terça-feira, 3 de maio de 2016

Bolo(s)




[Coisas da vida de um padre numa escola maravilhosa] Os alunos do 11.º C fizeram-me um bolo… e eu [que pontaria!!] não estava na escola àquela hora. Mas isto tem história. No último dia de aulas do 1.º período, passei pelas salas todas a desejar um Santo Natal. Esta turma convidou-me a lá ir comer bolo. Quando cheguei… não estava ninguém. Sala completamente vazia. O drama! A tristeza! A dor! Obviamente, no primeiro dia de aulas do 2.º período passei pela sala e: “meus amigos, eis que cá cheguei no Natal para comer tão famoso bolo e já todos tinham ido embora. Quero bolo!” Como se vê, o tempo foi passando (com os devidos recordar de “Quero bolo!”) até meio do 3.º período. E o bolo chegou… com muito carinho… no dia em que não estou na escola àquela hora. ;) Mas, eles, muitos queridos, deixaram-me uma fatia no gabinete. Estava tão bom! Para compensar tão terrível falta minha, sou eu que tenho de pôr mãos à obra nos dotes culinários “boleiros”. ;) [Ah, sim, há uma personagem da turma que se lembrou de me chamar “Papá”… eu já lhe disse que me chame à vontade, desde que não me peça dinheiro!] ;)

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Defesa da Escola [ponto]




Quando estudei em Paris, dei apoio na formação no nosso colégio situado bem no centro da cidade. Sendo um colégio jesuíta, vive o projecto educativo a partir da pedagogia inaciana, com o evidente cariz católico. Tem alunos cristãos, judeus, muçulmanos e ateus. E é, tal como outros similares, financiado pelo Estado francês, tão conhecido pela sua laicidade. Sim, porque não se confunde laicidade (o Estado não tem nenhuma religião oficial) com anti-religioso (vamos eliminar a religião da face da terra). A famosa igualdade francesa faz com que todos tenham acesso ao estudo (como não podia deixar de ser), aliando-se à igualmente famosa liberdade francesa, que permite a possibilidade de escolha do projecto educativo de estudo.  Já agora, a famosa fraternidade recorda-nos a riqueza da diversidade que pode dar pontos de vista distintos, por exemplo, se todos os parceiros sociais são ouvidos na apresentação de uma lei ou de um despacho que pode visar a vida de milhares de pessoas, muitas delas trabalhadoras.

Em Portugal, o Estado, em seu tempo, necessitou das Escolas com quem estabeleceu contratos de associação, não só por questões geográficas, mas por perceber a mais-valia dos projectos educativos. Afinal, o que interessa na educação é o desenvolvimento humano do aluno, que implica intelecto e virtude. Para isso, ajuda a boa formação dos educadores docentes e não docentes, em colaboração com a família directa. 

Como em política há, infelizmente, muitos interesses pessoais (e ideológicos), os (des)acordos correm riscos em ser feitos a partir da realidade abstracta, mencionando, p. ex., questões económicas, sem conhecer as escolas no concreto, com o que nelas se faz em prol da sociedade. As escolas com contrato de associação prestam serviço público de qualidade e excelência para todos, independentemente da capacidade financeira do agregado familiar. Sobretudo para quem desconhece esta realidade, convido a ir até ao Colégio das Caldinhas (entre Sto. Tirso e Famalicão) ou ao CAIC (em Cernache) para conhecer no terreno o que se faz, como funciona a nossa pedagogia. Pode assim ver no concreto e falar com quem cá passa os dias, acompanhados pelo lema “educar para servir”. Há tanto que aqui se vive que, por respeito, não é de se partilhar por aqui, mas de se ver e ouvir em rostos que falam da escola como 2.ª casa e 2.ª família.


Se o Estado caminhasse para a liberdade que tanto deseja, permitiria que a escolha da educação fosse uma realidade cada vez mais forte. Afinal, a Pátria (ou porque não “Mátria", já que ontem foi dia da Mãe) deveria contribuir para que todos possam sonhar, crescer e desenvolver-se em verdadeira liberdade de pensamento e educação.

domingo, 1 de maio de 2016

Mãe(s)




Ao colo da minha Mãe Maria a fitar algo, de forma atenta. Ou não. Pode ter sido o instante do clique.


As nossas mães são sempre as melhores do mundo. Naquele segredo de saberem o nosso sentir, por terem elas mesmo sentido nas entranhas o desenvolvimento de cada gesto que desperta vida em nascimento. Depois vem o quotidiano, na experiência de terem sido filhas e de quererem sonhar futuro com muitas histórias. Entre tensões e cuidados, raspanetes e abraços e beijos, os cordões umbilicais demoram a cortar. Será que alguma vez se cortam? Vêem-nos voar, por vezes em caminhos desconhecidos, guardando no silêncio o que não compreendem. Na escuridão, nossa, voltam sempre a mostrar o regaço. Apesar da saudade, quando notam o sorriso, em caminho feito de expansão de Luz, descansam. E entregam(-se). As nossas mães são sempre as melhores do mundo.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Ser ponte




