Mas tenho de ficar em casa. Não por uma obrigação externa ou internamente imposta. Tenho, mesmo que os ventos me chamem para voos incessantes. Sobretudo aqueles que me levam a sair de casa. Agora não posso. Foi aberta, finalmente entrei nela. Demorei a abrir as janelas. Tinha medo do pó, das imensas teias de aranhas que o tempo foi tecendo. Estava, bem ainda está tudo no mesmo sítio. Os livros, as molduras, os registos da memória física e emocional, daqueles momentos já idos, contudo tão presentes. Ainda não acendi qualquer luz. Prefiro que da janela venha a natural iluminação dos passos vividos, sentidos, sofridos, reveladores de sorrisos que guardavam lágrimas e de lágrimas que guardavam as palavras que ficaram por dizer. Vem a brisa. Mexo e remexo, já sem o absoluto medo que pode impedir de entrar ainda mais fundo nesta casa pequena, minimalista e muito acolhedora. Há brisas e há vendavais. O pó levanta-se. Apetece fechá-la e impedir que esse mesmo pó entre em mim. Não! As janelas estão abertas. Depois de muralhas derrubadas, barrocos que compunham uma falsidade como forma de dizer “sou” sem o ser. Não interessa. As portas abriram-se de par em par. Por isso, tenho de ficar em casa, mesmo que gostasse de voar. Agora é o tempo de (re)conhecer. E assim, mais gostar, sentir, crer.
...o estudo fala mais alto, levando para outros voos, do pensar e do sentir. Nas dúvidas, nas questões, nos medos e nas vitórias. Há momentos em que não apetece nada. Noutros abre-se uma nova realidade ou simplesmente a renovação de histórias e aprendizagens antigas. Outros caminhos, pequenas veredas, antigas, sagradas, silenciosas.
…estabelecido com muitas ramificações, mais ou menos fortes e simbólicas, com maior ou menor sentido. Ramificação entre autores, pensamentos, linguagens, culturas, modos de ver e sentir, através de conhecimentos e sabedorias que se solidificam, no encontro que se faz e nos permite viver de outra forma. O encontro que inevitavelmente leva à transformação do humano que o vive. O encontro, com o diálogo, abre as portas de novos mundos. O ser humano que vive a plenitude de si, com limites e capacidades, reconhecendo-se não criador, mas participante e co-criador da realidade, renova o seu olhar para a sua vontade, desejos, que permitem que caminhe para a pacificação de si, do outro e da cultura em que está inserido.
Sussurro-te ao ouvido, em jeito de oração, o encontro que desejo ter. Abro a janela, vislumbro o mar, deixo que o ar circule na casa há muito fechada. Aos poucos descubro os mistérios, meus e teus em mim. Sempre te mostrei as fachadas. Uma meio barroca, a outra forte como uma muralha. Curioso como se desfazem em nuvens de pó. Totalmente desnecessárias neste momento. Construí-as com o intuito de proteger... no fundo, de mim próprio. É mais fácil ter conchas, mas o esqueleto sustem, equilibra, deixando que a pele seja o primeiro receptor e já não o embate com algo que não pertence. Por isso, agora e aos poucos, mergulho sem pressas no fundo da realidade... a minha. E vejo tua presença em cada instante, mesmo nos minutos e anos em que erguia o que não era meu, nem de mim. Novos tempos: deixando germinar, limpando, descobrindo, confiando. Faz sentido acolher... não me canso de dizer o quanto a divindade se reveste de humanidade. Vês onde moro, deixo-te habitar.
Estava responsável pela edição de Dezembro de 2008. Seria a primeira vez a escolher um poema. Escolho um que, segundo as minhas pesquisas, vinha assinado por Maria Teresa Horta. No início de Janeiro de 2009 recebo um mail da coordenação a reencaminhar outro:
Exmºs. Senhores
Não tendo havido qualquer resposta à minha anterior mensagem, venho reafirmar que o poema "Nasci-te", que me é atribuído na vossa edição de 10 de Dezembro último, não é de minha autoria. Insisto, pois, na necessária e urgente rectificação desse lapso,
Com os melhores cumprimentos
Maria Teresa Horta
Foi rectificado o lapso. Acabando depois por descobrir a verdadeira autoria do poema. E, nesse mesmo dia, envio um email à Maria Teresa Horta. Peço-lhe um contacto telefónico para apresentar as minhas desculpas o mais pessoalmente possível. A resposta não demorou. Telefonei e a Maria Teresa pediu-me o favor de ligar um pouco mais tarde, pois estava a falar com a sua editora sobre a Leonor. Assim o fiz. Estivemos à volta de uma hora ao telefone, onde ficou prometido um chá na minha próxima ida a Lisboa. E começou uma amizade... a partir de um erro. Desde 2009 até 2012 muitas conversas tivemos, em partilha, em voos, sobre poesia e anjos, em escutas do que é a vida, sobre o corpo, a humanidade feita mulher e homem, juntando crenças e “descrenças”, na gargalhada sobre o que poderia ser impensável se não tivesse acontecido um lapso, um erro.
Nestas nossas conversas a Leonor marcou sempre uma presença. Não fosse ela parte da própria Maria Teresa, que carinhosamente a trata por “minha Leonor”, depois de 13 anos de sonho, investigação e escrita, viagens de alma e de terras, conventos e orações, encontros e história. E a Leonor saiu ao público. A Leonor foi reconhecida, levando a que Maria Teresa Horta ganhasse o prémio literário D. Dinis 2011.
