nem aborrecida.” Com um piscar de olho disse-lhe: “olha, pensa nisso para ti.” Ele: “Não me tinha ocorrido, mas vou guardar a questão.” Lá conversámos mais um bocado e foi uma animação. :) Que continua agora à tarde. Nestas vésperas de Pentecostes e em dia de beatificação do D. Oscar Romero, vou baptizar 4 crianças.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Nostalgia




Imogen Henderson


Estou a entrar naquela fase estranha em que a nostalgia começa a ganhar terreno. O tempo de Paris aproxima-se do fim. Há vontade de partir, sim. Cá em casa brincam muito comigo por tomar quase sempre o pequeno-almoço de pé. Digo-lhes que é de vocação, isto de estar disposto a partir, a ir. Por vezes há regresso, outras vezes não. Durante a viagem, passeio ou caminho vou encontrando tantas pessoas. Umas de passagem, outras que marcam: a relação ganha o forte contorno de amizade. Por isso, até mesmo nessa vocação de partir há aquele aconchego também na vontade de ficar, perpetuando momentos, conversas,  silêncios, abraços que foram partilhados. Ao longo destes anos tenho descoberto que haverá sempre um ponto de encontro: a oração… que convida a uma mensagem, mail, telefonema. Pois, estou a entrar naquela fase estranha em que a nostalgia começa a ganhar terreno. Também é bom, por ser sinal de vida e de afecto.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Falta de amor[-próprio]



Patrick Quinn


Tenho para mim que um dos grandes pecados é a falta de amor-próprio. As outras coisas que parecem pecado, serão apenas tristes consequências dessa falta de amor. Quando o “amar-se a si mesmo” não é cultivado, rapidamente o orgulho, a soberba, a necessidade de afirmação vão tomando espaço no ser e depois dá-se violência, muita violência, manchando nomes, instituições, comunidades. Quando há este amor, na aceitação de quem se é, até as comparações acabam por se diluir. Nestes dias, a pensar no envio do Espírito como advogado de defesa, dei-me conta que bastantes vezes acaba por defender-me de mim próprio, naqueles momentos em que deixo de acreditar em mim. Ah, e se surgir confusão entre amor-próprio e egoísmo, rapidamente se dissipa quando vejo que vivo mais a “amar o próximo” sem lhe exigir que seja como eu.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Tomorrow shall be my dancing day - entregue!




no metro, a caminho da faculdade


[Secção “tese”] Entregue! Agora espero pela defesa. O caminho deu-me que pensar, abrindo-me perspectivas… com algumas “dores de entranhas”. Sinto-me agradecido a muita gente, em especial ao Philip Endean, o orientador, que desde logo acreditou na minha intuição. Depois aos companheiros jesuítas e outros amigos com quem fui e vou tendo boas conversas sobre estes temas. O título é o primeiro verso de um cântico inglês de Natal… sendo Jesus a dizê-lo no dia anterior à sua encarnação. Depois, todo o cântico vai articulando a vida de Jesus até à Ascensão, onde na última quadra há o convite ao ser humano de participar na dança divina. Obrigado também a tantos vocês que foram dando apoio em mensagens. Estou contente. :) Vou dançar um bocadinho e rezar agradecido. :) 



domingo, 17 de maio de 2015

Ascensão



Yves Vernin


Viajo,
deixando o mundo
do não mundo
e amo.

As raízes permanecem,
fazem voar.

Que os olhares
não se percam 
em torcicolos

e ajudem-me
a atravessar a rua
de todos os dias
em busca de migalhas
de pão, de fé, de liberdade.