“Mais do que construir pontes, somos chamados a ser nós mesmos pontes.” Foi uma das muito boas ideias que ouvi hoje. Faz sentido quando se pensa na complexidade do processo de integração de pessoas que chegam até nós vindas de cenários de guerra. Afinal, a integração implica muita reciprocidade. No acolhimento, não só se dá, também há muito a receber... e há que estar disponível para isso mesmo. Num workshop sobre formação em justiça social falou-se da importância da libertação de estereótipos e etiquetas. O básico: as pessoas são pessoas para além das suas características. Terminámos o dia com uma ida ao centro de Bruxelas. Passámos, obrigatoriamente, pela Praça da Bolsa… onde se concentra a homenagem às vítimas dos recentes atentados nesta cidade. 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Formação




Cheguei há pouco a Bruxelas. Participo num Seminário sobre a integração de migrantes e refugiados nas escolas da Companhia, organizado em conjunto pelo JRS - Internacional e pelo Comité Europeu Jesuíta para o Ensino Primário e Secundário. Somos um grupo de 30 participantes de toda a Europa. E assim avançamos em formação sobre esta realidade dos refugiados cada vez mais presente… à qual somos chamados a acolher e a ajudar. 

terça-feira, 26 de abril de 2016

"Vou renovar todas as coisas"




Ana Beatriz Ribeiro


Fiquei com o “vou renovar todas as coisas”, lido na Missa deste domingo, a passear pelo pensamento. Como é que acontece esta renovação de tudo? A história mostra-nos como há momentos cíclicos e parece-me que esta fase que atravessamos lateja por renovação. De algum modo é incómodo, estranho, onde a incerteza diante de tanto aumenta a sensação de não se ter chão, tendo em conta a velocidade das mudanças. Atravessar a escuridão é necessário, pondo em causa caminhos antigos e encontrar novas perspectivas de encontro à humanização. É caminho de amor, que implica enfrentar a sombra da alma. Por outras palavras, enfrentar os medos, as culpas impostas, a vergonha instalada, que levaram a que se abafasse a natureza a que cada qual é chamado. Daí que a fé esteja ligada de forma bastante forte ao amor próprio, infelizmente em grande quebra. Dá que pensar as imensas formas de chamar a atenção, nesse desejo de se ser amado. Como não creio num deus paternalista, vejo este “renovar todas as coisas” como libertação de formas de viver a fé que infantilizam. O mais fácil é cumprir regras. O mais difícil e exigente é saber questionar-se, amando(-se) e não quer ficar por aí.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Liberdade




Xinhus/Reuters

Hoje representei a escola onde trabalho nas comemorações do 25 de Abril. Ouvi muitos discursos, de todas as cores políticas, onde se repetiu “liberdade” à exaustão. Perguntei-me: o que é a liberdade?

Será liberdade fazer-se o que se quer? Não me parece. Inevitavelmente haverá colisão de liberdades. Será o que acaba quando começa a de outra pessoa? Também considero uma resposta pouco completa, por ficarmos como que em “guetos” relacionais, onde se vive liberdade apenas em zonas de fronteira.

A meu ver, a liberdade acontece quando, em diálogo e reflexão, duas ou mais pessoas, mesmo tendo pensamentos diferentes sobre a realidade, fazem caminho lado a lado, promovendo, assim, o crescimento pessoal, seu e de todos os que as rodeiam.

Com a situação das escolas com contrato de associação vejo um Estado que caminha sozinho, segundo os seus interesses, tomando decisões que anulam a liberdade da pessoa, em vários níveis. Ironicamente, em nome da Liberdade e da Justiça. Não se porá em causa a liberdade em ter de se ir obrigatoriamente para uma escola concreta definida pelo Estado, perdendo-se a possibilidade de escolha, independentemente das condições financeiras e académicas das famílias, por outra que ofereça um projecto pedagógico que promova a liberdade de pensamento, de religião, de cultura e, inclusive, de ideologia?


Sim, que se recorde a força da liberdade, em tudo, a partir do diálogo, da reflexão, da colaboração e do reconhecimento do bem que se faz.

domingo, 24 de abril de 2016

A dúvida da criança




Aaron Huey

No final da Missa, uma criança aproxima-se:
- P. Paulo, porque é que fecha os olhos tantas vezes durante a Missa? Está a dormir? 
[Gargalhada minha]
- Sim, aproveito e faço pequenas sestas. Não sabias?
- Mas como é que consegue dormir e manter-se direitinho? É que às vezes está de pé.
[Outra gargalhada]
- Vá, eu conto a verdade. Fecha os olhos e sente a respiração. Só isso. Como te sentes?
- A acalmar.
- Agora imagina que alguém muito especial está a abraçar-te. [Surge um sorriso suave] Então?
- É bom.
- Por ser padre, nalguns momentos tenho de falar de forma especial em nome de Jesus, então, por ser grande a responsabilidade, eu fecho os olhos, e, ora estou à escuta, ora agradeço a presença dele na minha vida. Depois, imagino-o a dar-me um abraço e a dizer-me: ama. E é isso mesmo: é bom, por isso faço-o muitas vezes. Tu também podes fazer.
- Mas eu não vou falar em nome de Jesus.
- Pois, na Missa, como eu, não vais, tens razão. Mas, na vida, no dia-a-dia, quando acreditamos em Jesus, os nossos gestos de carinho e amizade falam muito dele. Por isso é que, sempre que quisermos, podemos fechar os olhos e imaginar o abraço de Jesus. E assim estamos também a rezar. 
- AHHH, [com grande sorriso], descobri!! O P. Paulo, passa a Missa a rezar! No próximo domingo também vou fechar os olhos.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Conferência em Leiria