Bom dia. Bom ano. Acordámos todos. Absorvemos o universo inteiro. Pelo menos do acontecer diário. Com surpresas. Desejos ardentes de novidades. Mesmo que sejam repetições do mesmo carimbo que apenas altera as datas. Cheias de notas. Musicais. Não numeradas da forma que leva a perder o sentido profundo das coisas. Da realidade feita poesia. Que não se paga. Simplesmente se vê. Cheira. Toca. Ouve. Saboreia. Como gosto de o fazer contigo. Tudo. Partilhar tudo. Com Tempo. Com Espaço. Escolhido por ambos os passos direccionados. Sorrateiramente desnivelados. Sem “ganas” de outros registos. Ou arquivos. Ainda que a história fique a meio. Há sempre a possibilidade de novos rumos. Fios e fios de comunicação levam-nos até ele(s). Basta sonhar. Despertar. Entre o sol ou nuvens. Vislumbrar que o fim também é princípio. E oportunidade. No novo amanhecer... diria bom.
"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida"
Vinicius de Moraes
Queridas amigas, queridos amigos,
Quando estava a pensar escrever a “minha carta de Natal” de 2011 ocorreu-me fazê-lo depois do dia 25 de Dezembro, nos dias em que ainda celebramos o Natal. Sento-me a escrever e ando às voltas com as palavras, com as frases, com o muito que gostaria de partilhar. À semelhança do ano passado, não tenho tempo para personalizar cada mensagem ou carta como gostaria de o fazer. Então, através das palavras, ofereço um pouco do meu sentir e pensar.
“O impossível é possível”. Esta frase foi dita por um coreano e partilhada no vídeo "A vida num dia". Vi este documentário (de hora e meia) há umas três semanas e pensei que seria um óptimo documentário de Natal. Num condensado de milhares de pequenos vídeos, filmados num só dia, consegue-se transmitir a imensidão do que nós, humanos, somos na diferença e na semelhança. Recomendo muito que o vejam.
Para mim o Natal é, não um condensado de vídeos, mas um condensado de histórias e vidas, misteriosamente presentes no nascimento que mudou o curso da Humanidade, tornando o “impossível possível”. Deus torna-se frágil, Deus cresce, observa com olhos de criança, é muito provável que se tenha constipado, quase de certeza que tinha alimentos preferidos. No fundo, vive a humanidade em pleno. Para mim a encarnação não foi uma brincadeira, foi uma realidade tão forte e tão densa que não pode ser reduzida a um dia. Por isso, quero continuar a celebrar o Natal convosco.
Enquanto escrevo surge o sem sentido de desejar um bom Natal depois do dia 25. Talvez até seja, no entanto, ainda há doces nas mesas, as luzes nas ruas, as árvores e presépios montados, muitos de nós devemos de estar a usar algumas das prendas que recebemos. Também poderá haver quem possa agradecer por já ter “terminado” este dia, que para alguns evoca tristes recordações ou, então, junta tensões dos encontros familiares que têm “pedras nos sapatos”.
A vida de cada pessoa é tão complexa, cheia de pormenores, de cantos e recantos a descobrir. Uma vez, quando ainda era comissário, sobrevoava Madrid e vi a cidade toda. Já como jesuíta passeava pela mesma cidade e lembrei-me dessa imagem com mais de 9 anos. Apercebi-me que não vi a cidade toda, pois faltavam as ruas, as avenidas, os prédios, as pessoas e tudo mais que se possa imaginar. O mesmo se passa connosco. A sensação de já conhecermos cada canto, nosso ou de alguém, quando, afinal, há uma nova surpresa.
Comigo tem acontecido com bastante frequência. Entro na “cidade” que sou e acabo por descobrir muito mais do que pensava: os cantos, os jardins, prédios derrocados, outros a precisar de restauração, pessoas que já não encontrava há muito tempo, pessoas que prendi, que expulsei, muitas outras com quem me encontro diariamente e me sento à esplanada a tomar algo, em partilha de vida e, sobretudo, destes meus passeios pela minha cidade de vida.
Isto tem que ver com o meu Advento, o tempo que antecede o Natal. Comecei-o com a passagem do profeta Isaías: “Estou a fazer algo novo, já está a germinar: não estão a notar?” (Is 43, 19). Esta passagem ficou-me no pensamento por vários dias. A novidade que acontece diariamente e eu nem me apercebo. É verdade que não se consegue estar atento aos pormenores infinitos que passam em cada momento, no entanto, até que ponto não se pode ver uma nova oportunidade em deixar que algo germine em cada uma das nossas vidas? Por exemplo, se ajudámos alguém nos dias que antecederam o Natal, talvez essa(s) mesma(s) pessoa(s) continue(m) a necessitar de ajuda... há que continuar a ajudar. Se algum de nós precisou de ajuda (material, afectiva, espiritual), talvez continuemos a necessitar dela depois do dia de Natal... não tenhamos nem medo, nem vergonha de continuar a pedi-la.
O dia 25 já passou, mas não o sentido mais profundo do Natal. Mesmo que possa ir caindo no esquecimento, não passará. Em cada nascimento somos chamados à Vida, ao encontro com o todo que somos, por isso há que vivê-la intensamente, com os desejos e sonhos que caracterizam o nosso ser. Não estará na altura de notar essa vida a germinar? Não importa a idade, nunca é tarde para novos passos de profundidade, de reconhecimento da grandeza que existe no acontecer diário.
Dou por mim a pensar o quanto há a aprender e a agradecer em cada passo e em cada gesto. Assim, vejo o tempo de Natal como oportunidade de sanar feridas, pessoais ou relacionais, como aquele momento de abrir portas ao que pode surgir da leitura renovada da história, de não deixar que a fé, a esperança e a caridade se estanquem em dias específicos, mas conduzam ao dinamismo que leva à entrega, independentemente da quantidade, do que cada um é e tem. Tudo na simplicidade do quotidiano, nas lutas pela justiça e verdade, na criatividade artística, científica, culinária, no estudo, na possibilidade de avançar para mudanças de vida, contribuindo para que o mundo seja cada vez mais humano.
