quinta-feira, 27 de Novembro de 2014

Cante Alentejano - Património Imaterial da Humanidade




[Coisas extra-quotidiano na vida de um padre] Como português, com fortes raízes vindas do belo Alentejo, fui apoiar in loco a candidatura do Cante Alentejano a Património Imaterial da Humanidade. No plenário da UNESCO foram apresentando vários projectos culturais do nosso mundo. É emocionante assistir e aplaudir às diferentes adopções das candidaturas. Quando chegou a vez de Portugal, com o Cante Alentejano, o coração palpitou e com a aprovação, no momento da ovação e do canto em directo, houve mesmo emoção. Na imensidão que é a cultura, tudo isto faz-me pensar sobre a importância das raízes humanas, nas palavras (em poesia e em canto, como no caso do Líbano e Portugal), no cultivo   e tratamento de produtos locais (como o Argão, em Marrocos), nas tradições religiosas locais, como as festas/procissão em honra da Virgem da Candelária em Puno - Perú), como a dança (o caso de Omã e Mongólia). O que é certo é reconhecimento do Cante Alentejano como Património Imaterial da Humanidade, que se junta ao Fado, é algo de dignificar as belezas do nosso país. Parabéns Portugal! Parabéns "mê Alentéju"!





quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

Outras fontes



MS


[Secção outros tons] Aproximei-me da fonte. Depois de tanto caminho, por linhas tortas, estava na altura de parar. As leituras de Deus necessitam de respiro na compreensão. Estava brisa, bem suave. Tirei o chapéu, contemplei a planície. Depois do sol, estando à sombra, uns dizem a morte, eu prefiro a passagem angélica, em recordação de vida, passou por mim. Sorri. A caminhada foi longa, sentia cansaço livre. Abeirei-me. Com a mão em concha bebi do novo amanhecer, respeitando a promessa de que seguirei a cumprir o ser.

Papa Francisco na visita ao Parlamento Europeu e ao Conselho da Europa



Pool/Reuters

O Papa Francisco tem carisma natural. É notório. Gosto sempre de ver como cumprimenta as pessoas ao chegar aos sítios, como, p. ex. ontem, ao Parlamento Europeu e ao Conselho da Europa. À partida seria algo banal: põe-se o “sorriso 33” ou o “25” e já está. Pois, no caso dele, não. Há autenticidade a sair em cada expressão ou gesto. É sabido que é do melhor a quebrar o protocolo quando assim faz sentido. O que nele importa é a humanidade, o sentido da humanidade, tratando os outros, sejam crentes ou descrentes, como humanos (que devem ser tratados como sujeitos e não como objectos… e, infelizmente, é tão fácil objectivar o outro, desumanizando-o). Sim, é de ler e reler os seus ovacionados discursos ao Parlamento e ao Conselho, onde recorda tanto do essencial. Claro, não se fique pela beleza das palavras e dêem-se passos concretos pela humanização e pela paz. 

Discurso ao Parlamento Europeu:

Discurso ao Conselho da Europa:


terça-feira, 25 de Novembro de 2014

Escutar e Juízos




Lance McMillan

Num grupo de adolescentes que acompanho, para falarmos na capacidade de escutar, em especial o outro, comecei com um exercício de escuta de vários tipos de música. Enquanto ouviam cada música teriam de escrever o que sentiam ou surgia ao pensamento. Da mesma música, como se esperava, houve vários comentários ou reacções. Propus de seguida que se pusessem de pé, de olhos fechados, e escutassem as mesmas músicas com o corpo. Sim, não se ficar apenas pelo ouvido, sentindo as vibrações da música a partir das mãos, pernas, braços, cabeça, etc. As reacções foram muito engraçadas, pela novidade que se abriu. Entre outras, uma das conclusões foi: interpretamos a realidade de maneira diferente, ao nosso modo, como é óbvio, mas, como vimos, da mesma surgem várias perspectivas. Por isso, antes de se fazer qualquer julgamento, há que ter muita atenção às “vibrações” que circundam. Depois de as receber, é conveniente parar, respirar fundo e pensar, evitando fazer juízos que podem ser prejudiciais ao outro e à própria pessoa que os faz.

segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

Respiro e embalo




Há noites, depois de dias agitados, que terminam bem com músicas de respiro e embalo. É isto. E faz-se silêncio.

