segunda-feira, 9 de abril de 2012

O silencioso dia de Páscoa





Da banda do sonora do filme Água (2005) de Deepa Mehta 

(Versión en español en los comentarios)


A Ressurreição de Cristo também tem o seu quê de silêncio. Na calada da noite, onde outras visões se tocam, o Corpo ganha outra forma. Atravessa o espaço e o tempo, mantendo as propriedades desse mesmo espaço e tempo. A passagem que une Vidas. A História mantém-se: o lado, as mãos e os pés assim o revelam. Mas já não são a marca definitiva. A certeza dá-se na Vida que entra por portas e umbrais de outras histórias: a de cada ser. 
Escolho esta música para ilustrar este meu sentimento silencioso desta Páscoa. Água. Um filme forte, intenso, onde a morte toca a vida, estando a ponto de ter a última palavra. No final, o rio é cruzado. É passagem! A Vida atravessou mais uma morada.
Santa Páscoa!

sábado, 7 de abril de 2012

Sábado Santo




"Quest for silence" project de Brice Portolano

(Versión en español en los comentarios)


Escuto mas não sei
se o que oiço é silêncio
ou Deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
o ressoar das planícies do vazio
ou a consciência atenta
que nos confins do universo
me decifra e fita.

Apenas sei que caminho como quem
é olhado, amado e conhecido
e por isso em cada gesto ponho
solenidade e risco.

Sophia de Mello Breyner Andresen


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Sexta-feira Santa







“Tudo está consumado.” E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. 
[Jo 19, 30]

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Quinta-feira Santa




"Sunray Vision" de Ramon Haindl

(Versión en español en los comentarios)


Hoje é o dia do olhar desnivelado.
De toalha à cintura, a visão começa nos pés e termina no rosto... do outro!
Primeira passagem: Mestre a Amigo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Silêncios




"Biwa Lake Tree, Study 2" de Michael Kenna

(Versión en español en los comentarios) 

O caminho podia ser descrito através dos silêncios passados ao longo da vida. 
O silêncio da alegria, o silêncio da espera, o silêncio do encontro, o silêncio de um beijo, o silêncio da oração, o silêncio diante da vista sem fim, o silêncio da impotência, o silêncio da raiva, o silêncio da injustiça, o silêncio da dor, o silêncio do escuro, o silêncio do incógnito, o silêncio do desencontro, o silêncio do desespero, o silêncio do final de uma peça musical, de um dizer, de um poema. O silêncio ante uma pintura, coreografia, o silêncio de uma catedral, o silêncio de um centro de metrópole, o silêncio do campo, o silêncio de um abraço, o silêncio de uma viagem, o silêncio do céu, o silêncio das nuvens, o silêncio do tempo, o silêncio de uma praia em pleno Inverno, o silêncio após escutar “Tudo está consumado.” E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. 
O silêncio que acompanha o nascer de uma nova vida, que começa a fazer caminho.

terça-feira, 27 de março de 2012

[Em Manutenção.





Igreja de São Francisco Xavier y São Luís Gonzaga - Ventilha - Madrid

(Versión en español en los comentarios)


Não o blog, mas quem nele vai escrevendo. Um vírus, não informático, com parte da sua família, resolveram achar que a minha pessoa é um bom sítio para alojamento. Mas há inquilinos indesejáveis. Estes são um deles e estou a tratar do rápido processo de despojamento: descanso, descanso e descanso. Já poderia chover à séria em Madrid, limpando os ares da cidade. Todos sabemos que dias de sol não faltarão.] 
No entanto, tenho aproveitado para dormir e despreocupar-me, por uns momentos, do periférico. 
Este fim-de-semana foi muito intenso com as ordenações, diaconais de três companheiros jesuítas e sacerdotal de outro. Por questões logísticas de ajuda à celebração, fiquei todo o tempo no fundo da Igreja. Estar de frente para a grande cruz, sobretudo no momento em que os ordenandos se deitam no chão para as ladainhas (oração onde se invocam as Santas e os Santos), enquanto junto com todas as pessoas rezávamos por eles, fez-me pensar que mesmo faltando apenas um ano, se Deus quiser, ainda há todo um caminho a percorrer. 
Em tempos, entendi a minha vocação como uma carreira [até mesmo de poder]. Muito deste entendimento já foi dissipado. É que isto de ser padre não tem nada que ver com carreira, mas com serviço. Infelizmente, são muitas as vezes que me esqueço disso, mas, estando de frente para aquela grande cruz, voltou muito claramente a recordação. 
Curioso, ou sem curiosidade nenhuma, adoeci. Não, não foi um desígnio de Deus. De vez em quando, as manutenções até vêm bem. Algumas, por supuesto, não as quero. Mas, se por tanta agitação interior chegou, há que aproveitá-la. É preciso muito silêncio diante desta certeza: “Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.” (Mc 10,45).
Afinal, até chove em Madrid.



