segunda-feira, 29 de junho de 2015

Coisas do regresso a Portugal :)




A transição para Portugal começou com um encontro inesperado ainda em Paris. Na comunidade estava o Pe. Alexis Prem Kumar, antigo director do Serviço de Jesuítas aos Refugiados no Afeganistão, que esteve refém pelos talibãs durante 8 meses. Aí falámos um pouco desses dias e disse-lhe que em Portugal também muita gente tinha rezado por ele. Ficou muito agradecido. Daí a ideia da selfie, como forma de agradecimento. Seguiu-se o resto das arrumações; dormir duas horas e ir para o aeroporto. No check-in a senhora estava muito agitada a chamar o supervisor. Só dizia: “Staff! Staff! Il est staff!” Não estava a perceber o que se passava, mas consideraram-me como “staff”… ;) Até que vi o cartão de embarque: executiva. Deu muito jeito, pois para económica tinha excesso de bagagem, o que deixei de ter, podendo levar até dois volumes para a cabine. Foi perfeito. Depois percebi que houve “mimos” dos amigos aviadores… o que agradeço muito, muito. Não me roguei. Sendo dia de S. Paulo, recordei a sua passagem que fala do saber viver ora quando se tem e ora quando não se tem. Lá fui ao “lounge” tomar o pequeno-almoço. Voltei ao ambiente de avião: tão bom! Houve boas conversas de galley, a recordar velhos tempos. Depois aterrei em Lisboa no cockpit: foi fechar um ciclo para começar outro com grandes vistas. Como me disse a Suzanne: “Olha, foi uma transição à grande e à francesa!” ;) Rezei em acção de graças por S. Pedro e S. Paulo… acho bonito e fortemente simbólico regressar neste dia. E como se canta na famosa música do Dino Meira: “Voltei, voltei, voltei de lá. Ainda ontem estava em França e agora já estou cá!” ;) De fundo há sensação boa, muito boa… da vontade de anunciar a Vida em abundância de Deus. 

domingo, 28 de junho de 2015

Au revoir, Paris !




[FR] Merci Paris ! Merci a tous les nouveaux amis de Paris ! Merci pour ces deux ans de Vie dans ma vie. Dieu a travaillé beaucoup en moi dans ce temps et je pense que je l’ai aidé aussi. ;) C’est la ville de l’amour et de la lumière. Que ça continue à passer, pas seulement dans les filmes ou dans l’imaginer des gens, mais dans le cœur de chaque personne. Je suis heureux pour tout que j’ai vécu ici. Je quitte avec une marque d’une forte sensation d’action de grâces. Je continue à prier pour vous, chers amis. Je vous attends au Portugal. ;) À très, très bien tôt, j’espère ! Je vous embrasse avec tendresse !


[PT] Obrigado! É a agradecer que faz sentido terminar mais esta etapa aqui em Paris. Sou feliz pelo que aprendo e que vivo. Espero continuar a dar, como sou chamado. Portugal, até amanhã! ;) 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Vibrações, diferença e paz





[Coisas do quotidiano em Paris] Claro, esta secção não podia faltar nos últimos dias. Estava há pouco a dar um passeio quando, em plena rua, vejo uma senhora metida num grande cuenco tibetano, com outro na cabeça. Dois senhores lá tocavam nos dois cuencos para provocar vibração. A senhora quase levitava. Depois, no autocarro, vi esta senhora e este senhor a trocarem contactos. Tão diferentes no modo de vestir e unidos pela paz. O que despontou a conversa foi ele ter-se despediu-se de alguém a dizer: “Precisamos de paz na diferença!” Estando sentados em frente um do outro, a senhora deu um sorriso e disse: “Je suis d’accord!” E puseram-se a conversar. Em dia de tristeza pelos atentados, é uma pequena lufada de ar fresco ver encontros na diferença, seja a “levitar” com cuencos, seja em conversas a partir da paz. Tendo em conta o post de há pouco, hoje foi dia de UNESCO tanto na sede, como na rua. 

UNESCO



Fui pela primeira vez à UNESCO no dia 27 de Novembro. Nesse dia vivi a alegria da passagem do Cante Alentejano a Património Imaterial da Humanidade. Vivi igualmente a surpresa de uma nova amizade a surgir. Voltei lá mais vezes para boas conversas de vida, de humanidade, em alegrias e tristezas, dores e esperanças, de partilha daqui e dali sobre educação, ciência e cultura, de escuta, de pensar e de sonhar. O mundo da cultura, nessa riqueza da diversidade, também me ajuda a continuar a percorrer caminhos de fé, de humildade, de respeito e de aprendizagem na escuta de outras perspectivas. Perceber a importância da cultura, da educação e da ciência, em boas reflexões, é também ir percebendo quem é o ser humano.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Dança e agradecimento




Quando termino etapas sinto sempre profundo agradecimento. É muito o que recebo. Um dos encontros importantes que levou a uma grande amizade é sem dúvida o que tive com a Diana, minha professora de dança durante este tempo de Paris. Hoje tivemos a última aula, pelo menos por cá (nunca se sabe o futuro ;) ). Foi muito o que aprendi com “mi maestra.” Este trabalho, implicando corpo, dança, movimento, foi fundamental para o caminho que faço de autenticidade comigo, com Deus e com os outros. Recordo das primeiras coisas que me disse: “o que recebi é para dar, não me interessa guardar para mim.” Deus esteve presente nas aulas, entre partilhas e respiração. Houve transição nas nossas vidas, em gestos que ganham consistência e densidade em dança que “torna visível o invisível.”