Um dos lados negativos do facebook





Há pouco, um amigo avisou-me que viu um perfil com uma foto minha. Vi o perfil, falso evidentemente, e telefonei de imediato para a Polícia Judiciária, pois, além de usurpo de identidade (com duas fotos minhas, uma de perfil e outra com o meu pai, como sendo suas), constatei que entre as “amigas” [apenas tem “amigas”] havia fotografias de menores. A PJ não recebe denúncias ou queixas por telefone. Aconselharam-me a ir à Polícia aqui. Fui. Não posso apresentar queixa, por ser uma conta portuguesa. No entanto, ficou registado em ocorrência para me ilibar caso seja cometido algum crime ou delito a partir desse perfil. Na Polícia disseram-me que não tem perfil de pedofilia, mas de possível acção de burla (algo bastante frequente. Criam-se perfis falsos, com fotos simpáticas e acolhedoras, e depois de algumas trocas de mensagens, pede-se dinheiro por algo: saúde, viagens, etc.) Antes de denunciar no facebook, queria que a Polícia visse a conta, pois poderia ser bloqueada antes de se fazer algo. E se fosse situação de pedofilia facilmente poderia criar outra conta. Já denunciei como falso e a equipa do Sr. Mark Zuckerberg já o eliminou. Não é a primeira vez que lido com perfis falsos, por isso costumo estar muito alerta. Mas, claro, alguém com a mesma foto não vai pedir amizade. Estejam atentos, sobretudo pais e mães, que o facebook e afins também pode ter muito “dislikes”. 

domingo, 23 de Novembro de 2014

Justiça




Rhys Logan


No dia em que a Igreja celebra Cristo Rei do Universo, aquele que julga justamente, vivemos intensos acontecimentos de questões, precisamente, de justiça em Portugal. Cada vez mais me convenço que um dos grandes pecados é o mau uso, indo ao abuso mesmo, do Poder. Seja político, económico, religioso, social, e também virtual. Virtual? Desde ontem tenho lido artigos, posts, comentários, com reflexões interessantes sobre a situação, outros que me dão que pensar sobre a humanidade que se vive. Sim, que se faça justiça, mas não se abuse dela em nome do poder, rejubilando por “sangue alheio”. Que não se mate pelas palavras, na agressividade que dói. Ontem saiu em liberdade Ricky Jackson. Esteve preso 39 anos, mais dos que tenho de vida. Todo o tempo inocente, de uma falsa condenação de homicídio. E afirma isto: “Acho que muita gente quer que eu odeie essa pessoa [que o acusou falsamente] e lhe transmita hostilidade, mas eu não. (…) As pessoas vêem-no hoje como um homem crescido, mas em 1975 ele era um menino de 12 anos, que foi manipulado e coagido pela polícia, que o usou para nos colocar na prisão. (…) Quanto ao que respeita a esse homem, desejo-lhe o melhor. Não o odeio. Desejo que tenha uma boa vida.” Li isto ontem. Hoje, na Missa, rezei em especial pela justiça em Portugal, sobretudo pelos que têm que manter a mão firme para além de jogos de poder, e por todas as pessoas, para que sigamos o caminho de humanidade. Com a consciência do difícil caminho que o mundo percorre, acredito que podemos ser mais humanos.

quinta-feira, 20 de Novembro de 2014

Click to pray




[Pausa para boa publicidade] Começar a rezar à velocidade de um click. Seja a rezar orações propostas, seja a propor orações para rezar, aqui está um novo site e uma nova aplicação que permite começar a rezar à velocidade de um click: www.clicktopray.org

Missa. Jesus a chorar. Refugiado. Humanidade.




Jiang Xi

Enquanto celebrava Missa e imaginava Jesus a chorar diante Jerusalém [passagem do Evangelho de hoje], lembrei-me de muitos rostos e de algumas conversas como esta com um refugiado. Contava-me como pouco a pouco ia aprendendo o francês. 

- Às vezes custa, não é? Sobretudo a relação entre a fonética e a escrita.
- Sim, e os temas de estudo. 
- Como assim?
- Temas como “a casa”, por exemplo. Faz pensar a família.
- Tens conseguido falar com a tua família?
- Não sei nada deles há meses. É preferível que eu desapareça para que eles vivam, ou mantenham a vida possível.

[Depois de publicar vejo pelo facebook que um companheiro presente em Roma, numa conferência, publicou esta frase dita pelo nosso Padre Geral, P. Adolfo Nicolás: "Tenemos que aprender de los refugiados. Han perdido todo, pero no su humanidad. Quizás nosotros tenemos que aprender eso, a ser más humanos".]



quarta-feira, 19 de Novembro de 2014

[Sem título]




Giorgio Lulli

As brumas envolvem
aqueles que pintam 
as letras e dançam
com as palavras
cinzeladas.

