segunda-feira, 30 de maio de 2016

Vídeos


Entre muitos, estão a circular dois vídeos nas redes sociais que me chamam a atenção. Ambos são virais. Um mais à escala internacional, outro nacional. Gosto muito do primeiro. Do segundo não gosto. O primeiro mostra, por exemplo, como o silêncio na troca de olhares fala, para além de preconceitos que se possa ter e para além de diferentes idiomas, raças ou nacionalidades, neste tempo em que vivemos a crise humanitária de milhares de refugiados. Desmonta, provoca empatia, apela à humanidade, ao respeito, ao encontro e “co-move”. O segundo, do Manifesto 34, feito a partir de “apanhados” na manifestação de ontem, convida ao gozo, à humilhação, à crispação e ao ridículo. É por isto, e não apenas porque estou do lado dos amarelos, que não gosto deste vídeo. Como seria se houvesse o silêncio na troca de olhares entre estas pessoas? Estou cansado de incitações à tensão, de provocação barata de ódios, de promoção de divisões. Seja de que lado, opinião, pontos de vista for, tudo faria mais sentido se houvesse mais escuta nesse silêncio que promove diálogo. Opto por partilhar o que engrandece a humanidade. 



Conhecer(-me) em Corpo - Workshop






Uma aluna da Oficina - Escola Profissional do INA convidou-me, integrado no seu estágio, para orientar um workshop: Conhecer(-me) em Corpo. O que é isto de “ser corpo”, nas suas muitas dimensões que dialogam? Será, segundo os organizadores, um workshop solidário: o “pagamento” é feito em géneros alimentares. Amanhã, em Famalicão.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Homilia Corpo de Deus



Carlo Allegri/Reuters


[A minha homilia nesta solenidade, que me é tão querida, do Corpo de Deus.]


Dos mais novos aos mais velhos, penso que todos já sentimos a força do corpo num abraço. Os mais novos com a beleza da vigorosidade, os mais velhos com a beleza da maturidade, encontraram-se em corpo neste gesto. Não vivemos sem corpo… nem Deus.

Imaginemos três momentos relacionados em três pontes: Natal, Páscoa e o dia de hoje, construindo um abraço entre eles. Não nos podíamos dizer cristãos se não houvesse Natal e Páscoa: o corpo de Deus que nasce e o corpo de Deus que vive a experiência da fragilidade, da morte e da ressureição. E, hoje, de modo especial, o Corpo de Deus que transcende na Eucaristia, onde, de modo celebrativo, somos convidados a participar da sua vida divina. Para muitos de nós já se tornou uma rotina, no entanto, para recordar a grandeza da celebração, volto à imagem inicial: a força do abraço.

O abraço é aquele momento em que se funde o que dá e o que recebe. Como no apertar de mãos, no entanto, no abraço tocam-se os corações. Não se dão abraços a qualquer pessoa, apenas a quem gostamos de partilhar algo, mesmo sendo um pouco da vida. Assim, o abraço densifica-se de uma beleza que transcende os sentidos, deixando que seja o coração quem fale naqueles breves segundos ou minutos em que não existe quem dá e quem recebe, mas a presença da gratuidade. Ambos, com esse gesto dizem “tive saudades tuas”, ou seja, “gosto muito de ti” em amizade, filiação ou amor. 

Victor Poucel, um jesuíta teólogo, nos finais dos anos 40 do século passado, na obra Apologia do Corpo, escreveu: “Chegámos à convicção de que, entre todas as coisas da terra, o primeiro que haveria de expôr era a Mística do Corpo, já que é a mais desconhecida e mais próxima a nós. Vivemos com o nosso corpo e através do nosso corpo”.

O sentido da Mística aponta à relação com Aquele que encarnou e viveu plenamente a corporeidade humana. O ser humano, como corpo que é, abre-se também de modo corporal à transcendência. No entanto, apesar desta mística ser “próxima”, continua ainda a ser “desconhecida”. Reduzimos a relação com Deus a uma espiritualidade afastada do Corpo. Não me parece que seja o caminho a seguir. Vejamos, a partir das leituras.

Todas nos falam de comida. O pão, como o alimento mais simples. O vinho, como a bebida que nos ajuda a festejar e a alegrar [já sabemos o resultado quando há um copinho a mais… ;) ]. Aí temos, por um lado, Deus que, fazendo-se corpo em Jesus, participa da vida humana, por outro, que nos deixa a possibilidade de entrar na sua vida divina, de modo simples e festivo. No evangelho, depois de escutar o Senhor, de acompanhá-lo, as pessoas estavam cansadas. Os discípulos queriam mandá-las embora. No entanto, a subtileza de Jesus, o seu olhar atento pela humanidade, falou mais forte. “Que se sentem. Haverá comida.” Assim foi. Estamos a falar de uma multidão de 5 mil homens. Naquele tempo era assim que contavam. Eram muitos mais, pois há que juntar mulheres e crianças. Muita gente?!? Sem problema. Não há inquietação. As pessoas sabem partilhar. Óbvio que é um partilhar depois da benção, tornando a dádiva plenamente gratuita e alegre. Partilha-se com simplicidade o que se tem. E isso pode ser de algo material, em comida: fome é fome. 