terça-feira, 23 de junho de 2015

Mudanças




As mudanças são aborrecidas. Ponto! É estranho começar a ver o quarto a ficar vazio. Recordo a primeira vez que mudei de quarto no noviciado. Não achei piada nenhuma: “Ainda há 6 meses mudei-me de Lisboa para Portimão, depois para Coimbra e agora ando a mudar outra vez!” Pois, é a nossa vida de jesuítas, em sinal de disponibilidade, de ir aprendendo a partir para onde somos enviados em missão. Já não sinto a fúria que senti no noviciado, apenas aquele lado aborrecido de encaixotar. ;) Despersonaliza-se o quarto mais uma vez. Por seu lado, a vida vai ficando mais cheia de nomes, rostos, histórias, acontecimentos. Tal como em registos de livros… muitos livros. ;) 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Mestrado em Teologia: check!




Hoje, depois de hora e meia de exame final, por um lado, à volta de uma questão teológica sobre a Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo e não a cervejaria/zona de Lisboa, entenda-se ;) ), por outro, sobre o dossier final de ano que escrevi com uma dissertação teológica sobre o apanhado geral dos estudos feitos, dou por concluída esta fase de estudos. Mestrado em Teologia: check! :D Houve algumas perguntas de “chatear”. Ajudou estar calmo e tranquilo, afinal com esta idade já não estou para este tipo de chatices. O que sei, sei. O que não sei, pois não vou enrolar, não sei. Parece óbvio, mas não foi há tanto tempo quanto isso em que os exames eram momentos dramáticos desgastando-me a provar, estupidamente a mim mesmo em primeiro lugar, que era capaz, ou que sabia, ou que até era digno de ser jesuíta. Isto para mim é um grande ensinamento para as cenas dos próximos capítulos que se aproximam em que serei professor: ajudar os alunos a buscar a verdade e autenticidade de si próprios. Agora: semana de “até já”, “até logo” e, claro, encaixotar. Também faz parte!

domingo, 21 de junho de 2015

Em dia grande



Andrew Hara


Em dia grande escrevo
cada deixa de silêncio.

Após o ponto final
parágrafo
fitarei o horizonte.

Rodeado de rosas fogo 
caminho de pés em terra.



quarta-feira, 17 de junho de 2015

Gestos




AFP/Bülent Kiliç - Sírios a fugir do Estado Islâmico por uma abertura na fronteira com a Turquia


[Secção outros tons] Há gestos que só podem ser compreendidos por outros gestos. Não se trata de argumentos, nem de razão. Apenas deixar o corpo ser. Aí, o silêncio condensa-se de existência e percebe-se que a humanidade não pode ser maltratada por arame farpado, nem por muros que impeçam a liberdade.

After-Sun ;)




[Pausa para boa publicidade] Parece que é daqui a muito tempo, que ainda há todo um Verão para a acontecer, mas… para programar é bom saber. Ah, pois é. AFTER-SUN a chegar nos dias 4, 5 e 6 de Setembro. Um fim-de-semana onde se juntará muita gente dos 18 aos 35 anos em Cernache. Em breve aparecerá o programa detalhado… entretanto, aguça-se o apetite com o “Lado B da vida - livres para decidir”. Em caso de dúvidas, inquietações, palpitações, informações ou já o propósito firme de inscrição, favor escrever para: aftersun2015@gmail.com.  

domingo, 14 de junho de 2015

Primeiras Comunhões



Diana Ringel


[Secção coisas na vida de um padre] Pela primeira vez dei a primeira comunhão a um grupo de crianças. Sorriam com “cara laroca" de contentes por este dia. No corredor, antes da Missa começar, fizemos a “onda” umas duas vezes: “Olha à ondaaaaa… ooohhh uééééé!!!” Ao vê-los, sentia-os nervosos… e, claro, apesar do nervosismo normal das coisas importantes, há que mostrar que o respeito e seriedade não têm de ser vividos a partir da rigidez, mas da alegria e presença. Foi bom ouvir-lhes as gargalhadas. Na celebração, recordei a importância de nos alimentarmos de Jesus, para depois sermos nós alimento de paz, serviço e justiça uns para os outros. Comungar é fazer e promover a união, entre cada um de nós e Jesus e entre todos nós. Por vezes há dificuldades, por imensas questões de personalidades, histórias pessoais, etc., no entanto, o caminho é deixarmo-nos ir conhecendo e amando, por nós mesmos e por Ele. Se há esse alimento de fé, sabemos que essa semente vai crescendo noite e dia… e se é bem cuidada, dará muito fruto.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Coração



Mel Kevin Jumangit


[Secção outros tons] Embelezam o coração de cores várias. Desenham-no em piedade entre o sofrimento e a alegria. Apenas fala de misericórdia, com a suavidade dos que sabem tocar a liberdade de amar. No ritmo constante, variando-se em sístoles e diástoles, o sangue nutre o movimento de erguer o olhar e a palavra: a tua fé salvou-te. Dias depois, no silêncio, vendo a cabeça tombada, aperceberam-se que a vida entrega-se. “Fazei isto, por todos, em memória de mim!”, ecoa, recordando esse amor de entranhas.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Impedir um assalto




