terça-feira, 5 de maio de 2015

O espaço do silêncio




Ed Kashi


[Secção outros tons] De momento, talvez o melhor espaço seja o silêncio. Ou o voo de poesia, onde as palavras escondem ou transformam esse pensar e sentir que tenho do entorno, em pessoas ou terras, de mim, de Deus em carne. Escrevo noutras margens o movimento. Descubro os pés, nesse apoio de chão em contacto até ao sagrado. E respiro a alegria e a dor, de cá e de lá. Nesse silêncio, aceito o convite, saindo até ao desconhecido.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Arrepio... para ajudar




Navesh Chitrakar/Reuters

[Secção ajuda humanitária, especial Nepal] Entre muitas coisas que circulam pelo facebook, vi uma imagem com duas fotografias. Numa, uma pele arrepiada, com a frase “Presença de Deus segundo alguns”. Noutra, a Madre Teresa de Calcutá a alimentar uma criança: “Presença de Deus segundo a Bíblia”. Como imagem que é, resume muito. Recordei as vezes que senti arrepio depois de comungar ou depois de momentos espirituais fortes. Lembro-me perfeitamente da sensação vivida depois da 1.ª comunhão, do Crisma e nas ordenações de diácono e padre. Aquela sensação epidérmica que mostra que alguém especial nos toca. Tirando esses momentos, já há muito, mas muito tempo que não me arrepio depois de comungar. Também tenho muitos dias em que a oração se torna seca, naquela sensação epidérmica de vazio. Claro, a conversão acontece quando se tenta busca o sentido de Deus nas nossas vidas para além desse sentir epidérmico, dando o passo na entrega, no serviço ao outro. Sim, há momentos que vai de arrepios, nesse aconchego de “abraço divino”, faz parte. Espero que de algum modo se guarde a criança e o adolescente em nós, que vive de forma emotiva. No entanto, não se fica por aí. Esse arrepio, se amadurecido com a formação e a oração, começa a despertar outros a partir do da confusão, da comoção diante da injustiça ou do outro que sofre, levando-me, tal como em Deus, a sair em sua direcção, ajudando no que me é permitido. Nem precisa ser coisas extraordinárias, de forma espectacular com direito a selfie. Às vezes começa na toma de consciência de que ajudamos o outro se nos ajudarmos a nós próprios (cada qual saberá que tipo de ajudas precisa), noutras, na saída da queixa para o agradecimento, noutras ainda, na participação de forma discernida e esclarecida em ajudas humanitárias com o que nos é possível.

Neste momento dou uma sugestão. Ficamos todos com arrepios ao ver as situações de catástrofes naturais ou humanitárias. Neste momento há muita gente no Nepal a precisar de ajuda. Os jesuítas na sua acção social funcionam em rede, a Rede Xavier. A Fundação Gonçalo da Silveira está presente nesta rede e faz chegar aos jesuítas no Nepal as ajudas monetárias recolhidas. Para quem possa, para além do pensamento e da oração, aqui está uma forma de ajudar:

Fundação Gonçalo da Silveira
NIB – 0036.0000.99105889828.65
N.º Conta - 000.10.588982-8
IBAN – PT50.0036.000099105889828.65
BIC/SWIFT - MPIOPTPL

Muito obrigado!


segunda-feira, 27 de abril de 2015

A antecipar o dia mundial da dança




Pedro Pablo Achondo,ss.cc.

[Secção “coisas da e para a tese”] Uma pessoa lê isto (e cita, claro): “A dança confirma a pertença do ser humano ao universo e aos seus componentes mais profundos: a gravidade, o silêncio, o sagrado. Mesmo fora do santuário, ela está plena de sentido ritual. Rito de un espectáculo que, desde a sua preparação à sua realização e à sua representação, é comunhão. Rito de uma prática refinada que instaura, no seu lugar de celebração, uma relação privilegiada com o mestre, num acto de despertar e de iniciação. Rito do corpo, que se escuta, do qual cuidamos, em analogia com o sentido antigo do corpo-templo.” Dominique Dupuy, coreógrafo e bailarino. Depois, para terminar o dia, danço, por um lado, agradecido pela vida e, por outro, a recordar todos os que estão em sofrimento, de forma especial, os que perderam familiares e amigos no Mediterrâneo e no Nepal.


domingo, 26 de abril de 2015

Ouvir vozes, ou a voz.




Seyit Konyali


Vocação: ser chamado, “ouvir a voz”. Talvez nós, padres, religiosos e religiosas, juntando outras vocações, como mãe, pai, matrimónio, profissionais e voluntários entregues por paixão, que tentamos seguir a tal “voz” sejamos uma cambada de alucinados. Pois, a andar a dizer que ouvimos algo, ao jeito de vozes ou a voz (e nada que ver com “Casas de Degredos” ;) ), que nos diz para darmos o melhor de nós, parece não dar muita credibilidade. Isto, que até vem de credo, crer, ter fé, presente nesse sim vocacional acaba por ser inexplicável. Mais do que o ouvir, há o sentir de escutar: o quem sou e o outro a quem sou chamado a ir ao encontro. É um grande desafio com muito a trabalhar, entre os sentimentos de indignidade, incapacidade, orgulho, arrogância ou presunção de achar que se salva o mundo sozinho, junto com a humildade do reconhecimento de dons e de quem quer dar passos na descoberta da autenticidade, dando o melhor de si. Aí, nessa escuta da melodia em assobio do Pastor que ama, para além das (in)capacidades, faz-se caminho de encontro.