Mas, alargando a ideia de fome, quantas vezes não a há de afecto e de carinho? Separar em grupos de 50 ajudava a pôr as pessoas a partilhar, para além da comida, as vidas, os sonhos, os projectos, fazendo-se, assim, outro modo de ser corpo: comunidade. Uma comunidade que vive afectivamente. É outro modo de dar um abraço: partilhar a vida. Não tem que ver com “cusquice”… nada disso. Tem que ver com partilhar dores e alegrias, sonhos ou desafios, lágrimas ou gargalhadas, enquanto se come. Isto também é viver em comunidade.

Os que estamos aqui a celebrar, sejamos mais ou menos conhecidos, formamos este corpo que partilha a oração silenciosa e o alimento que é o próprio Deus. E isso deveria fazer-nos sair diferentes. Pode não ser com a vida mudada do avesso, mas com a certeza de que levamos vida divina dentro, para que cada um de nós seja também alimento para quem esteja à nossa volta, quem sabe com um simples e alegre abraço. Deixo o desafio: dar um abraço a uma pessoa de quem gostamos e fazer o milagre da multiplicação da simplicidade e da alegria. Deus chama-nos a isso, a dar a vida, a ser alimento com Ele e como Ele.

Antes de terminar, recordo um poema que me é muito querido, de Sophia de Mello Breyner:

Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento.


Que a mística do corpo não continue desconhecida. Que a beleza do Corpo de Cristo possa ser continuamente redescoberta também na profundidade e beleza de um abraço, fazendo desse momento oração e encontro. E sobrará, tal como os pães e os peixes, muito mais vida, assim em abundância, para partilhar. Amén.

Estudos e reflexões




Aashit Desai


Se se quer continuar, reformular, até mesmo acabar com os contratos de associação, então que haja honestidade intelectual, moral e política em reflexões sérias sobre os impactos disso mesmo. Neste mês e meio, a partir do famoso despacho que claramente diz que “foi dispensado da audiência dos interessados”, tomaram-se decisões de gabinete sustentadas por um estudo a partir do google maps, no qual também há dúvidas em relação à capacidade das escolas estatais, tendo em conta o “parece que” algumas vezes referenciado. No entretanto, continua-se com muita (des)informação, alguma também em jeito de propaganda e manipulação de dados, mesmo sabendo que o próximo Setembro poderá ser, se isto for avante, o caos para muita gente. A todos nos toca os impostos, a todos nos toca a liberdade, a todos nos toca a (in)justiça, mas, igualmente nos toca a todos quando há decisões tomadas que esquecem o fundamental: as pessoas concretas, para além de gabinetes.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Abençoar casamentos




Gosto de abençoar casamentos. Ainda mais quando começo a acompanhar a vida de cada um, na partilha das suas histórias, e a preparar o futuro desse caminho em complementaridade. É bom acolhê-los à porta da Igreja, dizendo “esta casa é vossa” e, ao longo da celebração, ver os brilhos de olhar que confirmam o que tanto insisto: “este é o vosso dia. Não é dos pais, dos amigos, é vosso!” Depois, a responsabilidade, como padre, de acompanhar o casal, ajudando-os, na medida do possível, a viver na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Essa recordação é feita em selfie, para ir rezando por quem vou abençoando. Hoje, a Sara e o Mário enviaram-me a foto da selfie, na sacristia, já mulher e marido. Gosto muito de abençoar casamentos. 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Incómodo




Donato DiCamillo


Faz-me confusão quando leio posições em que rapidamente se trata as outras pessoas de “tótós”. E, infelizmente, há muitas formas de o fazer. Não é por acreditar em Deus que sou “tótó”, muito menos por manifestar o meu desagrado em relação a políticas educativas. Já escrevi várias vezes o incómodo que sinto com a agressividade que facilmente cresce atrás de um ecrã. Talvez por ter grande capacidade imaginativa, começo a ver diálogos, posts, comentários como se fosse ao vivo e a cores e é algo um tanto ou quanto desagradável. Assusta-me a forma como se destrata com tanta leviandade, seja quem for. Posso não estar de acordo com posições, isso não deve levar ao desejo da morte da outra pessoa. Em tempos de evolução tecnológica, parece que decresce a capacidade empática. É difícil e exigente pôr-me no lugar do outro, mas ao fazê-lo, não significa que tenha de ser a outra pessoa ou adquirir a sua posição, simplesmente faço caminho de compreensão que me permite aliar a emoção à razão. Isso também é adquirir liberdade.