quinta-feira, 22 de março de 2012

Diálogos Ocultos (II)




(Versión en español en los comentarios)

- Hoje apetecia-me levar-te pela mão, deixando que os movimentos torneados ganhassem outra cor.
- O que te impede?
- Sim, tens razão, nada... a não ser o medo disto ou daquilo, de além ou aquém-mar, dessa falta de aragem que os pensamentos e os sentimentos têm.
- E então? Continuarás nisso... ou deixas-te embalar? 

[Estende a mão]
- Ah, como é bom deixar que os ventos levem o sem sentido dos preconcei... hmm, que mão suave a tua!

quarta-feira, 21 de março de 2012

21 de Março - Poesia!




(Versión en español de mi texto en los comentarios)

Escolho este poema para celebrar este dia por conjugar tanto do que vivo: novos olhares sobre outras faces; a busca do Senhor da Vida, no que morre ou me faz "morrer" tento ir para além da temporalidade; o vazio da máscaras da personalidade; Portugal e Espanha; a interpretação da História, pessoal e comunitária; a arte presente no respirar das palavras e no escondido dos sentimentos.



terça-feira, 20 de março de 2012

[Gn 1, 1]




James Field

(Versión en español en los comentarios)




O tempo reserva o espaço.
Encontram-se numa bondade
imperfeita.
Em passos perde-se o medo
de ser frágil. Isso dá o eterno
sentido das coisas.
Ser, mais que parecer,
virtude - esperança - encontro.



segunda-feira, 19 de março de 2012

Gaudium et Spes 44




"Garden#10" de Shinichi Maruyama

(Versión en español en los comentarios)



Um dos trabalhos que tenho em mãos é sobre a Constituição Pastoral Gaudium et Spes (GS) do Concílio Vaticano II. O texto é de uma beleza e actualidade impressionantes. Esta Constituição fala do diálogo da Igreja com o Mundo. Recomendo a leitura.
Neste momento, o número 44 da GS é o que me está a dar mais que pensar. Pela primeira vez, num documento oficial, a Igreja reconheceu a ajuda que necessita do Mundo. Deixo aqui todo este número (o sublinhado é meu).
44. Assim como é do interesse do mundo o reconhecimento da Igreja como realidade social e fermento da história, também a Igreja reconhece o quanto recebeu da mesma história e da evolução do género humano.
A experiência dos séculos passados, os progressos científicos, os tesouros escondidos nas várias formas de cultura humana, permitem conhecer mais a fundo a natureza humana, abrem novos caminhos para a verdade e são de igual proveito para a Igreja. Esta última aprendeu, desde os começos da sua história, a formular a mensagem de Cristo por meio dos conceitos e línguas dos diversos povos, e procurou ilustrá-la com o saber filosófico. Tudo isto com o fim de adaptar o Evangelho à capacidade de compreensão de todos e às exigências dos sábios. Esta maneira adaptada de pregar a palavra revelada deve permanecer como lei de toda a evangelização. Deste modo, com efeito, suscita-se em cada nação a possibilidade de exprimir a mensagem de Cristo segundo a sua maneira própria, ao mesmo tempo que se fomenta um intercâmbio vivo entre a Igreja e as diversas culturas dos diferentes povos. Para aumentar este intercâmbio, necessita especialmente a Igreja - sobretudo hoje, em que tudo muda tão rapidamente e os modos de pensar variam tanto - da ajuda daqueles que, vivendo no mundo, conhecem bem o espírito e conteúdo das várias instituições e disciplinas, sejam eles crentes ou não. É dever de todo o Povo de Deus e sobretudo dos pastores e teólogos, com a ajuda do Espírito Santo, saber ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e julgá-las à luz da palavra de Deus, de modo que a verdade revelada possa ser cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente.
Como a Igreja tem uma estrutura social visível, sinal da sua unidade em Cristo, pode também ser enriquecida, e de facto o é, com a evolução da vida social. Não porque falte algo na constituição que Cristo lhe deu, mas para mais profundamente a conhecer e melhor a exprimir e para a adaptar mais convenientemente aos nossos tempos. Ela verifica com gratidão que, tanto no seu conjunto como em cada um dos seus filhos, recebe variadas ajudas dos homens de toda a classe e condição. Na realidade, todos os que, de acordo com a vontade de Deus, promovem a comunidade humana no plano familiar, cultural, da vida económica e social e também política, seja nacional ou internacional, prestam não pequena ajuda à comunidade eclesial, na medida em que esta depende das realidades exteriores. Mais ainda, a Igreja reconhece que muito aproveitou e pode aproveitar da própria oposição daqueles que a hostilizam e perseguem.

