Domingo, 11 de Março de 2012

[Jo 2, 13-25] *




"Vasos #23" de Martin Klimas

(Versión en español en los comentarios)


O tempo
nem sempre é sincronizado.
Havendo tempo para tudo,
também o há para desmontar
a linearidade lógica das coisas.
Abrem-se as portas e os umbrais,
derrubando as mesas, 
desordenando o caos, 
estabelecendo a harmonia 
do novo olhar.
Rolas e pombos já não justificam os pobres,
os bois regressam para lavrar a terra,
a misericórdia não é feita dos seus sangues.
Ainda há quem diga que é loucura,
loucura escandalosa
para quem quer tudo acertado,
já não são moedas, poder ou jogos,
actividades de distâncias
- sociais, religiosas, políticas -
que abrem a passagem.
É o rosto
do novo olhar
desnivelado.
Eis o sinal. 



* Estava próxima a Páscoa dos judeus; Jesus, então, subiu a Jerusalém. No templo, encontrou os que vendiam bois, ovelhas e pombas, e os cambistas nas suas bancas. Então fez um chicote com cordas e a todos expulsou do templo, juntamente com os bois e as ovelhas; jogou para o chão o dinheiro dos cambistas e derrubou as suas bancas, e aos vendedores de pombas disse: «Tirai daqui essas coisas. Não façais da casa de meu Pai um mercado!» Os discípulos recordaram-se do que está na Escritura: «O zelo pela tua casa me há de devorar».

Então os judeus perguntaram a Jesus: «Que sinal nos mostras para agires assim?» Jesus respondeu: «Destruí este templo, e em três dias eu o reerguerei». Os judeus, então, disseram: «Trabalharam durante quarenta e seis anos para erguer este templo e tu serias capaz de erguê-lo em três dias?» Ora, ele falava disso a respeito do templo que é o seu corpo. Depois que Jesus fora reerguido dos mortos, os discípulos recordaram as suas palavras e acreditaram na Escritura e no que Jesus tinha dito.

Estando em Jerusalém, na festa da Páscoa, muitos acreditaram no seu nome, vendo os sinais que realizava. Jesus, no entanto, não lhes dava crédito, porque conhecia a todos e não precisava de ser informado a respeito do ser humano. Ele bem sabia o que havia dentro do homem.

Lendo os outros...




Porque me identifico muito, para não dizer totalmente, com este post: 
E parece-me muito apropriado para um Domingo de Quaresma.




Sexta-feira, 9 de Março de 2012

7 anos d’o.insecto






O 7 guarda o misterioso significado de plenitude. 
Os 7 dias da criação, as 7 cores do arco-íris e as 7 notas musicais são apenas alguns exemplos da presença deste número denso e o que o mesmo pode evocar. O que pode parecer um fechamento, a plenitude, também pode ser visto como um tempo de reflexão. 
Este blog começou há 7 anos. 
A partir de uma sana inveja e manifestando o contentamento de ter um blog, o Pedro Rapoula deu início a’o.insecto. A partir daí foi um continuo partilhar. Primeiro a solo, depois juntando mais vozes. O tiago card, o Morgado Louro, a Moura, a Azul Comum, o João Mattos e Silva e eu. Estas vozes foram configurando a variedade deste blog. Falou-se de política, design, dança, poesia, música, desabafos, citações, desporto em geral e futebol em particular, teologia, filosofia, reflexão mais espiritual e/ou humana. Não posso esquecer os muitos convidados especiais que por aqui passaram, sobretudo quando manifestaram o seu carinho aquando dos 3 anos (outro número igualmente denso) d’o.insecto
Hoje sou eu que deixo o meu pensar sobre estes 7 anos. Afinal, tenho sido quem mais publica nestes últimos tempos. Já me dizem: “vi o teu blog”. Mesmo sendo ultimamente mais meu do que propriamente nosso, atendendo à sua realidade colectiva continuo a dizer o “blog onde participo”. Gosto desta imagem da participação. Participar é estar, é fazer parte de. Quem me conhece, sabe a importância que dou ao tema da relação humana. Recordando o que escrevi aqui pela primeira vez, em simplicidade disse que queria viver uma experiência de reciprocidade em caminho. Assim, considero-me parte de um projecto que, apesar das muitas mudanças, tem as marcas de uma história da colaboração de muitos, de forma especial do fundador. Pensemos, por exemplo, no nome do blog e no grafismo que se mantêm, para que de algum modo, sem que seja de forma saudosista ansiando pelo regresso ao jeito sebastianista, fique a boa recordação da presença do Pedro, com os seus escritos e sensibilidade.
O dia de aniversário condensa o tempo, a história. Recorda-se o passado, dando corpo aos desejos, aos projectos, aos sonhos. Nestes 7 anos podemos falar mais do que de plenitude (não me parece que o.insecto tenha culminado a sua voz), de um tempo de viragem. Não esquecendo que é um blog colectivo, e assim gostaria que continuasse, quero continuar a escrever e a partilhar ao meu estilo. Não escondo que por vezes me sinto meio perdido, afinal, a plenitude mesmo que tocada pelo 7, não está alcançada. Por isso, sigo em aprendizagem... em conversão, manifestando-a no que aqui vou deixando. 
Sim, a experiência da conversão é um ponto de viragem. Na conversão, por mais pequena ou forte que seja, a plenitude é tocada. Como que um encontro onde é revelado um novo conhecimento da realidade. Obviamente, esse conhecimento não é (e ainda bem) total. Bem vivido impele a outros conhecimentos, até mesmo a uma mudança e a um novo olhar sobre a realidade. A amplitude do conhecimento aprofunda a sabedoria, baixando as defesas, acolhendo mais, permitindo que se faça a justa selecção do que verdadeiramente importa, até a uma nova conversão... até à plenitude completa.
Não posso deixar de agradecer de forma especial a alguns amigos bloguistas que, junto à minha história e meus acontecimentos quotidianos, me inspiram, fazem pensar, “desinstalam-me”, no melhor sentido do termo: o João Delicado,sj no Ver para além do Olhar, o José Ricardo Costa no Ponteiros Parados, a Laura Abreu Cravo no A Alma Conservadora, os meus companheiros sj filósofos no Companhia dos Filósofos, a Ivone Costa no A Ronda dos Dias, o Nuno Delicado no bulicenas, o Nuno Branco,sj e José Maria Brito,sj no Toques de Deus, o Alfaiate n’ O Alfaiate Lisboeta, o José Barbosa Borges no Um Kaddish por Portugal, a Laurinda Alves no A substância da vida e muitos dos que escrevem no Delito de Opinião e no Escrever é triste.
Felicitar o.insecto é felicitar a cada uma e a cada um que lhe deu e dá corpo: em escritas, em inspirações e em leituras. É isto: Parabéns!