Nicole Cambré


[Coisas do quotidiano em Paris, que não gosto e não quero que se repitam] Infelizmente é do quotidiano. Ontem impedi que um assalto tivesse um final feliz para o assaltante. Após o toque de fecho de portas do metro, um miúdo dá um puxão e rouba um telemóvel de uma senhora. Rapidamente forço as portas, não deixando que se fechem e vou a correr em direcção ao miúdo que fugiu para o lado sem saída. Aproximei-me dele… sentia-se o nervosismo. [Entretanto o maquinista do metro sai também] A primeira coisa que lhe disse: “O que ganhas com isto? Alguma coisa!” Fugia-lhe o olhar e abanava a cabeça em não. Notava-se que ainda queria fugir, mas não conseguia. Voltei a perguntar o mesmo e pedi-lhe o telefone. Deu-o à senhora que aproximou-se. A senhora perguntou-lhe a idade. Não percebi se respondeu 16 ou 17, mas era por aí. O maquinista perguntou se queríamos chamar a polícia. Perguntei à senhora e ela disse que não. O miúdo sentou-se no banco. Antes do metro começar a andar, olhei-lhe nos olhos e de forma vincada disse-lhe: “Desta vez tiveste sorte, muita sorte. Pensa no que queres fazer na vida. Não te ponhas a roubar para provares nada a ninguém!” Entrei no metro e seguimos. Ele ficou sentado. Duas coisas: controlei-me para não lhe dar um par de estalos. Sinceramente, mais do que por ter roubado, por estar a fazer aquilo com aquela idade, claramente para provar algo a alguém. Depois, tirando uma ou outra pessoa que saiu do metro para assistir à situação, mais ninguém saiu para ajudar. Isso magoou-me. Reconheço a generalização, mas o que senti ontem foi a indiferença diante do mal a acontecer ao outro e, de algum modo, o medo do que “me possa acontecer”. Pois, e se fosse comigo? Já fui assaltado há uns anos, com faca de ponta e mola e a sensação é terrível. Mas, nesta linha social, fiquei a pensar no miúdo durante bastante tempo. Enfim, o que me vale é que acredito e sei de bons exemplos que mostram que, mais do que gente diluída em manadas insensíveis, somos capazes de ser humanos, no serviço ao outro, em particular na educação.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Pátria Lusitana




Passei pela UNESCO. Sabia que estaria a bandeira portuguesa hasteada ao lado da das Nações Unidas. Vi-as a flutuar e comovi-me. Esta coisa do símbolo tem que se lhe diga. Em mistura de saudade, angústia, orgulho, nem sei. Por mais que se fale de globalização, as raízes são sempre de terra nossa. Mesmo que esteja de certo modo em caos, onde por influência de (des)valores corre-se riscos de perder identidade de língua e de gesto. Como portugueses temos garra, sim, nessa vontade de ir longe… mas, depois, há momentos que nos mirra a crise de auto-estima e ficamos presos à superficialidade do medo, do cómodo ou da eterna queixa, fazendo pouco para mudar. Em tempos o mar foi a nossa ida, hoje parece-me ser o infinito do Céu, sem esquecer a força da pátria, nesse amor Luso que nos faz acolher. Já o escreveu Fernando Pessoa: “Deus ao mar o perigo e o abismo deu, / Mas nele é que espelhou o céu.” 

terça-feira, 9 de junho de 2015

Categorias? Rostos e nomes



Marco Vernaschi


[Secção outros tons] Espera-se sempre pela categoria. O gesto firme de classificar, arrumar na prateleira ou cacifo das coisas ou pessoas. Alivia-se, para assim se amar ou odiar, sem perder tempo em tentar perceber o coração que igualmente bate, ou pulmões que inspiram o mesmo cheiro de terra molhada, de maresia, de vento. As crenças podem ser diferentes em igual fome de fruta colhida no quintal. Em resumo, não há categoria nenhuma… apenas rostos e nomes.

Os últimos dias...




Estes últimos dias foram bastantes cheios: de celebrações, encontros, conversas e defesa. No sábado abençoei o casamento de dois amigos: a Julia e o Sérgio. Conheci a Lourdes, avó da Julia, com quem ficaria horas à conversa. É daquelas pessoas cheias de sabedoria, que articulam o sorriso das histórias com as lágrimas da emoção. Como lhe disse: “Querida Lourdes, a senhora é muito bonita!” Enrubesceu e agradeceu, com a simplicidade de quem conhece a beleza da vida. Quanto aos noivos, aquela felicidade estampada no rosto. A felicidade de quem leva amizade dentro, de saber o que se está a fazer. Disse-lhes o costume, o óbvio, o evidente, mas tão importante a recordar: não exijam do outro o que ele não pode dar; amem-se, sabendo que o amor muda, tal como vocês; sejam criativos e nos momentos de cansaço, recordem a história que despertou o amor; saibam que Deus está sempre pronto a vos apoiar. Aos familiares e amigos também recordei a importância da amizade, desse suporte que há que dar aos dois enquanto casal. Isto em vésperas da defesa da tese. Foi ontem: já está! Estou muito contente. Entre considerações, perguntas e respostas, ficou a forte recomendação de não deixar este projecto de relacionar a dança e a espiritualidade, até mesmo a teologia. Afinal, é óbvio ;) que a dança pode dizer e fazer despertar muito de Deus em cada um de nós. Parece-me que há muito estereótipo a combater… sobre a dança e sobre Deus. :) Agora, começar a preparar o exame final.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Acessórios para telefone




[Coisas do quotidiano em Paris] Estava com amigos. Uma amiga de uma amiga começa a falar ao telefone. De repente, toda a gente a olhar. De facto, há acessórios e... há "A"cessórios para o telefone. “Isto merece uma foto!”, pensei. “Queres experimentar?” Pronto”s”, saiu uma “sélfe”. Salientar que este telefone, para além de todo o sucesso em cada momento, já fez um televisivo. A A. é advogada e um dia, numa audiência importante com direito a televisão, foi apanhada num directo por ter este telefone cravejado de brilhantes rosa choque. Haja criatividade e animação. :) 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Nova Missão




Teresa Lamas Serra - Topo da Capela do Colégio das Caldinhas, com rastos de avião. 
De algum modo, passado, presente e futuro numa foto.