sábado, 25 de abril de 2015

Liberdade



Xinhua/Reuters

[Secção outros tons - especial “Liberdade”] Esta música acompanha-me, hoje, em jeito de mantra. São dias, é certo, são dias, onde os pensamentos esvoaçam em “vento agreste” por imagens de rostos, acontecimentos de Mar e Parlamentos, escritos meio perdidos de corpo e de carne em relação com o outro, reconhecendo em mim tanto a liberdade e a falta dela, como a hipocrisia social. Afinal, sou alguém do aqui e do agora, com tudo o que implica. Dos meus braços gostava de que saísse o gesto nesse “não a ‘matar e morrer’”. Fico-me pelo que posso neste momento, nas palavras e no desejo de continuar em conversão no caminho desse ser livre a defender a vida, para além de raça, sexo, política ou religião. 



A Batalha

Música: Salgueiro/Marcelino/Torres/Lobato/Santos
Letra: Teresa Salgueiro

A luz da manhã
Revela, anuncia
Ó terra, a esperança não é vã
Renasce a cada dia
E o sonho é lugar
Da criação

Vem, longe, um vento agreste
Trazendo outra vontade sem regresso

Sob o céu cinzento, a terra seca
Como é seco o sangue que a manchou
Dos corpos que tombaram, resta o esquecimento
Naqueles cuja razão os ceifou

Em quem lhes deu a vida, a mágoa imensa
O gesto mudo, que já nada alcança,
É o vazio agora, a única presença, e para sempre
Do calor do abraço, uma lembrança

Eu posso dizer não
A “matar ou morrer”
A minha direcção é ser
Tenho a minha vontade
Exerço a liberdade
Bastaria começar
E cada um seria mais um
A defender a vida

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Oração pelas vocações [já encontradas]



Tyrone Turner


Senhor, 

esta semana rezamos pelas vocações, agradecendo e pedindo para que muitos e muitas que ainda não o fizeram, abram o coração para escutar, através dos sinais dos tempos, o que humildemente lhes pedes: a colaboração em tornar o mundo melhor, seja no casamento, no voluntariado, numa profissão determinada, ou na vida consagrada. Mas hoje rezo de forma especial pelas vocações que já vivem essa colaboração, concretamente na vida religiosa. Peço-te: ajuda-nos a saber receber. Abre-nos o coração para não ficarmos fechados numa visão de Igreja que vê funções e vidas melhores que outras e assim nos abrirmos o sentido de serviço em colaboração. Ajuda-nos a continuar a viver a escuta do outro para além do seu aspecto ou imagem. Dá-nos coragem para, à semelhança dos primeiros cristãos e fundadores de Ordens e Congregações, sermos capazes, no extraordinário e no quotidiano, de abrir caminhos de encontro, de paz e serviço. Dá-nos consciência da força tanto positiva como negativa do nosso testemunho e assim mantermos o que há a manter e mudarmos o que há a mudar. Senhor, dá-nos a graça da conversão do coração. Amém.

terça-feira, 21 de abril de 2015

900, 28, 1




Stephane Mahe/Reuters


900, 28, 1. As quantidades aparentemente têm importância, no entanto, a força do simbolismo que está por detrás dos números pode falar muito mais. Há quem se importe com números, sobretudo quando se trata de cortes, ajustes financeiros, para resgates económicos. Estes com que começo são de pessoas mortas nos últimos dias: mais 900 pessoas naufragadas no Mediterrâneo, mais 28 cristãos decapitados às mãos do Estado Islâmico, mais 1 professor assassinado por um aluno que feriu outros tantos. Sim, não queremos saber de desgraças, é natural. Não me parece que o sofrimento seja algo apetecível, no entanto, se não se enfrenta as movimentações do que significa avançarmos para uma sociedade que esquece a importância do outro, mais ou menos conhecido, caminhamos seriamente na perda do sentido da humanidade. Já escrevi ontem sobre o náufrago. Essa busca de uma vida melhor, alimentada por piratas e terroristas que apenas vêem o seu dinheiro e o poder. Quanto aos cristãos, nesse massacre à vista de todos, apercebe-se que não interessa, afinal “são questões de religião, eles que se entendam”. O aluno que mata? Há tanta preocupação com resultados, que esquecemos o tempo e o espaço para perceber que somos um todo enquanto humanos, podendo precisar de ajudas para além da académica. Parece-me que isto deve-nos alertar para a importância da educação, da formação pessoal, de consciência, que apontam ao “amar ao próximo como a si mesmo”, em que o próximo pode ter rosto concreto nas relações pessoais, ou por conhecer, sabendo que o que fazemos aos outros e ao mundo hoje vai influenciar o futuro… também daqueles que ainda não nasceram.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Nenhum ser humano é ilegal