Como na passada noite de dia 24, continuo a rezar por cada um de vocês, pelos vossos sonhos, desejos e necessidades. Neste novo ano que se aproxima, aconteça o que acontecer, para cada uma e cada um peço esperança, serenidade e oportunidades de encontro com o sentido mais fundo do Natal: a Vida!
Há cerca de dois anos participei no Projecto B (de Beleza), orientado por Teresa Prima, coreógrafa, bailarina e boa amiga. A seu pedido, no seguimento desde projecto, moderei três Conversas B, onde houve a oportunidade de bons e profundos diálogos, com variados convidados de distintas áreas, sobre a Beleza em várias realidades. Nestes dias a Teresa pediu-me para escrever algo sobre meu sentir do Projecto B. Parei, recordei e escrevi:
Beleza. O caminho mais fácil seria buscar a definição num dicionário: encontrar autores, pensamentos, à volta desta realidade tão densa quanto simples. Não descarto a possibilidade de um artigo mais científico ou académico sobre o tema, mas o Projecto B levou-me a outro lado da Beleza: a Vida.
Tão simples e tão denso. “Des-cobrir” os esquemas mentais, deixar-me chegar ao coração, dentro da tal simplicidade que leva em si o denso, permitindo a possibilidade de novos movimentos e conhecimentos... abrindo, assim, a porta que leva ao Encontro. Uma das coisas que nos caracteriza enquanto humanos é a nossa capacidade de captar a beleza da realidade: na arte, nos sonhos, nas palavras, nos movimentos que levam a criar(-me) de forma continuada, abraçando a história de que somos compostos, apontando para novos horizontes, curiosamente a partir de uma escuta atenta do “aqui e agora”.
No silêncio profundo, aquele que conecta com a mais íntima realidade de ser, é possível outro diálogo: o que parecia ser desde sempre, torna-se novo. A beleza como entrada numa nova forma de ver. O que parecia estanque, fechado, quase sem sentido, ganha dinamismo, dá-se a renovação dos acontecimentos que sempre pareceram tão iguais, tão mais do mesmo.
Tudo traduzível na troca de experiências a estabelecer entre as várias dimensões de nós, humanos, ao nível exterior e interior. A beleza do encontro através do encontro com a beleza por quem está disposto a viver a reciprocidade do dar e do receber. Deixar que a conversão aconteça, permitindo o espaço de universalidade, através da compreensão, do respeito, da integração da relação geradora de vida.
Tudo passa inevitavelmente pelo entender do que está para além do meu rápido ver ou escutar, do que está para além da superficialidade do momento, do que está para além do meu gosto ou desgosto desta ou daquela pessoa. Pode-se dizer: conhecer para aprofundar um mais que se esconde no imediato, sem pensamento ou reflexão. Depois, mais que o conhecimento, entraremos na sabedoria que conjuga a plenitude do viver. O convite ao saber viver.
A sabedoria da vida: promove a abertura ao Outro. Saio da minha casa, entro na cidade, que me aponta o país, levando-me ao planeta e daí entro no Todo. Dá-se a consciência, a revelação, o êxtase clarificador da pequenez que nos torna grandes diante do olhar Divino.
E assim sou chamado a promover a beleza do encontro e sentir a certeza de somos criados não para uma uniformidade, mas para uma união de corações, mais ampla que as diferenças. Nesses passos, o Infinito descobre-se e a Beleza surge em toda a Sua plenitude, revelando a densidade presente em tudo o que é verdadeiramente simples... e belo.
Por vezes penso na característica de ser. Ser em detalhe que chama a atenção, ou que, no silêncio desse mesmo detalhe, torna-se verdadeiramente especial. Não significa necessariamente inteligência, nem beleza fashion. O olhar, a pergunta que faz e como faz, o interesse pelo circundante, aquilo que a torna única... simplesmente única.
Tenho encontrado tantas pessoas assim, únicas. Interessantes de conhecer. Pela sua simplicidade, pelo seu vestir, pelo seu desejo de descoberta, pela gargalhada sonante, pela recordação de cada momento. A imagem que me surge: sentar-me a tomar chá e ficarmos horas em conversa. Depois, partirmos os dois mais cheios dando o melhor de nós por esse mundo fora. Afinal, ficámos mais preenchidos de novidade. Talvez por isso é que acabo por ver, mesmo no comum do quotidiano, uma nova tonalidade, retocada pelo detalhe que marcou o dia.
Sei que a vida não é sempre pautada por isto, assim, como uma pintura bonita de dias floridos. No entanto, se se torna como uma máquina de rotina, onde tudo é igual, na “mesma como a lesma”, corre-se o risco de não viver o que nos é dado, nem as pessoas que conhecemos ou surgem pelo caminho. E não seria necessário esperar por um “abanão forte”, como uma doença ou a morte... basta estar atento ao pormenor. Mesmo que aparentemente seja pequeno, pode ser o suficiente para mudar a vida.
“A relação, comunicação entre um Eu e outro Eu que aparece como Tu, só é possível, das as circunstâncias que requer, num momento de puro presente. Com os objectos posso relacionar-me tanto num plano passado, por exemplo, ao recordar de algo, como numa perspectiva de futuro, como quando oriento a minha acção até determinados fins. Mas com um Tu só posso estabelecer uma relação viva no presente. No momento em que queira referir-me ao Tu desde uma projecção temporal de passado ou futuro, estaria a convertê-lo num objecto do meu pensamento.”
