sábado, 5 de novembro de 2011

Concílio Vaticano II


Estou a (re)ler o Concílio Vaticano II (CVII).

Já lá vão tempos, bastantes anos até, que vivia uma profunda crítica e revolta com a Igreja, pedindo um CVIII. Não tinha o mínimo de noção do que estava a dizer, pois ainda não tinha lido uma página do CVII. Agora, ao saber um pouco da intuição de João XXIII ao convocá-lo, as reflexões dos teólogos que nele participaram, os textos que saíram, fico impressionado com a grandeza destes textos.

São um grande desafio para nós, membros da Igreja Católica, sobretudo à escuta da sociedade, a olhar o mundo, não como uma realidade má por essência, mas um caminho onde também podemos aprender. No fundo, a viver uma adaptação à mudança que se está a viver. A adaptação não significa perder a identidade, mas sim, aprofundá-la com outras perspectivas.

Deixo um pequeno exemplo:

Gaudium et Spes (Alegrias e Esperanças), n.º 59. 
Pelas razões aduzidas, a Igreja lembra a todos que a cultura deve orientar-se para a perfeição integral da pessoa humana, para o bem da comunidade e de toda a sociedade. Por isso, é necessário cultivar o espírito de modo a desenvolver-lhe a capacidade de admirar, de intuir, de contemplar, de formar um juízo pessoal e de cultivar o sentido religioso, moral e social.

Pois a cultura, uma vez que deriva imediatamente da natureza racional e social do ser humano, tem uma constante necessidade de justa liberdade e de legítima autonomia, de agir segundo os seus próprios princípios para se desenvolver. Com razão, pois, exige ser respeitada e goza duma certa inviolabilidade, salvaguardados, evidentemente, os direitos da pessoa e da comunidade, particular ou universal, dentro dos limites do bem comum.

O sagrado Concílio, recordando o que ensinou o primeiro Concílio do Vaticano, declara que existem «duas ordens de conhecimento» distintas, a da fé e a da razão, e que a Igreja de modo algum proíbe que «as artes e disciplinas humanas usem de princípios e métodos próprios nos seus campos respectivos»; «reconhecendo esta justa liberdade», afirma por isso a legítima autonomia da cultura humana e sobretudo das ciências.

Tudo isto requer também que, salvaguardados a ordem moral e o bem comum, o ser humano possa investigar livremente a verdade, expor e divulgar a sua opinião e dedicar-se a qualquer arte; isto postula, finalmente, que seja informado com verdade dos acontecimentos públicos.

À autoridade pública pertence não determinar o carácter próprio das formas de cultura, mas favorecer as condições e as ajudas necessárias para o desenvolvimento cultural de todos, mesmo das minorias de alguma nação. Deve, por isso, insistir-se, antes de mais, para que a cultura, desviando-se do seu fim, não seja obrigada a servir as forças políticas ou económicas.


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Liberdade e Responsabilidade: Carta ao Deputado Adolfo Mesquita Nunes.




“Liberty means responsibility. That is why most men dread it.” 
George Bernard Shaw

Exmo. Sr. Deputado Adolfo Mesquita Nunes, 

Começo por agradecer as suas intervenções na Assembleia da República. A última que ouvi, enviada por mail, foi a de 20 de Outubro, no encerramento das comemorações do centenário da República. Sendo da sua geração, identifico-me, de algum modo, com muitas das suas palavras naqueles breves sete minutos. Daí que tomo a liberdade de partilhar consigo algumas reflexões soltas. 

A palavra que mais me soou foi a de liberdade. Curioso, eu próprio muitas vezes me questiono sobre a liberdade. O que é? Quem a tem? O que é, de facto, ser livre? Poderão ser questões filosóficas, entrando num campo de abstracção sem sentido, no entanto, as respostas que alcançamos poderão contribuir para o entendimento da vida em sociedade, demarcada pela democracia, governada por um grupo de cidadãos que elegemos (ou não) como nossos representantes. 

Foi em liberdade que surgiu a crise que hoje vivemos. Sem dúvida que é uma questão de realidade internacional. Rapidamente podemos comparar com os outros países, como tantas vezes acontece nos vários discursos políticos. Contudo a comparação pode ser perigosa, já que normalmente fazêmo-lo com o que dá jeito, aliviando assim o peso da responsabilidade diante das acções, atrevo-me a dizer nacionais, que levaram à situação de crise no nosso país. Foram muitos os erros de gestão, de medidas de educação, de tal maneira que me levam a pensar na falta de responsabilidade pelas pessoas de quem foram representantes. 

Parece-me que essas mesmas pessoas, da nossa geração e de outras, estão cansadas de discursos, de medidas, sobretudo quando a informação que circula leva uma incompreensão generalizada por parte de quem está mais afastado dos conhecimentos técnicos e teóricos da realidade económica e política. A liberdade de expressão faz com que se deseje dar uma informação “justa, correcta e verdadeira”. Até que ponto isso acontece? Somos bombardeados de: medidas atrás de medidas, que ora eram impensáveis, ora são imprescindíveis; de incoerências nas actividades de muitos políticos, que graças à vida política vêem crescer as suas finanças pessoais; de notícias que desanimam a larga escala, onde a justiça não se faz sentir. É certo que o cidadão comum não sabe nem metade da história, além do mais quando se muda de governo há coisas que se sabem que eram desconhecidas (sendo também uma oportunidade de desculpa nas acções seguintes). Poderemos dizer que hoje há muitos filmes sobre “governação”, “política nacional e internacional”, levando a especulações, mais ou menos verdadeiras, sobre o que se passa. E assim surge a questão: a crise é real, mas para quem? A meu ver, os grandes problemas que enfrentamos, para além da crise económico-financeira, são o da desconfiança e da falta de valores, sendo um deles o da responsabilidade. 

De facto, a liberdade está ligada à responsabilidade. É inevitável. Não gosto da definição “a minha liberdade acaba quando começa a do outro”, pois fica reduzida ao campo restrito de um indivíduo, como que dois compartimentos bem delineados que não comunicam. A liberdade, ao viver directamente relacionada com a responsabilidade, implica inevitavelmente um sentido profundo de relação. Não chego à visão de Lévinas, afirmando que a responsabilidade pelo outro é tal, que se é responsável pelo próprio carrasco. Contudo, acaba por ser algo a considerar quando se vive em sociedade: o outro! 

