quinta-feira, 26 de março de 2015

Pedir ajuda




Vito Dozio


“E?” deveria ser uma das respostas quando alguém partilhasse que está ter acompanhamento psico-terapêutico. Entenda-se este “e?” como retrato da normalidade da situação, que, infelizmente, não é muito considerada como tal. A doença, a vulnerabilidade, a fragilidade ao nível mental, psíquico, afectivo, são ainda vistas como sinal de fraqueza e desprezo no mundo que avança apenas para os fortes, os super-heróis da excelência, do topo, do máximo. Não quero entrar em dramatismos, nem dizer que toda a gente deveria passar por um psicólogo. Apenas apercebo-me que há cansaços humanos a surgir de forma tão suave que não se dá pela presença e depois nota-se cada vez mais gente sem sentido para a sua vida, rodeada de frustração, porque não é aquilo que não tem de ser, mas que a explosão da imagem da “perfeição” impõe que seja. Isto acontece em âmbitos profissionais, sociais e religiosos. Se há respeito pela vulnerabilidade do outro é sinal que se tem consciência que esta faz parte da condição humana, sabendo que poderá pedir ajuda no momento certo, sem medo de se ser julgado ou olhado como “coitadinho”. Talvez possa ser o início de um caminho que, evitando mortes lentas ou inesperadas, abrirá portas de Vida.

quarta-feira, 25 de março de 2015

De um segundo para o outro



Sherry Zhao


[Secção “em modo pensativo diante dos acontecimentos do mundo”] É sabido que tudo pode mudar de um segundo para o outro, por vontade própria ou por imposição. Seja pela positiva ou, infelizmente, por algo triste, obrigando, em ambos os casos, a repensar a vida, as perspectivas, as decisões. Há um sentido de humanidade diante destes momentos que transcende, provoca perguntas mais existenciais, vontade de tanto ou de nada, em força ou impotência. Aí não valem grandes reflexões ou considerações, apenas o viver de um abraço… e perceber que nunca se deve desperdiçar a oportunidade em dizer a quem se ama, de amor, de amizade, de familiaridade, de carinho: gosto muito de ti. Tenho para mim que é o que Deus faz connosco em cada instante.

terça-feira, 17 de março de 2015

Entre "terra" e mal que se infiltra




Carlos García Pozo/AP - Javier Espinosa com o filho, à chegada a Madrid


Estou a escrever sobre a importância do corpo na relação com Deus. Foco em particular S. Ireneu de Lyon e Tertuliano (ambos do séc. II): atacaram fortemente as posições gnósticas que separavam o corpo da alma, sendo, claro está, o corpo algo desprezível. Há passagens dos seus textos de grande beleza, mostrando como participamos todos da mesma “terra”, nesse sentido metafórico da criação. Paralelamente, não por estudo, mas por actualização dos acontecimentos do mundo, também vou lendo sobre o terror que continua a acontecer pelo auto-denominado Estado Islâmico. Tenho estado a ler a reportagem sobre o jornalista espanhol Javier Espinosa que esteve preso às mãos dos terroristas durante 200 dias. É assustador, monstruoso, doentio, perverso, o que fazem. Mas que tem uma coisa que ver com a outra? Isto põe-me o pensamento a mil. Somos feitos da mesma matéria biológica destes que matam segundo as suas lógicas [irracionais, diga-se]. Não, a comparação não é rápida, obviamente que há distinções, precisamente pela complexidade humana nas dimensões biológica, psicológica, social/cultural, espiritual. Não é por acaso que se desenvolve a ética humana, com o seu cariz universal. Dizer que o mal não está na terra da qual todos participamos, que para mim é desejada e amada por Deus. Na nossa complexidade de ser, o mal, como ausência de bem, infiltra-se por muitos esquemas, sobretudo na ânsia de poder e de inveja mal resolvida, algumas vezes degenerando em frustrações, onde em extremos leva novamente ao sofrimento e à morte de muitos, nesse anular de toda a possibilidade de diversidade. Como já tenho escrito é fácil ver o mal presente nas acções dos outros (e sim, claro, há que ver e denunciar), o que custa mesmo é perceber que também eu posso estar sujeito a esse mal. Daí a necessidade de vigilância: na formação [diferente de formatação] de consciência que me leve ao respeito pela diversidade humanizante; no reconhecimento que não tenho a última palavra; na fé que também liberta esquemas de opressão ora pessoais, ora de outros que posso controlar, mostrando-me a responsabilidade dos meus actos. Mas, confesso, no meio disto tudo, parafraseando Martin Luther King, continua-me a fazer confusão não o grito dos terroristas, mas o silêncio dos “bons” ou dos que podem tomar decisões à séria diante das atrocidades, de lá e de cá, que continuam a acontecer.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Pirilampos




David Liittschwager

Poeta, dizem.