Miguel García-Baró in Una reflexión sobre la compasión a partir de la filosofía de Martin Buber
Eu estou a fazer algo novo, já está a germinar: não estão a notar?
Isaías 43, 19
Tenho andado às voltas com as questões da humanidade e da desumanidade. A ténue linha que separa o que posso contribuir para dar relevo a que alguém viva o sentido do humano em si, independentemente da sua (des)crença pessoal ou comunitária.
O Advento mostra-me a existência do desejo em ir mais fundo na ponte a construir entre várias margens. O desafio de entrar no mundo, no concreto da realidade, sem fazer um prévio julgamento e deixar-me entranhar pelo pulsar do que se passa no quotidiano. Tomar o que me acontece como graça, dando espaço a esse germinar, já em evolução. É o desafio. Sim, é o desafio do acreditar. Não me conformar com imagens feitas e fazer caminho, nesta espera em cada segundo de um (re)nascer de Deus.
Quero que germine e nasça, na fragilidade desse momento silencioso, numa gruta, envolvido em panos: aí está o Humano e o Divino!
Não sei se é pela pressa, se pela quantidade de informação recebida todos os dias, no entanto, a emoção tem um poder imenso, levando, grande parte das vezes, a não reflectir sobre o visto, o escutado, o partilhado.
Está a circular um vídeo de uma reportagem, feita para um artigo de uma revista semanal, sobre os conhecimentos de cultura geral dos universitários. A ideia surge depois de meio país ter ficado chocado e acabar por gozar com a famosa “Àfrica” como resposta à pergunta sobre um país da América Latina. Rapidamente surgem as análises sociológicas de “bancada”: aqui está o estado do país. Exactamente as mesmas análises sobre este novo vídeo com os universitários.
Quando vejo o vídeo pela primeira vez, a minha sensibilidade manifesta-se e arrepio-me. As repostas são assustadoras e as desculpas ainda mais, é inegável. E a seguir ao susto, vem a preocupação. Também sou sensível... e racional!
Por isso, gostava de fazer algumas considerações:
O universo das entrevistas, segundo os dados da revista, foi de 100 estudantes. Não os vi a todos no vídeo. Ah! Claro! Era apenas uma pequena apresentação, como que resumo do que foi perguntado. Mas, responderam todos mal a todas as perguntas? Pode-se perceber que um(a) ou outro(a) estava completamente a viver um estado de forte ignorância. Mas, foram todos assim? É verdade que muitas das perguntas são de nível muito básico para o suposto tempo universitário, o que choca ainda mais. Contudo, pergunto, onde estão os que responderam bem?
Percebe-se pela introdução apresentada no vídeo que os jornalistas responsáveis pela peça querem mostrar que a ignorância não está só naquela rapariga. No entanto, não me parece correcto que se faça algo de forma a tornar o mundo universitário num estado lastimável, de completa ignorância. Isto não invalida que não nos tenhamos de preocupar seriamente, agindo para que não se chegue a situações ainda piores.
Outra consideração que gostaria de fazer... Alguém se preocupa com a humilhação que estas pessoas estão a passar? A rapariga da televisão está no programa de livre vontade, sujeitando-se à exposição. Estas pessoas dão uma entrevista e são expostas de uma forma que não acho de todo, mais que correcta, ética. O que mais me custa ver e ler são os comentários feitos no próprio link da revista ou os que proliferam no facebook, por exemplo. Sim, o estado da educação no nosso país está muito mal, mas em nada se contribui quando se difama desta forma. Alguns atributos menos simpáticos dirigidos às próprias pessoas da peça poderão também revelar que a falta de educação não está só nos entrevistados...
Em conclusão:
Ler ou ver uma peça jornalística exige cada vez mais bastante atenção e, sobretudo, acento crítico. Quando isso acontece pode haver o cuidado em perceber os moldes pensados, os objectivos e se contribui, de facto, para a ajuda que se pretende dar ao país.
Sempre gostei de grandes cidades. Nunca pensei bem o porquê. Talvez o movimento, a possibilidade de diluição no meio da multidão quando passeio pelo centro. O ritmo frenético dos tempos que marcam as entradas e as saídas. Também as variações dos bairros, com espaços muito distintos. Muitos momentos culturais, juntando aos desafios propostos pelos pensamentos que transbordam diante de tanta diversidade. No meio disto tudo, rezo.
Há espaços sagrados. Como que reservados para um encontro mais íntimo, onde os cantos contam histórias, recordam momentos, guardam acontecimentos. Ao ar livre ou fechados e decorados com o gosto que os tornam especiais. Os sons envolventes também evocam essa sacralidade. Talvez seja fácil imaginar o ermitério de um mosteiro ou uma igreja onde reina o som do silêncio. No entanto, tenho descoberto esses espaços nas ruas, nas “plazas”, na estrada que me leva até à faculdade e muitas vezes nas viagens de metro. No meio disto tudo, rezo.
Mas... rezo o quê? Rezo a quem? Rodeado de palavras, como pinceladas do que vivo como beleza também, este rezar pode ficar como uma acção bonita, que compõe o ramo comprado na florista da Plaza de Cuzco, quando se desce a Castellana. Assim, as grandes cidades também se tornam um dos meus espaços sagrados, onde contemplo o olhar das pessoas, imaginando os seus pensamentos. E aí só posso rezar a Deus presente no incógnito desse movimento. Deus reflectido no rosto de tanta gente que entra e sai pelas portas dos grandes edifícios, que deambula pela rua com fome, que puxa pelo cordel do seu tecido cheio de coisas contrabandeadas e de seguida foge da polícia municipal, que joga no pátio da escola, que, como só posso imaginar, chega a casa depois de mais um dia passado e aí encontra o conforto do lar, os sorrisos familiares, ou o vazio das sua falta de sonhos.