Esta noite vou estar no Seminário de Leiria a partilhar alguns pensamentos e reflexões sobre isto de “O uso de uma fé credível (e o que tem a misericórdia a ver com isto)”. Como se vive a fé, ainda mais credível, que passa pelo amor próprio que se dirige ao amor ao próximo a partir da misericórdia? :) 


quinta-feira, 21 de abril de 2016

Educação: tema complexo




Teresa Lamas Serra


A educação é tema complexo... e, tal como o ser humano, nunca assenta em neutralidade. A nós, jesuítas, sempre nos apaixonou desde cedo. Inácio de Loiola apercebeu-se da riqueza que era formar pessoas, dando-lhes valor e dignidade pela aprendizagem em "letras e virtude". Começaram a surgir os colégios por toda a Europa e, pouco depois, por todo o mundo. Portugal também teve os seus tantos, até à expulsão promovida pelo Marquês de Pombal. Muitos, para além das capacidades financeiras, aprendiam e aprendem a partir da nossa pedagogia, que ainda hoje é referência no ensino. Afinal, conduz a que a pessoa desenvolva e explore os seus talentos, com liberdade de pensamento e religião... tendo isso muito que se lhe diga. Coisa que parece difícil de entender por parte de um governo que quer anular qualquer possibilidade de liberdade, também no ensino. A questão não é financeira, é ideológica. Sabe-se que tudo o que seja religioso é alvo a abater. Já o anunciaram, de forma velada, sem escuta de qualquer parte interessada a não ser eles próprios. O Colégio das Caldinhas, onde trabalho, e o CAIC, onde já trabalhei, além de prestarem serviço público, são colégios de gente rica, não pela questão financeira como muitos argumentam erradamente, mas de educadores (docentes, não-docentes, mães e pais) que acompanharam e querem continuar a acompanhar os milhares de alunos com mais ou menos dificuldades (sejam de que tipo for) a crescer em "letras e virtudes", junto com a liberdade... de vida, de pensamento, de espírito.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Basta acreditar




Olinda Morgado

A Suzanne ligou-me de 2.ª vez depois de um telefonema rápido. “Senti a tua voz estranha. Estás bem?” “Sim, de mim, estou! Mas tenho estado a ler sobre o Equador e sobre o Brasil, a visita do Papa a Lesbos, encontrando-se com os refugiados. Também a rezar um pouco sobre situações de vida que acompanho. Enfim, estava em pensamentos soltos sobre humanidade.” E foi, ontem deitei-me assim com aperto no coração. Dá tudo tanto que pensar. Ando bem, com imensa vontade de dar vida. Apenas há dias, com todos estes acontecimentos, em que sinto esta transformação de mundo de forma mais intensa. Acordei, aulas… fui ter com a minha direcção de turma, dar-lhes sorrisos e, qual mantra, “amigos, já sabem, brio profissional!” No regresso ao gabinete, há alguém que se aproxima e “stôr, obrigado por acreditar em nós”. Seguiu caminho. Eu entrei e agradeci… o quanto podemos humanizar. Tantas vezes basta acreditar. É o que lhes digo.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Que andamos aqui a fazer?




Fábio Teixeira

[Secção desabafos, com texto modificado de outro de há dois anos. Lembrei-me dele por, além de continuar a fazer sentido, estar a reviver o mesmo sentimento de confusão diante dos acontecimentos do mundo.] 


[Suspiro] Daqueles profundos, depois de pensar: “Que andamos aqui a fazer?”. Que ando aqui a fazer? Não, não se limita à pergunta existencial, filosoficamente talhada para um ensaio ou registo de argumentos políticos. “Que andamos aqui a fazer?” é das perguntas que exigem reflexão por carregar nuances de muitos acontecimentos que cada pessoa vive. E que o mundo vive. É difícil, muito difícil, pensar e viver o justo nos tempos que correm. Na era da informação, onde tudo se sabe, instala-se o “está mal, porque não me dá jeito”, entrando ou pela opinião "porque-sim" ou pela crítica fácil… onde a Memória vai-se desvanecendo para o canto sombrio da existência. Dói estudar História, Sociologia, Antropologia, Filosofia, Literatura e, sim, Teologia, adquirindo a gramática ou o esqueleto da reflexão. O Comunismo fez mal, o Socialismo fez mal, a Monarquia fez mal, o Fascismo fez mal, a República fez mal… o poder da falta de Liberdade faz sempre mal. A Liberdade constrói-se entre perder e ganhar, saindo de si. E é difícil perder. Mais que ganhar. Consegue-se democracia onde os que perdem ganham força para denunciar as injustiças dos que ganharam. Se a força tem como base o rancor, o ódio, a ânsia de proveito próprio, apesar da letra mudar dá-se o virar de disco a tocar a mesma música. Se a força tem como base o querer dar Vida ao outro, a partir da colaboração, já não interessa a competição, mas a vontade de que todos, mais que vencedores, sejam. Talvez aí deixe de ser necessário emigrar, fugir, refugiar-se. “Que andamos aqui a fazer?” Da minha parte, a deixar-me “ser do tamanho do meu sonho”. E saindo de ilusões, a ajudar como posso aqueles que me são confiados a ser gente livre, para além da raça, da cor, do sexo, do credo, do dinheiro, da nação.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Pancas