Em luar escondido,
o texto ganha contorno
amadurecido pela luz
da Estação.

A viagem é partilhada:
Rostos de lá,
silêncio de cá.

Desvelam-se 
novas páginas.

Vive-se o encontro.

terça-feira, 18 de Novembro de 2014

Vistas





Sempre gostei de vistas vastas. Pontos altos, permitindo ver para além do horizonte imediato. Aí, sempre que possível, deixo-me escutar o silêncio enquanto observo. Nesse silêncio brotam perguntas sobre os sentidos da vida e da humanidade. As vistas ajudam-me a pensar que não é coisa pouca. Não pode ser. À partida parece óbvio, nem devia ser algo a considerar. Mas, meia volta, em nome do poder apenas de ou para alguns, menospreza-se tantos outros. Se na escala dos mundos somos irrelevantes, na escala de Deus cada ser humano é universo. 

segunda-feira, 17 de Novembro de 2014

Crescer




Joe Hsu


Das coisas que mais me têm ajudado na fé, uma é descobrir Deus que convida a crescer: não sendo paternalista, não infantiliza. Talvez seja mais confortável uma relação de cumprimentos e piedosa: “cumpro, rezo tudo e mais alguma coisa, logo está tudo bem!” Talvez seja necessário passar por essa fase, mas… é isso, passar. No fundo, é a passagem pelas várias imagens de Deus para deixar cair ídolos que facilmente se constroem. Claro, como Deus convida a crescer, convida a desmontar o que vai para além do Amor. E o Amor, o verdadeiro Amor, não prende, não pressiona, tira a estabilidade… para fazer-nos ir ao essencial: a Deus, que convida a crescer.

domingo, 16 de Novembro de 2014

Entre talentos, dons e capacidades.



Paulo Teia,sj


[Secção outros tons] Dou-te talentos: cria. Deixa que as mãos moldem a terra, semeando possibilidades de poemas. Dou-te dons: anuncia. Trabalha a voz, aprende a palavra, nesse canto que evoca paz, perdão e justiça. Dou-te capacidades: serve. Desenrola-te, em rosto frontal e braços dispostos em oferenda, de tempo e de espaço. E se o medo aparecer, poda-o. És chamado a fazer caminho.

sábado, 15 de Novembro de 2014

Fecho a noite




Massimo Gugliucciello


Fecho a noite
com a escuta.

Entre movimentos,
o presente clarifica-se,
o coração aprende.

A morte abre-se
à Vida.



Oração. Fé. Justiça



Kiet Vo

[A minha homilia de hoje, cá em casa] Quantas vezes não ouvimos: “Deus não me escuta”; “Deus não atende as minhas preces”; “bem que rezo, mas de nada serve.”; ou outros desabafos semelhantes? No evangelho para hoje Jesus vai ao ponto: “orar sempre sem desanimar”. Mais uma vez, com um exemplo muito concreto, não só mostra a força da oração, como também aborda a questão da fé e revela um pouco mais quem é Deus. 

Posso pensar: como é que rezo? Como é a minha oração? No fundo, como é a minha relação com Deus? E nessa relação, como vivo a fé em mim e em Deus? Jesus não tem problemas em fomentar a oração de petição, destacando nesta passagem a oração a pedir justiça. A oração de petição permite-me o reconhecimento da necessidade de ajuda. Não podemos esquecer: somos seres em relação, entre nós e com Deus. A oração deve ser esse espaço de encontro, onde também se pede o que se necessita. Mas é para pedir com fé. E a fé pode implicar insistência, naquele pedido que não desanima. Ou seja, não perde a vida enquanto não é concedido. O problema surge quando se perde essa vida, achando que Deus não escuta. Noutra passagem evangélica, a mulher com hemorragia é curada pela sua fé. Desde as entranhas acreditou que bastaria tocar no manto de Jesus para ser curada. Na passagem de hoje, outra mulher, mesmo estando diante de um juiz iníquo, não deixa de acreditar na justiça a ser feita.

Deus é o Deus da justiça, sobretudo pelos mais fracos e desprotegidos. Não é por acaso ser uma viúva uma das personagens da parábola. A oração faz com que, sobretudo no momento em que me sinto mais vulnerável e desprotegido, perceba que Deus não desampara e está lá. A fé vai-se alimentando aí, nesse Deus que, sim, escuta e deseja a justiça. E percebe-se que fé não é sentir conforto, mas precisamente o incómodo que nos põe em movimento na busca da justiça, seja pessoal, seja para os que mais necessitam.