Quinta-feira, 8 de Março de 2012

Infelizmente é dia da Mulher




Projecto "Last moves before dusk" de Brice Portolano

(Versión en español en los comentarios)

Infelizmente celebramos o dia da Mulher. Infelizmente, já em pleno séc. XXI, ainda há que chamar a atenção para a igualdade em dignidade da mulher em relação ao homem. Infelizmente ainda há mulheres que recebem menos que os homens pelo mesmo trabalho. Infelizmente ainda há mulheres que são abusadas: no trabalho, em casa, no seu Ser. Infelizmente ainda há homens que consideram a Mulher como o objecto ao seu serviço. Infelizmente ainda temos de celebrar o dia da Mulher.

Há muitas considerações sobre a criação da mulher a partir da costela de Adão. No relato do Génesis (2, 21-25), numa leitura superficial, pode parecer que aquando da criação há uma superioridade do homem em relação à mulher. O relato mostra-nos a criação do ser humano como comunidade. Mais do que se completar, ambos, mulher e homem são complementares um ao outro. Quando o texto é escrito a sociedade é patriarcal. No entanto, quando o homem expressa que a mulher que acaba de ser criada é “carne da minha carne, ossos dos meus ossos”, afirma que a mulher é igualmente frágil (a ideia de carne como fragilidade, como aquilo que é temporal) e igualmente forte (a ideia dos ossos como força, como duradouro) como ele. Há quem afirme que esta formulação corresponde a uma aliança... a tal complementaridade. 

Sim, infelizmente temos de celebrar o dia da Mulher. Não deveria ser necessário. Mas já que o é: um abraço a todas as mulheres da minha vida, agradecendo tudo o que delas recebi e recebo.

Terça-feira, 6 de Março de 2012

Outro modo de ser



É isto, para o dia de hoje... 
Outro modo de ser, em continua (re)descoberta. 

Sexta-feira, 2 de Março de 2012

Tarde no Retiro


Pat Wallace

(Versión en español en los comentarios) 



Há momentos que ficam registados no gesto. A conversa solta entre os dedos, no corriqueiro quotidiano que se torna diferente à medida que o sol se eleva e aquece os prados. De arte e de corpo, em separado e em relação, era a nossa conversa. E assim continuou a história.



Quinta-feira, 1 de Março de 2012

essejota.net: 4 anos!




A mensagem de António Valério,sj, Coordenador Geral do site essejota.net, a propósito do 4.º aniversário.

Políticos, artistas e religiosos online à volta da esperança

Personalidades tão diversas como o eurodeputado Paulo Rangel, os cantores Tiago Bettencourt e Carminho, o porta‐voz do Papa ou o escritor Jacinto Lucas Pires juntam‐se numa iniciativa online para apresentar o seu olhar sobre a esperança. A página web www.essejota.net, da Companhia de Jesus, propõe celebrar deste modo o seu quarto aniversário.