domingo, 22 de maio de 2016

Alunos | Educação




Siddhartha Banerjee

[Secção desabafos] Já se percebeu que o bom trabalho (educativo e de gestão) que se faz no INA e no CAIC, escolas públicas com contrato de associação, de nada interessa. Para muitos, como são “privadas”, não podem ser de serviço público. Além do mais, aparentemente já “se resolveram os problemas de falta de escolas naquele tempo em que não havia”. Também não é importante nos preocuparmos com despedimentos, afinal, “não nos preocupámos com a situação dos professores que não tiveram entrada nas escolas do Estado”. Depois, lá vem a história do mal-empregue dinheiro dos contribuintes, etc. e tal, sem se perceber o mais importante: a formação humana e académica presente nestes projectos educativos. Sabendo que a escola onde trabalho corre o sério risco de fechar, tal como o CAIC, pois são das contempladas com a redução total de turmas de 5.º, 7.º e 9.ºs anos, coloco as seguintes questões pensando nos alunos: 

- Que vai acontecer aos alunos já integrados que foram, ou expulsos de outras escolas, ou pedido que os aceitássemos a meio do ano, por se saber que acolhemos sem discriminação e ensinamos a partir do serem pessoas e não números ou “gente-sem-interesse-por-serem-problemáticos”? Vão voltar para essas escolas das quais foram expulsos?

- Garantirá o Estado, a partir dos respectivos directores de agrupamento, de que estes alunos, independentemente das suas notas, terão igual acesso às escolas com melhor nível de ensino? Sim, sejamos honestos, há discrepância a este nível nas escolas estatais.

- Garantirá o Estado de que possam ir, de facto, para escolas com boas condições físicas? [Pensando, por exemplo, em Santo Tirso, tenho dúvidas.]


Infelizmente, com muita tristeza minha, também a perceber uma série de manipulações, mesmo pela comunicação social, entrou-se em tensões que nada ajudam o que realmente importa: a educação de pessoas.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Luto(s)




Wilhelm Tobien


Estive à conversa com alguém com dificuldades no estudo. No desenvolvimento da conversa, apercebi-me que as dificuldades nada tinham que ver com o cognitivo, mas com o emotivo. Disse-lhe que muitas vezes há exigências que são desenquadradas da realidade que cada um de nós vive. Tendo em conta que atravessa claramente um luto tardio, de nada adianta forçar caminhos para o 5. Pelo esforço que está a viver, o 53,5% equivale ao 100%. A conversa vai continuar, pois, como sabemos, os lutos são únicos e necessitam de tempo.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Estranha democracia




Estranha democracia quando são tomadas decisões políticas de forma unilateral. Ainda mais em algo tão central e fundamental como a Educação, implicando com a vida de tanta gente. Aliás, já há muitos anos (40?) que em Portugal se brinca às reformas e decisões nesta área. Educar para servir… e pensar implica muito. Nós, jesuítas, temos mais de 400 anos de “ratio studiorum” e investigação pedagógica. Mas isso, pelos vistos, são pormenores. Estranha democracia quando são tomadas decisões políticas de forma unilateral.

sábado, 14 de maio de 2016

Sopro(s)




Martin Roemers


[Secção outros tons… especial Pentecostes] No princípio é a inspiração. Insufla o corpo no primeiro grito que abrasa e confirma a vida. Aos poucos, o diálogo torna-se presença a quem impele o crescimento, anulando o medo de andar, fazer caminho e encontrar(-se). As divisões cessam com o gesto de paz, em que as palavras são desnecessárias: basta que ames. Forma-se outro Corpo, onde todos os membros são matéria divina. No perdão forma-se o fogo que transforma todas as coisas a dar de si, renovadas pelo sopro do Espírito. E nasce-se de novo, deixando que no princípio seja a inspiração.

Nem força, nem fraqueza.




Demonstração de “força bruta” ;)  no Slide & Splash  


“Paulo, muita gente não estava à espera que um padre falasse bem da peça.” Referia-se às minhas intervenções nos encontros de 3.ª e de 5.ª no Rivoli, a partir de “Sobre o Conceito do Rosto do Filho de Deus”. Sim, tentei ir para lá da superfície e perceber a riqueza da forma como as coisas são exploradas. Não adianta ir com forças ridículas, em defesa da fé. Já o disse várias vezes, Deus não quer ser defendido, mas testemunhado. Olhando para os rostos dos muitos que foram assistir às conversas, apercebi-me da inquietação espiritual que habita os tempos de hoje. Talvez essa inquietação surja por caminhos alternativos, que não pedem nem demonstração de força ou de fraqueza, mas escuta atenta, com a possibilidade de pontes ou da provocação em perguntas. Hoje anseia-se por respostas muito rápidas, não dando tempo para as boas questões a colocar. São caminhos de crescimento e de humanização a serem percorridos, entre forças e fraquezas, pessoais… e comunitárias.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Ainda as Escolas com Contrato de Associação