Sim, posso pensar: como é que rezo? Como é a minha oração? No fundo, como é a minha relação com Deus? E nessa relação, como vivo a fé em mim e em Deus?

sexta-feira, 14 de Novembro de 2014

Crónica iMissio: Há textos que vão-se sabendo de [...] coração (II)




Há textos que vão-se sabendo de cor, ou seja, de coração. Vão-se entranhando, tornando-se parte de nós. Foi assim que comecei a crónica da semana passada. Recordo bem o que tinha em mente quando a escrevi. Pensava na oração, na liturgia das horas, onde os salmos ou cânticos vão-se repetindo diariamente, semanalmente ou de 4 em 4 semanas. Depois, pensei em tantos outros textos, que nas mais variadas razões vão-se repetindo, saboreando, e, sim, entranhando, tornando-se parte de nós. Não sonhava que uma semana depois de o ter escrito (sim foi na 5.ª feira à tarde) iria ver, melhor, estaria literalmente em palco numa peça de teatro que andaria à volta disto do saber de cor… de coração.

Um companheiro jesuíta já me tinha falado da peça de um português que estava em Paris. Mas, depois de dias agitados com tanto, acabei por me esquecer. Até que na 4.ª feira, em leituras à volta da teologia estética, lembrei-me: “a peça que o Manel me falou!” Fui pesquisar e estaria em cena até 6.ª feira. “Só posso ir amanhã!” Comprei o bilhete on-line. Continuei, tal como na quarta à tarde, em leituras à volta da teologia estética: “(…) Dostoievsky afirma, com referência a Cristo, que a beleza salvará o mundo. Ou recordando Jean Anouilh que escreveu, numa das suas obras: ‘a beleza é uma das raras coisas que não leva a dúvidas sobre Deus’” [Gesa. E. Thiessen]. Inevitavelmente, acabei por recordar o final do discurso de Bento XVI, no seu encontro com o mundo da cultura portuguesa no CCB: “Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza.” 

Aproxima-se a hora. Saio de casa. Chego ao teatro. “By heart”, chama-se a peça, escrita, encenada e interpretada por Tiago Rodrigues. Ainda perguntei à senhora que recebia os bilhetes, tendo em conta que os lugares não eram marcados, qual o melhor sítio. “2.ª ou 3.ª fila, a meio. Mas verá, toda a plateia tem boa visibilidade”. Sentei-me na 2.ª fila. Saliente-se que o actor já estava em cena. Esta técnica dá-me sempre que pensar. Já está a acontecer. É isso. Não há um pano de palco na vida, ela está sempre a acontecer. As pessoas falam, ele lê um livro, e é isso, já está a acontecer. A vida está sempre a acontecer. Recordei o “Talk Show - até se apagar o corpo”, uma coreografia de Rui Horta, em que já está acontecer algo quando entramos… e tudo começa com um transplante de coração. O actor lê, até se levantar e, em francês (toda a peça é em francês): “Preciso de 10 pessoas que ocupem estas cadeiras vazias.” Risos, agitação. “Não se apressem. (…) Bem, dizer que essas 10 pessoas vão ter de, ao longo da apresentação, aprender de cor alguns versos de um poema”. Risos, agitação. Aproxima-se uma senhora. Alguém mais. Outra pessoa. E outra. Lancei-me também, ocupando o lugar ao lado do banco do autor. 

Dá-se uma viagem pela literatura. Onde George Steiner é citado a partir d’ “O belo e a consolação”. Ri por dentro, recordando as minhas leituras da tarde. O saber de cor, no coração, sim, onde se guarda a força dos afetos. Aprende-se de cor, mais do que memória mental, o que se ama ou quer fazer viver. No coração guardam-se versos de poemas ou capítulos de textos que nenhuma polícia ditatorial poderá mandar queimar. Aí, de cor, ficam a amadurecer as palavras que fazem sentido à vida. Em jeito de recordação no ritual judaico, onde o mais novo pede ao mais velho para repetir a história dos antepassados. A explicação de toda essa viagem: a avó Cândida que sempre leu durante toda a vida. Mesmo preparando bacalhau no restaurante que abriu com o marido, passando também a 2.ª guerra mundial. A mistura do banal com o profundo, as palavras e o sentir ecoavam-me… e voltava aos versos de Shakespeare que todos tínhamos de aprender de cor.