Estou muito contente! :D O Provincial confia-me uma nova missão: de Paris seguirei para o Colégio das Caldinhas, em Santo Tirso. Quando recebi a carta senti grande consolação, como se as entranhas sorrissem neste dar de mim a que sou chamado. Será um dar com escuta do que também irei receber. É um dar que tem o suporte de toda a formação, humana, espiritual, académica, profissional, que recebi até agora. São novos desafios que se avizinham, pessoas novas a conhecer e a acolher. Volto para um colégio. Tenho muito a aprender, reconhecendo a aprendizagem feita no Colégio Imaculada Conceição, em Cernache, que tanto me ajudou na descoberta do mundo da educação. É tempo de agradecer a Deus pelo futuro que aí vem. Estou muito contente! :D

terça-feira, 2 de junho de 2015

"Não acredito em Deus"




Alexey Trofimov


Tive uma conversa que me deixou a pensar. “Paulo, há muito que busco acreditar em Deus. Já passei por várias fases, entre a revolta, a queixa e a total indiferença. Cheguei ao ponto do mais óbvio: assumir que não tenho fé em Deus. Do que me apercebo, nunca tive.” Dizer que é alguém que busca a autenticidade de si mesmo e que de ignorância tem muito pouco. Normalmente, sai-me logo aquele desejo de provar, de mostrar os vários níveis de fé, etc. Mas, não… daquela vez sentia nas entranhas que deveria estar em silêncio. Não me apetecia nada estar com respostas argumentativas a provar a fé. De todo o corpo saía silêncio para escutar a verdade daquela pessoa. Nesse silêncio, o meu pensamento acelerava-se: se há o mistério da fé, também há o mistério do não acreditar. Eu vivo o contrário, acho que nunca “não acreditei” e digo-o com liberdade, por já ter passado por muitos momentos de dúvidas que terminaram sempre com a profunda sensação de presença de Deus na minha vida. Não sei se tenho muita ou pouca, não vai de quantidades, apenas sei que sou um homem de fé. É verdade que a pessoa ficou surpreendida com o meu silêncio. Parece que se espera que um “homem de Deus” esteja sempre a provar a existência divina. Naquele momento, percebi que o que podia dar era a minha escuta e amizade. Pediu-me para voltar a conversar.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Em dia da criança...




Amy Hildebrand

[Escrito há um ano, mas mantém a mesma vida] Crianças, que nós adultos sejamos capazes de vos libertar de toda a escravidão, dando-vos a possibilidade de crescerem aos vossos ritmos. Crianças, que nós adultos permitamos que os vossos trabalhos sejam sempre de descoberta e de gozo, nunca vos cortando o sonho e a imaginação. Crianças, que nós adultos sejamos sempre motivadores da vossa existência, da vossa educação e do vosso sorriso, sendo cada um de nós amparo nas vossas quedas. Crianças, façam-nos recordar a criatividade que permite encontrar uma nova personagem em cada objecto ou nuvem e que todos somos convidados a brincar “infinitos”.

domingo, 31 de maio de 2015

Coisas da vida de um padre




Aconteceu: o despertador não tocou. Ouço movimentos pela casa e ainda tive a lata (ai o sono!) de pensar “que barulheira… esta gente não pensa nas horas?” Pois, as horas já eram adequadas para o normal barulho da hora que gosto de chegar à Igreja para calmamente preparar a Missa. Salto da cama. Despachar o mais rápido possível e chegar provocando algum atraso na Missa. Senti-me mesmo aflito. Não acho piada nenhuma ter pessoas à minha espera e neste caso, pior: MISSA! ;) Lá cheguei e celebrámos. Fecha-se o mês dedicado a Nossa Senhora e por estes lados franceses hoje é o dia da mãe. No final, chamei todas as mães à frente e, em nome de toda a comunidade ofereci uma rosa a cada uma. Já se imagina a emoção! Depois estive a confessar as crianças que se preparam para a primeira comunhão… em cada uma tive de me controlar para não rir. “Preferes falar em português ou em francês?” “Português!”, respondiam muito determinadas. “Então, vamos começar: o que é que gostarias de agradecer a Jesus?” “Moi, hmm, j’aimerais dire merci à Jesus pour…” [os meus neurónios baralhavam um bocadinho]. No final, claro, continuando em francês: “Alors, peux-tu dire l’acte de contrition?” “Oui.” Ajeitavam-se com muita solenidade e: “Meu Deus, porque sois tão bom…” Era todo um salto entre o português e o francês. Uma animação, portanto! Depois, a bela festarola com os catequistas e o coro. É bonito e muito bom ver como as pessoas nas comunidades dão o seu melhor, partilhando talentos. :) Também ao longo do dia, tal como rezei na Missa, pedindo a oração de todos, fui pensando nos tripulantes de cabine, neste seu dia mundial. Em honra, tendo em conta o meu atraso, no início da Missa, na altura de pedir perdão, fiz o discurso aéreo de “pedidos de desculpa pelo atraso”, que despertou algumas gargalhadas. ;) Agora, continuar nos estudos que, apesar de já ter entregue a teses, ainda faltam umas coisitas para terminar tudinho!! :) É isso: Haja animação! 