Sim, tenho saído do meu espaço fechado de casa e entrado um pouco mais no mundo, que não é mau, não é relativista, não é sem sentido... é o espaço da(s) História(s) onde Deus quer habitar ainda mais. A Encarnação é isto: o Verbo fez-se carne e habitou entre nós.
Uma das coisas que mais gostaria de poder partilhar: a força do silêncio.
Não é o silêncio do sem som, do não ouvir. É o silêncio que permite saborear o espaço e o tempo, as ruas e o movimento interior do sentido. O silêncio que abraça os contornos dos desafios, aqueles que precisam ser maturados antes de dar o passo do “tudo ou nada”. O silêncio que, no meio de uma hora de ponta no centro da cidade, faz perceber o quão ridículo tudo é diante do imenso das cores de Outono. Sim, o silêncio que me permite ver beleza na fragilidade. Aquele mesmo que me fez sentar no chão da Plaza de Callao a contemplar sonhos projectados em três bolas gigantes, também a encostar-me numa árvore em plena Calle Fuencarral enquanto delicio-me com um quarteto de cordas e observo os rostos de quem parava ou passava.
A força do silêncio... sussurrante: que nada te tire o rasgo de Ser.
A minha professora de Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia) dizia-nos com bastante frequência para não nos ficarmos pela leitura superficial dos textos. Há que tentar buscar a profundidade do que está escrito. Alguns relatos podem parecer ingénuos, outros simplesmente poéticos, alguns agressivos (sobretudo no Antigo Testamento), alguns espirituais ou, então, legalistas, no entanto, lidos na profundidade que lhes é pedida, podem revelar muito mais do que essas categorias em que poderão ser rapidamente catalogados.
Vendo a vida também como narração, como história que se vai escrevendo à medida dos acontecimentos diários, podemos recorrer a esta imagem: vê-la como simples passar do tempo, onde as marcas são registos que "já lá vão" e o eu acaba por viver o simples ser do momento. Poderia dizer, o viver do famoso carpe diem, tantas vezes aludido. É certo que o aqui e o agora são o momento e o espaço do encontro entre o “quem sou” e a relação que se pode estabelecer com os outros, contudo, se são um aqui e agora que não vivem o fundamento da história, do ser, podem correr o perigo do superficial efémero. Quando isto acontece, rapidamente pode levar ao categorizar a situação, o acontecimento e até mesmo alguém de forma, diria, injusta.
Este fim-de-semana estive no primeiro encontro de um tempo especial, o chamado Tempo Arrupe, dedicado à preparação para o sacerdócio. Numa das conversas, Toño García, o orientador destes encontros, na sua impressionante sabedoria de vida, da Companhia de Jesus e da Igreja, comentava que na comunicação pode haver, pelo menos, três tipos de escuta: a blindada, a ideológica e a disponível para a mudança. A blindada é aquela que “falares ou não falares, dá-me no mesmo”. A ideológica, quase próxima à blindada, é a que mais se aproxima, por exemplo, da classe política, ou seja, mesmo que o outro esteja a dizer algo acertado, o ouvido filtra apenas o que é contra a sua ideologia, levando a uma constante não aceitação do trabalho ou projecto que se pode vir a fazer em comum. Claro está que a “disponível para a mudança” é a escuta que vive o passo do diálogo: o que se está a dizer pode provocar mudanças em quem escuta. E para que isto aconteça há a exigência de não se ficar por uma escuta superficial, mas ir ao fundo do que está a ser dito, sem um julgamento imediato... ou seja, sem a mediação da reflexão sobre as palavras proferidas.
Assim, a profundidade mais do que um risco é um arriscar. No caso bíblico, em ir mais além do texto permitindo um conhecimento não só do sentido histórico do que foi escrito, como também das implicações que pode provocar em quem o lê, independentemente da crença que se possa ter. Tendo implicações em quem lê, inevitavelmente entra pela vida, provocando um novo olhar sobre a realidade, seja ela pessoal ou comunitária. Se há um novo olhar, então o meio envolvente não se fica pelo simples ruído ou sons lançados ao vazio, liberta palavras que guardam algo mais do que letras, levando à descoberta de histórias encarnadas em pessoas que também sonham, à sua medida, com um mundo melhor.
"Em tudo o que suscita em nós o sentimento puro e autêntico da beleza, há realmente a presença de Deus. Há quase uma espécie de encarnação de Deus no mundo, da qual a beleza é o sinal. A beleza é a prova experimental de que a encarnação é possível. Por isso qualquer arte de categoria é, por sua essência, religiosa".
Em notas soltas, sem uma reflexão profunda, tenho pensado o quanto muda a perspectiva quando se escuta algo sobre o que nos afecta(ou) na pele. É isso, o afecto como ligação a alguém ou algo modifica o sentir e o pensar. Não significa uma condescendência, como permissão, como passando a ser bom ou mau num momento imediato. Significa um dado de experiência que mostra um outro lado da realidade, permitindo um respeito pela história de vida, antes da formulação de qualquer juízo (válido ou não).
Atrevo-me a dizer que é um dos mistérios da sabedoria... a marca dos acontecimentos.
A subtileza das coisas acontece, por vezes, quando menos espero. A admiração de uma palavra, um som que surge na procura de uma música, a leitura de um texto que me faz sorrir, pensar, digerir, ou, simplesmente, sonhar. A vida é feita do concreto da realidade, dos sentidos que me despertam para um novo saborear dos acontecimentos. E, muitas vezes, traz mudanças.