Enrubesci.

Pensei nos pirilampos:
apenas se avistam
a partir do entardecer,

brilham e voam 
por paixão.


domingo, 15 de março de 2015

Confissão. Misericórdia.




William Kerdoncuff


Depois de ter recebido a absolvição de Deus, abraçou-me emocionado. “Padre, desculpe, mas pela primeira vez apercebi-me da importância de confessar-me a um padre.” Sorri e perguntei, meio tímidamente, se poderia saber porquê. “Sabe, entrei a dizer as coisas do costume e apercebi-me que o senhor não estava a acreditar em mim.” “Ai, desculpe se fui mal-educado, mas não era não acreditar. Vou-lhe ser sincero, senti mesmo ‘as coisas do costume, quase porque sim, porque se aproxima a Páscoa e há que cumprir’. Fico sempre com pena que não se aproveite bem a oportunidade da graça de Deus que se vive neste sacramento. Não que as coisas do costume não tenham a sua importância, mas corre-se o risco de ficar pela rama.” “Pois, é isso. Com o seu olhar e depois quando me pediu se podia perguntar-me algo, apercebi-me que queria ajudar-me no encontro com Deus. Nunca ninguém me tinha perguntado em confissão se sou feliz na minha vida e se faço os possíveis para que os outros sejam felizes. Não, não peça desculpa. A forma como me perguntou, nem sei, foi como se a vida me passasse à frente e dei-me conta do que acabei por dizer depois. O alívio que…” [Emocionou-se novamente. Ficámos por ali e despedimo-nos com um grande sorriso] Desde que sou padre tem sido sobretudo neste sacramento que vivo momentos muitos bonitos. Sinto-me pequeno diante do poder que me é confiado para, em nome de Deus, libertar ou pelo menos começar a libertar dores, angústias e pesos de decisões que levaram a acções que, sim, também mataram e roubaram muito de vida para além da biológica. O Papa Francisco anunciou o jubileu da misericórdia. Se a misericórdia é vivida à séria dá-se um grande passo no sentido da liberdade e do amor de Deus  em cada um de nós.

sábado, 14 de março de 2015

70 anos TAP



Mário Raposo, no dia da minha ordenação


70 anos é muito tempo: em voos, passageiros, bilhetes, bagagens, “cocotes”, também em histórias, amores e desamores, rivalidades e amizades, cansaços, tristezas, separações e abraços. Profissionalmente nunca fui TAP, mas são muitos  os amigos, de terra e do ar, que lá trabalham a fazer parte da minha vida (ainda mais quando actualmente a PGA está incluída no grupo, juntando os “code-share” com a SATA). Hoje penso de forma especial em todos vocês, rezando pelos voos pessoais e profissionais, ainda mais nestes tempos de turbulência. Quem sabe um dia não serei o primeiro padre a voltar a vestir a farda, a fazer demonstrações de segurança e, claro, a confessar depois do serviço de refeições. ;) Aos de terra: boas preparações de partidas e chegadas. Aos de ar: bons voos.

sexta-feira, 13 de março de 2015

2 anos de pontificado de Francisco




Alessandra Tarantino / Associated Press


O tempo passa depressa, muito depressa. E tanto acontece nessa força de tempo. O mundo segue o rumo e a Igreja vive o sentido da Encarnação, nesse actualizar a presença de Deus no hoje concreto. Por um lado, a renúncia de Bento XVI, em liberdade de consciência, pondo Deus no centro. Por outro, a eleição de Francisco como Papa que impulsiona à reforma da Igreja, nesse caminho desejado, mais que superioridade ou “olhar de cima para o mundo”, de serviço na escuta dos “sinais dos tempos”. 2 anos passam desde aquela noite em que Francisco, após a sua eleição, fala com simplicidade aos católicos e a todas as pessoas de boa vontade, inclinando-se depois de pedir a todos a oração pela sua missão. É isso, no anúncio e serviço da Igreja de Cristo que não selecciona, nem condena, mas convida à conversão de coração em sentido de acolhimento, em palavras e em gestos, em especial pelos que mais sofrem.

quinta-feira, 12 de março de 2015

A noite surge de veludo



David Evans

A noite surge de veludo,
seduz o imaginário,
e perde-se nas horas.

O vinho decantado
abre as conversas,
surpreendentes.

O instante inesperado
anuncia a hora
da partida. 

Serão sempre
histórias que ficam
por contar.