“Ainda há esperança?”. O P. Alberto Brito, sj, Provincial dos jesuítas em Portugal, dá o mote à pergunta, a que procuram responder as reflexões de Isabel Jonet, Paulo Rangel e do jornalista António Marujo. A actriz Cleia Almeida, uma das protagonistas do premiado “Sangue do Meu Sangue”, apresenta um filme, o cantor Tiago Bettencourt comenta um vídeo, o fotógrafo Luís Ferreira Alves mostra‐nos uma imagem, o cartoon é de Luís Afonso e a jornalista Paula Moura Pinheiro fala acerca de um quadro. O livro sugerido por Pedro Mexia, um poema de Manuel António Pina, vencedor do Prémio Camões 2011, a música escolhida pela fadista Carminho e a história contada pelo escritor Jacinto Lucas Pires abrem horizontes acerca de um olhar optimista sobre o futuro. Esta edição conta ainda com a participação do jesuíta irlandês Michael‐Paul Gallagher, professor na Universidade Gregoriana em Roma, e uma entrevista ao porta‐voz da Santa Sé, P. Federico Lombardi, para além de uma surpreendente reflexão de uma Carmelita que, do interior do convento, olha para o mundo como quem o conhece profundamente.

Neste momento, em que tanto se fala de crise e de falta de esperança, esta edição especial do essejota.net reúne colaborações de pessoas de vários quadrantes políticos, artísticos, sociais e religiosos que apresentam diversas perspectivas acerca de um tema que toca as preocupações dos portugueses.

O www.essejota.net pretende ser um espaço onde se pode encontrar uma nova forma de falar do mundo, do mistério humano e da fé. A partir das suas secções, trabalhadas quinzenalmente por uma equipa de 110 voluntários, que vão desde a arte ao entretenimento, da reflexão sobre acontecimentos da actualidade a textos de aprofundamento da fé cristã, o essejota.net propõe aos seus leitores um olhar atento e esclarecido sobre a realidade, numa linguagem acessível e adaptada às interrogações das gerações mais novas.


Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

[Job 42, 1-6]



"Twilight Dreams of a Papilio Demouleus (5)" de Clang

(Versión en español en los comentarios)

Job respondeu ao Senhor e disse: «Sei que podes tudo e que nada te é impossível. Quem é que obscurece assim o desígnio divino, com palavras sem sentido? De facto, eu falei de coisas que não entendia, de maravilhas que superavam o meu saber. Eu dizia: 'Escuta-me, deixa-me falar! Vou interrogar-te e Tu me responderás.' Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora vêem-te os meus próprios olhos. Por isso, retracto-me e consolo-me, cobrindo-me de pó e de cinza.»
No princípio buscava
o meu rosto no teu nome.
Calcorreando caminhos
de subidas e vales,
em silêncios do alto
e escuridão do abismo.
Em espelhos de pedra
tentava desenhar os meus contornos
pensando para mim conhecer-te
e não ter dúvidas.
E continuei, ainda assim,
a pôr estradas nesses passos.
Será que te encontrarei?
Na tempestade do deserto
perco a orientação:
mudam as questões ou intensificam-se.
Como o anoitecer
sem estrelas, 
escuto o silêncio
de uma nova abertura.
Tenho de esperar,
dar outro sentido à história.
Mesmo em razão:
Não esquecerei o caminho feito,
marcas das entranhas,
no chão desfeitas,
no coração delineadas
com o cinzel de carne.

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

A blasfémia de Moisés




Lorena Guillén Vaschetti


(Versión en español en los comentarios)

Então Moisés voltou-se para Deus e disse: “Senhor, porque maltrataste este povo? Porque me enviaste? Desde que vim ter com o faraó para falar em teu nome, ele maltratou este povo, e Tu não libertaste de modo nenhum o teu povo”. Ex 5, 22-23