sábado, 30 de maio de 2015

Pais católicos com filhos de orientação homossexual



Michael George


Há umas semanas estive à conversa com uns pais católicos com um filho homossexual. Comentaram-me que desde há 6 anos que iam a um encontro nacional de grupos de casais que viviam esta situação e sentiam necessidade de partilhar entre eles os desafios de aceitação, acolhimento, compreensão e conhecimento da complexa realidade que é a homossexualidade, em particular dos filhos e/ou netos, e a fé. Foi hoje o encontro. Estavam casais, pessoas de orientação homossexual, religiosos e leigos enviados pelos bispos das respectivas dioceses a trabalhar esta dimensão da pastoral da família. Éramos cerca de 50 pessoas. Foi um dia de escuta de muitas partilhas. Uma palavra que saiu bastante foi “audácia”, sobretudo por parte dos bispos em arriscarem a conhecer e trabalhar com estas famílias. Outra, “prejuízos”, tanto da parte de Igreja, como da parte de homossexuais. É sabido que há feridas muito grandes, mas a que mais custa, como comentou um casal: “foi a rejeição que vivemos por parte de membros da comunidade paroquial.” No entanto, como comentou outro casal, há boas surpresas: “Houve o dia das famílias. No átrio da catedral puseram o stand do nosso grupo ao lado do das Equipas de Nossa Senhora [pelo que percebi, sobre estes temas seguem uma linha mais restrita]. Havia alguma apreensão, mas apercebemo-nos que havia muitos casais nesta situação, presos pela vergonha, medo, enfim, o que já tínhamos passado. Foi oportunidade de boas conversas. Um dos casais já se juntou ao nosso grupo.” Este último casal comentou ainda que vai haver uma peregrinação que juntará casais e respectivos filhos e amigos homossexuais, onde o bispo faz questão de estar presente. Ainda tenho muito a digerir deste dia. Sei que o tema é muito complexo, havendo reacções muito variadas. No entanto, os tais prejuízos de parte a parte são muito nefastos e impedem a possibilidade de Deus agir. Por isso, mais do que o combate à base de ataques e defesas, a escuta e o diálogo são fundamentais para a boa reflexão e caminho a ser feito.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Liberdade de encontro com o Pai




Steve Webb


Não me parece, de todo, que Jesus tivesse alguma obsessão. Ideologia? Muitíssimo menos. Primava, sim, pela liberdade. Nisso era radical, ou seja, além de ser plenamente livre, ía às raízes do que impedia a liberdade de encontro com o Pai e mostrava como as eliminar. Das grandes preocupações que tinha, muitas, para não dizer todas, relacionavam-se com a falta de amor ao próximo. É certo que nalguns momentos abordou, por exemplo, questões de temática mais sexual. No entanto, rapidamente “chutava o tema para canto”, de modo a ir ao essencial: a importância de cada ser humano na sua liberdade de encontro com o Pai. Diante dos muitos pios, que exteriormente eram imaculados no cumprimento da lei, foi duríssimo, recordando-lhes que punham as cargas pesadas nos ombros de outros e nunca nas deles. A sua morte, também resultado da condenação dos “imaculados” e que aparentemente foi uma grande derrota, revelou-se o momento em que abraçou todos os rejeitados, aqueles que hoje são vítimas, por exemplo, de escravidão, corrupção e abuso de poder. Esse abraço culmina com a ressurreição, que abre caminho à presença do Espírito… que sopra onde quer sempre com muita frescura, convidando não à condenação, mas à liberdade de encontro com o Pai.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Entre cartas e anjos




Pablo Ponti

Entregam cartas
onde as palavras
são musicadas
de corpo,
verdade,
sentido.

O próximo é 
tema constante,
a descobrir.

E assim se 
conhecem
os anjos.


segunda-feira, 25 de maio de 2015

Testemunhos




Quando dou testemunho vocacional, revejo inevitavelmente a minha história. E se pode ajudar quem o ouve, também eu sou ajudado por mim mesmo, ao recordá-la com as suas alegrias e tristezas, vendo onde fui crescendo, amadurecendo e onde ainda estou estagnado. Por perceber a riqueza do (re)contar a história, do voltar atrás, aconselho os casais a fazerem o mesmo. Sim, surge a sensação de ridículo, do “não tenho pachorra ou idade para isso”, mas o segredo de recontar a história ajuda a tomar consciência do caminho feito até hoje. Recordar as alegrias, os momentos de crise, como foram ultrapassados (ou não), os momentos de desgaste, de abandono da relação, o que mantém a chama viva (mesmo que seja muito ténue), nesse desejo de não querer separar, pode ajudar a perceber e a tomar as decisões mais acertadas para o futuro de cada um e dos dois. Hoje li o que considero um testemunho vocacional da vida de casal, a partir da celebração dos 15 anos de casados. Conheço a Sónia e o Ricardo e na sua diferença têm feito caminho de complementarem-se “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”. E a surpresa que a Sónia lhe preparou fez com que um e outro, de modos diferentes, fizessem uma viagem ao que já viveram. Parabéns a eles… como casal, pelos filhos e pela criatividade de vida a um, a dois e a seis. É a família Cocó na Fralda!


