quinta-feira, 23 de março de 2017

Humano




[Secção entardecer de quaresma] O corpo é quem sou. Ou agradeço e caminho à Vida. Ou estagno e sobrevivo às horas. 

Na foto: poema de Adélia Prado.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Londres... ou qualquer outro conflito.




Os atentados mais próximos relembram todos os outros distantes. Em conflitos, no final, nunca há vencedores. Todos perdemos. Que a luz consiga atravessar a sombra... que assola a humanidade.

terça-feira, 21 de março de 2017

Dia Mundial da Poesia




Tomasz Tyrka

[Secção entre pensamentos soltos e outros tons] A poesia, falando de oração, tem-se tornado constituinte do meu modo de olhar a vida, o mundo, o ser humano. Fico sempre naquele limbo do inexplicável, que por vezes o silêncio é a melhor resposta. No entanto, deslumbra-me saber que as palavras dão corpo a esse silêncio apenas compreendido por quem sabe parar no caminho e contempla os nadas de fora e o tudo das entranhas. 

Levanta-se o pó,
humedecido com lágrimas  
felizes de paternidade.

Molda-se o coração em escuta
deixando crescer o tempo
de passagem do corvo
até ao ramo de oliveira.

Entrelaçam-se as mãos
de sim misterioso anunciado
em aroma de puro nardo.

E louvando o prémio, mais um justo e merecido, que Maria Teresa Horta ganhou, partilho igualmente um poema, do seu romance “Anunciações” que me faz tanto sentido:

Asas de Poesia

Olhou as suas asas de arcanjo
uma de luto
outra de dia

uma cruel
outra de perda

uma de negrume
outra de meio-dia

E quando Maria
entendeu as palavras
de crivo que lhe eram ditas

começou a criar a sua
identidade própria

a partir da poesia

domingo, 19 de março de 2017

Samaritana





D. Von Schoen

Em dia do pai, Jesus mostra como a paternidade passa pelo reconhecimento da dignidade do outro para além de tudo o que possa ter feito. Como? Pondo a liberdade para além de esquemas mentais, morais e preconceitos religiosos, que se leia, reze, contemple, o encontro d’Ele com a Samaritana. A subtileza das palavras no diálogo desse encontro mostra como acolhe a Mulher que muitos rejeitam (naquele tempo e provavelmente na actualidade), tornando-a discípula e evangelizadora de quem Ele é.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Amigos no Senhor






[Secção coisas na vida de um padre] O dia de hoje teve muitas emoções. Há cansaço desta grande Semana, que mexe com tantas pessoas… “P. Paulo, podemos arranjar um tempinho para conversar?” tem sido uma pergunta a surgir com frequência, depois deste ou daquele momento vivido na Semana Inaciana. Parece-me que o melhor mesmo é o agradecimento que sinto pelo grupo do GRAPA. Nestes dias, a disponibilidade que eles tiveram, seja a pendurar um pano, a cortar pegadas em papel, a colocar fios em cruzes num kit, a pôr ketchup em centenas de cachorros, em… “P. Paulo, é preciso mais alguma coisa?”, é impressionante e gratificante. Vamos ser sérios: para quem achar que esta geração está perdida, ou coisas do género, dê um salto até aqui e converse com eles. Vale a pena ser educador. Vale a pena ser professor. Vale a pena ser Amigo no Senhor.

Homenagem...




[FR] Les gens devraient être honorés quand nous pouvons les embrasser. Certaines personnes n'aiment pas ça, ils se sentent malaise de ne pas avoir besoin de montrer qu’ils ont fait bien avec des gestes ou des mots. Mais encore, la vie devrait être pleine d'hommage et des hommages. Chaque « bon jour » devrait être une reconnaissance de l'importance de cette personne sur notre chemin. Denis est parti aujourd'hui, en jour de Saint Patrick. Il illuminera le ciel avec sa joie naturelle de vie. Nous avons habité dans la même communauté pendant les deux années que j’ai étudié à Paris. Nous avons échangé beaucoup d'histoires, beaucoup de sourires, de rires, nous avons dansé, nous avons suivi un couple qui s’a préparé au mariage, nous avons beaucoup parlé de l'éducation, car il savait que j’allais venir à un collège. En deux ans, il était pour moi un maître, dans l'amitié, d’être jésuite, d’être prêtre. Le jour où je pris congé de lui à la sortie de Paris, il m'a dit : « Paulo, n’avais pas peur d'ouvrir des horizons. Notre Dieu ouvre les cœurs. Il ne les ferme pas ». Je crois en la joie avec laquelle Denis est dans les cieux... et c’est avec « saudade » que je pleure le départ d'un grand Compagnon et Ami. « A bien tôt, Denis… en ce jour de ton départ au Ciel, mon dit qu’il y a un nouveau être à arriver en ce monde » 