Em jeito métrico, como instrução primária, lá repetíamos. Eu ouvia os risos do público, ou o sussurrar tentando também aprender. Vulnerável, sentia-me. Às vezes perdido. Como alguns outros, que não conseguíamos “de-cor-ar”. Sentia a face a aquecer, outros viam o rubor em contraste com o casaco verde, que disparou quando, chegou a minha vez de aprender o verso individual. Diz o actor: “‘Je souffre au dur retour des tourtures soufferts.’ Este é difícil para um português. Vamos?” Começo “Je souffre au…” Olha para mim: “É português?” Aceno que sim. Gargalhada geral. Senti o verso em mim. Depois, enquanto outros aprendiam os seus versos, estando eu naquela perspectiva, observei uma ou outra vez aqueles que da plateia assistiam ao entoar da “cantilena shakespereana”. Braços cruzados. Queixo apoiado na mão. Corpo deslizado na cadeira. Muitas pernas cruzadas. Risos. Ar de cansaço. Tanto a saber de cor na vida. O saborear da literatura que também nos transporta para o mais que somos. A avó Cândida teria de ir para o lar. O neto oferecia-lhe livros. Até saber que iria ficar cega. E aí tudo muda. “Saber de cor um texto, para o ler mentalmente quando já não possa ver.” A oração do peregrino russo: repete-se, repete-se, repete-se, para que todo o corpo reze esse versículo. A beleza das palavras que assumem corpo, que tornam-se carne. Afinal, o Verbo fez-se carne. Sim, a Palavra que disse “faça-se luz” assume a humanidade plenamente. E antes de morrer e ressuscitar, deixa-se em eucaristia, acção de graças, de pão e vinho, a serem comidos e bebidos como Corpo e Sangue por nós, para sermos o que Ele é: vida em abundância a ser dada.

No final, os 10 fomos contemplados com algo. Ironia das coisas. Tendo-se recordado antes o profeta Ezequiel, que teve de comer as palavras que iria proferir em nome de Deus, foi-nos dado a comer os versos escritos em “pão de hóstia”. Mais uma vez recordei a crónica da semana passada: Às vezes faz falta mastigar a palavra. [Pois] “não é o muito saber que sacia a alma, mas sim saborear as coisas internamente” Sto. Inácio de Loiola. Alguém comentou: “mas é religioso?” Eu ria-me. Não, não é. Ou apenas será, apeteceu-me responder, se deixarmos que a religião seja o que ela também deve ser: re-ligar o que a humanidade separou da divindade. Não comi todos os versos. Parei a meio, pensando, vou guardar algo de “re-cor-dação”. E o que não comi, dando-me conta quando vi? “Íntimos remorsos; retorno das torturas; dor; feridas reabertas”. Sorri e pensei: “Não como, mas escuto muito disso nas confissões, ajudando a libertar-lhes, em nome de Deus, o coração.” 

Depois do espectáculo, fui ter com uns estudantes que faziam uma peregrinação nocturna à basílica do Sacré-Cœur.

A beleza disto tudo? Saber que a vida tem imenso de misterioso a saber “by heart”.  

quinta-feira, 13 de Novembro de 2014

"By heart" de Tiago Rodrigues



Soneto comido


[Coisas extra-quotidianas em Paris ou coisas na vida de um padre] Fui ao teatro ver “By heart” de Tiago Rodrigues. A peça tem como pano de fundo a avó Cândida. Sabendo-se a ficar cega, pediu ao Tiago que escolhesse um livro para aprendê-lo de cor e assim poder lê-lo mentalmente quando deixasse de ver. Na folha de sala: “lancei-me numa viagem. Uma viagem literária e labiríntica que, ainda hoje, continua”. O actor chama 10 espectadores, à sorte. Lancei-me. A peça deu-me que pensar. Havendo momentos de humor inesperado, nisto de ser(mos) português(es). No final, os 10 comemos, literalmente, o soneto de Shakespeare que fomos convidados a saber “by heart”, “par cœur”, de cor. Não o comi todo e até são curiosas as palavras que ficaram. De seguida, fui ter com estudantes que iam de peregrinação de Notre-Dame de Paris até à Basílica do Sacré Cœur. Amanhã, na crónica no IMissio (por tudo isto acabar por estar ligado com a da semana passada), desenvolverei um pouco mais.