Associated Press


Ontem à noite pensei muito na morte. Lembrei-me de histórias contadas em primeira mão quando visitava as pessoas detidas no centro de internamento de estrangeiros (CIE) em Madrid. Visitei o Justin, do Senegal. Era pescador e arriscou uma vida melhor, deixando a família. Fez os devidos pagamentos “àqueles” que prometem a tal vida melhor. Todos os do barco foram detidos ao atravessar o Mediterrâneo e o Justin foi para prisão durante 3 anos por ser considerado o capitão por ir a conduzir. Ao fim desse tempo, ao sair da prisão a polícia já o esperava para levá-lo para o CIE. Aí estava, a falar um muito rudimentar espanhol, sem saber inglês ou francês. Tentávamos comunicar por gestos. Dificilmente um africano chora, em público muito menos. Às tantas, o sofrimento daquele homem transbordou em lágrimas que por força queria controlar e não conseguia. Além do sofrimento, juntou-se a vergonha de estar a chorar diante de um quase desconhecido. Regressar ao Senegal significava morrer, com o pensamento de que a família também poderia morrer às mãos “daqueles” que prometeram a tal melhor vida. Estes dias mais 700 pessoas morreram na busca de uma vida melhor, enganadas por tanta gente. Enganadas pelo idealismo do “sonho europeu”, por aqueles a quem pagaram por lhes terem prometido o “sonho europeu”, por políticas que elevam a economia à realidade primordial, alimentando guerras e terrorismo, por este lado de hipocrisia social, onde as vidas se reduzem à abstracção de números, diluindo-se no Mar os nomes e os rostos, não só dos que partiram, mas dos que ficam, muitos sem saber o que aconteceu a quem partiu. A quem governa, recordem que ninguém é imortal e que de nada servirá nem o poder, nem o dinheiro. Seria bom que ajudassem a eternizar que nenhum ser humano é ilegal, impedindo, por um lado, a escravatura social, política, religiosa e económica, por outro, a morte desumana enquanto busca de vida.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

[...]




Rafael Marchante / Reuters


[Secção desabafos] Leio as notícias sobre a situação política, social e económica em Portugal, suspiro e penso: “em cada dia que passa torna-se mais difícil escolher em quem votar!” E isto, confesso, preocupa-me.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Il faut tenter de vivre




[Coisas do quotidiano em Paris - em modo “outros tons”] 

Il faut tenter de vivre,
é o mínimo. 
Por isso ganho tempo
na leitura

de pedras feitas carne
de olhares transformadores
de toques entre a roupa,
a pele, o vento, a tua mão.

Il faut tenter de vivre,
não permitindo o peso
do irreparável, do nunca mais.

E doo amor,
enquanto vivo,
enquanto vives.


[Foto: Olhei para o lado, o título do capítulo chamou-me. Apenas pedi licença para tirar a foto, não quis saber qual era o livro. A abertura do capítulo e as primeiras frases bastaram-me.]

Para além do ocidente



Amy Toesing

Sábado serão ordenados diáconos 5 companheiros jesuítas. Começam a chegar família e amigos. Fui ao aeroporto buscar a irmã e um amigo de um deles, o Paul. Ela chegava de Uganda e ele do Quénia. É sempre bonito ver os reencontros. Vinha mais silencioso, deixando-os saborear entre eles o momento. Partilhavam a viagem, que tudo estava bem por lá, com o resto da família. Parece-me que as conversas de reencontros estão para além de qualquer cultura, tocando o comum da humanidade. Inevitavelmente veio à conversa o atentado em Garissa, Quénia, onde morreram assassinados 147 estudantes, apenas por serem cristãos. A Esther que é estudante, e cristã, mostrava a sua tristeza e apreensão. Se para nós é lá longe, para eles é ali ao lado. Enquanto os escutava, os pensamentos agitavam-se. O mundo “euro-centrou-se” ou melhor “ocidento-centrou-se”, ao longo de séculos. O modo de pensar, de sentir, de viver os acontecimentos está centrado no pensar ocidental: se é “cá”, todo o mundo sofre e fala; se é “lá”, ok, fala-se pelo normal choque da indignação humana, mas passa rápido. “Aqui”, no ocidente, determinam-se as condições de vida, de saúde, de bem-estar, se assim não for, “eles” são primitivos, pobres de espírito, atrasados no desenvolvimento, por isso, há que tomar uma atitude paternalista em dar-lhes o que nós pensamos que é correcto. Atenção, não se entenda aqui uma crítica às ajudas humanitárias ou à evolução científica, com a correspondente partilha de conhecimentos. A crítica está em admitir-se e viver-se a possibilidade de cultura ou modo de pensar superiores, centrados neste ocidente pensante, “livre”, cheio de conhecimento. É de grande riqueza viver numa comunidade internacional e perceber que todos, de África, das Américas do Norte e do Sul, da Ásia, da Europa, do Próximo Oriente, da Oceania, sentimos na pele a dor e a alegria… junto com a indiferença e a falta de respeito. Cá está, não se trata de sermos uns ou outros péssimos ou maravilhosos, porque bons e maus exemplos encontramos em todas as culturas. Trata-se de aprender a descentrar, para descobrir cada vez mais isto da humanidade, presente em pessoas concretas, com nomes, rostos e histórias, ajudando a combater a injustiça e o mal em todo o lado. E tal começa em casa, depois, no que nos envolve no quotidiano. Sábado serão ordenados diáconos 5 companheiros jesuítas. Começam a chegar família e amigos, de cá e de lá.