Situação humanitária




Na capa do “Le Monde” de hoje vemos a foto de mulheres a rezar numa Missa de rito assírio em Beirut, Líbano. A notícia destacada refere-se ao êxodo de cristãos que fogem da Síria e do Iraque devido aos ataques do  auto-denominado Estado Islâmico. Assim que vi a capa mais uma vez entristeci-me pelo que se vive no mundo, mas fiquei animado por este jornal de referência mundial dedicar atenção a esta grave situação humanitária. Os 21 cristãos coptas assassinados há dias foram imagem de tantos outros desconhecidos. Isto não é um problema de lá, mas também de cá… são muitos os europeus a alistar-se cada dia a este movimento terrorista. Por outro lado, também aumenta por cá a xenofobia: não esquecer que um grupo neo-nazi levou à demissão do presidente de uma câmara alemã, por viver ameaças de morte. Pois, não se trata de fazer guerra de religiões, mas de buscar estratégias para que se viva dignamente a humanidade e a fé para além da economia e da política. A educação, em especial de valores humanos, é um, senão o, caminho… mas essa pelos vistos também anda esquecida em nome, mais uma vez, de dinheiro e de interesses pessoais. Sigo a rezar pela paz e pela humanidade.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Chá de Violeta Imperial




“O Sal da Terra”, sobre Sebastião Salgado, continua a fazer eco. As perguntas são muitas, como se mergulhado num rodopio de imagens com rostos, terras, árvores que crescem depois de plantadas por mãos que num clique abriram a perspectiva de sombras, dando luz ao desconhecido. Sinto-me envolto em mundo, aqui fechado no quarto, rodeado de livros de pensar Deus. Paro. Recordo o momento libertador de hoje na aula de dança. Ao som de “Una patada en los huevos” de Alberto Iglesias segui as orientações da Diana: “transforma el movimiento, no lo cambies bruscamente. Acepta lo que vives, entrégate, como eres llamado a hacerlo”. Trouxe o presente de que foi intermediária vindo de Groix, uma ilha do mar bretão: chá de violeta imperial. Saboreio-o na chávena pessoana que me acompanha há anos, também ela presente, “Eu sou do tamanho do que vejo… e não do tamanho da minha altura”. E neste silêncio, seguindo em caminho de Quaresma, entrego o que não compreendo e a minha, talvez pouca, fé ao Senhor de todas as coisas.

terça-feira, 10 de março de 2015

"O Sal da Terra"




Sebastião Salgado


“Quem é o ser humano?” Esta pergunta atravessa-me a vida desde há muito. Tomei-lhe mais consciência quando estudei filosofia, em especial antropologia filosófica. Sim, já antes me perguntava sobre tanta coisa à volta do humano, quando ficava preso aos programas tipo National Geographic, quando observava as pessoas na rua, sempre tive essa mania, quando andava em busca de mim, para no fundo ajudar os outros. Enfim, quando alimento esse sonho de conhecer todas as pessoas do mundo. “Quem é o ser humano?” Esta pergunta ecoa-me dentro muitas vezes, sem que a formule. Na oração, no silêncio de mim durante a viagem de metro ou passeio, mais uma vez observando rostos. Hoje voltou… e com presença destacada. Fui ver “O Sal da Terra”, um documentário sobre o fotógrafo Sebastião Salgado. As imagens falam, muito, acompanhadas com as descrições do que viveu de alma e de corpo depois de realizar os vários projectos fotográficos. Fotografou a vida e a morte, o planeta, rostos e mãos, o ser humano. “Eu tinha de fotografar para que ficasse registado a capacidade violenta do ser humano”, comentava a propósito de Êxodos. Neste projecto fotografou a imensidão de gente refugiada no Congo, a fome na Etiópia, as marcas do genocídio do Ruanda. “Quando terminei este projecto senti-me doente. Não estava infectado com cólera ou peste. Estava doente de alma.” Regressou à quinta dos pais, onde nasceu, e com a mulher, Lélia, fundaram o Instituto Terra que promove a reflorestação de terras devastadas pela seca. Plantaram mais de um milhão de árvores, de mais de 400 espécies. Dá-se a reconciliação com a fotografia em jeito de cura de alma e surge o projecto Génesis: voltar às origens da criação. “Estava na altura de aprender a fotografar animais.” Mas não só animais, também a simbiose com o ser humano, nessa harmonia que deveria ser a mais natural de todas. Quando saí do cinema, pensei no ser humano, não no vago, nesse abstracto que se dilui na teoria, mas em rostos: dos mais próximos aos mais longínquos, dos que conheço pessoalmente, aos que me são dados pelas imagens reais de alegria e de dor, muitas deles acabadas de receber do documentário. Percebe-se que muito, para não dizer todo o sofrimento cultural resulta do poder desmedido de alguns. Assim continuamos, desde a Ucrânia, aqui ao lado, até aos países árabes um pouco mais longe, sem esquecer a África e América Latina. A corrupção, a mentira, sem vergonha de enganar e exigir os impossíveis a quem não pode dar. Fomentar a morte, biológica (de pessoas e da natureza), cultural, educacional, em nome de interesses económicos e políticos. Invejas e mesquinhices que fazem perder tempo e sentido de vida. “Quem é o ser humano?” Não encontro respostas definitivas… de momento vou tendo esta, também modelada pela fé, com reconhecido toque de ingenuidade: alguém com desejo de ser amado e de amar. Para apurar a resposta, continuo em caminho…