Por não ser político, no sentido profissional do termo, pergunto-me muitas vezes se vocês, que o são, acabam por sonhar, de facto, pela sociedade, por esse sentido responsável pelas pessoas. Não tanto como “pessoa-estatística”, ou seja, mais um para compor orçamentos, ou dados para argumentar, seja lá o que for, ou então que se dá mais um calendário, pin ou chapéu, tendo assim mais um voto. Digo isto por ter oportunidade de contactar com realidades tão distintas da sociedade, muitas delas num sofrimento bastante grande, provocado por decisões políticas que acabam por não ter em conta o sentido de responsabilidade e liberdade do ser humano. 

A sociedade em que vivemos é bastante complexa, nada de novo na História da humanidade. Seria muito bom que se considerasse, dentro desta complexidade, a verdadeira beleza da liberdade através do sentido de responsabilidade que com ela segue. Por isso, também repito as suas palavras com que termina o discurso: “(...) viva acima de tudo o valor sem o qual nem Portugal, nem a República teriam qualquer sentido: o valor da liberdade”. Assim, espero que nestes tempos todos vocês, políticos de profissão, começando pelo altos representantes (Presidente da República, Presidente da Assembleia da República e Primeiro-ministro), sejam os primeiros a dar o exemplo nos cortes de forma voluntária, quem sabe, do próprio ordenado, ou até mesmo de algumas regalias, junto com uma escuta atenta: primeiro uns dos outros, sem os comentários constantes durante as intervenções, e depois da sociedade real que não são números, mas vidas com histórias e por vezes bastante dramáticas, que tentam viver, precisamente, em liberdade. 

Talvez estas sugestões sejam as do costume, ou já banalizadas, ou as de quem não percebe nada de política e volta ao mesmo. No entanto, a minha experiência vai-me dizendo que as palavras vazias de gestos por parte do próprio que as pronuncia ficam-se pelo simples “ser palavras” e as deste tipo “leva-as o vento”. Quando alguém com grande responsabilidade não tem medo de abdicar verdadeiramente de algo de si por todos, tendo-o ou não elegido, aí, sim, pode demonstrar que a liberdade não é um conceito vazio. É o grande valor que permite com que todos nós mesmo na dificuldade nos sintamos acompanhados, sendo capazes de viver o momento de crise não como escravidão, mas como oportunidade de voltar a descobrir a beleza de ser, de facto, livre.

Com a minha gratidão por si e pelo seu trabalho de representação, deixo-lhe os meus melhores cumprimentos, 
Paulo Duarte

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Em dia de aniversário...





A Forma Justa


Sei que seria possível construir o mundo justo 
As cidades poderiam ser claras e lavadas 
Pelo canto dos espaços e das fontes 
O céu o mar e a terra estão prontos 
A saciar a nossa fome do terrestre 
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia 
Cada dia a cada um a liberdade e o reino 
— Na concha na flor no homem e no fruto 
Se nada adoecer a própria forma é justa 
E no todo se integra como palavra em verso 
Sei que seria possível construir a forma justa 
De uma cidade humana que fosse 
Fiel à perfeição do universo 

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco 
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"




terça-feira, 18 de outubro de 2011

[Gn 22, 1-18]






Ser real:
a experiência
inquietante, transformadora
do que vejo, escuto, sinto

nas entranhas,

e de homem passo a pai.

Ser silêncio
ante a abertura da realidade,
como lótus flutuante,

reveladora de novidade.

E na criação encontro o Criador.


sexta-feira, 3 de junho de 2011

Voos, tripulantes de cabine e realidade de vida!


No passado dia 31 de Maio celebrou-se o dia mundial do tripulante de cabine. Muitas recordações surgiram: de amizade, de vida, de trabalho, de encontros, de vistas e pensamentos nas alturas.

No dia seguinte li a notícia que a TAP tira um tripulante de cabine dos voos e que o Sindicato convoca uma greve. Li também uma série de comentários sobre a vida dos tripulantes. Aqui mergulhado nos estudos teológicos, acabei por sair de umas alturas e entrar noutras.

Fui tripulante de cabine durante pouco mais de três anos na PGA. Depois desse tempo mudei de Companhia. Outros “voos”, sem esquecer os aviões. Confirmado na vocação e perceber que ser jesuíta faz parte do meu caminho, uma das coisas que mais tenho saudades é de voar. Por isso, ler notícias relacionadas com aviões chama-me muito a atenção.

Ser tripulante significa, em primeiro lugar, zelar pela segurança dos passageiros. É verdade que a segunda função, a de prestar serviço, sendo imagem da empresa durante o voo, é a mais destacada, pois, felizmente, na grande parte dos voos não há necessidade de pôr em prática a primeira função. Uma vez tive de dizer isto a um passageiro quando, com toda a arrogância, me diz: “Olha, serve-me. Paguei para isso!”, e assim explicar que o serviço fora da realidade segurança, na nossa profissão, vem em segundo lugar.

Muita pessoas, e, infelizmente por vezes dentro da própria companhia aérea, têm a ideia que um tripulante passeia no e de avião. Talvez alguns voos de longo curso, que implicam uma estadia aqui ou ali, podem permitir um passeio nalguma terra mais exótica, mas GRANDE parte, para não dizer 90%, ou mais, dos voos não são assim. Sobretudo os de médio curso, pela Europa, por exemplo, onde se fazem entre 2 a 3 e por vezes 4 aterragens (no meu tempo cheguei a fazer voos de 5, tais como, Porto - Madrid - Porto - Zurique - Porto - Lisboa). E muitas vezes com os voos cheios e com turbulência (mesmo “fraquinha”). E sim, havia o sorriso, o glamour (sim, há, e ainda bem), o gosto pela profissão e o respeito pelos passageiros, que não têm culpa das decisões da empresa, que muitas vezes não tem noção da realidade do verdadeiro trabalho a bordo. Precisamente por haver este gosto, surgiam os agradecimentos (houve um voo que fui convidado para três casamentos... Haja festa!), e os bons momentos que, mesmo com trabalho alucinante, acabei por passar.

Acredito que a TAP poupará economicamente, mas pergunto: poupará a vida das pessoas? Nem vou à questão da segurança, mas da vida de quem está a trabalhar. A propósito de críticas: muitas vezes imaginei a possibilidade de cada pessoa sentir na pele o que é a realidade concreta das situações, na sua vida. Quem critica os tripulantes, por exemplo, ter a possibilidade fazer pelo menos 15 dias de voos, não sentado como passageiro, mas a trabalhar. Quem pede para apertar o cinto economicamente, viver sem os ordenados de gestor (que são, curiosamente, constantemente aumentados). E mais exemplos poderíamos dar... Creio que mudaria bastante a perspectiva das coisas e levaria a que se criticasse menos, sobretudo quando não se sabe o que se diz.