[Nesta linha vale a penas recordar esta conferência de Chimamanda Adchie: O perigo da história única]



quarta-feira, 15 de abril de 2015

Confissões e autenticidade




[Secção “sobre confissões” - com a devida permissão para partilhar parte da conversa, mantendo, claro está, o anonimato] 

“Salut mon père!”, dito de forma tímida. Olhei, de sorriso agradecido: “Salut!” “É normal que não me reconheça. Confessei-me a si no Advento, numa noite de Reconciliação.” Pois, não estava a reconhecer. “Que boa surpresa encontrá-lo assim aqui na rua. É uma oportunidade de agradecer.” Dou aquele sorriso animado. Começámos à conversa e comenta: “Naquela noite estava apreensivo. Sou daqueles que gosta de cumprir tudo, bem, não sei se gosto, e é por isso que agradeço. Fui educado a fazer tudo bem, a ser o melhor, a ter que ter as melhores notas: o bom nome da família em jogo. Sabe, quando vi que estava de sapatilhas, e de azul vivo, tive para ir confessar-me a outro sacerdote. No meu pensamento surgiu ‘sacerdote demasiado moderno’. Acalmei quando, com um sorriso, se levantou para me cumprimentar antes da confissão. Disso não estava à espera. Também no respeitar-me por confessar de joelhos. Fui habituado assim. Mas, achei piada à sua subtileza quando me viu a tremer: tocou-me no ombro e com um sorriso dirigiu o olhar para a cadeira. Sentei-me e continuei. Bom, em resumo, sem que aparentemente lhe tivesse dito nada nesta linha, disse-me que Deus não é um examinador ou avaliador de notas ou de bom comportamento. Afinal, Deus também perdeu, por amor, a vida. Nunca tinha pensado nisso.” “Sinceramente, não me lembrava. Sabe, há muitos anos tive um professor que dizia: ‘a boca fala, o corpo conversa.’ Infelizmente, há muita coisa falada que não coincide com o ‘conversado’. E na confissão tento estar atento à pessoa no seu todo, buscando a sua autenticidade. Muitas vezes dá-se a Deus as  ‘coisas a dizer em confissão’, mas não a verdade, a autenticidade, de nós. Quando Jesus diz ‘é a verdade que nos salva’, não tem que ver com coisas lógicas, ou delineadas em fiz/não fiz, cumpri/não cumpri, mas de autenticidade de nós, com as nossas maravilhas e dons e, claro, no erro, na falha, no mal que se fez a Deus, aos outros e a nós próprios.” “Pois, é por isso que já não sei se gosto de cumprir tudo, ou simplesmente o faço ‘porque sim’. Acho que há mais de mim, nessa busca de autenticidade que fala.” “Não tenho dúvidas que há mais de si… há sempre mais de nós, que sobretudo não se pode reduzir em imediatos prejuízos.” E a conversa continuou em partilha mais privada. Regressei a casa agradecido a Deus pela vocação, a formação que vivo, o respeito, a vida, a originalidade, a criatividade e a suavidade divina quando nos deixamos conduzir por Ele. ;) 

terça-feira, 14 de abril de 2015

Palavra(s)




Da exposição “PLIURE. Épilogue (La Bibliothèque, l’Univers)”


[Secção outros tons, em coisas do (extra-)quotidiano em Paris] Há palavras que nos caracterizam. Cada qual mantendo a sua importância, ora são básicas, ora mais complexas ou “caras”, como diria a minha avó que não sabendo ler nem escrever fazia sempre aquele sorriso de quem queria aprender mais. Há palavras que se transformam em raciocínio, sentimentos, dúvidas, histórias. Talvez por isso a poesia viva desse mistério silencioso do encontro dessa palavra, dinâmica desde o princípio, que assume carne, deixando-se significar no coração de quem sente para além do imediato. Há palavras que precisam de tempo, outras, mais do que ditas, pedem para ser vividas.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Edujesuit - Plataforma de promoção da educação



Edujesuit

[Pausa para boa publicidade] Uma das preocupações presentes desde pouco depois da nossa fundação, enquanto Jesuítas, é a da Educação. Um dos pontos base para a evolução da humanidade é precisamente a Educação, sendo um dos objectivos do milénio promovidos pelas Nações Unidas. Tentando manter a abertura neste sentido, de modo a promover a Educação para todos, nasceu a plataforma Edujesuit. Para mais informações, deixo os links tanto para o site na versão espanhola, como para a página de facebook. No site encontrarão um vídeo com uma breve explicação de todo este projecto. Algo a conhecer e a divulgar. :) 