Escravidão... e liberdade




Teruo Araya

[A minha homilia de hoje, cá em casa, onde celebrei Missa pela dignidade do e no Trabalho] 

O Reino de Deus não é um local ou um espaço, mas o modo de agir a partir da fé, da esperança e da caridade. A presença de Deus é perceptível pelos gestos que humanizam o outro. Por vezes podem ser muito subtis, apenas conhecidos por quem faz a caridade. Outras, é um apelo generalizado, quase em grito, pelos que sofrem, sobretudo, a injustiça. Já naquele tempo, em que a escravidão era permitida (mesmo no meio cristão), S. Paulo começa a dar a volta a esta ideia, explicando que o escravo deixa de o ser por ser um irmão. 

Onésimo fugiu. Todo o escravo deseja a liberdade. E impressiona como na actualidade há tanta escravatura. Não é apenas lá, nos chamados países de terceiro mundo. Basta pensar aqui ao lado, onde, por exemplo, filipinas são submetidas à escravatura doméstica em casas de gente rica de dinheiro, mas miserável em humanidade. Ou na escravatura sexual que é cada vez maior por esta Europa fora. Em Portugal, há muitas empresas que, sob ameaça de despedimento, impedem que as mulheres engravidem, tudo em nome da produção e da economia. Ou então, aproveitando a “abundância” de gente em procura de emprego, mantêm os empregados em condições de exploração. Volto a estas palavras de S. Paulo: “Talvez ele se tenha afastado de ti, Filémon, durante algum tempo, a fim de o recuperares para sempre, não já como escravo, mas muito melhor do que escravo: como irmão muito querido. É isto que ele é para mim e muito mais para ti, não só pela natureza, mas também aos olhos do Senhor. Portanto, se me consideras teu amigo, recebe-o como a mim próprio.”


Assim,  trago para esta Missa todas as pessoas que estão submetidas à escravidão e todos os que a mantém escravos. Que o Reino de Deus se possa manifestar nos corações de uns e de outros. Dos escravos, mantendo viva a fé e a esperança da liberdade. Dos que escravizam, apelando à consciência de que também eles são escravos da desumanidade, permitindo-lhes ver que a caridade também é o caminho que têm de seguir para a liberdade de todos.

quarta-feira, 12 de Novembro de 2014

"Duas faces da mesma moeda"



Encontrei estas duas fotografias numa carta que me escreveram há tempos. “Duas faces da mesma moeda que existe em cada um”, dizia como legenda. No MAG+S 2011, em Loiola, dancei o General do Mal. No meio de muitas recordações, aparece a sensação forte, dor até, que vivi. Na preparação dessa coreografia, mais do que buscar o mal no mundo, observei-me. Sim, sorrisos tenho-os, mas reconheço o caminho a fazer para não permitir que o mal vá ficando com a última palavra. Nem sempre é fácil. Posso ficar-me pela arrogância da “minha razão” ou humildemente reconhecer que não sou absoluto. Sozinho não chego lá, por isso, também em sacramento, deixo que a graça de Deus atravesse a vida. 

terça-feira, 11 de Novembro de 2014

Desejo de Deus




Camisa azul pendurada em ruínas seculares cor ocre, com alguma vegetação selvagem


Há desejo de Deus. Ou pelo menos de conhecê-lo, presente na curiosidade sobre a pessoa de Jesus. Depois de se estudar, p. ex., teologia, apercebe-se com alguma facilidade que não se aceita sem mais as novas descobertas de “evangelhos” que vão revelar toda a verdade omitida (?) por 2000 anos. Mas sai-me a pergunta: porque será que os livros “romanceados” ou estas novas investigações sobre Jesus são mais apelativos do que muito do que se prega nas nossas Igrejas? Ok, é de desconfiar das novas publicações sensacionalistas sobre a vida de Jesus. Mas, aprofundando noutras realidades, apercebe-se que também há coisas que andam menos bem na forma como se anuncia a Boa Nova, levando as pessoas a procurar outros caminhos na busca de Jesus. Isto não vai só de criticar os outros. Também vai, p. ex., de rever os planos de Pastoral a partir da actualidade. Talvez se chegue mais às pessoas a partir das suas vidas e não de suposições sobre as suas vidas ou sobre o que lêem.