Hoje vivemos no mundo em que a economia parece que tem a primeira palavra, à frente da Vida das pessoas. Poupar, cortar, mas só alguns e nalgumas coisas. Nós, humanos, não somos máquinas. Tem de haver respeito, escuta e conhecimento para se poder alterar a ordem das coisas. Se tiver de ser e for algo que todos contribuam altera-se. Agora se é apenas uma parte a fazer sacrifícios, não me parece que tenha de haver mudanças. Por isso, há que partir para o diálogo e encontrar o caminho mais justo, sem imposição, mas com a certeza de que, como humanos que somos, pode-se encontrar o equilíbrio em todas as partes.

Sou utópico? Sim, sou... Ingénuo? Talvez.
Os anos que andei a voar, junto com os que passo a estudar, permitem-me chegar a uma sana utopia, com leve ingenuidade, mantendo o sonho de que podemos chegar a um mundo mais justo e melhor. Afinal, a esperança permite a vida!


segunda-feira, 9 de maio de 2011

Portugueses e Finlandeses (ou outros)!



Anda a circular um vídeo sobre “o que os finlandeses precisam saber sobre Portugal”.

Vejo o vídeo e, confesso, não fico lá muito animado, sobretudo por vir de uma entidade pública, tendo sido apresentado num Congresso.

Primeiro: não me parece que estejamos em alturas de puxar a um patriotismo exacerbado, sobretudo quando vem de um orgulho ferido, por não nos querem ajudar. Como se fosse a obrigação de primeira ordem. Será assim? Hoje em dia parece que “temos direito a tudo e mais alguma coisa”, mas reconhecer os erros da falta de cumprimento dos deveres não se fala. Preocupa-me que tenhamos de chegar a ponto de ter de pedir ajuda externa e ficarmos ofendidos por estarmos sujeitos (bem, agora foi aceite) a que digam não. Há quanto tempo andamos a receber ajuda externa? Sobretudo para desenvolvimento da agricultura, da formação humana, das redes comerciais, etc., etc. E, olhando para os resultados, que foi feito realmente com a totalidade de dinheiro recebido até hoje? Sem dúvida que houve aplicação, no entanto, chegaríamos a este ponto se tudo fosse aplicado como deveria ser?

Façamos o exercício: A empresta dinheiro a B, dizendo que é para fazer algo concreto. Entretanto, o tempo passa e, além de A pedir mais dinheiro a B, o que tem a fazer é feito a um ritmo muito lento, desordenado. Até usa algum desse dinheiro para outra coisa que não o primeiro projecto. E continua a pedir mais dinheiro a B... sem que haja frutos do projecto inicial. Até quando? Talvez B consiga ter outra percepção e dirá, um dia, que acabou o empréstimo e pede o que lhe deve. E, como a quantidade é muita, já não será só o próprio A a pagar, também os filhos e talvez os netos.

Segundo: Não sei já foi visto por muitos, mas já temos um vídeo de resposta dos finlandeses. E, claro está, “quem ri por último...”. Eles estão bem, não têm problemas de resgate e, se têm alguns conhecimentos de História Universal, acabaram por rir de algumas coisas ditas no “nosso” vídeo.

E leva-me ao terceiro ponto: Os dados apresentados pelo vídeo revelam alguma, para não dizer muita, imaturidade em aceitar a realidade como ela está. E vê-se pela forma como os dados são apresentados: sem uma reflexão prévia, pois analisando algumas afirmações acabamos por perceber que deveríamos ter vergonha em mencionar algumas coisas. É verdade que temos de nos orgulhar pelas descobertas, mas... ter orgulho por termos o menor número de patentes? Pela população portuguesa, sobretudo com excelentes qualificações, sair cada vez mais de Portugal? É certo que Cristóvão Colombo anunciou primeiro a Portugal que tinha descoberto a América, mas... teve de ir a Espanha, pois Portugal não financiou o projecto. Alguém me explica qual o orgulho de “não termos ganho nenhum concurso da Eurovisão”?

Bem, não vou analisar cada ponto.
Mais uma vez concluo que estamos numa altura em que as coisas são vistas e as decisões são tomadas sem grande reflexão. Foram já cometidos muitos erros de governação, infelizmente não admitidos, o que torna tudo ainda mais chocante. Então, não contribuamos para a vergonha nacional, escrevendo e enviando vídeos assim, seja a quem for.

Está na altura de exigir aos nossos governantes de fomentarem uma boa formação na educação, de investirem na investigação (na diferentes áreas científicas e artísticas), na Cultura (que é um dos factores de humanização) e de, uma vez por todas, deixarem de gozar com a cara dos Portugueses.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

[Rt 1 - 4]


["Seara # 1" de Nanã Sousa Dias, in olhares.com]


Voos subtis
sobre textos antigos,
sagrados.

O moldar da pele
diante da nova realidade
(re)feita em ensinamentos.

A recolha de espigas
anunciadoras de novo mundo,
na seara que ondeia
ao sabor do vento

que sopra por onde quer.


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

a plenitude da leveza do ser


["A insustentável leveza..." de A Fino G, in olhares.com]


“O que nos afecta na nossa carne pode, pois, afectar-nos mais profundamente do que aquilo que captamos só pela reflexão. Posso reflectir sobre a morte, mas a proximidade física de um moribundo penetra-me até ao indizível. Posso meditar sobre o belo, mas a presença sensível da mulher bela trespassa a treva do meu espírito” Fabrice Hadjajd

Vivência.
O que é isto de viver? Pode ser visto de muitas perspectivas: mais científica, mais filosófica, mais teológica, mais poética, mais racional. Dar certezas quase absolutas sobre a Vida, como se num simples tratado tudo ficasse esclarecido.

Há dias fui dar um largo passeio. Precisava de andar, sentir a brisa, ir, simplesmente ir. O “ser em caminho” com que me caracterizo impulsiona-me a pôr, precisamente, em caminho. Sobretudo depois de tempos tão intensos, como foi o dos exames. Não quero falar dos exames. Quero falar um pouco do que é isto de viver, em caminho.

Fabrice Hadjadj sintetiza muito bem o que é vivenciar uma realidade que vai para além do racional. Deixar que a realidade me entre pela pele dentro vai fazer com que o meu olhar sobre as coisas mude. Há o perigo de deixar que as belas e poéticas palavras possam ficar simplesmente a flutuar pela mente ou coração. Creio que a beleza da Vida acontece quando deixo que o impacto da realidade entre em mim. E é de tal maneira transbordante que há uma diferença no meu modo de estar na vida.