domingo, 18 de março de 2012

Diálogos Ocultos (I)





(Versión en español en los comentarios)

Há umas semanas, em jeito de brincadeira, comecei a escrever pequenos diálogos a partir de um ou outro acontecido no dia e também inspirado pelas músicas dos Danças Ocultas. Vou deixando por aqui...
No(c)turno das 7
Em conversa, ele disse:
- Ando em tanta volta cá dentro, por vezes nem me reconheço!
Ela perguntou:
- Quem és? 
Sem hesitar, respondeu: 
- Alguém em crescimento!
Sem quase deixar acabar a frase, devolve-lhe: 
- E isso não é pouco.

sábado, 17 de março de 2012

"Feitos em Portugal"



Está neste momento a começar um programa que vale a pena ver e acompanhar. Pode ser uma inspiração para estes tempos que trazem algum gosto amargo de falta de Esperança.
Caso não seja possível vê-los no dia da emissão, os mesmos poderão ser vistos aqui.

quinta-feira, 15 de março de 2012

domingo, 11 de março de 2012

Lendo os outros...




Porque me identifico muito, para não dizer totalmente, com este post: 
E parece-me muito apropriado para um Domingo de Quaresma.




sexta-feira, 9 de março de 2012

7 anos d’o.insecto






O 7 guarda o misterioso significado de plenitude. 
Os 7 dias da criação, as 7 cores do arco-íris e as 7 notas musicais são apenas alguns exemplos da presença deste número denso e o que o mesmo pode evocar. O que pode parecer um fechamento, a plenitude, também pode ser visto como um tempo de reflexão. 
Este blog começou há 7 anos. 
A partir de uma sana inveja e manifestando o contentamento de ter um blog, o Pedro Rapoula deu início a’o.insecto. A partir daí foi um continuo partilhar. Primeiro a solo, depois juntando mais vozes. O tiago card, o Morgado Louro, a Moura, a Azul Comum, o João Mattos e Silva e eu. Estas vozes foram configurando a variedade deste blog. Falou-se de política, design, dança, poesia, música, desabafos, citações, desporto em geral e futebol em particular, teologia, filosofia, reflexão mais espiritual e/ou humana. Não posso esquecer os muitos convidados especiais que por aqui passaram, sobretudo quando manifestaram o seu carinho aquando dos 3 anos (outro número igualmente denso) d’o.insecto
Hoje sou eu que deixo o meu pensar sobre estes 7 anos. Afinal, tenho sido quem mais publica nestes últimos tempos. Já me dizem: “vi o teu blog”. Mesmo sendo ultimamente mais meu do que propriamente nosso, atendendo à sua realidade colectiva continuo a dizer o “blog onde participo”. Gosto desta imagem da participação. Participar é estar, é fazer parte de. Quem me conhece, sabe a importância que dou ao tema da relação humana. Recordando o que escrevi aqui pela primeira vez, em simplicidade disse que queria viver uma experiência de reciprocidade em caminho. Assim, considero-me parte de um projecto que, apesar das muitas mudanças, tem as marcas de uma história da colaboração de muitos, de forma especial do fundador. Pensemos, por exemplo, no nome do blog e no grafismo que se mantêm, para que de algum modo, sem que seja de forma saudosista ansiando pelo regresso ao jeito sebastianista, fique a boa recordação da presença do Pedro, com os seus escritos e sensibilidade.
O dia de aniversário condensa o tempo, a história. Recorda-se o passado, dando corpo aos desejos, aos projectos, aos sonhos. Nestes 7 anos podemos falar mais do que de plenitude (não me parece que o.insecto tenha culminado a sua voz), de um tempo de viragem. Não esquecendo que é um blog colectivo, e assim gostaria que continuasse, quero continuar a escrever e a partilhar ao meu estilo. Não escondo que por vezes me sinto meio perdido, afinal, a plenitude mesmo que tocada pelo 7, não está alcançada. Por isso, sigo em aprendizagem... em conversão, manifestando-a no que aqui vou deixando. 