José Fernandes

É mais que conhecido o carinho e a amizade que tenho com a Mafalda. Hoje tive um dia intenso de boas conversas e há pouco, ao chegar a casa é que tive oportunidade de ler este artigo/entrevista. Mais uma vez, está no ponto e é de partilhar, claro. Aqui está uma tirada que dá que pensar: “[As crianças] são educadas como se todos fôssemos muito perfeitinhos. E não somos. Os pais protegem muito as crianças de lidar com pessoas como eu e isso irrita--me profundamente. Ou na família há alguém próximo com um problema semelhante ao meu, ou então a deficiência não existe até chegarem a adultos. E depois são preconceituosos. Os pais lidam muito mal quando numa escola, de repente, é colocado um miúdo portador de deficiência. Não têm paciência para as perguntas que os filhos lhes fazem sobre o assunto.” 

domingo, 24 de maio de 2015

Pentecostes




Steve Bradburn

Tenho um carinho especial ao Pentecostes. Entre o gostar muito da leitura dos Actos dos Apóstolos, viver a presença do Espírito na sua ternura e força, no aconchego e no desinstalar, parece-me que este dia é muito marcante por convidar a abrir ainda mais horizontes. É difícil aguentar que o Espírito sopra onde quer, mostrando-me o valor do amor que impele a sair dos meus prejuízos e preconceitos sobre o ser humano (em geral e em alguém específico). Obviamente não é algo que acontece de um dia para outro, daí os ciclos de renovação e em mais um ano celebrar-se o Natal, a Páscoa, o Pentecostes. Acredito que nesses tempos algo novo acontece se tomo à séria a autenticidade da fé de Deus em cada pessoa, em mim. Apenas depende de nós aceitar as riquezas dos dons… e pô-los a render, nesse caminho de humanidade e divindade a que somos a chamados viver.

sábado, 23 de maio de 2015

Vocação [testemunho e acção]




Kelsey Gerhard


Esta manhã fui dar um testemunho vocacional aos alunos do 12.º ano do nosso colégio aqui em Paris. Falei sobre as alegrias e tristezas, os desafios, as dores e as riquezas e possibilidades da vida religiosa e, no meu caso, como padre. Avacalhei tanto… Às vezes penso que devia ganhar mais juízo, ou não. ;) No final, houve uns quantos que vieram falar comigo em particular, com mais uma ou outra questão. Já sabemos que este ano é muito importante pelas decisões de futuro. Houve um que me disse: “afinal, pelo que ouvi da tua história de vida, a decisão que eu possa tomar agora sobre o curso, universidade, etc., não tem de ser tipo ‘fim do mundo’. Sim, é importante, mas tenho muito de vida pela frente.” E outro: “bem, pelo que vi, a vocação religiosa não é nem triste, nem aborrecida.” Com um piscar de olho disse-lhe: “olha, pensa nisso para ti.” Ele: “Não me tinha ocorrido, mas vou guardar a questão.” Lá conversámos mais um bocado e foi uma animação. :) Que continua agora à tarde. Nestas vésperas de Pentecostes e em dia de beatificação do D. Oscar Romero, vou baptizar 4 crianças.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Nostalgia




Imogen Henderson


Estou a entrar naquela fase estranha em que a nostalgia começa a ganhar terreno. O tempo de Paris aproxima-se do fim. Há vontade de partir, sim. Cá em casa brincam muito comigo por tomar quase sempre o pequeno-almoço de pé. Digo-lhes que é de vocação, isto de estar disposto a partir, a ir. Por vezes há regresso, outras vezes não. Durante a viagem, passeio ou caminho vou encontrando tantas pessoas. Umas de passagem, outras que marcam: a relação ganha o forte contorno de amizade. Por isso, até mesmo nessa vocação de partir há aquele aconchego também na vontade de ficar, perpetuando momentos, conversas,  silêncios, abraços que foram partilhados. Ao longo destes anos tenho descoberto que haverá sempre um ponto de encontro: a oração… que convida a uma mensagem, mail, telefonema. Pois, estou a entrar naquela fase estranha em que a nostalgia começa a ganhar terreno. Também é bom, por ser sinal de vida e de afecto.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Falta de amor[-próprio]



Patrick Quinn


Tenho para mim que um dos grandes pecados é a falta de amor-próprio. As outras coisas que parecem pecado, serão apenas tristes consequências dessa falta de amor. Quando o “amar-se a si mesmo” não é cultivado, rapidamente o orgulho, a soberba, a necessidade de afirmação vão tomando espaço no ser e depois dá-se violência, muita violência, manchando nomes, instituições, comunidades. Quando há este amor, na aceitação de quem se é, até as comparações acabam por se diluir. Nestes dias, a pensar no envio do Espírito como advogado de defesa, dei-me conta que bastantes vezes acaba por defender-me de mim próprio, naqueles momentos em que deixo de acreditar em mim. Ah, e se surgir confusão entre amor-próprio e egoísmo, rapidamente se dissipa quando vejo que vivo mais a “amar o próximo” sem lhe exigir que seja como eu.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Tomorrow shall be my dancing day - entregue!