Num pequeno workshop que orientei ontem com o tema ao Encontro do Corpo, uma das propostas foi limitar zonas do corpo e, ao som de uma música, apenas mover algumas das outras partes. Por exemplo, apenas se podia mover os membros superiores, de seguida os inferiores, ou apenas a(s) mão(s), o rosto... e foi bonito reconhecer que na limitação há imensas possibilidades.
Já lá vão tempos, bastantes anos até, que vivia uma profunda crítica e revolta com a Igreja, pedindo um CVIII. Não tinha o mínimo de noção do que estava a dizer, pois ainda não tinha lido uma página do CVII. Agora, ao saber um pouco da intuição de João XXIII ao convocá-lo, as reflexões dos teólogos que nele participaram, os textos que saíram, fico impressionado com a grandeza destes textos.
São um grande desafio para nós, membros da Igreja Católica, sobretudo à escuta da sociedade, a olhar o mundo, não como uma realidade má por essência, mas um caminho onde também podemos aprender. No fundo, a viver uma adaptação à mudança que se está a viver. A adaptação não significa perder a identidade, mas sim, aprofundá-la com outras perspectivas.
Deixo um pequeno exemplo:
Gaudium et Spes (Alegrias e Esperanças), n.º 59.
Pelas razões aduzidas, a Igreja lembra a todos que a cultura deve orientar-se para a perfeição integral da pessoa humana, para o bem da comunidade e de toda a sociedade. Por isso, é necessário cultivar o espírito de modo a desenvolver-lhe a capacidade de admirar, de intuir, de contemplar, de formar um juízo pessoal e de cultivar o sentido religioso, moral e social.
Pois a cultura, uma vez que deriva imediatamente da natureza racional e social do ser humano, tem uma constante necessidade de justa liberdade e de legítima autonomia, de agir segundo os seus próprios princípios para se desenvolver. Com razão, pois, exige ser respeitada e goza duma certa inviolabilidade, salvaguardados, evidentemente, os direitos da pessoa e da comunidade, particular ou universal, dentro dos limites do bem comum.
O sagrado Concílio, recordando o que ensinou o primeiro Concílio do Vaticano, declara que existem «duas ordens de conhecimento» distintas, a da fé e a da razão, e que a Igreja de modo algum proíbe que «as artes e disciplinas humanas usem de princípios e métodos próprios nos seus campos respectivos»; «reconhecendo esta justa liberdade», afirma por isso a legítima autonomia da cultura humana e sobretudo das ciências.
Tudo isto requer também que, salvaguardados a ordem moral e o bem comum, o ser humano possa investigar livremente a verdade, expor e divulgar a sua opinião e dedicar-se a qualquer arte; isto postula, finalmente, que seja informado com verdade dos acontecimentos públicos.
À autoridade pública pertence não determinar o carácter próprio das formas de cultura, mas favorecer as condições e as ajudas necessárias para o desenvolvimento cultural de todos, mesmo das minorias de alguma nação. Deve, por isso, insistir-se, antes de mais, para que a cultura, desviando-se do seu fim, não seja obrigada a servir as forças políticas ou económicas.
A palavra que mais me soou foi a de liberdade. Curioso, eu próprio muitas vezes me
questiono sobre a liberdade. O que é? Quem a tem? O que é, de facto, ser livre? Poderão ser
questões filosóficas, entrando num campo de abstracção sem sentido, no entanto, as
respostas que alcançamos poderão contribuir para o entendimento da vida em sociedade,
demarcada pela democracia, governada por um grupo de cidadãos que elegemos (ou não)
como nossos representantes.
Foi em liberdade que surgiu a crise que hoje vivemos. Sem dúvida que é uma
questão de realidade internacional. Rapidamente podemos comparar com os outros países,
como tantas vezes acontece nos vários discursos políticos. Contudo a comparação pode ser
perigosa, já que normalmente fazêmo-lo com o que dá jeito, aliviando assim o peso da
responsabilidade diante das acções, atrevo-me a dizer nacionais, que levaram à situação de
crise no nosso país. Foram muitos os erros de gestão, de medidas de educação, de tal
maneira que me levam a pensar na falta de responsabilidade pelas pessoas de quem foram
representantes.
Parece-me que essas mesmas pessoas, da nossa geração e de outras, estão cansadas
de discursos, de medidas, sobretudo quando a informação que circula leva uma
incompreensão generalizada por parte de quem está mais afastado dos conhecimentos
técnicos e teóricos da realidade económica e política. A liberdade de expressão faz com que
se deseje dar uma informação “justa, correcta e verdadeira”. Até que ponto isso acontece?
Somos bombardeados de: medidas atrás de medidas, que ora eram impensáveis, ora são
imprescindíveis; de incoerências nas actividades de muitos políticos, que graças à vida política vêem crescer as suas finanças pessoais; de notícias que desanimam a larga escala,
onde a justiça não se faz sentir. É certo que o cidadão comum não sabe nem metade da
história, além do mais quando se muda de governo há coisas que se sabem que eram
desconhecidas (sendo também uma oportunidade de desculpa nas acções seguintes).
Poderemos dizer que hoje há muitos filmes sobre “governação”, “política nacional e
internacional”, levando a especulações, mais ou menos verdadeiras, sobre o que se passa. E
assim surge a questão: a crise é real, mas para quem? A meu ver, os grandes problemas que
enfrentamos, para além da crise económico-financeira, são o da desconfiança e da falta de
valores, sendo um deles o da responsabilidade.