segunda-feira, 9 de março de 2015

O silêncio tomou a palavra



Hideki Mizuta


O silêncio tomou a palavra.

Na densidade de corpo,
no caminho feito,
ponderado,
com quedas,
ingenuidade,
e vontade de amar.

O silêncio tomou a palavra,
e o gesto a existência.


domingo, 8 de março de 2015

Infelizmente celebramos o dia da Mulher



Projecto "Last moves before dusk" de Brice Portolano

Infelizmente celebramos o dia da Mulher. Infelizmente, já em pleno séc. XXI, ainda há que chamar a atenção para a igualdade em dignidade da mulher em relação ao homem. Infelizmente ainda há tantas mulheres que recebem menos que os homens pelo mesmo trabalho. Infelizmente ainda há tantas mulheres que são abusadas: no trabalho, em casa, no seu Ser. Infelizmente ainda há tantos homens que consideram a Mulher como o objecto ao seu serviço. Infelizmente ainda temos de celebrar o dia da Mulher.

Há muitas considerações sobre a criação da mulher a partir da costela de Adão. No relato do Génesis (2, 21-25) pode parecer, numa leitura meramente superficial, que aquando da criação há uma superioridade do homem em relação à mulher. Engano, se se segue essa leitura! O relato mostra-nos a criação do ser humano como comunidade. Mais do que se completar, ambos, mulher e homem são complementares um ao outro. Quando o homem expressa que a mulher que acaba de ser criada é “carne da minha carne, ossos dos meus ossos”, afirma que a mulher, tal como ele, é igualmente frágil (a ideia de carne como fragilidade, como aquilo que é temporal) e igualmente forte (a ideia dos ossos como força, como duradouro). Pode-se dizer que esta formulação corresponde a uma aliança... a tal complementaridade. 


Sim, infelizmente temos de celebrar o dia da Mulher. Não deveria ser necessário. Mas já que o é: um abraço a todas as mulheres com quem tenho relações de família e amizade, agradecendo tudo o que delas recebi e recebo.


sábado, 7 de março de 2015

[A preparar o III Domingo da Quaresma]




"Vasos #23" de Martin Klimas


[Jo 2, 13-25] *

O tempo
nem sempre é sincronizado.

Havendo tempo para tudo,
também o há para desmontar
a linearidade lógica das coisas.

Abrem-se as portas e os umbrais,
derrubando as mesas, 
ordena-se o caos, 
estabelecendo a harmonia 
do novo olhar.

Rolas e pombos já não justificam os pobres,
os bois regressam para lavrar a terra,
a misericórdia não é feita dos seus sangues.

Ainda há quem diga que é loucura,
loucura escandalosa
para quem quer tudo acertado
em regras e segregações.
Já não são moedas, poder ou jogos,
actividades de distâncias
- sociais, religiosas, políticas -
que abrem a passagem.

É o rosto
do novo olhar
desnivelado.


Eis o sinal. 


* Estava próxima a Páscoa dos judeus; Jesus, então, subiu a Jerusalém. No templo, encontrou os que vendiam bois, ovelhas e pombas, e os cambistas nas suas bancas. Então fez um chicote com cordas e a todos expulsou do templo, juntamente com os bois e as ovelhas; jogou para o chão o dinheiro dos cambistas e derrubou as suas bancas, e aos vendedores de pombas disse: «Tirai daqui essas coisas. Não façais da casa de meu Pai um mercado!» Os discípulos recordaram-se do que está na Escritura: «O zelo pela tua casa me há de devorar».

Então os judeus perguntaram a Jesus: «Que sinal nos mostras para agires assim?» Jesus respondeu: «Destruí este templo, e em três dias eu o reerguerei». Os judeus, então, disseram: «Trabalharam durante quarenta e seis anos para erguer este templo e tu serias capaz de erguê-lo em três dias?» Ora, ele falava disso a respeito do templo que é o seu corpo. Depois que Jesus fora reerguido dos mortos, os discípulos recordaram as suas palavras e acreditaram na Escritura e no que Jesus tinha dito.