Sherry Zhao

[Secção desabafos - Ainda as Escolas com Contrato de Associação] Tenho cada vez mais dificuldade em ler sobre este tema. Como muitos outros, no nosso país aproxima-se de diálogo de surdos, onde se generaliza de forma assustadora, ficando quase anulados o pensamento e a capacidade de reconhecimento do bem que é feito. O mais fácil é o “bitaite” em jeito de “achologia” que não conhece a realidade para além de números em notícias, relatórios ou estudos. O fundamental não é o dinheiro, apesar de importante, evidentemente, mas o ensino, a pedagogia, que ajude a formar mulheres e homens em letras e virtudes. Toda a minha escolaridade foi feita em escolas do Estado, com excelentes professores, que são exemplo no meu modo de ensinar. Pela minha decisão de vida, das missões que me foram confiadas, conheço bem duas escolas com contrato de associação, com serviço público que vai muito para além do académico. Por isso, não se trata de melhor ou pior. Infelizmente, na actualidade, tudo gira cada vez mais à volta do dinheiro, esquecendo o essencial, as pessoas, com histórias concretas. Se há interesses, independentemente das Escolas, que não sejam os pedagógicos, então que haja auditorias e justiça, recordando-as, mesmo as do Estado, que não são, de todo, uma empresa. Talvez fosse interessante se o Ministério da Educação (ou do Ensino, que seria como se deveria chamar, já que a educação é algo bastante sério para estar confinado à dimensão política) investigasse e aprendesse o que se vive em países que já passaram esta discussão há muito. Ensinar é demasiado importante para ser reduzido a discussões de aproveitamento político e ideológico. Mas, claro, isto são utopias e “faits divers”, de quem vai conhecendo as vidas de muitos dos alunos e respectivas famílias. E dói ler ou ouvir algumas palavras, enquanto penso em rostos concretos que contrariam o que é escrito ou dito. Seja como for, continuo com muita animação pelos corredores e salas a “Educar para Servir”. Desejo e quero muito que os meus alunos cresçam e vivam em humanidade… isso é fundamental. 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Conversa




José Caldeira

“Sobre o Conceito do Rosto do Filho de Deus”, peça de Romeo Castellucci a ser apresentada amanhã, foi a base do encontro “Ver para a Crer” no Rivoli. Cada vez sou mais adepto, não tanto de debates, mas de conversas. Foi o que aconteceu ontem. Houve uma boa partilha sobre a presença de Deus e da Religião na Arte. De si, a arte tem muito de provocação e parece-me que deve levar a bons questionamentos. Sem ter de haver imediatas explicações, quase como que em racionalismo científico, o “ver para crer” artístico pode abrir novas perspectivas. Esta peça interpela, é incomodativa e dura. Mas, pelo que partilhávamos, não por uma aparente blasfémia ao Rosto do Filho de Deus, mas pelas perguntas que levanta sobre como vivemos, p. ex., a humanidade ou a relação com Deus. Quando se estuda os textos bíblicos, como o fez Romeo Castellucci, percebe-se que a ruptura das imagens relaciona-se com a desinstalação. Afinal, os gritos diante de Deus, podendo roçar a blasfémia, acabam por ser sinal de fé, que não é “kitsch”, envolta em pietismo, mas que arrisca às perguntas e ao movimento dinâmico da busca. Agradeço muito ao Tiago Guedes e à Dina Lopes, pelo convite, à Helena Teixeira da Silva, pela moderação, e ao Pedro Sobrado e Silvano Voltotina pela partilha de ideias. Amanhã há mais conversa, depois do espectáculo, com a presença dos artistas, no Teatro Municipal do Porto - Rivoli.




segunda-feira, 9 de maio de 2016

F.




Eduardo Pires


[Post escrito com a devida autorização] Das bonitas experiências que tenho vivido como director de turma, uma tem sido a relação com o F. Logo no primeiro encontro, quando fui à sala anunciar-lhes que era o novo DT, apercebi-me da sua reacção de distância. Quando os cumprimentei, não queria tocar-me. Fiz um pequeno teste, para confirmar se seria impressão minha, e aproximei-me em jeito de dar-lhe um abraço. Saiu a correr. Respeitei. Na primeira aula, fui dizer a cada um o quão espectacular é. O F. diz-me: “mas eu sou perfeito!” Ao que me dirijo para toda a turma: “alguém tem dúvidas que o F. é perfeito?” Fui juntando pequenos momentos de dar-lhe atenção e espaço, para poder manifestar as suas opiniões. Ele é MUITO inteligente, com a impressionante capacidade de reter MUITA informação. Aos poucos, era ele que já vinha dar-me a mão para e cumprimentar-me em pequenos “murrinhos” amigáveis. Na última aula, desenhou um grande coração no quadro com um “EU” dentro. “Stôr, vai apagar a minha obra prima?” “Óbvio que não!”, respondi, “não é todos os dias que posso ver beleza à minha frente!” Ele riu-se de satisfação. Já tive de levá-lo ao meu gabinete, para ter uma conversa mais em particular e também dar-lhe pequenos raspanetes. Não se importa, pois “o stôr gosta mesmo de toda a gente e de mim também.” Hoje tocou-me no ombro: “DT, não passou pela nossa sala. Tem de lá ir todos os dias!” Assim o farei. O F. tem-me ensinado muito, também no respeito da diferença, em particular de quem vive o síndrome de Asperger.