Enquanto passeava pelas avenidas desta cidade, grande por sinal, olhava as árvores despidas de folhas. Numa ou noutra encontrava ninhos, casas antigas portanto, inabitados. Mas rematados para receber os mesmos ou novos inquilinos. Os mesmos que fazem voos imensos e, seguindo cursos naturais, não deixam de voar. Pensei nos sonhos, os voos que não quero deixar adormecer em mim. Como que em expansão de olhares... Horizontes que a alma deixa abrir. A alma? Creio que Deus!

Em quem fui e vou pensando. Tornar-me dele, mas sem uma estruturação de finitude ou de limite. Não! Quero o oceano de sonhos, não para os dar, mas sim libertar para todos a capacidade de sonhar. A meio do percurso sorria, noutra vez emocionei-me a pensar em tanto. No que me mexe, no que e em quem me faz ser. Ás vezes gostaria de objectivar mais o que vai cá dentro, é tanto e, sim, confuso. Os sentidos estão abertos... a informação gera-se e acontece vida!

Vida, daquela prometida pela Esperança! Será verde? Sim, pois os pequenos rebentos que anunciam novos tempos são assim, verdejantes, com despontar de novas cores, mas verdejantes! É Vida! V-I-D-A! A mesma que desejo e quero anunciar, em poesia, em palavras, em quedas, em erros, em batalhas, em conversas, em divertimentos alegres, em que nesse momento todo o universo se concentra na Palavra, no Sorriso, na Lágrima, partilhados.

Abraçar, em passos de caminhos, o ritmo do tempo. E consolidar a certeza de fé de que Deus é muito mais do que se possa pensar, dizer, explicar d'Ele. É Vida. Por isso é palpitar em ansiedade de Amor, de encontros com pessoas (des)conhecidas, que marcam pelo seu modo de ser, porque simplesmente são. Não em conceitos ou convenções. São com um nome, uma história. São, mesmo que eu não goste delas, que me façam repugna ou confusão. São! A força do ser só pode ser maior que a força do sentimento.

E essa força do ser que habita em mim, em nós seres humanos, que sonham ou não, que vivem ou se prometem viver, dá-me impulso de caminhar.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

[Lc 10, 41-42]

[Foto: "Onde o tempo se demora" de José Luís Garcês, in olhares.com]



Profundidade

[procurada nos afazeres
quotidianos,
sem sentido aparente.

É sempre do mesmo,
como rotina (des)esperada
em cada toque de despertador.

Sentirei o palpitar cardíaco?

É sempre do mesmo

com as variações
da profundidade do sentir]

da Vida

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

[1 Cor 1, 20]


["O lento despertar da loucura e da salvação I" de João Veríssimo in olhares.com]



Paradoxo.
A curiosidade presente
na rua que cruzo entre o
Saber do não saber.

Dúvida(s).
A inquietação da subida
do monte, deixando a areia
dos pés formar a palavra
viva.

Silêncio.
Afinal os dias
são maiores,
nas ondas brota jogo novo,
houve descoberta.

Fundamento.
Diante da frase solta
aos ventos:
deu-se a revelação.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Small Pleasures


Depois de o ver, fica a sensação do silêncio agradecido pelo que tenho e sou... Simplesmente, nos pequenos prazeres da Vida!
Há que saborear e perceber que a Vida é mais... muito mais!

sábado, 22 de janeiro de 2011

Estado, Liberdade e contratos de associação escolar...

"A liberdade é um dos dons mais preciosos que o céu deu aos homens. Nada a iguala, nem os tesouros que a terra encerra no seu seio, nem os que o mar guarda nos seus abismos. Pela liberdade, tanto quanto pela honra, pode e deve aventurar-se a nossa vida".
Cervantes, in Dom Quixote

Fala-se de evolução, crescimento social, como desejos de um país ao nível da Europa, que se quer livre e promotor da liberdade. Muitas vezes pergunto-me: o que é a liberdade?

Liberdade é “fazer-se o que se quer”? Não me parece, pois inevitavelmente vamos colidir com outras “liberdades”. Então, será “aquilo que acaba quando começa a de outra pessoa”? Também considero uma resposta não muito completa... Pois, ficamos como que em “guetos” relacionais, onde se vive liberdades em zonas de fronteira.

Talvez seja dito de forma poética, mas ainda assim pode ser que a liberdade aconteça quando, em diálogo e reflexão, duas pessoas mesmo podendo estar em caminhos distantes fazem-no lado a lado. Promovendo, assim, não só o crescimento pessoal, mas de todos os que as rodeiam.

Com a situação das Escolas com contrato de associação reparo num Estado que caminha sozinho, segundo os seus interesses, tomando decisões que anulam a Liberdade da pessoa (em vários níveis). E, ironicamente, em nome da Liberdade e da Justiça. Ficarão livres de encargos os Educadores (docentes e não-docentes) despedidos? Será justo ter de ir obrigatoriamente para esta ou aquela Escola, quando há a possibilidade de escolha por uma que oferece condições pedagógicas que, de facto, apontam para a liberdade de pensamento, de religião, de educação, cultura e, inclusive, liberdade de ideologia?

É verdade que muitas das Escolas com contrato de associação são de cariz religioso (e muito provavelmente é isso que incomoda o nosso Estado “livre e libertador”). No entanto, como parece ser do desconhecimento de muitas pessoas, em nenhuma há obrigatoriedade de crença nesta ou naquela Religião. Ao contrário do que o Estado (repito: dito promotor da Liberdade) parece fazer, que é impor uma ideologia, um modo viver a realidade segundo a sua visão, segundo o seu caminho.

Dando alguns exemplos: começa-se por se reduzir os tempos lectivos de Filosofia, surge uma imposição de formação ao nível da Educação para a Sexualidade sem grande coordenação, descredibiliza-se os professores, em nome da crise reformula-se radicalmente os contratos celebrados no pós 25 de Abril (data curiosa para a Liberdade em Portugal) com Escolas que permitem um outro tipo de ensino, para além do puramente estatal, a alunos de todas as classes sociais e, para culminar, segundo o senhor secretário de Estado, em nome da Ministra da Educação: “ou assinas, ou não tens dinheiro, logo fechas mais depressa as portas”.

Estranho século XXI este. Tão evoluído ao nível tecnológico, mas em termos de humanidade...
...pois, viva a Liberdade!