Terra Fondriest


Hoje passei por algumas salas. Pedi licença para entrar, disse-lhes, a alunos e professores, “vocês são espectaculares e esta escola não seria o mesmo sem vocês. Obrigado!” e saía. Ainda deu para ver o ar de surpresa, de “este passou-se” e de “ohhhh”. Sim, tenho estas pancas para mostrar que na escola também se vive e aprende a reconhecer o valor e a humanidade de quem a compõe.


domingo, 10 de abril de 2016

Fé e conversão [ad intra]




Reuters


[Secção desabafos] Cada vez mais vou confirmando que o Jubileu da Misericórdia deve ter como foco principal a própria Igreja no seu interior. De que serve um afirmar de fé, quando a acção de vida passa por julgamento, inveja, condenação e maledicência? O caminho do cristianismo é difícil, não por se buscar puros e capazes de cumprir direitinho para ficar sem manchas de currículos, mas por tentar compreender as entranhas do amor que olha para cada pessoa com imenso cuidado e atenção. Para isso, a tal conversão necessária que cada um de nós é chamado a viver, implica tomar consciência da realidade pessoal e social na sua complexidade, com luzes e sombras, tal como Cristo o fez. De nada serve pregar a fé em Deus, quando no quotidiano a minha acção é contrária ao que prego. Talvez a experiência de ter negado Cristo, de ter sido, de algum modo, o filho pródigo, levou Pedro a perceber a força do “tu amas-me?” por três vezes. Os que estamos dentro da Igreja, se seguimos em certezas de que “somos os melhores” sem consciência das mudanças, corremos sérios riscos de ficar como o filho mais velho da parábola, com o rancor em crescendo que impede de ver a possibilidade de encontros para além da doutrina, nossa ou de outros. Pois, a conversão não é algo que acontece apenas uma vez… vai sendo de vida, até nos tornarmos mais humanos e assim vivermos a força do divino.

terça-feira, 5 de abril de 2016

DT



[Coisas inesperadas do quotidiano numa escola] Fui buscar um pedaço de travessa de barro que guardo desde há 5 anos e meio. Parti-a na minha última aula como director de turma do 9.º C. Nela estava escrita uma oração de Fernando Pessoa, que nos acompanhou ao longo do ano lectivo. Depois de partida, dei um pedaço a cada um e fiquei com este da foto, que fui buscar… e assim avivar a memória do que significa ser DT. Os “meus” meninos e meninas dessa turma já são jovens adultos. Como lhes disse a seu tempo, ensinaram-me muito sobre paternidade espiritual com muito “amôôôôôôr”. ;) Pois, o pedaço de barro aviva a memória, em especial por ter assumido desde ontem a direcção de uma turma. Desta vez um 9.º F. Serão apenas dois meses, mas, além das burocracias (ai a educação que é cada vez mais administrativa, levando o DT a ser quase mais secretário que professor), o mais importante é ajudá-los a crescer. Também aqui se faz e vive pastoral… no tal cuidar, tão necessário, do outro. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O muito do dia... e do mundo




Melissa Farlow

Hoje muita coisa aconteceu ao longo do dia, neste arranque de período, com novidades e decisões a tomar aqui no Colégio e fora dele. Mais ao final da manhã, quando parei um pouco ao computador, li as notícias sobre as primeiras deportações de refugiados da Grécia para a Turquia e sobre a investigação “panamiana”. Numa primeira reacção, senti revolta a crescer nas entranhas. Valeu-me um álbum que ouvia e descobri por acaso no youtube. O som, nesse momento, fez-me brotar a Esperança, em contraste com a revolta e alguma emoção. Olhei a pequena vela que tenho no gabinete, respirei… fechei os olhos e imaginei a força da honestidade e da coragem em ser-se humano tanto no canto quotidiano, como lá longe, onde tanto se passa. Agradeci a Deus por quem busca a verdade, o sentido de justiça e o respeito pelo outro. O telefone tocou e lá fui encontrar-me com o casal luso-suíço que vou abençoar o casamento. É sempre bom ver brilho de olhar quando lhes digo: “é o vosso dia. Não é dos convidados, dos pais, da família, do padre, é vosso. Por isso, façam tudo para que seja realmente o vosso dia!”



domingo, 3 de abril de 2016

Triste comparação




Ernie Vater


“Não esqueças de que há gente que sofre mais do que tu!” Disseram-me esta terrível frase em tempos que não me estavam a ser propriamente fáceis. Daquelas noites de grande escuridão de alma, em que o sentido das coisas se perde de forma brusca e dolorosa. Não estava em depressão, mas o sentir tocava à porta dessa mancha informe que a tantos rodeia e poucos compreendem. Partilhava o que vivia e lá me disseram “não esqueças de que há gente que sofre mais do que tu!” Não duvido que tenha sido dito com intenção de ajudar a relativizar, mas… mas foi terrível, por ter-me aumentado o sofrimento: além do que estava a passar, acrescia o “sofrer por estar a sofrer”. Se não se sabe o que dizer a alguém que está a passar por maus momentos, uma das grandes obras de misericórdia é o estar em silêncio de escuta atenta e não dizer de todo que há quem sofra mais. Sim, até pode haver, no entanto, o sofrimento, tal como a vida, não deve ser levianamente comparado. Na escuta, como acto de misericórdia, vive-se o respeito pelo sofrimento do outro, para além de todos os demais sofrimentos que possam acontecer no mundo, sendo também caminho para iluminar e aquecer os recantos de um coração sofrido.