domingo, 8 de maio de 2016

Corpo | "Atomos"




Travis Clausen Knight, da coreografia "Atomos"


O dia de ontem falou-me muito de Corpo. De manhã, o Corpo frágil e vulnerável. Estive no workshop organizado pela Soc. Port. de Neonatologia sobre acompanhamento em cuidados paliativos pediátricos. De momento, apenas digo que foi intenso. Falarei mais tarde, quando tiver o vídeo. À tarde, o Corpo Divino. Foram as Primeiras Comunhões de 24 pequenotes e o baptismo da Maria Luísa. Foi muito bonito e animado. Também escreverei com mais detalhe, acompanhado de vídeo ou foto. À noite, Corpo forte, ágil, em relação, através de “Atomos”, coreografia de Wayne McGregor. Detenho-me aqui. Sentia-me muito agitado quando cheguei. Afinal, é tanta coisa a acontecer, entre alegrias e tristezas, injustiças e atropelos à liberdade, que ando com o pensamento a mil. Sinto-o logo em momentos de paragem. Ainda mais quando diante de mim há movimento denso, em contrastes coreográficos que falam de humanidade. A folha de sala falava de corpo. De corpo que se quer em relação. A dado momento emocionei-me, quando em gesto firme, como em todos ao longo da coreografia, os bailarinos elevaram os braços com as mãos em jeito de oração ou então “nada tenho a temer, sinto-me livre”. Qual a relação entre o indivíduo e a comunidade? Qual a minha relação entre o meu ser corpo e o ser Corpo de mundo? E a minha relação diante do corpo vulnerável, que apenas quer se amado? No regresso a casa, hoje, na minha oração, pensava o quanto o mundo está em transformação…. e pede Corpo com mais humanidade.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Ainda a liberdade...




Estes últimos dias foram cheios de acontecimentos. Desde as conversas que marcam, passando pela festa dos pequenotes por se irem confessar pela primeira vez na preparação para a Primeira Comunhão (alguns, quando cheguei, saltavam de alegria... ao que lhes disse: "é essa a atitude... e a manter!") e, claro, a grande mobilização que aconteceu ontem, para continuarmos a manifestar a favor da cada vez maior liberdade de escolha na educação, que o recente despacho 1H/2016 da Secretaria de Estado da Educação pretende cortar, a partir da delimitação geográfica. Tudo aconteceu muito rapidamente, com a ideia por parte dos alunos de montarmos tendas à entrada da escola, passando lá a noite, e assim manifestar o apreço e carinho por esta pedagogia e modo de educar. Chamaram colegas e educadores (enc. de educação, docentes e não-docentes), no fundo a comunidade que cresce à volta da escola, fez-se arroz e omeletes e foi a animação. Fomos entrevistados pela SIC, pelo Porto Canal e pela RTP. Uma das jornalistas comentou surpreendida: "mas, estão felizes enquanto protestam". Pois, é isso, ninguém é "arruaceiro". Estas escolas formam pessoas também para o sentido cívico da manifestação, mostrando, precisamente pela animação e felicidade, os laços que se criam. Como se notou, a força da vida, com respeito e civismo, mostra aos governantes que a escola não se baseia em números, mas em pessoas que exercem o direito da liberdade de escolher a pedagogia que querem seguir.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Bolo(s)




[Coisas da vida de um padre numa escola maravilhosa] Os alunos do 11.º C fizeram-me um bolo… e eu [que pontaria!!] não estava na escola àquela hora. Mas isto tem história. No último dia de aulas do 1.º período, passei pelas salas todas a desejar um Santo Natal. Esta turma convidou-me a lá ir comer bolo. Quando cheguei… não estava ninguém. Sala completamente vazia. O drama! A tristeza! A dor! Obviamente, no primeiro dia de aulas do 2.º período passei pela sala e: “meus amigos, eis que cá cheguei no Natal para comer tão famoso bolo e já todos tinham ido embora. Quero bolo!” Como se vê, o tempo foi passando (com os devidos recordar de “Quero bolo!”) até meio do 3.º período. E o bolo chegou… com muito carinho… no dia em que não estou na escola àquela hora. ;) Mas, eles, muitos queridos, deixaram-me uma fatia no gabinete. Estava tão bom! Para compensar tão terrível falta minha, sou eu que tenho de pôr mãos à obra nos dotes culinários “boleiros”. ;) [Ah, sim, há uma personagem da turma que se lembrou de me chamar “Papá”… eu já lhe disse que me chame à vontade, desde que não me peça dinheiro!] ;)

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Defesa da Escola [ponto]