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Comentário sobre História da Igreja Antiga

["História" de Nelson Afonso, in olhares.com]


[Escrevi este comentário final após ter resumido toda a matéria dada ao longo deste semestre]

Começo por apresentar o meu primeiro pensamento mais geral: depois do que estudei, trata-se de História Antiga ou de realidade contemporânea? Talvez pela minha sensibilidade em relação à pluralidade cultural em que vivemos (por mais que se diga que estamos em tempos de globalização), também por se falar tanto da crise económica, entre outras, que atravessamos em geral pela Europa e de forma particular em Portugal, junto ainda o impacto (nalgumas situações mais negativo que positivo) causado pelos últimos escritos e feitos da Igreja Católica, acabo por fazer uma leitura ligando pontos de contacto entre o que se passou há cerca de 17oo anos com a actualidade.

Parece que não aprendemos com a História. Será que é por estar cada vez mais esquecida? Sem dúvida que não se pode apagar a memória colectiva de uma sociedade e de um povo, pois em relação cíclica, acabamos por voltar a tocar em pontos essenciais da nossa estruturação enquanto humanos.

Particularizando no aspecto da vertente de “Igreja”, esta disciplina ajudou-me a conectar com os inícios do que, de algum modo, me leva também a ser. Afinal, ser humano também tem em si a dimensão histórica e social. Conhecer a História da Igreja leva-me ao encontro com aquilo que sou como crente e membro desta Igreja, que não é uma teoria, uma ideia, mas uma realidade de desenvolvimento a partir de vidas e decisões de pessoas concretas ao longo dos tempos.

Na verdade muita da falta de fé vem do não saber o “como, porquê e quando” do surgimento das coisas. Também a fé não acontece por uma linearidade limpa de acontecimentos, como se fosse um caminho recto, sem qualquer obstáculo. O estudo e aprofundamento dos dados sobre as convulsões sociais entre os grupos religiosos, a relação com as outras religiões ou entidades religiosas e com os povos com tradições pagãs, as perseguições, os martírios, as necessidades de organização (da liturgia, da vida quotidiana, da estrutura eclesial) daqueles primeiros séculos, levam a que se tome consciência dos passos dados e do quanto, no meio de tantas dificuldades, muitos mantiveram e aprofundaram a sua crença.

Fico com a impressão de que há muito a voltar a estes tempos, não para repetir, pois além de impossível não teria sentido, mas numa aprendizagem do que foi o sentimento de perseguição pela fé e da vontade de anúncio de alguém que mudava a vida das pessoas. Nos nossos dias voltamos a essa ameaça, como se pode comprovar nos ataques a muitas Igrejas, por isso podemos investigar a reacção dos antigos e, sobretudo, qual a sua acção em meios de perseguição. No que se refere à actual chamada “perseguição à Igreja” (mais ocidental) nas questões de doutrina, também temos de aprender com os cristãos desses tempos do passado, pois além de não passarem por vitimizações, acabaram, por um lado, a confiar, por outro, a aprender a dialogar.

Muito do nosso pensamento acabou por vir de uma realidade cultural que o cristianismo “converteu”, adaptou, à sua. Se hoje se fala tanto em pluralismo religioso, de relativismo, de confusão de ideologias, também naquele tempo houve muito dessas questões, com linhas mais conservadores e outras mais dialogantes. E não caindo na ingenuidade de se pensar que aconteceu uma resolução plena, poderíamos aprender sobre quais as ferramentas que foram úteis e quais as que seriam de evitar.

Vergílio Ferreira afirmou que "o que mais importa não é o novo que se vê mas o que se vê de novo no que já tínhamos visto”. Assim, a História, compreendida e vivida em diálogo com outras ciências humanas e científicas, pode ajudar em muito na compreensão da Igreja tornando-a ainda mais humana e mais divina.



terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Crises


Aqui nos meus estudos de História da Igreja Antiga leio sobre o Império Romano. O século III, pode-se dizer, foi de crise. Os imperadores, seguindo as políticas uns dos outros, numa das muitas medidas aumentavam a administração pública, num sistema de protecção dos nobres, burocratizando o sistema (para mais controlar, evidentemente). Como não tinham dinheiro para pagar tudo isto aumentaram os impostos em número e valor monetário (independentemente das condições de vida das pessoas), levando a uma dualização da sociedade em muito ricos e muito pobres (para não dizer miseráveis). Já se sabe o que aconteceu a este Império...

Onde é que eu ESTOU a ver isto, novamente, 1700 anos depois?

Que políticos actuais tão pouco originais, tenho a dizer. E ainda dizem que a Igreja não se actualiza...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

[Jo 20, 14]

["Enlevo..." de António Gil in olhares.com]



Para MTH

Um engano
e
Passei os olhos por ti,
em tempos,
em conversas,
em dúvidas,
em construção de pontes
(aladas)
de Corpo encarnado.

Que cresce,
desenvolve os sentidos
numa ligação para além
do tempo e do espaço

falando de divindade

na humanidade,
com toque de Sofia,
partilhada
(mesmo em silêncio)
da História,
dos Contos,
do mistério em oculto.

(E aqui, agora)
para ti
chamo
invoco
canto
a Luz,
(vinda em voos)
com (a)braços
protectores,
cheios de Vida

que pintam a realidade de brilho,
anulam a opressão,
fazem sorrir

renovando a inspiração,
a mesma que te faz Ser(vir)
com o dom de palavras.


domingo, 9 de janeiro de 2011

[Mc 6, 46]*

["Quando o sol se põe..." Teresa Lamas Serra in olhares.com]

* Depois de os ter despedido, foi orar para o monte.

Sento-me à janela da alma.
Como que em penumbra,
vislumbro
inspirações cor de mel.

Aparece

o rosto bem definido.
Faz-me recordar aquele mergulho,
onde me entreguei ao (des)conhecido.

Aparece

(de novo)
e mostra-me outras faces.
Cheias de vida e histórias,
encantadas, de fugir, de ser.

Amanhece

abraço-te e sigo
(há caminho a ser desenhado)
ao encontro do que vi(rá).




sábado, 8 de janeiro de 2011

[Jo 1, 39]*



* Ele respondeu-lhes: «Vinde e vereis.» Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Eram as quatro da tarde.


Olhar,
De cor esperançada do desejo
De te conhecer

Em suaves melodias,
sentindo o incenso novo

suavemente unificador
do etéreo, do concreto.



quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Pensamentos soltos... enquanto acompanho o resgate dos mineiros no Chile

Alex Vega exibe orgulhosamente uma t-shirt com a bandeira do ChileFoto: Hugo Infante/Reuters

in Público.pt


Ao som da subida da Fénix, no resgate dos mineiros no Chile, o meu pensamento não tem parado. Os sentimentos também não...

Neste momento em que “homens nascem da terra”, como me comentou um Amigo e Companheiro do Chile, fico emocionado a olhar para as imagens do “(re)nascimento”. De facto, há a saída do ventre; encontro; choro e grito de libertação; manifestações de fé perante o “milagre” que não pode deixar o mundo indiferente. E agora como olhamos para nós, humanos? Penso nisto...