sábado, 2 de abril de 2016

Tempo




Filipe Faleiro


[Secção outros tons] Precisava de tempo. Para quê? Saber que amor brotava em mim, quando te vi partir. Dei o tudo por tudo garantido, nessas certezas que esquecem as mudanças. Espero-te. Espero-me. Há travessias a fazer. Por mim. Por ti. Por amor.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Mentira | Verdade | Autenticidade




Aula com Diana Ringel, em que trabalhámos a verdade e a mentira em corpo.

Parece-me que um dos grandes desafios que temos é o de vivermos cada vez mais na busca da verdade de nós próprios. Por outras palavras, de não nos enganarmos a nós mesmos… que pode ser frequente e subtil, com os sentimentos ou pensamentos. Quando Cristo nos convida a viver a “verdade que nos salva”, não tem que ver com algo puramente intelectual, mas com caminho de autenticidade nas várias dimensões do ser. A verdade de nós pode levar-nos a momentos de dor, de vergonha, de nojo de si. No entanto, quando há coragem para atravessar a sombra, permitimos que a luz tenha a última palavra. A dança, com a oração, ajuda-me muito a encontrar o movimento autêntico, revelador da força que levo dentro.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Entrevista a Edgar Morin




Hamilton/Rea

Aproveitando estes dias de descanso, entre “olás”, mar e sol, ponho alguma leitura em dia. Tinha guardado esta grande entrevista a Edgar Morin, antropólogo, sociólogo e filósofo francês de 94 anos para ler com calma. Impressiona a lucidez com que analisa os terríveis acontecimentos da actualidade, dando ferramentas para pensar e repensar a realidade. Deixo três citações, das muitas boas possíveis: 

“O único antídoto real à tentação bárbara, seja individual ou colectiva, tem por nome humanismo. Este princípio fundamental deve estar enraizado, cravado, no fundo do ser, pois graças a ele reconhece-se a qualidade humana no outro, seja quem for, reconhece-se todo o outro como ser humano. Sem esse reconhecimento do outro, tão querido a Hegel, sem esse sentido do outro que Montaigne bem exprimiu afirmando ‘ver em todo o ser humano um compatriota’, somos todos potenciais bárbaros.” […] “A popularidade de Donald Trump demonstra que os Estados Unidos e o conjunto do mundo atravessam uma era de incríveis incertezas diante das quais os cidadãos estão desnorteados e desarmados.” […] “Somente uma tomada de consciência sobre o que somos e o que queremos ser pode permitir a mudança. Os textos do Papa Francisco são tanto inesperados como de uma luminosa ilustração. E, além do mais, (…) é por nos faltar a espiritualidade, a interioridade, a meditação, a reflexão e o pensamento, que deixamos de revolucionar as nossas consciências.” 


terça-feira, 29 de março de 2016

[Momento de Orgulho]





Imagens retiradas do blogue De Rerum Natura

[Pausa para momento de orgulho, junto com vontade de que continuemos em bom caminho neste diálogo com a cultura e a promover educação livre, com solidez humana e intelectual. Um agradecimento especial aos promotores deste projecto de selos de CTT com jesuítas.] 

Transcrevo o texto publicado no blogue De Rerum Natura

Jesuítas, construtores de globalização

No dia 18 de Março, os CTT - Correios de Portugal lançaram uma emissão filatélica dedicada aos «Jesuítas, construtores da globalização». É uma emissão de quatro selos e um bloco filatélico, com trabalho gráfico de Design&etc. Em breve sairá um livro dos CTT com o mesmo título da autoria de José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais. Transcrevo o texto da pagela que acompanha a edição filatélica.

A entrada da Companhia de Jesus em Portugal, em 1540, constituiu um dos eventos mais assinaláveis da nossa cultura. Em paralelo com o esforço missionário intercontinental, a Ordem fundada por Inácio de Loyola ergueu entre nós, em poucas décadas, uma rede de instituições de ensino secundário, chamadas colégios, e universidades (criou a segunda universidade portuguesa, em Évora, em 1659). Com base numa metodologia de ensino nova, os Jesuítas criaram a primeira rede de ensino da nossa história que se ligava com instituições de ensino regidas pelo mesmo método em diversas partes do mundo. Os colégios portugueses dos Jesuítas, que chegaram a ser trinta antes da expulsão da Companhia pelo Marquês de Pombal, estavam distribuídos pelas mais importantes cidades do país, passando pelas ilhas e pelo mundo ultramarino português. Com o regresso dos Jesuítas, após as expulsão e outras que se seguiram, a aposta da Companhia na educação, na cultura e na ciência continuou a deixar marcas na história portuguesa. Refira-se o Colégio de São Fiel, fundado no século XIX, onde se formou o primeiro Nobel português, Egas Moniz, e se fundou a revista Brotéria, que continua a ser publicada.