Quando estudei em Paris, dei apoio na formação no nosso colégio situado bem no centro da cidade. Sendo um colégio jesuíta, vive o projecto educativo a partir da pedagogia inaciana, com o evidente cariz católico. Tem alunos cristãos, judeus, muçulmanos e ateus. E é, tal como outros similares, financiado pelo Estado francês, tão conhecido pela sua laicidade. Sim, porque não se confunde laicidade (o Estado não tem nenhuma religião oficial) com anti-religioso (vamos eliminar a religião da face da terra). A famosa igualdade francesa faz com que todos tenham acesso ao estudo (como não podia deixar de ser), aliando-se à igualmente famosa liberdade francesa, que permite a possibilidade de escolha do projecto educativo de estudo.  Já agora, a famosa fraternidade recorda-nos a riqueza da diversidade que pode dar pontos de vista distintos, por exemplo, se todos os parceiros sociais são ouvidos na apresentação de uma lei ou de um despacho que pode visar a vida de milhares de pessoas, muitas delas trabalhadoras.

Em Portugal, o Estado, em seu tempo, necessitou das Escolas com quem estabeleceu contratos de associação, não só por questões geográficas, mas por perceber a mais-valia dos projectos educativos. Afinal, o que interessa na educação é o desenvolvimento humano do aluno, que implica intelecto e virtude. Para isso, ajuda a boa formação dos educadores docentes e não docentes, em colaboração com a família directa. 

Como em política há, infelizmente, muitos interesses pessoais (e ideológicos), os (des)acordos correm riscos em ser feitos a partir da realidade abstracta, mencionando, p. ex., questões económicas, sem conhecer as escolas no concreto, com o que nelas se faz em prol da sociedade. As escolas com contrato de associação prestam serviço público de qualidade e excelência para todos, independentemente da capacidade financeira do agregado familiar. Sobretudo para quem desconhece esta realidade, convido a ir até ao Colégio das Caldinhas (entre Sto. Tirso e Famalicão) ou ao CAIC (em Cernache) para conhecer no terreno o que se faz, como funciona a nossa pedagogia. Pode assim ver no concreto e falar com quem cá passa os dias, acompanhados pelo lema “educar para servir”. Há tanto que aqui se vive que, por respeito, não é de se partilhar por aqui, mas de se ver e ouvir em rostos que falam da escola como 2.ª casa e 2.ª família.


Se o Estado caminhasse para a liberdade que tanto deseja, permitiria que a escolha da educação fosse uma realidade cada vez mais forte. Afinal, a Pátria (ou porque não “Mátria", já que ontem foi dia da Mãe) deveria contribuir para que todos possam sonhar, crescer e desenvolver-se em verdadeira liberdade de pensamento e educação.

domingo, 1 de maio de 2016

Mãe(s)




Ao colo da minha Mãe Maria a fitar algo, de forma atenta. Ou não. Pode ter sido o instante do clique.


As nossas mães são sempre as melhores do mundo. Naquele segredo de saberem o nosso sentir, por terem elas mesmo sentido nas entranhas o desenvolvimento de cada gesto que desperta vida em nascimento. Depois vem o quotidiano, na experiência de terem sido filhas e de quererem sonhar futuro com muitas histórias. Entre tensões e cuidados, raspanetes e abraços e beijos, os cordões umbilicais demoram a cortar. Será que alguma vez se cortam? Vêem-nos voar, por vezes em caminhos desconhecidos, guardando no silêncio o que não compreendem. Na escuridão, nossa, voltam sempre a mostrar o regaço. Apesar da saudade, quando notam o sorriso, em caminho feito de expansão de Luz, descansam. E entregam(-se). As nossas mães são sempre as melhores do mundo.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Ser ponte




“Mais do que construir pontes, somos chamados a ser nós mesmos pontes.” Foi uma das muito boas ideias que ouvi hoje. Faz sentido quando se pensa na complexidade do processo de integração de pessoas que chegam até nós vindas de cenários de guerra. Afinal, a integração implica muita reciprocidade. No acolhimento, não só se dá, também há muito a receber... e há que estar disponível para isso mesmo. Num workshop sobre formação em justiça social falou-se da importância da libertação de estereótipos e etiquetas. O básico: as pessoas são pessoas para além das suas características. Terminámos o dia com uma ida ao centro de Bruxelas. Passámos, obrigatoriamente, pela Praça da Bolsa… onde se concentra a homenagem às vítimas dos recentes atentados nesta cidade. 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Formação




Cheguei há pouco a Bruxelas. Participo num Seminário sobre a integração de migrantes e refugiados nas escolas da Companhia, organizado em conjunto pelo JRS - Internacional e pelo Comité Europeu Jesuíta para o Ensino Primário e Secundário. Somos um grupo de 30 participantes de toda a Europa. E assim avançamos em formação sobre esta realidade dos refugiados cada vez mais presente… à qual somos chamados a acolher e a ajudar. 

terça-feira, 26 de abril de 2016

"Vou renovar todas as coisas"