Sim, a experiência da conversão é um ponto de viragem. Na conversão, por mais pequena ou forte que seja, a plenitude é tocada. Como que um encontro onde é revelado um novo conhecimento da realidade. Obviamente, esse conhecimento não é (e ainda bem) total. Bem vivido impele a outros conhecimentos, até mesmo a uma mudança e a um novo olhar sobre a realidade. A amplitude do conhecimento aprofunda a sabedoria, baixando as defesas, acolhendo mais, permitindo que se faça a justa selecção do que verdadeiramente importa, até a uma nova conversão... até à plenitude completa.
Não posso deixar de agradecer de forma especial a alguns amigos bloguistas que, junto à minha história e meus acontecimentos quotidianos, me inspiram, fazem pensar, “desinstalam-me”, no melhor sentido do termo: o João Delicado,sj no Ver para além do Olhar, o José Ricardo Costa no Ponteiros Parados, a Laura Abreu Cravo no A Alma Conservadora, os meus companheiros sj filósofos no Companhia dos Filósofos, a Ivone Costa no A Ronda dos Dias, o Nuno Delicado no bulicenas, o Nuno Branco,sj e José Maria Brito,sj no Toques de Deus, o Alfaiate n’ O Alfaiate Lisboeta, o José Barbosa Borges no Um Kaddish por Portugal, a Laurinda Alves no A substância da vida e muitos dos que escrevem no Delito de Opinião e no Escrever é triste.
Felicitar o.insecto é felicitar a cada uma e a cada um que lhe deu e dá corpo: em escritas, em inspirações e em leituras. É isto: Parabéns!

terça-feira, 6 de março de 2012

sexta-feira, 2 de março de 2012

Tarde no Retiro


Pat Wallace

(Versión en español en los comentarios) 



Há momentos que ficam registados no gesto. A conversa solta entre os dedos, no corriqueiro quotidiano que se torna diferente à medida que o sol se eleva e aquece os prados. De arte e de corpo, em separado e em relação, era a nossa conversa. E assim continuou a história.



quinta-feira, 1 de março de 2012

essejota.net: 4 anos!




A mensagem de António Valério,sj, Coordenador Geral do site essejota.net, a propósito do 4.º aniversário.

Políticos, artistas e religiosos online à volta da esperança

Personalidades tão diversas como o eurodeputado Paulo Rangel, os cantores Tiago Bettencourt e Carminho, o porta‐voz do Papa ou o escritor Jacinto Lucas Pires juntam‐se numa iniciativa online para apresentar o seu olhar sobre a esperança. A página web www.essejota.net, da Companhia de Jesus, propõe celebrar deste modo o seu quarto aniversário.

“Ainda há esperança?”. O P. Alberto Brito, sj, Provincial dos jesuítas em Portugal, dá o mote à pergunta, a que procuram responder as reflexões de Isabel Jonet, Paulo Rangel e do jornalista António Marujo. A actriz Cleia Almeida, uma das protagonistas do premiado “Sangue do Meu Sangue”, apresenta um filme, o cantor Tiago Bettencourt comenta um vídeo, o fotógrafo Luís Ferreira Alves mostra‐nos uma imagem, o cartoon é de Luís Afonso e a jornalista Paula Moura Pinheiro fala acerca de um quadro. O livro sugerido por Pedro Mexia, um poema de Manuel António Pina, vencedor do Prémio Camões 2011, a música escolhida pela fadista Carminho e a história contada pelo escritor Jacinto Lucas Pires abrem horizontes acerca de um olhar optimista sobre o futuro. Esta edição conta ainda com a participação do jesuíta irlandês Michael‐Paul Gallagher, professor na Universidade Gregoriana em Roma, e uma entrevista ao porta‐voz da Santa Sé, P. Federico Lombardi, para além de uma surpreendente reflexão de uma Carmelita que, do interior do convento, olha para o mundo como quem o conhece profundamente.