Estando em Jerusalém, na festa da Páscoa, muitos acreditaram no seu nome, vendo os sinais que realizava. Jesus, no entanto, não lhes dava crédito, porque conhecia a todos e não precisava de ser informado a respeito do ser humano. Ele bem sabia o que havia dentro do homem.

sexta-feira, 6 de março de 2015

[...]




Yuga Kurita

O nevoeiro envolvia-te o olhar:
cansaço de horas
de gestos forçados.

Aqueci-te as mãos,
em chá de jasmim.

No regaço pousei
um pequeno ramo
de cerejeira em flor.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Dores. Salmos. Verdade diante de Deus.



Sajad Rafeeq


“Pe. Paulo, estou cansado desta vida!” Engoli, discretamente, em seco. As dores eram demasiado profundas. Sabia que estava a ser acompanhado em ajuda médica e técnica. As dores, essas de alma, latejavam forte. Vinha a questão mais de fé, repetindo incessantemente: “Deus não gosta de mim!” Lembrei-me dos salmos. Alguns são muito duros diante de Deus, em autênticos gritos das entranhas. Perguntei se poderíamos ler um ou outro em conjunto. Assim foi. “Pe. Paulo, mas não estou a blasfemar se gritar a Deus que ele não gosta de mim? Sempre me ensinaram isso!” “Tomara que lhe tivessem ensinado a abrir o coração com toda a verdade de sentimentos diante d’Ele.” E lemos… e rezámos… Emocionado, sentiu um pouco do cansaço da vida a sair.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Memórias




Rolando Rodríguez Leal


[Secção memórias] Ainda em registos de memórias do 12.º ano, graças à música de ontem, recordo a organização das viagens de turma. Como delegado de turma fui responsável pela organização das viagens e, não menos importante, das actividades para angariar fundos. A dos Açores ficou famosa, de tal maneira que no ano seguinte elegeram-me delegado novamente com a ideia da viagem a Londres. Fui eleito com um voto contra… o meu. Foi o suficiente para eleger a sub-delegada. Ehehe!!! São tempos que ficam na memória, sim. Desde a famosa venda de rifas, à venda de bolos, até aos concertos de banda de garagem e concursos Miss & Mister Escola, foi imenso o que fizemos. Recordo bem a colaboração entre todos: alunos, professores, “contínuos” (hoje, auxiliares da acção educativa ou não-docentes) e pais. Foi nesse tempo, quando andávamos pelas lojas a pedir ajuda para prémios, que aprendi isto de “o ‘não’ é garantido, a partir daí só pode ser bom”. Do que mais me deu gozo foi termos conseguido dinheiro suficiente para que todos pudéssemos ir. Do banco voltei a casa com 1000 contos (aprox. 5000 €) no bolso e no dia seguinte fui com o meu pai a Lisboa para pagar à agência. Depois foi viagem a Londres: inesquecível, pela amizade e muitas gargalhadas. Sim, a amizade foi marcante. Nessa viagem tínhamos combinado que faríamos um mega-jantar para comemorar a nossa entrada na universidade. Dias depois das colocações, a professora Marianela comenta-me: “Paulo, sabes que o jantar foi cancelado?” Não, não sabia. Eu não tinha ido, pois não tinha sido colocado. “Não podiam fazer um jantar destes sem ti.” Emocionei-me diante dela: enchi-me de gratidão e de amizade. Que me acompanham até hoje.

terça-feira, 3 de março de 2015

Voices - Vangelis




E assim de repente, apenas a ouvir uma música, voei uns 17 anos atrás. Estaria pelo 12.º ano quando o meu pai me ofereceu este álbum do Vangelis. Lembro-me perfeitamente de ouvi-lo enquanto estudava para os exames nacionais. No coração tinha claro o futuro: medicina veterinária. Não posso deixar de sorrir enquanto escrevo isto. Tanto, mas tanto se passou no entretanto. Encontros e desencontros (humanos e divinos), conversas, decisões, mudanças, viagens, descobertas, histórias, imensas histórias para contar, deixando “ecoar” vozes de muitas partilhas. Brinco muito com a minha mãe por ter as “histórias de Maria”. Hmmm, parece-me que herdei esse lado, vivendo as “histórias de Paulo”. ;) Sabe bem voltar a ver a riqueza do caminho feito, sem julgamento… apenas ver, saborear e agradecer.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Presente(s)



Nicolau Pinto Coelho

Tocaste suavemente à porta.
“Entra” respondi. 

Indicas a janela.
Cheguei a tempo
de receber o presente,
que nunca será meu.

Iluminou-se 
a sombra de mim.
Tu nunca serás meu,
mas nosso, sem
morada ou templo.

Com a mesma suavidade 
saíste,
sem bater a porta. 


