segunda-feira, 14 de março de 2022

Não julgues


[Breves notas, muito pessoais] A falta de tempo tem sido um grande factor a impedir a escrita por estes lados. Junta-se a pouca vontade. Tudo o que escrevo parece-me efémero. Escrevo, apago, re-escrevo, volto a apagar. As palavras têm sempre a densidade do sentir. Até mesmo num papel de recado. Quanto mais aqui, quando são lidas por milhares de pessoas. Sinto responsabilidade acrescida. Pedem-me palavras de esperança. É o que se pede a um padre, não é? Esperança. Fé. Carinho. Caridade. Misericórdia. Compreensão. Escuta. Vida. E Deus. Estremeço só de pensar. Nestes tempos em que tanto acontece.


Há dias, na ténue fronteira entre o estar acordado e o adormecer, o pensamento agitava-se com isto: os conflitos externos acabarão quando os internos forem enfrentados, dissolvendo-se o desejo de anular o outro. Recordo ter aberto os olhos, no escuro, e ficar a pensar nesta quase impossibilidade de eliminar totalmente os desejos de anular o outro. Só Deus vive isto. Vieram-me à memória tantas imagens.


“Não julgueis e não serás julgado. Não condeneis e não serás condenado. Perdoai e serás perdoado.” É tão básico, mas tão difícil. Estamos carregados de monstros sociais e religiosos que ora promovem o julgamento e a condenação, ora impedem o perdão. Por isso, o trabalho interno de libertação desses monstros é exigente, para encontrarmos o perdão a nós mesmos. Nesse abrir de olhos no escuro vi um gesto meu que continha ambiguidade, um jogo de interesses, e senti “tu és uma fraude”. Contorci-me de vergonha. Mas como já vou conhecendo os meandros dos monstros, respirei fundo por três vezes, a situar-me no presente, e na imaginação voltei ao gesto ambíguo. Olhei-me. Acolhi-me. Perdoei-me. 


No silêncio da noite, fez-se silêncio habitado de paz. Abriram-se um pouco mais das portas da compreensão. Talvez seja demasiado redutor, reconheço, mas precisamos de ir a estes lugares nossos e viver perdão. Não consigo acabar com as guerras, mas consigo humanizar-me um pouco mais. Depende de cada um de nós a decisão da morte e da vida, da guerra e da paz pessoais. As palavras têm a densidade do sentir. E do decidir, nos gestos de amor. Sejamos Luz. Sejamos Paz.

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