Neste momento, em que tanto se fala de crise e de falta de esperança, esta edição especial do essejota.net reúne colaborações de pessoas de vários quadrantes políticos, artísticos, sociais e religiosos que apresentam diversas perspectivas acerca de um tema que toca as preocupações dos portugueses.

O www.essejota.net pretende ser um espaço onde se pode encontrar uma nova forma de falar do mundo, do mistério humano e da fé. A partir das suas secções, trabalhadas quinzenalmente por uma equipa de 110 voluntários, que vão desde a arte ao entretenimento, da reflexão sobre acontecimentos da actualidade a textos de aprofundamento da fé cristã, o essejota.net propõe aos seus leitores um olhar atento e esclarecido sobre a realidade, numa linguagem acessível e adaptada às interrogações das gerações mais novas.


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

[Job 42, 1-6]



"Twilight Dreams of a Papilio Demouleus (5)" de Clang

(Versión en español en los comentarios)

Job respondeu ao Senhor e disse: «Sei que podes tudo e que nada te é impossível. Quem é que obscurece assim o desígnio divino, com palavras sem sentido? De facto, eu falei de coisas que não entendia, de maravilhas que superavam o meu saber. Eu dizia: 'Escuta-me, deixa-me falar! Vou interrogar-te e Tu me responderás.' Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora vêem-te os meus próprios olhos. Por isso, retracto-me e consolo-me, cobrindo-me de pó e de cinza.»
No princípio buscava
o meu rosto no teu nome.
Calcorreando caminhos
de subidas e vales,
em silêncios do alto
e escuridão do abismo.
Em espelhos de pedra
tentava desenhar os meus contornos
pensando para mim conhecer-te
e não ter dúvidas.
E continuei, ainda assim,
a pôr estradas nesses passos.
Será que te encontrarei?
Na tempestade do deserto
perco a orientação:
mudam as questões ou intensificam-se.
Como o anoitecer
sem estrelas, 
escuto o silêncio
de uma nova abertura.
Tenho de esperar,
dar outro sentido à história.
Mesmo em razão:
Não esquecerei o caminho feito,
marcas das entranhas,
no chão desfeitas,
no coração delineadas
com o cinzel de carne.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A blasfémia de Moisés




Lorena Guillén Vaschetti


(Versión en español en los comentarios)

Então Moisés voltou-se para Deus e disse: “Senhor, porque maltrataste este povo? Porque me enviaste? Desde que vim ter com o faraó para falar em teu nome, ele maltratou este povo, e Tu não libertaste de modo nenhum o teu povo”. Ex 5, 22-23