Programa Visita Guiada, sobre a Sala da Aula da Esfera


[Pausa para um pouco de História] A Sala da Aula da Esfera [do Colégio Santo Antão, da Companhia de Jesus], considerada como instituição científica no ensino de Matemática... até à supressão da Companhia. A ver e saber um pouco mais sobre a relação entre a Companhia de Jesus e a Ciência.



segunda-feira, 10 de Novembro de 2014

Existência



Mirco Balboni


Sei que o síndrome da 2.ª-feira aparece. Não apetece trabalhar. Não apetece arrancar. Ainda mais quando o frio dos problemas, das chatices, das dores, apela à lareira, ao aquecedor ou à manta de almas, desejando ficar na cama, como refúgio, em leituras intermináveis de livros ou de mim, permanecendo no mundo aparentemente perfeito. Se isso acontecer, convido a pensar na constatação existencial, para além de qualquer mérito pessoal: “sou, podendo não ter sido. Sou alguém com possibilidades.” Mesmo que o caminho se apresente difícil, tome-se o descanso necessário, para de seguida dar os passos de avançar, de aceitar, de integrar. Pedindo ajuda, num chá, numa conversa, a cantar uma música, ou em silêncio acompanhado, sempre que tal fizer sentido.

domingo, 9 de Novembro de 2014

Templo... em corpo.




Martin Klimas


[Secção outros tons]

O tempo
nem sempre é sincronizado.

Havendo tempo para tudo,
também o há para desmontar
a linearidade lógica das coisas.

Abrem-se as portas e os umbrais,
derrubando as mesas, 
desordenando o caos, 
estabelecendo a harmonia 
do novo olhar.

Ovelhas e pombos já não justificam os pobres,
os bois regressam para lavrar a terra,
a misericórdia não é feita dos seus sangues.

Ainda há quem diga que é loucura,
loucura escandalosa
para quem tudo quer acertado
em modos que segregam.
Já não são moedas, poder ou jogos,
actividades de distâncias
- sociais, religiosas, políticas -
que abrem a passagem
para o novo Templo

em Corpo.

É o rosto
do novo olhar
desnivelado.

Eis o sinal. 


sábado, 8 de Novembro de 2014

Sala de Tripulantes



César Patrício e Arias


É sempre bom voltar a uma sala de tripulantes. Desta vez num écran, a recordar a Missa deste ano em Alcafozes, na festa em honra da N. Sra. do Loreto, junto com a aviação civil e militar. Bons voos, a quem vai voar. Bom descanso, a quem regressa. Penso em vocês, rezo por vocês, amigos voadores. :) César, obrigado por esta boa surpresa!! :D

Pedaços de tecido... ou...



Ontem em passeio de conversa boa, demos com uma pequena praça muito simpática em Paris [tenho de lá voltar, esqueci-me do nome]. Numa das esquinas de entrada para a praça estava uma loja de tecidos. A vitrine cheia de pedaços ordenados em cor chamou-me a atenção. Fico a pensar sobre a diversidade e a unidade, no diálogo que não pode cessar entre essas duas realidades. Aqui, é uma montra de pedaços de tecido… podia ser uma praça, um auditório, um autocarro, um avião, um congresso, uma missa, uma concentração, uma manifestação, uma peregrinação, cheios de gente.

sexta-feira, 7 de Novembro de 2014

Duas árvores




Michael Melford


Duas árvores, 
lado a lado, 
em conversa trocadas
de ramos, de folhas, de polén,
de apoio e de sombra 
de pássaros, 
crescem juntas. 

Partilham a seiva 
do tempo e da amizade.



quinta-feira, 6 de Novembro de 2014

Vocação sacerdotal



Mariana Abreu

Estava a meio de uma peregrinação, onde fazia parte da equipa de apoio, quando me deu o “bate” forte vocacional. Foi a primeira vez que servi um grupo de forma gratuita. Tínhamos almoçado. Escutávamos os pontos de oração. Entre o muito a ser dito houve duas coisas que me atingiram como setas certeiras. “Vamos pensar: o que é que eu quero de Deus e o que é que Deus quer de mim?” As lágrimas surgiram e prolongaram-se toda a tarde. À noite fui falar com um dos jesuítas: 
- Quero ser jesuíta!
- Paulo, imagino que estejas a passar por um momento espiritual forte, mas será que é isso mesmo?
- Mas… não há falta de padres?
- Sim, pode haver. No entanto, isso não é motivo para que se decida a vocação. E que tal fazeres um discernimento para perceber se há ou não vocação para seres jesuíta e/ou padre?