Ana Beatriz Ribeiro


Fiquei com o “vou renovar todas as coisas”, lido na Missa deste domingo, a passear pelo pensamento. Como é que acontece esta renovação de tudo? A história mostra-nos como há momentos cíclicos e parece-me que esta fase que atravessamos lateja por renovação. De algum modo é incómodo, estranho, onde a incerteza diante de tanto aumenta a sensação de não se ter chão, tendo em conta a velocidade das mudanças. Atravessar a escuridão é necessário, pondo em causa caminhos antigos e encontrar novas perspectivas de encontro à humanização. É caminho de amor, que implica enfrentar a sombra da alma. Por outras palavras, enfrentar os medos, as culpas impostas, a vergonha instalada, que levaram a que se abafasse a natureza a que cada qual é chamado. Daí que a fé esteja ligada de forma bastante forte ao amor próprio, infelizmente em grande quebra. Dá que pensar as imensas formas de chamar a atenção, nesse desejo de se ser amado. Como não creio num deus paternalista, vejo este “renovar todas as coisas” como libertação de formas de viver a fé que infantilizam. O mais fácil é cumprir regras. O mais difícil e exigente é saber questionar-se, amando(-se) e não quer ficar por aí.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Liberdade




Xinhus/Reuters

Hoje representei a escola onde trabalho nas comemorações do 25 de Abril. Ouvi muitos discursos, de todas as cores políticas, onde se repetiu “liberdade” à exaustão. Perguntei-me: o que é a liberdade?

Será liberdade fazer-se o que se quer? Não me parece. Inevitavelmente haverá colisão de liberdades. Será o que acaba quando começa a de outra pessoa? Também considero uma resposta pouco completa, por ficarmos como que em “guetos” relacionais, onde se vive liberdade apenas em zonas de fronteira.

A meu ver, a liberdade acontece quando, em diálogo e reflexão, duas ou mais pessoas, mesmo tendo pensamentos diferentes sobre a realidade, fazem caminho lado a lado, promovendo, assim, o crescimento pessoal, seu e de todos os que as rodeiam.

Com a situação das escolas com contrato de associação vejo um Estado que caminha sozinho, segundo os seus interesses, tomando decisões que anulam a liberdade da pessoa, em vários níveis. Ironicamente, em nome da Liberdade e da Justiça. Não se porá em causa a liberdade em ter de se ir obrigatoriamente para uma escola concreta definida pelo Estado, perdendo-se a possibilidade de escolha, independentemente das condições financeiras e académicas das famílias, por outra que ofereça um projecto pedagógico que promova a liberdade de pensamento, de religião, de cultura e, inclusive, de ideologia?


Sim, que se recorde a força da liberdade, em tudo, a partir do diálogo, da reflexão, da colaboração e do reconhecimento do bem que se faz.

domingo, 24 de abril de 2016

A dúvida da criança




Aaron Huey

No final da Missa, uma criança aproxima-se:
- P. Paulo, porque é que fecha os olhos tantas vezes durante a Missa? Está a dormir? 
[Gargalhada minha]
- Sim, aproveito e faço pequenas sestas. Não sabias?
- Mas como é que consegue dormir e manter-se direitinho? É que às vezes está de pé.
[Outra gargalhada]
- Vá, eu conto a verdade. Fecha os olhos e sente a respiração. Só isso. Como te sentes?
- A acalmar.
- Agora imagina que alguém muito especial está a abraçar-te. [Surge um sorriso suave] Então?
- É bom.
- Por ser padre, nalguns momentos tenho de falar de forma especial em nome de Jesus, então, por ser grande a responsabilidade, eu fecho os olhos, e, ora estou à escuta, ora agradeço a presença dele na minha vida. Depois, imagino-o a dar-me um abraço e a dizer-me: ama. E é isso mesmo: é bom, por isso faço-o muitas vezes. Tu também podes fazer.
- Mas eu não vou falar em nome de Jesus.
- Pois, na Missa, como eu, não vais, tens razão. Mas, na vida, no dia-a-dia, quando acreditamos em Jesus, os nossos gestos de carinho e amizade falam muito dele. Por isso é que, sempre que quisermos, podemos fechar os olhos e imaginar o abraço de Jesus. E assim estamos também a rezar. 
- AHHH, [com grande sorriso], descobri!! O P. Paulo, passa a Missa a rezar! No próximo domingo também vou fechar os olhos.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Conferência em Leiria




Esta noite vou estar no Seminário de Leiria a partilhar alguns pensamentos e reflexões sobre isto de “O uso de uma fé credível (e o que tem a misericórdia a ver com isto)”. Como se vive a fé, ainda mais credível, que passa pelo amor próprio que se dirige ao amor ao próximo a partir da misericórdia? :) 