A fé implica muita seriedade. Esta minha reflexão não tem que ver com uma seriedade moral ou integridade de uma perfeição, ou pureza, inalcansável, mas simplesmente com a capacidade da total possibilidade de verdade e transparência diante de Deus. A fé é exigente na medida em que obriga a questionar(-me), buscando uma renovação do amor, querer e interesse pessoais. As dúvidas de fé, quando vividas com maturidade, podem ser portas para o aprofundar da mesma. 
Há dias, na aula de “Sapienciais”, enquanto introduzia o O Livro de Job, o professor  fez referência à “blasfémia de Moisés”. Moisés é chamado por Deus, dizendo-lhe que guiará em Seu nome a libertação do Povo de Israel do Egipto. Moisés dirige-se ao Faraó pedindo-lhe três dias para todo o Povo ir adorar a Deus no deserto. Além de um não rotundo, o Faraó intensifica o trabalho do Povo escravizado, numa injustiça tremenda... obriga-os a fabricar a mesma quantidade de tijolos com menos material, açoitando-os enquanto trabalhavam. Moisés, perante tanta injustiça, reza de forma blasfema, culpando a Deus pelo maltrato do Povo e acusando-o de não cumprir o que prometeu: a libertação do Povo. 
Que grandeza a de Moisés! 
Quando se lê a sua vocação, o quanto se opõe a ela e as voltas que Deus dá para lhe mostrar que não tem de ser perfeito, apenas ser quem é e confiar n’Ele para cumpri-la, este sentimento de grandeza torna-se ainda mais denso. Não é grande porque blasfemou. Não é grande porque se mostra forte contra Deus. A sua grandeza reveste-se na fragilidade de não aguentar tanta injustiça e, perante a sua impotência, atreve-se a gritar a e contra Deus. Não se refugia no medo em tocar o todo-o-poderoso, pondo em causa os seus desígnios. Nele habita a dúvida, a inquietação, “afinal Deus não salva”, e não tem problemas em expressar a sua  revolta. Podia ter seguido três caminhos: calar e ir-se embora; gritar e ir-se embora; gritar e, ainda assim na dúvida, ficar. Sabemos que optou pela terceira. 
Não me parece que a espiritualidade seja desencarnada da vida, das suas realidades psicológica, sociológica, filosófica e biológica. São aqueles que são mais próximos em relação que acabam por sofrer mais com o desespero ou tristeza e até com o mau-humor e “resmunguice”. São aqueles que estão mais próximos que sabem que esse grito existencial, vindo das mais profundas entranhas, pode significar precisamente o contrário da aparente acusação. O medo, a fragilidade, a impotência, não devem ser os controladores da relação, mas, sim, a verdade, a transparência e seriedade da mesma... sobretudo com Deus.
 Não caíram raios sobre Moisés, eliminando-o da face da terra. Moisés é confirmado por Deus como o mediador da libertação do Povo, dando um novo passo na relação com Ele. Atrevo-me a dizer que é preciso fé para blasfemar com convicção... quando se o faz sem medo de escutar a resposta que desinstala: “Moisés, porque clamas por mim? Fala aos filhos de Israel e manda-os partir. E tu, levanta a tua vara e estende a mão sobre o mar e divide-o, e que os filhos de Israel entrem pelo meio do mar, por terra seca” Ex 14, 15-16

E o impossível torna-se possível.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Sobre a conversão...



Alex Wolkowicz, da série "Time Windows"

(Versión en español en los comentarios)

Ando às voltas com a preparação de uma coreografia sobre S. Paulo. Uma das minhas principais ideias é tentar dizer que a conversão também se dá a partir da nossa história, daquilo que somos. Não podendo mudar o passado, podemos aceitar e integrar o que cada um foi e é. Aí, consegue-se a força que nos agarra por dentro. Deus não pede o desencarnar de cada um. Muito pelo contrário, pede que cada qual seja o que é na sua máxima profundidade. E isso, mesmo sendo mais difícil do que parece... não é nada impossível.



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Sentido de ser (IV)


empty night

"empty night" de Brice Portolano


(Versión en español en los comentarios)

“A partir destas coordenadas se compreenderá a insistência na experiência, que responde a uma concepção menos intelectualista do ser humano e, ao mesmo tempo, mais integral, na qual se tem em conta outros tantos aspectos, tais como os sentimentos e os desejos, os motivos e os fins do nosso proceder, as relações e as ocupações, as acções e as reacções que marcam a nossa vida. Antes de entender, sentimos; mesmo sendo verdade que os sentimentos se vejam influenciados pelas opiniões e sejam configurados por elas.
A insistência na experiência, no encontro, na vida, e não tanto em proposições doutrinais, é algo que pertence à fé, que é, ante tudo, adesão pessoal a uma pessoa e, somente a posteriori e como derivação, um assentimento a um código doutrinal e moral. Neste sentido, dita insistência não é nada de novo, apesar de actualmente acabar por ser imposta pelas novas circunstâncias e pelos novos desafios”.
Gabriel Amengual, em Deseo, Memoria y Experiencia - Itinerarios del Hombre a Dios.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Cinzas... em abertura de Quaresma





(Versión en español en los comentarios)