Assim foi. Durou ano e meio. Nesta semana de oração pelas vocações, em especial sacerdotais, que se encontre a liberdade em escutar o que Deus quer. Encontrando também as motivações certas para a decisão. O resto é deixar-se caminhar na conversão e no serviço.

quarta-feira, 5 de Novembro de 2014

Instante(s) de Corpo



[Secção outros tons] Até que ponto não deixas uma marca tua no instante? Encadeado de olhares, passos ou abraços, nesse convite a ir ao teu eu mais profundo. Peça ante peça libertas a vergonha de te despires diante de ti. Esse instante são instantes do desvelar de memórias, partilhadas. A marca que deixas, outros recebem. É impossível ficar indiferente à verdade. E desinstala. Não é o nu, esse torna-se um pormenor. É a certeza do teu ser, do meu ser. Apenas isso. 

Rezar por outros...



Merve Ates

Há pessoas que me ficam no pensamento de forma muito especial. Algumas bastou vê-las uma vez, com ou sem conversa. Não posso dizer que me marcaram por isto ou aquilo, nem sei explicar bem. O que é certo é que na minha oração ou pensamentos soltos aparecem, como se tivesse a "missão" de rezar por elas. Talvez não as volte a encontrar ou sim, como já aconteceu também. Claro que depois é difícil explicar que passaram anos em que as mantenho no pensamento, que rezo por elas. Não há mesmo explicação. Se calhar nem tem de haver. E continuo a rezar e a pensar por esses rostos que de forma misteriosa me foram confiados.


terça-feira, 4 de Novembro de 2014

Violência



Jonas Bendiksen


Às vezes pergunto-me quantas mulheres homens, idosos, crianças precisam morrer ou se suicidar em situação de vítima, para se perceber o grave problema da violência doméstica. Claro, o problema é dos outros. É sempre dos outros. Recordo que a única pessoa, além das da Trindade e Maria, que ficou presente no Credo foi Pôncio Pilatos, o que lavou as mãos, não tomando parte da condenação injusta. Mas teve e ficou registado! Quando sei de mais um homicídio ou suicídio é uma parte de mim que morre também. E dói-me porque já fui cobarde. Isto não vai só de escrever e republicar coisas bonitas por aqui, mas de tomar acções de denúncia… senão, faço parte da mentira e da mesma violência. Sei que o medo fala alto, mas há gente que continua a morrer… psicológica, afectiva e totalmente.

segunda-feira, 3 de Novembro de 2014

Conversas




Harold Feinstein

Há conversas,
nem todas são,
luminosas.

Fica aquele aroma
do chá por tomar,
deixando Deus ser.

O travo de boca
surge em palavras
com corpo.

No final,
sem tempo,
comunga-se.

E o mistério
permite-se
desbravar.

Autenticidade [e assuntos menos próprios... ou não]



Jodi Cobb


Talvez por buscar a autenticidade de mim próprio, uma das coisas que mexe comigo é, precisamente, a falta dela, sobretudo quando sinto ou vejo (a linguagem corporal é tramada) que alguém não está a ser autêntico consigo mesmo. Às vezes na tentativa de me agradar: por exemplo porque sou padre, achando que ficarei muito contente se me disser coisas “beatas” sobre Religião e Jesus e Maria e José e algum Santo mais. Sei que muitas vezes é a forma de meter conversa, permitindo abrir outras portas de diálogo, sobretudo sobre assuntos menos próprios (acham as pessoas que o são) da vida. Quando se trata da busca da autenticidade, da verdade de ser, fazendo os possíveis para não se enganar antes de mais a si mesmo, não há assuntos menos próprios. Todos os temas têm sentido se fazem parte da minha história: é preciso olhá-los com liberdade e de coração aberto.

domingo, 2 de Novembro de 2014

Morte: mudança de relação



Jeff nelson


Tenho esta frase quando morre alguém. Não a digo como automática, é o que sinto: a morte não é o fim, é o início do novo modo de relacionar. Há mortes que se preparam, outras inesperadas, ambas obrigam a ver o mundo de forma diferente. Até a pessoa que partiu… no abraço não dado, no carinho por fazer, na história por contar, no perdão estacionado entre o dar e o receber. Também, no sentimento de gratidão, na homenagem nunca feita, por se achar que estará sempre lá. Não é em vão que se condensa num dia, logo após Todos os Santos, a memória de todos os que já partiram. A vida não acabou, modificou-se o modo de relacionar. Por isso, esse sempre que marca a certeza da vida permite que neste dia, de forma especial, ao recordar nomes no silêncio da oração ou da celebração, haja agradecimento, haja perdão e haja abraço.