quinta-feira, 21 de abril de 2016

Educação: tema complexo




Teresa Lamas Serra


A educação é tema complexo... e, tal como o ser humano, nunca assenta em neutralidade. A nós, jesuítas, sempre nos apaixonou desde cedo. Inácio de Loiola apercebeu-se da riqueza que era formar pessoas, dando-lhes valor e dignidade pela aprendizagem em "letras e virtude". Começaram a surgir os colégios por toda a Europa e, pouco depois, por todo o mundo. Portugal também teve os seus tantos, até à expulsão promovida pelo Marquês de Pombal. Muitos, para além das capacidades financeiras, aprendiam e aprendem a partir da nossa pedagogia, que ainda hoje é referência no ensino. Afinal, conduz a que a pessoa desenvolva e explore os seus talentos, com liberdade de pensamento e religião... tendo isso muito que se lhe diga. Coisa que parece difícil de entender por parte de um governo que quer anular qualquer possibilidade de liberdade, também no ensino. A questão não é financeira, é ideológica. Sabe-se que tudo o que seja religioso é alvo a abater. Já o anunciaram, de forma velada, sem escuta de qualquer parte interessada a não ser eles próprios. O Colégio das Caldinhas, onde trabalho, e o CAIC, onde já trabalhei, além de prestarem serviço público, são colégios de gente rica, não pela questão financeira como muitos argumentam erradamente, mas de educadores (docentes, não-docentes, mães e pais) que acompanharam e querem continuar a acompanhar os milhares de alunos com mais ou menos dificuldades (sejam de que tipo for) a crescer em "letras e virtudes", junto com a liberdade... de vida, de pensamento, de espírito.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Basta acreditar




Olinda Morgado

A Suzanne ligou-me de 2.ª vez depois de um telefonema rápido. “Senti a tua voz estranha. Estás bem?” “Sim, de mim, estou! Mas tenho estado a ler sobre o Equador e sobre o Brasil, a visita do Papa a Lesbos, encontrando-se com os refugiados. Também a rezar um pouco sobre situações de vida que acompanho. Enfim, estava em pensamentos soltos sobre humanidade.” E foi, ontem deitei-me assim com aperto no coração. Dá tudo tanto que pensar. Ando bem, com imensa vontade de dar vida. Apenas há dias, com todos estes acontecimentos, em que sinto esta transformação de mundo de forma mais intensa. Acordei, aulas… fui ter com a minha direcção de turma, dar-lhes sorrisos e, qual mantra, “amigos, já sabem, brio profissional!” No regresso ao gabinete, há alguém que se aproxima e “stôr, obrigado por acreditar em nós”. Seguiu caminho. Eu entrei e agradeci… o quanto podemos humanizar. Tantas vezes basta acreditar. É o que lhes digo.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Que andamos aqui a fazer?




Fábio Teixeira

[Secção desabafos, com texto modificado de outro de há dois anos. Lembrei-me dele por, além de continuar a fazer sentido, estar a reviver o mesmo sentimento de confusão diante dos acontecimentos do mundo.] 


[Suspiro] Daqueles profundos, depois de pensar: “Que andamos aqui a fazer?”. Que ando aqui a fazer? Não, não se limita à pergunta existencial, filosoficamente talhada para um ensaio ou registo de argumentos políticos. “Que andamos aqui a fazer?” é das perguntas que exigem reflexão por carregar nuances de muitos acontecimentos que cada pessoa vive. E que o mundo vive. É difícil, muito difícil, pensar e viver o justo nos tempos que correm. Na era da informação, onde tudo se sabe, instala-se o “está mal, porque não me dá jeito”, entrando ou pela opinião "porque-sim" ou pela crítica fácil… onde a Memória vai-se desvanecendo para o canto sombrio da existência. Dói estudar História, Sociologia, Antropologia, Filosofia, Literatura e, sim, Teologia, adquirindo a gramática ou o esqueleto da reflexão. O Comunismo fez mal, o Socialismo fez mal, a Monarquia fez mal, o Fascismo fez mal, a República fez mal… o poder da falta de Liberdade faz sempre mal. A Liberdade constrói-se entre perder e ganhar, saindo de si. E é difícil perder. Mais que ganhar. Consegue-se democracia onde os que perdem ganham força para denunciar as injustiças dos que ganharam. Se a força tem como base o rancor, o ódio, a ânsia de proveito próprio, apesar da letra mudar dá-se o virar de disco a tocar a mesma música. Se a força tem como base o querer dar Vida ao outro, a partir da colaboração, já não interessa a competição, mas a vontade de que todos, mais que vencedores, sejam. Talvez aí deixe de ser necessário emigrar, fugir, refugiar-se. “Que andamos aqui a fazer?” Da minha parte, a deixar-me “ser do tamanho do meu sonho”. E saindo de ilusões, a ajudar como posso aqueles que me são confiados a ser gente livre, para além da raça, da cor, do sexo, do credo, do dinheiro, da nação.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Pancas




Terra Fondriest


Hoje passei por algumas salas. Pedi licença para entrar, disse-lhes, a alunos e professores, “vocês são espectaculares e esta escola não seria o mesmo sem vocês. Obrigado!” e saía. Ainda deu para ver o ar de surpresa, de “este passou-se” e de “ohhhh”. Sim, tenho estas pancas para mostrar que na escola também se vive e aprende a reconhecer o valor e a humanidade de quem a compõe.