sábado, 11 de abril de 2015

A alegria em Deus



Laura Lopes


Falar da alegria sem umas boas gargalhadas não faz sentido. ;) Foi isso que aconteceu directamente de Paris para Armação de Pêra, em vídeo-conferência. Além da gargalhada, coisas sérias foram ditas com humor, com respeito, mostrando que a relação com Deus também é um convite à alegria. Estar ao computador, tendo em conta também as falhas de rede, levou a algumas caretas e… “sou tão parvo, graças a Deus!” :D Desde o saber brincar com as situações, passando pela diferença do ser e do estar (posso ser uma pessoa alegre e passar por momento em que estou triste), recordei alguns inimigos da alegria como a queixa, a comparação, o idealismo. Falei de seguida de alguns momentos de alegria na bíblia, como a Anunciação a Maria, a Visitação e o nascimento de Jesus, junto às belas comidas e festas por onde passou, até à suavidade da alegria que desponta com a Ressurreição. Sim, houve espaço também para falar da tristeza, algo tão humano e também divino, como nos recorda a Paixão. Por isso é que somos chamados à Alegria profunda e não à “tontinha”. ;) Houve perguntas, partilhas, respostas e, pareceu-me, animação. É o que se quer, que as pessoas possam encontrar nas suas vidas, tal como são, a animação e a alegria de Deus. Obrigado à Laura pela organização da tertúlia, ao Pe. Beato, como pároco e animador desta comunidade, que viu a sua Igreja ser incendiada há tempos vivendo agora tempos de reconstrução, e a todos os que estiveram presentes. E, claro, haja animação!! :D

sexta-feira, 10 de abril de 2015

"Levanta-te e ri" - Tertúlia de fé




[Pausa publicitária] Desafiaram-me para algo: ir até ao “meu” Algarve, mais precisamente Armação de Pêra, e falar neste tempo de Páscoa na 5.ª tertúlia da fé, com o tema “Levanta-te e ri”, à volta do humor e da alegria de Deus. Claro está, não tenho um jacto privado à disposição ;) , mas a tecnologia que permite fazer uma video conferência. Fica a sugestão para quem anda por aquelas zonas. ;)

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A beleza da vulnerabilidade



Adam Hanif


Desde que há uns tempos comecei a dedicar o olhar mais atento para a questão do corpo, da corporeidade, do que mais tem ressaltado é, o que vou chamar, a beleza da vulnerabilidade. O corpo é vulnerável, ou seja, nós somos vulneráveis: ao tempo, aos sentimentos, à comida, às histórias, às rupturas, aos encontros. Os momentos de quebra são vistos como fraqueza e não como oportunidade, ou então, quando alguém nasce ou sai fora de uma aparente normalidade desejada, o tal “ser perfeitinho”, a tendência é instalar-se o drama, não vendo a possibilidade de deixar-se humanizar pela diferença. De fundo, há o desejo de ser “perfeitinho” na dimensão física, profissional, intelectual, académica, até mesmo espiritual. E depois lá vem o corpo real, ou seja, nós, cada qual com a sua individualidade, com riquezas e limitações. A vulnerabilidade acaba por pedir a inspiração vinda do outro, podendo ser: o aconchego dos pais e mães que aceitam os filhos tal como são, ajudando-os a fazer caminho, sobretudo se saem da aparente normalidade física, afectiva ou intelectual; o respeito de se ver alguém com todas as suas potencialidades sem ser um “coitadinho”; os líderes que, não estando fechados na cegueira dos objectivos, vêem no seu colaborador alguém para além de mais uma máquina do sistema. De facto, não abunda a educação para saber viver a beleza da vulnerabilidade, acabando por haver uma imensa falta de amor próprio, exigindo-se o que não se tem, a si e aos outros. Nós, cristãos, repetimos tantas vezes “à boca cheia” que acreditamos no Deus que se tornou vulnerável… pois, curiosamente foi também aí que deu plenitude à humanidade, mostrando-nos que somos chamados a ser, não super-heróis, mas humanos. Ao vivermos assim tocaremos o divino nesse corpo, também vulnerável, que somos.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Corpo livre




Ulrich Lambert

Corpo
esse ser vulnerável
ao toque de veludo
ou aspereza de injustiça.

Se o coração fraqueja,
sei que a tua voz perdurará
dizendo o meu nome

em Corpo
que és

dando-me 
liberdade.

Deus: saída de si para o outro




Masami Murooka

[Secção “coisas da e para a tese”] Acabo de ler isto: “Ao encarnar, o Verbo de Deus assume o peso da carne, como se falássemos do peso da história, do peso de uma verdade sensível. ‘É pelo corpo que nos tornamos história’ (Paul Auster), é pelo corpo que o Verbo de Deus sai até nós. Deus é sempre saída de si, pro-nobis [por nós], exodos [saída], deixando, se é que se pode dizer, o seu próprio caminho (ex-odos) para fazer o nosso.” Adolphe Gesché, no ensaio “L’invention chrétienne du corps”, na obra alargada Le corps chemin de Dieu