De facto, a liberdade está ligada à responsabilidade. É inevitável. Não gosto da
definição “a minha liberdade acaba quando começa a do outro”, pois fica reduzida ao
campo restrito de um indivíduo, como que dois compartimentos bem delineados que não
comunicam. A liberdade, ao viver directamente relacionada com a responsabilidade,
implica inevitavelmente um sentido profundo de relação. Não chego à visão de Lévinas,
afirmando que a responsabilidade pelo outro é tal, que se é responsável pelo próprio
carrasco. Contudo, acaba por ser algo a considerar quando se vive em sociedade: o outro!
Por não ser político, no sentido profissional do termo, pergunto-me muitas vezes se
vocês, que o são, acabam por sonhar, de facto, pela sociedade, por esse sentido responsável
pelas pessoas. Não tanto como “pessoa-estatística”, ou seja, mais um para compor
orçamentos, ou dados para argumentar, seja lá o que for, ou então que se dá mais um
calendário, pin ou chapéu, tendo assim mais um voto. Digo isto por ter oportunidade de
contactar com realidades tão distintas da sociedade, muitas delas num sofrimento bastante
grande, provocado por decisões políticas que acabam por não ter em conta o sentido de
responsabilidade e liberdade do ser humano.
A sociedade em que vivemos é bastante complexa, nada de novo na História da
humanidade. Seria muito bom que se considerasse, dentro desta complexidade, a
verdadeira beleza da liberdade através do sentido de responsabilidade que com ela segue.
Por isso, também repito as suas palavras com que termina o discurso: “(...) viva acima de
tudo o valor sem o qual nem Portugal, nem a República teriam qualquer sentido: o valor da
liberdade”. Assim, espero que nestes tempos todos vocês, políticos de profissão,
começando pelo altos representantes (Presidente da República, Presidente da Assembleia
da República e Primeiro-ministro), sejam os primeiros a dar o exemplo nos cortes de
forma voluntária, quem sabe, do próprio ordenado, ou até mesmo de algumas regalias,
junto com uma escuta atenta: primeiro uns dos outros, sem os comentários constantes
durante as intervenções, e depois da sociedade real que não são números, mas vidas com
histórias e por vezes bastante dramáticas, que tentam viver, precisamente, em liberdade.
Talvez estas sugestões sejam as do costume, ou já banalizadas, ou as de quem não
percebe nada de política e volta ao mesmo. No entanto, a minha experiência vai-me
dizendo que as palavras vazias de gestos por parte do próprio que as pronuncia ficam-se
pelo simples “ser palavras” e as deste tipo “leva-as o vento”. Quando alguém com grande
responsabilidade não tem medo de abdicar verdadeiramente de algo de si por todos,
tendo-o ou não elegido, aí, sim, pode demonstrar que a liberdade não é um conceito vazio.
É o grande valor que permite com que todos nós mesmo na dificuldade nos sintamos
acompanhados, sendo capazes de viver o momento de crise não como escravidão, mas
como oportunidade de voltar a descobrir a beleza de ser, de facto, livre.
Com a minha gratidão por si e pelo seu trabalho de representação, deixo-lhe os meus
melhores cumprimentos,
Sei que seria possível construir o mundo justo As cidades poderiam ser claras e lavadas Pelo canto dos espaços e das fontes O céu o mar e a terra estão prontos A saciar a nossa fome do terrestre A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia Cada dia a cada um a liberdade e o reino — Na concha na flor no homem e no fruto Se nada adoecer a própria forma é justa E no todo se integra como palavra em verso Sei que seria possível construir a forma justa De uma cidade humana que fosse Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"
No passado dia 31 de Maio celebrou-se o dia mundial do tripulante de cabine. Muitas recordações surgiram: de amizade, de vida, de trabalho, de encontros, de vistas e pensamentos nas alturas.
No dia seguinte li a notícia que a TAP tira um tripulante de cabine dos voos e que o Sindicato convoca uma greve. Li também uma série de comentários sobre a vida dos tripulantes. Aqui mergulhado nos estudos teológicos, acabei por sair de umas alturas e entrar noutras.
Fui tripulante de cabine durante pouco mais de três anos na PGA. Depois desse tempo mudei de Companhia. Outros “voos”, sem esquecer os aviões. Confirmado na vocação e perceber que ser jesuíta faz parte do meu caminho, uma das coisas que mais tenho saudades é de voar. Por isso, ler notícias relacionadas com aviões chama-me muito a atenção.
Ser tripulante significa, em primeiro lugar, zelar pela segurança dos passageiros. É verdade que a segunda função, a de prestar serviço, sendo imagem da empresa durante o voo, é a mais destacada, pois, felizmente, na grande parte dos voos não há necessidade de pôr em prática a primeira função. Uma vez tive de dizer isto a um passageiro quando, com toda a arrogância, me diz: “Olha, serve-me. Paguei para isso!”, e assim explicar que o serviço fora da realidade segurança, na nossa profissão, vem em segundo lugar.
Muita pessoas, e, infelizmente por vezes dentro da própria companhia aérea, têm a ideia que um tripulante passeia no e de avião. Talvez alguns voos de longo curso, que implicam uma estadia aqui ou ali, podem permitir um passeio nalguma terra mais exótica, mas GRANDE parte, para não dizer 90%, ou mais, dos voos não são assim. Sobretudo os de médio curso, pela Europa, por exemplo, onde se fazem entre 2 a 3 e por vezes 4 aterragens (no meu tempo cheguei a fazer voos de 5, tais como, Porto - Madrid - Porto - Zurique - Porto - Lisboa). E muitas vezes com os voos cheios e com turbulência (mesmo “fraquinha”). E sim, havia o sorriso, o glamour (sim, há, e ainda bem), o gosto pela profissão e o respeito pelos passageiros, que não têm culpa das decisões da empresa, que muitas vezes não tem noção da realidade do verdadeiro trabalho a bordo. Precisamente por haver este gosto, surgiam os agradecimentos (houve um voo que fui convidado para três casamentos... Haja festa!), e os bons momentos que, mesmo com trabalho alucinante, acabei por passar.