no metro, a caminho da faculdade


[Secção “tese”] Entregue! Agora espero pela defesa. O caminho deu-me que pensar, abrindo-me perspectivas… com algumas “dores de entranhas”. Sinto-me agradecido a muita gente, em especial ao Philip Endean, o orientador, que desde logo acreditou na minha intuição. Depois aos companheiros jesuítas e outros amigos com quem fui e vou tendo boas conversas sobre estes temas. O título é o primeiro verso de um cântico inglês de Natal… sendo Jesus a dizê-lo no dia anterior à sua encarnação. Depois, todo o cântico vai articulando a vida de Jesus até à Ascensão, onde na última quadra há o convite ao ser humano de participar na dança divina. Obrigado também a tantos vocês que foram dando apoio em mensagens. Estou contente. :) Vou dançar um bocadinho e rezar agradecido. :) 



domingo, 17 de maio de 2015

Ascensão



Yves Vernin


Viajo,
deixando o mundo
do não mundo
e amo.

As raízes permanecem,
fazem voar.

Que os olhares
não se percam 
em torcicolos

e ajudem-me
a atravessar a rua
de todos os dias
em busca de migalhas
de pão, de fé, de liberdade.

sábado, 16 de maio de 2015

Nelken



momento de Nelken


[Secção “outros tons”] Tenho o quarto voltado para um pátio interior. Os pássaros soam. Apenas lá longe ouço carros a passar. Nem parece que vivo em Paris. É estranho o contraste com o que ainda me ecoa de Nelken. Esta coreografia de Pina Bausch tem mais de 30 anos. Nos seus cravos perfeitamente alinhados, dá-nos um lugar quase idílico. Pouco a pouco as emoções afloram, tocando mais ou menos subtilmente a história de cada um e, de algo modo, a universal. Entre gritos, sorrisos, latidos, passaportes, batatas e cebolas, cadeiras e caixotes, os gestos dos bailarinos são tão firmes a contar algo de entranhas. Dificilmente se explica, apenas se sente. Se em Nelken busca-se lógica, com argumentos perfeitamente alinhados, vai haver desilusão, absurdo, estranheza, incompreensão… praticamente o mesmo que se vive, por exemplo, diante da tortura e do sofrimento que muitos passam. E o estranho mesmo, tão paradoxal: as estações do ano seguem harmoniosamente o ritmo.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Parágrafo final




momento de “Nelken” de Pina Bausch, a ver esta noite cá por Paris…


[Secção “tese”] Faltam os remates finais, mas o último parágrafo da conclusão já está escrito: “Por tudo isto, mais que alcançar uma conclusão, parece-nos que esta tese deve seguir aberta a partir do caminho feito. Ou seja, é um convite a explorar ainda mais as possibilidades da fundamentação entre a teologia e a dança, aprofundando na fé em Deus que ‘dança e grita de alegria por ti’ (Sf 3,17).”

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Respiro em música




[Secção “coisas”] Às vezes basta o respiro de 4 minutos e 25 segundos, imaginando boas conversas acompanhadas com um bom copo de vinho, para de seguida voltar a escrever coisas teológicas, de corpo e de dança, com outra frescura.  [Obrigado J. Acertaste! :) ]

quarta-feira, 13 de maio de 2015

[Des]acordo




Cezary Filew

Estou há quase 5 anos fora de Portugal. Em 3, aprendi algo de espanhol. Em 2, algo de francês. Em todos os anos, fui seguindo com o inglês. Mas, assim de um dia ao outro, fiquei a saber que não sei escrever português. O tal (des)acordo é totalmente obrigatório pelo que percebi, não é? Pois, parece que quando regressar a Portugal vou ter de aprender português. Coisa estranha… a vida, a cultura, os interesses económicos, a evolução. Ah, a evolução! 


P.S. - Peço a vossa compreensão e desculpa pelos futuros erros ortográficos.

terça-feira, 12 de maio de 2015

A noite de 12 de Maio




Henriques da Cunha

[Escrito há um ano, mas actual. Ainda mais quando sei de tanta gente amiga que lá está] 


Das imagens que mais gosto, quando estou em Fátima a 12 de Maio ou de Outubro, é o momento em que se elevam as velas durante o terço. Das várias vezes que lá estive, encontrei pessoas do mais variado que se pode imaginar: pobres de dinheiro ou de espírito, ricas de criatividade ou de vaidade, crentes em Deus ou na energia cósmica do Universo, descrentes na política ou na família, alguém na solidão estando rodeada do grupo que a acompanhou em peregrinação e alguém com o coração cheio de gente, depois de ter caminhado só, em silêncio, durante 5 dias para agradecer algo importante na sua vida. Na escuridão, não havia rostos, nem roupas, apenas a luz que cada pessoa, independentemente da sua história pessoal e de relação com Deus, elevava. Essas luzes iluminam sempre todo o recinto… e, atrevo-me a dizer, a humanidade. Gosto desse momento, pois não se pode fazer nenhum julgamento. E aí está um dos Mistérios da Fé!

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Elogio e responsabilidade




Peter Essick


Há elogios que dão mais responsabilidade do que parece. Então: “Padre, é raro ir à missa. Não acredito em Deus e sou comunista. Vim cá porque era a missa por alma de um familiar. Nota-se bem que gosta das pessoas que aqui estão. Senti-me bem, ainda mais com tudo o que disse do amor. É isso há falta de amor. Olhe que por ser comunista não significa que não vejo o bem nos outros, por isso achei que cá devia dizer isto!” Da minha parte: “Bem, obrigado. O que nos caracteriza como pessoas é a humanidade e essa é que tem de ser trabalhada. As características por vezes acabam por ser acessórios que impedem a comunicação. Obrigado, mais uma vez!” 