A Ordem de Santo Inácio exerceu uma forte influência na cultura e da sociedade portuguesas, formando figuras que deixaram obra relevante em várias áreas e que contribuíram para a modelação da identidade portuguesa. Destacamos cinco dessas figuras.

Merece relevo maior São Francisco Xavier, de origem navarra, que se tornou, no Padroado Português, no primeiro grande missionário do Oriente,  muito venerado em Portugal e no Oriente. Xavier foi um líder que moveu atrás de si multidões. O grande “missionário da Índia”, nome por que ficou conhecido, foi fundamental no desbravamento de caminhos para implantar a cristianização na Ásia, sendo de realçar o seu pioneirismo na evangelização do Japão. Membro fundador da Ordem, foi o grande construtor de uma instituição que se afirmou desde o início como global.

São João de Brito foi, ainda no século XVII, um missionário mártir no subcontinente indiano, após ter desenvolvido uma evangelização aculturacionista, isto é, uma missionação que procurava um intercâmbio entre a mensagem cristã e a cultura local. Existe hoje um Lisboa um colégio de referência com o seu nome.

No Novo Mundo, afirmou-se no século XVII o Padre António Vieira, que, vivendo entre a selva e a corte, ergueu uma ponte entre as civilizações europeia e ameríndia. Tornou-se o grande missionário da América, um pregador exímio que fez transbordar auditórios e que deixou uma vasta obra de grande valor literário e contendo pensamento avançado para a época, que acaba de ser publicada no Círculo de Leitores em 30 volumes. Além de ter elevado a língua portuguesa a uma perfeição nunca antes alcançada em prosa (Fernando Pessoa não teve dúvidas em elevá-lo ao estatuto de “Imperador da Língua Portuguesa”), as suas profecias, os seus projectos de reforma política, social e eclesial, os seus protestos contra os excessos da Inquisição e dos esclavagistas continuam hoje a ser uma lição.

Nos tempos mais recentes cumpre destacar a figura do Padre Manuel Antunes, director da Brotéria e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, por cujas extraordinárias aulas passaram milhares de alunos. Considerado um dos maiores pensadores do século XX português, deixou uma obra imensa e variada que foi há poucos anos reunida e publicada em 14 volumes pela Fundação Gulbenkian. Dialogou nos seus ensaios com os grandes pensadores contemporâneos, actualizando a linguagem da cultura de uma forma tão diáfana como profunda. No pós 25 de Abril, o seu livro Repensar Portugal tornou-o um pedagogo da nossa democracia.

Por último, recentemente falecido, Luís Archer, também director da Brotéria e  professor da Universidade Nova de Lisboa, é um nome maior da ciência nacional. Foi um dos pioneiros do ensino e da investigação em Genética Molecular e em Engenharia Genética.  Organizou e dirigiu o primeiro laboratório da Gulbenkian nesta área, tendo formado gerações de cientistas. Durante muitos anos presidiu ao Conselho Nacional de Ética, tendo escrito obras de referência em bioética. A sua obra completa está a ser publicada  pela Fundação Gulbenkian. 



José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais

Convite




Vittorio Poli


Recebo formalmente o convite para orientar algo num workshop em Cuidados Paliativos Neonatais, organizado pela Sociedade Portuguesa de Neonatologia. Dei o meu sim. É grande desafio ajudar no acompanhamento em fases tão delicadas, fortes, densas e, sim, sagradas da Vida.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Violência | Conversão




Candy Caldwell


[Secção desabafos] A violência continua. Mais próximo ou mais longe, continua. E dói, também quando há categoria de mortos. Quando alguém morre, sobretudo de forma brutal e violenta, é parte da humanidade que morre com essa pessoa. No fundo, parafraseando o poeta John Donne, também os sinos tocam de modo fúnebre por cada um de nós. Este nivelamento dos mortos é ajudado pela quantidade e qualidade de informação que recebemos e que, infelizmente, acaba por não ser filtrada pela reflexão ou, com mais sentido ainda, pela exigente e necessária conversão pessoal. Rapidamente se pode chamar de hipocrisia a uma série de coisas, diante da reacção ou não reacção aos acontecimentos do mundo. Tive a mesma tentação e parece-me que o caminho não é por aí. Inevitavelmente acaba por haver pequenos e depois grandes ataques, em gestos e em muitas palavras, gerando e alimentando ainda mais violência no nosso ser. Revolta e muito, tanto a violência, como aconteceu em Bruxelas, em Lahore, e acontece em tantas casas, ruas, mais próximas de nós, como a indiferença ou incoerência nos meios de acção ou manifestação. Em oração pergunto-me como posso mudar isto e ser fonte de luz e esperança no mundo. Há mecanismos e estruturas maiores que eu, é óbvio. A complexidade da sociedade não me permite ingenuidade na busca de resposta a essa pergunta em oração. No entanto, não posso deixar que algo ou alguém me diminua na potencialidade. Como é que eu me mudo, para não ficar insensível, para não deixar que o medo e a violência, em especial em ódio e vontade de vingança, ganhem espaço no meu ser? Eu sou responsável pelo mal e pelo bem. Não são apenas os outros, “eles” num abstracto ou concreto, eu também sou responsável pelo mundo. Não tem que ver com culpabilização, mas responsabilidade pela minha formação, nesse contributo de Paz que posso viver e promover. Tenho-me mudado, madurado, vivido, no grande caminho de conhecimento de feridas e dores pessoais, nessa verdade que muitas vezes dói, junto com os dons que recebo e desenvolvo. Sempre que posso, celebro a Missa da Reconciliação e, diante de Deus, peço a graça da Paz. Assusta-me e preocupa-me ver a imensa falta de amor-próprio que desponta de forma forte. Quem promove a violência não se ama e nessa falta de amor rejeita-se de tal maneira que projecta no outro as suas frustrações, dores e angústias. Nenhum tipo de violência pode ser justificado em nome de Deus. O que pode e deve ser justificado em nome de Deus é o caminho de conversão pessoal, que leve a perceber a riqueza da vida de cada um. Mas esse depende da liberdade em se querer amar como se é… e isso, como se tem visto, é mais difícil do que parece. Nós não somos chamados a ser bonzinhos, mas alguém que, por ter coração de carne, podendo sentir ódio, raiva, vontade de vingança, escolhe a dura e exigente possibilidade de libertar esses sentimentos na descoberta da Vida que anula a morte.