Pode-se pensar na possível interpretação desta passagem como a imposição divina ao nosso caminho, mas não… é a vontade, o desejo, de Deus em entrar na nossa história, seja ela qual for, com mais alegrias ou tristezas, vergonhas ou pecados, sucessos ou fracassos. Ele entrou na História da humanidade fazendo-se carne. A ressurreição será deixarmo-nos habitar pela sua grandeza, que nos impele à liberdade. Mas nada disto é imposto, é sempre proposto. Sabendo que corre o risco da negação ou da deturpação da sua mensagem e realidade, ainda assim Deus não se cansa de nos buscar. E é paciente, respeitando o tempo e espaço de cada um. Já se vê que Deus sai de si, pensando no outro. Daí que quem acredita num deus que pede para matar (em actos ou em palavras) em nome dele não conhece, nem vive, o Deus da vida. Por isso, quem possa criticar rapidamente a religião ou quem queira impôr determinadas visões religiosas, é de dizer que o verdadeiro e profundo sentido religioso nada tem que ver com a morte ou com a condenação de quem tem uma crença diferente, mas com o desejo da vida do outro, com que o outro faça caminho de liberdade e de vida, para além do que eu possa pensar ou sentir. E isso vive-se, sobretudo, no quotidiano, nesse corpo que somos.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Fé, em nardo puro



Steffen Reichle

Fé,
respiro de perguntas
envolvidas de silêncio,
em companhia do gesto 
simples e limpo, 

sendo inspirada 
em caminho.

Por onde passa,
deixa perfume 
de nardo puro. 


Humanidade




Syed Hassan


[Secção “lá volto eu à minha ingenuidade”] Sempre tive dificuldades com conflitos. Não gosto. Tenho reparado na facilidade com que se ataca, impondo a opinião como a determinação da verdade tristemente em nome da liberdade. Tem-se dado tão mau uso à liberdade. A meu ver a pobre tem perdido força por isso. Acaba por haver incoerências impressionantes, onde não há consistência entre o que se apregoa e o que se vive. A rectidão absoluta é impossível, mas reconhecer a limitação, o erro, a falha, nesse acto de pedido de perdão é algo de que mostra o quanto se é livre. Não podemos esquecer que estamos sempre ligados uns aos outros, para além das nossas (des)crenças. Sim, é de voltar ao profundo sentido da escuta: de mim e do que me rodeia. Apesar de vivermos no séc. XXI, no mundo globalizado, etc. e tal, corremos o risco de ficarmos fechados nas nossas aldeias religiosas, políticas, sociais e humanas. Por isso, a abertura de horizontes pode ajudar a viver as relações humanas. Nisto, percebe-se que não há seres humanos de primeira ou de segunda, ou até mesmo de terceira. Percebe-se que estamos todos ligados por essa estranha coisa que se chama humanidade: se alguém nasce, alegro-me e renasço com essa pessoa; se alguém mata, entristeço-me por saber que essa pessoa além de, no fundo, também morrer, destrói a humanidade; se alguém morre, seja na luminosa Paris, seja nos recônditos de algum ponto menos conhecido da Terra, seja assassinado no Quénia, na Síria, numa favela, comovo-me e, fazendo silêncio no coração, comprometo-me pela Paz e pela Justiça. E aqui também se dá conversão, passagem e crescimento na responsabilidade que tenho pelo mundo.

domingo, 5 de abril de 2015

Santa Páscoa! :)




[Secção partilha de Páscoa, um pouco mais longa… mas, é dia de Páscoa ;) ] 

Queridas amigas, queridos amigos: Santa Páscoa! :D Estes dias são fortes, onde rezo por muitas pessoas… voltei ao Abecedário, para que não falte ninguém. ;) Rezei, num ou noutro momento, por vocês todos, que vão seguindo o que partilho, ou que eu vou seguindo nas partilhas bloguísticas. É tempo de agradecer, é isso. :) 


Quem me conhece melhor sabe o quanto vivo estes dias. Na Paixão e no Sábado Santo apodera-se de mim grande tristeza, peso, em que as lágrimas facilmente despontam. Como escrevi no desabafo de 6.ª feira santa, é muito a acontecer no mundo que actualiza a Paixão. Sim, como tanta gente tem dito, e bem, não há manifestações de milhares pelos que morrem “lá longe” de terras europeias. Sente-se o vazio e a hipocrisia de politiquices. Mas, ainda assim, haverá sempre corações que batem pela justiça. E aí também acontece Páscoa: somos nós, mesmo que insignificantes em voz política e jornalística, que recordamos aqueles que morrem às mãos de fanatismo, como recentemente aconteceu com os estudantes no Quénia. 

Ontem à noite, na escuridão da Igreja pensei em muitas pessoas que me pediram a oração. Depois, à medida que a Igreja ía sendo suavemente iluminada pelas velas acendidas no fogo abençoado, sentia a profunda alegria a envolver-me. Emocionei-me, sentindo a vontade de continuar a anunciar a vida, na justiça pelos que não têm voz. A Páscoa é rompante e serena. Em luzes que fazem vibrar as cores renovadas da vida vencedora. Na Vigília muitos adultos foram baptizados. Comovi-me com três em especial. Foram baptizados em língua persa. Um deles acompanhei: um refugiado que fugiu de um dos países do Médio Oriente pela sua conversão ao cristianismo. A chegada até Paris foi e é surpreendente. E aqui chegado, começou a preparar-se para o baptismo. A felicidade que tinha no rosto era luminosa… apesar do medo, pois há fundamentalistas metidos pela cidade que podem fazer muito mal a quem vive estas conversões e é baptizado. Deixa-me muitas vezes a pensar no meu ser cristão, o que significa na minha vida sê-lo, nesta identificação com Cristo que quer e deseja a vida de todos, sem excepção. 