A Thousand Times Good Night




[Secção filmes] Em conversa desafiaram-me a ver o filme A Thousand Times Good Night com a Juliette Binoche. Vi-o há pouco. Depois de um tempo de respiro, partilho parte do que escrevi a quem mo recomendou: Há silêncio que se reveste de tanta conversa, assim, com muitas perguntas… ecoando silêncio como resposta. O silêncio vai ganhando corpo, as palavras rostos, ou simplesmente contrastes. Nem sei bem. Ás vezes o desafio é precisamente não saber, gerando a inquietude que faz duas coisas: agradecer e não ficar pequeno de horizontes. […] Ainda não consigo escrever ou falar sobre o filme em si. […] Apenas o óbvio de momento: como humanos somos tanto… do melhor ao pior. Ainda hoje escrevi um post sobre Deus é amor… e agora estou em modo repeat [acompanhado por Ane Brun]: 

daring to love
oh love
la la la la la la la la la la la laa
and come alive
alive
la la la la la la la la la la laa

but most of all to be loved



domingo, 10 de maio de 2015

Isto de Deus ser amor é estranho




Gregor Pirih


Isto de Deus ser amor é um pouco estranho. Nem se compreende bem. Fica tudo demasiado simples. Seria mais fácil que fosse castigador, assim ao jeito de um tirano que  decide tudo sem ter em conta o diferente, ou que exigisse cumprir regras e regrinhas, preceitos e preceitinhos, sobretudo a partir do sofrimento. E quanto mais melhor, assim pela dor haveria a certeza de se estar mais perto dele. Seria: "cumpri e, mesmo que continue infantil na fé, já está!" Mas não, Deus é amor… e o que nos pede é que amemo-nos uns aos outros como ele nos amou. Ainda mais chama-nos de amigos e não de servos. Convida à liberdade de amar, sem fazer acepção de pessoas. No fundo, diz-nos para desinstalarmo-nos do conforto do rigorismo para a beleza do encontro… com alegria. Isto de Deus ser amor é estranho... e ainda bem.

sábado, 9 de maio de 2015

Orelhas e humanidade




Prandoni Livio


[Secção desabafos] Actualmente vive-se de polémica em polémica. As redes sociais, com os seus algoritmos, ajudam. As polémicas tornam-se virais. De uma passa-se a outra, esquecendo-se a anterior. E assim de impulsos, ao jeito de explosão de chama de fósforo, vai-se vivendo… rasgando-se vestiduras em meia dúzia de palavras irreflectidas em comentários agressivos. No final, não se chega a ir ao fundo do(s) problema(s). Talvez não se queira, não dá jeito, é demasiado incómodo, a precisar de mais tempo que apenas de um clique de “like” ou “partilha”. Agora fala-se sobre o rapaz das orelhas grandes. Ainda me lembro das vezes que na escola me chamavam de Dumbo. E não era propriamente um elogio. Talvez por isso tenho estado mais atento a esta polémica. Não vou menosprezar o caso, que é de ser analisado com atenção… mais um aliás. O que não gostaria é que, como de costume, as questões de fundo passassem demasiado depressa. Ao jeito de bode expiatório, descarrega-se culpas: neste caso, começa logo a ser no programa. Mas o programa é demasiado abstracto, então, no júri ou às pessoas da produção que lá na régie ridicularizavam em nome do gozo que vai dar audiências. “É coisa que o povo gosta!” Desta vez correu mal, estalando a polémica. A SIC escreve uma carta, vai apoiar a família, porque se vê apertada com a situação e, óbvio, não quer perder audiências. Mas será que vai perder? Afinal, para chegar ao ponto de ridicularizar é porque sabe-se que as audiências dos programas que alimentam a estupidez humana são elevadas. Quanto mais gozo, agressão, ordinarice em gestos ou palavras, melhor. Ah, então a culpa já não é só do programa, ou dos programas, mas também de quem vê, de quem, tornando a sua vida como telenovela, muda os ídolos para pessoas que tem a formação reduzida ao estímulo da polémica. Li que se devia promover mais fiscalização nestes programas e que se devia ter em atenção “a violência da caricatura”. Quando existe formação de valores básicos humanos, por exemplo, de respeito e compreensão, não há necessidade de mais fiscalização, para além da mínima de convivência social. Quanto à “violência da caricatura”, não pude deixar de sorrir. Viva a liberdade de expressão! Ela é fundamental. Isso não significa, como claramente se entende, que tal como qualquer dimensão humana não tenha limites. É difícil regular os limites da liberdade de expressão e muitas vezes esse é o grande problema, mas se houvesse mais formação dos tais valores básicos humanos um dos limites seria, p. ex., o bom senso. Mesmo sendo demasiado subjectivo, o bom senso ajuda a perceber o que é ajustado no respeito ao outro, sabendo-se pôr no respectivo lugar. Enfim, continue-se a menosprezar a educação, a formação humana, o profundo sentido de liberdade de consciência e expressão, alimentando-se a ignorância e o terrível poder que a saberá usar. Pois, isto não é uma questão de orelhas, mas de humanidade.