A fé implica muita seriedade. Esta minha reflexão não tem que ver com uma seriedade moral ou integridade de uma perfeição, ou pureza, inalcansável, mas simplesmente com a capacidade da total possibilidade de verdade e transparência diante de Deus. A fé é exigente na medida em que obriga a questionar(-me), buscando uma renovação do amor, querer e interesse pessoais. As dúvidas de fé, quando vividas com maturidade, podem ser portas para o aprofundar da mesma. 
Há dias, na aula de “Sapienciais”, enquanto introduzia o O Livro de Job, o professor  fez referência à “blasfémia de Moisés”. Moisés é chamado por Deus, dizendo-lhe que guiará em Seu nome a libertação do Povo de Israel do Egipto. Moisés dirige-se ao Faraó pedindo-lhe três dias para todo o Povo ir adorar a Deus no deserto. Além de um não rotundo, o Faraó intensifica o trabalho do Povo escravizado, numa injustiça tremenda... obriga-os a fabricar a mesma quantidade de tijolos com menos material, açoitando-os enquanto trabalhavam. Moisés, perante tanta injustiça, reza de forma blasfema, culpando a Deus pelo maltrato do Povo e acusando-o de não cumprir o que prometeu: a libertação do Povo. 
Que grandeza a de Moisés! 
Quando se lê a sua vocação, o quanto se opõe a ela e as voltas que Deus dá para lhe mostrar que não tem de ser perfeito, apenas ser quem é e confiar n’Ele para cumpri-la, este sentimento de grandeza torna-se ainda mais denso. Não é grande porque blasfemou. Não é grande porque se mostra forte contra Deus. A sua grandeza reveste-se na fragilidade de não aguentar tanta injustiça e, perante a sua impotência, atreve-se a gritar a e contra Deus. Não se refugia no medo em tocar o todo-o-poderoso, pondo em causa os seus desígnios. Nele habita a dúvida, a inquietação, “afinal Deus não salva”, e não tem problemas em expressar a sua  revolta. Podia ter seguido três caminhos: calar e ir-se embora; gritar e ir-se embora; gritar e, ainda assim na dúvida, ficar. Sabemos que optou pela terceira. 
Não me parece que a espiritualidade seja desencarnada da vida, das suas realidades psicológica, sociológica, filosófica e biológica. São aqueles que são mais próximos em relação que acabam por sofrer mais com o desespero ou tristeza e até com o mau-humor e “resmunguice”. São aqueles que estão mais próximos que sabem que esse grito existencial, vindo das mais profundas entranhas, pode significar precisamente o contrário da aparente acusação. O medo, a fragilidade, a impotência, não devem ser os controladores da relação, mas, sim, a verdade, a transparência e seriedade da mesma... sobretudo com Deus.
 Não caíram raios sobre Moisés, eliminando-o da face da terra. Moisés é confirmado por Deus como o mediador da libertação do Povo, dando um novo passo na relação com Ele. Atrevo-me a dizer que é preciso fé para blasfemar com convicção... quando se o faz sem medo de escutar a resposta que desinstala: “Moisés, porque clamas por mim? Fala aos filhos de Israel e manda-os partir. E tu, levanta a tua vara e estende a mão sobre o mar e divide-o, e que os filhos de Israel entrem pelo meio do mar, por terra seca” Ex 14, 15-16

E o impossível torna-se possível.

Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

Sobre a conversão...



Alex Wolkowicz, da série "Time Windows"

(Versión en español en los comentarios)

Ando às voltas com a preparação de uma coreografia sobre S. Paulo. Uma das minhas principais ideias é tentar dizer que a conversão também se dá a partir da nossa história, daquilo que somos. Não podendo mudar o passado, podemos aceitar e integrar o que cada um foi e é. Aí, consegue-se a força que nos agarra por dentro. Deus não pede o desencarnar de cada um. Muito pelo contrário, pede que cada qual seja o que é na sua máxima profundidade. E isso, mesmo sendo mais difícil do que parece... não é nada impossível.



Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Sentido de ser (IV)


empty night

"empty night" de Brice Portolano


(Versión en español en los comentarios)

“A partir destas coordenadas se compreenderá a insistência na experiência, que responde a uma concepção menos intelectualista do ser humano e, ao mesmo tempo, mais integral, na qual se tem em conta outros tantos aspectos, tais como os sentimentos e os desejos, os motivos e os fins do nosso proceder, as relações e as ocupações, as acções e as reacções que marcam a nossa vida. Antes de entender, sentimos; mesmo sendo verdade que os sentimentos se vejam influenciados pelas opiniões e sejam configurados por elas.
A insistência na experiência, no encontro, na vida, e não tanto em proposições doutrinais, é algo que pertence à fé, que é, ante tudo, adesão pessoal a uma pessoa e, somente a posteriori e como derivação, um assentimento a um código doutrinal e moral. Neste sentido, dita insistência não é nada de novo, apesar de actualmente acabar por ser imposta pelas novas circunstâncias e pelos novos desafios”.
Gabriel Amengual, em Deseo, Memoria y Experiencia - Itinerarios del Hombre a Dios.

Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

Cinzas... em abertura de Quaresma





(Versión en español en los comentarios)


Há gritos que têm de ser dados. De dúvidas, questões, mais ou menos existenciais. De sentimentos que ficaram guardados na incógnita dos acontecimentos ou na procura de quem se é. Parece-me que é um caminho a percorrer. O sentido do tal deserto depois da libertação. Passar do ser livre das amarras para uma liberdade de plenitude. Seria mais cómodo não sair dos anseios, ficar-se apenas pelo prazer do momento, até mesmo do passado, chorando as cebolas.
Não me recordo onde li, mas ficou-me a pairar este pensamento de Rilke: “Tudo quanto é velocidade não será mais do que passado, porque só aquilo que demora nos inicia”. A demora leva a uma estranha profundidade, saindo de um chão firme para o abandono de fé. E nessa “queda” com a sensação de abandono dão-se os gritos... primeiro de desespero, a estranheza perante uma novidade de um eu que se (re)constrói. Depois, solidifica-se o sentir, o silêncio torna-se uma melodia de presença. Permite o segundo grito: o porquê?  Renova-se a relação. Já sem medo de questionar o próprio Deus, o caminho segue em formação. Montes são aplanados, vales levantados. Prepara-se a passagem. A morte tem de acontecer, para que o nome seja pronunciado com todas as letras. Sem outros adjectivos, a caracterização fica, simplesmente, purificada. E dar-se-á a Ressurreição. 

Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

Para hoje: [Gn 2, 25]*




Klaus Kampert



Transparência
Nas mãos entrelaçadas
nos corpos revelados
Vulneráveis ambos
livres.
Complemento de Ser,
Descobrimos o mundo...


* "Estavam ambos nus, tanto o homem como a mulher, mas não sentiam vergonha"



Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Epifania (II)




(Versión en español en los comentarios)


Sabes o que gostava? 
Abrir os braços e lançar-me ao vento. 
Mas tenho de ficar em casa. Não por uma obrigação externa ou internamente imposta. Tenho, mesmo que os ventos me chamem para voos incessantes. Sobretudo aqueles que me levam a sair de casa. Agora não posso. Foi aberta, finalmente entrei nela. Demorei a abrir as janelas. Tinha medo do pó, das imensas teias de aranhas que o tempo foi tecendo. Estava, bem ainda está tudo no mesmo sítio. Os livros, as molduras, os registos da memória física e emocional, daqueles momentos já idos, contudo tão presentes. Ainda não acendi qualquer luz. Prefiro que da janela venha a natural iluminação dos passos vividos, sentidos, sofridos, reveladores de sorrisos que guardavam lágrimas e de lágrimas que guardavam as palavras que ficaram por dizer. Vem a brisa. Mexo e remexo, já sem o absoluto medo que pode impedir de entrar ainda mais fundo nesta casa pequena, minimalista e muito acolhedora. Há brisas e há vendavais. O pó levanta-se. Apetece fechá-la e impedir que esse mesmo pó entre em mim. Não! As janelas estão abertas. Depois de muralhas derrubadas, barrocos que compunham uma falsidade como forma de dizer “sou” sem o ser. Não interessa. As portas abriram-se de par em par. Por isso, tenho de ficar em casa, mesmo que gostasse de voar. Agora é o tempo de (re)conhecer. E assim, mais gostar, sentir, crer. 



Sábado, 21 de Janeiro de 2012

Silêncio...



"Nine birds" de Michael Kenna

...o estudo fala mais alto, levando para outros voos, do pensar e do sentir. Nas dúvidas, nas questões, nos medos e nas vitórias. Há momentos em que não apetece nada. Noutros abre-se uma nova realidade ou simplesmente a renovação de histórias e aprendizagens antigas. Outros caminhos, pequenas veredas, antigas, sagradas, silenciosas.

Domingo, 8 de Janeiro de 2012

Sentido de ser (III)


"Garden #9, 2010" de Shinichi Maruyama


“Toda a vida actual é encontro” (Martin Buber)…
…estabelecido com muitas ramificações, mais ou menos fortes e simbólicas, com maior ou menor sentido. Ramificação entre autores, pensamentos, linguagens, culturas, modos de ver e sentir, através de conhecimentos e sabedorias que se solidificam, no encontro que se faz e nos permite viver de outra forma. O encontro que inevitavelmente leva à transformação do humano que o vive. O encontro, com o diálogo, abre as portas de novos mundos. O ser humano que vive a plenitude de si, com limites e capacidades, reconhecendo-se não criador, mas participante e co-criador da realidade, renova o seu olhar para a sua vontade, desejos, que permitem que caminhe para a pacificação de si, do outro e da cultura em que está inserido.


Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

Epifania




Sussurro-te ao ouvido, em jeito de oração, o encontro que desejo ter.  Abro a janela, vislumbro o mar, deixo que o ar circule na casa há muito fechada. Aos poucos descubro os mistérios, meus e teus em mim. Sempre te mostrei as fachadas. Uma meio barroca, a outra forte como uma muralha. Curioso como se desfazem em nuvens de pó. Totalmente desnecessárias neste momento. Construí-as com o intuito de proteger... no fundo, de mim próprio. É mais fácil ter conchas, mas o esqueleto sustem, equilibra, deixando que a pele seja o primeiro receptor e já não o embate com algo que não  pertence. Por isso, agora e aos poucos, mergulho sem pressas no fundo da realidade... a minha. E vejo tua presença em cada instante, mesmo nos minutos e anos em que erguia o que não era meu, nem de mim. Novos tempos: deixando germinar, limpando, descobrindo, confiando. Faz sentido acolher... não me canso de dizer o quanto a divindade se reveste de humanidade. Vês onde moro, deixo-te habitar.

Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

O erro. O prémio.





essejota. Secção de poesia.
Estava responsável pela edição de Dezembro de 2008. Seria a primeira vez a escolher um poema. Escolho um que, segundo as minhas pesquisas, vinha assinado por Maria Teresa Horta. No início de Janeiro de 2009 recebo um mail da coordenação a reencaminhar outro:
Exmºs. Senhores
Não tendo havido qualquer resposta à minha anterior mensagem, venho reafirmar que o poema "Nasci-te", que me é atribuído na vossa edição de 10 de Dezembro último, não é de minha autoria. Insisto, pois, na necessária e urgente rectificação desse lapso,
Com os melhores cumprimentos
Maria Teresa Horta
Foi rectificado o lapso. Acabando depois por descobrir a verdadeira autoria do poema. E, nesse mesmo dia, envio um email à Maria Teresa Horta. Peço-lhe um contacto telefónico para apresentar as minhas desculpas o mais pessoalmente possível. A resposta não demorou. Telefonei e a Maria Teresa pediu-me o favor de ligar um pouco mais tarde, pois estava a falar com a sua editora sobre a Leonor. Assim o fiz. Estivemos à volta de uma hora ao telefone, onde ficou prometido um chá na minha próxima ida a Lisboa. E começou uma amizade... a partir de um erro. Desde 2009 até 2012 muitas conversas tivemos, em partilha, em voos, sobre poesia e anjos, em escutas do que é a vida,  sobre o corpo, a humanidade feita mulher e homem, juntando crenças e “descrenças”, na gargalhada sobre o que poderia ser impensável se não tivesse acontecido um lapso, um erro.
Nestas nossas conversas a Leonor marcou sempre uma presença. Não fosse ela parte da própria Maria Teresa, que carinhosamente a trata por “minha Leonor”, depois de 13 anos de sonho, investigação e escrita, viagens de alma e de terras, conventos e orações, encontros e história. E a Leonor saiu ao público. A Leonor foi reconhecida, levando a que Maria Teresa Horta ganhasse o prémio literário D. Dinis 2011.

Parabéns Maria Teresa!


Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012

Outra forma de pensar o ano que começa...




Bom dia. Bom ano. Acordámos todos. Absorvemos o universo inteiro. Pelo menos do acontecer diário. Com surpresas. Desejos ardentes de novidades. Mesmo que sejam repetições do mesmo carimbo que apenas altera as datas. Cheias de notas. Musicais. Não numeradas da forma que leva a perder o sentido profundo das coisas. Da realidade feita poesia. Que não se paga. Simplesmente se vê. Cheira. Toca. Ouve. Saboreia. Como gosto de o fazer contigo. Tudo. Partilhar tudo. Com Tempo. Com Espaço. Escolhido por ambos os passos direccionados. Sorrateiramente desnivelados. Sem “ganas” de outros registos. Ou arquivos. Ainda que a história fique a meio. Há sempre a possibilidade de novos rumos. Fios e fios de comunicação levam-nos até ele(s). Basta sonhar. Despertar. Entre o sol ou nuvens. Vislumbrar que o fim também é princípio. E oportunidade. No novo amanhecer...  diria bom.



Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

A minha carta deste Natal





"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida"
Vinicius de Moraes
Queridas amigas, queridos amigos,
Quando estava a pensar escrever a “minha carta de Natal” de 2011 ocorreu-me fazê-lo depois do dia 25 de Dezembro, nos dias em que ainda celebramos o Natal. Sento-me a escrever e ando às voltas com as palavras, com as frases, com o muito que gostaria de  partilhar. À semelhança do ano passado, não tenho tempo para personalizar cada mensagem ou carta como gostaria de o fazer. Então, através das palavras, ofereço um pouco do meu sentir e pensar.
“O impossível é possível”. Esta frase foi dita por um coreano e partilhada no vídeo "A vida num dia". Vi este documentário (de hora e meia) há umas três semanas e pensei que seria um óptimo documentário de Natal. Num condensado de milhares de pequenos vídeos, filmados num só dia, consegue-se transmitir a imensidão do que nós, humanos, somos na diferença e na semelhança. Recomendo muito que o vejam.
Para mim o Natal é, não um condensado de vídeos, mas um condensado de histórias e vidas, misteriosamente presentes no nascimento que mudou o curso da Humanidade, tornando o “impossível possível”. Deus torna-se frágil, Deus cresce, observa com olhos de criança, é muito provável que se tenha constipado, quase de certeza que tinha alimentos preferidos. No fundo, vive a humanidade em pleno. Para mim a encarnação não foi uma brincadeira, foi uma realidade tão forte e tão densa que não pode ser reduzida a um dia. Por isso, quero continuar a celebrar o Natal convosco.
Enquanto escrevo surge o sem sentido de desejar um bom Natal depois do dia 25. Talvez até seja, no entanto, ainda há doces nas mesas, as luzes nas ruas, as árvores e presépios montados, muitos de nós devemos de estar a usar algumas das prendas que recebemos. Também poderá haver quem possa agradecer por já ter “terminado” este dia, que para alguns evoca tristes recordações ou, então, junta tensões dos encontros familiares que têm “pedras nos sapatos”. 
A vida de cada pessoa é tão complexa, cheia de pormenores, de cantos e recantos a descobrir. Uma vez, quando ainda era comissário, sobrevoava Madrid e vi a cidade toda. Já como jesuíta passeava pela mesma cidade e lembrei-me dessa imagem com mais de 9 anos. Apercebi-me que não vi a cidade toda, pois faltavam as ruas, as avenidas, os prédios, as pessoas e tudo mais que se possa imaginar. O mesmo se passa connosco. A sensação de já conhecermos cada canto, nosso ou de alguém, quando, afinal, há uma nova surpresa.
Comigo tem acontecido com bastante frequência. Entro na “cidade” que sou e acabo por descobrir muito mais do que pensava: os cantos, os jardins, prédios derrocados, outros a precisar de restauração, pessoas que já não encontrava há muito tempo, pessoas que prendi, que expulsei, muitas outras com quem me encontro diariamente e me sento à esplanada a tomar algo, em partilha de vida e, sobretudo, destes meus passeios pela minha cidade de vida. 
Isto tem que ver com o meu Advento, o tempo que antecede o Natal. Comecei-o com a passagem do profeta Isaías: “Estou a fazer algo novo, já está a germinar: não estão a notar?” (Is 43, 19). Esta passagem ficou-me no pensamento por vários dias. A novidade que acontece diariamente e eu nem me apercebo. É verdade que não se consegue estar atento aos pormenores infinitos que passam em cada momento, no entanto, até que ponto não se pode ver uma nova oportunidade em deixar que algo germine em cada uma das nossas vidas? Por exemplo, se ajudámos alguém nos dias que antecederam o Natal, talvez essa(s) mesma(s) pessoa(s) continue(m) a necessitar de ajuda... há que continuar a ajudar. Se algum de nós precisou de ajuda (material, afectiva, espiritual), talvez continuemos a necessitar dela depois do dia de Natal... não tenhamos nem medo, nem vergonha de continuar a pedi-la. 
O dia 25 já passou, mas não o sentido mais profundo do Natal. Mesmo que possa ir caindo no esquecimento, não passará. Em cada nascimento somos chamados à Vida, ao encontro com o todo que somos, por isso há que vivê-la intensamente, com os desejos e sonhos que caracterizam o nosso ser. Não estará na altura de notar essa vida a germinar? Não importa a idade, nunca é tarde para novos passos de profundidade, de reconhecimento da grandeza que existe no acontecer diário. 
Dou por mim a pensar o quanto há a aprender e a agradecer em cada passo e em cada gesto. Assim, vejo o tempo de Natal como oportunidade de sanar feridas, pessoais ou relacionais, como aquele momento de abrir portas ao que pode surgir da leitura renovada da história, de não deixar que a fé, a esperança e a caridade se estanquem em dias específicos, mas conduzam ao dinamismo que leva à entrega, independentemente da quantidade, do que cada um é e tem. Tudo na simplicidade do quotidiano, nas lutas pela justiça e verdade, na criatividade artística, científica, culinária, no estudo, na possibilidade de avançar para mudanças de vida, contribuindo para que o mundo seja cada vez mais humano.
Como na passada noite de dia 24, continuo a rezar por cada um de vocês, pelos vossos sonhos, desejos e necessidades. Neste novo ano que se aproxima, aconteça o que acontecer, para cada uma e cada um peço esperança, serenidade e oportunidades de encontro com o sentido mais fundo do Natal: a Vida!
Um Abraço muito apertado e até breve!


Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

Recordar o Projecto B




Há cerca de dois anos participei no Projecto B (de Beleza), orientado por Teresa Prima, coreógrafa, bailarina e boa amiga. A seu pedido, no seguimento desde projecto, moderei três Conversas B, onde houve a oportunidade de bons e profundos diálogos, com variados convidados de distintas áreas, sobre a Beleza em várias realidades. Nestes dias a Teresa pediu-me para escrever algo sobre meu sentir do Projecto B. Parei, recordei e escrevi:
Beleza. O caminho mais fácil seria buscar a definição num dicionário: encontrar autores, pensamentos, à volta desta realidade tão densa quanto simples. Não descarto a possibilidade de um artigo mais científico ou académico sobre o tema, mas o Projecto B levou-me a outro lado da Beleza: a Vida. 