Primeiro, o silêncio. Aquele contemplativo dos acontecimentos, que deveria calar as comparações politicas, sociais, promotoras de mediatismos. Não interessa o Guiness, não interessa se Portugal, ou seja que parte do mundo for, está também “metido num buraco”. Interessa deixar calar as “vozes” que impedem o agradecer. Tudo mudaria, ainda mais, se fosse o meu pai, ou um tio, ou um primo, ou um avô que lá estivesse. E aqui, não importa a nacionalidade, raça, cor...

...pois, perante acontecimentos de grandes mudanças na vida (seja o ficar preso numa mina, seja uma doença, seja um outro tipo de acidente) há “algo” inexplicável que acontece. Dentro e fora de quem vive. Poder-se-ia dizer conversão.

Estes homens, aos olhos do mundo, tornam-se imagem de trabalho conjunto, em equipa, em partilha, conversas trocadas, como que respiração pelo “cordão-umbilical-Relação-Humana”. A Relação que permite aguentar o desabafo, a dor, a angustia, a inveja, a revolta, a esperança e a alegria... a compreensão pela falha, o respeito pela fraqueza. São heróis, sim. No entanto, para usar as palavras de Mário Sepúlveda, o segundo mineiro a sair, não os tratemos como artistas ou jornalistas, mas como pessoas que são.

As mudanças bruscas implicam muito na vida. Tal como o nascimento de uma criança há toda uma adaptação a acontecer. Gradual, onde se tem de dar espaço não só a cada um deles, como a toda a família. Este não foi, nem é, um concurso, onde cada um livremente decidiu expor-se ao mundo. É a história de cada uma destas 33 pessoas, com nome, sentimentos, vontades, fragilidades... com fé!

A partir de agora é o espaço e tempo também para maturar sobre a vida. Aquela que ganha um novo horizonte, depois do “(re)nascimento”.

“¡Gracias, Señor!”

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Autoridade, Autoritarismo... e Ignorância!


[Beginning, de lenckowski in olhares.com]



A falta de reflexão - por incapacidade, desconhecimento de como se faz, ou ainda por seguimento do caminho mais fácil – leva à formulação de opiniões fracas, pobres, sem sentido e, por vezes, de forma extremamente arrogante, trazendo consigo uma autoridade de quem a sua palavra é a palavra.

Já caí nesse perigo. Não o vou negar e esconder. Assim, também por ter vivido essa realidade, sinto-me autorizado a escrever sobre este tema da autoridade, sem que siga por uma visão autoritarista, numa imposição da minha verdade.

Há tempos em conversa, surgiu o comentário de que Portugal, com o 25 de Abril, tornou-se um país do “novo-riquismo” dos direitos. Após algum tempo de opressão, o cidadão ganhou novos direitos a partir desta data. Não falarei nem comentarei sobre a opressão, pois não me sinto autorizado para tal, já que me faltam conhecimentos, não só teóricos, mas sobretudo vivenciais. No entanto, posso constatar que, de facto, hoje em dia parece que há toda uma lista de direitos adquiridos ao nível da educação, da economia, da política, da religião, da sociedade, em que muitos se arrogam de alegar seus. E fazem-no como se tivessem toda a autoridade.

É verdade que a liberdade (?) de informação veio permitir dar asas a tais alegações. Blogues, redes sociais, comentários nos jornais on-line, são exemplos de como é possível escrever-se o que se quiser, sobre o que e quem quiser, com grande autoridade. Afinal, a famosa (pseudo)liberdade de expressão é um direito, acabando por ficar refugiada na típica frase “eu cá tenho a minha opinião e opiniões não se discutem” (tal como os gostos). Fará isto sentido?

Não sou contra blogues, redes sociais, e afins. Seria incoerente sê-lo e publicar algo nestes mesmo sítios. Agora sou contra a desinformação, a forma como rapidamente se opina, como se manipula o pensamento social a partir da confusão e, sobretudo, da má educação que nos envolve. Muito disto deve-se à agitação que existe ao nível da autoridade, ou falta dela, levando a que todos se arroguem a prontamente adquiri-la, já que a mesma anda nas ruas da amargura (não posso esquecer que, nas últimas eleições, o programa que fez debate nacional foi humorista, onde literalmente se gozou com a cara daqueles que nos governam, no fundo aqueles que são – concorde-se ou não - a figura da autoridade do país. Como ficará a autoridade se se legitima este gozo descarado?).

Como professor tenho-me debatido bastante sobre esta questão na sala de aula; como leitor de jornais ao ler os comentários; como cidadão ao ouvir o que se diz sobre o país; como pessoa ao me aperceber que os valores das relações humanas andam bastante trocados.

Para ter autoridade é preciso que se seja autorizado. Uma pessoa autorizada é aquela que é capaz de agir de modo a que ajude as pessoas que tem diante de si a crescer, a se formar, no fundo aquela que tem carácter. Por exemplo, em democracia, mediante os votos, é dada autorização ao Presidente da República e à Assembleia da República para governarem, pela maioria dos que votaram – supõe-se que com consciência e com confiança (se assim não foi, é outra história).

Um ponto fundamental é que a autoridade implica necessariamente responsabilidade. Eu tenho autoridade dentro da sala de aula, pois existe responsabilidade para com todos os meus alunos ao nível da educação seja do que ensino, seja da conduta ao nível dos valores e atitudes. Eu, enquanto Comissário de Bordo, tinha autoridade dentro do avião, pois tinha a responsabilidade daqueles passageiros, no zelo da segurança e conforto de todos. Enquanto cidadão também tenho autoridade, entre outras coisas, para denunciar as injustiças, pois também sou responsável pela sociedade de que faço parte.

A questão é que para se ter autoridade tem de se ter formação não só teórica, mas também humana. Caso falhe este tipo de formação entramos no campo do autoritarismo, que corresponde a uma imposição de ideias, acções e até mesmo valores, que apenas beneficiam o próprio ou os seus seguidores, única e exclusivamente.

Vejo que actualmente há um autoritarismo encapotado. Basta pensar na Educação, por exemplo. Medidas atrás de medidas que alimentam a irresponsabilidade (provas de recuperação em caso de se atingir o limite de faltas), o facilitismo (do 8.º para o 10.º), a estatística de (pseudo)sucesso. Tudo em nome do desenvolvimento. Também a desautorização dos professores é uma forma de alimentar o autoritarismo não só dos alunos, como dos Encarregados de Educação.

Muito bem, so what?