A rezar pela Leti


Leti no Cambodja, onde fez meses de voluntariado

Já passaram 5 dias desde o acidente. A Leti (Letícia) atravessava uma passadeira quando foi atropelada por uma moto conduzida a velocidade bastante excessiva para o local. Foram muitos os danos sofridos e neste momento o que continua mais crítico é o cérebro. Ontem foi operada, com sucesso: conseguiram retirar dois grandes coágulos que pressionavam a parte frontal do cérebro. Apesar de tudo, a situação continua muito delicada. A equipa médica mantém bastantes reservas. Já sabemos que do nada tudo pode mudar nas nossas vidas, mas há coisas que se evitam. Neste caso, a velocidade. Se estamos com pressa, que se ajuste o tempo para chegar a horas. Se gostamos de adrenalina, que se vá para onde seja possível libertá-la e vivê-la com segurança para todos. A Leti tem grande força, fé, determinação e entrega. Somos muitos a rezar. Das mensagens que tenho recebido, a todos tem marcado a serenidade dos pais, confiando no melhor para ela neste momento. Somos muitos a pensar e a rezar pela Leti. Tenho juntado à minha oração o rapaz que conduzia a moto. Para quem a conhece, é certo que a Leti seria das primeiras a pensar nele. 

Leti, todavía tienes mucho a dar, como tu sonrisa, sobretodo a los que más necesitan y tanto quieres. ¡Leti, estamos por tí! #rezandoporLeti

domingo, 1 de março de 2015

Do concreto...



Gus Schiavon


Tenho consciência de que quando escrevo ou penso em palavras de peso como “humanidade”, “pessoa”, “ser humano”, “liberdade”, “comunidade”, “religião”, etc e tal, há o perigo de ficar na “coisa bonita e blá blá blá”, totalmente abstracta. No fundo, ficar no frio conceptualismo que fica bem em teses ou escrituras ideológicas. Por isso, quando escrevo tento sempre pensar em histórias com rostos concretos, decisões bem ou mal tomadas, situações que me ajudaram a ver outras perspectivas. Muitas vezes acabo por modificar o texto final. É muito fácil ter opinião, mas sabê-la construir com sentido, ao ponto de estar disposto a modificá-la em nome de um bem maior tem o seu quê de exigência, implicando também o perder. É o serviço do discernimento aliado à conversão.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Amar os inimigos



Chris Prescott


[Pensamentos soltos ao terminar o dia] Ontem tive duas conversas muito bonitas: uma com o meu acompanhante espiritual, outra com uma amiga. Em ambas falou-se de actualidade, em especial destes tempos complexos, onde se alastram novamente ondas de choque e de medo. Também foi tema o caminho de amadurecimento pessoal, aquele que leva a ver a vida com mais sensatez e sentido, no crescimento da vocação em trazer paz, justiça e liberdade ao ser humano. Recordei-as sobretudo há pouco na Missa. A passagem do evangelho [Mt 5, 43-48] exorta a uma das coisas mais difíceis e exigentes no cristianismo: o famoso “amar os inimigos”. No mesmo texto Jesus recorda-nos que Deus Pai “faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos.” Pelo coração passam-me imensas pessoas que atravessaram ou, infelizmente ainda atravessam, situações duras, por isso estremeço só de pensar no “amar os inimigos”. Do mínimo conflito por choque de personalidades, aos grandes que deixam raízes culturais profundas, os inimigos podem ser muitos. Se fico por essa raiva dos acontecimentos, torno impossível surgir esse amor pelos inimigos. Por isso, não se pode nem exigir, nem dar passos grandes no processo de reconciliação. Há traumas profundos, muitos a serem respeitados com silencioso acolhimento. Depois, dar tempo e sentir a força da fé nesse combate do mal com o bem. Entendo que o perdão não é desculpar como se nada tivesse acontecido, mas continuar, apesar de tudo, a querer a vida do outro. Há crimes que têm de ser responsabilizados, punidos, mas não de modo a que me torne também num ladrão, num corrupto e até mesmo num assassino. Na continuação da passagem evangélica, é impressionante o convite a sermos como Deus na perfeição do perdão e da misericórdia. No momento do ofertório na missa, quando junto a água ao vinho pedindo para sermos participantes da divindade de Cristo, recordo a grandeza da humildade divina e que a justiça d’Ele tem outro nível. De seguida, ao consagrar o pão e o vinho com a água diluída, apercebo-me que Ele continua a assumir o nosso pecado, não desistindo de nos amar. Claro, só podemos amar os inimigos quando vivermos plenamente a certeza que Ele, apesar de tudo o que possamos fazer, continuará a amar-nos primeiro e plenamente. Sim, no caminho de amadurecimento e crescimento pessoais pode ser algo difícil e existente, mas não impossível.