 [PT] As pessoas devem ser homenageadas quando podemos dar um abraço. Há quem não goste, por sentir o incómodo de não ter necessidade de mostrar que fez o bem, em gestos ou palavras. Mas, ainda assim, as vidas deveriam ser cheias de homenagem e de homenagens. Cada “bom dia” deveria ser um reconhecimento da importância dessa pessoa no nosso caminho. O Denis partiu hoje, em dia de São Patrício. Irá iluminar o céu com a sua natural alegria de Vida. Vivemos na mesma comunidade nos dois anos que estudei em Paris. Trocámos muitas histórias, muitos sorrisos, gargalhadas, dançámos, acompanhámos um casal na preparação para o casamento, falámos muito de pedagogia, desde que soube que vinha para um colégio. Em dois anos foi para mim um mestre, na amizade, no ser jesuíta, no ser padre. No dia em que me despedi dele, na saída de Paris, disse-me: “Paulo, não tenhas medo de abrir horizontes. O nosso Deus é de abrir corações e não de os fechar!” Acredito na alegria com que o Denis está no céu… e é com saudade que choro a partida de um grande Companheiro e Amigo. “A bien tôt, Denis… no dia em que partes, fico a saber que um novo ser vem a caminho!”

quinta-feira, 16 de março de 2017

4 anos de diácono






O cenário é o do quotidiano. Mas, a foto, por se achar piada ao padre a lavar tachos e panelas onde se preparam febras e salsichas, marca a alegria de 4 anos de diácono. Um padre que não vive a diaconia, ou seja, o serviço, nunca será um bom padre.

P.S. - Tenho estado mais desaparecido. Esta semana estamos a viver a Semana Inaciana no Colégio. E absorve muito tempo coordenar todas as actividades. Aliás, a foto é tirada depois de se ter vendido muita bifana e cachorro. ;) 

Na próxima semana, voltarei como de costume. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

personagens 3D






[Coisas na vida de um padre] A experimentar programas de reconhecimento facial em 3D. E daqui ainda vai sair uma personagem... outra, já que naturalmente sou uma. 

ternura





Reuters/Brendan McDermid

[Secção outros tons – em paragem no meio da azáfama dos preparativos da Semana Inaciana]

o toque
reveste-se de ternura

segredos sentidos
pela pétala de magnólia

ambos sabemos
dos nomes escritos
na palma da mão

humana e divina

quinta-feira, 9 de março de 2017

Quaresma e liberdade




Romeo Doneza

Houve tempos em que não gostava nada da quaresma. A imagem que rapidamente me vinha ao pensamento era a da penitência e sofrimento. Como padre, apercebo-me que, infelizmente, ainda anda por aí esse modo de viver a quaresma: "quanto mais sofrimento melhor, afinal Jesus sofreu por nós e nós somos uns ingratos." É certo que sofreu. É certo que pode haver ingratidão. No entanto, a quaresma, em toda a sua beleza, leva ao reconhecimento do imenso que somos e que desconhecemos, em especial diante de Deus, que deseja o nosso crescimento pessoal e comunitário. No meio de tanto ruído, exterior e interior, há notas perdidas que não são tocadas na sua harmonia. Por isso, ter tempo para mim, deixando silenciar o coração, faz-me perceber a força do grito ou do simples sussurro a viver com Deus. Ao libertar o que levo atravessado, as mãos desprendem-se e posso servir melhor. O caminho de quaresma, passa pelo silêncio, pelo desprendimento e pela entrega. Ao ler os textos propostos para este tempo, tal como no Advento, vejo a riqueza do que nos é dado rezar. O sofrimento pode fazer parte da vida, mas a Vida é convite de passagem para a alegria da autenticidade.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Perspectivas




[Secção outros tons - especial dia da Mulher] Perspectivas... ou oportunidade de ver pormenores na existência do outro, seja de perto ou de longe que ajudam a complementar a vida. É o exercício da abertura de visão e de mentalidade. Flores, é isso, flores e lua em céu azul.