domingo, 27 de março de 2016

Domingo de Páscoa




Christopher Martin


[Secção outros tons - especial Domingo de Páscoa] As Mulheres vivem a intuição do nascer. Conhecem as entranhas que concebem. Aproximam-se para ungir o corpo. Vivo. Apóstolas anunciam aos Apóstolos, que correm e vêm a certeza da fé para além da razão. Deus vive a promessa. O fim deixa de ser a morte. O fim dá-se no encontro com Cristo que a todos abraça. 


Santa Páscoa a todas e todos que por aqui nos vamos encontrando. Um forte abraço e a minha oração por vocês, pela Vida e, em especial, pela Paz e Reconciliação no mundo.


sábado, 26 de março de 2016

Noite do Fogo Novo




[Secção outros tons - especial Noite do Fogo Novo] No silêncio ouve-se o crepitar da chama que aquece a espera. Outrora, foi a coluna de fogo a abrir o caminho da liberdade. Depois dos passos, da angústia, nesta noite do Fogo Novo revela-se suavemente o mistério: deu-se a passagem da salvação.

Sábado Santo




Malgorzata Walkowska


[Secção outros tons - especial Sábado Santo] Entre a raiva e a desilusão afasto-me de tudo o que acreditei. Morreste, tu que prometias a vida. Tu, com olhar brilhante enquanto falavas do novo reino já presente. É isto? O vazio? Enganaste-me. Enganaste-nos um por um. O retumbar dessa pedra que selou o teu corpo morto ainda me ecoa nas entranhas. Nem lágrimas tenho, se é que mereces ser chorado. Fizeste-me conhecer o amor, nesse teu cuidar de almas rejeitadas e postas de lado. Fizeste-me crer no profundo respeito por cada pessoa, onde o perdão brotava de cada sorriso teu. E agora, imagino-te aí enrolado em faixas perfumadas para dignificar minimamente a morte indigna clamada pelo Povo que Deus libertou. Quem és tu? Quem eras tu, afinal? A memória da frescura dos pés por ti lavados fazem-me caminhar.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Do anúncio do sim de Maria, ao anúncio do não dos discípulos.




Dylan Shaw

Inicialmente publicado no iMissio ... escrito a pensar e a rezar: “Que dia denso, este 25 de Março de 2016!”.

Está muito a acontecer no mundo. Mudanças são pedidas, quase exigidas, diante de tudo o que se sente. E hoje, a vida e a morte estão de mãos dadas como há muito não passava. Celebramos a Sexta-feira Santa, em 25 de Março, dia solene da Anunciação do Senhor. Em mim provoca-me muita agitação. Não a considero apenas uma estranha coincidência, parece-me forte sinal do tempo a pedir transformação. Tanto há que morrer, como o orgulho, o poder desmedido, a falta de amor próprio e de consciência do outro para além do gosto pessoal, o desrespeito pela diferença, na cultura, na raça, no sexo, para dar espaço à escuta e acção do profundo sentido da Paz. 

Gabriel anuncia a Maria a vida do príncipe da Paz. O corpo que se começa a formar no seu seio é de mudança. As palavras e gestos são para dignificar o oprimido, abrindo portas ao rejeitado e excluído. O mundo novo acontece, nesse despertar de amor que ganha corpo, com a ternura com que fala com as crianças e a força com que expulsa quem faz da casa do Pai um covil de ladrões. O templo já não é aqui ou ali, mas em cada coração que está disposto a deixar que todas as pedras se transformem em carne. É aí que paro na oração. Senhor, faz-me ver onde tenho as pedras que te quero atirar, estando tu em mim ou nalgum dos meus irmãos e irmãs, em especial, naqueles com quem tenho mais dificuldade em me relacionar ou perdoar até. Que a tua carne seja a minha carne, que se entrega em vida.

É nessa entrega que surge a Sexta-feira Santa. Este dia que rasga o véu, que faz tremer todos os alicerces da fé e do entendimento de Deus. Do anúncio do sim de Maria, ao anúncio do não dos discípulos. Também em mim dançam o sim e o não. É tempo de transformação. Hoje, a morte e a vida de Deus estão de mãos dadas. É tempo de silêncio para, mais que compreender, viver o muito a que somos chamados no caminho da Paz. 