Acredito que a TAP poupará economicamente, mas pergunto: poupará a vida das pessoas? Nem vou à questão da segurança, mas da vida de quem está a trabalhar. A propósito de críticas: muitas vezes imaginei a possibilidade de cada pessoa sentir na pele o que é a realidade concreta das situações, na sua vida. Quem critica os tripulantes, por exemplo, ter a possibilidade fazer pelo menos 15 dias de voos, não sentado como passageiro, mas a trabalhar. Quem pede para apertar o cinto economicamente, viver sem os ordenados de gestor (que são, curiosamente, constantemente aumentados). E mais exemplos poderíamos dar... Creio que mudaria bastante a perspectiva das coisas e levaria a que se criticasse menos, sobretudo quando não se sabe o que se diz.
Hoje vivemos no mundo em que a economia parece que tem a primeira palavra, à frente da Vida das pessoas. Poupar, cortar, mas só alguns e nalgumas coisas. Nós, humanos, não somos máquinas. Tem de haver respeito, escuta e conhecimento para se poder alterar a ordem das coisas. Se tiver de ser e for algo que todos contribuam altera-se. Agora se é apenas uma parte a fazer sacrifícios, não me parece que tenha de haver mudanças. Por isso, há que partir para o diálogo e encontrar o caminho mais justo, sem imposição, mas com a certeza de que, como humanos que somos, pode-se encontrar o equilíbrio em todas as partes.
Sou utópico? Sim, sou... Ingénuo? Talvez.
Os anos que andei a voar, junto com os que passo a estudar, permitem-me chegar a uma sana utopia, com leve ingenuidade, mantendo o sonho de que podemos chegar a um mundo mais justo e melhor. Afinal, a esperança permite a vida!
Anda a circular um vídeo sobre “o que os finlandeses precisam saber sobre Portugal”.
Vejo o vídeo e, confesso, não fico lá muito animado, sobretudo por vir de uma entidade pública, tendo sido apresentado num Congresso.
Primeiro: não me parece que estejamos em alturas de puxar a um patriotismo exacerbado, sobretudo quando vem de um orgulho ferido, por não nos querem ajudar. Como se fosse a obrigação de primeira ordem. Será assim? Hoje em dia parece que “temos direito a tudo e mais alguma coisa”, mas reconhecer os erros da falta de cumprimento dos deveres não se fala. Preocupa-me que tenhamos de chegar a ponto de ter de pedir ajuda externa e ficarmos ofendidos por estarmos sujeitos (bem, agora foi aceite) a que digam não. Há quanto tempo andamos a receber ajuda externa? Sobretudo para desenvolvimento da agricultura, da formação humana, das redes comerciais, etc., etc. E, olhando para os resultados, que foi feito realmente com a totalidade de dinheiro recebido até hoje? Sem dúvida que houve aplicação, no entanto, chegaríamos a este ponto se tudo fosse aplicado como deveria ser?
Façamos o exercício: A empresta dinheiro a B, dizendo que é para fazer algo concreto. Entretanto, o tempo passa e, além de A pedir mais dinheiro a B, o que tem a fazer é feito a um ritmo muito lento, desordenado. Até usa algum desse dinheiro para outra coisa que não o primeiro projecto. E continua a pedir mais dinheiro a B... sem que haja frutos do projecto inicial. Até quando? Talvez B consiga ter outra percepção e dirá, um dia, que acabou o empréstimo e pede o que lhe deve. E, como a quantidade é muita, já não será só o próprio A a pagar, também os filhos e talvez os netos.
Segundo: Não sei já foi visto por muitos, mas já temos um vídeo de resposta dos finlandeses. E, claro está, “quem ri por último...”. Eles estão bem, não têm problemas de resgate e, se têm alguns conhecimentos de História Universal, acabaram por rir de algumas coisas ditas no “nosso” vídeo.
E leva-me ao terceiro ponto: Os dados apresentados pelo vídeo revelam alguma, para não dizer muita, imaturidade em aceitar a realidade como ela está. E vê-se pela forma como os dados são apresentados: sem uma reflexão prévia, pois analisando algumas afirmações acabamos por perceber que deveríamos ter vergonha em mencionar algumas coisas. É verdade que temos de nos orgulhar pelas descobertas, mas... ter orgulho por termos o menor número de patentes? Pela população portuguesa, sobretudo com excelentes qualificações, sair cada vez mais de Portugal? É certo que Cristóvão Colombo anunciou primeiro a Portugal que tinha descoberto a América, mas... teve de ir a Espanha, pois Portugal não financiou o projecto. Alguém me explica qual o orgulho de “não termos ganho nenhum concurso da Eurovisão”?
Bem, não vou analisar cada ponto.
Mais uma vez concluo que estamos numa altura em que as coisas são vistas e as decisões são tomadas sem grande reflexão. Foram já cometidos muitos erros de governação, infelizmente não admitidos, o que torna tudo ainda mais chocante. Então, não contribuamos para a vergonha nacional, escrevendo e enviando vídeos assim, seja a quem for.
Está na altura de exigir aos nossos governantes de fomentarem uma boa formação na educação, de investirem na investigação (na diferentes áreas científicas e artísticas), na Cultura (que é um dos factores de humanização) e de, uma vez por todas, deixarem de gozar com a cara dos Portugueses.