Metro. Sorriso. Amor.



[Coisas do quotidiano em Paris] São muitas as vezes que rezo no Metro: agradeço as pessoas que lá estão e peço a Deus que lhes dê o que mais precisam. Há momentos em que voo para “coisas minhas” ou para pessoas por quem ando a rezar ou que surgem naturalmente no pensamento. Às tantas, enquanto pensava nesta semana, em especial nos acontecimentos tristes, reparo e à minha frente leio poesia: 

“Eu vi-o, o teu sorriso igual de belo como o dia;
E a hora do sorriso é a hora do amor.”


Imediatamente sorri, dando espaço e tempo ao amor.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Via-Sacra com Maria




Nas sextas-feiras da quaresma somos convidados a rezar a Via-Sacra. É um modo de oração que nos faz entrar nas horas fatídicas da entrega de Jesus. O www.passo-a-rezar.net convida-nos a meditar as 14 estações (apresentadas por João Chaves) de forma diferente, com o olhar e comentário de Maria (na voz de Susana Arrais). Há pouco rezei a 1.ª Estação... que, sem esperar, vai ao ponto do meu post anterior: o problema do mau uso do poder. Boa oração!

[Para a Via-Sacra com Maria: http://www.passo-a-rezar.net/via-sacra-com-maria ]

Em 6.ª feira de Quaresma




Rodi Said/Reuters


Se é por ser lá longe que nada se faz, é de dizer que eles já estão mais que à porta da Europa, eles já estão presentes aqui, estão presentes no mundo, espalhando as imagens da sua loucura fundamentalista, provocando o medo, o ódio. Como se vê, nessa loucura, matam por matar (não, não é em nome de deus) e destroem por destruir. Não me interessa se é “lá longe”, são irmãos meus, cristãos e não-cristãos, que estão a morrer, físicamente e em dignidade, de forma bárbara. Dói-me muito saber das suas mortes, mas dói-me cada vez mais a impassibilidade do mundo. Aqui não se trata apenas de crenças religiosas ou políticas, trata-se de humanidade. E eles estão a destrui-la… ou seja, estão a destruir cada um de nós, alimentando-nos de ódio e de medo, eliminando o sentido de alteridade. Faz-se história com uma sonda a aterrar pela primeira vez num cometa. Mas também se faz por haver pessoas a serem assassinadas apenas pela sua crença ou por não pertencerem a uma ideologia cega. Continuo a rezar por todas as pessoas que estão a sofrer a barbaridade e a pedir pelos que podem tomar decisões, não se ficando na indignação diplomática.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Amor. Eternidade.




Alexis Milford

- que interesse o amar, 
se a vida se reduz ao efémero?

- quando o viveres,
à séria e autenticamente,
nas dores de parto,
no silêncio da impotência,
na certeza do amanhecer,
para além de ti,
tocas eternidade.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

[In memoriam]



Recebi há pouco a mensagem. Estou triste com a partida da Ivone. Fico com a recordação da força na luta pela vida diante da malfadada doença. Conheço-a desde muito pequeno. O Ricardo, a quem envio um abraço demorado, nasceu ano e algo depois de mim. Acompanhava a sua força e fé nas partilhas que ía fazendo por aqui e nas mensagens que trocávamos. Hoje, depois do forte cansaço da luta, está a ser abraçada por Deus. Não perdeu nenhuma luta, porque as pessoas de grande coração são sempre vencedoras. Fica a promessa de viver a amizade da forma como escreveu há dias: "O amigo é semelhante a um irmão que escolhemos. Tem como missão ajudar-nos a ser aquilo que devemos ser, mesmo quando já desistimos..." Querida Ivone, obrigado pela sua força, pela sua fé… fica também a promessa do reencontro em cada Missa e, depois, no grande banquete celeste.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A visita da Mafalda a Paris




Bruno Duro


É sempre bom aparvalhar com a Mafalda. Com toque de “chiqueza” quando vem a Paris, tal como tinha prometido. No meio da loucura, com muita gargalhada, há sempre tempo para conversas sérias sobre a vida, sobre Deus, sobre Teologia, sobre sonhos. Além do famoso “abraço-pegado-ao-colo”, com direito a dança e tudo, também empurrei a cadeira de rodas pelas ruas de Paris. Do que mais me marcou foi ver os olhares das pessoas em direcção à Mafalda. Sempre de enorme respeito, mas um ou outro olhar de “coitadinha”. Ela ria-se quando comentava isto: “pois, ainda és novato. É  sempre assim. Como podes imaginar, já nem ligo!” Claro, ao longo dos tempos a perspectiva muda, mas muda mais quando conhecemos a pessoa e vemos a riqueza que está para além da deficiência ou da diferença. Não, não é cliché… sobretudo quando se ouve o nosso humor mordaz. Quem está fora de contexto pensa que é falta de respeito, quem conhece, sabe que é a beleza da amizade que vê de igual para igual. Afinal, como ela não se cansa de repetir: “é mais o que nos une do aquilo que nos separa!”. Mafi, foi tão boa a tua visita!! :) Até muito breve!! :) 