Estou numa fase de constatar factos, a avaliação tenho-a feito aos poucos. Não é fácil apresentar soluções, pois é uma luta contra um gigante que se chama “individualismo” crescente - “escolhe por ti, vive o que sentes” -, aliado à falta de tempo para estar com os filhos, comprando-os com tudo o que desejam para não os ouvir, dando-lhes razão com medo do trauma provocado pelo não; junta-se ainda a falta de estudo, de leitura, de se ficar pela superficialidade das coisas.

Não estará na altura de darmos mais espaço à humildade? Humildade não é humilhação, é reconhecimento de capacidades e limites. De facto, se erro devo admiti-lo. O individualismo leva ao orgulho. A verdade e a justiça passam pela busca da coerência de vida, não impondo aos outros que vivam com as falhas das minhas decisões e que façam aquilo que não faço.

Para mim, uma das marcas do apogeu da humanização é libertarmo-nos da lei da selva, onde somos capazes de agradecer o que recebemos, de modo a viver em diálogo, promovendo, assim, a vida do meu próximo.



sexta-feira, 4 de junho de 2010

Carta da Compaixão





O princípio da compaixão é o cerne de todas as tradições religiosas, éticas e espirituais, apelando a tratar todos os outros da mesma maneira como gostaríamos de ser tratados. A compaixão impele-nos a trabalhar incessantemente com o intuito de aliviarmos o sofrimento do nosso próximo, o que inclui todas as criaturas, de sairmos do centro do nosso mundo e, nesse lugar, colocar os outros, e de honrarmos a santidade inviolável de todo o ser humano, tratando todas as pessoas, sem exceção, com absoluta justiça, igualdade e respeito.


É necessário também, tanto na vida pública como na vida privada, nos abstermos, de forma consistente e empática, de infligir dor. Agir ou falar de maneira violenta devido à maldade, fundamentalismo ou interesse próprio a fim de tirar, explorar ou negar direitos básicos a alguém e incitar o ódio ao denegrir os outros - mesmo os nossos inimigos - é uma negação da nossa humanidade em comum. Reconhecemos que falhámos na tentativa de viver de forma compassiva e que alguns de nós até mesmo aumentaram a soma da miséria humana em nome da religião.


Portanto, apelamos a todos os homens e mulheres:

~ a restaurar a compaixão ao centro da moralidade e da religião;

~ a retornar ao antigo princípio de que é ilegítima qualquer interpretação das escrituras que gere ódio, violência ou desprezo;

~ garantir que os jovens recebam informações exactas e respeitosas sobre outras tradições, religiões e culturas;

~ incentivar uma apreciação positiva da diversidade religiosa e cultural;

~ cultivar uma empatia bem-informada pelo sofrimento de todos os seres humanos - mesmo daqueles considerados inimigos.


É urgente que façamos da compaixão uma força clara, luminosa e dinâmica no nosso mundo polarizado. Com raízes numa determinação de princípios de transcender o egoísmo, a compaixão pode quebrar barreiras políticas, dogmáticas, ideológicas e religiosas. Nascida da nossa profunda interdependência, a compaixão é essencial para os relacionamentos humanos e para uma humanidade realizada. É o caminho para a iluminação e é indispensável para a criação de uma economia justa e de uma comunidade global pacífica.


Mais Informações aqui: http://charterforcompassion.org/


Conferência que pode ajudar a perceber a origem desta "Carta da Compaixão":




terça-feira, 18 de maio de 2010

Porque a forma também conta

Cavaco Silva explicou porque é que assinou, (a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo): é que "a ética da responsabilidade tem de ser colocada acima das convicções pessoais", disse ele. Não, senhor Presidente, a ética está na coerência das nossas convicções, principalmente quando se tem responsabilidades. Não é só ao jantar. É no serviço, também.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Ainda no rescaldo da visita Papal...


Reconciliação! É o sentimento mais vivo em mim, depois desta vista.

Porquê?

Quem me conhece sabe que em mim habita alguma rebeldia. Esta surge pela minha vontade de questionar. Não um questionar de pôr em causa por pôr, mas o questionar de não me ficar pelo que está adquirido e ter vontade de ir mais longe. Afinal, dentro do limite do espaço e do tempo, há uma infinidade de realidades a conhecer e a viver. O meu gosto pelo diálogo, pelo contacto com o diferente, seja de opiniões, seja de realidades culturais, permite-me colocar numa posição de constante aprendizagem.

Antes de ser jesuíta, a minha relação com a Igreja sempre foi de criticar e, a meu ver após este anos passados, de forma mais destrutiva que construtiva. Curiosamente, tal tipo de crítica foi um pequeno ponto no meu processo de decisão de entrada na Companhia de Jesus. É tão fácil criticar, mas o desafio é mudar, ou tentar mudar, estando por dentro, e aceitar outras realidades que afinal eram desconhecidas. Surge a situação de, quando se conhece as coisas por dentro, se começar a ver de outra forma. Afinal, mais do que conhecer racionalmente, o viver na pele, faz com que muito “mude de figura”.

Acompanhei a preparação da visita do Papa Bento XVI através da leitura dos jornais, da escuta de comentários seja do lado de dentro, seja do lado de fora da realidade Igreja. E na minha oração pedia a Deus: “Que esta visita do Papa seja de Encontro, de diálogo, que fomente concórdia, mais que discórdia”. Talvez por este ser um dos meus motes em relação à vida. Mas também, por sentir que este Papa poderia trazer algo de novo, nesta terra de Descobrimentos.

Fui a Lisboa, fui a Fátima. Não tanto para ver o Papa de pertinho, mas para, de facto, me sentir participante de uma realidade que vai para além de mim, que é mesmo incompreensível e misteriosa, que se chama Igreja. Não de pedra, de estrutura rígida, mas de pessoas. Pessoas com histórias, vidas, sentimentos, dúvidas, ansiedades, zangas, revoltas, gostos, aproximações e afastamentos. Enfim, pessoas, com o que têm e são. Logo em Lisboa fiquei comovido com a nossa descida pela Avenida da Liberdade. Pensava, nos intercalados “Vivó Papa!” e afins: “Avenida de manifestações contra isto, contra aquilo, a reivindicar isto ou aquilo. Avenida da busca da liberdade de direitos... Mas também Avenida de busca de Liberdade através da alegria de uma comunhão. Estas pessoas que aqui descem comigo são tão diferentes e sei que têm pensamentos tão diferentes sobre Igreja, sobre Política, sobre Sociedade, sobre Deus, Jesus. E aqui estamos, a descer em Liberdade, a caminho da Missa, da Eucaristia”. É mesmo uma ida para Acção de Graças, agradecimento, e também em busca de uma Missão renovada.