Tão simples e tão denso. “Des-cobrir” os esquemas mentais, deixar-me chegar ao coração, dentro da tal simplicidade que leva em si o denso, permitindo a possibilidade de novos movimentos e conhecimentos... abrindo, assim, a porta que leva ao Encontro. Uma das coisas que nos caracteriza enquanto humanos é a nossa capacidade de captar a beleza da realidade: na arte, nos sonhos, nas palavras, nos movimentos que levam a criar(-me) de forma continuada, abraçando a história de que somos compostos, apontando para novos horizontes, curiosamente a partir de uma escuta atenta do “aqui e agora”.


No silêncio profundo, aquele que conecta com a mais íntima realidade de ser, é possível outro diálogo: o que parecia ser desde sempre, torna-se novo. A beleza como entrada numa nova forma de ver. O que parecia estanque, fechado, quase sem sentido, ganha dinamismo, dá-se a renovação dos acontecimentos que sempre pareceram tão iguais, tão mais do mesmo. 


Tudo traduzível na troca de experiências a estabelecer entre as várias dimensões de nós, humanos, ao nível exterior e interior. A beleza do encontro através do encontro com a beleza por quem está disposto a viver a reciprocidade do dar e do receber. Deixar que a conversão aconteça, permitindo o espaço de universalidade, através da compreensão, do respeito, da integração da relação geradora de vida.


Tudo passa inevitavelmente pelo entender do que está para além do meu rápido ver ou escutar, do que está para além da superficialidade do momento, do que está para além do meu gosto ou desgosto desta ou daquela pessoa. Pode-se dizer: conhecer para aprofundar um mais que se esconde no imediato, sem pensamento ou reflexão. Depois, mais que o conhecimento, entraremos na sabedoria que conjuga a plenitude do viver. O convite ao saber viver.


A sabedoria da vida: promove a abertura ao Outro. Saio da minha casa, entro na cidade, que me aponta o país, levando-me ao planeta e daí entro no Todo. Dá-se a consciência, a revelação, o êxtase clarificador da pequenez que nos torna grandes diante do olhar Divino.
E assim sou chamado a promover a beleza do encontro e sentir a certeza de somos criados não para uma uniformidade, mas para uma união de corações, mais ampla que as diferenças. Nesses passos, o Infinito descobre-se e a Beleza surge em toda a Sua plenitude, revelando a densidade presente em tudo o que é verdadeiramente simples... e belo.

Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Detalhes... ou pormenores!



(Versión en español en los comentarios)

O que atrai numa pessoa? 

Por vezes penso na característica de ser. Ser em detalhe que chama a atenção, ou que, no silêncio desse mesmo detalhe, torna-se verdadeiramente especial. Não significa necessariamente inteligência, nem beleza fashion. O olhar, a pergunta que faz e como faz, o interesse pelo circundante, aquilo que a torna única... simplesmente única.
Tenho encontrado tantas pessoas assim, únicas. Interessantes de conhecer. Pela sua simplicidade, pelo seu vestir, pelo seu desejo de descoberta, pela gargalhada sonante, pela recordação de cada momento. A imagem que me surge: sentar-me a tomar chá e ficarmos horas em conversa. Depois, partirmos os dois mais cheios dando o melhor de nós por esse mundo fora. Afinal, ficámos mais preenchidos de novidade. Talvez por isso é que acabo por ver, mesmo no comum do quotidiano, uma nova tonalidade, retocada pelo detalhe que marcou o dia. 
Sei que a vida não é sempre pautada por isto, assim, como uma pintura bonita de dias floridos. No entanto, se se torna como uma máquina de rotina, onde tudo é igual, na “mesma como a lesma”, corre-se o risco de não viver o que nos é dado, nem as pessoas que conhecemos ou surgem pelo caminho. E não seria necessário esperar por um “abanão forte”, como uma doença ou a morte... basta estar atento ao pormenor. Mesmo que aparentemente seja pequeno, pode ser o suficiente para mudar a vida. 

Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

O sentido de ser (II)


"Casse-Tête" de Jean-François Rauzier


“A relação, comunicação entre um Eu e outro Eu que aparece como Tu, só é possível, das as circunstâncias que requer, num momento de puro presente. Com os objectos posso relacionar-me tanto num plano passado, por exemplo, ao recordar de algo, como numa perspectiva de futuro, como quando oriento a minha acção até determinados fins. Mas com um Tu só posso estabelecer uma relação viva no presente. No momento em que queira referir-me ao Tu desde uma projecção temporal de passado ou futuro, estaria a convertê-lo num objecto do meu pensamento.”
Miguel García-Baró in Una reflexión sobre la compasión a partir de la filosofía de Martin Buber