Há gritos que têm de ser dados. De dúvidas, questões, mais ou menos existenciais. De sentimentos que ficaram guardados na incógnita dos acontecimentos ou na procura de quem se é. Parece-me que é um caminho a percorrer. O sentido do tal deserto depois da libertação. Passar do ser livre das amarras para uma liberdade de plenitude. Seria mais cómodo não sair dos anseios, ficar-se apenas pelo prazer do momento, até mesmo do passado, chorando as cebolas.
Não me recordo onde li, mas ficou-me a pairar este pensamento de Rilke: “Tudo quanto é velocidade não será mais do que passado, porque só aquilo que demora nos inicia”. A demora leva a uma estranha profundidade, saindo de um chão firme para o abandono de fé. E nessa “queda” com a sensação de abandono dão-se os gritos... primeiro de desespero, a estranheza perante uma novidade de um eu que se (re)constrói. Depois, solidifica-se o sentir, o silêncio torna-se uma melodia de presença. Permite o segundo grito: o porquê?  Renova-se a relação. Já sem medo de questionar o próprio Deus, o caminho segue em formação. Montes são aplanados, vales levantados. Prepara-se a passagem. A morte tem de acontecer, para que o nome seja pronunciado com todas as letras. Sem outros adjectivos, a caracterização fica, simplesmente, purificada. E dar-se-á a Ressurreição. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Para hoje: [Gn 2, 25]*




Klaus Kampert



Transparência
Nas mãos entrelaçadas
nos corpos revelados
Vulneráveis ambos
livres.
Complemento de Ser,
Descobrimos o mundo...


* "Estavam ambos nus, tanto o homem como a mulher, mas não sentiam vergonha"



domingo, 29 de janeiro de 2012

Epifania (II)




(Versión en español en los comentarios)


Sabes o que gostava? 
Abrir os braços e lançar-me ao vento. 
Mas tenho de ficar em casa. Não por uma obrigação externa ou internamente imposta. Tenho, mesmo que os ventos me chamem para voos incessantes. Sobretudo aqueles que me levam a sair de casa. Agora não posso. Foi aberta, finalmente entrei nela. Demorei a abrir as janelas. Tinha medo do pó, das imensas teias de aranhas que o tempo foi tecendo. Estava, bem ainda está tudo no mesmo sítio. Os livros, as molduras, os registos da memória física e emocional, daqueles momentos já idos, contudo tão presentes. Ainda não acendi qualquer luz. Prefiro que da janela venha a natural iluminação dos passos vividos, sentidos, sofridos, reveladores de sorrisos que guardavam lágrimas e de lágrimas que guardavam as palavras que ficaram por dizer. Vem a brisa. Mexo e remexo, já sem o absoluto medo que pode impedir de entrar ainda mais fundo nesta casa pequena, minimalista e muito acolhedora. Há brisas e há vendavais. O pó levanta-se. Apetece fechá-la e impedir que esse mesmo pó entre em mim. Não! As janelas estão abertas. Depois de muralhas derrubadas, barrocos que compunham uma falsidade como forma de dizer “sou” sem o ser. Não interessa. As portas abriram-se de par em par. Por isso, tenho de ficar em casa, mesmo que gostasse de voar. Agora é o tempo de (re)conhecer. E assim, mais gostar, sentir, crer. 



sábado, 21 de janeiro de 2012

Silêncio...



"Nine birds" de Michael Kenna

...o estudo fala mais alto, levando para outros voos, do pensar e do sentir. Nas dúvidas, nas questões, nos medos e nas vitórias. Há momentos em que não apetece nada. Noutros abre-se uma nova realidade ou simplesmente a renovação de histórias e aprendizagens antigas. Outros caminhos, pequenas veredas, antigas, sagradas, silenciosas.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sentido de ser (III)


"Garden #9, 2010" de Shinichi Maruyama


“Toda a vida actual é encontro” (Martin Buber)…
…estabelecido com muitas ramificações, mais ou menos fortes e simbólicas, com maior ou menor sentido. Ramificação entre autores, pensamentos, linguagens, culturas, modos de ver e sentir, através de conhecimentos e sabedorias que se solidificam, no encontro que se faz e nos permite viver de outra forma. O encontro que inevitavelmente leva à transformação do humano que o vive. O encontro, com o diálogo, abre as portas de novos mundos. O ser humano que vive a plenitude de si, com limites e capacidades, reconhecendo-se não criador, mas participante e co-criador da realidade, renova o seu olhar para a sua vontade, desejos, que permitem que caminhe para a pacificação de si, do outro e da cultura em que está inserido.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Epifania