E assim aconteceu, no silêncio que se dá no momento da consagração. Um silêncio confirmador do Mistério que atravessa toda aquela multidão unida, em escuta das palavras proferidas por aquele rosto de Bento XVI que une toda a Igreja. Não etérea, mas real, ali em corpo de cada pessoa. Em corpo daquele homem que, na noite seguinte iluminada por milhares de velas, reza todo o terço ajoelhado, diante do mesmo Mistério que o faz ser ao mesmo tempo frágil e forte. Fragilidade presente no físico, que pede com humor e delicadeza à malta nova que o deixe dormir... Força nas palavras que profere com a sabedoria de quem escuta o Mundo, mas de quem também escuta, sobretudo, a Palavra que lhe fala dos novos Sinais dos Tempos.

Ver Bento XVI, ver as pessoas, rezar com ele, escutá-lo no anúncio e interpretação da Palavra, fez-me sentir reconciliado, revigorado no meu sentimento de amor à Igreja, santa e pecadora.

Também ao ponto de dizer basta às vozes dissonantes, que sussurram numa constância contra tudo o que é religioso, em nome da laicidade. Sinto-me cansado de ouvir tão maus comentários seja ao Papa, seja à Igreja. Maus, não no sentido de serem opostos, esses existirão sempre, mas no sentido de serem fracos de inteligência, de reflexão. Como se todos nós, os que fazem parte da Igreja, fossemos ignorantes e andássemos alienados. Nestes dias li coisas que roçaram o fundamentalismo, pelas mesmas vozes que nos acusam de fundamentalistas. Será que leram o que o Papa disse? E se sim, será que souberam ler?

Na homilia na Missa no Porto, Bento XVI afirmou: "Nestes últimos anos, alterou-se o quadro antropológico, cultural, social e religioso da humanidade; hoje a Igreja é chamada a enfrentar desafios novos e está pronta a dialogar com culturas e religiões diversas, procurando construir juntamente com cada pessoa de boa vontade a pacífica convivência dos povos".

“Está pronta a dialogar” ou seja, está pronta a escutar e perceber o que se pode fazer, para tornarmos um mundo mais justo e melhor, de modo a que haja uma maior humanização de todos. Em convivência, ou seja, a partilhar a Vida.

Neste momento de crise, o Papa não nos veio trazer ajuda financeira, económica, mas sem dúvida que, a meu ver, veio trazer uma grande ajuda espiritual e também intelectual. Um claro convite à reflexão, à profundidade a que todos somos chamados, sobre cada um, a sociedade, a sua relação com o Todo.

A crise pode ser um lugar de questionamento que, bem vivido, leva ao crescimento humano. Mas se fazemos da crise lugar de conflito, onde o diálogo passa a monólogo, numa imposição de ideias, sem uma escuta atenta do outro, de certo que ficamos com “águas paradas”, sem desenvolvimento, nem fito do horizonte.

Creio que o Papa ajudou-nos a trazer o tal horizonte, a não termos receio da busca do essencial, que passa inevitavelmente pelo diálogo, pelo encontro, pela busca de caminhos que leve à verdadeira humanização de cada pessoa na sociedade em que se encontra.

E, como afirmei no início, o meu sentimento profundo, depois destes dias, é de reconciliação. Uma reconciliação, reafirmo, que me leva a amar ainda mais a Igreja, santa e pecadora, e dedicar a minha vida ao contributo do crescimento humano, neste caminho de consagração.

Afinal, também quero fazer-me “lugar de beleza” ajudando, no que me for pedido, outros a serem-no também.



sábado, 15 de maio de 2010

A não perder!!!!

A Companhia de Teatro Industrial decide lançar como sua primeira produção «UM
BEIJO DE SAL COM VENTO
», a partir do texto de Mathilde Ferreira Neves, «O Pescador de Estrelas».
«Nessa noite fantástica, o mar escreveu no areal com letras garrafais para que toda a gente pudesse ler: “Os sonhos não podem morrer…” Luza nunca mais se esqueceu desta história contada por Luana. Era uma excelente história para curar cometas.»
Este espectáculo direccionado para a infância, aborda e condensa num mundo fantasioso várias temáticas: a amizade, os sonhos e o sentimento de perda. O que o torna muito abrangente e acessível, sendo apreciado, também, por adultos.

22 e 29 de Maio às 16h (público em geral)
24 a 28 de Maio às 10h30 e às 14h30 (para escolas – os professores não pagam
quando acompanhados das suas turmas)
Auditório Carlos Paredes Av. Gomes Pereira, Lisboa (Benfica)
Bilhetes: €5 (adultos) €4 (crianças)
Reservas: 963 661 601 reservas@palavradarte.com
Classificação Etária: M/3 anos
Duração: aproximadamente 40 minutos sem intervalo
Mia informações em http://www.palavradarte.com/

terça-feira, 11 de maio de 2010

Pergunto eu

Cavaco Silva vai reunir com antigos ministros das finanças. Antigos ministros das finanças também responsáveis pelo actual estado a que chegaram as nossas contas públicas.
No fundo é apenas uma reunião entre vários responsáveis da mesma pasta das finanças.

Quanto a Cavaco, pode haver quem não se lembre, mas não tendo tido problemas de financiamento devido aos milhares de euros de fundos vindos da Europa, na década de 90, este nunca teve preocupações com a gestão do déficit.
Coloca-se então a pergunta: quem é, afinal, o pai do déficit?

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Os tempos que correm

«You can take them out of Bronx, but you can’t take the Bronx out of them.»

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A não perder

David Oliveira mostra ao público dia 17 e 18 de Abril, entre as 18 e as 22h, a instalação Espaço Vazio.
Numa residência particular, na zona histórica do Chiado em Lisboa, na rua das Flores nº 19, são expostas as obras: Tríptico e Composições, uma reflexão sobre o espaço enquanto matéria pictórica e volumétrica.A obra Tríptico, em arame e madeira, é uma composição formada por três figuras suspensas, desenhadas com arame e enquadradas por um proscénio (2,40mX1,80m); espaço real e pictórico fundem-se numa dimensão onde a linha contorna o vazio formando figuras.
Composições é uma obra onde é explorado a vertente plástica e compositiva do Desenho, reafirmando a sua importância na leitura da obra de David Oliveira.
Licenciado em Escultura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, expõe desde 2005, tendo sido vencedor do 1º prémio de escultura do concurso Jovens Criadores de Aveiro 2009. É actualmente representado pela galeria Pedro Serrenho, em Lisboa.Iniciativa Claro- Escuro Associação Cultural.