Boas notícias




Boas notícias pela manhã. Ontem libertaram o Pe. Alexis Prem Kumar,sj, depois de 8 meses em cativeiro pelos talibãs no Afeganistão. O Pe. Alexis é o director do Serviço dos Jesuítas aos Refugiados (JRS) naquele país. De momento regressou à Índia, seu país de origem. Continuemos a rezar ou a pensar por todos aqueles que continuam em cativeiro ou têm de viver em estado de refugiado, pelos grupos radicais fundamentalistas/terroristas e ditadores de nações, impedindo a paz, a justiça e a liberdade.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Na última fila da Igreja



Bruce Dale


[Ainda na sequência do post de ontem sobre o “estar na Missa”] Apercebo-me que há pessoas que se sentam por opção nos bancos do fundo da Igreja. Muitas na última fila mesmo, independentemente se grande parte das filas da frente estão quase sem ninguém. A tendência será criticar pela negativa, mas parece-me que aqui deve de haver respeito por essa decisão. Sim, numa ou noutra vez, quando a Igreja tem pouca gente, já pedi, com toda a liberdade, para se aproximarem. Mas só mesmo em situações muito pontuais. Parece-me que a escolha do lugar está ligada à relação que se tem com o altar, com Deus, com a comunidade. Foram algumas as missas em que me sentei na última fila, sobretudo em tempos em que a minha relação com Deus não vivia os melhores momentos. Mas estava lá, sim, por perceber que a zanga que se possa ter é sempre mais fraca que o amor d’Ele por cada um de nós. Por isso, respeito muito a decisão das pessoas na escolha do lugar.  E, claro está, como padre, se me sinto muito incomodado com esta situação, terei de pensar no que faço para me tornar mais acolhedor e perceber que o tempo e o espaço entre as pessoas e Deus podem passar por muitos momentos. Lá está, evitar ao máximo o julgamento e multiplicar o gesto de acolhimento. 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O "estar na Missa"



Willem Kuijpers


[Secção desabafos] Um dia, quem sabe, farei um estudo sobre o “estar na Missa”. É tão estranho quando, também a partir da linguagem corporal, sente-se o mecanicismo em que se está lá porque “faz parte”, “sempre foi assim”, “lá me levanto e lá me sento”, “lá repito as fórmulas”. Nós, padres, somos chamados a ser autênticos animadores e não meros executores do ritual, que em vez de ser algo de vida vai-se esvaziando em ritualismo, resumindo-se num “fazer coisas”. Sei que os factores são muitos, mas não me estranha que também por isto as pessoas comecem a deixar de celebrar. A beleza do ritual perde-se e torna-se algo artificial, mecânico. Não é fazer da celebração da Missa um espectáculo ou uma festarola para ser “fixe, moderno e atrair”: cai-se também no ridículo. Trata-se de ajudar a que se esteja lá plenamente a celebrar a vida de Cristo em comunidade. Às vezes basta começar por relaxar os ombros e respirar calmamente… e depois, claro, trazer a vida, tal qual ela é para a celebração. Afinal, o que oferecemos como “fruto da terra, da vinha, e do trabalho humano” é, segundo a nossa fé, transformado em Cristo, que, não é um executor, mas o pleno animador.

Deserto e liberdade



Silvia Aresca

Andava em busca 
da afirmação, 
como se a existência 
tivesse de ser declamada 

na vontade de poder, 
no controlar dos passos. 

É deserto a atravessar,
onde ainda se chora as cebolas 
recolhidas na escravidão .

Queima a pele, 
surge a sede, 
sai o velho,
aparece o novo. 

E noite após noite 
as histórias são recontadas, 
permanecendo a memória 
e a certeza da liberdade.  


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

[Depois de ver "Timbuktu"]



Fotograma do filme “Timbutku”

Trazem a morte
antes do tempo

em nome de um deus
que pensam conhecer.

Tentam cortar as notas,
mas as lágrimas,
de flagelo, 
insistem em cantar

ao som de areia cortante
a desfazer caminhos
da cultura que não vêem,
nem têm. 

O sem-sentido cobre-se 
de ridículo, no desprezo
pelas paixões invejadas.

Lapidando sem piedade,
secam as almas, pois
trazem a morte
antes do tempo

em nome de um deus
que pensam conhecer.