Hoje celebrei na Comunidade Portuguesa que apoio. Sentia-me tão feliz por poder celebrar a Páscoa pela primeira vez como padre. Na homilia as palavras saiam-me das entranhas, recordando a morte de tantos, sim, pela injustiça, junto com a certeza da vida e da humanidade a que somos todos chamados a viver, nesse amar ao próximo como a si mesmo, deixando os sepulcros vazios, vendo mais longe e em maior profundidade, ajudados pela fé. Regressei a casa. Tínhamos a festa do Mikaïl (o nome que escolheu de baptismo). Na sua timidez, agradeceu a cada pessoa e ofereceu-nos uma rosa. Eram variadas. Tocou-me a amarela. Coloquei-a no pequeno altar que tenho no quarto… como recordação da passagem para a vida e para a liberdade. A Páscoa não se fica por hoje. Temos, de forma especial, 50 dias para saborear a paz e a vida de Cristo. Que o Senhor vos encha de bênçãos e vos abrace muito. :)

Onde está?




[Secção outros tons - especial Domingo de Páscoa] Há um longo amanhecer, suavemente desorientador, que ilumina novas questões: Onde está? Os perfumes pensados para eternizar o corpo perdem o uso e espalham-se na brisa, tal como a nova certeza que aos poucos vai compondo melodia: Ele está vivo. Ele é a vida.


sábado, 4 de abril de 2015

As fontes secaram




[Secção outros tons - especial Sábado da Semana Santa] As fontes secaram. Reina a desilusão, em cor esbatida. Quem eras tu, afinal? Tento dar passos, mas os pés arrastam-se com o peso da morte. Nem chorar consigo. Ainda ecoa o retumbar da pedra que selou o fim. Apesar de errante, sigo em caminho. Os pequenos rebentos, ainda assim, sussurram vida.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A Paixão no mundo



Adem Altan/AFP/Getty Images


[Secção desabafos, em noite de 6.ª feira santa] Estes dias são muito intensos, já se sabe. O relato da Paixão é minucioso, descrevendo quase cada minuto daquelas 24 horas. Desde há uns anos, que na noite de 5.ª feira santa, quando rezo a Hora, peço a graça que St. Inácio nos convida pedir nos Exercícios Espirituais na contemplação da Paixão: “dor com Cristo doloroso, quebranto com Cristo quebrantado, lágrimas, pena interna de tanta pena que Cristo passou por mim.” E esta graça vai entrando nas entranhas. Desde que proclamo o relato da Paixão, fosse como diácono ou agora como padre, parece que as palavras agigantam-se ganhando a forma dos acontecimentos à minha frente. Comovo-me. Que Deus este… que se apaga desta forma por amor. Há pouco na adoração da cruz começou por me envolver um grande silêncio, depois, sem me dar conta, surgiram-me no pensamento as Paixões que o mundo passou e passa: as 147 pessoas assassinadas no Quénia; as milhares assassinadas na Nigéria às mão de Boko Haram; as 150 no avião; os 21 cristãos coptas decapitados junto com todos os outros mortos às mãos do auto-proclamado Estado Islâmico; as 20 pessoas mortas no atentado em Tunis; as outras 20 nos atentados aqui em Paris; os milhares de desalojados das suas casas e terras por motivos de fé, por serem cristãos ou que mesmo professando a fé islâmica não se revêm no fundamentalismo; todas as vítimas das muitas guerras que assolam o mundo, em especial nos países africanos; as muitas vítimas, mulheres e homens, de violência doméstica; a imensidão de pessoas, crianças incluidas, exploradas, muitas delas escravizadas, nos seus trabalhos; o assustador número de milhares de mulheres vítimas de escravidão sexual também em muitos países europeus; os milhares, dos quais os de Lampedusa, que perdem a vida a atravessar o Mediterrâneo em busca de algo melhor; as muitas vítimas de xenofobia e homofobia; a quantidade de doentes que sofrem e morrem em sistemas de saúde que olham mais à economia que à humanidade; a enormidade de gente vítima da injustiça política e social. Pois, a Paixão continua bem viva… é verdade que aponta à Ressurreição, mas, nesta noite que se faça silêncio e se sinta dor pela dor por esse mundo fora, chorando com aqueles que choram. Nesta noite peço a graça de saber morrer para tudo o que me afasta da misericórdia e do sentido da humanidade. Nesta noite rezo por todos aqueles e aquelas que de algum modo vivem a Paixão nas suas vidas.