Sussurro-te ao ouvido, em jeito de oração, o encontro que desejo ter.  Abro a janela, vislumbro o mar, deixo que o ar circule na casa há muito fechada. Aos poucos descubro os mistérios, meus e teus em mim. Sempre te mostrei as fachadas. Uma meio barroca, a outra forte como uma muralha. Curioso como se desfazem em nuvens de pó. Totalmente desnecessárias neste momento. Construí-as com o intuito de proteger... no fundo, de mim próprio. É mais fácil ter conchas, mas o esqueleto sustem, equilibra, deixando que a pele seja o primeiro receptor e já não o embate com algo que não  pertence. Por isso, agora e aos poucos, mergulho sem pressas no fundo da realidade... a minha. E vejo tua presença em cada instante, mesmo nos minutos e anos em que erguia o que não era meu, nem de mim. Novos tempos: deixando germinar, limpando, descobrindo, confiando. Faz sentido acolher... não me canso de dizer o quanto a divindade se reveste de humanidade. Vês onde moro, deixo-te habitar.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O erro. O prémio.





essejota. Secção de poesia.
Estava responsável pela edição de Dezembro de 2008. Seria a primeira vez a escolher um poema. Escolho um que, segundo as minhas pesquisas, vinha assinado por Maria Teresa Horta. No início de Janeiro de 2009 recebo um mail da coordenação a reencaminhar outro:
Exmºs. Senhores
Não tendo havido qualquer resposta à minha anterior mensagem, venho reafirmar que o poema "Nasci-te", que me é atribuído na vossa edição de 10 de Dezembro último, não é de minha autoria. Insisto, pois, na necessária e urgente rectificação desse lapso,
Com os melhores cumprimentos
Maria Teresa Horta
Foi rectificado o lapso. Acabando depois por descobrir a verdadeira autoria do poema. E, nesse mesmo dia, envio um email à Maria Teresa Horta. Peço-lhe um contacto telefónico para apresentar as minhas desculpas o mais pessoalmente possível. A resposta não demorou. Telefonei e a Maria Teresa pediu-me o favor de ligar um pouco mais tarde, pois estava a falar com a sua editora sobre a Leonor. Assim o fiz. Estivemos à volta de uma hora ao telefone, onde ficou prometido um chá na minha próxima ida a Lisboa. E começou uma amizade... a partir de um erro. Desde 2009 até 2012 muitas conversas tivemos, em partilha, em voos, sobre poesia e anjos, em escutas do que é a vida,  sobre o corpo, a humanidade feita mulher e homem, juntando crenças e “descrenças”, na gargalhada sobre o que poderia ser impensável se não tivesse acontecido um lapso, um erro.
Nestas nossas conversas a Leonor marcou sempre uma presença. Não fosse ela parte da própria Maria Teresa, que carinhosamente a trata por “minha Leonor”, depois de 13 anos de sonho, investigação e escrita, viagens de alma e de terras, conventos e orações, encontros e história. E a Leonor saiu ao público. A Leonor foi reconhecida, levando a que Maria Teresa Horta ganhasse o prémio literário D. Dinis 2011.

Parabéns Maria Teresa!


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Outra forma de pensar o ano que começa...




Bom dia. Bom ano. Acordámos todos. Absorvemos o universo inteiro. Pelo menos do acontecer diário. Com surpresas. Desejos ardentes de novidades. Mesmo que sejam repetições do mesmo carimbo que apenas altera as datas. Cheias de notas. Musicais. Não numeradas da forma que leva a perder o sentido profundo das coisas. Da realidade feita poesia. Que não se paga. Simplesmente se vê. Cheira. Toca. Ouve. Saboreia. Como gosto de o fazer contigo. Tudo. Partilhar tudo. Com Tempo. Com Espaço. Escolhido por ambos os passos direccionados. Sorrateiramente desnivelados. Sem “ganas” de outros registos. Ou arquivos. Ainda que a história fique a meio. Há sempre a possibilidade de novos rumos. Fios e fios de comunicação levam-nos até ele(s). Basta sonhar. Despertar. Entre o sol ou nuvens. Vislumbrar que o fim também é princípio. E oportunidade. No novo amanhecer...  diria bom.