Sexta-feira Santa




Aditya Varma


[Secção outros tons - especial Sexta-feira Santa] Enevoa-se o olhar. Levanta-se a poeira no arrastar dos passos do cansaço, enquanto gotas de sangue regam lágrimas de incompreensão. Apodera-se o silêncio dos malditos. Nos ombros, o peso das culpas das multidões. Eleva-se a história. Trespassa-se o cordeiro. Rasga-se o véu. Eis o Homem. Eis Deus. Morto dando Vida.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Noite da angústia




Esta é a noite da angústia. O coração contrai-se diante das muitas perguntas que se prolongam nas horas que se seguem. Quem é Jesus? Quem é Deus? Estou com um grupo de alunos a viver estes dias. Enquanto estava com eles a celebrar a Ceia e, depois, em adoração na capela escura, o pensamento voou em perguntas. Minhas e de muita gente que vou escutando e lendo. O que é isto de Deus fazer-se alimento? Mas, depois, o que é isto da divindade desaparecer, assumindo todo o sofrimento humano? Sim, a fé pode ser perdida nesse vazio em noite. Os discípulos passaram por isso. Dispersaram-se. Silenciaram-se de medo. É uma estranha noite que prolonga e condensa em três dias todas as questões de fé. Penso no respeito que tenho de ter diante do sofrimento de tanta gente nas suas mais variadas formas, em especial nas suas dúvidas ou faltas de fé. Não tenho o direito nem de julgar, nem de dar respostas rápidas, como soluções de modo a não enfrentar a angústia do sem sentido que pode alastrar. Daí que, esta é a noite da angústia. “Afasta de mim este cálice!”, ressoa desde as entranhas de quem assume a injustiça, a fraqueza, a vulnerabilidade, a miséria humana. “Faça-se a Tua vontade e não a minha!” Há consciência de que o mal já não se enfrenta do mesmo modo. O volte-face acontece no amor… aos que o condenam. E é tão difícil aguentar este amor. É terrivelmente estranho. Apetece gritar para que Deus não seja Deus desta forma. Seria mais fácil o cálice ficar por beber. Mas foi bebido, obrigando ainda a mais perguntas. É a noite da angústia, que desvela Deus que chora cada dor de cada homem e mulher que amam e sofrem na pele a injustiça do mal. É a noite da angústia reveladora do estranho amor de Deus. 

Quinta-feira Santa




Final da coreografia Still Life de Dimitris Papaioannou

[Secção outros tons - especial Quinta-feira Santa] Dissipa-se o horizonte em toalha de linho. As ervas, os frutos secos, o ázimo e o vinho compõem vasos de barro. De liberdade unge-se a história. Novo olhar, como exemplo, enquanto se sente a frescura da água nos pés. Cumpre-se a profecia. Revela-se a hora. O cordeiro está pronto.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Quarta-feira da Semana Santa




 Maciej Dakowicz

[Secção outros tons – especial Semana Santa] Escuta. Escuto. O ruído calado diante da verdade sempre anunciada pelo paráclito. Escuta a proximidade do tempo, em tilintar de moedas que reluzem nojo, pagando a continuidade da miséria humana. “Tu o disseste”, ou já esqueceste o peso da denúncia? Sabes bem que o pão está preparado.


terça-feira, 22 de março de 2016

Silêncio... em Semana Santa [iMissio]


Joe Leung

Inicialmente publicado no iMissio ... e que, apesar de ter sido escrito ontem, tem maior impacto com os acontecimentos de hoje.

Esta Semana faz-me sempre viver especial silêncio. Não é o silêncio de estar calado. Ainda há reuniões, conversas, preparações de Tríduo Pascal. Não é o silêncio de nada ouvir. As palavras e os gestos falam em cada dia desta Semana. É aquele silêncio habitado pela densidade dos acontecimentos que levam à passagem da morte à vida. Não é “apenas” Cristo que se entrega, é o actualizar da Paixão por esse mundo fora, em injustiças, em histórias mal contadas, em perseguições, em violência gratuita, em humilhações de tantos homens, mulheres e crianças. O silêncio desta semana faz reviver gritos de quem não tem voz, de pessoas abandonadas na sua existência porque são diferentes do que se estabelece como normal. O que é o normal? Ou melhor, o que é a verdade? Pergunta que ecoa… tendo silêncio como resposta.

Perde-se tempo. Perde-se o tempo. Com acessórios ruidosos, tentando justificar a força do desamor. Há que ler e reler o Evangelho, como ampliação das 24 horas mais explicadas da vida de Jesus. Percebo o desconforto. Afinal, também O condeno por ser tão autêntico, por não desejar combater o mal com igual mal. Percebe-se que escândalo da cruz não é a cruz, mas o rasgar de tudo o que impeça ver Deus face-a-face. Esse olhar, que comoveu Pedro negador, ilumina cada recanto do ser e amplia o horizonte de mim mesmo, criatura sempre amada. Só diante dessa luz abraço a possibilidade de renovar-me e ser participante desse caminho de Paz. É preciso silêncio para escutar a entrega do Espírito. Ninguém fica de fora. E o mundo continua nas dores de parto. Em caminho para a grande passagem.