O Espírito é entregue




[Secção outros tons - especial 6.ª feira da Semana Santa] As marcas dos gritos estão por todo o corpo, enquanto o coração preenche-se do silêncio próprio dos que amam. O Espírito é entregue. As mãos que ampararam o respiro de vida no nascer, acolhem agora o expiro e o silêncio mortal. Abrem-se as portas do sem sentido para os que ficam. Apenas os humildes entendem este caminho.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A profecia toma gesto




Ly Hoang Long


[Secção outros tons - especial 5.ª feira da Semana Santa] Cumpre-se a Palavra. A profecia toma gesto no rolo que se abre. Os pobres, os cativos, os escravos, deixarão de ser contados entre os impuros. Revelas a nova visão da realidade. Na ceia, também ela renovada, em que as ervas amargas, além de recordar o passado, antecipam a hora das trevas, fazes-te memorial. Derrama-se o óleo perfumado nos pés gastos que ninguém quer tocar. O teu toque de mestre: a Amizade. A todos amas até ao fim. Pouco falta para que se entenda plenamente que és Alfa e Omega. E eu? Que não deixe de lavar os pés e nunca negue um abraço.

Em conversa com um bispo




William Albert Allard


Ontem, depois da Missa Crismal, houve um jantar oferecido a todos os padres presentes na Diocese de Paris. Estava com outros jesuítas e ao meu lado havia um lugar livre. Minutos depois sentou-se um dos bispos auxiliares de Paris, D. Renaud de Dinechain. Curiosamente uma das suas missões é ser responsável pelos padres com menos de três anos de ordenação. Às tantas, tento em conta ter-lhe dito ser uma das minhas áreas de interesse, perguntou-me que pensava eu sobre a diminuição de fé e a quebra de participação nas Missas nas sociedades contemporâneas. Confesso, engoli em seco. Tomei uns segundos e fui respondendo. Disse mais ou menos isto ao longo da conversa que se seguiu: “Não me parece que haja uma diminuição de fé. Sim, a participação das Missas é certamente menor, mas não a fé. Talvez o entendimento da vivência de fé esteja a modificar-se e até mesmo o relacionamento com Deus. Conheço muitas pessoas que não vão à Missa e até nem são crentes em Deus, mas surpreende-me a fé que acaba por estar escondida na entrega e no serviço humano. Para mim a questão está em ver como é que podemos viver a encarnação na actualidade. Sim, o mundo está diferente, já não há cristandade, por isso, mais do que haver a arrogância de acharmos que somos “possuidores” de Deus, o que penso que temos de fazer enquanto Igreja é voltar ao básico: à relação humana. Mais do que ver logo pecado ou mal no outro, devemos voltar ao encontro, ao estar no quotidiano, à escuta das vidas tal qual são. Sim, queremos que as pessoas acreditem em Jesus, mas não pode ser numa atitude de superioridade, mas de relação. Na linha do que o Papa Francisco tem afirmado, podemos ter muita teologia, mas se fica fechada na intelectualidade sem acolhimento, as pessoas, tal como tem acontecido, vão-se desligado da Igreja. As pessoas na generalidade podem não perceber de teologia, mas sabem bem o que é sentir-se acolhidas. E se há necessidade de fazer alguma advertência, há que fazê-lo com respeito e cuidado. Aí dá-se a diferença. Bem, amanhã celebraremos aquele momento em que Jesus lavou os pés de todos, incluindo Judas, que o entregou. Parece-me que nestes tempos, não se pode negar, de crise humana e de valores, mais do que termos uma atitude de ‘defesa/ataque’, deveríamos ser exemplo de Deus que, não tendo medo das mudanças, renova todas as coisas.”

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Noite no desenrolar da injustiça




Pierre Destribats


[Secção outros tons - especial 4.ª feira da Semana Santa] O rosto está coberto de prata. Será o beijo que o fará cair em 30 pedaços, levando à hora que aproxima o Eterno. Entretanto, o pão não cresce, fazendo memória da fuga da escravidão para a liberdade. Anoitece. É sempre noite no desenrolar da injustiça. "Tu o disseste." Apesar disso, os passos, carregando o insulto, sem vergonha ou desilusão, encaminharão à nova luz. Até lá, é sempre noite no desenrolar das injustiças.

Gesto simples



Malgorzata Walkowska


O gesto simples, como os ramos de uma árvore. Ver no outro o gesto simples, porque se vive a simplicidade do gesto. Jesus, nessa simplicidade de gestos, desde a carícia às chicotadas no templo, através do seu ser corpo integrou a beleza do mundo, da humanidade, criticando a hipocrisia dos que se diziam detentores da verdade, sem pingo de misericórdia. E rasgando as vestes, condenaram-no por não aguentarem a força, a clareza, a honestidade e a autenticidade daquele “Eu sou!” Blasfémia, disseram. Pois, é difícil de amar de tal modo o mundo, como Deus, ao ponto de enviar o Filho para mostrar precisamente a força desse amor. Afinal, a criação é bela. Será sempre bela e misteriosa. Até mesmo na condenação.

terça-feira, 31 de março de 2015

A entrega não tem nome




Randy Krieger


[Secção outros tons: especial 3.ª feira da Semana Santa] As palavras de compromisso são reduzidas a nada quando se trata de voluntarismo em jeito heróico. Sigo-te de peito inchado, nesse orgulho da valentia que vê a realidade em escuridão. A entrega não tem nome. Nem lutas. No cru dos acontecimentos, quando o medo e a vergonha falam, vomitarei o não. Por três vezes. Em penas cantadas o corpo sentirá o embate da fragilidade: de pernas, de coração, de alma. Aí serei discípulo, não pelas minhas forças, apenas pela graça do teu dom.