Em dia da Mulher...




Dasha Horita

[Escrito há um ano, mas, infelizmente, ainda muito actual] Há coisas que não são de escrever ou dizer, mas de simplesmente fazer. Neste caso, agir em tudo o que leve à dignidade humana, seja em género feminino ou masculino. Parece-me que tem de haver a complementaridade que dá sentido à evolução humana. No entanto, infelizmente, há que marcar em datas o recordar de que a Mulher não é, nem escrava, nem adorno, nem, como ainda em tanto sítio passa, um ser de segunda ou de terceira. O ponto fundamental: a educação. Educar cada menina, rapariga, mulher a viver o respeito por si própria. Educar cada menino, rapaz, homem a viver o respeito por si próprio. Educar ambos para respeitarem o outro, com igual dignidade, fazendo os possíveis para que todos, em especial as mulheres por serem as que mais sofrem, possam ter educação e os seus direitos respeitados. 

terça-feira, 7 de março de 2017

Mistério e fé e perguntas




[Secção amanhecer de quaresma] Passar a fé de um problema a um sentido de mistério que se aprofunda... e tanto pode ser a fé em Deus, como no ser humano. 

Texto da foto: in Paciência com Deus de Tomás Halík, p.37.

domingo, 5 de março de 2017

Tentação



[Secção outros tons] A tentação faz parte do pó terreno cada dia pisado. Também moldado, ficando com marcas de divino em alento insuflado. A grande tentação que leva à perdição é a do poder que oprime e divide. A escuridão é ultrapassada pelo serviço. E quando se ama, mais luz surge a mostrar caminho de encontro. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

Liberdade: coisa divina




Quoc Loc

A liberdade é coisa divina. A sua grandeza reside na capacidade de dirigir-me para a essência do bem. Ponto. As decisões que possa tomar, daquelas que implicam vida, seja numa viragem radical, seja em palavras que escrevo ou profiro, só revelam liberdade quando promovem a liberdade do outro. Daí o divino. Deus quer cada um de nós para si, no amor que ama toda a beleza e toda a imperfeição, sem qualquer sombra de rejeição (em Deus habita Luz). Ao querer-nos para si, quer-nos livres... ao ponto de o podermos rejeitar, de nos podermos rejeitar. A liberdade é coisa divina. Quando a vivemos, sem prisões de emotividades reaccionárias, há sempre crescimento, em especial da dignidade. E a cruz, nossa, que se toma, ganha contornos de "+", permitindo o crescimento da alma para a liberdade.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Encontros comigo e com Deus




[Secção outros tons - especial dia de Cinzas] “Rasgai os vossos corações”, ouve-se desde o Profeta Joel neste dia de Cinzas. Terra, barro, pó, caracterizam a nossa existência. O coração rasgado é sinal que perde a pedra ou as pedras que o rodeiam, reconhecendo o limite e o tempo de maior recolhimento. Mais do que penitências desmedidas e negrumes estéreis de sentido, abre-se o tempo privilegiado da escuta terra-a-terra, deixando queimar o que afasta da Vida. Em tempo de escuridão, o coração rasgado permitirá entrar luz, tornando a cinza adubo que fortificará os dons do Espírito. É peregrinação até ao suave amanhecer de Páscoa. 

[Vídeo: Andrés Waksman - proposta: conectar comigo e com Deus - música: Dalur de Ólafur Arnalds & Brasstríó Mosfellsdals]

Regresso




Nestes dias que estive mais comigo, o silêncio marcou presença em dança, em rostos, em histórias e em escuta. Quarta-feira de cinzas, um bom dia para regressar... ao coração que se converte.